MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/09/2017

A Galhofa e a Melancolia: Sobre o Humor de Manoel Herzog

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de setembro de 2017)

“Uma composteira é geralmente feita de duas caixas superpostas, na de cima descartando-se toda a produção de lixo orgânico de uma residência, à qual se agrega terra ou serragem de forma a permitir uma decomposição inodora. A formação de fases se esvai, por não compensar a compressão e armazenamento em escala doméstica, e o líquido (chorume) precipita-se à caixa de baixo, de onde pode ser descartado a cada tanto, abrindo-se uma válvula de purga”. Este trecho aparentemente inofensivo e ecologicamente correto esconde uma trama de traição, assassinato, obsessão, chantagem, e muita crueldade em A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE.

Costuma-se afirmar que o humor de Manoel Herzog é escrachado. Não sei se concordo com isso. Penso que ele segue a linha de Machado de Assis, do sarcasmo (não por acaso o nome do protagonista é Santiago), compondo uma crônica de costumes, tendo como cenário a Baixada Santista (especialmente Cubatão). O amor de Santiago por Natércia envolve o proletariado cubatense, o universo das gafieiras, a proximidade com o mundo marginal, num estilo muito divertido, para o leitor que curte o bizarro e o extravagante, porém no fundo sombrio e desiludido.

A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE se alinha na vertente dos relatos de ciumentos que atravessa a nossa ficção desde “Dom Casmurro”, uma vertente que mescla sofrimento e desfaçatez. Jorge Luis Borges dizia que Henry James era um resignado habitante do inferno. É o caso aqui.

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12/09/2017

Destaque do Blog: “O Mergulho”, de Juliana Diniz

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de setembro de 2017)

Juliana Diniz já disse a que veio no seu livro de estreia, “O Instante Quase”: ser uma das melhores autoras do momento. Ela tanto gosta de praticar a narrativa “tradicional” quanto de experimentar. É o caso de O MERGULHO, o qual evoca as obras do chamado “Noveau Roman”, movimento dos anos 60 que procurava tirar o prestígio dos personagens, tratando o ser humano como coisa entre coisas, mais um elemento na paisagem. A maioria dos críticos não aprecia, o que não é o meu caso, pois há dois gênios nessa leva: Marguerite Duras e Claude Simon.

“Sei que não o terei, mas sigo embalada para o salto, resignada com a brevidade frouxa deste presente sem passado ou futuro que sua chegada me concede. Seus olhos mais uma vez buscam os meus. É tempo, é esta a nossa hora”.

O MERGULHO nos apresenta um casal num lugar em ruínas, com destaque para uma piscina estagnada. Nada nos é informado sobre eles. Estão vivos? Estão mortos? Um está vivo e o outro morto? Não sabemos. Pressentimos uma história trágica.

Saímos das ruínas e passamos para a natureza selvagem, o mar adiante. Será uma libertação ou a repetição de um ritual de amor e morte? “Mergulhamos, as consciências mais uma vez cegas pelo abismo.
A água nos agita os cabelos, o corpo suspenso se contorce: a direção é qualquer direção.
É hora de soltar a sua mão, que se vai.
Meu corpo abandonado no infinito sem bordas,
Navega.
A maresia se desprende da superfície da água, em lentas evaporações. A névoa esmaece a paisagem, aquarela o céu, umedece os sentidos.
Suspenso é o mar transparente com gosto de sal.
Depois o nada.
Desmanchamos.
No (m)ar”.

Juliana Diniz não resolve enigmas. Só nos hipnotiza com o seu domínio da linguagem.

05/09/2017

A EMOÇÃO LÚCIDA DE “O SENTIDO INDIZÍVEL DO AMOR”

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 05 de setembro de 2017)

Emoção. Esse é o ar que o leitor aspira durante toda a leitura de “O SENTIDODO INDIZÍVEL DO AMOR”, onde Rosângela Vieira Rocha narra a morte do marido, José, depois de trinta e cinco anos de casados.

Como não se emocionar com os vinte e três dias de horror e impotência na UTI, com José definhando, vítima de espondilite anquilosante, doença degenerativa?

Como não se emocionar com status social forçado de viúva, a qual mesmo assim se aventura a investigar a única “zona de sombras” de seu casamento: o passado de José como prisioneiro político da ditadura militar e as indizíveis torturas a que foi submetido. Rosângela chega a viajar para Lisboa para saber mais sobre a militância de José numa visita a um ilustre companheiro de prisão e martírio. “Eu o queria de qualquer maneira, desejava um resquício de sua presença, uma mínima prova de sua existência, nem que fosse ver algum médico da equipe que cuidara dele. Tinha necessidade de saber como acontecera. Como era possível que alguém antes vivo e essencial na minha vida desparecido assim?”.

A emoção de O SENTIDO INDIZÍVEL DO AMOR, que nunca resvala para a pieguice, é lúcida. Usando seu talento de contadora de histórias, a autora embaralha o tempo cronológico, proporcionando uma visão total de seu casamento e de sua viuvez. E deixa uma advertência para nossas perigosas perspectivas atuais: “Seria importante que José tivesse contado às sobrinhas pelo menos parte de sua experiência. Legados espirituais são relevantes, sobretudo quando possuem conteúdo histórico”.

 

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