MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/05/2018

UM AUTOR QUE PRECISA SER DESCOBERTO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente na FOLHA DE SP em 21 de maio de 2018)

O paraibano Roberto Menezes, professor de física teórica é uma das grandes revelações literárias dos últimos anos, porém não logrou romper o muro do Rio de Janeiro – São Paulo para escritores “regionais”.

Agora a Patuá edita uma segunda versão de seu romance “PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS”, bastante alterada com relação à primeira (publicada na Paraíba), inclusive no aspecto gráfico, mas os dois pilares narrativos se mantêm. O primeiro é o sequestro de um vereador por sua ex-esposa, a protagonista, numa situação às Stephen King (é vasto o universo de referências no texto). Maria obriga seu prisioneiro a ficar com pálpebras abertas, costura sua boca e divide com ele um coquetel de remédios tarja preta, o objetivo é fazê-lo ler o que escreve no computador. “Palavras que devoram lágrimas” é o texto digitado por Maria. Como ela mesma afirma, é “uma fabricadora de frases de tirar o fôlego”.

O segundo pilar narrativo é o relato de como Maria vai lixando as camadas da parede do quarto dos sete anos de casamento. Cada camada traz associações, ganhando até apelidos: temos bege-leite condensado, verde anágua, azul inferno (que domina o relato) e por aí vai…

A parte final mostra o efeito dos remédios e adquire um tom alucinatório.

Será que Roberto Menezes desta vez sossegou ou no futuro leremos novas palavras da voz agônica de Maria?

 

Livro: “Palavras que devoram lágrimas”
Autor: Roberto Menezes
Editora: Patuá
Páginas: 120
Quanto: R$ 38,00

24/04/2018

TODO LÉU É UM MUNDO: SEGUNDA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de abril de 2018)

Na semana passada, iniciei um comentário sobre “CONVERSA DE JARDIM”, afirmando que “Vasto mundo” era o nó central do livro, pois Maria Valéria Rezende fazia uma segunda versão à época das conversas com Roberto Menezes.

A primeira versão foi considerada uma coletânea de contos, a nova provaria que se tratava de um romance, desfazendo o equívoco. Este assunto suscita contradições interessantes: fiquei chateado porque Maria Valéria desdenhou autores que planejam de antemão seus livros (assim fazia o grande Autran Dourado, o qual até escreveu uma obra detalhando os seus processos de criação: “Matéria de carpintaria”), e afinal lá estava ela com questões de planejamento e carpintaria.

No capítulo “V – Sucatas e quebra-cabeças”, lemos: “’O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Acho que os livros saem de um imenso depósito que tem na cabeça, um depósito de peças de vários puzzles de um quebra-cabeça bem peculiar, essas peças todas misturas que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora do mundo, que vem de dentro de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu’, Um grande quebra-cabeça, uma sucata, que dá no mesmo, uma sucata que a gente vai jogando lá o que a gente encontra na beira da estrada, com você falou, o tempo todo catando, e jogando lá, catando e jogando lá, e é uma sucata diferente, aqui os pedaços não preservam sua solidez, eles interagem, se interferem, numa transmutação à revelia da gente”.

Há uma confissão comovente de Roberto Menezes no capítulo “XVII – Qualquer mundo ao léu”: “Valéria, invejo a tua vasta experiência de vida, e dentro dessa tua experiência, a bagagem que você tem em literatura é admirável, você leu tudo o que quis, teve incontáveis escritores na família, estudou em boas escolas, pôde conhecer o mundo de perto, aí, até sem querer, fico aqui comparando tudo isso coma vida que tive, minha família era bem pobre, eu, meus irmãos, a gente estudava em escola estadual que quando podiam, meu pai, vendedor ambulante, nem quarta série estudou, minha mãe parou na segunda série, pois, bem distante da minha realidade, na infância a minha relação com os livros era de caça ao tesouro, livro pra mim era coisa rara, acredite se quiser, quando eu tinha uns oito, nove anos, eu torcia pra chegar aos sábados, nos sábados vinhas as testemunhas de Jeová, nem precisava bater, eu já tava lá esperando, a nova edição da revista A Sentinela”.

Parabéns às testemunhas de Jeová, nos deram um físico teórico e um grande escritor. Como já disse, um fabricador de frases de tirar o fôlego.

17/04/2018

QUALQUER LÉU É UM MUNDO: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de abril de 2018)

Confesso que sou imodesto, pois vou comentar um livro que me é dedicado e no qual sou citado várias vezes. Trata-se de “CONVERSA DE JARDIM”, todo mundo sabe que Maria Valéria Rezende é uma das nossas maiores escritoras, mas talvez não saibam que a casa onde mora, em João Pessoa, tem um maravilhoso jardim (eu sei, pois estive lá em diversas ocasiões) e ali manteve entre 2015 e 2017 conversas com Roberto Menezes, físico teórico “fabricador de frases de tirar o fôlego” (como diz Maria, narradora do seu admirável “Palavras que devoram lágrimas”, editado pela Patuá).

Roberto organizou o livro de forma inteligente, não linear, com capítulos curtos celebrando o ato de escrever. Temos: “Disciplina sem rotina longe da ritalina”, “Sucatas e quebra-cabeças”, “A voz do chão”, “Regras próprias”, “Cemitério de planos cemitério de memórias”, “Vasto mundo” (que é a meada principal para a qual a conversa sempre volta), “Da mente pro papel”, “Escrita no gen”, “Qualquer mundo ao léu”, “Além do solipsismos”, “Apanhando o mundo com a mão”, “Da memória e seus ardis” e “Até já”, são alguns dos leitmotivs que conduzem fecundos diálogos desses dois geniais tagarelas (e quem conhece Maria Valéria sabe que ela é uma incansável Xerazade): “Tem um amigo que diz que sou uma escritora materialista. Nunca faço longas digressões sobre a subjetividade. Na verdade, o sentimento, o que pensam os meus personagens, passa através das ações, do movimento, das descrições das coisas. Ultimamente tenho usado sempre um narrador na primeira pessoa, uma narradora, aliás. É em primeira pessoa, mas não é por ser em primeira pessoa que vou cair na falácia de ficar dissecando os seus sentimentos, nem os meus, como já disse. Faço com que ela, do seu jeito, fale do mundo que está fora dela. E quando ela imprime sua visão do mundo, necessariamente revela o seu ponto de vista”.

No capítulo XVII: “não existe isso de não poder ser escritor pelo fato de nunca ter viajado. Faz assim, dá pra esse jovem ler o meu ‘Quarenta Dais’, que é a descoberta de mundo e mais mundos, você viaja, tem mil viagens a fazer. ‘Quarenta Dias’ é uma odisseia, ‘A pé, ao léu. Numa pequena parte de uma cidade. Qualquer léu é um mundo. Tem que absorver o mundo pelos cinco sentidos” (continua semana que vem).

18/08/2015

ROBERTO MENEZES E O RELATO FEMININO COMO ALEGORIA POLÍTICA: “JULHO É UM BOM MÊS PARA MORRER”

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«Oh! Ninguém tente me compreender, ninguém procure me entender. É inútil, pois eu mesma não atino com os meus desacertos» (trecho de Os olhos da treva, de Gilvan Lemos)

«Estávamos acima de tudo. Livres. Não queremos um rosto. Não queremos vida, nem futuro. Só estamos fugindo.(…) este breve segundo, frame, eu posso chamar de vida. E é assim que se livra dos seus atos pecaminosos e da sua inquisição mental constante: sendo pior sempre». (trecho de “Zumbis”, do livro Arranhando paredes, de Bruno Ribeiro)

«Ela não me salvou. Ninguém salva ninguém. Esse negócio de salvação é mais uma balela de gente grande. O acaso, foi ele, o acaso fez com que Lara entrasse um ou dois minutos antes que realmente enfiasse o revólver aqui no peito e disparasse […] Lara não me salvou, só adiou, só bifurcou meu caminho pra outra morte. Mais alguns arrodeios. Morrer em dezembro não é morte boa. Julho, esse sim é o mês da boa morte… »

«…o que posso fazer, sempre fui assim, sempre procurei combustíveis para me impulsionar…» (trechos de Julho é um bom mês para morrer)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2015)

Um dos mais brilhantes talentos da nossa ficção atual, Roberto Menezes, esteve por anos restrito a edições regionais. Agora ele tem a chance de ampliar o círculo de leitores-admiradores: seu novo romance, Julho é um bom mês para morrer, ganhou edição pela pequena, porém prestigiada, Patuá e, pelo menos para mim, já desponta como o candidato a destaque de 2015 no gênero.

No início da leitura, temi que ele repetisse o tipo de relato que eu achara sensacional no livro anterior, Palavras que devoram lágrimas[1]: uma narradora que digita obsessivamente, com um sentido de urgência, desta vez não para o ex-marido de quem se vingará, e sim para a mãe que a abandonou, em 1984 (ela tinha 4 anos). Todavia, não só a voz de Laura é totalmente diferente (essas vozes femininas tão marcantes e diversas,  um dos aspectos do virtuosismo de Menezes), como também Lucy, a interlocutora, desta vez, é mais um pretexto (e uma busca desesperada por lastro). Ao contrário de uma protagonista que escavava as camadas do seu passado e de sua ascensão social, temos uma mulher que se mura (literalmente) contra um presente no qual sua existência se insubstancializou, perdidas todas as referências. Num apartamento-bunker, ela espera a chegada de julho e da demolição do edifício já anacrônico (mesmo sendo dos anos 1980) para as exigências da especulação imobiliária que muda rapidamente a face de João Pessoa, como das cidades em geral. Todas as eras têm suas torres.

A referência a 1984, ano da fuga da mãe, não é aleatória. De maneira altamente astuciosa, Menezes pinta e borda o retrato de uma geração, e sobrepõe sorrateiramente três momentos políticos distintos: o da abertura política (e inflação estratosférica); a era FHC e o tsunami da globalização (que coincide com a virada do milênio); a era pós-Lula. E, enrodilhado nessa espiral, um nordeste ainda sertão e de longa duração que permaneceu apesar de tudo, para o bem e para o mal, simbolizado pela figura fantástica de Noêmia, a voínha de Laura, mulher que perdeu três filhos afogados num açude, refez a vida e viveu até os 94 anos, chegando a 2002 (quando morre em plena vitória brasileira na Copa). Mesmo dura, avara de demonstrações afetivas, sua ausência acelera o mergulho fatal de Laura no fenômeno mais inquietante da nossa época: a ausência de futuro, o presente (mais ainda, o instantâneo, o fortuito, o descartável) como linha do horizonte, aonde você chega de quê? para quê?, e é tudo junto, misturado, indiscernível(«O que de fato foi importante veio quando eu não procurava: uma enxurrada. Não tem como elaborar plano de contingência ou prioridades, dizer, calma, a gente tem que ir por partes, por ordem cronológica. Essa lógica não funciona, tudo vem atropelando tudo»).

A modernidade agora é líquida. E a água é um elemento opressivo em Julho é um bom mês para morrer[2]: inclusive, há um quadro na casa de voínha (ela nunca gostou dele, porém presenteia Laura com ele, na véspera do novo milênio) que representa o episódio bíblico da travessia do Mar Vermelho. Voínha diz à neta que, apesar da figura de Moisés, e do milagre ali retratado, nunca conseguiu encontrar Deus no quadro. Mas essa desilusão tornada atávica, essa descrença, não deixam de ser projetadas mesmo assim sobre uma resistente Grande Narrativa, que ainda tem força e espessura (religiosidade, família, valores estáveis). O quadro pendurado no apartamento de Laura, nada dessas tradições terá sentido ou consistência para ela («Mandou eu procurar Deus nesse quadro imprestável que encaro. Desde aquele dia ele vive pendurado do meu lado»[3]). Até sua nostalgia já vem envenenada pela ironia (e olhem que ela não se furtará a usar o termo “milagre”, num contexto cujo final será dolorosamente trágico, na virada): «Digo e repito, sou de uma geração que é dada a estragar finais»[4].

O que torna Julho é um bom mês para morrer mais fascinante ainda (afora sua constelação de motivos e imagens, trabalhada como uma túnica inconsútil, nada faltando, nada sobrando) é o alinhamento da voz de Laura a um fenômeno que vem rendendo pontos altos da nossa ficção recente (penso em Por escrito, de Elvira Vigna, sobretudo, mas também em Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende e, em certa medida, em F, de Antônio Xerxenesky): relatos cáusticos, desencantados e agônicos de mulheres que fogem inteiramente do estereótipo “intimista” e enveredam para alegorias políticas dos rumos do país. Antes, eram somente protagonistas masculinos (os de Machado são o paradigma supremo) que proporcionavam essa mirada alegórica. A emancipação da mulher até na ficção. Já era hora.

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TRECHO SELECIONADO

«Na festa, cada um pro seu lado. Brizola foi vender e eu pra frente do palco ouvir o som na massa, só curtindo a vibe. A suadeira no corpo, o trismo, a vontade de não beber nada, a excitação brotando da pele. A música tocava, e eu lá, no meio daquela galera, abestalhada com meus sentimentos misturados como a caipifruta fajuta que esquentava na minha mão. E eu nem queria saber, só dançar, dançar a nova de Magníficos como se fosse a última música que fosse dançar na vida; e sentir o barato—dançar é isso, porra! Anota aí no dicionário. Dançar só faz sentido com ódio no coração. Meu coração batia, batia, batia, como se quisesse arrombar alguma porta, a raiva era o meu par nessa valsa. Olhando agora de longe, Laura era só aquela hora, o instante, o não antes, o não depois; não havia nenhuma avó  pra colocar Laura na inércia de esperar o século passar, não havia nenhuma mãe para desestabilizar Laura e fazer ela quer fugir pelo mundo; nenhuma dessas duas coisas tem sentido quando não tem o tapete do tempo pra caminhar. Poderia o mundo acabar que eu já estava arrebatada, numa efervescência de mim comigo mesma; as pessoas ao meu redor não compartilhavam do que eu sentia, e pra mim, tanto fazia quem eram, meros forrozeiros de merda, só coadjuvantes do que se passava aqui dentro[…] E olhe que tudo isso se fazia no meu corpo e na minha mente por causa de duas cheiradas e meio papelzinho menor que um grão de arroz.

   Comemorar o prêmio da loteria?, balela, era desse estado que eu tinha saudade, de me deixar guiar por essa química, por essa química que dirigia meu carro sem direção. Poderia fechar os olhos e evaporar sozinha… »

resenha impressa

NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2015/08/16/roberto-menezes-e-seus-joguinhos-de-altissimo-baixo-calao-palavras-que-devoram-lagrimas/

[2] Há afogamentos e tentativas de afogamentos (num açude no sertão, no mar), e não podemos esquecer da ironia tremenda da expectativa de ver e ouvir o mar, quando menina, e o pai compra um apartamento que é o máximo da modernidade da sua época, e depois, já uma torrezinha em meio a verdadeiras torres-monstros (o complexo de Dubai que se apossou dos construtores), ela agradecer não poder nem ver nem ouvir o mar. Aqui, como em todo o romance, a percepção pessoal e o processo social se entrelaçam fortemente.

[3] Logo nas primeiras páginas: «Quis ser como voínha depois que saquei que o futuro que eu esperava não foi o que veio».

[4] Diga-se de passagem, que embora indo na jugular da chamada pós-modernidade, Roberto Menezes não cai nos vícios habituais do exercício literário pós-moderno. Até a erudição no campo da Física Teórica (sua área como professor e acadêmico), utilizada com sutileza e grande beleza (como as especulações cosmológicas) no romance, se cola à percepção e conhecimento da narradora.

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16/08/2015

Roberto Menezes e seus joguinhos de altíssimo baixo calão: “Palavras que devoram lágrimas”

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[uma versão do texto abaixo foi publicado originalmente no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 15 de julho de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/07/as-devoradoras-palavras-de-roberto.html]

«.… é pegar pesado? Acho que não, sem sombra de dúvida, não…»

1

Fiquei tentado a enganar meu leitor, enfatizando o lado “história de vingança”, com toques macabros à Stephen King, de Palavras que devoram lágrimas, romance que faz parte da coleção digital Latitudes (EGalaxia).

Não seria uma mentira nem algo descabido. Roberto Menezes não tem medo de incorporar o universo de King ou outras referências da indústria cultural  («ops, fiz de novo, como diria a britney»); no entanto, estaremos mais próximos da radicalidade e do efeito avassalador do texto do autor que, nascido em 1978, é professor de Física Teórica na Paraíba, se o pensarmos na linhagem de um Paixão segundo G. H. (1964), de Clarice Lispector, ou de alguns filmes bergmanianos (como Através de  um espelho, 1961), no sentido de que derruba as escoras, que escava as fundações, que põe a nu os tapumes que cercam nossa condição humana.

A própria narradora diz que é «paleontóloga de nascença», e esse exercício de escavação, de desnudamento, de despojar-se de todos disfarces e libertar-se de todas as amarras, no verdadeiro palimpsesto que é o relato, ironicamente é realizado através da digitação obsessiva; ou seja, no uso mesmo da tecnologia mais presente, vamos ao recôndito do ser-aí, ao “nada e nossa condição” (G.Rosa).

Assim como acontecia com G.H., o que nos incita a penetrar nessa região sempre inóspita (essa dos confins da nossa condição) é o incrível apelo da “voz” inconfundível do personagem, que vemos se configurar na página em branco, e que é a isca de Menezes para nos arremessar nos estratos da sua paleontologia narrativa trepidante e frenética[1]. Portanto, vamos ouvir um pouco da “voz” de Palavras que devoram lágrimas:

«…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. Por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. Gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. Necessárias e pertinentes. No mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. Foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! Nem sei quando vou pagar. Puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. E esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. Estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. Não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. Agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. Posso também agora passar pro próximo ato. Da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. Olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? O nosso nosso banal que todo casalzinho tem…»

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2

Antes de levar a cabo seu plano de vingança contra o ex-marido, um vereador, ela leva o leitor a uma «expedição aos motivos reais», por meio de «joguinhos de altíssimo baixo calão»[2]. E vai lixando aos poucos as camadas de tinta do quarto de casal no apartamento que sobrou da relação (e cuja posse será transferida mais tarde a um mendigo).

     O achado que envolve essas sete camadas de tinta («… lembre da parede e das sete camadas de tinta. Só arranquei a primeira, há seis níveis de solo neste aconcágua para escavar…»), uma para cada ano, não é tanto o recurso “paleontológico”, o efeito-palimpsesto (ou, para usar um termo do próprio relato, «inomogeneidade»), que ele permite como estruturador do discurso da narradora, mas as ressonâncias poéticas e imagéticas que ele proporciona ao talento transbordante de Menezes (mantido sob controle por conta das situações narrativas, bem entendido).

A cor de cada camada remete a toda uma gama de associações. Por exemplo, a primeira camada é bege, meio “leite condensado” meio “porra” (não esqueçamos, é a cor do estágio do final do casamento); tem uma camada de um genial “verde-anágua”; tem a camada de um “vermelho inespecificado”, que acaba sendo uma “cor natimorta”; tem ainda a camada amarelinha, “com cor de casca de ovinho de patinha”; lixando mais fundo, uma camada salmão: «… nosso terceiro ano, como eu vou esquecer? Como você vai esquecer? O ano que finalmente eu dei o meu cuzinho quadrado pra você! ».

E chega-se à camada “azul inferno”, momento de grande virtuosismo do romance, em que percebemos que a corda está esticadíssima, num ponto onde pode arrebentar, ou permitir que o leitor passe para estratos ainda mais perturbadores (por puro gosto de citar o texto, mais duas passagens: «… por mim, eu ficaria neste azul inferno, mas prefiro, assim, depois de muitas páginas, lixar de vez, outra vez…»; « … tenho dom de lixar paredes e de me lixar…»; ah, essa voz hipnotizante e perigosa dos personagens-narradores carismáticos!): chegamos então à última camada, “branco gelo mais para a neve”, e concomitantemente «já entramos no último ato do meu desabafo…».

A essa altura do texto, não há um elemento que não permita associações inauditas, e por essa razão prefiro terminar com mais uma citação do próprio livro (e acho que o ror de citações demonstra bem o quilate dessas camadas e camadas de texto lixado), que nos remete novamente ao seu toque stephenkinguiano:

«… remorso é uma palavra úmida, não combino com palavras úmidas, combino com lixa, pó, galho, ponta de faca, navalha, estilete…»

_________________________________

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/07/26/destaque-do-blog-palavras-que-devoram-lagrimas-ou-a-felicidade-cangaceira-de-roberto-menezes/

palavras são à vera

NOTAS

[1] Desde que li pela primeira vez, aos 18 anos, O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, permaneceu comigo a convicção de que se a voz do personagem me hipnotizar, serei levado para qualquer lugar que o autor pretenda. Depois recolherei os cacos, contabilizarei os danos, entesourarei os ganhos

[2] Não falta aqui sequer o discurso ressentido nu e cru, no sentido do alpinismo social: «não sou como você, que deve culpar sua mãe, que lhe ensinou a escravizar cada nervo do seu rosto e só sobrou a sobrancelha esquerda…»; a mesma mãe que «queria domar a menina candanga sem classe nem caligrafia aceitável pra cortar um lombo parisiense com a faca de sete gerações».

mais vendidos

26/07/2013

Destaque do Blog: PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS (ou “a felicidade cangaceira”), de Roberto Menezes

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“Fora dentro, tudo é fora.” (Roberto Menezes, Pirilampos cegos, 2007)

“… as palavras sempre são à vera. as palavras são sempre tiro de fuzil, faz um furo quando entra e uma cratera na parte de trás. quem leu e não entendeu, sentiu. o ato de ler, meu caro, é um furinho quando entra, o impacto das palavras é lá dentro, já que estão dentro, se entendeu ou não, já que estão lá dentro, é à vera, é granada rancorosa…” (Roberto Menezes, palavras que devoram lágrimas, 2012)

“… é pegar pesado? acho que não, sem sombra de dúvida, não…” (idem)

Fiquei tentado a enganar meu leitor, enfatizando o lado “história de vingança”, com toques macabros à Stephen King, de palavras que devoram lágrimas, um dos romances mais sensacionais que li nos últimos anos[1].

Não seria uma mentira nem algo descabido. Roberto Menezes não tem medo de incorporar o universo de King ou outras referências da indústria cultural dominante (“ops, fiz de novo, como diria a britney”); no entanto, estaremos mais próximos da radicalidade e do efeito avassalador do texto do autor pernambucano (mas de vivência predominantemente paraibana, salvo engano) se o pensarmos na linhagem de um Paixão segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector, ou de alguns filmes bergmanianos (como Através de um espelho, 1961), no sentido de que derruba as escoras, que escava as fundações, que põe a nu os tapumes que cercam nossa condição humana. A própria narradora diz que é “paleontóloga de nascença”, e esse exercício de escavação, de desnudamento, de despojar-se de todos disfarces e libertar-se de todas as amarras, no verdadeiro palimpsesto que é o relato, ironicamente é realizado através da digitação obsessiva; ou seja, no uso mesmo da tecnologia mais presente, vamos ao recôndito do ser-aí, ao “nada e nossa condição” (G.Rosa).

Eu sei, eu sei, tenho a consciência de que parece meio grandiloqüente, mas assim como acontecia com G.H. (é digno de nota que haja a “maldição Clarice Lispector”, com tantos imitadores[2], e que o nosso autor—cujo universo pouco tem a ver com o dela, em aparência—pertença muito mais genuína e legitimamente à sua linhagem; se me perguntassem onde está um clariceano de verdade na ficção atual, descartados os epígonos e pastichadores, apontaria Menezes sem hesitar), o que nos incita a penetrar nessa região sempre inóspita (essa dos confins da nossa condição) é o incrível apelo da “voz” inconfundível do personagem, que vemos se configurar na página em branco, e que é a isca de Menezes para nos arremessar nos estratos da sua paleontologia narrativa trepidante e frenética. Aliás, desde que li pela primeira vez, aos 18 anos, The catcher in the rye- O apanhador no campo de centeio, permaneceu comigo a convicção de que se a voz do personagem me hipnotizar, serei levado para qualquer lugar que o autor pretenda. Depois recolherei os cacos, contabilizarei os danos, entesourarei os ganhos.

Portanto, vamos ouvir um pouco da “voz” de palavras que devoram lágrimas, abstraindo a discutível opção de escrever tudo em minúsculas, inclusive o início de frases e parágrafos, uma solução formal que corre o risco de ser tomada como mero modismo[3], e ao fim e ao cabo não acrescenta nada ao ritmo ou ao impacto do texto (mesmo se levando em conta que a narradora está em pleno ato de digitação):

“…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. necessárias e pertinentes. no mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! nem sei quando vou pagar. puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. e esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. posso também agora passar pro próximo ato. da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? o nosso nosso banal que todo casalzinho tem…”[4]

Pois bem, antes de levar a cabo seu plano de vingança contra o ex-marido, um vereador (não falta aqui sequer o discurso ressentido nu e cru: “não sou como você, que deve culpar sua mãe, que lhe ensinou a escravizar cada nervo do seu rosto e só sobrou a sobrancelha esquerda…” [5]; a mesma mãe que “queria domar a menina candanga sem classe nem caligrafia aceitável pra cortar um lombo parisiense com a faca de sete gerações”), ela leva o leitor a uma “expedição aos motivos reais”, por meio de “joguinhos de altíssimo baixo calão”. E vai lixando aos poucos as camadas de tinta do quarto de casal no apartamento que sobrou da relação (e cuja posse será transferida mais tarde a um mendigo[6]): “…paciência é uma coisa que se consegue aos gritos…”

     O achado que envolve essas sete camadas de tinta (… lembre da parede e das sete camadas de tinta. só arranquei a primeira, há seis níveis de solo neste aconcágua para escavar…”), uma para cada ano (“…é tudo uma questão de paranóia de uma sem-vergonha que aceitou as trinta mil moedas auspiciosas em troca de um cruzeiro de sete anos e outros desatentos comprimentos de tempo pelo oceano colorido e desgraçado do nosso fim…” [7]) não é tanto o recurso “paleontológico”, o efeito-palimpsesto (ou, para usar um termo do próprio relato, “inomogeneidade”), que ele permite como estruturador do discurso da narradora, mas as ressonâncias poéticas e imagéticas que ele proporciona ao talento transbordante de Menezes (mantido sob controle por conta das situações narrativas, bem entendido).

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A cor de cada camada remete a toda uma gama de associações. Por exemplo, a primeira camada é bege, meio “leite condensado” meio “porra” (não esqueçamos, é a cor do estágio do final do casamento): “… cor de leite condensado a partir de agora é minha cor favorita. se ele fosse minha favorita há uns dias, eu não teria lixado a parede, que merda, não posso voltar atrás depois de ter derramado o leite ou as palavras…”; tem uma camada de um genial “verde-anágua” [8]; tem a camada de um “vermelho inespecificado” (“foi de uma mistura feita na máquina que simplesmente gostei. simplesmente, adoro esta palavra, simplesmente gostei, é esse o que eu quero e ponto final. como não acredito em pontos finais, ao contrário do dia que comprei, quando lixei o verde anágua não gostei do vermelho que vi (…)nem todo vermelho é o vermelho que se quer…), que acaba sendo uma “cor natimorta”; tem ainda a camada amarelinha, “com cor de casca de ovinho de patinha”, a camada do tempo em que “…virei uma aleijada…”: “..você me cercava como o cercado cerca as cabras, era um cercado de muitos vocês…”; lixando mais fundo, uma camada salmão: “… nosso terceiro ano, como eu vou esquecer? como você vai esquecer? o ano que finalmente eu dei o meu cuzinho quadrado pra você!” (deixando de lado, o enigma delicioso e irrelevante de como seria exatamente um “cuzinho quadrado”, que me tomou alguns momentos da vida, em tentativas de visualização imaginativa, foi este “o miserável ano da cor salmão”, “ano do cu doído”).

E chega-se à camada “azul inferno” (“…e por falar em inferno, vixe, é realmente um purgatório isso aqui…”), momento de grande virtuosismo do romance, em que percebemos que a corda está esticadíssima, num ponto onde pode arrebentar, ou permitir que o leitor passe para estratos ainda mais perturbadores (por puro gosto de citar o texto—e tendo em mente que boa parte dos meus leitores terá dificuldade de acesso a ele—mais duas passagens: “… por mim, eu ficaria neste azul inferno, mas prefiro, assim, depois de muitas páginas, lixar de vez, outra vez…”; “… tenho dom de lixar paredes e de me lixar…”; ah, essa voz hipnotizante e perigosa dos personagens-narradores carismáticos!): chegamos então à última camada, “branco gelo mais para a neve”, e concomitantemente “já entramos no último ato do meu desabafo…”.

A essa altura do texto, não há um elemento que não permita associações inauditas: “…trouxe o travesseiro recheado do alarido de noites insones…” é um exemplo.

Mas aí entra o “concreto”, o limite da parede toda lixada. E temos o impasse que acossa a parte final. Há a genial situação stephenkinguiana da execução da vingança, sobre a qual não entrarei muito em detalhes (embora peça ao meu leitor que dê uma ligeira olhada na capa da edição, que não é aleatória). O limite? Não, se “no cerne do concreto”: “… você já sabe o que eu vi, o que eu vi foi a minha alma (…) só eu vi, alma supurina de adamantium…”.  Nesse ponto, o motor (já estamos em outro rol de metáforas) já sofreu a operação de desmonte, e pode ser remontado: “… só que as peças não estão no lugar onde começaram, bem ao estilo das obras do pac…” Creio que a partir deste ponto Roberto Menezes perde o controle do motor de palavras que devoram lágrimas, cuja característica mais incrível era justamente se manter numa estrutura de adamantium, mesmo com a febricitante capacidade do seu autor de propor imagens e associações.

Depois de um detalhe discutível, até mesmo um banal clichê (a revelação de que ela um dia apanhou em flagrante o marido sendo enrabado por outro homem), que pouco acrescenta à loucura da história, o romance vai se encaminhando para uma espécie de ritual wagneriano de morte das individualidades do casal, numa dicção onírica (e formalmente insatisfatória) em que um é ao mesmo tempo o outro.

Creio que alguns leitores ficarão arrebatados por esse transbordar da cuidadosa moldura narrativa. No meu caso, considero ¾ de palavras que devoram lágrimas uma das experiências de leitura mais intensas e estimulantes que já vivenciei, e espero ardentemente que para uma futura edição, seu talentoso autor repense o uso inócuo das minúsculas e todo o quarto final, tão desajeitado e frustrante quanto o subtítulo. Curiosamente, acaba sendo a mesma sensação de desperdício da leitura da quase totalidade dos livros de Stephen King, A dança da morte (1978) à parte: ideias e situações geniais, onde ao final o bebê é jogado fora junto com a água que o lavou.

No mais, prefiro terminar com uma citação do próprio livro:

“… remorso é uma palavra úmida, não combino com palavras úmidas, combino com lixa, pó, galho, ponta de faca, navalha, estilete…”

(escrito especialmente para o blog, em julho de 2013)

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[1] Há um subtítulo , a felicidade cangaceira, que a meu ver é infeliz, rebarbativo, e só ajuda a complicar a já difícil recepção de um título publicado pela FUNESC (Fundação Espaço Cultural da Paraíba), numa coleção chamada “Riacho Doce”; ou seja, uma edição fadada a ter circulação restrita, lamentavelmente.

Diga-se de passagem, o próprio autor me informou de que o título original seria “Adamantium” (aquela fictícia liga metálica virtualmente indestrutível que envolve o esqueleto de Wolverine). Quem ler o texto, verá que, apesar de não ser ruim palavras que devoram lágrimas, aquele era o título ideal.

[2] Principalmente imitadoras, já que se convencionou que Clarice é o epítome de uma nefanda “escrita autenticamente feminina”.

[3] Ainda mais com o prestígio que Walter Hugo Mãe, useiro e vezeiro do recurso, adquiriu nos últimos anos.

O mesmo não se dá com as referências “pop”: “… eu não lembro mais a forma concreta do meu grito, uma mistura sem razão de ser de belchior com joy division, com uma pitada de calipso…” Tirando o fato de que a própria Clarice Lispector, na sua fase mais tardia, também fez questão de incorporar as de sua época, não podemos esquecer de que, se G.H. é mais comedida nesse sentido, a narradora de palavras que devoram lágrimas incorpora—e por extensão, satiriza—uma vulgaridade de classe média ascendente (e ela me lembra uma das protagonistas clariceanas, a Ofélia, de A cidade sitiada, 1949).

[4] Mais adiante: “…quero que entrem palavras, por seus olhos, uma a uma, em fila indiana, com a paciência que me faltou ao contar a conta-gotas da lata de leite condensado. palavras que devorarão suas lágrimas antes mesmo de elas saírem…”

[5] Em trecho anterior: “…o discurso, do seu discurso eu sei de cor e salteado; sei onde você erra, sei onde você acerta, sei que, quando você mente,a sobrancelha esquerda levanta, enquanto a outra coitada, por medo ou por que porra for, fica calada, travada. olhando agora admiro o jeito entregão da sobrancelha esquerda. acho que no fim, a saudade que tenho é dela. que bom que você nunca arrancou ela de lá. é bom que você esteja nela ou com ela, uma parte, mesmo que mínima de você, tem um mínimo de verdade…”

[6] “… ter conhecido márcio valeu a pena. parei a marcha e o encarei. os mendigos não são bons de corrida nem de esquiva, logo ele nem tentou bater em retirada. márcio é bem jovem, tem vinte e dois anos com cara de trinta e cinco. já teve quatro filhos e nunca viu suas caras. pra completar o seu currículo, mando uma rima: márcio é o cara, tem espalhadas no corpo definido oito perfurações de bala. quando houve o racha de nossas coisas e você quis deixar pra mim o apartamento, eu mandei você enfiar no cu (…) fiquei, burra, no apartamento, revi os maravilhosos momentos vivenciando outros mil aterrorizantes. mas sabe? acho que estava escrito nas estrelas pra eu ficar lá! eu não estaria aqui escrevendo essas quinze mil e poucas palavras se eu não tivesse ficado. táxi, gritei, onze reais e oitenta e sete centavos. no final, paguei. fui contra um dos artigos da minha constituição: nunca pegar um táxi quando se pode ir de ônibus ou a pé. sei lá, gritei e pronto. o taxista alinhavou o bairro inteiro. eu não senti que quisesse me roubar na corrida, e sim me dizer: senhora, vê lá senhora, manda esse imundo embora, nunca fui boa em corrida nem de esquiva. onze reais e oitenta e sete centavos bem pagos. os taxistas têm que parar com essa porra de quererem ser analistas express. e de novo estava eu, agora, diurnamente com um estranho dentro das minhas entranhas, o creme do creme, foda-se!, me fudendo. não era tesão o que eu e márcio, o que a gente compartilhava. também eu não negociava mais nada com ele. a camisa já era minha. a gente comemorava, simplesmente (…) eu chorava de alegria. não, minto: eu chorava de algo parecido com alegria, algo a dois metros e vinte sentimentos da alegria. márcio, do seu lado, não sei do que chorava. provavelmente chorava de si, e também chorava—não sou imbecil a ponto de não comentar com você—márcio chorava de contentamento por ter conseguido um apartamento pra ele. é  isso. esse foi o meu grande exagero daquele sábado barrento: dei o meu apartamento em troca da camiseta azul inferno que eu sabia, no fundo, bem lá depois do mais profundo do pré-sal, que ele ou outro comparsa havia roubado de mim. ou eu mesma dei, sei lá e não faz diferença isso, depois que recuperei a camiseta, que conste nesta ata: o apartamento é de márcio. já passei em cartório, hoje ou amanhã ele se muda…”

[7] É preciso não perder de vista um aspecto crucial: a ascensão social (autoconsciente da própria vulgaridade e pobreza de horizontes) da narradora: “ … e era tudo um desgraçado joguinho de tarefa e recompensa, de adestramento próprio. Faz isso, neguinha, que de noite você ganha aquela sapatilha de pele de jacaré indiano, da lojinha de madame do shopping. Faz isso, mocinha, que de noite você entra na internet e faz a festa, manda trazer da malásia aquela sandália de palha de araucária grega…”

[8] “…apenas para lembrar que as camadas da vida, apesar de serem cobertas por outras cores mais doces e menos espetaculosas, estão lá, escondidas ou expandidas no grito aborígene das senhoras enlutadas que carregam, cada uma delas, de modo oculto, outras anáguas de cor verde anágua…”

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