MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/10/2018

Destaque do Blog: “Primeiros dias do verão eterno”, de Roger Lombardi

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 30 de out) 

“PRIMEIROS DIAS DO VERÃO ETERNO” é uma grata surpresa. Roger Lombardi tem o prazer de fabular e narrar, às vezes com gordura de mais em sua prosa e excesso de diálogos. 

Mas ele se sai bem tanto nos contos a temporais quanto nos que se passam na realidade cotidiana, onde sempre há um elemento sobrenatural, com exceção de “Morangos”, o qual trata do despertar sexual violento de uma mulher madura. Já em “A cadeira” quem se senta nela sofre experiências horrendas este relato é prejudicado por delongas na primeira parte. Em “O oficial”, este aparece misteriosamente na casa de três irmãs, alvoroçando-as. É interessante a dinâmica entre as irmãs. Em “O caminho para o jardim”, mistura tarô e o Livro de Jó. 

Nos contos a temporais, temos “A macieira”, a qual da frutos gigantes e semeia discórdia, em “Até o amanhecer”, um caçador perde-se de seu grupo na floresta, encontrando uma choupana onde viverá perturbadores eventos. Talvez o conto que melhor representa “PRIMEIROS DIAS DO VERÃO ETERNO seja “A carona”. Tem todos os defeitos apontados, com uma intrigante trama onde aparece um anjo (sem cair no ridículo), com um clima de suspense notável e um final perfeito: “Deus, perdoa meus pecados e me receba em seus braços. 

O anjo, então, colocou a mão direita em seu ombro direito e falou com uma voz grave: 

Não há nenhum deus para onde vamos. 

Atingido por outras balas no peito, braços e coxa, Carlos ainda teve tempo de entender o sentido daquelas palavras antes que tudo fosse ofuscado pela luz mais pura que já havia visto, dominando tudo de forma tão intensa e tão poderosa que não pôde mais sentir nem ver mais nada” (desculpem o spoiler). 

Roger Lombardi lembra Lygia Fagundes Telles, mas falta-lhe a precisão narrativa de seus “mistérios”. Imagino uma segunda edição mais concisa e eficaz narrativamente. 

Da maneira como está, “PRIMEIROS DIAS DO VERÃO ETERNO revela um dos autores mais interessantes do cenário atual.

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23/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE DOIS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de outubro de 2018) 

Continuo meu comentário sobre “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ, de Lima Barreto. Foi o primeiro romance levado a cabo pelo grande escritor carioca (por isso se nota a “angústia da influência” com relação a Machado de Assis e seu Conselheiro Aires). 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

A atitude filosófica de Gonzaga de Sá lembra, é claro, mas só superficialmente, a do Conselheiro Aires criado por Machado de Assis para filtrar de modo ainda mais sutil seu humor e pessimismo corrosivos.  

Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado como o narrador de outro grande romance de Barreto (foi o próximo a ser completado), “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (publicado em 1909): “Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado. Por que mas deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! Se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria, uma por uma, as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise”. 

Nesse entrançar de mocidade e velhice, revolta e sabedoria, amizade e solidão, espírito amplo e amargura, o Rio de Janeiro avulta. O livro é uma das mais cabais demonstrações da “poesia das cidades” instaurada por Baudelaire, sendo, como é, um passeio pela cidade, centro, praias e subúrbios, passado e presente. É por isso que seu ponto alto é a extraordinária sequência de capítulos em que Machado acompanha Gonzaga de Sá para velar e enterrar um compadre que morava no subúrbio. É ali que, na atmosfera carregada do velório, Machado despertará para o desejo sexual representado por Alcmena, vizinha do compadre falecido: “No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso, glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, diante da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica.”.

16/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de outubro de 2018) 

Em 1919 foi publicado (por Monteiro Lobato) o derradeiro livro de Lima Barreto, “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”. Na verdade, foi o primeiro que ele escreveu. 

Nele, o narrador, Augusto Machado, conta como conheceu o personagem-título, também funcionário público (só que bem mais velho) por causa de uma ridícula questiúncula envolvendo o número de salvas de canhão devidas a um bispo em visita a uma cidade. 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

Veja-se o que Machado nos conta no capítulo “O passeador”: “O que me maravilhava em Gonzaga de Sá era o abuso que fazia da faculdade de locomoção. Encontrava-o por toda parte… Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre e fumando voluptuosamente, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala. Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos que pelo correr do dia, lembrava-se: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias… Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas coisas mortas sugeriram durante aquelas épocas da sua vida”. 

O leitor de “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ” vai notando que, conforme o livro vai se desenvolvendo, Gonzaga de Sá parece o passeador e mais ele e Machado representam, no fundo, uma só pessoa: Machado, a mocidade; Gonzaga, a maturidade (uma maturidade, uma atitude sábia, um tanto problemáticas). Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado (continua na próxima semana). 

09/10/2018

LIVRO SOBRE E.L.A DECEPCIONA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 09 de outubro de 2018) 

Ricky Ribeiro é um jovem de Alphaville. Popular, viajado, sua ambição é o desenvolvimento sustentável. Aos 28 anos recebe um diagnóstico terrível: é portador da E.L.A, esclerose lateral amiotrófica. 

Quando vi a envergadura de “MOVIDO PELA MENTE” achei que seria uma experiência transformadora.  Aqui o crítico vai falar mais alto. Que decepção. O relato é enfadonho principalmente porque ele quer botar tudo e todos na narrativa, que chega a por menores delirantes: “Essa viagem, além de ser uma vivência inesquecível de um jovem aproveitando a vida com amigos pela Europa, foi muito marcante por me fazer aprender novas formas de locomoção pelas cidades. Logo de cara fiquei fascinado pelas ciclovias de Roterdã e por suas outras alternativas de transporte, como o bonde, a balsa, o metrô, o trem e as caminhas a pé. Mesmo depois que alugamos o carro na França, pegamos muitas balsas, em que colocávamos o automóvel e atravessávamos de um país ao outro. De fato, a água estava presente em toda a nossa viagem. Pipo e eu entramos numa cachoeira de degelo nos fiordes noruegueses, a quase zero grau, a despeito do verão europeu. Sem contar o frio, o visual ao redor era impressionante, com abismos, estradas estreitas, túneis e braços de mar. Em Budapeste, íamos todo dia ao Banho Turco, com suas águas termais”.  

Como companheiro de desgraça fico comovido, mas isso não é motivo para ser condescendente.  

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