MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2011

CABALA E POGROM: “O último cabalista de Lisboa”

O último cabalista de Lisboa [The last kabbalist of Lisbon, em tradução portuguesa de José Lima, a qual, numa estranha opção editorial, foi “adaptada” para o Brasil, por Rosa Freire d´Aguiar), de Richard Zimler, narra, com terrível riqueza de detalhes, o massacre de milhares de judeus na Lisboa de 1506, quando reinava D. Manuel. Embora seja difícil para nós não associar o que estamos lendo a eventos macabros do século passado, a veracidade com que o autor norte-americano, que reside e leciona no Porto, em seu livro de estréia, cria a ambientação histórica dos lisboetas ensandecidos pelo medo da Peste e instigados por dominicanos fanáticos, saindo pelas ruas a trucidar e queimar, é um feito à parte desse livro de estréia.

Como tão bem caracterizou  Barbara W. Tuchman, no seu clássico Um espelho distante, as teorias, emoções e justificativas do antissemitismo foram estabelecidas pelos Concílios da igreja católica no século 4, mas o período de ataques ativos começou com a era das cruzadas: “O homem tem medo daqueles que transforma em vítimas, por isso os judeus eram retratados como diabos cheios de ódio pela raça humana, que secretamente pretendiam destruir. A questão de saber se os judeus tinham ou não certos direitos humanos, de acordo com a proposição de que Deus criou o mundo para todos os homens, inclusive os infiéis, teve respostas diferentes de pensadores diferentes. Oficialmente, a Igreja lhes concedia certos direitos: o de não serem condenados sem julgamento, ode não serem profanadas as suas sinagogas e os seus cemitérios, o de não serem roubados impunemente. Na prática, isso pouco significava, pois como não-cidadãos do estado cristão universal, os judeus não podiam fazer acusações aos cristãos, nem o seu testemunho tinha mais força do que o testemunho dos cristãos…”

   Como toda descrição da loucura e da ignorância que a humanidade pode alcançar, O último cabalista de Lisboa nos faz duvidar da existência de algo superior que dê sentido às coisas incompreensíveis que acontecem aqui na Terra, seja no século XVI ou no século XXI: “Sentado numa pá, via-se um recém-nascido desconhecido cuja cabeça tinham arrancado. Diante do impensável, que assim tomara forma, nenhum de nós ousava falar. Alguém pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas,como se todos os livros escritos se tivessem reduzido a pó…”

Para tornar mais digeríveis (se tal operação é possível) tais eventos, Zimler cria uma trama de mistério. Aliás, o estudo da cabala parece criar um apreço por enigmas detetivescos. Nesse ambiente,  Jorge Luis Borges situou seu mais belo conto, A morte e a bússola. E mais uma vez, seguindo a trilha de O nome da rosa, temos crimes e assassinatos que envolvem manuscritos. No meio do tumulto, o cabalista Abraão Zarco, tio de Berequias (o narrador) é assassinado por um membro da própria comunidade judaica. Junto a ele, num porão onde oculta manuscritos valiosos, outro corpo, o de uma moça nua. No caos da violência da turba, Berequias, que era discípulo de Abraão, tenta descobrir qual membro do grupo de neófitos que cercava seu tio o matou e o qual a participação da morta desconhecida. Isso o levará aos mais diversos bairros de Lisboa e arredores, que coadjuvam com grande colorido todos os meandros da investigação.

Portanto, Ó último cabalista de Lisboa equaciona o papel de bode expiatório dos judeus na cultura européia com o esclarecimento de uma morte individual, porém de um membro de um gueto cuja função simbólica e efetiva era justificar o destino universal do seu povo. E Zimler, em geral, se sai bem, embora haja algo de repetitivo e inábil nas idas e vindas de Berequias por Lisboa, repetição talvez inevitável nesse tipo de narrativa nos moldes Os mistérios de Paris.

Qual é problema de O último cabalista de Lisboa, que o impede de ser um grande romance, quanto tudo contribuía para que ele o fosse? Possivelmente a antipatia que o leitor sente a maior parte do tempo pelo narrador-protagonista. Por mais primitivo que seja, é muito difícil se envolver com uma narrativa de qualquer gênero se não se cria empatia com o herói da história (Thomas Harris conseguiu criar empatia do leitor até com um monstro como Hannibal Lecter). Berequias é o ponto fraco do livro e o prejudica consideravelmente, fazendo o leitor não-judeu sentir desconforto com o abismo que o separa dos costumes judaicos.

Deixando de lado essa falta de empatia com Berequias e, em termos de mistério, com o fato de qualquer leitor experiente descobrir com facilidade quem é o assassino, Zimler pode se orgulhar de ter criado um romance policial histórico que não faz feio em seu gênero (sempre apaixonante), além de uma sempre louvável advertência de que muitas vezes a história não se repete como farsa, e sim como tragédia ampliada por novas formas de maldade.

(resenha publicada, em versão mais condensada, em A TRIBUNA de Santos em 11 de janeiro de 2011, focalizando a publicação do livro pela Bestbolso, e baseada numa versão anterior, publicada em 24 de fevereiro de 1998, à época da publicação de O último cabalista de Lisboa no Brasil pela Companhia das Letras)

25/01/2011

O amante de Lady Chatterley: o infernal e a promessa do paradisíaco

Um presente inesperado para os leitores brasileiros na nova tradução de O amante de Lady Chatterley (co-edição da Penguin e da Companhia das Letras, e realizada por  Sérgio Flaksman) é o soberbo ensaio introdutório de Doris Lessing (para mim, o maior autor vivo), que eu lera há alguns anos quando foi reproduzido no Estadão, se não me falha amemória, e que mostra como a presença da guerra marca definitivamente a atmosfera do livro. Abaixo um trecho para servir como epígrafe de uma resenha mais antiga sobre o livro:

“nunca um romance mais persuasivo de propaganda tinha sido escrito em favor do casamento, da fidelidade profunda que vem não da moral pública, ou do que chamamos de resoluções tomadas por fulano ou sicrano, ou da religião, mas da unidade entre um homem e uma mulher que torna totalmente impossível o sexo casual ou qualquer tipo de infidelidade”.

( 0 texto a seguir foi publicado originalmente em A TRIBUNA de 02 de dezembro de 2003)

       Entre as comemorações literárias de 2003, talvez a mais ilustre seja a dos 75 anos de publicação de O amante de Lady Chatterley (e olhe que em 1928 foram lançados Contraponto, de Aldous Huxley, e Orlando, de Virginia Woolf), cuja mais recente tradução, salvo engano, é a de Glória Regina Loreto Sampaio, lançada pela Graal (ligada à Paz & Terra).

      Como se sabe, a trajetória editorial de O amante de Lady Chatterley foi acidentada (complicada, ademais, pela morte de D.H. Lawrence em 1930). Há várias versões do romance, que foi considerado pornográfico e circulou em cópias piratas ou mutiladas.

       “,,,poderíamos permitir-nos ouvir a respeito dos assuntos mais íntimos do próximo se houvesse respeito pela alma humana que se debate e luta, se fôssemos tomados por um espírito de fina solidariedade (…) é aí que se coloca a imensa importância do romance, se bem utilizado. Ele pode informar o fluxo de nossa consciência solidária, levando-a a lugares novos, fazendo nossa solidariedade refluir, afastando-a de coisas que já morreram… se corretamente manipulado pode revelar os lugares mais recônditos da existência, pois é naqueles espaços secretos e passionais da vida que a maré de percepção sensível precisa fluir e refluir, limpando e refrescando”.

      Como é difícil fazer justiça a uma obra desse quilate, é preciso ressaltar o ângulo que mais interesse tenha 75 anos depois e que permita verificar melhor as qualidades e defeitos do texto, pois como todos os grandes trabalhos de Lawrence (por exemplo, Mulheres apaixonadas e A serpente emplumada) a história de Constance Chatterley é desigual e desequilibrada, é genial, as prolixa demais e o protagonista masculina, Mellors, o guarda-caça (ou couteiro) que se envolve com a esposa do patrão revela-se um chato de galocha com suas preleções e diagnósticos civilizatórios.

Isso acontece porque O amante de Lady Chatterley é um romance de idéias, que aciona imagens poderosas para dar vida e substância a essas idéias, mas que muitas vezes derrapa no discursivo.

      Por um lado há um estado demoníaco da civilização: finda a Primeira Guerra, os homens estão mutilados, metafórica e literalmente (como Clifford, o marido de Constance), a natureza  e o caráter das pessoas estão sendo devorados pela Revolução Industrial, cujo símbolo são as infernais minas de carvão que desfiguram as aldeias e a paisagem da região onde se passa o romance.

      Em contrapartida, há o bucólico e o idílico: o bosque de  Wragby (propriedade de Clifford, mas alienada dele, que é uma ausência ali), no qual Mellors descobrirá a mulher-fêmea que habita Lady Chatterley, longe da falsidade (e fatalidade) do progresso e da civilização industrial. Nesse sentido, é emblemática a cena em que o casal, nu, se cobre de flores. Nem por isso, Mellors deixa de ter consciência da corda bamba em que vive. Constance lhe pergunta o sentido da sua existência. Ele diz: “Não creio no mundo, nem no dinheiro,nem no progresso, nem no futuro de nossa civilização. Se houver um futuro para a humanidade, terá de ser algo muito diferente do que temos hoje”.

      Parece simplista e regressivo, e de certa forma é mesmo. Mas Lawrence era um grande poeta (foi o sucessor legítimo de Thomas Hardy, autor de Tess, em capturar a Inglaterra agrária que sobreviveu à Revolução Industrial) e consegue momentos belíssimos nessa contraposição do infernal e do paradisíaco (ou da promessa do paradisíaco, sempre ameaçado e frágil).

     O livro só perde sua intensidade quando quer se explicitar demais. Lawrence, aliás, escreveu um pós-escrito (encontrável em outra tradução, a de Fernando Ximenes, pela Ediouro; há ainda uma tradução mais conhecida e reeditada, a de Rodrigo Richter) em que formula claramente suas idéias, e de um modo mais belo e contundente do que o exposto na pedagogia fálica entre Mellors e Constance, que revolta tanto—e com razão—as feministas. Para ele, as pessoas desvitalizaram-se por esquecer das suas necessidades verdadeiras, que estão ligadas ao ritmo de nascimento, morte e regeneração do cosmo e das estações.

     O ensaio permite entender melhor por que ele inicia o romance com as famosas palavras, “Nossa época é essencialmente trágica; assim sendo, recusamo-nos a vivê-la como tal. O cataclismo aconteceu, estamos entre as ruínas”. O curioso é que, considerado imoral e desmoralizador dos costumes, o grande escritor inglês defende o casamento e a igreja católica por estarem sintonizados com as profundas necessidades interiores do ser humano: “Eu entendo que o matrimônio, ou algo parecido com ele, é essencial, e que a igreja antiga conhecia bem as necessidades persistentes do homem, além das necessidades espasmódicas de hoje e de ontem”.

    Setenta e cinco anos depois, todas as questões de O amante de Lady Chatterley ainda estão presentes.

    E a mais trivial e deliciosa é: Lawrence seria mais Mellors ou Lady Chatterley?

(uma versão mais condensada da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de 25 de janeiro de 2011)

23/01/2011

FALA SÉRIO, DR. YALOM: a cura de Schopenhauer através da dieta de abobrinha

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de maio de 2005)

    O psicoterapeuta Irvin D. Yalom faz muito sucesso atualmente com um romance de título ridículo, Quando Nietzsche chorou. Nele, após fracassar em conseguir uma melhor interação pessoal, o médico Josef Breuer (cujo nome está indissociavelmente ligado às primeiras pesquisas de Freud rumo aos conceitos que fundaram a psicanálise) faz o seguinte diagnóstico de um dos três grandes pensadores carismáticos (junto com Schopenhauer e Kierkegaard)  do século XIX: “…devido aos seus temores sociais e à misantropia, Nietzsche escolhe um estilo impessoal e distante. É claro que está cego para isso: o que faz é desenvolver uma teoria para racionalizar e legitimar o enfoque de seu aconselhamento. Assim, não oferece nenhum apoio pessoal, jamais estende uma mão confortadora,  perora para mim de uma plataforma elevada, recusa-se a admitir seus próprios problemas pessoais e não se dirige a mim de uma forma humana”.

     A fórmula se repete em A CURA DE SCHOPENHAUER (The Schopenhauer cure,2005, em tradução de Beatriz Horta, lançada pela Ediouro). Breuer agora é Julius Hertzfeld (olha o sobrenome!) e enfrenta o desafio de colocar Philip Slate/Nietzsche num grupo de terapia. Slate havia sido um dos fracassos de Hertzfeld. Ao saber que tem uma doença terminal, resolve saber o que foi feito dele e descobre que está para se tornar também um terapeuta, oferecendo “orientação filosófica” aos pacientes, isto é, um trabalho de “biblioterapia”, a cura pela leitura de pensadores, especialmente a de Schopenhauer.

    Slate precisa de estágio e por isso aceita participar do grupo de Hertzfeld, causando desconforto: em primeiro lugar, pela sua recusa de interagir pessoalmente e por citar, quase de cor, trechos schopenhaurianos quando a atenção se volta para ele; depois, com a volta (da Índia) de um dos membros, Pam, há a desagradável revelação de que ele a seduzira quando era seu professor e destruíra o relacionamento dela com sua melhor amiga (com quem ele também transara), prejudicando seus futuros investimentos erótico-afetivos.

     Toda a dinâmica narrativa de A CURA DE SCHOPENHAUER consiste em quebrar a resistência de Slate e obrigá-lo a chorar, tal como Nietzsche, no reconhecimento da necessidade de interagir com os outros e ser afetado por eles. Enfim, uma bobagem. É difícil de acreditar que alguém possa levar a sério esse tipo de auto-ajuda com roupagem aperfeiçoada.

     Embora eu considere terapia em grupo uma coisa inimaginável, e fundamentalmente descreia de algo como uma cura emocional, o romance de Yalom poderia ser uma dramatização literária das experiências de um especialista na área, por que não? O que torna o livro desonesto e desastroso (dando muito saudade do psiquiatra Hannibal Lecter e sua relação com a empatia) é que, talvez embalado pelo sucesso de Nietzsche como personagem, Yalom resolveu inserir Schopenhauer numa história contemporânea que não precisava dele.

     Colocou como representante das suas idéias o personagem mais antipático e exasperante da trama (e a necessidade de introduzir noções filosóficas em meio ao cotidiano acabou gerando mais pobreza literária: tem até o membro do grupo estereotipadamente rústico que nunca entende as referências a filósofos e artistas e a quem—e ao leitor, por extensão—se explica tudo da forma mais simplificada). Colocou capítulos em que se narra a biografia do autor de O mundo como Vontade e Representação, caricaturizando os fatos da sua vida e seus conceitos com uma espécie de tosca pesquisa escolar.

       O momento mais grotesco, no entanto, é quando a insuportável Pam diz ao seu desafeto que defendia a tese (budista e schopenhauriana) de que “a vida é sofrimento”: “Fala sério, Philip! Será que lembrou que Schopenhauer tinha depressão crônica e que Buda viveu num tempo e num lugar em que havia muito sofrimento causado pela peste e pela fome? E que, para a maioria das pessoas, a vida era realmente um sofrimento sem fim?”!!!! Nós realmente superamos isso e vivemos num tempo sem sofrimento, sem penúria, sem pestes e sem fome! Fala sério, Irvin D. Yalom!

A ESCOLA DA POSSIBILIDADE

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-iii-quatro-ases-e-um-coringa-de-tolstoi/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-i-o-pregador-evangelico-e-o-diabo-fabulador/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-ii-tolstoi-em-capsulas/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/15/um-livro-total-a-ficcao-mais-verdadeira-que-a- vida/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/24/caucaso-cosmo/

Já afirmei que Tolstói é um escritor perigoso de se ler, pois parece demarcar o limite do que se pode dizer com palavras. Por isso, a sensação (exagerada, é claro) de que qualquer outra leitura fica sem graça, empalidece, diante da obra desse que talvez seja o autor supremo. Um dos exemplos cabais dessa afirmação é A morte de Ivan Ilitch, que a 34 lançou recentemente, o que se mostra bem conveniente no momento em que a Record reedita o importantíssimo A negação da morte, de Ernest Becker.

É quase chocante ver a ausência da novela de Tolstoi num ensaio tão abrangente sobre o terror da morte que embasa a nossa existência. Aproveitando o ensejo, o único reparo grave que pode ser feito a um livro admirável é a mediocridade das referências literárias ou filosóficas, revelada por citações de segunda mão ou observações empobrecedoras.

Dentro da perspectiva de Becker (de que até o caráter é uma construção mentirosa destinada a fazer esquecer um terror que poderia nos enlouquecer), o pai da psicanálise é o grande pensador dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855). Este opunha possibilidade (ou seja, um universo basicamente apavorante e esmagador) e necessidade (o mundo que construímos à nossa volta, mentiroso e trivial). A vida “normal” seria o filistinismo, a acomodação. Becker: “Kierkegaard teve um vislumbre da liberdade para o homem. Não tinha uma idéia fácil do que a ‘saúde’ é. Mas sabia o que ela não era: não era um ajustamento norma. Ser um indivíduo normal é, para Kierkegaard, ser doente. A saúde mental é algo muito além do homem, algo a ser atingido e pelo qual se deve lutar, algo que leva o homem para além de si mesmo.”

O homem é o animal paradoxal, consciente de si mesmo, ridiculamente emparedado na condição de criatura mesmo possuindo uma vida simbólica: “Este é o horror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência de si mesmo, profundos sentimentos íntimos e apesar de tudo isso, morrer. Parece uma mistificação. Que tipo de divindade iria criar um alimento para vermes tão complexo e caprichoso?”

Esse “impasse” é o elemento crucial para que se entenda que há uma “escola da angústia”, na qual o currículo é a desaprendizagem da repressão, de tudo aquilo que ensinamos a nós mesmos a negar para podermos viver na necessidade sem os perigos da possibilidade. Esse reaprendizado nos salvaria também dos distúrbios que resultam de um desajustamento a essa máscara social (esquizofrenia, depressão, psicose).

Educação, nesse caso, significa enfrentar nossa impotência natural e a finitude. É a salvação pelo desespero, o morrer para renascer, a transcendência, enfim (e, no caso de Kierkegaard & Becker, há o salto para a fé, a ligação entre esse profundo desmascaramento da psicologia da humanidade com a religião).

E é na escola da angústia que Ivan Ilitch acaba matriculado, graças a uma doença que se desenvolve misteriosamente e que o segrega da sociedade. Ele, que sempre procurara viver comme il faut, ou seja, dentro da conveniência e decência, descobre a mais terrível solidão: a consciência de que morrer também acontece com a gente, que não adianta nenhuma racionalização ou sentimentalismo. Mas ao se deparar com a verdade, descobre que a morte, ao fim e ao cabo, era a vida que ele vivia.

A obra-prima de Tolstói não consola, não aplaca nenhum terror ou angústia. É uma lição concisa do máximo que a literatura pode fazer por nós: confrontar-nos com nossa mortalidade e abrir nossos olhos. Ou seja, tirar-nos da necessidade e nos jogar no meio da possibilidade.

(resenha publicada em três de fevereiro de 2007)

_________________________

14/01/2011

O último ato de uma possível “trilogia do exílio”: O sol se põe em São Paulo

Bernardo Carvalhoosolsepoe

Nos dois últimos romances de Bernardo Carvalho, Nove noites (2002) e Mongólia (2003), os narradores se viam, em sua obsessão investigativa, às voltas com fiapos de informação, fatos mínimos, desencontrados, prenhes de pistas falsas, e relato adquiria uma conotação incômoda, uma vez que se esboroava, se esgarçava, fazia-se fantasmático. Que havia o desejo de contar histórias (Carvalho é um pouco irmão de armas de Paul Auster), isso havia, todavia elas (com resultados qualitativos bem diversos,  pois considero Nove Noites infinitamente superior a  Mongólia)   furtavam-se, desrealizavam-se nas “convenções da realidade”.

Até certa altura de O sol se põe em São Paulo, tem-se a impressão de que finalmente haverá um encontro entre o desejo do narrador e o relato, que este não será mais uma ilha do dia anterior. É inegável que se trata de um desencontrado: descendente de japoneses, não se sente em casa no Brasil (mais adiante, sentirá o mesmo no Japão, que não conhecia ainda), frustrado em sua ambição como escritor; desempregado, sem mulher, nunca escreveu nada. Um dia, a macróbia dona de um restaurante na Liberdade pergunta se é escritor, ele diz que sim, ela se dispõe a lhe contar uma história. O leitor habitual de Bernardo Carvalho espanta-se com sua  linearidade e coesão, ainda que narrada em meio aos ataques promovidos pelo crime organizado e tendo como palco a caricatura de um jardim japonês escondido pela fachada de um sobrado.

Mas é uma trama (no após-guerra japonês) que envolve um gênero teatral, o kyogen (farsa, artimanha, simulação). Setsuko, a dona do restaurante (ela mesma, uma simuladora), desaparecerá e encontraremos, então, uma afirmação que poderia estar nos livros anteriores: “Não conseguia juntar as peças, embora tudo estivesse diante de mim”.

A partir daí, querer saber o seu final e relatá-la se confundem na mente do narrador e também com esqueletos escondidos no armário da imigração, e mais o paradeiro de um criminoso de guerra e de um herdeiro afastado do front pelo pai, que mandou outro em seu lugar, um burakumin, pária na sociedade japonesa (o próprio narrador se vê como um burakumin existencial)…

Em algum ponto de O sol se põe em São Paulo alguém diz: “Leia isto, essa coisa urgente que é a leitura de algo empolgante, e quanto mais o relato inicial, tão certinho, se esfacela, mais a evidência de que Bernardo Carvalho é um dos melhores escritores atuais vai se impondo. Não é mais possível parar de ler. Um momento culminante é o reencontro entre o narrador e sua irmã (que foi para o Japão como operária, nessa inversão sarcástica da imigração que estamos vivendo), em Osaka, por apenas uma árida noite, num monstruoso (em todos os sentidos) cybercafé, onde se pode navegar, comer, tomar banho e dormir.

Carvalho só erra a mão no capítulo no qual se revela o teor da carta da falsa Setsuko que o narrador carregava. Veja-se um trecho, onde se comenta a recepção de Yukio Mishima, em visita ao Brasil, por um grupo de compatriotas: “Da parte de Mishima, só a loucura podia explicar a convivência pacífica de um escritor homossexual de talento extraordinário com um grupo de fascistas iletrados a justificar uma pretensa coesão de classe”. Isso não é Setsuko, falsa ou não, escrevendo, e sim o Bernardo Carvalho das suas colunas na “Folha de São Paulo”. A não ser que já seja o romance que o narrador por fim escreve… Vamos dar o benefício da dúvida.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de junho de 2007

novenoitesmongólia

A velha disputa entre a prima rica e o primo pobre: Dona Paródia e Seu Pastiche

tabajara ruaso detetive sentimental

O DETETIVE SENTIMENTAL PERDE-SE NO BESTEIROL

   O herói de O Detetive Sentimental é Cid Espigão, investigador particular desempregado, em Porto Alegre, e que sobrevive como segurança de boate.  Logo nos primeiros capítulos (são 43 ao todo), ele ajuda um playboy bêbado a entrar no seu carro e ambos são seqüestrados por uma dupla estonteante de loiras (na verdade, usam perucas e são carecas) que os levam para os esgotos da cidade, diante do trono de sua líder: o playboy, um mexicano chamado Cisco Maioranos Júnior, será julgado pelos crimes do pai (embora ele seja filho daquele de quem herdou o nome, elas afirmam que seu pai é um tal Terry Lennox). Quanto a Cid Espigão, ainda que tenha entrado incautamente na situação, será devorado ou pelos ratos ou pelos jacarés que infestam as galerias subterrâneas.

    É um começo divertido, porém perigoso, dependendo do rumo que a trama seguirá. E logo constatamos o quão perigoso era: Cisco e Cid conseguem escapar dessa primeira situação de perigo, o detetive é contratado pelo mauricinho, e somos levados ao Pantanal (o pai do cliente tem uma fazenda no Mato Grosso) e depois aos EUA e ao México. Antes disso tudo, aparece um assassino chinês chamado Chung Ching Chim, falando como o Cebolinha da Turma da Mônica, e aí já sabemos que estamos no reino do besteirol. Entre os disparates que O Detetive Sentimental oferece temos: o bunker de um ditador, El Generalíssimo, em pleno Pantanal; uma tribo de cortadores de cabeças, cuja princesa perde a virgindade para Cid Espigão; uma caçadora de nazistas; uma cobra que engole um piloto de avião; um lobisomem; a aparição na trama de Philip Marlowe, o supremo detetive do noir; a transformação dos braços do herói em cobras em pleno deserto mexicano, quando então ele encontra um curandeiro centenário que o leva a uma pirâmide e… ufa, e ainda há a seita satânica que domina a mente de todos os vizinhos de Espigão e um gato maligno… ah, e também seres criados em laboratório…

    Tabajara Ruas não nos poupa nem do ridículo de fazer aparecer aquelas irritantes piruetas voadoras tipo O tigre e o dragão ou Cirque du Soleil: “E então você, detetive Cid Espigão, assistiu algo inacreditável: a bela Irmã Um deu dois passos e tomou impulso, dando um salto. Mas o salto foi mais do que um salto, foi um vôo de quatro metros de altura, passando sobre a cabeça de Chung Ching Chim e caindo atrás dele. Chung voltou-se para a Irmã Um, com a Magnum apontada” (pág. 408).

     Decerto, o autor gaúcho pretendia que seu livro fosse uma paródia, e toda paródia deveria por definição conter uma crítica. Confesso que não penetrei nos arcanos da mente tabajarana e não consigo ver o propósito de O Detetive Sentimental, a não ser o mesmo de besteiróis do tipo Todo mundo em pânico: despejar de cambulhada todo um entulho de referências, todo o lixo tóxico da indústria cultural. É exatamente o que fazem tantos filmes B e blockbusters e também tantos autores jovens que vinculam ficção ao sobrenatural e ao fantástico: todos eles misturam de forma estapafúrdia tantas coisas diferentes que elas perdem identidade, sabor, e se tornam irreversivelmente auto-paródicas, frívolas e risíveis. É um universo estético sem leis, e portanto sem consistência ou valor.

    No final, o cliente de Cid Espigão, Cisco Maioranos Júnior vira mulher (Dolores) e foge com Chung Ching Chim da maldade familiar. Ximena, sua irmã, revela-se a líder da seita secreta das mulheres carecas (“o rosto dela começou a partir-se em dois, pois a longa unha do seu dedo indicador descia por ele como se fosse um faca. Debaixo dos pedaços de pele que caíram até o chão havia outra carne e outro rosto”). E o pai deles, Cisco Maioranos, é Terry Lennox… e o Diabo. Quando o enfrenta no último capítulo, Cid Espigão o vê como realmente é (“o homem sentado na poltrona diante de mim tinha a cabeça de um touro negro com dois cornos afiados”).

    Meu Deus, fui um desmancha-prazer, revelei o final da história.  Ah, é verdade, não há prazer algum a desmanchar, só o aborrecimento de ler 440 páginas inúteis.

____________________________

Serviço: O Detetive Sentimental, de Tabajara Ruas. Coleção Negra. Record. 446 páginas. R$52,90.

(RESENHA PUBLICADA EM  “A TRIBUNA” EM 15/09/09)

ANOTAÇÕES DE LEITURA

INTRODUÇÃO (09.09.09)

        Volta e meia me ocupo de  algum título de uma das duas séries policiais que mantém uma constância já de anos: a da Companhia das Letras e a “Coleção Negra” da Record. A essa última pertence O DETETIVE SENTIMENTAL, do gaúcho Tabajara Ruas, que tem 440 páginas. Já li uma boa parte delas e estou na maior perplexidade. A princípio, achei que era uma pilhéria com os clichês do tipo de romance cujo herói é o detetive durão ( no fundo, todos os durões do noir são sentimentais), o que seria muito batido não fosse a ambientação em Porto Alegre e a inegável qualidade da prosa do autor (que é o motivo pelo qual ainda estou lendo o texto, por mais que ele me desagrade o tempo todo). Mas agora parece que Tabajara Ruas, sem perder o vezo de besteirol (antes pelo contrário, acentuando-o), parece que embarcou numa linha Carlos Ruiz Zafón, o autor de O jogo do Anjo & A sombra do vento, devido à presença cada vez maior de elementos fantásticos, os quais me parecem, francamente, ridículos.

       Ao que parece, Ruas retoma, trinta anos depois, o “herói” (o detetive particular Cid Espigão)  do seu romance de estréia, A região submersa (belo título), também publicado na mesma série. De lá (1978) para cá, ele publicou romances que tiveram certa repercussão (Os varões assinalados, Netto perde sua alma) e dirigiu alguns filmes.

       Há muito charme no seu estilo, tanto que mesmo sem estar gostando especialmente da história, estou totalmente envolvido por O DETETIVE SENTIMENTAL.

         Bem, além de pequenas discrepâncias na ortografia de nomes e palavras e até da época do ano (o narrador diz que tudo começou em agosto de 1987, depois afirma que é junho), que podem ser propositais, ainda que eu não atine na sua razão de ser; além de mudanças no foco narrativo (ora em primeira pessoa, ora numa segunda pessoa, como se o narrador estivesse se dirigindo a si mesmo, ora na terceira pessoa), procedimento que também parece gratuito; bem, além disso tudo, o andamento da história, que começava divertidamente exagerada, já chegou a um ponto em que se aparecer extraterrestre, vampiro ou templários, não vou me surpreender. O sexagenário Tabajara Ruas (nasceu em 1942) parece aqueles (infelizmente numerosos) autores jovens que praticam uma literatura fantástica meio chinfrim porque tentam misturar nossa realidade brasileira às fórmulas americanas e européias, e o resultado é sempre meio constrangedor.

continuação (10.09.09)

       Quando o livro começa, Cid Espigão (que ama a obra do uruguaio “suavemente perverso” Juan Carlos Onetti, num cruzamento de referências que não ajuda em nada a narrativa) está desempregado como detetive, com a arma no penhor (a única coisa de que não lança mão para penhorar é a cadeira do cliente, sagrada para ele), trabalhando como segurança de boate,  e recebendo a visita do folclórico Tio Chinão, o qual personifica o gaúcho proverbial, nas vestes e nas falas (após 40 anos trabalhando numa estância foi “aposentado” sumariamente, com uma mão na frente outra atrás, como ele mesmo diz, e veio cavar algum trabalho na capital). Na tal noite de agosto (ou será junho?), Espigão ajuda o playbozinho bêbado Cisco Maioranos Junior a entrar no seu rolls royce prateado (o livro começa assim: “Curvado sobre a porta do Rolls Royce, segurando as chaves, o bêbado ergueu um olhar interrogativo, onde poderia haver um anúncio de súplica”) e duas loiras estonteantes (uma delas, que lembra Jane Fonda, é chamada pelo narrador de “a mais bela mulher do mundo”) rendem a dupla (não antes de os dois descobrirem que as fartas cabeleiras louras são perucas e que as duas são carecas; a princípio eu achei que seriam travestis) com hilárias  pistolinhas com cabos de madrepérola. Os dois são levados para as entranhas dos esgotos de Porto Alegre, onde há uma mulher num trono, que diz a Maioranos que ele será réu em um julgamento. Espigão, por sua vez, que entrou na situação de gaiato, é trancafiado numa cela na qual milhares de ratos o atacam. Ele só não é devorado porque arrebenta uma tubulação e consegue escapar por uma abertura, após a água encher o recinto. Ao invés de encontrar libertação, se depara com jacarés (é isso aí, mesmo, leitor, nos esgotos de Porto Alegre) que o atacam, mas ele é salvo no último momento por Cisco Maioranos, que parece ter um”cinto de utilidades” (e que foi deixado “livre, leve e solto”,por assim dizer, pelas mulheres de peruca).  Correndo dos jacarés, os dois caem num abismo e são levados pela corrente, numa espécie de pesadelo sub-Sobre heróis e tumbas, a obra-prima de Ernesto Sábato onde há uma sequência similar envolvendo um dos protagonistas, Fernando Vidal Olmos (mas que diferença!!!!). Peripécia vai, peripécia vem,  eles conseguem sair do mundo dos esgotos e chegam à superfície numa lixeira, onde são perseguidos por pivetes que tentam incendiá-los. E esses foram os quatro primeiros capítulos.

tn_311_600_tabajara_ruasa região submersa

       No seu apartamento, assistido pelo recém-chegado Tio Chinão, Cid Espigão jaz adoecido (também foram milhares de mordidas de ratos) por tr~es dias. Recuperado, ele pensa (pois quando o texto se inicia, acabou de fumar um baseado) se não sofreu um baita pesadelo, uma bad trip  (“Sentei-me na cama, o coração pensando. As louras de peruca! Os ratos. O subterrâneo da Borges! Os jacarés! Santo Deus, teria sido tudo um pesadelo? O baseado estaria batizado com alguma droga pesada?”), mas recebe um bilhete de Cisco Maioranos, que deseja contratá-lo profissionalmente. porque, além da aventura que viveram, suspeita que está sendo seguido e mulheres misteriosas telefonam-lhe com ameaças, mencionando uma “dívida de sangue” e um tal Terry.  Os dois se encontram numa churrascaria e Cisco revela ser mexicano, filho de um latifundiário(para cúmulo do ridículo, ele é estudante de filosofia e está preparando uma tese sobre Spinoza, dá para acreditar, claro): “Meu pai tem fazendas no Mato Grosso do Sul e propriedades na Bolívia e no Paraguai… Mas acho que o negócio principal são os cassinos, em Las Vegas… Ele centraliza tudo, não deixa ninguém tomar parte nas decisões de negócios importantes. E tem outros negócios: petróleo, indústrias… Mas eu sei muito pouco sobre isso”

     Nisso, eles vêem uma das mulheres que os levaram ao subterrâneo e correm no seu encalço, no rolls royce de Cisco. Mas uma kombi investe contra eles e explode. Escapando ilesos, eles se deparam, na luxuosa suíte do hotel de Cisco, com um portentoso assassino chinês, Chung Ching Chim (a essa altura, eu já não levava mais o livro a sério),o qual fala como o Cebolinha (parece que estamos lendo uma tradução ruim de algum autor B), e que com uma espada decepa uma das mãos do Tio Chinão (que agora já não poderia sair da estância “com uma mão na frente e a outra atrás”, com certeza), além de dar golpes que quebram móveis, destroem o telefone e abrem um buraco na parede. Só não dá cabo do trio porque Tio Chinão mesmo maneta consegue prender seus pés com uma boleadeira.

      Cisco recebe outro telefonema, e a mulher o chama de “irmãozinho”, diz que ambos são filhos de Terry Lennox e que ele deve ir a Las Vegas, a um cassino chamado Terrapin Club, falar com um tal de Randy Starr. Porém, Cisco envia o seu detetive contratado, Cid Espigão, primeiro para o Mato Grosso, para a fazenda do pai: “Quero que você fale com minha irmã”, que não é a do telefonema, mas a real, Ximena. Antes de viajar, Cid descobre que a Seita das tais mulheres marcou seu apartamento com uma cruz de sangue (é mole?).

     O avião, um jato de oito lugares, rota Porto Alegre-Cuiabá, leva além de Cid uma mulher loura, magra, alta, usando óculos de lentes grossas e um homem que parece morto. E cai no meio do Pantanal. Sobrevivem os três passageiros e um piloto, que está em choque e regrediu ao estado infantil, chamando Cid de “Papai” !!!!! Eles enfrentam o ataque de jacarés (não iguais àqueles do subterrâneo, os quais, segundo Maioranos, foram treinados pela CIA) e são resgatados  por uma piroga na qual vem sentado o Reverendíssimo Cardeal Acevedo e que é conduzida pelo Capitão Marvel (um índio de braços raquíticos, com apenas um dente na boca e usando um “macacão amarelo, puído, colado ao corpo, e que lhe ficava pelo meio das canelas. No peito, meio descosido, um raio de veludo vermelho. Nas costas, presa ao pescoço por uma corda desfiada, esvoaçante capa de seda azul. Estava descalço, os pequenos pés escuros embarrados”), que os declara prisioneiros de Sua Excelência, El Generalíssimo. Nesse passo, entramos numa espécie de versão tupiniquim e pândega do bunker do enlouquecido Kurtz de Coração das Trevas.  Pois bem, El Generalíssimo é um sujeito que pesa 180 kilos e que age como imperador do lugar, tendo os nativos sob seu comando, e negócios com contrabandistas e ate com o pai de Cisco Maioranos. Quem tem negócios com este último também é a outra passageira do jato caído, a loira, Golda, que caça nazistas para o latiundiário (o homem que está com ela e que realmente está morto é uma presa, era um deles). Como se vê, estamos num  samba-enredo sem pé nem cabeça. Há também uma escrava de El Generalíssimo, que é na verdade a princesa de uma tribo que coleciona cabeças dos seus inimigo.  Antes de a tribo atacar (comandada pelo irmão da princesa, que não pode governar sua tribo por ser homem, já que sua sociedade é matriarcal, e por isso aderiu ao marxismo para libertar as massas da sua alienação), o piloto que sofria de crises de tatibitate é devorado por uma imensa jibóia chamada Fraternidad, cena narrada com pormenores gráficos e que deve ter se inspirado no filme Anaconda. E de onde saiu essa tribo de colecionadores de cabeças? Apesar de todo o nonsense estapafúrdio, numa saraivada de disparates como ainda estou para ver igual, dois detalhes me divertiram muito: em primeiro lugar, El Generalíssimo, que sempre invoca a proteção que oferece aos “direitos humanos” e depois manda torturar, matar ou cometer horrores decretando que os direitos humanos estão suspensos por duas horas,ou até o amanhecer, etc (isso sem contar o Cardeal que tem um manual da Inquisição para inspirá-lo nos interrogatórios aos prisioneiros do Generalíssimo); e em segundo ludar,  o esdrúxulo monarca chama os jacarés de “ingleses”, descrevendo suas características psicológicas. Prova de que, apesar da gratuidade irritante do seu romance, Tabajara Ruas não é nada bobo.

      Após muitas páginas e peripécias indianajonescas (El Generalíssimo acaba comido por piranhas, só sobrando a cabeça), Cid Espigão transa com a princesa da tribo selvagem, restituída à sua dignidade. E dorme… acordando sozinho em pleno pantanal. O Capitão Marvel lhe explica (será o seu guia para que ele alcance a terra firme e depois a fazenda dos Maioranos): ela só podia ofertar sua virgindade a um estrangeiro, desde que depois ele partisse, é o costume!

     Ufa, ele agora é hóspede dos Maioranos. E descobre que Cisco pai nada tem de mexicano, com seus olhos azuis muito norte-americanos! Além de ser um gangster ameaçador, que causa medo na própria filha. E pode ser outra coisa, pois um lobisomem (é isso aí, leitor) aparece no quarto de hóspedes de Cid Espigão em plena lua cheia. Não satisfeito com essa bobajada, na volta de Espigão para Porto Alegre (o cliente e Tio Chinão já foram para os EUA), o autor faz com que todos os vizinhos do detetive estejam possuídos pela seita satânica e o cercam. Até o gato que fica na escada do segundo andar se transforma sobrenaturalmente. E Porto Alegre parece a Barcelona de Zafón, transfigurada por um imaginário para lá de discutivel: “… eu estou com medo. A cidade de Porto Alegre está contaminada: doença maligna a corrói”,  lemos na pág. 241, capítulo 22.

      Amanhã vamos para os EUA…

11.09.09- continuação da leitura de ontem:

       Nos EUA, eles procuram Randy Starr um mumificado macróbio, que os informa que Tenny Lennox era um “herói” (“Um herói não é o mais valente ou o mais nobre. É aquele que, depois de três dias numa trincheira cheia de água, sem comer nem dormir, ainda tem forças para apanhar  uma granada dos alemães e mandá-la de volta“),mas que tivera uma história trágica: “Dizem que ele tinha matado a mulher. Fugiu para o México.O México é um bom lugar para uma pessoa fugir, mas alguma coisa deu errado. Meteu uma bala na cabeça.”  E evoca os tempos de guerra, uma evocação chatíssima, aliás, mas que fornece o gancho para reforçar a idéia de Maioranos Pai é na verdade Terry Lennox, já que este fora prisioneiro dos nazistas e o latifundiário financia caçadas aos nazistas.

    Nos EUA, o trio (o cliente, o detetive e o tio folclórico) recebem nova visita de Chung Ching Chim, que passou para o lado deles. Aí então vão para um clube noturno, o Gipsi´s, onde iipera a música punk (“foram envolvidos violentamente na teia urdida pela música alucinada dos Sex Pistols”) e é nas redondezas do Gipsi´s que Cid Espigão reencontra a perigosa mulher mais bela do mundo, a Irmã Zero, e ambos vivem uma dos capítulos amoroso-sexuais mais horrendos de que já se teve notícia na ficção (eles sentem que estão numa “trégua” e fazem amor num parquinho de diversões, no barco do amor, na roda gigante, etc) e ela tira a peuca: “Era o lado verdadeiro ou que poderia ser o lado verdadeirodela, que se revelava, e era u lado extremo, desafiador, acima das leis e convenções a que estava acostumado, e que considerava  plenas e aceitas por todos”. Não se pode deixar de notar que apesar de sentimental e fodido na vida,nosso herói mesmo assim é um fodão com as mulheres, sendo objeto de desejo da Irmã Zero,da Princesa do Pantanal e até de Ximena, a irmã do cliente: “Caminharam de mãos dadas, gozando o doce prestígio de desafiar o destino, incomodados pela proximidade da manhã, escondida atrás do azul cada vez mais claro do céu. Ele comprou um sorvete de morango e uma rosa de uma menina mexicana… Tinham se amado no alto da roda-gigante, apertados na barquinha, as pernas dela apoiadas em seu ombro. Amaram-se depois, vestidos, em pé contra o muro do estacionamento, ouvindo o som do sax atravessá-los de nostalgia. Amaram-se na areia que se tornava rosa, quando no horizonte do mar apontou a primeira fímbria da manhã, dourada e vitoriosa”.

      Para arrematar essa abobrice toda, ela dá uma dica a Cid: ele tem de falar com um homem chamado Philip Marlowe. E aí  O DETETIVE SENTIMENTAL despenca ladeira abaixo. Nem vou me dar ao trabalho de resumir a participação de um envelhecido e chatinho Marlowe nessa sequência americana.  Ele surge na pág. 274 (num asilo) e só nos livramos dele na pág. 329 (nesse ínterim, Randy Starr foi eliminado e Cisco Maioranos Júnior sequestrado).

    Tio Chinão volta para o Brasil  e Cid Espigão vai para o México de ônibus, a partir do capítulo 32 (e eu já achando o livro interminável, enfadado ao extremo). Vem então o pior: durante a viagem todos os passageiro se tornam gordos imensos, as mãos do detetive sentimental começam a esverdear e seus braços viram cobras (justificando a capa da edição da Record, aliás). Ele é expulso do ônibus suspeito de rir (já que todos são gordos), e vaga pelo deserto, até ser levado para uma povoação onde um curandeiro centenário, emprestado talvez de Castañeda, lhe propõe uma jornada existencial rumo a uma pirâmide, para se livrar da “maldição”. Apesar de achar tudo um porre, fui lendo achando que as bizarrices prosseguiriam de uma forma ou outra e eis que, para minha estupefação, Tabajara Ruas utiliza o manjadíssimo recurso de fazer toda essa parte mexicana ser um pesadelo ocorrido durante a viagem (um pesadelo de leitura que vai da  pág.330 até a 387). No México, conversando com um corcunda, ele apura mais fatos sobre o passado de Cisco Maioranos Pai, que agora temos quase certeza ser Terry Lennox, como se isso tivesse o menor interesse.

     E agora voltamos para Porto Alegre… Estou na pág. 400 e o vizinho hippie de Cid Espigão aponta uma arma para ele, levando-o para um carro dirigido pela parceira da Irmã Zero, a Irmã Um…

09/01/2011

Vulgo, Atwood

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de novembro de 1997)

      Os admiradores de Margaret Atwood, que a apreciam como um dos escritores mais originais da atualidade, talvez tenham ficado preocupados com a possibilidade de ela ter resvalado para a ficção mais convencional em Vulgo, Grace (Alias Grace, traduzido por Maria José Silveira e publicado pela Marco Zero[1]), sua versão para um crime ocorrido no Canadá em 1843: o assassinato de Thomas Kinnear e de sua governanta-amante, Nancy Montgomery, pelos criados James McDermott e Grace Marks, os quais tentaram fugir para os EUA; capturados, ele foi condenado à forca, ela à prisão perpétua (tinha dezesseis anos), embora negasse ter participado dos crimes.

Mas os admirados de Atwood e os que já andam cheios de histórias baseadas em fatos reais (como se isso fosse garantia de qualidade, a credibilidade factual) não têm motivos para preocupação ou alarme: Vulgo, Grace é puro Margaret Atwood. Como em obras anteriores (Surfacing- O lago sagrado; Madame Oráculo; Olho de gato), o leitor acompanha a formação de uma mulher e sua tentativa de orientar-se no labirinto de imagens culturais em que é lançada pela “condição” feminina, labirinto que nem o feminismo conseguiu destruir, só acrescentando mais galerias.

A ação principal de Vulgo, Grace se passa em 1859, quando o médico Simon Jordan, desejando especializar-se em doenças mentais, aceita o convite do comitê que deseja o perdão para Grace, e manterá colóquios diários com a famosa assassina, que serve como criada na casa do diretor da Penitenciária (a condição servil também é uma pena perpétua?).

O leitor tem a possibilidade de ouvir a versão da própria Grace, sua “voz”, por assim dizer, tal como William Styron fez com o famoso criminoso negro (ou líder revolucionário) Nat Turner no magnífico As confissões de Nat Turner, gerando as mesmas contradições estilísticas, uma vez que temos uma narrativa bem mais culta do que a personagem seria capaz de fazer. Perversamente, entretanto, Atwood mistura a essa versão de Grace as outras versões da história, outras vozes que se interpõem e que tentam situá-la ora como uma mulher demoníaca e mentirosa, ora como uma vítima das circunstâncias, ora como uma donzela que precisa de um herói para “desencantá-la” (mais uma vez Margaret Atwood utiliza estereótipos da ficção gótica—mulheres jovens em perigo, homens malvados, ambientes lúgubres—para mostrar como se falseia o conceito de feminilidade, e como as próprias mulheres tentam se adequar a essas projeções melodramáticas. Como a famosa Mulher do Tenente Francês, Grace inspira piedade e horror e é uma pitada de sol  ao hipócrita ambiente provinciano, principalmente por trazer sempre viva a marca importuna da sexualidade, devido á suposição de ter sido “usada” pelo pretenso cúmplice, McDermott.

E por falar em Mulher do Tenente Francês, a história de Grace Marks lembra o fascinante romance de John Fowles ao mostrar como um cavalheiro (Simon, no caso), que se pretende moderno e avançado, fica á beira de um ataque de nervos diante da mulher-enigma, que conta sua história com o fôlego de uma Sherazade, mas que revela muito pouco de si mesma: “apesar de não conseguir lembrar-se do assassinato, ela tem uma lembrança minuciosa dos detalhes que o cercavam, cada peça de roupa que lavou”. Será que Grace está brincando com ele: “Enquanto ela vai costurando, por fora calma como uma Madona, está o tempo todo exercendo sua obstinando resistência passiva contra ele”.

E Simon, afetado por Grace, acaba envolvido num casulo de sexualidade, num caso adúltero com sua senhoria, com o qual é formal e distante durante o dia, mas com quem se permite orgias e transgressões à noite (“esta noite ele vai bater nela, como ela já implorou que fizesse…”), como se levassem duas existências paralelas. Esse tipo de dicotomia já foi explorado com muita eficácia por Autran Dourado em seu Ópera dos Mortos, onde há um ritual similar entre os protagonistas (e há um antepassado ainda mais notável, se lembrarmos da relação Joe Christmas e Rose Burden em Luz em Agosto, de Faulkner).

Ao final, entre hipóteses, fatos, sonhos e fugas, o que fica da primeira leitura de Vulgo, Grace é a perturbadora certeza de que somos guiados mais pelos nossos impulsos e compulsões do que pelo pouco que conhecemos de nós mesmos.

ATWOOD E O DELEITE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de outubro de 2004)

Negociando com os mortos (Negotiating with the dead, traduzido por Lya Wyler, e publicado pela Rocco). Não, caro leitor, não se trata de um novo best seller espírita de Zíbia Gasparetto, mas do livro que resultou  das seis conferências apresentadas em Cambridge por Margaret Atwood, autora de alguns dos melhores momentos da ficção contemporânea (especialmente Madame Oráculo, um dos meus livros prediletos) e que poderia muito bem ter sido o nome feminino agraciado com o Nobel de 2004, já que deixaram Iris Murdoch morrer e continuam injustiçando  Doris Lessing ano após ano.

Negociando com os mortos. Tudo o que se escreve tem como motivação o medo e a fascinação diante da mortalidade,  um desejo de empreender a arriscada viagem para os Infernos e dali trazer algo ou alguém ao regressar. Como protótipo da “negociação com os mortos” efetuada pela escritura basta lembrar da cena em que Ulisses atrai com sangue os espíritos falecidos na Odisséia. Esse é o ponto mais avançado na jornada empreendida pela grande escritora canadense. Como boa parte de sua obra ficcional, antes se aborda a complexa situação da mulher que escreve. Ela também investiga questões como a vocação, a relação do escritor com a identidade nacional, com a vida social, com o sucesso financeiro, com os seus predecessores, com o leitor.

O escritor: alguém que é e não, que tem importância em nossa vida através de páginas impressas: Há um epigrama que prendi no quadre de avisos do meu escritório. Querer conhecer um autor porque se gosta do trabalho dele é como querer conhecer um pato porque se gosta do seu patê.  Não é à toa que Margaret Atwood é uma mestra do humor negro.

Negociando com os mortos apresenta muitas, muitas citações. E longe de sobrecarregá-lo, isso contribui para o seu encanto: em primeiro lugar, pela admirável generosidade com que Atwood imanta para seu texto dezenas de obras de ficção e de poemas, compartilhando com a literatura do mundo inteiro seu testemunho sobre a arte de escrever; em segundo, justamente por ela não ser apenas uma escritora fantástica, mas também uma leitura fantástica, na melhor linha de Borges, Italo Calvino e Susan Sontag, acaba por transformar uma citação na coisa mais prazerosa do mundo, como se cada romance, conto ou poema citado fosse uma história a ser contada por uma Sherazade incansável. É com novos olhos, por exemplo, que leremos agora uma parte de 1984, de George Orwell.

Para dar uma idéia exata do que é ler Negociando com os mortos, pode-se recorrer ao final de uma conferência de Atwood (publicada como apêndice de um de seus melhores romances, A noiva ladra): O que eu espero que o leitor extraia disso tudo—e, na verdade, de qualquer livro que leia? Exatamente o que eu mesmo gosto de receber, e freqüentemente recebo, dos livros dos outros. Há uma palavra que sintetiza tudo, é uma qualidade sem a qual todas as outras qualidades, nos livros ou na vida, se tornam ocas. Ela assume muitas formas… O desejo por ela explica por que aqui somos todos leitores, por que vocês fazem o que fazem, e por que eu faço o que faço e por que minha vocação é também minha obsessão… A palavra é Deleite; e é isso que eu desejo a vocês enquanto leitores: Deleite, em todas as suas encarnações sob a forma de livro.


[1] Em 2008, apareceu uma nova tradução (pela Rocco, que vem publicando regularmente as obras de Atwood nos últimos anos), de Geni Hirata, que comentei numa resenha meio que glosada desta que se lê acima, em 16 de agosto daquele ano, em A TRIBUNA.

Blog no WordPress.com.