MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/02/2012

Destaque do Blog: “WATCHMEN”- Um quarto de século

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de fevereiro de 2012)

A indagação que ecoa por todo O espião que sabia demais (1974), de John Le Carré, “quem espia os espiões?” ganharia formulação com o mesmo e derrisório caráter especular em WATCHMEN: num período particularmente contestatório (anos 1960 e 70), os heróis mascarados e sua intervenção como agentes da justiça são colocados em xeque, e nas paredes de Nova York se pode ler: “quem vigia os vigilantes?”.

O romance gráfico, escrito por Alan Moore e desenhado por Dave Gibbons,  chegava ao auge da atmosfera  paranoica e ressaquenta que implica a decadência do heroísmo institucionalizado em fevereiro de 1987, com o sexto capítulo (ele começou a ser publicado seis meses antes, em setembro de 1986, e se encerraria seis meses depois, completando doze capítulos): é aquele  no qual  Rorschach, o mais radical dos vigilantes, o que não obedeceu à proibição legal das atividades como justiceiro mascarado (se não contarmos o Comediante, assassinado no início da história e que era um agente do Governo), é enviado para o presídio, após cair numa cilada,  e, de forma inesperada, se desnuda psicologicamente para o terapeuta encarregado do seu tratamento, levando o mundo dos quadrinhos para zonas insuspeitadas até então.

Confesso que, não obstante a complexidade engenhosa com que a trama vai se encaminhando até o seu clímax (quando parte da população de Nova York é dizimada), não considero os restantes capítulos tão geniais e impressionantes  quanto os seis primeiros (em especial, não sou muito entusiasta das cenas em Marte[1]). Esse problema acentuou-se na incrível versão cinematográfica (cuja qualidade e originalidade incontestes, ignoradas completamente pelo Oscar, mostram que os membros da Academia precisam rever seus conceitos e  modernizar seus critérios do que é um grande filme: basta lembrar que, com a exceção de O retorno do rei, de Peter Jackson, nenhum filme do gênero  rotulado, de modo vago  e com considerável prevenção, como “fantasia”, venceu o Oscar no último meio século, e sequer indicaram obras como Matrix, Homem Aranha ou algum da série Harry Potter, só para citar alguns—também seria o caso de citar 300, do próprio Snyder, que é uma tremenda experiência visual[2]):  se a primeira parte do filme de Zach Snyder é excepcional, depois que o casal Espectral-Coruja decidem libertar Rorschach, ele parece perder um pouco da sua densidade e ficar mais convencional, com lutas, perseguições e exibição de artefatos tecnológicos e superpoderes (sem ter as situações paralelas que garantiam a riqueza dos quadrinhos originais, como a  angustiante história de pirataria que é lida por um adolescente e perpassa os capítulos finais de uma  maneira arrepiante[3]).

E justamente a função dos superpoderes e dos heróis justiceiros é o que se coloca em questão em Watchmen, o que fica mais claro ainda com todo o material adicional que acompanha a Edição Definitiva (lançada pela Panini Books, com as cores de John Higgins, traduzida por Jotapê Martins & Hélcio de Carvalho—os  maravilhosos extras foram traduzidos por Fábio Fernandes),: com seus personagens fazendo referência, até de forma nostálgica (não obstante a acidez corrosiva) a heróis antigos (como não puderam citá-los diretamente, Moore & Gibbons criaram novos caracteres, os quais têm o mesmo pendor meio ridículo e embaraçoso do uso de uniformes, e a mistura de poder-impotência para mudar as coisas, que acaba sendo o mote principal da trama, uma vez que o Dr. Manhattan e, mais ainda, o herói-vilão Ozymandias subvertem essa curiosa ausência de impacto de um ser com dons fora do normal no status quo do mundo[4]), à Liga da Justiça e ao grupo de heróis da Marvel.  Ainda em meio à Guerra Fria, entrávamos numa distopia onde Nixon era reeleito em sucessivos mandatos, os EUA haviam vencido a guerra do Vietnã e os heróis eram ou losers, ou psicóticos ou fascistas. Sobretudo eram personagens extremamente vívidos e marcantes, envolvidos num enredo barroco, labiríntico, com idas e vindas no tempo, abarcando duas gerações de justiceiros, fazendo um recorte sombrio da América que emergira da Depressa e da Segunda Guerra. Ou seja, estávamos num mundo ficcional que não ficava a dever aos melhores romances.

E graças ao apelo visual, Watchmen torna-se um intrincado tecido de referências que vão da música pop a filmes, poemas, circunstâncias históricas e modas:  convém inspecionar atentamente os quadrinhos de Dave Gibbons, tanto quanto viajar no texto esplêndido de Alan Moore. É pena que a edição brasileira ora coloque em inglês notícias de jornal, letreiros  e outras informações (que não estão ali à toa), ora em português. Não chega a atrapalhar, mas era preciso mais critério, não? E os erros ortográficos(não, não estou me referindo ao modo dos personagens falarem, mas à grafia de vária spalavras mesmo)?

Só para concluir esta homenagem ao quarto de século de Watchmen: se não fosse por mais nada, a série já mereceria todas as honras por causa do Comediante, que parece o Coringa sendo admitido como membro da Liga da Justiça (e cuja concepção do mundo, ao mesmo tempo lúcida e caótica, já antecipa o que Heath Ledger iria fazer com o maior inimigo de Batman em O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, outro clamoroso exemplo de descaso do Oscar, a não ser pela comoção geral causada pela morte do ator e que deu um cunho especial à sua marcante composição) e de Rorschach, cuja própria identidade visual já é um assombro. Como descobre o seu terapeuta ao evocar as manchas do famoso teste, depois dos confrontos com seu “paciente”: “Tentei fingir que parecia uma árvore frondosa, com sombras sob ela, mas não consegui. A imagem lembrava um gato morto que um dia encontrei, as larvas gordas e cegas que rastejavam, abrindo túneis freneticamente para longe da luz. Mas mesmo essa imagem é para evitar o verdadeiro horror.  O horror é este: ao final, tudo não passa de uma imagem de escuridão, vazia e sem sentido.Estamos sozinhos. Não existe mais nada…”


[1] Apesar disso, adoro a figura do Dr. Manhattan, com seu dilema entre “continuar humano”, isto é, preocupando-se com metabolismos provisórios, ou seguir a lógica da sua transformação até o fim; ainda assim, acho toda a sua discussão com Laurie/Espectral em Marte com um pé na psicologia de boteco. Diga-se de passagem, Billy Crudup está ótimo na, digamos, pele de Jon/Manhattan.

[2] Esse é um lado da questão: o outro, é claro, é o inegável estrago causado pelo imaginário nerd nas últimas safras cinematográficas, essa excessiva extensão da adolescência na produção de certos roteiristas e diretores. E também há o fato inegável de que, nesse caldeirão todo, são tomados como “visionários” e até mesmo gênios diretores chinfrins como James Cameron—mistura-se uso da tecnologia com invenção artística.

[3] Max Shea, autor dessa história tétrico-alegórica (Contos do cargueiro negro), aliás, tem sua importância na Macro-Narrativa: tido como desaparecido pela polícia, ele foi um dos participantes do plano de Ozymandias para criar um ser monstruoso que passasse por alienígena e destruísse, durante seu teletransporte, parte de Nova York, o que acarretaria o fim das hostilidades da  Guerra Fria levadas ao extremo no decorrer de Watchmen; por razoes óbvias, o roteiro utilizado na versão de Snyder precisou eliminar esses detalhes do plano de Veidt/Ozymandias. De fato, o clímax do filme nunca chega a ser totalmente convincente, pois resume esquematicamente o plano e fica parecendo uma coisa de um arquivilão no estilo daqueles dos filmes de James Bond;. A caracterização de Matthew Goode, em geral um ator muito interessante, não ajudou muito. Neste ponto, ele desafina num elenco muito eficiente: talvez Patrick Wilson seja um pouco bonito demais e cheio de uma vitalidade natural  destoante do seu personagem “decadente”, mas ele dribla o problema com elegância e, tirando Goode, todos estão impecáveis.

[4] Alan Moore nos explica: “Em sua forma  mais simples, a idéia era simplesmente assumir toda uma continuidade de quadrinhos e todos os personagens dentro dela, de modo que um escritor pudesse documentar o mundo inteiro sem se preocupar sobre como seus planos poderiam se encaixar com os criadores de outuros títulos em que seus personagens estavam aparecendo naquele momento. Quadrinhos de linha, com sua insistência em uma continuidade rígida e de intercruzamento de títulos, apresentam muitas limitaçõesa irritantes para o criador. A pior delas é que nada pode jamais acontecer a qualquer história individual que produza qualquer efeito de longa duração no mundo, já que é o mesmo mundo habitado por todos os outros personagens da linha da empresa. Ter um elenco de personagens em um mundo autocontido resolveria essas dificuldades…”

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27/02/2012

O durão, o mauricinho, o oportunista, a puta-clone de estrela de cinema e a desmoralização geral: “Los Angeles-Cidade Proibida”

(resenha publicada originalmente, de forma mais condensada,  em A TRIBUNA de Santos, em 17 de março de 1998)

     Apesar do avassalador número de indicações (14) de Titanic, o cruzamento que James Cameron operou entre Danielle Steel e Irwin Allen, o favorito de boa parte da crítica (incluindo quem aqui escreve) para o Oscar é L.A. Confidential/Los Angeles-Cidade Proibida (EUA, 1990, em tradução de Alves Calado para a “Coleção Negra” da Record), o filme de Curtis Hanson baseado num romance de James Ellroy, no qual acompanhamos a trajetória de três policiais na década de 50: Ed Exley (no filme, o camaleônico Guy Pearce), Bud White (o maravilhoso Russell Crowe, uma força da natureza) e Jack Vincennes (não sou muito fã de Kevin Spacey, porém ele está muito bem; é incrível que nenhum dos três tenha sido indicado ao prêmio da Academia).

   O durão White odeia o mauricinho Exley por tê-lo dedurado a e a outros policiais que, após uma bebedeira de Natal, espancaram alguns prisioneiros (só por isso, não por algum motivo sério); Vincennes, por sua vez, utiliza a imprensa sensacionalista para documentar as prisões que realiza, até que seu principal colaborador, Sid Hudgens, é assassinado.

  Um crime da década de 30, envolvendo o pai de Exley (o assassinato e mutilação de várias crianças) e dois grandes crimes no início dos anos 50—a execução de Buzz Meek, por roubar alguns quilos de heroína do maior chefão de Los Angeles; o massacre de um grupo de frequentadores do Café Nite Owl) acabarão por confrontar, aproximar e até unir Exley, White & Vincennes. Exley torna-se o herói no caso do massacre, porém anos mais tarde surgem evidências de que a solução que dera para o crime não era a correta. A verdadeira solução é um labirinto moral que esconde em suas paredes heroína, prostituição feminina (com garotas que são operadas para ficarem parecidas com estrelas de cinema) e masculina, pornografia, corrupção e poder.

    Desde Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne (também transformado em belo filme), não se via um livro policial de época tão expressivo quanto o de Ellroy,que chega a nos atordoar com sua maciça concentração, quase enciclopédica, de sordidez.

    Ellrou destrói a imagem-clichê do tira honesto em desajuste com um sistema podre: Exley é fraco e carreirista; White, seu antípoda, é um boçal que raia a psicose; Vincennes, o próprio retrato da cupidez.

   Nem as vítimas da violência escapam: Inês, a garota mexicana estuprada pelo trio de negros que são acusados pelo massacre do Nite Owl, não hesita em seduzir Exley e mentir para ele, levando-o a assassiná-los de maneira covarde (por esse ato ele se torna um herói para a cidade); ela também não hesita em se juntar a um grupo de empresários para ocultar um crime horrível (sem falar que o arquicriminoso da trama é um dos altos membros da polícia, um dos encarregados de esclarecer os crimes—esse vetor da trama foi bastante enfatizado na versão de Hanson, que não seguiu o brutal cinismo do autor do romance, o qual deixa o vilão incólume ao final; em Hollywood os labirintos morais têm que apresentar uma saída).

     Através da sinuosa e espessa maneira de narrar de Ellroy, o leitor acompanha o esboroamento da imagem charmosa da “capital do cinema” na época dos “anos dourados”, “…realização de uma visão: Los Angeles como um lugar de encanto e alta qualidade de vida…”; mesmo assim, Los Angeles-Cidade Proibida, com suas 540 páginas, apresenta certos entraves: é prolixo demais, sua ânsia de circunscrever balzaquianamente a cidade (com seus policiais, marginais, artistas, jornalistas, políticos, michês de ambos os sexos, tipos étnicos) faz com que haja um evidente excesso de personagens (embora a lembrança de uma bomba como Detetive, de Arthur Haley, comentado recentemente nesta coluna, só valorize a empreitada de Ellroy), e nesse ponto a adaptação de Hanson é muito mais bem realizado: através das radicais transformações no enredo, ele deixou a história mais coesa  e sinteticamente mais eficiente (um dos encantos do filme é ver que operações podem ser realizadas por um bom diretor-roteirista num material alheio, de forma a daí emergir algo realmente diferente, contando a mesma fábula).

     Além disso, há um certo falseamento e floreamento quando os personagens (em especial, as duas figuras femininas mais importantes, uma das quais aproveitada avidamente por Kim Basinger no melhor momento da sua carreira) começam a fazer análises psicológicas-miojo, isto é, quase instantâneas, uns dos outros. Esse psicologês de botequim ou de livro pedagógico parece sumamente impróprio quando o maior feito de Ellroy é liquidar a imagem do “tira durão” como figura que desperte nossa simpatia (nesse ponto, o filme é mais sutil, devido à interpretação de Crowe, em particular:  um strip tease psicológico genuíno, e, como tal, impossível não sentir empatia).

    Entretanto, as qualidades da narrativa e sobretudo a força da história falam mais alto. Ao invés de nos mostrar meras investigações que levam a meros assassinos, como tantos filmes e livros, Los Angeles-Cidade Proibida acaba sendo uma crítica corrosiva da essência da sociedade norte-americana (como ela se vende ao mundo), na qual entretenimento e aberrações caminham juntos. E não é de hoje.

   

26/02/2012

EM TORNO DE UM CORPO: “Dália Negra”

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/26/em-torno-de-um-corpo-se-eu-fechar-os-olhos-agora/

 https://armonte.wordpress.com/2012/02/27/o-durao-o-mauricinho-o-oportunista-a-puta-clone-de-estrela-de-cinema-e-a-desmoralizacao-geral-los-angeles-cidade-proibida/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 19 de abril de 2008)

Em 1958, a mãe de James Ellroy (que tinha dez anos à época), Gineva, foi estrangulada com uma meia de nylon, um assassinato nunca esclarecido.  Vinte e nove anos depois, a obsessão do filhocom o crime gerou Dália Negra, romance que explora ficcionalmente uma investigação-fetiche nos EUA e é dedicado à mãe do grande escritor norte-americano, uma despedida em sangue.

O mesmo crime deu origem (dez anos antes de Dália Negra) à outra excelente engrenagem ficcional que remontava aos anos 40: Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne, que faz tudo o que Agosto de Rubem Fonseca não fez pelos nossos anos 50. Dunne e sua esposa, e ainda melhor romancista, Joan Didion (cujo recente O ano do pensamento mágico é uma  homenagem ao marido que acabara de morrer), adaptaram Confissões Verdadeiras para um ótimo filme de Ulu Grosbard, onde Robert de Niro e Robert Duvall estão magníficos como irmãos.

E, como se sabe, Dália Negra foi adaptado por Brian de Palma, revelando-se uma desalentadora surpresa: não se sabe o que aconteceu, como o bolo desandou, porém o velho mestre realizou um trabalho que poderia ser assinado (ou assassinado) por qualquer um, burocrático e distante, a anos-luz de um Intocáveis ou, mais recentemente, de um Olho de Serpente, e principalmente das suas obras com um pé na paródia e na molecagem criativa, que pilha o terreno alheio e cria novos territórios, como Dublê de Corpo.

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E por falar em corpo, o de Elizabeth Short é encontrado na rua 39 esquina com a Norton em janeiro de 47 e vira obsessão para os parceiros Lee Blanchard e Bucky Bleichert (narrador e protagonista), conhecidos como Mr. Fire (Fogo) e Mr. Ice (Gelo), pois como pugilistas adversários conseguiram uma verba importante para o departamento de polícia de Los Angeles; eles fazem parte (depois de maquinações fraudulentas de Lee, mr. Fire, pois ambos são da Divisão de Capturas, e esse é um dado importante no esquema geral) da imensa força-tarefa que investiga o crime. Completando o trio, há Kay, ex-prostituta “amigada” com o fogo (que não arde) e que se apaixona pelo gelo (e é correspondida, mas ele mantém sua lealdade ao parceiro até seu desaparecimento abrupto…).

Ao seguir sozinho uma pista em bares de lésbicas, Bleichert conhece Madeleine, com a qual a “dália negra” se assemelhava um pouco, e assim se envolve com sua bizarra e criminosa família, cuja fortuna remonta a negociatas nos tempos do cinema mudo, quando o conhecido letreiro, idealizado por Mack Sennet, ainda era Hollywoodland, (as últimas letras são retiradas durante o espaço de tempo da trama, 1946-1950). Além disso, há um “amigo” da família, desfigurado, o que evoca o romance de Victor Hugo, O Homem que Ri (que eu só conheço através da sua adaptação, com Jean Sorel. O enredo é fascinante).

Elizabeth Short, a dália negra, além de “substituta simbiótica” à mãe de Ellroy, é também uma concentração de ícones norte-americanos: o fetiche pelo cinema, que fazia (e faz) mocinhas inquietas se deslocarem do país inteiro para acabar muitas vezes como prostitutas, a idealização dos G.I. Joes, os que lutaram na 2ª. Guerra (e eram objeto de desejo por parte da morta); e também a mulher-anjo, “perdida no lodo”, ou a femme fatale, no qual os homens projetam suas fantasias, quaisquer que sejam. Não é à toa que seu fantasma persegue Bleichert ao ponto de ele pagar uma prostituta anônima para reencarná-la ou gostar de Madeleine pela semelhança, principalmente na hora da transa. Quando ele consuma sua relação com Kay, uma das formas que Madeleine utiliza para voltar a atraí-lo é sair para noitadas fantasiada de “dália negra”.

Eu acho incrível que alguém com a obsessão de Brian de Palma por Hitchcock, demonstrada tantas vezes, não tenha aproveitado esse gancho para relembrar a obsessão de James Stewart em recriar a supostamente morta Kim Novak em Um corpo que cai, de forma tal que ele atormenta a “substituta simbiótica”, vestindo-a e penteando-a para que fique igual à falecida. Possivelmente faltou isso à Dália Negra, o filme: obsessão. Ele é apenas uma sessão de cinema, fácil de ver e esquecer.  E é engraçado notar que um diretor que nunca se destacou por sequer uma mínima marca pessoal como Curtis Hanson conseguiu extrair a essência de Ellroy em Los Angeles- Cidade Proibida, como se tivesse visto ali a grande chance da sua vida.

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O painel de Dália Negra enfatiza igualmente a canibalização do crime pela mídia, a qual praticamente comanda a investigação policial, com a opinião pública exacerbada pelo volume de exposição do caso, e o promotor (Ellis Loew, personagem também de Los Angeles, Cidade Proibida) tentando impedir que vazem notícias sobre a promiscuidade da vítima para não perder a simpatia do público (e futuros eleitores). O caso Isabela é a ilustração mais recente do fenômeno.

É pena que um escritor tão brilhante seja também tão prolixo. O livro é sensacional até a elucidação do paradeiro de Lee Blanchard, quando mr. Ice o procura no México; depois começa a ficar saturado e quase informe até chegar a um clímax um tanto exagerado e irreal, mesmo amarrando todas as pontas (o que a certa altura parecia quase impossível). A despedida em sangue talvez tenha viciado por demais Ellroy: em sua obsessão ele extrapolou ao soltar todos os esqueletos do armário.

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EM TORNO DE UM CORPO: “Se eu fechar os olhos agora”

(VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/26/em-torno-de-um-corpo-dalia-negra/)

“Paulo  observava o irmão, diante do espelho…

__ Vai sair, Antonio?

__ Vou… O Mauro, o Zé Paulo e eu vamos comer a empregada do Mauro… O Mauro já comeu. E avisou que se não der para nós, conta aos pais que ela é uma puta.

__Ela cobra quanto?

__ Que cobrar o quê, neguinho! Pegaram ela na roça para criar. Não tem onde cair morta. Quero comer aquele cu. Vou arrombar aquele cu.

__ Quantos anos ela tem?

__ Uns quatorze, quinze. É cabaço, ainda. Só deixa botar no cu…

__ E se ela não quiser?… Hein, Antonio? E se ela não quiser?

__Já te disse que ela é cria da casa.

__Mas pode não querer.

__ A gente come à força e quebra ela de porrada.”

Esta cena (na qual eu dei uma condensada), entre um dos protagonistas de Se eu fechar os olhos agora, Paulo (a essa altura com doze anos), e seu irmão mais velho, está quase na metade do livro, e demonstra de forma eloqüente e cabal a mentalidade que o romance (o seu primeiro) de Edney Silvestre pretende desmascarar, fundada no machismo sem limites, no patriarcalismo, na desfaçatez de quem manda, faz o que quer e “quebra de porrada”, mesmo que seja exemplificada pelo pueril e boçal filho de um açougueiro (como é o caso de Antonio) até chegar às camadas superiores da nossa sociedade, a elite que manda no país, com os mesmos “princípios” e a mesma cara-de-pau.

O enredo se inicia como uma espécie de Dália Negra do interior do Rio de Janeiro (cujo passado remonta à glória da cafeicultura): dois meninos, Paulo e seu amigo Eduardo encontram o cadáver extremamente mutilado de uma mulher, em 12 de abril de 1961, dia em que Iuri Gagárin deu a volta à terra no espaço. Estamos às vésperas de acontecimentos momentosos: o assassinato de Kennedy, no plano mundial; a revolução de 64, no plano nacional…

Logo se descobre que a morta,Anita, era a “vagabunda” da cidade (“uma mulher permanentemente aberta à visitação pública”): casada com um dentista muito mais velho que ela (que confessa o crime e depois se suicida na prisão, tudo mentira, é claro), transava com todos os poderosos do local. Paulo e Eduardo resolvem investigar o crime e contam com a ajuda de  Ubiratan, um forasteiro que mora no asilo de velhos local, e que durante a ditadura de Getúlio Vargas fora torturado por ser comunista. É ele quem descobre (com a ajuda dos meninos, mais ágeis fisicamente) que Anita  na verdade chamava-se Aparecida, e nascera na fazenda da família do prefeito, como fruto do estupro de uma criada negra praticado pelo pai dele, senador da república. Como sua tez branca era reveladora do absuso, fora enviada a um orfanato. Mas, como boa “cria da casa”,  fora obrigado a se casar com o dentista, um pervertido que firmara um pacto de cumplicidade com ex-colegas de seminário, de forma a explorar sexualmente a mulher de todas as maneiras.

No final do labirinto, perversão sexual, exploração, resquícios da escravidão, e, coroando tudo, incesto (Dália Negra se converte um pouco em Chinatown, acho que os mais aficcionados por cinema lembrar-se-ão das revelações que Faye Dunaway faz a Jack Nicholson sobre sua família: a irmã que ela procurava era, de fato, a filha que tivera do próprio pai), são as motivações do crime, que será acobertado e marcará os futuros caminhos de Paulo e Eduardo (um dos melhores momentos do romance acontece quando os dois recebem uma advertência do diretor e Eduardo  tem o seguinte insight: “e se não houvesse futuro para ele? O futuro que até esta manhã, na sala do diretor do colégio, lhe parecera garantido? E se no Brasil, refletia, neste Brasil novo em que surgiam indústrias, estradas, empregos, e se neste Brasil novo, mesmo sendo uma democracia como os professores ensinavam, onde nós o povo, temos eleições livres e decidimos quem vai nos governar, e se neste Brasil houvesse  poderes, forças que ele não sabia dizer quais eram,ou o que eram, nem tampouco apontar onde estavam, e se as houvesse, essas forças, esses poderes capazes de decidir o destino dele, sem que ele pudesse intervir? Alterar tudo sem chance de retorno? Como no dia em que retiraram Aparecida do orfanato para casá-la com o dentista?”)…

Em tudo, vemos a mentalidade de Antonio, o irmão de Paulo: “Pegaram ela na roça para criar, não tem onde cair morta, vou arrombar aquele cu, a gente come ela à força e quebra de porrada”. E depois as pessoas acham que vivemos tempos infelizes e bárbaros. Assim como Leite Derramado, de Chico Buarque, para citar outro caso recente de romance que se debruça sobre nossa história, a desmoralização social brasileira não é de agora, nós estamos é purgando o passado. O caso da aluna da UNIBAN, achincalhada e acossada por uma massa de boçais (de ambos os sexos) mostra como os avanços são frágeis e como podemos retroceder rapidamente.

“__ Aparências enganam. Mais cedo ou mais tarde vocês irão aprender. Nada neste país é o que parece. E esta cidade é um microcosmo do Brasil.”

Além desse desmascaramento e acerto de contas , Se eu fechar os olhos agora também é um exercício proustiano, de memória afetiva. É por esse lado que se revela mais interessante, a meu ver, principalmente no seu início, onde o autor estreante utiliza com grande acerto e critério soluções narrativas que desestabilizam as certezas narrativas, o que nos traz à mente o estilo de uma Marguerite Duras ou de uma Joan Didion (ele também me lembrou um pouco, sem o virtuosismo dele, é claro, Mario Vargas Llosa, e seus acertos de conta com o passado peruano), como no caso do capítulo “Noche de Ronda”: “Alguém que ouvia um disco. Ou uma fita cassete. Havia fitas cassetes naquela época, em 1961. Havia? Naquela cidade? Quem as teria? Não um operário. Ninguém naquela rua poderia ter um toca-fitas. Um pai açougueiro tampouco. Naquela rua, seguramente, ninguém. Ou talvez sim…” e mais adiante: “Ouvi a canção mais tarde…Não. Não. Não. Tenho certeza: ouvi naquela noite. Uma voz  de homem. Acho que era…Uma voz masculina. Acho. Tenho certeza. Acho…”

Esses primeiros capítulos e, ao longo do romance, o que se refere ao mundo dos dois protagonistas-mirins, Paulo e Eduardo, provam que Edney Silvestre poderá ser um romancista de primeira, ele tem o talento para tanto. Os dois meninos esbarrando nos limites da sua experiência e tentando decifrar os códigos do mundo adulto , por mais que já tenhamos visto tudo isso, ainda assim são o melhor de Se eu fechar os olhos agora, é o caso das suas reações quando Ubiratan os leva para assistir à Doce Vida, de Fellini, ou quando discutem aspectos da personalidade de Anita/Aparecida e, não conseguindo explicações plausíveis, que combinem com sua percepção de menino, Eduardo pensa: “Mais uma vez não conseguiu fechar o raciocínio. Mais uma vez estacava diante do paredão do mundo adulto, por trás do qual havia regras que não tinha como entender”.

Infelizmente, a partir do momento em que a trama se concentra nas investigações e descobertas de Ubiratan, o romance enfraquece muito: em primeiro lugar, porque a depravação das elites é reiterada de tal forma que a solução do crime não apresenta o menor impacto, e em segundo porque o personagem Ubiratan não é lá muito bem desenvolvido ou interessante, além disso o autor parece não confiar muito na inteligência, ou pelo menos no conhecimento histórico dos leitores (ele parece nos ver com a idade mental dos dois meninos: 12 anos), e seu herói acaba fazendo paralelos e caindo em didatismos que, francamente, são meio empobrecedores… Era preciso fazer Ubiratan falar de Sagarana ou de Memórias do Cárcere, ou de Stálin e sua filha? Será que, em vez de se fixar na vida dos meninos, tão interessante (e uma parte dela fica na sombra, principalmente os pais de Eduardo), ele tem de nos fazer aturar falas de Ubiratan como a seguinte: “Sabem o que foi Guernica?  Sabem o que significou? A carnificina? O bombardeio? A matança de crianças, velhos e mulheres? Sabem? A ascensão do fascismo? Sabem da Guerra Civil Espanhola? Picasso?”

Por esse motivo, Se eu fechar os olhos agora enfraquece de forma considerável da metade em diante. E o seu final é chocho, a meu ver: ao focalizar Paulo adulto, tentando saber do destino de Eduardo, ele não consegue dar uma idéia de trajetória, de formação, e nada significativo vem à tona.

O momento Dália Negra, momento do mistério do mundo para os garotos, momento em que eles podem se imaginar detetives e reconstruir a cadeia de fatos, se mostra mais forte e vívido do que o momento do desmascaramento, onde tudo é revoltante, mas um tanto óbvio.

A DÁLIA NEGRA DOS TRÓPICOS

Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos em 19 de janeiro de 2010

      Até a metade, Se eu fechar os olhos agora (romance de estreia do jornalista Edney Silvestre) é excelente: em 1961 (dia em que Iuri Gagárin deu a volta ao planeta no espaço), numa cidadezinha do interior do Rio, dois meninos de 12 anos, Paulo e Eduardo, encontram o cadáver mutilado da mulher do dentista, a qual era a “vagabunda” da cidade (“uma mulher permanentemente aberta à visitação pública”).

Paulo e Eduardo (este, o narrador da história) não conseguem acreditar na confissão (e em seguida, no “suicídio”) do marido de Anita e tentam investigar o crime mesmo não entendendo as motivações e códigos de conduta dos adultos: “Mais uma vez não conseguiu fechar o raciocínio. Mais uma vez estacava diante do paredão do mundo adulto, por trás do qual havia regras que não tinha como entender”.

Os dois aliam-se a um velho do asilo local, Ubiratan (que fora torturado pela ditadura getulista), um forasteiro, e aos poucos, se monta um desmoralizante painel de exploração sexual, de machismo, de racismo, de desfaçatez patriarcal (que remonta aos plantadores de café, os quais fizeram a antiga riqueza da região), de incesto. De uma espécie de Dália Negra tropical (cadáver de mulher encontrado, sugerindo perversões e motivações sexuais patológicas) vamos nos encaminhando para um Chinatown (os podres dos muito ricos e poderosos), a obra-prima de Polanski, na qual a protagonista procurava a irmã que era na verdade a filha que teve com o próprio pai.

A ignorância dos meninos, apesar da sua curiosidade, e a decisão coletiva de acobertamento do que está por trás do assassinato de Anita (na verdade, Aparecida, nascida na fazenda da família do prefeito, fruto do estupro de uma criada negra, efetuado pelo pai dele, um senador; como a filha nasceu com a tez muito branca, denunciando o abuso, mandaram-na para um orfanato, e depois a obrigaram a casar com o dentista, muito mais velho, que tinha um pacto de cumplicidade com ex-colegas de seminário e a partir do casamento explorou sexualmente, de forma sistemática, a jovem esposa, assistindo e fotografando as orgias de que ela fez parte).

É a participação de Ubiratan que estraga a segunda metade e enfraquece consideravelmente Se eu fechar os olhos agora. Por certo, seria preciso um adulto para reconhecer o fio da meada, já que isso era impossível à ingênua dupla de protagonistas. Mas o problema é que a narrativa, que começara de forma muito interessante, como exercício das incertezas e sensações da memória, escorrega no moralismo e na falta de confiança na inteligência do leitor, que ele coloca no nível de informação dos garotos de 12 anos.

O velho militante comunista fica a todo momento fazendo paralelos históricos e evocando injustiças e atrocidades do século XX, de uma forma irritante e até constrangedora: “Sabem o que foi Guernica?  Sabem o que significou? A carnificina? O bombardeio? A matança de crianças, velhos e mulheres? Sabem? A ascensão do fascismo? Sabem da Guerra Civil Espanhola?Picasso? Por incrível que pareça, Edney Silvestre, nós sabemos, sim, e não é desta maneira que uma ficção consegue dar conta dos fatos históricos. Basta lembrar da perícia com que Leite Derramado tocou na ferida do racismo (que também é muito presente em Se eu fechar os olhos agora), sem apelar para o didatismo ou o discurso inflamado. Como diz o verso maravilhoso de Drummond, “que tristes são as coisas quando consideradas sem ênfase”. A história de Anita/Aparecida é muito triste, sem precisar dessas diatribes melodramáticas.

     O final do livro é também decepcionante, ao mostrar Paulo já adulto, tentando localizar Eduardo. Não há nenhum dado novo, nada que dê ideia da formação dos personagens, a partir dos fatos que viveram em 1961, e cuja repercussão em suas vidas futuras, Eduardo intui, após a advertência do diretor da escola onde estudam:    “e se não houvesse futuro para ele? O futuro que até esta manhã, na sala do diretor do colégio, lhe parecera garantido? E se no Brasil, refletia, neste Brasil novo em que surgiam indústrias, estradas, empregos, e se neste Brasil novo, mesmo sendo uma democracia como os professores ensinavam, onde nós o povo, temos eleições livres e decidimos quem vai nos governar, e se neste Brasil houvesse  poderes, forças que ele não sabia dizer quais eram,ou o que eram, nem tampouco apontar onde estavam, e se as houvesse, essas forças, esses poderes capazes de decidir o destino dele, sem que ele pudesse intervir? Alterar tudo sem chance de retorno? Como no dia em que retiraram Aparecida do orfanato para casá-la com o dentista?”)… 

Mesmo com esses altos e baixos, tudo indica que temos um novo romancista na praça. E cheio de gás e talento…

22/02/2012

Leituras em espelho: O livro do Pai (Os Descendentes) e o livro da mãe (Precisamos falar sobre o Kevin)

“Esther entra com uma pilha de panos de pratos. Ela olha para as meninas, depois olha para mim. Devo estar pálido. Devo parecer completamente perdido, porque ela balança a cabeça e estala a língua. Guarda os panos em uma gaveta. Sussurra alguma coisa no ouvido de Alex e então caminha direto na minha direção. Dou um passo para trás, mas ela agarra minha cabeça e me puxa contra os seios. Fito seu peito, horrorizado, mas depois me entrego, e pela primeira vez choro de verdade, como se só agora percebesse o que está acontecendo com minha esposa, comigo e com essa família. Minha esposa não vai voltar, minha esposa não me amava, e tenho de cuidar das coisas daqui pra frente.” (Os descendentes)

“Portanto, meu receio não era apenas de virar minha mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a abordagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta—desmazelada, meio gorda—que acena adeuses e manda beijos quando uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído (…) Eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho… Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ´virar da página´, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia…” (Precisamos falar sobre o Kevin)

   É necessário esclarecer que, ao colocar como “leituras em espelho” Precisamos falar sobre o Kevin & Os descendentes, não estou equiparando-os em termos de qualidade.

   Os descendentes está longe de  ter o quilate literário, a complexidade e a autoridade moral de Precisamos falar sobre o Kevin (mesmo porque é um livro que apresenta os acertos e erros típicos de um primeiro romance), mas os dois se tangenciam ao privilegiar os polos paterno (no caso do primeiro) e materno (no caso do segundo) como eixo estruturador das narrativas em primeira pessoa; além disso, ambos foram material de origem para versões cinematográficas de 2011, agora exibidas no Brasil.

O LIVRO DO PAI

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos em 21 de fevereiro de 2012)

    Assim como as novas capas nacionais de Precisamos falar sobre o Kevin e O espião que sabia demais, a de Os descendentes (a tradução de Cássio de Arantes Leite para The descendants, EUA-2003) reproduz o cartaz do filme e representa uma decisão bem mais deletéria porque, ao contrário dos demais, o romance de  estreia de Kaui Hart Hemmings é mais frágil literariamente e pode ser facilmente engolido  pelo prestígio (superestimado, a meu ver) da versão cinematográfica de Alexander Payne, a qual, aliás, é bastante fiel às linhas gerais da trama.

    Quem narra é Matt King: ele e sua numerosa família (em termos de primos dos mais diversos graus) são descendentes de uma princesa havaiana nativa e um missionário americano e possuem uma quantidade apreciável de terras cobiçadas pela especulação imobiliária. Matt detém o poder de bater o martelo a respeito do comprador adequado. Esse lado da história, com raízes na própria história do Havaí (“…agora me pego relutando em abrir mão disso—da terra, da próspera relíquia de nossa tribo, dos mortos. A última terra possuída por havaianos terá ido embora, e eu terei minha participação nisso. Mesmo que a gente não pareça havaiano, mesmo que nossa constante recombinação tenha apagado a evidência de nossa etnicidade, protraindo nossos rostos achatados, alisando nosso cabelo pixaim, mesmo que a gente  aja como haoles, frequentando escolas particulares e clubes,sem dominar muito bem o inglês pidgin, minhas filhas e eu somos havaianos, e essa terra é nossa…”), é o que  mais me interessou, mas não é suficientemente desenvolvido nem pela autora nem pelo roteiro do filme (no qual ela faz uma participação rápida, como funcionária do protagonista), tanto que a resolução final de Matt King não convence e parece uma solução de compromisso politicamente correta.

    A trama se volta mais para a perplexidade dele em cuidar das filhas problemáticas com a esposa em coma, após um acidente de barco (“Olho para minhas filhas, completos mistérios, e por um breve momento tenho a horrível sensação de que não quero ficar sozinho no mundo com essas duas meninas. Estou aliviado por não terem me perguntado do que eu mais gosto nelas”), que se complica com o veredicto médico: ela não recuperará a consciência e deixou instruções explícitas para não ser mantida viva por aparelhos. Pior ainda: descobre que Joanie (no filme, Elizabeth) estava apaixonada por outro e pretendia deixá-lo. Resolve, então, procurar o amante, e aí parte em viagem com as filhas e o amigo/namorado/ficante, sabe-se lá o quê (de qualquer forma, um tipo meio Débi & Lóide), da mais velha, o que dá ao desenrolar da narrativa um ar de Pequena Miss Sunshine (um grupo familiar disfuncional jogado no mundo, que mesmo assim descobre que a família ainda é a unidade básica com que contamos para enfrentar essa realidade que vivemos) mesclado com A família Savage (filme que poderia ter sido dirigido por Payne, e parece ter sido marcado pelos filmes anteriores dele, e que toca num ponto nevrálgico em Os descendentes: como a mortalidade nos ronda, mesmo disfarçada em rotinas hospitalares, detalhes burocráticos, documentação, arranjos práticos—é uma das qualidades da história, tanto no livro de Hemmings quanto na adaptação de Payne).

    O que é difícil de acreditar é que, em meio a uma negociação tão complexa, importante e badalada, as empresas que fizeram ofertas deixem Matt tão livre, leve e solto para confrontar seus fantasmas pessoais, sem pressão de qualquer tipo.

   Mesmo assim, apesar de deixar a desejar neste e em vários aspectos e ficar próximo da banalidade em seu terço final (“Deixo que ele se vá junto com os meus antigos costumes. Todos nós deixamos que ele se vá, bem como o que éramos antes disso, e agora somos só nós três, para valer…”), o romance, como um todo, é bem melhor que o filme (ainda que este não seja um mau filme, só não é o grande filme que as premiações—e os trabalhos anteriores de Payne—nos autorizavam aguardar) e Matt é um narrador que apresenta lampejos e percepções que valem a leitura (“É absurdo quanta coisa se espera que os pais de hoje saibam. Venho de uma escola de pensamento onde a ausência do pai é algo com que se pode contar. Hoje em dia, vejo todos os homens com bolsas camufladas para troca de fraldas e os bebês pendurados em seus peitos como pequenas figuras de proa de um navio. Quando eu era um pai novo, lembro que minhas filhas meio que me incomodavam, por serem bebês, e todo mundo em volta correndo para atender suas necessidades).

Por isso mesmo, posso afirmar que George Clooney (eu sei, eu sei que ele é bonito, charmoso, engajado nas boas causas e quase todo mundo—mulheres, especialmente—acham que ele é sedutor e carismático) esvaziou o personagem de qualquer traço marcante com sua inexpressividade (para mim, uma constante na sua carreira de ator); no elenco, diga-se de passagem, só o veterano Robert Forster consegue deixar um traço memorável como o sogro truculento. Tirando essa limitação intransponível de Clooney enquanto intérprete, quem no entanto acredita seriamente que alguma esposa vai traí-lo com Matthew Lillard, o Salsicha dos filmes do ScoobyDoo, que ressurge em versão marombada?!!! Aí, já não estamos mais no Havaí e sim no território do país das maravilhas e do chapeleiro louco, no “mondo bizarro” cantado pelos Ramones (pelo menos foi a minha primeira impressão: pensando melhor, como Payne é um diretor nada bobo, a escolha desse ator pode significar—e nunca teremos a resposta, só a suspeita, com uma mulher em coma e logo em seguida falecida—o nível de desespero a que uma esposa—com um pé no alcoolismo—pode  chegar ao lado de um marido complacente e basicamente insatisfatório [1], ainda que com a estampa de George Clooney).

O LIVRO DA MÃE

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 07 de fevereiro de 2012)

   Quando Lionel Shriver veio em 2010 ao Brasil, para a FLIP, Precisamos falar sobre o Kevin (a ótima tradução de Beth Vieira  & Vera Ribeiro para We need to talk about Kevin, 2003) já tivera 15 mil exemplares vendidos por aqui. Eu me pergunto, contudo, quantos compradores ficaram realmente satisfeitos com a leitura dessa obra-prima da ficção (provavelmente o mais importante romance da primeira década deste século), uma vez que se faz de tudo para vinculá-la a uma temática específica: o fenômeno das matanças em escolas (é o que faz o Kevin do romance, doze dias antes do massacre de Columbine).

   Geralmente, os livros são exaltados ou por seu aspecto formal ou por seu assunto. A ênfase sempre recai sobre um ou outro pólo. Da minha parte, acho esse vezo lamentável, especialmente no caso de uma autora como Shriver, por razões que, espero, ficarão claras ao longo do meu texto.

   A narrativa é estruturada através das cartas que a mãe de Kevin, Eva Khatchadourian (descendente de armênios), redige para o marido (o qual também foi assassinado), durante aquele período profundamente desmoralizador da recontagem de votos na eleição norte-americana de 2000. E nelas não encontraremos  qualquer vestígio daquelas irritantes e hipócritas “histórias de superação” que nos mostram reis que superam sua gagueira ou adolescentes afro-americanas que sofrem abuso sexual e doméstico, além de bullying na escola, e mesmo assim conseguem sucesso na vida. Não há nenhuma lição positiva, nenhuma “mensagem” a tirar de Precisamos falar sobre o Kevin. Pelo contrário, através da voz peculiaríssima de Eva (que pode se irmanar a outras vozes inigualáveis como a de Riobaldo de Grande sertão: veredas, Humbert Humbert de Lolita ou Holden Caufield de O apanhador no campo de centeio, só para citar algumas; e é absolutamente inusitado que o alicerce dreiseriano, de combatividade e admoestação, que admiro em Zola, Tolstói, Lawrence ou Doris Lessing tenha se plasmado na voz de um personagem, o que dá uma característica original à autora de Precisamos falar sobre o Kevin dentro dessa linhagem: talvez por ter adotado a persona da Mãe ela pôde realizar esse feito único), Shriver lança um terrível anátema contra a civilização norte-americana e o os chamados “valores familiares”.

    Eva reconhece no filho logo cedo a sociopatia. Mas como toda a cultura à sua volta é regida por estereótipos, que vão do amor materno inato ao desejo de etiquetar e rotular cada distúrbio, como se a infelicidade pudesse ser domada e virar um atributo social com nomes como “depressão pós-parto”, “transtorno do déficit de atenção”, “bipolaridade” etc, enfim toda essa a enxurrada de modismos (e bobajadas) psiquiátricos e pedagógicos que enfrentamos na atualidade, ela se vê isolada no seu diagnóstico íntimo e implacável do filho, entrando em rota de colisão com o próprio marido, que nada vê de anormal em Kevin, e o cria com toda a complacência que caracteriza a relação pais e filhos na sociedade de consumo (e depois as pessoas se surpreendem que os afetos tradicionais tenham ficado cada vez mais esgarçados): “Não que Kevin não tivesse tudo em abundância, já que você o enchia de brinquedos (…)Talvez  a sua generosidade tenha saído pela culatra ao forrar o salão de jogos com o que devia parecer um mar de plástico; e talvez ele soubesse que presentes comprados em lojas eram fáceis para nós, que éramos ricos, e portanto, por mais caras que essas tranqueiras fossem, continuavam sendo baratas…”

   E é uma pena que a rara combinação de altíssima realização estética com o que só posso chamar de autoridade moral (e é por isso que não me lembro de nenhum romance contemporâneo ter me abalado tanto, com a exceção de Desonra, de J. M. Coetzee[2]) não tenha sido captada pela versão cinematográfica de Lynne Ramsay. Optando por uma narrativa não-linear, ela passa longe do registro impiedosamente cirúrgico do original e transforma tudo numa espécie de tormento psicológico expressionista, numa atmosfera que sacrifica, em primeiro lugar, a descrição da dinâmica familiar e reduz todos que não são Eva e Kevin a caricaturas grotescas (o que não acontece no romance, com certeza [3]). Além disso, apesar de tanto Jasper Newell quanto Ezra Miller serem perfeitos como Kevin em diferentes fases, precisamos falar sobre o que há de discutível na caracterização de Tilda Swinton: atriz de presença magnética em cena, ela peca pela falta de sutileza, está sempre tão intensa em todos os momentos, é tudo tão dramático no seu olhar, que se tem a intuição de que não precisava dos feitos de Kevin para carregar a mesma dramaticidade exagerada[4]. Como não há progressão na história, tal como contada no filme, quem não leu o romance nunca percebe quando se cristaliza o processo implacável que a torna “mãe do ignóbil Kevin Khatchadourian é quem sou agora, uma identidade que significa mais uma das vitórias de nosso filho…”

  E, por falar em Kevin, não deixa de ser engraçado que as pessoas achem amedrontador o filme de terror recente chamado Filha do Mal. Pois o terror que esse menino, cuja vida conhecemos até os 18 anos, carrega consigo é infinitamente mais devastador: “É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho, e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribuí a rejeição—talvez ele fosse 15 vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego quase a admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antagonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe. Porque, depois de quase dezoito anos, faltando apenas três dias, posso finalmente anunciar que estou exausta demais e confusa demais e sozinha demais para continuar brigando, e, nem que seja por desespero, ou até por preguiça, eu amo meu filho. Ele tem cinco anos para cumprir numa penitenciária de adultos, e não posso botar minha mão no fogo pelo que sairá de lá no final. Mas, enquanto isso, tenho um segundo quarto em meu apartamento funcional. A colcha é lisa. Há um exemplar de ´Robin Hood´ na estante. E os lençóis estão limpos…”

   Em tempo: quem na Intrínseca teve a infausta ideia de trocar a capa brasileira original, que chamava a atenção para o livro de forma tão inquietante, para uma reprodução do cartaz do filme? É a proverbial ideia de jerico.


[1] “… também me lembrei de todas aquelas noites em que ela saía até tarde com as amigas. Terminava desabando na cama, cheirando a tequila ou vinho… Me pergunto se parte de mim não ficava contente por ela estar se mantendo entretida, permitindo que eu me concentrasse em meu trabalho, tão absorto em criar meu próprio legado, em vez de tomar de empréstimo os legados daqueles que vieram antes de mim. Sim. Parte de mim devia gostar de ficar sozinho…”

[2] Eu tenho um caderno repleto de citações copiadas de Precisamos falar sobre o Kevin, suas observações precisas, mortiferamente lúcidas. No entanto, isso seria contraproducente, pois eu poderia citar e citar e não transmitiria o poder do livro como um todo, como experiência de leitura impressionante.

[3] Não se dá nenhuma atenção, por exemplo, ao personagem-chave do marido, vivido por John C. Reilly de forma mais opaca e inexistente ainda do que o normal, mesmo para ele, um ator que não deixa marcas (o que pode ser eficaz em certo tipo de filme, porém é especialmente infeliz diante de Tilda Swinton). Como a narrativa de Eva é dirigida ao marido—que foi uma das vítimas do dia do massacre realizado por Kevin—, às vezes de maneira desleal, por ser um olhar retrospectivo e portanto “informado” , ao qual devemos ficar atentos, considero  essa “ausência”  desastrosa e uma falha perceptível na direção dos atores.

[4] De passagem, pelo que conheço de sua carreira, Swinton ainda está nos devendo uma caracterização em personagem “normal”, do dia a dia. Com seu histrionismo  bem marcado, ela tem sido utilizada em fantasias e caracterizações bizarras:  o papel-título de Orlando, o anjo de Constantine, a bruxa das Crônicas de Nárnia. Ao interpretar uma vilã do mundo empresarial, ou seja, da realidade mais prosaica, em Michael Clayton-Conduta de risco, ela também ficou a dever, muito próxima do caricatural (achei sua premiação com o Oscar bem injusta). Com certeza, ela não é nenhuma Toni Colette que transita bem tanto em constelações mais bizarras quanto no universo mais cotidiano.

19/02/2012

John Le Carré em meados dos anos 70 e sua obra-prima

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2012)

Hesitei em reler O espião que sabia demais (a tradução brasileira para Tinker Tailor Soldier Spy, publicado na Inglaterra em 1974;  o título original é referência a uma tradicional parlenda infantil, cuja versão local é “rei soldado capitão” etc, confusamente aproveitada pelo tradutor Thomaz Scott Newland Neto [1]) porque temia ser impossível recuperar o encanto (na falta de outro termo mais apropriado) com um gênero de romance que poderia ter ficado irremediavelmente datado, envelhecido.

Algumas realizações recentes de John Le Carré (penso, por exemplo, em Amigos Absolutos– VER AQUI NO BLOG:https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/) ratificavam tal possibilidade.

Graças à sua excelente versão o livro voltou às livrarias, após muito tempo (pena que as editoras ainda se valham do ultrajante recurso de copiarem nas capas—ao invés invés de utilizar uma sobrecapa publicitária, o que seria a melhor solução—os cartazes das produções cinematográficas, parecendo que os textos originais são anexos ou derivativos deles), não pude  me furtar ao risco de uma desilusão. Ainda bem.

Pois, apesar da qualidade do filme de Tomas Alfredson, o romance de John Le Carré não precisava dele para ser um clássico, um ponto alto na sua produção. O fato de não haver mais Guerra Fria só tornou mais evidente o ‘heart of the matter’, o cerne da questão: uma espécie de “busca do tempo perdido” por parte de um grupo de personagens que por acaso são espiões e que não sabem em que ponto entraram num labirinto sem saída, de irrealidade e fantasmagoria: “Você sabe o que ela disse, com aquela voz de sargento-mor?: Você está perdendo seu sendo de proporção, Connie, já chegou a hora de você voltar à realidade. Odeio o mundo da realidade, George. Gosto do Circus e dos meus adoráveis rapazes.” Ou mais adiante:”…Quando Smiley relembrou os caminhos que trilharam em seu passado, um após o outro, já não havia a menor diferença entre as duas coisas: para a frente ou para trás, tudo não passava da mesma jornada..”.

    Eu acabara de sair da leitura (em pouquíssimos dias) de Os  homens que não amavam as mulheres e confesso que achei árdua, quase exasperante, a releitura, especialmente da segunda parte. Agora, vejam que curioso fenômeno: após toda a facilidade e rapidez com que o li, o romance de Stieg Larsson meio que se evaporou na minha mente, mal deixando traços. E o de Le Carré tomou conta da minha imaginação, não conseguia parar de pensar nele, na sua atmosfera saturada. Isso se tornou mais forte ainda quando assisti ao filme: não pude deixar de ler mais uma vez a segunda parte, e ela mostrou então que, longe de ser árdua ou cansativa, é um grande tour-de-force, o tipo de construção narrativa que só ganha com a releitura cuidadosa.

   George Smiley (vivido pelo grande Gary Oldman, que bem merecia o Oscar por sua capacidade de criar uma zona inescrutável de auto-anulação à sua volta, digna do mordomo que Anthony Hopkins viveu em Vestígios do dia,  e cercado por notáveis atores veteranos e mais jovens [2]) pertenceu ao Circus, divisão avançada do Serviço Secreto Britânico; durante uma briga entre grupos pelo poder, como ele era ligado ao antigo chefe, Control, foi afastado, “aposentado”. Antes da sua substituição e morte, Control tentara provar que alguém ligado ao novo chefe, Percy Alleline, era uma “toupeira”, agente duplo recrutado por Karla, espião russo que no mundo de  Smiley ocupa o mesmo status do professor Moriarty no de Sherlock Holmes.

A reaparição de um agente tido como desertor, Ricki Tarr,faz com que autoridades do governo procurem Smiley para investigar subterraneamente essa possibilidade de haver, de fato, um traidor na alta cúpula do Circus.  Entre os quatro candidatos mais prováveis (a bem da verdade, é preciso dizer que Control pensava num quinto suspeito: o próprio Smiley) está o sedutor (e bissexual, o que não é um dado aleatório da trama) Bill Haydon.

Um dos seus amantes, Jim Prideaux (a quem seduzira durante os anos como estudante com sua postura anárquica de artista—aliás, outra figura-chave, embora apareça muito pouco de forma direta, a esposa de Smiley, Ann, também sofreu processo de sedução similar) foi instruído por Control para uma operação secreta, na qual apuraria a identidade do traidor.  O fracasso da missão  causou a queda definitiva do decadente Control (em contrapartida à ascensão de Alleline com uma “Operação Bruxaria” muito bem-sucedida, e que será esmiuçada por Smiley na sua “busca do tempo perdido”). Prideaux  também teve de “encostar-se” do Serviço Secreto, disfarçando-se como professor subalterno numa escola preparatória, onde se torna ídolo da garotada.

O romance entrelaça as trajetórias de Prideaux e Smiley. Mais do que derrotados no plano da intriga internacional, ambos são vítimas de uma maldição da cultura inglesa, tal como revelada no seu imaginário literário: a incapacidade de crescer, de se tornar adulto[3]. Os personagens principais parecem ter se fixado nos seus anos como estudantes em Oxford ou Cambridge (boa parte deles foi recrutada ali) e nas ligações emocionais da juventude.

Por isso, Bill Haydon é o ponto de fuga das duas trajetórias entrelaçadas e é por isso que o papel de Bill Roach e Peter Guillan é tão importante em O espião que sabia demais: o segundo é o jovem espião que não goza das boas-graças do novo chefão Alleline e que serve de Watson a Smiley, correndo o perigo de se deixar prender no mesmo labirinto, envelhecendo sem nunca atingir  maturidade emocional[4]; o primeiro é o menino solitário que idolatra Prideaux e que já se sente fora da vida, um observador, um aprendiz de espião (tanto que lemos que Smiley fisicamente  “poderia ser a forma definitiva da qual Bill Roach representava o protótipo).  Sem contar que é outro Bill na vida de Jim Prideaux  (mas de forma invertida).[5]

O filme atenuou até quase o empalidecimento esse aspecto crucial do livro (e isso me incomoda um pouco porque enfraquece a ligação Prideaux-Haydon e sua origem no pré-guerra e numa inocência política do primeiro contrastada à desfaçatez de artista que  se permite tudo do segundo; ainda assim, considero o roteiro sensacional), concentrando-se mais no quebra-cabeça que vai sendo montado com os fatos, no processo tortuoso, ácido e cínico a não mais poder, no final do qual, com grande atraso, Smiley herda o poder de Control  (de quem seria o substituto natural não fosse Alleline e a “Operação Bruxaria”) no Circus, para o bem ou para o mal. Isso não importa, uma vez que estamos lidando com duas obras legítimas em linguagens muito diferentes. O que, convenhamos, sempre foi muito raro e é sempre fascinante quando acontece.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-ultima-decada-do-seculo/


[1]  A edição do Círculo do Livro  para a mesma tradução (lançada originalmente pela Record, e reaproveitada agora, com algumas ligeiras revisões, que não resolvem seus problemas) efetua inúmeras modificações no texto brasileiro, inclui diversas notas de rodapé, algumas até inúteis, como aquela que nos explica quem foi Lawrence da Arábia, mas na hora H, de forma muito curiosa, se furta a melhorar—ou então  esclarecer melhor em nota– o jogo de palavras do título e sua adaptação nacional,  Mesmo assim, é uma experiência interessante ler O espião que sabia demais nas duas  edições da Record (a dos anos 70 e a atual) e na do Círculo do Livro. Por exemplo, Jim Prideaux que era (nos anos 70, na versão original da Record e na do Círculo do Livro) um branco pobre na comunidade docente da escola preparatória Thursgood, torna-se agora um pé-rapado.

[2] Nunca é demais enaltecer a capacidade de um ator como Colin Firth, justamente no momento mais prestigiado da sua carreira, após ganhar o Oscar, o Globo de Ouro e o SAG por sua atuação em O discurso do Rei, de fazer um papel menor, e se ater de forma circunspecta e precisa ao tamanho da sua participação. Assim como Judi Dench e outros tantos intérpretes britânicos de primeira, ele tanto pode ser  protagonista como coadjuvante sem o menor traço de estrelismo, de querer “roubar a cena”; o filme se dá ao luxo de ter, ainda, John Hurt, Toby Jones, Mark Strong,  Cioran Hinds, Benedict Cumberbatch (a verdadeira versão moderna de Sherlock Holmes e não sua contrafação grotesca representada por Robert Downey Jr.) e Tom Hardy, o qual, além de lindo, é uma das maiores revelações de ator dos últimos anos. Outra pessoa linda que faz parte do elenco é a intérprete de Irina (a russa que faz Ricki Tarr dar uma sumida e depois, mais tarde, contar sua história a Smiley), Svetlana Khodchenkova (que rosto!). E esse grupo formidável sequer foi indicado para o SAG para o prêmio de melhor elenco (mas indicaram o elenco de Missão madrinha de casamento, o que só pode ser considerado um deboche)!

[3] Essa característica está implícita tanto no título original, com sua referência infantilizada, quanto em inúmeros detalhes da tessitura do texto, como, por exemplo,  a alusão ao “jogo de kim” (o maravilhoso, porém reacionário e peterpanesco romance de Rudyard Kipling), onde um menino serve como espião para os ingleses na Índia colonial. Le Carré sempre conta que não teve infância verdadeira e isso se refletiu em seus livros, e penso sempre na caracterização (em Ways of Escape- Pontos de Fuga) de Graham Greene para alguns de seus protagonistas (como os de Assassino de aluguel & Brighton Rock-O condenado): que eles nunca se tornaram verdadeiros adultos, que se recusam a crescer (tanto que o perverso e degenerado Pinkie é conhecido como O Garoto).

[4] Esse perigo é realçado pela visão romântica (e aqui temos uma “educação sentimental”  embutida em O espião que sabia demais e, consequentemente, também um processo de “ilusões perdidas”) que ele tem da geração que foi cooptada para o jogo da espionagem por volta da Segunda Guerra: “`Para Guillan, Haydon pertencia àquela geração do Circus que estava desaparecendo e não se repetiria, à qual seu pai e George Smiley também haviam pertencido. Era uma geração única e, no caso de Haydon, de sangue azul, que vivera com vagar uma dúzia de vidas comparadas à sua própria existência apressada e que, transcorridos trinta anos, tinham dado ao Circus aquela sua atmosfera impregnada de aventura. E isso estava desaparecendo”.

[5] Há um jogo (um dos muitos do texto) de palavras, logo no primeiro encontro entre Jim e o menino, que já é uma alusão velada ao outro Bill da narrativa, e que aparece de duas formas nas edições brasileiras.

Nas duas da Record, lemos a seguinte e lamentável tradução:

“__ Meu outro nome é Bill. Fui batizado com o nome de Bill, mas o Sr. Thursgood me chama de William.

__Bill, hem? O Bill que leva calote de todo mundo. Alguém já chamou você assim?

­­__Não, nunca.

__ É um bom nome, de qualquer maneira.

__ Eu acho que sim.

__ Conheço uma porção de Bill. Todos são boas pessoas…”

Na edição do Círculo do Livro, ajeitam melhor a passagem:

“__Meu outro nome é Bill. Fui batizado com o nome de Bill, mas Mr. Thursgood me chama de William.

__ Bill, hem? O impagável Bill. Alguém já chamou você assim?

__ Não, nunca.

__É um bom nome, de qualquer maneira.

__ Eu acho que sim.

__ Conheço uma porção de Bill. Todos são boas pessoas…”

E conscienciosamente colocam a seguinte nota sobre “o impagável Bill”: “Trocadilho intraduzível. Em inglês, o substantivo comum bill designa comercialmente a nota promissória, a letra de câmbio, a fatura…”

John Le Carré em meados da última década do século

VER TAMBÉM NO BLOG:

 

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

 

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de abril de 1996)

Na guerra entre as superpotências do best seller John Le Carré, com seu O gerente noturno, perdeu feio para seu arqui-rival Frederick Forsyth e seu O punho de Deus.

Le Carré, assim como Morris West outrora, é autor raro na lista dos mais vendidos: nos seus melhores momentos, sabe dosar senso de oportunidade no tratamento dos assuntos, angústia existencial, apelo popular e inequívocas qualidades literárias. Em O gerente noturno algo desandou. Tinha-se a nítida sensação de que ele escreveu algumas partes do livro e contratou outro para escrever o restante. O começo era excelente e havia cenas admiráveis como uma em que Jonathan, o herói, está tão imbuído de seu disfarce, preparado por agências de investigação da Inglaterra e dos EUA, e no qual deveria aparecer como salvador do filho de um traficante de armas, que realmente encarna emocionalmente o papel que tem de representar quando chega a hora do pretenso salvamento. Como em outras vezes no mundo de Le Carré (os memoráveis O espião que saiu do frio & A garota do tambor), ser e representar confundem-se. Depois disso, o leitor tinha de aturar trechos rasteiros como “estavam deitados depois de terem feito amor, embora Deus saiba que não era amor o que tinham feito, e sim algo mais próximo do ódio”.

No seu novo romance, NOSSO JOGO (Our game, em tradução de Eduardo Francisco Alves para a Record, que finalmente tomou vergonha e deu ao autor britânico um tratamento editorial adequado e bonito), ele está visivelmente mais inspirado, fazendo com que o leitor mergulhe com prazer na história de Tim & Larry, funcionários aposentados do Serviço Secreto e órfãos da Guerra Fria, e para os quais ainda persiste a confusão entre ser e representar, compreensivelmente quando se experimentou uma vida dupla por tantos anos.

Tim narra, a partir do desaparecimento de Larry. Na verdade, ele acredita tê-lo assassinado porque o homem que foi seu aprendiz de espião e com quem manteve relações das mais dúbias reapareceu na sua vida e seduziu Emma, sua esposa.

A sedução de Emma é bem mais do que sexual. Larry a coopta para a causa dos povos muçulmanos do norte do Cáucaso —chechenosn e inguches— esmagados pela reorganização da ex-URSS. Um dos aspectos magistrais de NOSSO JOGO é o contraste entre a narrativa obcecada e sobretudo venenosa de Tim a respeito do envolvimento Larry-Emma (que lembra relatos de Nabokov) e a tragédia desses povos, que, segundo um personagem, vira mera estatística, uma vez que ninguém se interessa pelo seu destino, a não ser quando ocasionalmente aparecem nos noticiários.

Larry passa por vigarista, após um golpe milionário para levantar fundos para a causa inguche (e quem acredita hoje em dia num visionário com uma causa nobre?). E o relato de Tim vai adquirindo um tom digno do Kafka de O processo: Larry e Emma sumiram e ele é quem recebe a culpa como mentor do golpe. É obrigado a fugir, mudar de identidade e seguir os rastros do amigo-rival na Rússia e depois no Cáucaso, numa dessas regiões das quais ninguém ouviu falar. E que é impossível esquecer depois de ter lido  o final de NOSSO JOGO, quando Tim tem um ajuste de contas com Larry que não poderia ter sido melhor solucionado.

NOSSO JOGO é, talvez, o melhor relato desse tipo desde O terceiro homem, de Graham Greene, onde também havia um amigo supostamente morto que levava o “herói” a envolver-se nos bastidores e submundos de uma guerra. John Le Carré soube renovar sua fórmula, aprimorar seu estilo e atingir uma tensão que faz do seu novo livro um dos mais absorventes da década. Desta vez, todas aquelas características (senso de oportunidade, angústia existencial, apelo popular e qualidade literária) uniram-se exemplarmente e produziram uma obra-prima.

John Le Carré em meados da primeira década do nosso século

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-ultima-decada-do-seculo/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

Se fossem necessárias provas da sobrevida de John Le Carré com relação à Guerra Fria, que ele retratou tão bem, temos agora em 2005 uma adaptação cinematográfica importante de um de seus livros recentes, O jardineiro fiel (não seria melhor O jardineiro dedicado?)e um novo romance, AMIGOS ABSOLUTOS (Absolute friends, em tradução de Roberto Muggiati para a Record), no qual ele mostra seu dom de localizar os temas mais candentes no momento certo, no caso o clima de paranóia anti-terrorista semeado pelos EUA após os atentados do 11 de setembro.

Qual o problema, então? Após escrever clássicos como O espião que saiu do frio & A garota do tambor, sem falar na série Smiley (Sempre um colegial & A vingança de Smiley, por exemplo), Le Carré patinou um pouco por pistas escorregadias, caso de A casa da Rússia & O gerente noturno, no processo de adaptação de sua ficção aos novos tempos. Aí veio o brilhante NOSSO JOGO (abordando o problema da Chechênia) e tudo indicava que ele atingira um patamar mais alto como escritor. O romance seguinte, O alfaiate do Panamá, foi aguardado (pelo menos por mim) com muita expectativa, revelando-se frustrante e marcando o “tom” dos seguintes (três, até agora): o acerto da temática, a narrativa pesada, arrastada, convencional, laboriosa. Nunca ruim, jamais! Lê-se com respeito, porém sem admiração ou surpresas, mesmo com as tradicionais reviravoltas nas tramas.

AMIGOS ABSOLUTOS funcionará mais para quem não leu os romances da Guerra Fria de Le Carré: seu protagonista, Ted Mundy, é o inglês nascido no Paquistão e que nunca chega a adaptar-se à Inglaterra, preferindo estudar alemão e aventurar-se na Berlim ocidental no auge da contracultura e da contestação, no final dos anos 60, onde conhece Sasha, o responsável pelo título, dizendo (na página 119): “Você é meu amigo absoluto”, sabe-se lá por que, já que essa amizade nunca nos convence totalmente (na ficção recente, há histórias mais fortes de duplas de amigos, em que um leva o outro a conhecer aspectos digamos mais “radicais” da existência, basta lembrar de Leviatã, de Paul Auster, e O filho de deus vai à guerra, de John Irving).

Ted e Sasha perdem contato até que ambos são cooptados como agentes do Serviço Secreto britânico, Sasha traindo a Alemanha oriental comunista.Mundy executará várias missões arriscadas do lado de lá do muro, passando-se por traidor também. E o leitor bocejará inúmeras vezes durante essa parte, excessivamente longa, que repisa algo já visto e revisto. E com o dilema típico do heróilecarresiano: ser e representar se confundem na mesma impostura (“não sabe mais que partes de si estão fingindo”).

Perdem novamente contato, o muro cai, a globalização avança, um Mundy decadente tenta “se tornar real depois de muitos anos de fingimento” e agora é guia de museu, vivendo com uma turca e o filho dela. E Sasha reaparece, com uma nova proposta de trabalho mútuo e o leitor pensa, que bom, chegamos ao fundo da questão, o mercado armamentista que necessita de novos conflitos e guerras, como a  invasão do Iraque (apesar da retórica mentirosa que encobre os motivos reais), para expandir-se. Enfim, um novo colonialismo (devolvendo Mundy ao mundo que conheceu na sua infância). Só que sobrou pouco tempo, o livro está para acabarn e tudo fica muito rápido, confuso, insatisfatório, até inconvincente (Mundy e Sasha são tomados como terroristas fundamentalistas).

O que mais irrita em AMIGOS ABSOLUTOS, afora seus personagens anódinos, é o aspecto “pesquisadinho” e cênico de cada local escolhido para a trama: seja o Paquistão ou cidades alemãs parece que saíram de um caderno de notas, nunca adquirindo a vida que sentimos nos maravilhosos romances de Graham Greene, independente do “exotismo” peculiar ao cenário.

Le Carré parece ter sido acometido “pelo cansaço dos seus fantasmas da Guerra Fria: “Por favor, pensa. Já estivemos aqui. Já fizemos esse tipo de coisa. Na nossa idade não existem mais novos jogos a jogar”. Talvez, ao fim e ao cabo, só o cinema consiga salvá-lo, se não com a medíocre versão de John Boorman, outro cansado de guerra, para O alfaiate do Panamá, pelo menos com a vitalidade e juventude de Fernando Meirelles.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  22 de outubro de 2005)

14/02/2012

Pessoa liberto das garras dos especialistas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de outubro de 2006)

 “Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real (…) a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as idéias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos (…) Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale…”

     Um dos muitos lançamentos de impacto da Alfaguara, novo e agressivo selo  no mercado brasileiro, Quando fui outro, antologia de textos de Fernando Pessoa organizada por Luis Ruffato, destaca-se em meio ao caudal de publicações pessoanas (ora recopilações do material existente, ora “inéditos” que brotam mais do que as batatas da terra daquela canção “Morango do Nordeste”) devido a uma  feição característica (ao mesmo tempo, uma qualidade) muito simples: os textos (cinqüenta e seis, mais algumas das constrangedoras cartas escritas por ele para sua semi-noiva Ophélia Queiroz) são apresentados por eles mesmos, sem indicação de data, heterônimo ou importância na obra.

    Para o leitor iniciante (com o acréscimo do capricho da edição) é uma ótima introdução: ele pode entrar em contato com parte da melhor produção do genial poeta português sem precisar ser contagiado pela neurose dos especialistas. O leitor mais experiente também suspira de alívio: finalmente um momento de lazer no incansável parque industrial Fernando Pessoa e seus laboriosos, zelosos e ciumentíssimos operários, os quais se refocilam prazerosamente no “esterco metafísico” que angustiava o fundador da fábrica e anulava seus “propósitos todos”.

     Temos várias obras-primas supremas. Certamente a maior de todas(não, não é O guardador de rebanhos), Tabacaria divide com A terra arruinada, de T.S. Eliot, e Elegias de Duíno, de Rilke, a primazia entre os poemas do século 20:

    “Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real

                                                                [por fora,

    e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real

                                                               por dentro.”

Há trechos admiráveis de um dos dois grandes projetos de Pessoa, em prol dos quais ele se consumiu durante anos: o Livro do desassossego (o outro é  Fausto-Tragédia subjetiva). É o caso de Tudo se me evapora que fala  da sensação—esse vocábulo tão pessoano— despertada pela releitura de antigos escritos: “Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o progresso se então era o mesmo que hoje sou”.

     A leitura de Quando fui outro levou o autor deste artigo a se interrogar mais uma vez sobre a estranha irmandade que une Pessoa a Kafka (este último capaz de escrever que se aborrecia com tudo que não fosse literatura) e Borges (produto de uma formação “inglesa” similar e que acabou por redescobrir e recriar sua cidade natal, Buenos Aires, tal como o autor de Mensagem fará com Lisboa). E o transeunte de tudo, até de si mesmo (“continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu”), o homem que odiava os começos e os fins das coisas, espírito constituído de hesitação e dúvida, acaba por capitular diante de um mero gato de rua:

    És feliz porque és assim,

    Todo o nada que és é teu.

    Eu vejo-me e estou sem mim,

    Conheço-me e não sou eu.”

       

08/02/2012

O 1984 de Jules Verne ou um Kafka avant la lettre

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de julho de 1995)

PARIS NO SÉCULO XX ( Paris au XXe. Siècle) é um romance de Júlio Verne escrito por volta de 1863 e recusado pelo seu editor. Publicado com grande repercussão ano passado na França, chega agora ao Brasil pela Ática  (traduzido impecavelmente por Heloísa Jahn), numa edição superior à de sua horrorosa coleção de clássicos luso-brasileiros ou de sua medíocre (em forma e conteúdo) série Vagalume (ou seria Caça-níqueis?).

O romance de Verne é, como se percebe pelo título, uma antecipação visionária do nosso tempo, tomando como base o desenvolvimento urbano-tecnológico de Paris e adotando um tom satírico, principalmente por mostrar uma civilização materialista e utilitária ao extremo[1], na qual ser um artista, um criador, um individualista, é ser um subversivo ou um pária, tal como Michel, o herói do relato, o qual acaba na mais negra miséria, solidão e loucura.

Uma sátira sombria, portanto, com seus prédios monstruosos, suas diversões para grandes massas, tudo controlado pelos capitalistas e pelo Estado tentacular, onde o excedente de população confina-se em quitinetes, em bairros afastadíssimos:

[proprietáriio] …meu filho, é terrível o que está por trás dessa palavra. Quando se pensa que um homem, seu semelhante, feito de carne e osso, nascido de uma mulher, de uma simples mortal, possui uma certa porção de globo terrestre!… Que ele pode queimar suas árvores, beber seus regatos e comer sua relva se lhe der na telha…”

O editor errou, então, ao rejeitar o livro? Eis uma questão espinhosa.

Verne é um autor apaixonante, apesar de todas as restrições que se lhe possam fazer, as quais, entretanto, jamais tirarão o encanto e o impacto para quem o leu na infância, mesmo nos tardios idos dos anos 1970, como foi o meu caso, e sabe que o autor francês, em suas maiores realizações (Viagem ao centro da terra & A volta ao mundo em 80 dias, sobretudo) tem o  dom e o condão de mostrar o mundo como imensidão e, ao mesmo tempo, como passível de ser explorado (no bom sentido, não o da citação acima). É a geografia como aventura.

Mas PARIS NO SÉCULO XX ainda assim é um pouco chato, aborrecido, tem duzentas páginas que parecem quatrocentas. Também é difícil ter simpatia pelo herói. Melhora, e muito, no final adequado e terrível.

Não vale a pena ler o livro? Claro que vale, se o leitor quiser conhecer um clima narrativo que antecipa em meio século o dos textos de Kafka, para não falar no que antecipa das distopias mais inclementes que viriam depois (como 1984), e que, por falta de um termo melhor, pode ser caracterizado como comédia opressiva (e que dá frutos até hoje, basta lembrar o brilhante Brazil, de Terry Gillian).

O trabalho de Michel no Grande Livro de escrituração é um dos inúmeros exemplos do clima pré-kafkiano de PARIS NO SÉCULO XX, que também serve para mostrar o avesso do século XIX, Isto é, os temores de seus artistas, mostrando também o acerto das reflexões de Walter Benjamin (e posteriormente Marshall Berman) sobre Baudelaire, contemporâneo de Verne que colocou Paris no centro da “modernidade” (entendida como desconstrução do passado). Se publicado em sua época, o texto de Verne com certeza teria sido tema de Berman em seu Tudo o que sólido desmancha no ar.

É inútil procurar no romance por acertos na ordem da adivinhação do futuro. Tudo isso é uma questão de imaginação e de detalhes (embora ele tenha previsto coisas como o fax). Importa mesmo é que Verne previu, com acerto, o mais terrível de tudo: a massificação, o esvaziamento do individual pela tirania das estatísticas e da produção em série.

Bem que ele podia ter errado.


[1] O que me lembra uma passagem de Uma cidade flutuante. O narrador está dando um último olhar às cataratas de Niagara (visita que ocupa a maior parte das últimas páginas do relato).Ao seu lado está um engenheiro. O narrador não se contém:

“__ É uma beleza, meu caro! Não é admirável?

__Sim –respondeu ele—Mas que força mecânica inútil! Que moinho se faria girar com uma queda como essa!

  Jamais senti vontade mais feroz de atirar um engenheiro na água!” (tradução de Beatriz Sidou)-nota de rodapé de 2012

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