MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/12/2013

Destaque do Blog: TOTEM E TABU- 100 anos

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“O problema pareceria ainda mais difícil se pudéssemos admitir que existem moções psíquicas que podem ser reprimidas de maneira tão radical que não deixam nenhum fenômeno residual. Só que isso não ocorre. A mais forte repressão tem de dar lugar a moções substitutivas distorcidas e às reações que delas se seguem. Mas então estamos autorizados a supor que nenhuma geração é capaz de ocultar da seguinte seus processos psíquicos mais significativos. É que a psicanálise nos ensinou que cada ser humano possui um aparelho em sua atividade mental inconsciente que lhe permite interpretar as reações de outros seres humanos, isto é, desfazer as distorções que o outro empreendeu na expressão de seus sentimentos. Por essa via da compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e normas deixadas pela relação original com o pai primordial, mesmo as gerações mais tardias poderiam ter sido bem-sucedidas na recepção daquela herança emocional.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de dezembro de 2013)

Aos 57 anos, vivendo um momento crucial nas suas relações (foi a época da ruptura com Jung), Sigmund Freud (1856-1939) publicou um de seus trabalhos mais importantes, cujas ideias básicas circularam intensamente pela corrente sanguínea do século passado, mesmo combatidas, ridicularizadas como fantasiosas, postas em dúvida por avanços em diversos campos científicos: Totem e Tabu, que chegou ao  centenário em 2013[1].

Reunindo quatro ensaios, o sempre arrojado criador da psicanálise analisa os dois termos do título utilizando seu vasto conhecimento de arqueologia, etnologia, mitologia e folclore; dessa forma, faz um escrupuloso mapeamento enciclopédico, um hábito seu desde sua primeira obra de vulto, A Interpretação dos Sonhos (1900), mesmo desculpando-se frequentemente com o leitor pela exposição sumária das concepções totêmicas e animistas dos chamados povos primitivos (totem, grosso modo, seria o ser ou o objeto venerado por um grupo humano— sendo o mais comum um “animal sagrado”)[2].

O que chama a atenção de Freud para o totemismo é a presença universal do tabu do incesto. Por que esse horror tão arraigado? A partir do segundo ensaio (O tabu e a ambivalência dos sentimentos), sua experiência clínica e analítica com indivíduos neuróticos, obsessivos, servirá de paralelo ao bosquejo empreendido do papel do tabu na psicologia dos povos. Em ambos os casos, há uma aparente ausência de motivos para os preceitos proibitivos; há um caráter deslocável (o objeto pode mudar) e um perigo de contágio e mácula pelo proibido; há a reiteração através de  ações cerimoniosas, rituais, por necessidade interior (pressão psíquica).

Como se sabe, o autor de Totem e Tabu era um escritor notável e um ótimo “contador de casos”, então não é árduo nem árido acompanhar esse progressivo entremeio das disciplinas coletivas (estudo dos povos e das mentalidades) e de casos individuais. Aonde ele quer chegar? À afirmação de que os mecanismos psíquicos em jogo são ambivalentes: o que é afeto e veneração também oculta ódio e hostilidade. Assim ficaria explicada a relação complicada dos vivos com seus mortos — e concepções como a de seres sobrenaturais malignos, como os demônios.

O terreno fica preparado para os dois últimos ensaios, saltos mortais em termos teóricos. Em Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos, Freud equipara a fase animista (calcada no “pensamento mágico”), pré-religiosa dos povos com o narcisismo, uma de suas concepções fundamentais com relação ao desenvolvimento da personalidade, quando o caráter não se submeteu ainda ao princípio da realidade.

A proposição freudiana mais avassaladora faz sua aparição no ensaio-clímax, O Retorno Infantil do Totemismo. Partindo do conceito de Darwin sobre o agrupamento humano das origens, a horda, e rastreando o costume da “refeição totêmica”, da festa onde se partilha o animal sagrado, que depois se metamorfosearia em várias práticas religiosas (como a eucaristia), ele especula que o surgimento da religião (com todas as suas noções de culpa e expiação) estaria imbricado no complexo de Édipo (a fixação no Pai). Na horda primitiva, o pai tomava para si todas as mulheres e excluía os filhos do poder e da coabitação sexual. Eles então se uniram (tal como se fossem os Irmãos Karamázov da Pré-História) contra ele, executando o crime primordial, o parricídio, que desde então ficou inculcado na psique das futuras gerações (isso é que inconsciente coletivo!).

Nenhum deles tinha a força do pai para liderar a horda e assim surgiram os clãs humanos fraternos (com todas as suas ambivalências). A figura paterna nunca foi esquecida, porém. Transformou-se no animal totêmico e em torno dele se constelaram tabus, preceitos do que era permitido ou proibido e assim a humanidade chegou às suas primeiras criações institucionais em torno da moralidade e da adoração de um ser divinizado: “… no complexo de Édipo coincidem os inícios da religião, da moralidade, da sociedade e da arte, em completa concordância com a constatação da psicanálise de que esse complexo constitui o núcleo de todas as neuroses (…) Supomos, sobretudo, que a consciência de culpa referente a um ato pode sobreviver por mitos milênios e permanecer eficaz em gerações que nada podiam saber desse ato.”

Ou seja, esse pequeno volume revelava-se nada menos que explosivo em sua grande síntese da história humana, a qual (como  Freud mesmo diz) confirmava o que os devotos costumam dizer: “que todos nós somos grandes pecadores”.

Não é ocioso acrescentar que o próprio Freud experimentava naquele momento o agudo temor do parricídio, com a deserção de  Adler e Jung[3]. No final, ele acabaria sendo desmembrado numa espécie de refeição totêmica entre seus discípulos, os fraternos e os hostis.

Nota sobre a epígrafe- O que Renato Zwick traduz como “moção”, é traduzido por Paulo César de Souza e Órizon Carneiro Muniz como “impulso”.

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TRECHO SELECIONADO

[na versão de Renato Zwick]:

As mais antigas e mais importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do sexo oposto pertencentes ao mesmo totem.

    Esses seriam, portanto, os mais antigos e mais fortes desejos do ser humano. Não poderemos compreender isso e, consequentemente, não poderemos testar nossa hipótese nesses exemplos enquanto o sentido e a origem do sistema totêmico continuarem tão completamente desconhecidos para nós. Mas quem conhece os resultados da investigação psicanalítica do indivíduo será lembrado, pelo teor desses dois tabus e pelo fato de estarem associados, de algo bem determinado que os psicanalistas declaram ser o ponto nodal dos desejos infantis e o núcleo da neurose.

    A diversidade dos fenômenos do tabu, que levou às tentativas de classificação anteriormente comunicadas, se funde para nós numa unidade, e da seguinte maneira: o fundamento do tabu é um ato proibido para o qual existe uma forte inclinação no inconsciente.

[na versão de Paulo César de Souza]:

As mais antigas e importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não liquidar o animal totêmico e evitar relações com os indivíduos do mesmo totem que são do sexo oposto.

    Esses devem ser, então, os mais antigos e poderosos apetites humanos. Não poderemos compreender isso, nem verificar nossa premissa com base nesses exemplos, enquanto o sentido e a origem do sistema totêmico nos forem tão desconhecidos. Mas, para quem conhece os resultados da investigação psicanalítica do indivíduo, o próprio enunciado desses dois tabus e o fato de andarem juntos lembrarão algo bastante definido, que os psicanalistas veem como o ponto nodal dos desejos infantis e como núcleo da neurose.

     A variedade das manifestações do tabu, que levou às tentativas de classificação já mencionadas, reduz-se para nós a uma unidade: o fundamento do tabu é uma ação proibida, para a qual há um forte pendor no inconsciente.

[na versão de Órizon Carneiro Muniz]:

As mais antigas e importantes proibições ligadas ao tabu são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto.

    Estes devem ser, então, os mais antigos e poderosos dos desejos humanos. Não podemos esperar compreender bem isso nem testar nossa hipótese com esses dois exemplos, enquanto ignorarmos totalmente o significado e a origem do sistema totêmico. Mas a enunciação desses dois tabus e o fato de sua concomitância farão lembrar a qualquer pessoa familiarizada com os achados de pesquisas psicanalíticas em indivíduos algo bem definido, que os psicanalistas consideram como sendo o ponto central dos desejos da infância e o núcleo das neuroses.

     A multiplicidade das manifestações do tabu, que levaram às tentativas de classificação que já tive ocasião de mencionar, ficam reduzidas pela nossa tese a uma única unidade: a base do tabu é uma ação proibida, para cuja realização existe forte inclinação do inconsciente.

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[1] [1] A tradução comentada nesta resenha é a de Renato Zwick  (L&PM, 2013): Totem e Tabu- Algumas correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e dos neuróticos [no original Totem und Tabu.Einege Übereinstinmmugen in Seelenleben der Wilden und der Neurotiker], com revisão técnica de Paulo Endo. Zwick já nos brindara este ano com uma nova versão de A Interpretação dos Sonhos.

Para fins de consulta e comparação, utilizei também as seguintes traduções:

— de Paulo César de Souza (Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e outros textos, volume 11 de “Sigmund Freud- Obras Completas, Companhia das Letras, 2012)—uma edição um tantinho “enxugada” dessa versão de Totem e Tabu foi publicada à parte pela Penguin/Companhia das Letras (2013);

–de Órizon Carneiro Muniz (Totem e Tabu e outros trabalhos, 1913-1914, volume XIII da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Sigmund Freud, Imago, 2006.

[2] Logo no início do terceiro ensaio há uma nota de rodapé que se reveste de uma conotação divertida. Ali, como em outras passagens, Freud lamenta a necessidade de simplificar o material. E arremata: “A autonomia do autor apenas se pode manifestar na escolha que fez  dos temas e das opiniões”.

A diversão fica por conta do “apenas”. Ora, Freud sempre foi um autor muito consciencioso com suas fontes. Mas todo esse escrúpulo não o impede de, ao fim e ao cabo, tratar toda aquela vastidão apenas como território introdutório para o essencial, o realmente novo e desbravador, que vai surgir da “escolha” que fez dos temas e a expressão das “opiniões”; em suma, aquilo que “apenas” lhe coube.

E quando se tem consciência do teor das conclusões de Totem e Tabu, um salto no abismo (ainda mais do que todas as hipóteses psicanalíticas anteriores), afora a própria personalidade do seu autor, aí sim a nota ganha um toque quase malicioso.

Outra nota de rodapé (tenho uma predileção possivelmente patológica por notas de rodapé), muito sensata e esclarecedora, que eu gostaria de ressaltar, aparece no quarto ensaio. Nela, somos advertidos de que o estudo dos chamados povos primitivos muitas vezes se deu por vias indiretas, que facilitaram visões possivelmente deturpadas e “construídas”: “Não se deve esquecer que os povos primitivos não são povos jovens, e sim, na verdade, tão antigos quanto os mais civilizados, e que não se tem direito a esperar que tenham conservado suas ideias e instituições originais sem qualquer desenvolvimento e distorção para que tomemos conhecimento delas”. Mais adiante: “Assim, a determinação do estado original é sempre uma questão de construção”.

Assumindo esse terreno escorregadio (ou mesmo pantanoso) para as suas construções, ou seja, suas hipóteses avassaladoras, nem por isso  Freud estava menos convicto da sua veracidade básica (e já adianto que ele consegue deixar o seu leitor convicto dessa veracidade, apesar de todos os avisos formais e corretos).

[3] É preciso ter em mente que Totem e Tabu também é, em larga medida, um libelo anti-Jung; este também à época se embrenhava em mitologia, folclore, religião e psicologia dos povos, com resultados inteiramente diferentes (e inaceitáveis para Freud, principalmente pela motivação “ariana” que fundamentava as investigações junguianas), que resultaram num de seus livros mais famosos, e o primeiro importante,  Metamorfoses e Símbolos da Libido (1912), cuja versão definitiva ficou como Símbolos da Transformação (volume 5 das Obras Completas)- uma leitura árdua, ao contrário do livro de Freud.

Sobre esse momento específico da vida de Jung ver aqui no blog: https://armonte.wordpress.com/2013/03/22/forever-jung-o-cinquentenario-da-sua-morte-e-o-livro-vermelho/

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28/12/2013

O que Wendy sabia

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(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 18 de maio de 2010)

No ano em que As aventuras de Alice tomam conta da mídia novamente, celebram-se os 150 anos do nascimento do criador de outro ambíguo monumento da literatura infanto-juvenil, J.M. Barrie, o qual também configurou na figura de Peter Pan a recusa às normas do mundo adulto.

      Peter Pan e Wendy (pois esse é o título completo,  apesar da capa e da tradição, que dá o devido destaque à figura da “mãe” substituta dos garotos perdidos, contraponto essencial ao herói) apareceu como romance em 1911 (embora já tivesse uma carreira de anos nos palcos), fora do período vitoriano. Mas ainda revolve os mesmos dilemas que assombraram aquele crucial momento histórico em que o Império Britânico era o ápice da civilização ocidental, e que originaram as peripécias da heroína de Lewis Carroll. Aliás, muitos autores e obras dessa época nos legaram personagens que ainda sustentam a indústria cultural, por assim dizer: é o caso do grande amigo de Barrie, o também escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930)  e Sherlock Holmes, do compatriota deles, Robert Louis Stevenson (1850-1894) e Jekyll & Hyde, e do irlandês Bram Stoker (1847-1912) e Drácula; curiosamente, nenhum deles “inglês da gema”.

No Brasil, Peter Pan é mais conhecido na versão de Monteiro Lobato. Recentemente, apareceu uma maravilhosa tradução de Ana Maria Machado (que também fez uma bela versão de Alice no País das Maravilhas),  com ilustrações de Fernando Vicente (editora Salamandra) permitindo tanto ao leitor jovem quanto ao adulto mergulharem nessa fantasia bizarra e extravagante. Na Terra do Nunca, para a qual Peter e uma mal-humorada Fada Sininho raptam os três filhos do próspero casal Darling, parece imperar o Id desbravado por Freud: só os desejos e impulsos momentâneos é que prevalecem. As regras são arbitrárias e mutáveis (“uma das características de Peter era mudar de lado de repente, bem no meio de uma briga… “), tudo segue o ritmo do faz-de-conta de Peter, o mais perdido dos meninos, aquele que se recusa terminantemente a crescer (“a diferença entre ele e os outros meninos nessas horas é que os outros  sabiam que era faz-de-conta, mas para ele faz-de-conta e de-verdade eram exatamente a mesma coisa”).

A tragédia é que levando Wendy para lá, e deixando que ela preencha o papel de mãe, Peter coloca dentro do seu “paraíso” o princípio de contradição: pois Wendy é mais do que a figura materna, é a dona-de-casa e, portanto, apta também para o papel de esposa. No “lar feliz” (título de um dos capítulos) surge a maçã: “Peter, quais são realmente seus sentimentos por mim?”,Os sentimentos de um filho dedicado”,”Era o que eu achava, disse ela e foi se sentar sozinha na outra ponta da sala”, “Você é tão esquisita, disse ele, sinceramente intrigado”.

A originalidade incômoda de Peter Pan é que nunca “cairá a ficha” para Peter, ele jamais abdicará do seu direito a ter a vida em aberto, ao contrário de todos os outros, que capitulam.

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UMA MENINA SEM MODOS: QUE MORAL PODEMOS TIRAR?

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UMA MENINA SEM MODOS

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de abril de 2010)

    Como muitos adultos, sou fascinado por Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou lá, de Lewis Carroll, mais até do que muita criança. Relendo o primeiro (no original, Alice´s adventures in Wonderland, 1865 , numa excelente tradução integral (ou seja, não é uma das adaptações e condensações que inundam o mercado editorial) de Nicolau Sevcenko para a CosacNaify (infelizmente com ilustrações medonhas), mais uma vez me espantei com o volume de crueldade, desfaçatez, arrogância, perversidade, estupidez e violência que avulta na aparentemente inofensiva história da menina que vê um coelho tirando um relógio do bolso do colete, vai atrás dele, entra numa toca e a partir daí vive diversas aventuras num País das Maravilhas que de maravilhoso nada tem a não ser o nonsense do autor, seus jogos com as palavras, a lógica formal e seus silogismos, e as convenções sociais.

Nessa outra dimensão da realidade, Alice ora cresce desmesuradamente, ora diminui de forma aflitiva (“dessa vez, pode ser que eu suma de uma vez, como uma vela. E o que seria eu então?”). Isso gera dúvidas quanto à sua própria identidade, como no divertidíssimo diálogo com a pedante Lagarta, que pergunta quem é ela: “Eu neste momento  não sei muito bem, minha senhora. Pelo menos, quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem era eu, mas acho que depois mudei várias vezes… Eu acho que não consigo me explicar, minha senhora, pois não sou mais eu mesma…”

Alice fica confusa e furiosa com todas as suas mudanças, mas não exatamente angustiada, não há uma ameaça à sua identidade. Não estamos  no mundo da Metamorfose de Kafka… ainda. O que está em jogo, aqui, é a disponibilidade infinita da criança, antes de ser domesticada e deformada pelas regras absurdas e impositivas do mundo adulto. Todo o absurdo delicioso de Alice no País das Maravilhas reside no fato de que os seres que a heroína encontra tentam impingir-lhe (e se ela retruca e questiona, consideram-na  “sem modos”) ou considerações lógicas que no fundo são idiotas e rebarbativas, ou regras que não têm sentido, que “têm de ser assim”, sem fundamentação alguma.

Nada demonstra melhor isso (se as cenas anteriores, como a conversa com a Lagarta, a cena com a Duquesa, a Cozinheira e o Bebê, ou a hora do chá interminável com o Chapeleiro |Maluco e a Lebre Aloprada, não o tiverem feito; de qualquer forma, elas inscrevem-se indelevelmente na nossa imaginação, mesmo que não procuremos “explicá-las”) do que o baralho de cartas que forma uma  Corte (é preciso lembrar que Carroll escrevia num país onde até hoje persiste a realeza). E há coisa mais arbitrária do que as regras de um jogo de cartas?

Durante o julgamento do Valete (com a ameaça onipresente da Rainha de Copas de sempre mandar cortar a cabeça de alguém, promulgando a sentença, antes do veredicto, e aí sim estamos já no mundo kafkiano), o Rei quer expulsar  Alice citando a regra 42 do regulamento. Ela, a sem modos, retruca: “Pois bem, eu não vou sair daqui  de jeito nenhum! E além do mais, não existe essa tal regra, você acaba de inventar isso agora mesmo”. O rei replica, como se  bastasse apenas dizer isso: “É a mais antiga regra do Livro”. Alice, impávida, mostra que tudo que é sólido pode se desmanchar no ar e que as certezas do mundo adulto podem sempre ser voltadas contra ele: “Nesse caso, ela deveria ser a de Número Um”.

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QUE MORAL PODEMOS TIRAR?

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 2010)

Na minha geração (a dos quarentões), a referência de tradução para Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho (e o que Alice encontrou por lá) é a de Sebastião Uchôa Leite (1980), que resgatou os clássicos de Lewis Carroll do mundo Disney e das adaptações infantis (mesmo a de Monteiro Lobato). Atualmente, contudo, a versão de maior destaque é a da Zahar, realizada por Maria Luíza X. de A. Borges, porque se baseia na edição norte-americana comentada (por um grande especialista, Martin Gardner). Além das notas enciclopédicas,  apresenta as ilustrações originais de John Tenniel e um capítulo que permaneceu inédito de Através do Espelho, “O marimbondo de peruca”.

       Agora, com o lançamento da superprodução (que não parece nada auspiciosa) de Tim Burton, lançou-se uma versão reduzida, sem o aparato crítico-informativo de Gardner e sem o capítulo extra, tornando-a mais palatável para o leitor comum, e talvez para as crianças. A meu ver ainda continua sendo um belo acontecimento editorial, mesmo porque não se compromete de forma alguma com o visual do filme (e leva a vantagem sobre o empreendimento similar da CosacNaify, uma notável tradução de Nicolau Sevcenko, já que este se limitou à primeira parte).

     Que “impulsos inconscientes” tornavam necessário para Carroll (pseudônimo do clérigo e matemático Charles Dodgson) “estar sempre deformando e esticando, comprimindo e invertendo, revertendo e distorcendo o mundo conhecido, pergunta Martin Gardner. O autor de Alice foi um pedófilo que nunca abusou (ao que se saiba) de uma criança, mas que sempre teve a necessidade de estar cercado por menininhas impúberes e até desenvolveu a arte da fotografia na Inglaterra para registrar suas “amiguinhas”, inclusive a verdadeira (e homônima) inspiradora da sua heroína.

  No entanto, todos concordam, há tanto dele quanto da sua musa no personagem (ele se auto-retrata de uma forma mais explícita no cavaleiro desajeitado e quixotesco de Através do Espelho). A duplicidade em que se debatia, um homem que inovou a lógica formal e ao mesmo tempo acreditava em fadas, um solteirão inveterado e com uma orientação sexual muito particular numa das épocas (a vitoriana) mais conservadoras da história, é magistral, cômica e bizarramente transformada num desfile de personagens malucos (alguns deles inesquecíveis) e paradoxais.

      “Há uma moral em tudo, desde que tiremos proveito dela, escreveu Dickens, um dos ídolos literários de Dodgson, o qual, por sua vez, afirmou num ensaio: Tudo tem uma moral, se decidimos procurar por ela”, o que vai de encontro ás suas reiteradas afirmações de que não se deveria procurar uma “moral” nas histórias de Alice (aliás, a Duquesa, uma personagem ridícula e feia do primeiro livro, vive fazendo isso). Qual seria a moral dessas aventuras? Creio que já nos primeiros capítulos podemos extraí-la (sem que isso tire o encanto e a variedade dos episódios, principalmente de Através do Espelho): Alice chegou ao País das Maravilhas, mas há uma porta fechada e ela procura a chave. Com ela em mãos, nem por isso consegue a entrada, pois muda de tamanho a toda hora, ou seja, nunca está na medida certa para ingressar no outro lado da porta, que é o mundo dos adultos. No final, para vencer esse desafio, ela cria um emblema de si mesma, torna-se uma Rainha. Vitória ou derrota da infância, da inocência e da infinita disponibilidade e desenvoltura, tudo o que Charles Dodgson/Lewis Carroll idolatrava?

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/04/09/destaque-do-blog-as-aventuras-de-alice/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/11/excesso-de-fadas-na-mente-do-matematico-lewis-carrol-silvia-e-bruno/

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24/12/2013

Traduções-destaques em 2013

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“Coisas que devem ser curtas. Linhas para uma costura urgente. Os cabelos das serviçais. Vozes de donzelas. Apoios de lamparinas.” (do Makurano Sôshi-O Livro do Travesseiro)

“Mas o aspecto mais essencial e fundamental da cultura é o estudo da literatura, uma vez que essa é uma educação sobre como imaginar e entender situações humanas.” (de A soberania do Bem)

NOTA-  Embora tenha havido novas e importantes versões para várias obras, na lista abaixo figuram apenas traduções de textos inéditos no Brasil[1] . Uma lista de destaques, por definição, deveria ser mais curta do que longa (mas, e quando o leitor é donjuanesco?). Com relação ao texto publicado em “A Tribuna” houve o acréscimo de dois títulos.

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA, em 24 de dezembro de 2013)

A tradução do ano- O Livro do Travesseiro, de Sei Shônagon (Ed. 34)- Nenhum lançamento supera o esforço coletivo (de Geny Wakisaba, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro) para trazer ao leitor brasileiro um clássico japonês finalizado no ano 1001, mistura de anedotário, manual de etiqueta e mundanismo, enciclopédia e guia de sabedoria;

Reflexões do Gato Murr, de E.T.A. Hoffmann (Estação Liberdade)- Maria Aparecida Barbosa traduziu esse primor de irreverência e criatividade da literatura alemã, escrito entre 1819 e 1822: a biografia de um gato machadiano avant la lettre[2] e seus ziguezagues editoriais;

O Capitão Mihális, de Nikos Kazantzákis (Grua)-versão direta do original (de Silvia Ricardino) dessa obra-prima de 1953, em que a convivência tensa entre gregos e turcos e a mistura entre religião e política, que sempre permearam o universo kazantzakiano atingem proporções grandiosas;

Acontecimentos na Irrealidade Imediata (1936), de Max Blecher (CosacNaify)- Graças a Fernando Klabin, o leitor brasileiro tem acesso ao desconcertante e surreal mundo do precoce romeno, morto aos 28 anos, no qual, por exemplo, o narrador insiste em que uma echarpe é um buquê de dálias;

A Caixa, de Günter Grass (Record)- Texto recente (2008) de um dos maiores autores vivos, e um enigma: como Grass conseguiu escrever poucas páginas (de uma história familiar) que parecem tão caleidoscópicas (em versão de Marcelo Backes) quanto as das  imensas e gloriosas obras anteriores (como, por exemplo, Anos de Cão, que chega ao meio-século em 2013)?;

Murphy, de Samuel Beckett (CosacNaify)- Fábio de Souza Andrade traduziu o romance de estreia (1938) de um dos gênios da literatura do século passado. A primeira frase já diz tudo: “O sol brilhava, sem alternativa, sobre o nada de novo” (serei perverso por achar delicioso o embrenhar-se nesse universo de escombros?);

Contos Reunidos de Vladimir Nabokov (Alfaguara)- Apesar de uma pequena parte da contística nabokoviana já ter sido traduzida no Brasil, como não admirar o tour-de-force de José Rubem Siqueira ao enfrentar as armadilhas do estilo do incomparável autor russo em 68 textos (a Alfaguara porventura poderia desafiar alguém, quem sabe o grande José Luiz Passos, a fazer o mesmo com os contos de Henry James)?;

O Brinquedo Raivoso (1926), de Roberto Arlt (Iluminuras)- Romance seminal para a literatura argentina, El juguete rabioso relata a formação rocambolesca e irrisória de um contraventor, incorporando gírias e dialetos urbanos, muito bem recriados para a nossa língua por Maria Paula Gurgel Ribeiro. Um Alcântara Machado que tivesse um sopro dostoievskiano dentro de si;

O Lugar Sem Limites (1965), de José Donoso (CosacNaify)- A versão de Heloisa Jahn do curto e extraordinário romance do autor chileno, cujos protagonistas são um travesti, dono de um bordel, e um latifundiário, num povoado que aos poucos vai minguando; o título é uma citação de versos de Marlowe que se referem ao inferno, e é isso aí;

A Paz Dura Pouco, de Chinua Achebe (Companhia das Letras)- Morreu este ano o nigeriano que nos deixou romances magníficos, como este, de 1960, sobre os conflitos de geração e a corrupção no funcionalismo público. Tradução de Rubens Figueiredo para No longer at ease;

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O Sermão Sobre a Queda de Roma (2012), de Jérôme Ferrari (Ed.34)- Já é um dos romances do século. Brilhantemente traduzido por Samuel Titan Jr., o premiado com o Goncourt 2012 narra várias quedas: civilizacionais, coloniais, existenciais, ao enfocar os membros de uma família com raízes num vilarejo da Córsega;

O Amor de Uma Boa Mulher, de Alice Munro (Companhia das Letras)- Esta coletânea de 1998, com oito histórias magistrais, mostra ao leitor brasileiro (na versão de Jorio Dauster) como foi merecido o Nobel concedido este ano à canadense, mestre no gênero;

Mudança (2009), de Mo Yan (CosacNaify)- E por falar em Nobel, finalmente um título traduzido no Brasil (por Amilton Reis) do chinês premiado em 2012. Uma ardilosa obra-prima da narrativa autobiográfica;

As Agruras do Verdadeiro Tira, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Em 2013, a morte do autor chileno – um dos pontos de referência da contemporaneidade-  completou 10 anos. Esse livro póstumo, ainda em esboço, mostra a força e a fragilidade do universo bolañesco (em tradução de Eduardo Brandão para Los sinsabores del verdadero policía);

O Livro de Henrique, de Hilary Mantel (Record)- Heloísa Mourão traduziu o impressionante vencedor do Man Booker 2012, que narra as relações entre Cromwell, Henrique VIII e Ana Bolena, provando ser rematada tolice o desdém pelo “romance histórico” (tido como um subgênero). Agora: quem teve a ideia de colocar tão chocho título nacional para Bring up the bodies?;

Novembro de 63 (2012), de Stephen King (Suma das Letras)- Provavelmente a maior obra do mestre do terror (na versão de Beatriz Medina), uma viagem no tempo, em todos os sentidos, mergulhando-nos na época em que John F. Kennedy foi assassinado;

A Morte do Inimigo, de Hans Keilson (Companhia das Letras)- publicado em 1959, esse relato impactante do autor alemão (que viveu boa parte da sua existência na Holanda) abdica da particularidade do Holocausto (o massacre do povo judeu) para compor uma ampla alegoria da supressão de um bode expiatório por parte de um regime.

Tempos de Reflexão: de 1990 a 2008, de Nadine Gordimer (Biblioteca Azul)- A morte recente de Nelson Mandela dá um tempero a mais para o cardápio variado e incisivo desses ensaios (políticos, literários,  zeitgeistianos) reunidos pela notável escritora sul-africana em Telling times e traduzidos por Rosaura  Eichenberg[3].

Hors concours:

O Tempo Passa (1927), de Virginia Woolf (Autêntica)-Tomaz Tadeu traduziu essa versão bastante ampliada da segunda parte de Ao Farol[4], publicada quando o romance estava sendo escrito (numa revista francesa), com marcantes diferenças (fora a extensão) com o texto do romance. Em comum, a beleza indizível. De bônus, uma edição maravilhosa;

e

A Soberania do Bem (1971), de Iris Murdoch (Ed. UNESP)- Nos três importantíssimos ensaios reunidos a partir de palestras dos anos 1960, traduzidos por Julián Fuks, uma das mais soberbas romancistas do século XX (seu O unicórnio também chega ao cinquentenário neste ano que finda) brilha como pensadora, exigindo da filosofia e da literatura uma imaginação moral, de forma a, após proporcionar uma genealogia de atitudes filosóficas diante da realidade, ousadamente propor o Bem como a meta do ser humano.

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TRECHOS SELECIONADOS

“As damas que servem no Palácio Imperial, quando se encontram por ocasião da volta a seus lares, cada qual começa a louvar os seus senhores, e para o proprietário da residência onde se encontram, é deveras interessante ouvir o que relatam entre si sobre os outros que lá servem, ou sobre as aparências dos nobres. É desejável que tal residência seja ampla e bela, e que todos recebam suas próprias acomodações, a começar pelos seus parentes, é claro, mas também para os mais íntimos e especialmente para as damas que servem no Palácio Imperial.

      Nessas ocasiões, elas se reuniriam num aposento e ficariam a contar histórias, a comentar sobre os poemas recitados por alguém, e até apreciariam juntas uma carta que alguma dama recebera e trazia consigo, ajudando a escrever a resposta, ou, no caso de  uma visita de cavalheiro com quem tivessem alguma intimidade, adornariam bem o aposento para recebê-lo. Mesmo que ele não pudesse ir embora por causa da chuva, tratariam de entretê-lo e, quando chegasse a hora de uma das damas retornar ao Palácio Imperial, cuidariam de seus preparativos e a acompanhariam até que fosse embora, toda satisfeita.

     Seria excessiva a minha curiosidade de querer saber como são as atitudes cotidianas dos nobres?”

(trecho de O livro do travesseiro)

“Natureza! Oh, natureza! Como podem algumas gotas saboreadas pelo gato desavisado em livre e desenfreada arbitrariedade despertar rebelião contra o princípio de harmonia plantado no peito com amor, segundo o qual é preciso estar convencido de que o mundo, com todos os peixes assados, ossos de galinha e mingais, é bom, sendo o gato em si o que há de melhor, pois os amigos só existem por causa dele e em função dele?  Mas, um gato filósofo reconhecê-lo-ia, há uma grande sabedoria nisso tudo—a debilidade implacável parece ser uma compensação provocada na condição física do ser, uma necessária reação que se justifica assim na concepção do universo eterno!

    Jovens gatos, consolem-se, pois, com as palavras sábias e experientes deste seu ilustre e erudito confrade.

   Basta dizer que passei a levar uma vida folgazã de malandro vagando sobre os telhados em companhia de Muzius e outros valentões, leais e joviais gatos brancos, pardos e malhados. Chego a um acontecimento importante em minha vida, que teve consequências bastante sérias na minha biografia…”

   (trecho de Reflexões do Gato Murr)

“Entre os dois exércitos cristãos, os soldados turcos  também enterravam seus mortos, cuidavam dos feridos, relembravam em silêncio, olhando as fogueiras acesas, o Oriente distante em que estavam suas mulheres e filhos, pensavam em quem lavraria a terra, quem escavaria a videira, quem levaria pão para casa…

    Quando o céu começou a iluminar-se,  turcos e cristãos levantaram-se, para retomar a jornada. Dois dervixes, um com um tambor e outro com uma flauta de bisel, começaram a percorrer a tropa para estimular os soldados. Os monges também retomaram seus postos, o abade tinha uma atadura na cabeça, estraçalhada por golpes de espada, as feridas não se atenuavam nem o sangue estancava, sua barba estava completamente vermelha e pingava. Antes do amanhecer, porém, já estava ajoelhado diante de sua seteira, vasculhando os muçulmanos com olhos de águia, e sempre que via uma cabeça erguer-se, atirava bem na testa. Este é um trabalho sórdido, matar homens, mesmo sendo muçulmanos infiéis, pensava ele, mas nós não temos culpa: liberte-nos,  meu Deus, para sossegarmos.

     Lá no alto do desfiladeiro, o Capitão Polixínguis fazia um giro para dar conselhos aos companheiros. Todos já estavam por terra e entricheirados atrás dos rochedos… e o Capitão Polixínguis, com pudor de curvar-se, caminhava ereto, indo de um em um.

__ Abaixe-se, Capitão, para não ser atingido por nenhuma bala!—gritavam-lhe os combatentes.

     As balas já tinham começado a sibilar sobre suas cabeças. Mas o Capitão Polixínguis ria:

__ Bem que eu queria, rapazes, bem que eu queria, pois também tenho medo. Deus é testemunha, mas fico encabulado. Você não quis ser Capitão, Polixínguis? Pois então, bem feito!

__ Deixe disso, Capitão, acho que você carrega uma lasca do lenho sagrado, por isso não tem medo—sibilou um magricela desengonçado e invejoso.

    Isso fez o Capitão Polixínguis zangar-se e dizer:

__ Fique sabendo que o lenho sagrado, Nikolis, é o espírito do homem, não conheço outro lenho sagrado!”

(trecho de O Capitão Mihális)

“Eu fitava de olhos abertos tudo o que havia ao meu redor, mas os objetos perdiam seu sentido comum: uma nova existência os animava.

    Como se tivessem sido subitamente desempacotados de papéis finos e transparentes em que se encontravam envoltos até então, seu aspecto se tornava inefavelmente novo. Pareciam destinados a uma utilização nova, superior ou fantástica, que eu em vão tentaria encontrar.

    Mas não era só isso: os objetos se deixavam tomar por um verdadeiro frenesi de liberdade. Tornavam-se independentes uns dos outros, uma independência que não significava simples isolamento, mas exaltação extática […].

   O que era mais comum e mais conhecido naqueles objetos me perturbava ainda mais. O costume de vê-los tantas vezes provavelmente fizera sua pele exterior ficar desgastada, por isso às vezes eles surgiam diante de mim esfolados e coberto de sangue: vivos, indizivelmente vivos.

     O momento supremo da crise se consumava numa flutuação agradável e dolorosa, que não era deste mundo. Ao menor ruído de passos, o quarto rapidamente voltava ao seu aspecto inicial. Ocorria então entre as suas paredes uma redução instantânea, uma diminuição extremamente pequena de sua exaltação, quase imperceptível; isso me convencia de que uma finíssima crosta separava a certeza em que eu vivia do mundo das incertezas […].

     O quarto conservava vagamente a lembrança da catástrofe, como o cheiro de enxofre que paira no local de uma explosão…”

(trecho de Acontecimentos na irrealidade imediata: https://armonte.wordpress.com/2013/05/07/o-conteudo-do-mundo-acontecimentos-na-irrealidade-imediata-de-max-blecher/)

“A velha Marie fotografou nossa Casa de Tijolos por dentro e por fora com sua Agfa-Especial, para que papai pudesse ver quem vivera por ali no passado e pintara suas coisas no sótão, onde ele ficava sentado agora. Era alguém que mais tarde inclusive ficou famoso, e isso com uma fotografia especial. Era um pintor de paisagens marítimas. Pintava quadros conhecidos como marinhas. Navios de três mastros de velas enfunadas, mas também vapores transatlânticos. Mais tarde quase sempre navios de guerra. Cruzadores e outros do tipo, quando a Primeira Guerra Mundial começou, e nossa frota e a dos ingleses lutou e se afundou mutuamente no Mar do Norte. Eram quadros da batalha do Doggerbank e da batalha de Skagerrak, nas quais morreu muita gente. Mas um dos quadros que ele pintou tratava da batalha marítima nas Ilhas Falkland… Ali dava para ver restos de um cruzador alemão que se chamava Leipzig.  Ao fundo, navios de guerra ingleses fumegam. E na parte da frente um marujo se encontrava em pé sobre uma prancha ou sobre uma quilha que ainda restara do cruzador, em meio ás ondas. Ele segurava com uma ou com ambas as mãos uma bandeira, que parecia com as bandeiras que os skinheads da direita ainda carregam hoje em dia por aí, quando querem aparecer na televisão. Chamava-se O Último Homem…

   E justamente desse quadro a Agfa-Especial de Marienchen conseguiu se lembrar…

   Lógico! Porque a câmera dela era retrovidente…

    Ainda me lembro como ela se postava na janela grande, curvada para frente, mas ficava olhando sobre os ombros…

     E do mesmo jeito retorcido ela às vezes ficava parada conosco no povoado, sobre o dique, e, com a câmera virada para a frente, olhava para trás, como se o passado ficasse ali e, na frente, houvesse apenas ar…”

             (trecho de A caixa)

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“Nesse quadro, os pacientes eram descritos como ´apartados´ da realidade, das benções rudimentares da realidade laica, se não por completo, o que acontecia apenas nos casos mais graves, em alguns de seus aspectos mais fundamentais. A função do tratamento era construir pontes sobre este abismo, transladar os pacientes da sua perniciosa pocilga particular ao glorioso mundo das partículas discretas, onde seria sua a inestimável prerrogativa de novamente se admirar, amar, odiar, se rejubilar e uivar, de maneira razoável e equilibrada, consolando-se em companhia de outros na mesma enrascada.

     A coisa toda revoltava Murphy, cuja experiência como criatura natural e racional obrigava-o a chamar de santuário o que os psiquiatras chamavam exílio e a considerar os pacientes não como banidos de um sistema de benefícios, mas como os que escaparam de um colossal fiasco. Se seu espírito se ajustasse, como de se esperar, ás coordenadas de uma caixa registradora, um dispositivo incansável, convertendo em números o mesquinho fluxo de caixa dos fatos cotidianos, então, a supressão desses fatos seria uma perda irreparável. Mas, não sendo esse o caso pois o que chamava de seu espírito estava mais para um espaço do que para um instrumento, lugar de cujas delícias estes mesmos fatos cotidianos o mantinham afastado, não era absolutamente natural que saudasse a sua supressão como a supressão de correntes?”

  (trecho de Murphy)

“Mas não consigo discerni-la. Ela permanece tão nebulosa como em meu melhor poema—aquele do qual você caçoou tão horrivelmente na LITERATURNÏE ZAPISKI. Quando quero imaginá-la, tenho de me agarrar mentalmente a uma minúscula pinta marrom de nascença em seu antebraço aveludado, do mesmo modo como alguém se concentra em um ponto numa frase ilegível. Se ela talvez tivesse usado mais maquiagem, ou a usasse com maior constância, eu pudesse visualizar seu rosto hoje, ou pelo menos os delicados sulcos transversos de lábios secos, pintados de cor quente; mas não consigo, não consigo—embora ainda sinta seu toque fugidio de quando em quando na pele de cego dos meus sentidos, naquela espécie de sonho soluçante em que ela e eu desajeitadamente nos agarramos um ao outro através de uma névoa dolorosa, e não consigo ver a cor de seus olhos porque um brilho de lágrimas afoga suas íris.

   Ela era muito mais jovem que eu—não tanto quanto era Nathalie dos lindos ombros nus e brincos longos em relação ao moreno Puchkin; mas mesmo assim  havia uma margem suficiente para aquele tipo de romantismo retrospectivo que encontra prazer em imitar o destino de um gênio único (até o ciúme, até a sujeira, até a pontada de ver seus olhos amendoados se voltaram para seu loiro Cassio por trás do leque de penas de pavão), mesmo que não se possa imitar seu verso. Ela gostava dos meus, porém, e raramente bocejava como a outra fazia toda vez que os poemas do marido por acaso superavam a dimensão de um soneto. Se ela ficou um fantasma ara mim, devo ter sido um fantasma para ela: suponho que ela foi atraída apenas pela obscuridade de minha poesia; depois abriu um buraco em seu véu e viu o rosto pouco amável de um estranho.”

(trecho de “Que em Aleppo uma vez…”, um dos Contos Reunidos)

“Também me agradava, nas manhãs de primavera, perambular pelas ruas percorridas por bondes, vestidas com os toldos dos estabelecimentos comerciais. Comprazia-me o espetáculo dos grandes armazéns interiormente sombrios, as queijarias frescas como granjas com enormes pilões de manteiga nas prateleiras, as lojas com vitrines multicoloridas e senhoras sentadas junto aos balcões diante de leves rolos de tecido; e o cheiro de pintura nas lojas de ferragens, e o cheiro de petróleo nas despensas, se confundiam em meu sensório com o fragrante aroma de uma extraordinária alegria, de uma festa universal e perfumada, cujo futuro relator seria eu.

    Nas gloriosas manhãs de outubro eu me sentia poderoso, eu me sentia compreensivo como um deus.

    Se fatigado, eu entrava numa leiteria para tomar um refresco, o lugar sombrio, a decoração semelhante, me fazia sonhar com uma Alhambra inefável e via as chácaras da distante Andaluzia, via os terrenos empinados no pé da serra e, no fundo dos socavões, a faixa prateada dos arroiozinhos. Um vozerio de mulher se fazia acompanhar de um violão e, na minha memória, o velho sapateiro andaluz reaparecia, dizendo:

__ José, si era ma lindo que uma rrossa.

  Amor, piedade, gratidão à vida, aos livros e ao mundo galvanizavam o nervo azul da minha alma…”

(trecho de O brinquedo raivoso)

“As senhoras… encarregaram os maridos de gravar bem na memória todos os detalhes do que acontecesse naquela noite na cada da Japonesa e que, se possível, se houvesse alguma guloseima interessante, quando ninguém estive olhando pusessem um pouco no bolso para elas, que afinal iam ficar sozinhas em casa entediando-se, enquanto eles faziam sabe lá o quê na festa. Claro que hoje não tinha importância se eles se embriagassem. Dessa vez a causa era boa. Que ficassem por perto de Don Alejo, o importante era isso, que Don Alejo os visse na sua comemoração, que de passagem e como quem não quer nada lembrassem-no da questão do terreninho e daquela partida de vinho que ele prometera vender-lhes com desconto, isso, que cantassem juntos, que dançassem, que aprontassem todas, hoje não tinha importância, desde que aprontassem junto com o senhor.

    O povoado passou meses coberto de cartazes com o retrato de Don Alejo Cruz (…) e noite após noite os cidadãos da Estação El Olivo reuniam-se ali para alimentar sua fé em Don Alejo e organizar encontros e excursões pelos campos e povoados próximos para propagar aquela fé. Mas o verdadeiro centro da campanha era o estabelecimento da Japonesa (…) No decorrer do último mês, principalmente, quando a proximidade do triunfo, atiçou a verve da patroa, fazendo-a esquecer tudo que não fosse sua paixão política, a Japonesa, generosa, distribuía seu vinho a todo visitante cuja posição fosse vacilante ou ambígua, e no curso de algumas horas deixava-a firme como um peral ou afiada como uma faca (…)

__ Vou gastar todo o meu dinheiro, mas algum prazer eu preciso me dar, e que tudo isso sirva para que El Olivo tenha o futuro que nos promete o recém-eleito deputado Don Alejo Cruz, aqui presente, orgulho da Zona…”

(trecho de O lugar sem limites: https://armonte.wordpress.com/2013/04/02/o-travesti-e-o-dono-do-mundo-numa-obra-prima-da-ficcao-hispano-americana/)

“O primeiro dia de Obi no serviço público foi memorável, quase tão memorável quanto seu primeiro dia na escola da missão do campo, em Umuofia, quase vinte anos antes. Naquele tempo, homens brancos eram muito raros… O Sr. Jones era inspetor de escolas e era temido em toda a província… Visitava cada escola mais ou menos de dois em dois anos e sempre fazia algo de que todos se lembravam até a visita seguinte. Dois anos antes, ele havia jogado um menino pela janela da sala de aula. Dessa vez foi o diretor que se meteu numa encrenca. Obi nunca descobriu qual foi o problema, porque tudo foi tratado em inglês. O Sr. Jones ficou vermelho de raiva enquanto andava para lá e para cá, dava passadas tão largas que, a certa altura, Obi achou que ele ia passar direto por cima dele. O diretor, Sr. Nduka, ficou o tempo todo tentando explicar alguma coisa.

   Cale a boca!, esbravejou o Sr. Jones, e completou com um tapa. Simeon Nduka era uma daquelas pessoas que haviam adotado os costumes dos brancos, numa fase bem inicial da vida. E uma das coisas que ele tinha aprendido em sua juventude era a grande arte da luta corpo a corpo. Num piscar de olhos, o Sr. Jones estava estatelado no chão e a escola inteira se transformou numa grande confusão. Sem saber por quê, professores e alunos fugira todos em desabalada carreira. Derrubar no chão um homem branco era o mesmo que desmascarar um espírito ancestral.

   Aquilo tinha acontecido vinte anos atrás. Hoje, poucos brancos ousariam sonhar em dar um tapa num diretor de escola em seu local de trabalho e, de fato, nenhum faria tal coisa. O que era a tragédia de homens como William Green, o chefe de Obi.”

(trecho de A paz dura pouco: https://armonte.wordpress.com/2013/03/26/chinua-achebe-1930-2013-e-a-maldicao-da-serpente/)

“… as convenções sociais, as gafes  e o ridículo não significavam mais nada, e ele não queria mais se privar, em nome disso, daquela mulher que agora constituía sua única fonte de alegria. Sem ela, a amargura do sucesso social teria sido intolerável, e ele teria preferido ser o décimo ou o vigésimo dos homens em Roma, a governar assim um reino de desolação bárbara nos confins do  Império, mas ninguém jamais lhe ofereceria tal alternativa, pois Roma não existia mais, fora destruída havia muito tempo, restavam apenas reinos bárbaros, uns mais selvagens que outros, aos quais era impossível escapar, e quem escapava à própria miséria não podia esperar mais do que exercer seu poder inútil sobre homens mais miseráveis que ele, como agora fazia Marcel com a obstinação impiedosa de quem conheceu a miséria e não lhe suporta mais o espetáculo repulsivo e não cessa de vingar-se na carne dos que lhe são afinal tão semelhantes.  Talvez cada mundo não seja mais que o reflexo deformado de todos os outros, um espelho longínquo em que a sujeira parece brilhar como diamante, talvez não haja mais que um único mundo, do qual é impossível fugir, pois as linhas de seus caminhos ilusórios acabam por se cruzar aqui, ao lado da cama em que agoniza a jovem esposa de Marcel, uma semana depois de ter trazido ao mundo seu filho Jacques…”

(trecho de O sermão sobre a queda de Roma)

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Quando tinha quatro ou cinco anos, Enid disse à sua mãe que havia ido ao escritório do pai e o vira sentado atrás da escrivaninha com uma mulher no colo. Tudo de que ela se lembrava daquela mulher, tanto na época quanto agora, se resumia ao fato de que ela usava um chapéu com muitas flores e um véu (algo bem fora de moda mesmo então), além de que a parte de cima do vestido ou da blusa estava desabotoada e um seio nu se projetava para fora, com o bico desaparecendo na boca do seu pai. Contara isso à mãe com a absoluta certeza de que havia visto a cena, dizendo a ela: “Uma frente dela estava enfiada na boca do papai”. Não conhecia a palavra que designava seios, embora soubesse que vinham em pares.

    Sua mãe disse: “Vamos, Enid. Do que você está falando? O que é essa tal de frente?” 

   “Igual a uma casquinha de sorvete”, respondeu Enid.

    Foi desse jeito que ela viu, exatamente. Ainda podia ver desse jeito. O cone cor de biscoito com sua porção de sorvete de baunilha apertada contra o tórax da mulher, a outra ponta espetada na boca do pai.

    Sua mãe fez então algo muito inesperado. Abriu o vestido e pôs para fora um objeto esmaecido, que sacudiu com a mão. “Como isso aqui?”

    Enid disse que não. “Uma casquinha de sorvete”.

   “Então foi um sonho”, disse sua mãe…

(trecho do conto-título de O amor de uma boa mulher:https://armonte.wordpress.com/2013/10/15/no-mundo-de-alice-o-amor-de-uma-boa-mulher-e-um-nobel-indiscutivel/)

 

“Fomos primeiro à praça e entramos na fila para tirar uma foto no Portão da Paz Celestial. Depois entramos na fila do Mausoléu do Presidente Mao para prestar nossas reverências. Enquanto contemplava o presidente deitado em seu sarcófago de vidro, lembrei de quando chegara a notícia de sua morte, dois anos antes. A sensação fora de que o mundo desmoronava e o chão se abria sob nossos pés. Acordamos para o fato de que não há imortais neste mundo. Nem em sonho imaginávamos que o  presidente Mao morreria um dia, mas acontecera. Acreditamos, naquele momento, que a morte dele seria o fim da China. Dois anos mais tarde, o país não apenas sobrevivera como melhorava a cada dia (…) Numa loja de departamentos em Xidan comprei três bolsas pretas de couro sintético, uma para mim e duas para meus companheiros de armas. Comprei também um lenço cor-de-rosa para minha noiva. Ela me fora apresentada por um parente distante quando eu trabalhava na fábrica de processamento de algodão. Eu titubeara por um momento e ele se zangara: Deixe de bobagem! Tem um porco cevado fuçando na sua porta e você acha que é um vira-lata arranhando a soleira!”

E ainda:

“Fomos ainda a um restaurante em Xidan e ficamos duas horas na fila para comer uma porção de jiaozis feitos a máquina, recheados com carne bem gorda, daqueles que espirram óleo a cada mordida. A máquina funcionava atrás de um balcão baixo. Do lado de cá do balcão havia umas dez mesas. Para mim, aquilo era uma grande invenção, bastava colocar farinha, água e  carne de um lado e os jiaozis saíam prontos do outro lado, caindo um atrás do outro numa panela de água borbulhante. Era extraordinário! Quando voltei para casa, contei tudo a minha mãe, que não acreditou em uma palavra do que eu disse. Pensando bem, os jiaozis de máquina tinham massa grossa e pouco recheio. Metade se desfazia na panela. Nem eram bonitos, nem saborosos. Mas, naquela época, comer aqueles jiaozis de Xidan já era algo de que se gabar em casa. Hoje em dia, ninguém mais quer saber de jiaozis de máquina, e os restaurantes fazem questão de colocar um aviso garantindo que a iguaria é feita a mão. E o recheio vegetariano superou o gorduroso na preferência popular. Isso ilustra bem como as coisas mudaram”.

(trechos de Mudança: https://armonte.wordpress.com/2013/10/08/a-astucia-camponesa-na-arte-de-contar-de-mo-yan-mudanca/)

“Rosa Amalfitano e Jordi Carrera começaram a se escrever uma semana depois que os Amalfitano chegaram ao México. O primeiro a escrever foi Jordi. Ao fim de uma semana estranha na qual mal conseguiu pregar os olhos resolveu fazer uma coisa que nunca antes, em seus dezessete anos de vida, tinha feito. Comprou, depois de muita hesitação, o cartão-postal que lhe pareceu mais apropriado, a reprodução de uma charge de Taburini e Liberatore (…) e depois de escrever uma ou duas frases que lhe pareceram idiotas, espero que esteja bem, sentimos sua falta (por que o maldito plural?), pôs no correio e tentou em vão esquecê-lo.

    A resposta de Rosa, escrita à máquina, ocupava três folhas. Dizia mais ou menos que estava ficando adulta em marcha forçada e que a sensação que isso lhe produzia era, no início, maravilhosa e estimulante, mas depois,como sempre, a gente se acostumava. Também falava em Santa Teresa e de como alguns imóveis eram bonitos, construções da época colonial, uma igreja, um mercado com arcadas e a casa-museu do toureiro Celestino Arraya, que visitou mal chegou, como que atraída por um ímã. O tal de Celestino, além de bonitão, era uma glória local morto na flor da idade (…) e no cemitério de Santa Teresa se erguia uma estátua impressionante dele, mas só pensava visitá-lo mais tarde. Parece uma escultora ou uma arquiteta, pensou Jordi com desalento ao ler pela décima vez a carta.

    Levou vinte dias para responder. Desta vez mandou um postal enorme com um desenho de Nazario. Ante a impossibilidade de dizer o que de fato precisava dizer tratou se narrar, sem pé nem cabeça, mas cingindo-se estritamente à verdade, sua última partida de basquete (…) Sobre si mesmo insinuava que tinha jogado mal, distraído, sem vontade de correr, e com isso queria dizer que estava um pouco triste e sentia a falta dela.

   Desta vez a resposta de Rosa se limitava a duas folhas. Escreveu sobre suas aulas de inglês , os passeios que dava  ao acaso pelos bairros de Santa Teresa, a solidão que considerava  um bem precioso e que se dedicava à leitura e ao autoconhecimento, à cozinha mexicana (aqui, de passagem, mencionava o feijão com lingüiça catalão, num tom que pareceu desrespeitoso e injusto a Jordi), algumas das quais já se animava a fazer para seu pai (…)

   Em poucas palavras, escrevia ela no fim da carta, era feliz e a vida não podia ser melhor. Nesse aspecto, confessava, me pareço um pouco com Cândido, e meu mestre Pangloss é este ambiente mexicano fascinante. E meu pai também, mas não muito, na realidade nada, não, meu pai não se parece nem um pouco com Pangloss.

    Jordi leu a carta no metrô. Não tinha a menor ideia de quem eram Cândido e Pangloss, mas pareceu-lhe que sua amiga estava nos portões do Paraíso enquanto ele continuava para sempre no Purgatório.”

(trecho de As agruras do verdadeiro tira: https://armonte.wordpress.com/2013/07/16/dez-anos-sem-bolano-e-as-agruras-do-seu-leitor/)

“Quando Ana disse que não merecia os aposentos de rainha, ela não pretendia admitir a culpa, mas dizer esta verdade: não sou digna disso, e não sou digna porque fracassei. Uma única coisa ela se propôs a fazer nesta vida: conquistar Henrique e conservá-lo. Ela o perdeu para Jane Seymour, e nenhum tribunal a julgará mais severamente do que ela julga a si mesma. Desde que Henrique partiu a galope ontem, deixando-a para trás, ela tem sido uma impostora, como uma criança ou um bobo da corte, vestida com o figurino de uma rainha e agora obrigada a viver em aposentos de rainha. Ela sabe que o adultério é um pecado e que a traição é um crime, mas o pior é estar do lado perdedor.

    Richard enfia a cabeça pela porta outra vez e pergunta:

__ Sua carta, devo escrevê-la para o senhor? Para poupar seus olhos?

    Ele diz:

__ Ana está morta para si mesma. Não teremos mais problemas com ela.”

(trecho de O Livro de Henrique)

“Tive duas vidas no final de 1962 e no começo de 1963. A boa era em Jodie (…) A outra era em Dallas.

    Oswald e Marina voltaram. Em Dallas, a primeira parada deles foi numa lata de lixo na esquina da West Neely. Mohrenschildt os ajudou na mudança. George Bouhe não estava visível. Muitos menos os outros emigrados russos. Lee os afastara. Eles o odiavam, escrevera Al nas suas anotações, e embaixo: Era  que ele queria.

    O prédio decadente de tijolos vermelhos na rua Elbeth, 604, fora dividido em quatro ou cinco apartamentos lotados de gente pobre que trabalhava muito, bebia muito e produzia hordas de crianças catarrentas a berrar. O lugar realmente fazia o domicílio dos Oswald em Fort Worth parecer bom.

   Eu não precisava de auxílio eletrônico para monitorar o estado de decomposição do casamento deles (…) Certo dia, em novembro de 62, voltei da biblioteca e observei Lee e Marina na esquina da West Neely com a Elsbeth, gritando um com o outro. Várias pessoas (principalmente mulheres àquela hora do dia) tinham saído á varanda para observar (…) Eles discutiam em russo, mas o mais recente pomo da discórdia era bastante claro com o dedo apontado de Lee. Ela usava uma saia preta reta—não sei se naquela época já se chamavam saia-lápis—e o zíper do lado esquerdo estava meio aberto. Provavelmente só s e prendera no tecido, mas ao ouvi-lo furioso a gente ficava com a impressão de que ela estava caçando homens.

    Ela jogou o cabelo para trás, apontou June e depois fez um gesto na direção da casa que agora habitavam—as calhas quebradas pingando água preta, o lixo e as latas de cerveja no gramado careca na frente—e grito com ele:

__ Você diz mentiras alegres depois traz mulher e filha para essa pocilga!

    Ele corou até a raiz do cabelo e cruzou os braços com força sobre o peito magro, como que se quisesse ancorar as mãos e impedir que causassem danos. Poderia ter conseguido—dessa vez, pelo menos—se ela não tivesse rido e depois girado um dedo em torno da orelha num gesto que deve ser comum a todas as culturas. Ela começou a se virar. Ele a puxou de volta, esbarrando no carrinho e quase o derrubando. Então bateu com força.  Ela caiu na calçada rachada e cobriu o rosto quando ele se curvou sobre ela.

   (…)

__ Aquele homem está batendo na mulher! Vá até lá e dê um fim naquilo!

__ Não, senhora—disse eu. A minha voz estava instável. Pensei em acrescentar: Não vou me meter entre marido e mulher. Mas era mentira. A verdade é que eu não faria nada que pudesse perturbar o futuro.

__ Seu covarde—disse ela.

   Chame a polícia, eu quase falei, mas engoli bem na hora. Se essa ideia não estivesse na cabeça dela e eu a pusesse lá, também poderia mudar o rumo do futuro. A polícia veio? Alguma vez? O caderno de Al não dizia. Eu só sabia que Oswald nunca seria preso por agressão conjugal. Acho que naquela época e naquele lugar poucos homens seriam.

   Ele a arrastava pela calçada com uma das mãos e empurrava o carrinho com a outra. A velha me deu um último olhar arrasador e depois voltou com esforço para dentro de casa. Os outros espectadores faziam o mesmo. Fim do espetáculo…”

(trecho de Novembro de 63: https://armonte.wordpress.com/2013/11/26/destaque-do-blog-novembro-de-63-de-stephen-king/)

“É mesmo, alegrei-me, conte como conseguiu.

 Venha. Vou lhe mostrar como foi.

Para mim, você pode mostrar depois, disse a mãe, e desapareceu.

     Nós descemos ao ateliê, onde a cadeira e o equipamento continuavam no mesmo lugar. A luz estava apagada (…)

     Venha, diz o pai, e, na suave treva, eu o vejo tirar de uma bandeja grande e cheia de líquido uma placa escura (…) Sempre que estou aqui, sozinho com ele, invade-me um temor repleto de expectativa, diferente de quando estou sozinho com ele num cômodo iluminado. Porque é no escuro que se engendra o feito de cada um, é possível levá-lo á claridade e devolvê-lo à escuridão, na escuridão ele é concebido.   

     É um cachorro, digo com voz abafada.

     É Hützi, corrige ele. E me mostra outra placa. E aqui?

     Bützi, exclamo. Quer dizer que você conseguiu fotografá-las!

   Sim, mas uma por vez.

    Elas se detestam. E agora?

    Vou pôr as duas numa placa e fazer uma prova. E, na fotografia, Hützi e Bützi estarão juntas e em paz, como é seu hábito em casa: o presente de aniversário.

    As duas placas fotográficas voltam para a bandeja grande de vidro. Eu olho para ele, tenho a impressão de que a escuridão ficou mais clara. Reconheço as suas feições carnudas, nas quais se esboça um ar de triunfo. Já não é uma sombra, voltou a ser uma forma.

   E digo: Acontece que não é verdade, pois elas não ficaram juntas aqui. Ao mesmo tempo, sinto crescer em mim uma admiração por ele, ainda que minhas palavras só contenham crítica.

   Que importa?, diz o pai, assombrado, Isso se chama montagem fotográfica.

    Mas não é verdade, teimo. Você faz isso e acha muito divertido, mas não passa de fingimento.

 

       Ora essa!, ele se irrita, Aí é que está a graça. Você ainda não entendeu…”

   (trecho de A morte do inimigo: https://armonte.wordpress.com/2013/03/30/destaque-do-blog-a-morte-do-inimigo-de-hans-keilson/)

“Claro, continua difícil escrever sobre um fenômeno como Mandela em termos que não sejam hagiográficos. Mas ele não é uma figura divina, apesar de sua enorme popularidade—e essa popularidade, na era da negociação bem-sucedida entre os brancos e negros, estende-se em todos os tipos de direções, indo além da confiança e da reverência que lhe devotam os negros e aqueles brancos que foram ativos na luta pela eliminação do apartheid. Enquanto escrevia este texto, escutei no noticiário que uma pesquisa entre negociantes sul-africanos revelou que 68% desejam ver Nelson Mandela como futuro presidente da África do Sul. Longe de assumir um status celestial, a qualidade de Mandela é, ao contrário, plenamente a de um homem, a essência de um ser humano em tudo o que termo deveria significar, poderia significar, mas raramente significa. Ele pertence completamente a uma vida real que se passa em determinado lugar e época, e na relação desse ponto específico do espaço e tempo com o mundo. Está no epicentro de nosso tempo, o nosso na África do Sul e o de vocês onde quer que estejam.

   Pois há duas espécies de líder. Há o homem ou a mulher que criam a identidade—sua vida—a partir do impulso da ambição pessoal e há o homem ou a mulher que criam uma identidade a partir da resposta às necessidades das pessoas. Para o primeiro, o impulso vem limitado de seu interior; para o outro, é uma carga de energia que provém das necessidades de outros e das demandas que esses fazem. O dinamismo de Mandela como líder é ter dentro de si a qualidade altruísta de receber essa carga de energia e agir sobre ela…”

(trecho de um texto de 1993 sobre Nelson Mandela, em Tempos de reflexão: de 1990 a 2008)

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“Pois agora chegara aquele momento, aquela hesitação, quando a aurora treme e a noite se detém, quando uma pena, se posta na balança, fará descê-la. Uma única pena, e a casa, afundando, caindo, teria virado e se precipitado em direção às profundezas da escuridão. Na sala em ruínas, pessoas em piquenique teriam esquentado suas chaleiras; amantes teriam ali buscado abrigo, deitados nas tábuas nuas; e o pastor teria guardado sua comida em cima dos tijolos caídos, e o vagabundo teria dormido enrolado no casaco para se proteger do frio. Então, o teto teria caído; urzes e cicutas medrando, curvando-se, teriam fechado as passagens, os degraus e as janelas, teriam crescido, desigual, mas luxuriosamente, sobre o entulho, até que algum intruso, tendo-se perdido, poderia ter dito, apenas por causa de um lírio-tocha misturado às urtigas, ou um caco de porcelana no meio das cicutas, que aqui, alguém, uma vez, vivera; existira uma casa.

    Se a pena tivesse caído, se tivesse feito descer a balança, a casa inteira teria mergulhado nas profundezas para assentar nas areias do olvido. Mas havia uma força em ação; algo não muito consciente; algo que olhava de esguelha, algo que cambaleava; algo não inspirado a conduzir o seu trabalho segundo um ritual majestoso ou sob um cântico solene. A Sra. McNab resmungava; a sra. Bast, sua parceira, ringia. Estavam velhas; estavam emperradas; doíam-lhe as pernas. Vinham, afinal, com seus baldes e vassouras; punham-se ao trabalho. De repente: podia a Sra. McNab verificar se a casa estava pronta, escreveu uma das jovens; podia ela arrumar isto; podia arrumar aquilo; tudo na correria…”

    (trecho de O tempo passa)

“A filosofia moral é o exame das mais importantes entre as atividades humanas, e penso que ela requer duas coisas. O exame tem que ser realista. A natureza humana, em oposição às naturezas de outros hipotéticos seres espirituais, tem certos atributos que se podem descobrir, e eles devem ser ponderados, adequadamente em qualquer discussão de moralidade. Em segundo lugar, como um sistema ético não pode deixar de sugerir um ideal, ele deve sugerir um ideal digno. A ética não deve ser uma mera análise da medíocre conduta comum; deve ser uma hipótese sobre a boa conduta e sobre como ela pode ser alcançada. Como podemos nos tornar melhores é uma questão à qual os filósofos morais devem tentar responder. E, seu eu estiver certa, a resposta virá ao menos em parte na forma de metáforas explanatórias e persuasivas… Antes, porém, gostaria de mencionar muito rapidamente duas concepções fundamentais de meu argumento. Se qualquer uma delas for negada, o que seguir será menos convincente. Concebo que os seres humanos são naturalmente egoístas, e que a vida humana não tem finalidade externa, ou télos. Que os seres humanos são naturalmente egoístas parece algo evidente, quando quer e de onde quer que olhemos para eles, apesar da existência de muito poucas exceções aparentes. Sobre a qualidade desse egoísmo, a filosofia moderna encontrou algo a dizer. A psique é um indivíduo historicamente determinando cuidando de si de maneira implacável (…) Normalmente, sua consciência não é um vidro transparente através do qual ela enxerga o mundo, mas uma nuvem de devaneios mais ou menos fantásticos designada a protegê-la da dor (…) Que a vida humana não tem finalidade externa ou télos é uma visão tão difícil de defender quanto a visão oposta, e me permito simplesmente afirmá-la. Não vejo nenhuma evidência sugerindo que a vida humana não seja algo autônomo. Há decerto muitas finalidades no interior da vida, mas não existe uma finalidade geral garantida externamente do tipo que os filósofos e teólogos costumavam procurar. Somos o que parecemos ser, criaturas mortais transitórias sujeitas à necessidade e ao acaso.”

    (trecho de A soberania do Bem)

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[1] À exceção de uma parte dos contos de Nabokov (a Companhia das Letras publicou duas coletâneas há alguns anos). Entre as novas versões importantes, lembro especialmente as de alguns clássicos italianos, como Os noivos e Decamerão, e como não mencionar, nem que seja de passagem, a versão de Jorio Dauster para uma importante e esclarecedora edição de O retrato de Dorian Gray?

[2]  “Sterniano” seria mais preciso.

[3] Esse título foi cortado na lista de A TRIBUNA por falta de espaço; é bom ressaltar que se trata de um segundo volume—o primeiro foi, que compila ensaios de 1954 a 1989, foi traduzido em 2012. O outro título não incluído (por falta de tempo) foi A soberania do Bem.

[4] O qual, após circular durante anos numa tradução de Luiza Lobo que teve variações de título (O farol, Passeio ao farol, Ao farol, Rumo ao farol)—há uma outra, de Oscar Mendes—ganhou duas novas versões: uma, feita por Denise Bottmann (L&PM), que acaba de ganhar o prêmio  Paulo Rónai, da Biblioteca Nacional, por sua tradução de Mrs. Dalloway; a outra, feita pelo mesmo Tomaz Tadeu do título arrolado acima, e também lançada pela Autêntica. Os woolfianos brasileiros respiram aliviados e agradecem.

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17/12/2013

Destaques 2013 (autores de língua portuguesa)

faustocanções mexicanasa-cidadeaos 7satãmemória-da-pedraapocalipsemanual-da-destruicao1solidão é um deusreprodução

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de dezembro de 2013)

Se não dá para ler tudo, ao menos se pode correr o risco de indicar alguns destaques (não só romances desta vez) da literatura de língua portuguesa ao longo de 2013 (tomei a liberdade de incluir títulos publicados em dezembro de 2012 e cuja “carreira” de fato aconteceu no ano corrente, como é o caso dos livros de Roberto Menezes e Eduardo Lacerda). Não há nenhuma hierarquia entre eles. Como sou adepto da música do acaso austeriana, utilizei o seguinte procedimento: à exceção do hors concours, que é uma obra verdadeiramente à parte (com uma linguagem saturada no limite do suportável, mas simplesmente excepcional), coloquei em pequenos pedaços de papel os outros 15 títulos e depois fiz um sorteio,  do qual saiu a ordem abaixo[1]:

Canções Mexicanas (Casa da Palavra)- 27 relatos  nos quais  anedotas fortemente ancoradas no paradoxo proporcionam um jogo entre uma percepção muito apurada do México “real” , varado pela violência, e as viagens mentais  muito particulares do prolífico e original Gonçalo M. Tavares.

A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários (Companhia das Letras)- Carlos de Brito e Mello constrói um moderno “auto da moralidade”, em que a ausência de um princípio transcendente propicia a um Inquisidor a  instauração das próprias (e arbitrárias) regras em meio à indiferença geral. A meu ver, o grande romance brasileiro deste ano.

Aos 7 e aos 40 (CosacNaify)- João Anzanello Carrascoza já era um maiores nomes do conto  e da ficção infanto-juvenil. Na sua estreia no romance, depura de forma arrasadora seus temas obsessivos, em torno dos afetos familiares, aos quais dá uma dimensão lírica rara na literatura que se faz hoje em dia

Digam a Satã que o recado foi entendido (Companhia das Letras)- Daniel Pellizzari cria uma linguagem especialíssima, evitando com maestria o besteirol (e divertindo tremendamente o leitor), para colocar Dublin como palco de uma história em que os personagens representam as subculturas da pós-modernidade.

Memória da Pedra (Companhia das Letras)- Mauricio Lyrio publica um primeiro romance que tem toda a aura de uma obra de maturidade, abordando a era Collor através do mais inusitado dos  heróis, um professor de filosofia cujo alheamento aos poucos vai sendo fraturado. Temos agora o nosso par de J.M. Coetzee e Ian McEwan?

O Apocalipse dos Trabalhadores (CosacNaify)- Qualquer um que nutra a suspeita de que Walter Hugo Mãe é apenas um desses  escritores “da moda” terá de rever seus conceitos, depois  desse agudo e cruel retrato da classe trabalhadora europeia (são diaristas portuguesas e operários do Leste) dos dias de hoje. Obra de mestre

Manual da Destruição (Hedra)- Outro romancista que arrasou na estreia: o ator/dramaturgo Alexandre Dal Farra faz o equivalente literário das manifestações de rua que marcaram este ano, mas tenho a convicção de que o discurso raivoso do seu personagem perdurará muito além de qualquer aspecto “datado”. Um momento radical e estimulante que mostra a ótima fase da nossa ficção.

A Solidão é um Deus bêbado dando ré num trator (Bartlebee)- Muitos são os que andam por aí com seu lirismo contrariado.  Mas poucos têm o poder de concentrar essa inadequação existencial em brilhantes versos aforismáticos, como Diego Moraes, esse grafiteiro ímpar das paredes da condição humana.

Reprodução (Companhia das Letras)- Deveria ficar hors concours (por marcar os 20  anos de sua carreira literária) essa devastadora sátira de Bernardo Carvalho  sobre as desvairadas visões de mundo formadas a partir da má-assimilação de dados fragmentários e preconceituosos. Inspirado, o autor de Nove Noites criou o Dr. Fantástico do mundo pós-internet.

Quatro Soldados (Não Editora)-  Por falar em internet, Samir Machado de Machado, em seu mergulho no século 18 (com uma paródia sensacional da linguagem da época[2]), realiza um sugestivo paralelo com nosso tempo, em que as novas tecnologias eletrônico-virtuais minam mentalidades e conceitos consolidados assim como o Romance e a Enciclopédia. Tudo através das peripécias de personagens perdidos nas fronteiras extremas do Tratado de Tordesilhas no sul do país (“O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”)

Maçãs Argentinas (Positivo)- Paulo Venturelli faz uma madura, apurada e inesquecível visita ao mundo de desejos e fantasias da infância, sem nenhuma condescendência e com forte impacto emocional (inclusive para o leitor adulto). Uma joia que representa a vitalidade da literatura infanto-juvenil. As ilustrações de Odilon Moraes também são bárbaras.

Outro dia de folia (Patuá)- Assim como Mauricio Lyrio no romance, Eduardo Lacerda  estreia com poemas maduros, de um acabamento a bico de pena, de tal forma que até o uso intenso de procedimentos parentéticos causa não a impressão de dispersão, mas  de concentração absoluta. Um senhor poeta, que precisa deixar de ser avaro com os seus leitores.

Palavras que devoram lágrimas ou Felicidade Cangaceira (FUNESC)- Outro discurso raivoso, outro memorável manual da destruição, no qual o torrencial Roberto Menezes mostra sua carismática e afogueada narradora digitando ao vivo o relato da vingança contra o ex-marido, expondo ao mesmo tempo a inconsistência do mundo dos “emergentes” da economia nacional da última década. Corrosivo, dilacerante, e muito engraçado.

Labirinto no escuro (Positivo)- Para os quarentões (quase cinquentões), como eu, essa obra-prima arrepiante da literatura juvenil de Luís Dill é permeada por todo um imaginário em torno do medo do controle da mente, da perda da individualidade e da noção de um Sistema tentacular, que marcou a formação da nossa geração.

O último minuto (Companhia das Letras)- Nas confidências de um técnico de futebol preso por assassinato, Marcelo Backes consegue juntar o esporte-fetiche do país com uma acurada visão das desigualdades sociais e regionais (e a tensão entre rural e urbano) que persistem governo após governo.

Hors concours- Doutor Fausto (Topbooks)- Coube a uma editora brasileira a publicação da versão definitiva (a primeira foi lançada em Portugal em 1991) desse  romance “total”  e singularíssimo  de António Vieira. Para se ter uma ideia do desafio empreendido pelo grande autor português, o pacto com o diabo é realizado em maio de 1968. Mas é sempre “O problema: –O eterno, o Fáustico—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento” (Cyro dos Anjos).

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TRECHOS SELECIONADOS

Abaixo, trechos dos livros e, nos casos em que houver uma resenha deles aqui no blog, o link.

“(…) aproximo-me de uma máquina dos caminhos-de-ferro, abandonada, onde dois mexicanos malucos estão a grelhar umas febras, perguntam-me se quero, se tenho Pesos, e eu pergunto o que é aquilo, dizem que é carne e riem-se, mas sabem perfeitamente que o que lhes pergunto  o que é aquilo apontando para a velha estação de caminhos-de-ferro e eles explicam que está abandonada desde que as mulheres começaram a fumar no México nos sítios públicos e riem-se mais uma vez, gozam com o belo estrangeiro, e também grelhamos homens inteiros, diz-me um dos mexicanos, quanto pesas, pergunta-me o outro, e fazem de lobos maus e eu de capuchinho vermelho, perguntam-me mesmo se eu conheço a história do capuchinho vermelho, aqui no México também a conhecem, que sim, respondo, e eles passam-me um lenço que eu ponho na cabeça, entro no jogo, que mais posso fazer?, é de noite, estou na Cidade do México e dois homens com mau aspecto estão a grelhar algo numa velha máquina abandonada numa velha estação de caminhos-de-ferro e dizem que a seguir sou eu, que eles estão com fome, há muita miséria no México, dizem-me, com quem pede desculpa por me comer, e eu quase digo que não faz mal, que compreendo perfeitamente, eles são lobos, eu sou alguém que se perdeu e que só devia sair de noite na Cidade do México bem acompanhado, disseram-me eles, que fazem de lobos e de paizinho, dão conselhos (…) e ali estão eles, a desenhar no chão com um  pau os trajetos bons da cidade e onde eu me enganei, sim, perguntam-me pelo hotel e lá estão eles, um deles, com um galho a marcar o trajeto no chão, você deveria ter virado aqui, virou aqui, marca ele, no chão,e por isso nos encontrou, se tivesse virado para ali, aponta o outro como seu dedo sem se dobrar, se tivesse virado para li se calhar estava agora em frente a uma mexicana que leva vinte pesos para te sugar “el” cachimbo, e riu-se muito com esta do cachimbo, passo errado, diz eles, agora somos nós, diz ele, que queremos que nos chupes “el” cachimbo, e ri-se um  deles, enquanto desaperta a braguilha, que faz ele?, digo ou só penso, tento sorrir, um deles está atrás de mim…”

(trecho de Canções mexicanas: https://armonte.wordpress.com/2013/10/01/aulas-de-paradoxos-as-cancoes-mexicanas-de-goncalo-m-tavares/)

Gonçalo M. Tavares

O APREGOADOR

Ué, você é quem deveria saber, já que deu para falar de modernidade. Quem é que disse que a gente era moderno?

O OLHEIRENTO

Não sei bem quem disse. Disseram por aí. Alguma autoridade, talvez. Se ser moderno é ser novo, então não somos modernos. Veja esta cidade: nosso edifício está aos pedaços; a vizinhança é malconservada; existem montes de carros andando por aí que não deveriam sair da garagem. E não é só o que a gente consegue ver por fora. Sabe o encanamento? Estourado. O esgoto? Entupido.

O APREGOADOR

Mas ninguém nasce de bengala. Não há muitos nascimentos? Mais nascimentos que mortes? Então, nas pessoas, ainda há modernidade.

O OLHEIRENTO

As crianças já estão nascendo gastas; gastas e cansadas; gastas e usadas; gastas e enfraquecidas. E nós estamos ficando velhos.

O APREGOADOR

Nós?

O OLHEIRENTO

Nós.

O APREGOADOR

Há quanto tempo estamos aqui?

O OLHEIRENTO

Há muito tempo.

O APREGOADOR

Bom… se é como você diz… e se você faz tanta questão… sejamos modernos, então! Sejamos modernos enquanto é tempo!

O OLHEIRENTO

Assim, sem mais nem menos?

O APREGOADOR

Tem outro jeito?

O OLHEIRENTO

Bem… acho que não. Sejamos, então!

O APREGOADOR

Tá. Você primeiro.

O OLHEIRENTO

Eu o quê?

O APREGOADOR

Seja moderno, ora. Não foi você quem começou com esse assunto? Não foi você que ouviu, com seus ouvidos de onisciente, que esta cidade deveria ser moderna? Não é você que acha tudo velho e acabado? Estamos atrasados na modernidade. Daqui a pouco, já seremos outra coisa, sem termos sido aquilo que tínhamos de ser.

(trecho de A cidade, o inquisidor e os ordinários: https://armonte.wordpress.com/2013/12/03/a-forca-do-alegorico-a-cidade-o-inquisidor-e-os-ordinarios-de-carlos-de-brito-e-mello/)

carlosbx

Encontrou o menino comendo na cozinha, compenetrado.

Oi, filho,

Oi, pai.

A mulher disse,

Senta,

e começou a lavar a louça,

enquanto os dois se abraçavam.

Vieram as perguntas, diárias, que ele fazia ao menino, pelo telefone,

a primeira,

Você está bem?,

e a segunda,

Já tomou banho?,

e, ali, nem precisavam ser feitas: no rosto do filho se

via que ele estava bem; seu corpo cheirando a

sabonete e seus cabelos úmidos revelavam que

saíra há pouco do banho.

Perguntou-lhe sobre a escola, e,

à medida que o menino respondia,

contando-lhe os gols que fizera nas aulas de educação física,

ele sentiu,

sob a camada grossa de seu próprio silêncio,

uma inesperada alegria,

como se, até então,

vivesse na pré-história desse sentimento,

e, agora, experimentasse a sua estreia.

Se o menino era um rio, ele, pai, colocava só a ponta

dos pés em suas águas, e queria, de novo o mergulho,

queria se resgatar nas suas profundezas.

E já que vivia à sua beira, era melhor se entregar ao

nada daqueles rápidos encontros,

os mínimos episódios cotidianos (e aparentemente

esquecíveis),

como fazer juntos a refeição, ou assistir a que o outro

a fizesse,

como agora.

Continuaram a conversar, coisas banais para o

mundo, mas não para os dois (nem para a mãe que

os ouvia), e o homem, curioso para saber mais do

menino, ia dispondo na mesa como travessas de

comida, outras perguntas…

(trecho de Aos 7 e aos 40: https://armonte.wordpress.com/2013/08/20/aos-50-a-singularidade-e-maestria-da-ficcao-de-joao-anzanello-carrascoza/)

joao

Magnus: “De novo em diante me alimentei somente de espigas de milho, pipoca, tacos sem recheio, Doritos e Jack Daniels, tentando convencer Chicomecoatl a me levar embora de uma vez. A derrocada do meu império pessoal teve início com meu último encontro com Laura, uns dez dias depois da explosão que não aconteceu em Temple Bar. Eu estava sentado meio corcunda no balcão do Hairy Lemon, mastigando devagar as últimas batatas do meu ´coddle´, quando ela apareceu.

__ Sabia que você ia estar aqui—disse com aquela  risada que não causava mais efeito nenhum em mim. Restava apenas um buraco onde antes havia uma resposta fisiológica que um dia eu tinha imaginado ser alguma coisa além disso.”

Patricia: “Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. é outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma (…) Meu avô era legal. Pai da minha mão. Ninguém sabe de onde ele veio, só que tinha catorze anos e chegou na Irlanda de navio, sozinho, numa época em que todo mundo estava indo embora porque faltava tudo por aqui. Agora é que ninguém vai ficar sabendo de onde ele veio, mesmo. Sempre que ficava sozinho ele cantava umas musiquinhas que pareciam meio árabes. Ou judaicas, sei lá. Confundo (…) Ele tinha cheiro de lustra-móveis, mas cheiros são que nem idades. Não querem dizer nada.”

Siobhán: “… é um momento difícil  e então convido todos  para cantarem e começo a cantar o hino dos Ofídios Gnósticos  que fala sobre a luta contra a Confederação Galáctica  e a vitória final no dia da Arrebatação  e eles me olham sem dizer nada   e ficam assim até o final do hino  e depois eu saio da cozinha  e me sento em uma cadeira  na sala de costas para a janela. Fico imóvel e curvada  como uma das gárgulas da igreja grande ali subindo a rua, amanhã bem cedinho quero levar a menina nova até lá para ver,  acho que ela vai gostar porque ouvi ela dizendo que nasceu  e morou a vida inteira em Dublin e nunca tinha vindo para Howth e então sei que nunca viu as gárgulas. Elas ficam do lado de fora do templo com aqueles rostos congelados em caretas de ameaça e o corpo todo transformado em pedra e rígido para sempre por amor ao dever de assustar as coisas ruins e os demônios e  a imundície e impedir que entrem dentro do espaço sagrado…”

Demetrius: “A memória serve para que você se esqueça de quem é, Demetrius. É um artefato do Inimigo. Quanto mais você se lembra, mais se esquece do que é natural e antigo e verdadeiro. E o olho com o qual a criança enxerga os Ofídios é o mesmo olho com que os Ofídios enxergam a criança. O olho puro e solitário de Crom Cruach. Mas sem demora esse olho é recoberto por memórias. E com as memórias vêm as opiniões. E com as opiniões, as preferências. E com elas, as abstrações. E por fim a chamada personalidade, a forma rígida dentro da qual a Confederação aprisiona os incontáveis seres que foram criados livres, mas que estão aprisionados em grilhões…”

Barry: “Larguei dela, dos meus velhos,dos meus parcêro, da minha cidade, da vida que eu tinha em Cork. Subi pra Dublin e fiquei livre pra não fazer porra nenhuma. Não que eu odiasse essa coisa toda. Nem é por aí. A assistente social tinha um peitão classe especial e chupava que nem uma sanguessuga, engargantava tudo. Meus velho eram uns inútil sem educação nenhuma, mas sempre fizeram de tudo pra mim. Meus parcêro eram um monte de bêbado gente boa. Minha cidade é o melhor lugar do universo e tinha cerveja barata em qualquer pub. Minha vida era só moleza. O ruim é que essas coisas toda me atrapalhavam. Pra falar a verdade, de vez em quando eu sentia uma vontade imbecil de fazer algo de útil com a minha vidinha, e isso é péssimo pra caralho. Aí cortei o mal pela raiz. Eu sou irlandês, porra. Sou um cara que tenho meus princípio…”

Zbigniew: “Mas não adianta, eu sei que agora o medo vai chegar a qualquer momento. E quando o medo vem  é intenso, piorando muito à noite ou em meio à multidões.  Luzes, ruídos e pessoas ficam cada vez mais velozes e se revelam forças agressivas, sinistras.  Quando alguém ri, está rindo de mim. Se gargalha, está me enfiando uma faca. Olhou, quer me matar. Até os gatos de rua estão planejando tocaias. Os ruídos do mundo tramam crescer em proporção geométrica até me envolverem por completo como um oceano de gelatina e me deixarem suspenso ali dentro para que as luzes cheguem muito rápidas e agudas e me perfurem o corpo inteiro, causando uma dor física sem adjetivos e permitindo que minha consciência escape pelas feridas abertas…”

(trechos de Digam a Satã que o recado foi entendido: https://armonte.wordpress.com/2013/08/27/destaque-do-blog-digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido-de-daniel-pellizzari/)

pellizzari

__ Não gosto do teu olhar, Eduardo.

__ Faz lembrar outra coisa?

__ Faz.

__ Ele chegou a tocar em você?

   Laura fechou os olhos.

__ Ele chegou a tocar em você ou só tocava nele mesmo?

__ Faz muito tempo.

__ Você não sabe ou quer esquecer?

__ As duas coisas.

   As mãos cobriam o rosto. Falava por entre os dedos.

__ Só lembro dos olhos. Como um bicho, atrás da porta. Era outra pessoa. Não podia ser ele.

__ Por que você nunca falou nada?

__ Você nunca quis saber. Você sabe que eu tentei.

[…]

Anita olhou o chão, tirou o pé direito da sandália de salto baixo e roçou a ponta do dedo maior na perna esquerda, como quem se desfaz de uma pequena pedra, de um grão de areia. Voltou a calçar a sandália, com a mesma naturalidade, a mesma rapidez. Não durou um segundo, mas Eduardo teve a impressão, pelo patético, pelo inesperado, de que tudo se fizera muito lentamente. Via os dedos desembaraçarem-se das tiras da sandália, a perna dobrar-se sob o vestido, o pé esticar-se perpendicular ao chão, como num trejeito de balem, o instante em que se erguia e tocava a panturrilha,  o forte contraste de cores entre a planta e o peito do pé, o claro e o escuro, o rosa  e o negro, na pele anfíbia, como se pertencesse a dois seres. Podia não ser um grão de areia, apenas uma mania, um gesto repetido ao longo dos anos. Era a espontaneidade perfeita e fora de lugar…

(trecho de Memória da Pedra: https://armonte.wordpress.com/2013/05/21/destaque-do-blog-memoria-da-pedra-de-mauricio-lyrio/)

lyrio

“o senhor ferreira acreditara mesmo que todo aquele dinheiro haveria de ir parar às mãos da maria da graça, ganho assim a compasso de trabalho, à medida que ela fosse correndo a casa com o seu pano de pó ou vassoura. o imbecil acreditara que a casa ficaria inviolada e que a maria da graça seguiria o seu ofício sem interrupção para descobrir quanto ali deixara para ser descoberto. era o modo como receberia de prêmio toda aquela fortuna mal escondida, como quase a manifestar-se, à espera de que a lida da casa passasse por ali, como por etapas bem definidas em que o trabalho se visse recompensado para sempre. o senhor ferreira divertira-se a escolher o lugar de cada maço de notas, rindo até, achando que, mais difícil ou menos difícil, cada oferta seria inequívoca para a maria da graça, que compreenderia várias coisas, independentemente de serem verdadeiras ou falsas, compreenderia que não lhe era indiferente, que ele sabia da sua condição financeira menos do que remediada, que gostava dela mais do que qualquer outra pessoa para lhe deixar tamanho presente, que considerava o seu trabalho digno, que gostava de a ver trabalhar, que a amava, que se poderia ter casado com ela e até ter ainda um filho, se aos quarenta anos ela pudesse arriscar-se a ser tão feliz. a maria da graça mexia-se na cama incomodada com tais pensamentos e odiava-o por não ter tomado outras decisões. não era pelo dinheiro, que estaria nas mãos da agente quental, no mínimo corrupta, era pelo perto da felicidade que tinham estado os dois. e da felicidade deu um salto para o monstruoso das coisas. se ele se podia ter casado com ela, se era tão mais razoável querer casar-se em vez de morrer, porque teria querido morrer e deixá-la sozinha, incapaz de realizar depois os sonhos. maldito seja, senhor ferreira, pensava ela, estupor, que lhe havia de ter acertado com uma jarra na cabeça para lhe mostrar como se decide uma vida…”

(trecho de O apocalipse dos trabalhadores)

valter

“estou sozinho dentro do banheiro do aeroporto de merda. caminho até encostar a cintura na pia e vejo a minha cara estúpida no espelho, e ela não tem nada a ver com nenhuma das lembranças de merda nem com nada do que existe dentro da minha cabeça. é só uma cara idiota, igual ao que ela já era antes. vejo no espelho como o meu rosto é o mesmo, o mesmo rosto que eu já vi outras vezes nos espelhos de merda. sempre a mesma imagem refletida. mas o meu rosto não é sempre o mesmo. percebo isso por dentro. o rosto filha da puta finge que é o mesmo por fora, quando está na frente do espelho de merda, mas de dentro eu sei que ele não é o mesmo. sinto as mudanças na carne, pelo lado de dentro, retiro os meus óculos e olho para a minha cara monótona no espelho. ligo a torneira de merda e enfio as mãos embaixo da água (…) gostaria que a água passasse da pele e entrasse por dentro da minha cara. gostaria de jogar água por dentro, diretamente no meu cérebro. gostaria de poder resfriar os órgãos todos por dentro. enfio os dedos molhados dentro dos olhos e procuro enfiar água em todos os buracos do rosto (…) vejo pelo reflexo o velho. o velho entrou no banheiro de pulôver marrom. ele procurou não olhar muito para mim pelo espelho (…) eu estava olhando para mim mesmo com ódio. o velho viu isso. disfarcei e apertei ainda mais os dentes, e dou um jeito de me machucar um pouco enquanto o velho está dentro do compartimento de fórmica. enfio dois socos no meu próprio estômago, e torço para o velho ser surdo. ele se enfiou em um compartimento de merda e eu aproveito para socar meu próprio estômago. sinto a minha mão fechada socar a minha barriga, sinto a dor e dou mais sete socos no um estômago com toda a força possível, apesar da posição, até que o meu braço fica um pouco cansado. enfio ainda mais três socos com toda a força possível no mesmo ponto que já estava doendo. sinto o estômago quase rasgar com os socos que eu enfiei em mim com toda força e sem nenhum prazer. enfio os meus óculos de volta na cara…” 

(trecho de Manual da Destruição: https://armonte.wordpress.com/2013/07/30/o-romance-manifestacao-manual-da-destruicao-de-alexandre-dal-farra/)

farra

Um índio bêbado escrevendo peças de teatro que nunca serão montadas

Seu vizinho desmanchando automóveis e revendendo tudo a preço de banana

Sou tão carente que entro de cadarços desamarrados na padaria

só pra ver se ela se importa e diz alguma coisa

 Anteontem andei de roda gigante e o cara disse que não era preciso

pagar o ingresso porque eu parecia o avô dele

O mais foda é que só tenho 29 anos”.

(poema de A solidão é um deus bêbado dando ré num trator: https://armonte.wordpress.com/2013/04/30/destaque-do-blog-a-solidao-e-um-deus-bebado-dando-re-num-trator-de-diego-moraes/)

diego

“Ritual, para mim, é isso: sobreviver em sociedade. Tem que se igualar, compartilhar, reproduzir. Não? Agora não é tudo coletivo? Todo mundo não faz a mesma coisa? E se todo mundo é crente… Achei que você já tivesse pensado nisso. Eu penso todos os dias. Ritual serve pra te convencer de que você não está sozinho. Não é melhor acreditar e pertencer? Quem vai ligar pro que eu penso ou você, sozinhos? Pense bem. Quem vai ligar daqui a dez, vinte anos, quando o país inteiro for só um amontoado de igrejas, disputando espaço a tapa umas com as outras?  Daqui a vinte anos, é possível que o que gente pensa nem seja mais pensamento. Então, não é melhor parar de pensar logo e começar a orar para que os psicotrópicos—não é assim que você diz?—continuem fazendo efeito. Pela força da palavra coletiva. Antes de começar a tomar os psicotrópicos, achei que estava ficando louca, e foi só por isso que eu pensei que, nessas horas, o melhor—e é o que os loucos em geral não fazem—é ficar calada. É. Não dizer mais nada. Você acha o quê? Que eu não sei disfarçar? É isso mesmo. É o problema da hipocrisia. Você diz uma coisa aqui e faz o contrário ali. E tem que acreditar que está fazendo a mesma coisa. Não é pra discutir. Tem grupo de apoio pra ajudar. Tem que acreditar no poder da palavra coletiva. Tem que acreditar que o que você diz é o que você faz. Eu te pergunto: que é que toda essa gente vai fazer com Deus se não é pra resolver o problema da hipocrisia? Me diz. Eu olho pros lados, na igreja, na marcha com Jesus, e penso: que é que eles vão fazer com Deus? Posso responder por mim. Sério? Cínica? Sabia que você ia dizer isso. Não disse, mas pensou. Ainda está se perguntando o que vou fazer na igreja se não acredito em nada? É porque não leu o relatório. Se tivesse lido, sabia que vou lá repetir, reproduzir…”

(trecho de Reprodução: https://armonte.wordpress.com/2013/10/29/reproducao-bernardo-carvalho-e-o-seu-negocio-da-china-nos-20-anos-de-carreira/)

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“__ (…) Mas, de qualquer modo, voltando ao Voltaire, este homem, o Micrômegas, não nasceu na terra, e sim no planeta Sirius, e vem ao nosso mundo acompanhado de um amigo de Saturno para conhecer nossos costumes e…

__ Como se pode levar a sério tal cousa?

__ Ora, tanto se me dá, que são só firulas para divertir. O que importa é tentar ver nossos costumes do ponto de vista de outrem, como nós vemos aos estrangeiros. Um estrangeiro que fosse de outro mundo veria a todas as nações como donas e prisioneiras dos mesmos hábitos viciados, e nisso está o mérito de uma história assim….

    Licurgo encolheu-se nos ombros.

__ Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir a ler os novos—lembrou o garoto.—Afinal, não há tempo para se ler tudo… ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falsas e seres que não existem?

__ Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça!?—o Andaluz exaltou-se, erguendo os braços dum modo intimidante, particularmente seu, de tenor de ópera.—Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo… mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo. E algumas das mais fabulosas e distantes histórias do que se considera a Verdade e a Realidade são, por consequência, as que mais próximas chegam da essência das cousas. Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgava inconcebível.

__ Mas ainda assim é uma mentira. Como pode a Verdade nascer de uma mentira?

__ Decerto que conheces o Tratado de Tordesilhas? Teu rei assinou com o rei de Espanha um documento, dividindo a América entre os dous. Consegues ver Laguna daqui?—apontou para trás, para a vila, já distante deles mas ainda visível no horizonte.—Laguna era o limite do tratado. Por um acaso vês alguma linha traçada na terra ou no céu, a dividir o mundo em dous? Por um acaso algo muda no ar, nas árvores ou nos rios, ao serem separados entre dous reinos? O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”

(trecho de Quatro soldados: https://armonte.wordpress.com/2013/12/10/quatro-soldados-e-os-caminhos-que-nao-levam-a-nenhum-centro/)

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“Salário! Certamente foi a palavra que mais boicotou minha infância. Uma espécie de ferrugem que toldava aquela fé e orgulho. Na época em que a cidade ia ficando pequena, à medida que eu crescia, a ideia do salário funcionava na consciência como um tipo de mordida a tirar lascas. Salário! Um tormento nas mais diversas situações. Toda vez que se queria um sorvete, um álbum de figurinhas, em especial aquele do filme A dama e o vagabundo, lá vinha a palavra martelar nossos ouvidos.

    E era um mistério. Eu não entendia direito a relação entre ele, o dinheiro e a compra de coisas que me fascinavam. Do mesmo modo, era outra complicação saber por que as pessoas tinham de trabalhar e por que, trabalhando, ganhavam dinheiro. De onde vinha o dinheiro que eu julgava estar no interiro das fábricas? E por que era sempre tão pouco se, por meio dele, toda sorte de delícia pode entrar na nossa vida?

   Do portão da casa, eu via um enorme caminhão de toldo verde-escuro, bancos de madeira, passar cheio de operários. A maioria com bonés na cabeça. Era um pessoal enrugado, meio magro, de roupa escura e gasta (…) Cada um levando numa sacola de pano sua garrafa térmica, fatias de pão caseiro embrulhados em toalha que formava uma trouxa amarrada num laço tipo orelhas de coelho…

   Para completar o quadro de minhas incompreensões, no fim de cada manhã desfilava o ônibus do escritório da fábrica. Minha mãe preparava o almoço segundo a passagem dele. Ela botava um olho comprido sobre a poeira, que ficava como lembrança do veículo, e dizia:

__ Meu maior sonho é te ver um dia trabalhando com esse pessoal. Isso sim que é vida!…”

(trecho de Maçãs argentinas)

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O vizinho mudou de lugar

a caixa do correio

 

(Como se mudam cardumes

de peixes no meio

 

do mar.

 

/Quando há pesca

Fora de época/)

 

Conto isso porque o garoto

nunca mais fisgou,

 

pelas frestas

 

do portão,

 

as cartas de amor (sua primeira

literatura)

 

tão raras entre e

 

nem mesmo, as contas de luz

telefone, água

 

esgoto

 

impostos

 

cobranças

 

(acúmulos de mágoas, cartas datadas)

 

Antes da improvável

 

hora certa.

 

/Ele

 

depois pensaria

que se cortasse os dedos

e os desse de isca

aos peixes (os segredos

em mãos que não sabiam

escrever) enviaria cartas

 

a quem nunca mais

 

o escreveu/

(poema de Outro dia de folia: https://armonte.wordpress.com/2013/09/19/de-penetra-na-folia-os-poemas-de-eduardo-lacerda/)

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“…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. necessárias e pertinentes. no mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! nem sei quando vou pagar. puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. e esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. posso também agora passar pro próximo ato. da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? o nosso nosso banal que todo casalzinho tem…”

(trecho de Palavras que devoram lágrimas: https://armonte.wordpress.com/2013/07/26/destaque-do-blog-palavras-que-devoram-lagrimas-ou-a-felicidade-cangaceira-de-roberto-menezes/)

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“__ Agora vamos verificar a pressão.

    Abre a bolsa e apanha o aparelho. Envolve o braço de Nicolas com a braçadeira. Ruído de velcro. Começa a bombear na pera com válvula de metal. Coloca o manômetro sobre o peito do jovem. Usa gestos econômicos e profissionais.

__ Perfeito. Doze por oito—conclui o exame.—Não poderia ser melhor.

__ Vai me soltar agora, doutor?

__ Sim—diz e recolhe seu equipamento para o interior da bolsa de náilon. O som do zíper.—Não vai fazer nada de estúpido, vai?

__ Não—indigna-se sem saber com precisão a que ele pode estar se referindo. Não sou louco, protesta mentalmente. Por acaso ele pensa isso de mim?

__ Ótimo. Porque eu detestaria vê-lo machucado.

    A frase tem impacto sobre Nicolas.

__ Não, não, tranquilo—acha por bem reforçar. Não sabe se foi aviso ou ameaça. De toda forme, prefere ser prudente. Não é o momento de importar-se com seus brios masculinos…”

(trecho de Labirinto no escuro)

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“Fica-se encafifado com a grosseria da máscara que cobre aquele homem, esse tal de João, o Vermelho, Yannick pros íntimos, conforme ele logo diz, ainda em tom de piada, as caneladas doem, mas, também sem saber por quê, se vai gostando dele aos poucos, depois de tantos encontros, talvez porque ele fale tudo e não esconda nada, porque ele não entra no jogo, não veste máscara civilizatória, e com isso faz o humano sentir saudade do bafejo da barbárie na nuca, porque ele veio dum outro mundo e ainda vive num outro mundo, e experimenta tudo na carne, sem camisas nem casacos cosmopolitas pra lhe proteger a pele exposta, as fraturas mal saradas por causa de seu metafísico arrumador de ossos, as feridas todas que lhe cobrem a alma.

    Os grandes problemas de comunicação vão diminuindo aos poucos,e com pasmo se percebe que inclusive se vai assumindo a linguagem do estranho na muita intimidade que passa a vincular o falante ao estranho…”

(trecho de O último minuto: https://armonte.wordpress.com/2013/06/08/o-mundo-a-partir-de-uma-voz-o-ultimo-minuto-de-marcelo-backes/)

20130605marcelo-backes

“… as suas próprias janelas sobre o mundo—a ideia da fenomenologia, o pensamento do Jogo enquanto motor central, a polemos dos pensadores da Grécia antiga—recortavam-se em luz dentro dele… As três colunas que tinham suportado as razões do seu viver—inquirição do Ser, contemplação do universo, fruição do discurso amoroso—tinham-se-lhe esvaído na dissipação da vida. Por isso, todos os nós do Enigma estavam por resolver, como se a resolução de uns dependesse da resolução dos outros, e emaranhavam-no numa teia de insatisfação. O tempo de fuga para o futuro, onde poderia partir à procura das regras do Jogo através da palavra decifradora, designava a sua vida ainda a viver, fracção precária de si mesmo interposta entre o Eu actuante e o pairar da morte no horizonte. Para esse tempo delineara um projecto decisivo: desenovelar as questões-chave que o rondavam sem trégua nem resposta. No limite, animava-o a iminência de um confronto privado que, das longas horas de estudo e reflexão, da multidão de ideias e formas incompletas, pudesse responder ao desafio do Outro (…)

   Que impaciência dominava Fausto quando das longas leituras intentadas, visava apreender visões do mundo que outros tinham traçado, para delas alcançar a sua própria visão! Mas após ter absorvido em prazer e cansaço a substância de um livro numa alegria efêmera, logo outros e outros livros afirmavam os seus direitos a serem escutados e o compeliam a analisar ideias latentes em seus escusos corredores e câmaras. Imobilidade dolorosa do corpo… Corrida improfícua do pensar à descoberta de si mesmo… Renúncia a sóis, a crepúsculos, à música, ao amor… Uma vertigem mediada pela palavra guiava Fausto a pontos cruciais do questionar-primeiro, á clarificação das traves-mestras do Ser, do conhecer, do aparecer das aparências, mas que desembocava quantas vezes em esvaimento (…) Sofria no corpo e no espírito o despotismo do livro sobre o homem do ocidente: o livro doador de oferendas, instigador de promessas; mas também causador de impasses, tirano do repouso, rival da natureza…”

   (trecho de Doutor Fausto)

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[1]  De autores cuja carreira venho acompanhando com grande admiração, como António Lobo Antunes, Ricardo Lísias e Michel Laub foram publicadas obras “menores” com relação às suas anteriores (Comissão de lágrimas, Divórcio e A maçã envenenada, respectivamente),todavia não quero deixar de mencioná-los (e é bom lembrar, no caso do romance de Lísias, de que a repercussão foi enorme).

Também não estão na lista final e gostaria de mencioná-los: As miniaturas, romance que comprova ao mesmo tempo o talento e a imaginação de Andréa Del Fuego e sua dificuldade com a forma-romance; Ar de Arestas, com os  poemas sempre rigorosos e precisos de Iacyr Anderson Freitas; Pelas Beiradas, o livro de estreia do talentoso poeta Éder Fogaça; e, por fim, Esquilos de Pavlov, de Laura Erber, que trata de um mundo muito restrito como se representasse o Zeitgeist pós-1989, mas que é muito bem escrito.

[2] O autor gaúcho decerto pratica a verdadeira paródia, e não um pastiche, como seria mais fácil.

destaques

10/12/2013

QUATRO SOLDADOS e os caminhos que não levam a nenhum centro

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 “É um mundo aberto e cada um vai-se por onde bem entende, como crianças a brincar em sua caixa de areia. Chegará o tempo em que poderá, como marcadores de página no tempo e no espaço, retornar aos momentos em que as decisões foram tomadas e, dali, partir-se para outras possibilidades? Não cabe a mim dizer. Tampouco, sai aqui a cantar alegres baladas primaveris para compensar-te. Não é do meu feitio fazer rimas. Contudo, se buscas agora um divertimento leve, posso começar a última destas narrativas em tom de anedota, pois,  de fato, é assim que ela começa.

    Entra um padre ao bordel…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de dezembro de 2013)

   Em meados do século XVIII (há pouco acontecera o célebre terremoto que destruiu Lisboa, acarretando o debate universal sobre a Providência Divina), o Sul brasileiro, com os imbróglios (por vezes sangrentos) das divisões territoriais entre Portugal e Espanha, pode ser considerado um “fim de mundo”, no mais amplo sentido. Aí desfrutamos as aventuras do inexperiente Licurgo, do íntegro Antônio Coluna, do turbulento Andaluz e do estranho Silvério (ou Índio Branco), os quais justificam Quatro Soldados como título do primeiro romance de Samir Machado de Machado (a obra é especialíssima, o nome do escritor não menos, como se vê), uma vez que seu livro anterior, O professor de botânica, é considerado uma novela.

Há um Narrador cuja identidade só será revelada na página 278 (não aqui, apesar da tentação). É ele quem nos conduz pelas quatro partes do livro, exercitando-se de forma assaz garbosa: “Outra vez é minha a ingrata tarefa, na qualidade de teu narrador, de escolher uma história dentre muitas para ser narrada. Minto: tal assertiva não é verdadeira, pois não há diversas histórias. Há apenas uma, sempre a mesma, infinita, e obrigo-me a te convencer de que esta única história, que é o mundo, compõem-se de várias histórias menores, quando em realidade somente assim lhe parece por que arbitrariamente escolhi onde começar e onde encerrar. Então, por que narrar? Pelo simples motivo de que não há verdade ou fraude, tudo é ilusão, e nenhum significado maior pode ser atribuído enquanto não se tenha participado de uma narrativa e que esta seja contada—é a única forma de encararmos o vazio. E o primeiro modo que dispomos de narrativa é a própria memória, moldada à nossa conveniência, para dar sentido ao que somos…”): a princípio, com Licurgo na expedição a um entreposto isolado e cheio de mistérios (é cercado por um labirinto e no seu interior o alferes  encontra um velho que zela por uma biblioteca, a qual contém inúmeros clássicos e outros títulos não tão canônicos assim); depois ao âmago de uma mina (supostamente cafua de escravos fujões) onde vive um animal primevo e amedrontador[1].

Na primeira aventura, Licurgo é resgatado pelo valoroso capitão Coluna[2]; na peripécia subterrânea, tem como comparsa o Andaluz, contrabandista de livros, jogador, mulherengo —vive  num bordel em Laguna[3], onde investigará, na quarta parte, alguns assassinatos (por exemplo, o de um padre visitador), com a colaboração contrafeita do fanático, racista e perigoso Silvério, antagonista de Coluna (na missão de escoltar uma família rumo à sesmaria de sua propriedade) na terceira.

Não falta movimento (ou colorido) aos episódios.  Nem referências, muitas remetendo aos textos de Jorge Luis Borges[4]; outras, indo do pós-moderno Thomas Pynchon (cujo portentoso Mason & Dixon cobre o mesmo século, e fornece uma das epígrafes de Quatro Soldados) aos romances que plasmaram o gênero tal como conhecemos (pelo lado mais realista, tal como Fielding; pelo lado mais fantástico e/ou satírico, tal como Swift), dos enciclopedistas do Iluminismo ao Hamlet shakesperiano,  de Umberto Eco à memória afetiva da indústria cultural (como a mulata Adele Fátima, figura feminina que povoou a imaginação de muito marmanjão). Os aficcionados por games ou RPG também se sentirão em casa.

O paralelo é evidente (o que não torna Quatro Soldados menos criativo): assim como hoje a Internet e todas as possibilidades eletrônico-virtuais minam paradigmas, propondo possibilidades ainda a explorar (muitas delas, assustadoras para alguns), a Enciclopédia e o Romance no século XVIII abalaram um Centro já combalido, mudando a percepção humana com relação ao universo à sua volta, com seus reflexos chegando  confusamente à periferia da civilização[5].

Nas trajetórias dos quatro (embora Silvério tenha um aproveitamento no relato diferente dos demais)  mesclam-se o romance de formação, as aventuras fabulosas, a dialética de ideias e posições ideológicas, a intertextualidade. Como diz o Andaluz, referindo-se ao terremoto de Lisboa e à Enciclopédia: “São tempos interessantes, estes em que vivemos. Em que outra época se poderia imaginar que tamanha tragédia pudesse ocorrer no coração dos mais devoto dos impérios? Ou que todo o conhecimento do mundo possa se tornar universalmente acessível por um ÚNICO livro? As cousas estão sempre em transição, mas, em algumas épocas, parecem mudar mais rápido do que em outras.”.

As duas primeiras partes do romance de Machado de Machado (até o nome dele enfatiza o desdobramento de possibilidades, além de nos lembrar  nosso maior escritor) são extraordinárias. E é uma pena que as outras duas não alcancem igual nível (pelo menos, a meu ver), mesmo estando muitíssimo acima de qualquer média: aparecem elementos de besteirol como um infame cervo branco falante, e o próprio Andaluz muitas vezes se porta como aqueles chanchadescos personagens das telenovelas de Carlos Lombardi, trogloditas de bom coração, praticando um machismo “esclarecido” (nem por isso menos chauvinista)[6].

Não obstante esse desequilíbrio, o talento narrativo e a linguagem plasmada pelo autor gaúcho para mostrar o esgarçamento da costura de uma determinada era (“There are more things…—repetiu o Andaluz.—Sabes o que é irônico? O Tratado de Tordesilhas estabelecia o fim do mundo conhecido bem aqui, sob nossas cabeças, e tudo o mais que houvesse além era uma incógnita. E aqui estamos agora, à beira do fim do mundo, não é curioso? Esta é a nossa Tordesilhas…”) deixando entrever  um novo Zeitgeist (para o bem ou para o mal), garantem Quatro Soldados como uma memorável (e muito divertida) estreia no gênero.

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TRECHO SELECIONADO

“__ (…) Mas, de qualquer modo, voltando ao Voltaire, este homem, o Micrômegas, não nasceu na terra, e sim no planeta Sirius, e vem ao nosso mundo acompanhado de um amigo de Saturno para conhecer nossos costumes e…

__ Como se pode levar a sério tal cousa?

__ Ora, tanto se me dá, que são só firulas para divertir. O que importa é tentar ver nossos costumes do ponto de vista de outrem, como nós vemos aos estrangeiros. Um estrangeiro que fosse de outro mundo veria a todas as nações como donas e prisioneiras dos mesmos hábitos viciados, e nisso está o mérito de uma história assim….

    Licurgo encolheu-se nos ombros.

__ Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir a ler os novos—lembrou o garoto.—Afinal, não há tempo para se ler tudo… ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falsas e seres que não existem?

__ Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça!?—o Andaluz exaltou-se, erguendo os braços dum modo intimidante, particularmente seu, de tenor de ópera.—Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo… mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo. E algumas das mais fabulosas e distantes histórias do que se considera a Verdade e a Realidade são, por consequência, as que mais próximas chegam da essência das cousas. Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgava inconcebível.

__ Mas ainda assim é uma mentira. Como pode a Verdade nascer de uma mentira?

__ Decerto que conheces o Tratado de Tordesilhas? Teu rei assinou com o rei de Espanha um documento, dividindo a América entre os dous. Consegues ver Laguna daqui?—apontou para trás, para a vila, já distante deles mas ainda visível no horizonte.—Laguna era o limite do tratado. Por um acaso vês alguma linha traçada na terra ou no céu, a dividir o mundo em dous? Por um acaso algo muda no ar, nas árvores ou nos rios, ao serem separados entre dous reinos? O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”

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[1] Além da referência clara ao paradigma das estórias romanescas, esse episódio reflete a  obsessão dos gaúchos com a lenda do m´boitatá.

[2]  Coluna talvez seja o personagem mais marcante do romance:

“Estou cansado, e esse não é mais o meu mundo. Vossas mercês que nasceram nesta era de névoas podem ver cousas que aqueles como eu, nascidos em tempo de luz e treva, jamais compreenderiam mesmo que estivessem bem à frente (…) dar-me-ia a honra de saber-lhe o nome?

__ Antônio Coluna.

__ Ah, enfim. Sólida e constante, algo que não pode ser movido num mundo que não pode ser parado.”

[3] “…as moças gostavam dele em específico e ele das moças em geral, o que era de se esperar visto que, sendo soldado, e elas prostitutas, eram as duas profissões mais antigas do mundo dês que a primeira dama em perigo abriu as pernas em troco da proteção dum cavalheiro.”

[4] Tem o labirinto, a biblioteca, Astérion, há até uma brincadeira jocosa com a “escrita do deus”:

“Com o sabre, ele abriu-lhe a boca para ver-lhe as presas afiadas. A pele cor de chumbo tinha manchas negras que, num primeiro olhar, pareceram-lhe específicas e geométricas. Logo as percebeu aleatórias, como a pelagem de qualquer animal (…) Lembrava-se de já ter visto algo assim desenhado numa tapeçaria do palácio de Lisboa, por sua vez cópia de outra que havia em Paris, mas os artistas se baseavam em relatos exagerados, por vezes fantasiosos. Um índio, entretanto. Lhe falara certas vez sobre feras como aquela: jagua-ru…”

Aliás, com relação à aleatoridade das coisas:

“__ Não entendi. Está sugerindo que Deus não se importa?

__ Talvez Ele tenha abandonado seus filhos. Talvez tenha nos deixado sozinhos em sua criação. Ou talvez sempre estivéssemos sozinhos, e só agora percebamos.”

[5] “Perceberam então que não havia nenhum caminho que levasse ao centro.”

[6] Acho que o reparo acima precisa ser melhor explicado: eu, que não sou muito afeito a novelas, sempre achei as de Carlos Lombardi mais interessantes e inteligentes do que as de, digamos, Manoel Carlos ou Benedito Ruy Barbosa. Mas a sua fórmula foi repisada à exaustão (como vemos na atual Pecado Mortal, onde ele está tirando leite de pedra) e me incomoda basicamente por nos propor um herói que às vezes se revela uma incrível sagacidade, ás vezes uma incrível tosquice (e sempre, sempre há um sub-texto homoerótico entre ele e outros machos da história). Ora, é claro que Samir Machado de Machado opera num nível muito mais sutil, e basta ler o TRECHO SELECIONADO para ver que o Andaluz não é meramente um burrão (quando convém ao autor) gostosão lombardiano, mas em alguma medida o talentoso romancista se deixou levar por essa propensão de exaltar um tipo quase caricaturalmente másculo que fica provocando um outro (no caso mais gritante, Silvério). E, ao fim ao cabo, considero uma nota dissonante na harmonia do relato, pelo exagero (mas também pode ser apenas uma implicância minha).

artigo quatro soldados

03/12/2013

Da pertinência alegórica: A CIDADE, O INQUISIDOR E OS ORDINÁRIOS, de Carlos de Brito e Mello

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“(…) tudo pode dar errado, errado de muitas maneiras, se é que já não está dando. Não existe nada mais diverso do que o errado”. (de A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de dezembro de 2013)

Na Idade Média havia os Autos de Moralidade, cujos dramatis personae  representavam vícios e virtudes do comportamento humano. Com o colapso dos nexos morais, seria possível ressuscitar nestes tempos que correm tal linguagem, onde se mesclam o metafísico (a crença em valores espirituais substantivos) e os costumes?

Nas 470 páginas do surpreendente A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários , Carlos de Brito e Mello ousou uma abordagem contemporânea do gênero alegórico num romance em seis partes, sem narrador, composto apenas da fala dos personagens, que atendem por nomes como o Decoroso, o Bem Composto, a Impostora, a Amada, o Candidato, a Quituteira; ou então, por atribuição coletiva: as Vizinhas, os Passantes.

Numa cidade que representa um horizonte claustrofóbico e inescapável (embora Andarilhos tentem encontrar uma saída, nem que seja através de uma enxurrada)[1], o  Decoroso arvora-se Inquisidor. Não por atribuição de uma força divina (pois Cristo, chamado o Destinatário, ausentou-se do mundo, aparentemente de vez), e sim por sua vontade de redimir a civilização da sua “ordinarice”.

Com dois acólitos (o Apregoador e o Olheirento) a espreitar do alto de um edifício os cidadãos, arautos e vigias das suas ações inquisitórias, ele pune os que sucumbem à abnormidade, isto é, aqueles que por apatia e alheamento da ordem social se tornaram “bobos”:  condena-os  a ficar dependurados, de forma a serem constantemente vistos pelos demais habitantes da cidade,  ruminando seu crime ali nas alturas (“Citadinos, o mundo deixou de ser sagrado! Os novos templos localizam-se, agora, nas antenas dos prédios, beirais de janelas, grades de sacada, balaustradas de varanda e outras alturas desta cidade. Vocês ainda fazem questão de uma religião? Então, religuem-se, bobos, pela decorosa palavra do sr. Decoroso!”)[2].

Como bem resume o próprio Decoroso, a respeito dessa forma de moralidade  posta em prática pelo seu arbítrio: “Que lei? A lei dos que reconhecem que a civilização precisa de reparos; a lei dos que não recebem mais a bênção; a lei dos que têm esta comarca como chão frustrante; a lei dos que assistiram, estupefatos, ao desfolhamento dos outros códigos; a lei dos que desejam que os homens voltem a ser homens como um homem deveria ser; a lei dos justos; a lei dos limpos; a lei dos certos; a minha lei”.

A única voz que ousa insurgir-se é a da Impostora, chamada assim porque o Olheirento, com toda sua onisciência, não consegue discerni-la em meio à multidão, quando ela sussurra suas irreverências e seu deboche com relação a essa pretensa razão normativa, pois o disfarce pode ser a  própria pessoa: “Nestes tempos vigaristas, alguém pode se fantasiar, desonestamente, até de si mesmo”.[3]

Como se vê, pela ambição e escopo de seu eixo central, A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários já seria um livro fora do comum, na sua mistura de alegoria, Molière e teatro do absurdo (até com laivos circenses, pelas indicações cênicas que oferece desse povo todo dependurado). Porém,  Brito e Mello ainda se vale dos recursos e da flexibilidade do romance, ao propor tramas secundárias que vão “minar” o projeto decoroso do Inquisidor por meio não só da afronta à sua lei (há um “bobo” que prefere o suicídio à condenação), como do desalinho no comportamento (a princípio, inatacável)  dos que aderem a ela.

É o caso da Amada e do Bem Composto. Ela, cujo cotidiano é disciplinado e preenchido pelo uso correto das “medidas”, inclusive no emprego do tempo, num certo dia “fastidioso” perde esse metrônomo interno e não consegue preencher com atividades o horário que a separa da chegada do marido e os filhos, e então apela para o absurdo: refaz inutilmente todas as tarefas domésticas: “um monte de outras ações que, embora as execute, temo não serem suficientes para me ocupar até a chegada do meu Esposo e Filhos”[4]. Ele, que é o alfaiate do Decoroso, o qual lhe encomenda a toga perfeita para o cumprimento da sua missão, dá de ir todos os dias ao cartório (para horror do seu cliente, que começa a considerar a possibilidade de estar ali mais um “bobo”), tentando apagar seu nome e sua identidade anteriores à Compostura, por meio de trâmites na documentação não-reconhecíveis por nenhum notário[5].

Assim, o autor mineiro fornece a seus tipos alegóricos uma espessura e uma complexidade mais condizentes com a técnica do romance.  O humor (há brincadeiras com a cultura pop, com Watchmen, por exemplo: “Quem vigia os vigilantes”, pergunta-se o Olheirento) e a riqueza do texto, com suas formulações inusitadas (“Quem está perdida é a rua, que não sabe onde vai dar” , diz um dos Andarilhos)[6] são outros fatores que fazem de A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários, a meu ver,  a grande obra da ficção nacional de 2013.

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TRECHO SELECIONADO

Uma cena entre o circense e o teatro do absurdo, numa discussão dos ajudantes do Inquisidor:

O APREGOADOR

Ué, você é quem deveria saber, já que deu para falar de modernidade. Quem é que disse que a gente era moderno?

O OLHEIRENTO

Não sei bem quem disse. Disseram por aí. Alguma autoridade, talvez. Se ser moderno é ser novo, então não somos modernos. Veja esta cidade: nosso edifício está aos pedaços; a vizinhança é malconservada; existem montes de carros andando por aí que não deveriam sair da garagem. E não é só o que a gente consegue ver por fora. Sabe o encanamento? Estourado. O esgoto? Entupido.

O APREGOADOR

Mas ninguém nasce de bengala. Não há muitos nascimentos? Mais nascimentos que mortes? Então, nas pessoas, ainda há modernidade.

O OLHEIRENTO

As crianças já estão nascendo gastas; gastas e cansadas; gastas e usadas; gastas e enfraquecidas. E nós estamos ficando velhos.

O APREGOADOR

Nós?

O OLHEIRENTO

Nós.

O APREGOADOR

Há quanto tempo estamos aqui?

O OLHEIRENTO

Há muito tempo.

O APREGOADOR

Bom… se é como você diz… e se você faz tanta questão… sejamos modernos, então! Sejamos modernos enquanto é tempo!

O OLHEIRENTO

Assim, sem mais nem menos?

O APREGOADOR

Tem outro jeito?

O OLHEIRENTO

Bem… acho que não. Sejamos, então!

O APREGOADOR

Tá. Você primeiro.

O OLHEIRENTO

Eu o quê?

O APREGOADOR

Seja moderno, ora. Não foi você quem começou com esse assunto? Não foi você que ouviu, com seus ouvidos de onisciente, que esta cidade deveria ser moderna? Não é você que acha tudo velho e acabado? Estamos atrasados na modernidade. Daqui a pouco, já seremos outra coisa, sem termos sido aquilo que tínhamos de ser.

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[1] “Como o poste, o hidrante e as enxurradas, o senhor pertence a esta cidade! Daqui ninguém escapa! (…) O senhor é porcionário do que temos de melhor e, sobretudo, do que temos de pior, que é o que mais temos!”

[2] “Os velhos pecados perderam a graça, e nós, os desgraçados, fomos obrigados a abaixar os olhos do céu. Agora, em nossos horizontes nada belos, a aurora e o poente ficam encobertos pela pachorra do vizinho. Foi nesses covis de gente ordinária que se produziram os novos pecados e pecadores que o sr. Decoroso tem perseguido com afinco”.

[3] Há um forte componente “sexista” na aversão do Decoroso pela Impostora:

“Uma inquisição, mesmo se é ordinária, não pode negligenciar quem a ridiculariza com insinuações; com vitupérios; com brincadeirinhas fora de hora; com cochichos irônicos; ah, os cochichos irônicos! Com a malícia usual das rebeldes fêmeas; ah, a malícia usual das rebeldes fêmeas! A dona dessa voz metediça é quem eu costumo chamar de Impostora. Há canalhice aí, e sob a canalhice, poderá haver um monstro social”.

   Um dos pontos altos do livro é um momento meio paródia da “dança dos véus” de Salomé diante de um João Batista da legalidade, entre a Impostora e o Decoroso. Atente-se que A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários é um texto muito marcado pelo corporal (em suas instâncias físicas e metafóricas), e esse embate entre os dois personagens é uma das manifestações explícitas dessa característica. Aliás, em outra passagem, ela diz ao seu oponente:

“O senhor sabe melhor do que eu o que fazer com um corpo, sr. Decoroso, dependurando, por toda a cidade, homens castigados pela sua palavra. Nossos edifícios são agora decorados com extensões do seu corpo de inquisidor, como membros espalhados de uma única carne legal”.

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[4] “Pego para secar um dos talheres que lavei. Lá fora, o tempo virou. A roupa que lavei de manhã ainda está úmida. Pode chover. Não sei se deixei as janelas fechadas ou abertas. Vou ver assim que acabar a louça. Ficou uma raspinha de comida neste garfo aqui. Molho-o de novo; esfrego-o; fecho a torneira; enxugo-o. Verifico os outros talheres e o prato. Estão limpos. Pego todos os talheres para enxugar ao mesmo tempo; ponho-os sobre o pano; embrulho-os; esfrego-os; pronto, estão secos; guardo-os no armário.

    Abro a geladeira para guardar as sobras do almoço. Cada comida numa vasilha. Passo pano no fogão. Passo pano na pia. Passo pano na mesa. Vou até a área. A roupa está mais úmida do que imaginei. Venta lá fora. Baixo o varal e abro ainda mais a janela para o vento pegar nas roupas. Mas pode chover. Se chover, as roupas tornarão a se molhar. Subo o varal e volta a fechar a janela. De saída, confiro a cozinha limpa…”

   Depois de perder a “medida”:

“… Vou à mesa de jantar e desarranjo as frutas que ficam no centro; despenco as bananas. Vou ao armário, apanho uns livros e espalho-os sobre a cômoda. Vou até meu quarto e desfaço a cama. Nos quartos dos meus Filhos, também desfaço as camas. No banheiro, faço voltar para a gaveta as toalhas que dependurei mais cedo. Na cozinha, coloco talheres limpos e secos dentro da pia; sobre eles despejo sabão; então abro a torneira (…) Que esta casa imponha, de novo, as tarefas que já realizei. Daqui a pouco, recomeçarei a arrumação (…) Pronto. A casa está arrumada novamente. Tudo devolvido ao seu lugar e primando por sua limpeza. Quantas horas serão? Na rearrumação, deixei o relógio virado para o outro lado. Mas… Ponteiros bastardos! Ainda tenho tempo, muito tempo. O que eu teria feito hoje de errado com a medida das minhas tarefas? Tudo terminou tão rápido, duas vezes tão rápido! Se, pelo menos, meu Esposo e meus Filhos chegassem mais cedo…

   Novamente, deito-me no sofá. Este dia já foi primoroso, mas agora é fastidioso (…) levantar-me do sofá para abrir o baú com os retalhos de tudo o que não costurei nesses anos de ignorância quanto a costurar; transferir para o pote de plástico do banheiro, chumaço a chumaço, o algodão das caixinhas de papelão fino, branco e azul compradas na farmácia; examinar nas cortinas e no papel de parede da sala as áreas descoradas; e um monte de outras ações que, embora as execute, temo não serem suficientes para me ocupar até a chegada do meu Esposo e Filhos”.

[5] “Eu continuo sendo eu, entende, mas melhor do que já fui porque agora me chamo Bem Composto.”  Testemunhar essas ações do Bem Composto estraga para o Decoroso o prazer de ficar no cartório: “Vou passar as próximas horas relaxando um pouco no cartório. Que mundo encantado é aquele: regras, procedimentos, autorizações, registros, ofícios, processos e outras delícias de ver e de ouvir”.

A cena em que Bem Composto quer se entregar à Inquisição é um dos momentos mais bem compostos, se é possível o trocadilho, da arte de Brito e Mello:

O DECOROSO

Da compostura para a esquisitice; da esquisitice para a absurdidade; da absurdidade para a suspeita; da suspeita para a submissão.

O OLHEIRENTO

Predomina o sorriso no rosto do nosso inquisidor!

O DECOROSO

Adianto-me para abraçar o Bem Composto. Venha para a minha lei, compostura!

O APREGOADOR

Vão se abraçar o decoro e a compostura sob a lei da nossa inquisição!

O DECOROSO

Mas esperem um pouco!

O OLHEIRENTO

Opa!

O APREGOADOR

Que foi?

O DECOROSO

Como poderei eu celebrar que um notável homem cheio de compostura se voluntariou a uma inquisição que pune a bobeira?

O OLHEIRENTO

Foi-se o sorriso do Decoroso, Apregoador. Retorna a dúvida!

O  DECOROSO

Por outro lado, na parece sábia a decisão que o alfaiate toma quanto a tornar-se meu bobo?

O APREGOADOR

Retorna a dúvida, Olheirento? E como fica o abraço?

O OLHEIRENTO

Não fica! Cesse a apregoação!

[6]  Veja-se este outro trecho em que o Decoroso faz um “elogio” das plantas:

“É pena que não haja plantas. Gosto delas sempre que cultivadas em vasos, avisadas de que poderão continuar a ser plantas desde que não ultrapassem o limite que vai, em geral, do sofá ao televisor (…) antes eram natureza; agora são, no máximo, unidades portáteis de flora subserviente”.

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