MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/08/2016

PÁSSAROS DE PERDIÇÃO: “Liturgia do Fim”, de Marilia Arnaud

Liturgia do Fim - Livro Marilia Arnaud

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2016)

 

Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possí- vel, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais –, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações…

…que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

(Franz Kafka, Carta ao Pai)

 

Há um detalhe emblemático em LITURGIA DO FIM: em sua volta à fazenda natal, após trinta anos de afastamento (fora expulso), o protagonista Inácio rememora um presente do casamento dos pais, um conjunto de louça com motivo de pássaros, que o pai, homem brutal e tirânico, quebrará em mil cacos, guardados cuidadosamente pela mãe. É uma analogia com o íntimo do próprio Inácio, no reencontro com o pai, o outro único sobrevivente na numerosa família Boaventura: “Meu estômago escoiceava numa náusea de mil cacos de vidro”.

Nem construindo uma vida urbana, Inácio escapou de Perdição, o seu lugar de origem, e das estruturas elementares do parentesco: “Não compreenderei se lhe dissesse que durante todos os anos em que estive ao lado de Ieda e Isabel experimentei com frequência a sensação de que a vida, a vida real, a minha vida estava em outro lugar, como se ali, ao lado delas, eu fosse apenas um personagem investido de determinado papel, de certo modo conveniente, que me tinha sido oferecido sei lá por quem, porque eu não me lembrava de tê-lo escolhido, eu simplesmente aprendera as falas com relativa facilidade e, ao longo das temporadas, fora se tornando cada vez mais sofrível, até as falas e os atos restarem impraticáveis, até eu ter de me tirar de cena”.

Como uma ginasta que não comete erros, Marilia Arnaud, arma suas piruetas e saltos mortais em torno de uma coreografia de metáforas que vão se espiralando sem vacilo; muito pelo contrário, o leitor fica com a respiração suspensa entre a densidade do narrado e a linguagem grave e austera, contudo lindíssima, a qual só em conta paralelo em Francisco J. C. Dantas, autor da obra-prima, “Coivara da Memória”.

Já ouvi muitas vezes – e sempre achei uma bobagem – que é mais fácil um escritor masculino usar uma voz narrativa feminina, do que uma mulher fazer o contrário. Poderia citar diversos exemplos que contestariam esse preconceito.            Mas a leitura de LITURGIA DO FIM, basta.

Seu romance anterior, “Suíte de silêncios”, já revelava um enorme talento para a ginástica com as palavras e sua estreita relação com a dor de existir; porém, às vezes se deixava levar pelos estereótipos da famígerada “escrita feminina”.

Com LITURGIA DO FIM, na contracorrente de Inácio Boaventura, ela se libertou de todas as gaiolas. No panorama literário de 2016, merece incontestavelmente a medalha de ouro.

 

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TRECHO SELECIONADO:

“A camisa colocava-se ao meu corpo. Detive-me sob jabuticabeira para me secar um pouco, beber água e fumar um cigarro. As bolinhas pretas que recobriam o tronco e os galhos assemelhavam-se a um monstruoso enxame. Na trama negra do solo, insetos apascentavam-se de frutos maduros. A fumaça do cigarro não tornava menos fulgurantes as coisas ao meu redor. Um sabiá, de minhoca de bico, esvoaçava de um galho a outro, inquieto com a minha presença, os filhotes num pipilar aflito, resguardados no ninho algum lugar acima da minha cabeça. Metido entre a vegetação rasteira, um camaleão de pele verde mantinha um olho em minha direção, outro fixo na presa, um besouro de casco luzidio. Por toda parte abriam-se os cálices das onze-horas, e, num pedaço de chão, as delicadas nuvens desenhavam um céu de pétalas.

Fora de mim, vibrava em toda a plenitude um universo sólido, claro, reconhecível, do céu à terra a vastidão de um reino de beleza a resplandecer contra minha dor, mais insuficiente para remediá-la.

Num dos trechos mais íngremes da subida, em que a picada serpenteia entre um córrego e uma pedreira abandonada, a fachada da casa branquejou e um gavião enterrou-me o bico do peito, a mesma estocada de quando me virei para olhá-la naquela manhã que julguei ser a última em Perdição.

Depois de haver sido escorraçado por papai, estivera alguns dias escondido no grupo escolar abandonado, ideia de mamãe, que me levava comida e me pedia paciência e serenidade, pois logo, logo tudo iria se resolver da melhor forma. Eu não percebia como as coisas poderiam se arrumar com Joaquim Boaventura ofendido em sua honra de pai, desbancado em sua imagem de homem intocável e, além do mais, já me fazendo distante de Perdição.

Trancafiado dia e noite no quadrado de paredes emboloradas, ouvindo a suindara rasgar com seu grito a mortalha da noite, tão assustado quanto os ratos que cruzavam o chão de esteira onde eu dormia, debatia-me, como o autor de um crime indefensável, entre o desejo de morrer e o de me entregar. Qual a atitude menos indigna? De qualquer forma, estaria morto, porque se um pai, de quem um filho herda a vida, diz-lhe estás morto, não há por que duvidar, nem de quem se valer, sentença de condenação irrecorrível”.

Liturgia do Fim - Jornal

16/08/2016

Eça à beça: comentário sobre “Alves & Cia.”

Eça de Queiroz Alves & Cia

“Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira, no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se por mil interesses comuns, com a ideia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre sofá. Mas por fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos”.
 

(Uma versão da resenha abaixado, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de agora de 2016)

 

Em muito boa hora, a Grua incluiu em sua coleção “A arte da novela” um dos sextos de Eça de Queiroz, um dos autores geniais tanto em romances longos (caso de Os Maias) quanto no formato ficcional mais breve (caso de O Mandarim): ALVES & CIA, só publicado na década de 1920 e restaurado integralmente décadas depois.

O protagonista, Godofredo, surpreende a esposa, Ludovina, em flagrante adultério com seu sócio, dez anos mais jovem e bonitão. Despacha a esposa para a casa do pai (embora mantenha as aparências para sociedade) e tenta de todas as maneiras – incluindo o duelo – uma reparação por parte do sócio. No final, o episódio adultero vai sendo desconstruído até se diluir. É o retorno à “regularidade das coisas” (isso é, à bêtise, a estupidez que rege o cotidiano, como aprendemos com Flaubrt) tão prezada por Godofredo, malgrado seu temperamento vagamente romanesco: “… gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel…”.

ALVES & CIA é uma daquelas obras que, em ponto pequeno, sintetiza toda a produção de um autor. No caso de Eça, a sátira ácida ao provincianismo da sociedade portuguesa, a hipocrisia das instituições, o vazio de noções cristalizadas como a da “honra”, a tragédia que se dissolve na mediocridade (tema da sua maior realização, Os Maias); não falta nem o poder doméstico alcançado pela criadagem (como em O primo Basílio), por conta da convivência, quando não conivência, com pecadilhos dos patrões: Godofredo é obrigado a tolerar o desleixo da criada e da cozinheira para que elas não espalhem pela vizinhança o fim do seu casamento. Lendo suas 120 páginas, temos uma perfeita compreensão da passagem do Romantismo para o realismo.

Eu particularmente admiro os romances da fase final de Eça, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, os quais considero profundos e brilhantes, contra a opinião generalizada de que são uma capitulação ao conformismo; não há, como negar, contudo, o fascínio de sua fase mais provocativa e cruel, da qual muitos manuscritos vieram a lume postumamente, muitas vezes com mutilações, felizmente corregidas em edições recentes.

De qualquer modo, meu conselho é este: ler o grande autor português, seja em formato volumoso, seja          em formato curto, uma vez ao ano. Eça à beça.

 

ALves & Cia. Jornal

 

 

10/08/2016

Destaque do Blog: “Amora”, de Natalia Borges Polesso

Natalia Polesso

Amora

 

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quatro quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão.”

(Trecho de “Flor, flores, ferro retorcido”)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos dia 09 de agosto de 2016)

À primeira vista, os 33 textos de AMORA (Não Editora) têm seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não por acaso, justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica” satirizando o gueto dessas mulheres, um “mundinho” com seus redutos e intrigas.

Mas, para mim, o inesperado encanto do livro é, nos seus melhores momentos, a habilidade técnica que demonstra ter Natalia Borges Polesso aprendido com os grandes contistas. Assim como Lygia Fagundes Teles, ela é capaz de nos dar todo um histórico familiar, a partir de uma embaraçosa pergunta durante uma refeição (“Vó, a senhora é lésbica?”; aliás um dos três pontos altos de AMORA; os outros dois são “Flor, flores, ferro retorcido” e o pungente “Marília acorda”: “Marília é medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu não vou suportar ficar sozinha, nem ela. Eu pensei em cuidar disso eu mesma. Pensei em fazer com calma, pensei em deitar com Marília, de meias, e no chá misturar uma dose que nos tranquilize e, com sorte, não acordaremos. Pensei só, mas não tenho coragem. Então eu rezo. Eu rezo para que sejamos juntas tão juntas como sempre fomos, agora e na hora da morte”).

Não chega a ser um enfraquecimento do conjunto (pois não faltam contos excelentes em AMORA), contudo Natalia Borges Polesso padece de um defeito comum à ficção contemporânea: o leitor tem a impressão de que o autor quer colocar no livro todo o conteúdo de suas gavetas, quando uma seleção mais rigorosa se faria necessária e daria mais força à coletânea.

Em todo caso, tira-se o chapéu para uma contista capaz de fazer uma personagem apaixonada ter a percepção realista e desencantadora do futuro da relação, como na seguinte passagem de “Como te extraño Clara”:

“Na terça-feira, antes de chegar ao curso de espanhol, Gentil pergunta alguma coisa sobre Fernanda. Ela vai responder que Fernanda está bem e logo, logo voltará à ativa, e o homem dirá que sente muito pela mãe de Clara, que é uma mulher muito boa e trabalhadora. Clara não entenderá, pois sabe que o homem não conhece sua mãe e também porque há nada de errado com ela e depois de cinco passos se dará conta de que ele fala de Fernanda. Então Clara vai pensar pela primeira vez na idade de Fernanda e num cálculo simples verá que a hipótese do homem não é descabida…”

Alguém ainda acha que AMORA é um livro sobre homoafetividade?

Amora - Jornal

 

16/06/2016

Destaque do Blog: SOMBRAS DA ROMÃZEIRA, de Tariq Ali

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de junho de 2016)

“Muita gente — geralmente, pessoas que têm medo de multidão — diz que qualquer ajuntamento com mais de uma dúzia de pessoas é presa fácil para demagogos capazes de atear fogo na plateia e insuflar qualquer ação insensata. Essa afirmação ignora as causas subliminares que fizeram tantas pessoas se reunirem, por razões diferentes. Todas as rivalidades, políticas e comerciais, foram esquecidas; todas as vinganças tinham sido anuladas; houve uma trégua entre as facções religiosas em luta dentro do islamismo em Al-Andaluz; a congregação estava unida contra os invasores cristãos. O que tinha começado como um gesto de solidariedade ao direito de uma viúva proteger os filhos tinha se transformado em uma pequena insurreição.”

O trecho acima (que cito na tradução de Beatriz Horta) pode ser encontrado no capítulo onze de Sombras da romãzeira (“Shadows of pomegranate tree”, 1992), o primeiro volume publicado do Quinteto Islâmico de Tariq Ali, e marca um momento “positivo” (embora efêmero) no terrível quadro histórico evocado pelo autor paquistanês: em 1500, os muçulmanos da Espanha sofreram uma perseguição muito próxima do genocídio.

A ação se concentra em Granada (ou Garnata, na terminologia árabe) e na propriedade senhorial (e as aldeias em torno) de al-Hudail, do clã de protagonistas do romance, os Banu-Hudail. Até a altura do capítulo onze, o jovem Zuair bin Omar está indeciso quanto ao rumo a tomar em sua vida, malgrado tenha deixado a casa paterna para lutar contra a opressão cristã e a exigência de conversão em massa, a abdicação de todos os costumes islâmicos (em desacordo com o tratado firmado quando da Reconquista pelos espanhóis de Granada).

Movido por uma firme porém anacrônica ética de cavalaria (que alimentou sua educação), é nesse momento de crise que ele desponta como um líder, ao discursar impulsivamente para a multidão que se revoltara contra a arbitrária prisão dos dois filhos de uma viúva, erguendo barricadas e preparando-se para um confronto aberto. Líder de uma causa perdida, parece líquido e certo. A retaliação espanhola é atroz e radical.

Mas já não são um destino e um caráter indefinidos: Zuair cresce aos olhos do leitor. Também o fato de que a sublevação não tenha resultado em nada bom para os “mouros” de Granada (e as trágicas consequências para os Banu-Hudail, justamente pela definição do destino e do caráter de Zuair, constituem a dolorosa parte final da narrativa) não inclina ao pessimismo quanto às manifestações populares (e provavelmente é uma bagagem de entusiasmo não-perdido que o escritor trouxe dos eventos dos anos 1960, entre eles o mítico maio de 1968[1]), cuja dinâmica ele sutilmente destrincha em poucas páginas, os longos anos de inércia, e então um evento aparentemente banal catalisa e faz eclodir a insatisfação generalizada, com surtos de truculência.

Contudo, como disse, a causa está perdida. A cultura islâmica será reprimida e esmagada na Espanha que se faz cada vez mais palco da Inquisição (e essa propensão das autoridades católicas é representada em Sombras da romãzeira pelo sinistro Ximenes de Cisneros, com o aval de Isabel e Francisco; de fato, o relato se inicia com o arcebispo ordenando um auto-de-fé com livros escritos em árabe), e os próprios muçulmanos têm sua culpa no processo, presos a um passado glorioso, ao conformismo ou a posturas tão anacrônicas quanto a ética de cavalaria que embasou a educação de Zuair (e de que pouca valia terá para a sobrevivência dos seus familiares, a não ser uma morte “honrada”).

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A estratégia narrativa de Tariq Ali faz com que o leitor evoque eventos como a Shoah da Segunda Guerra (o progressivo espoliamento de direitos civis, as restrições, e enfim uma “solução final”, genocida), e a Igreja Católica espanhola se define como estrategista de um pogrom monstruoso e deliberado, mancomunada com um casal real ganancioso e inescrupuloso. Carregando as tintas nesse sentido, ele inverte os termos da equação geralmente apresentada a leitores ou espectadores ocidentais: a barbárie pertence à nossa banda e não ocorre em terras longínquas, em guerras distantes, é no próprio território da “civilização”.

Complementando essa perspectiva do avesso (inclusive por propor uma vitimização paralela do povo muçulmano assimilado ao território europeu, tanto quanto a sofrida — e muito mais “badalada”, cantada em prosa e verso — pelos judeus), o mais surpreendente em Sombras da Romãzeira é que, para pessoas como os membros do clã Banu-Hudail, a Europa é o seu lar, e para os seus antepassados funcionou como o “Novo Mundo”. Um aspecto pouquíssimo explorado pela ficção, e que a meu ver é que representa o diferencial do romance de Ali, já que não seria o uso de uma história familiar, em cujas intrigas particulares, vão se imiscuindo os dramáticos e apocalípticos eventos gerais (afinal, já a minissérie Holocausto usava o mesmo mote: uma família-exemplo).

Habitantes da Europa há séculos, mas nunca “europeus” (e orgulhosos disso, com sua civilização poderosa—mas só superficialmente coesa), eles não se dão conta da voragem que os vitimará, e ao longo do romance ouvimos frases que são variações de uma bela frase dita pelo sábio e já idoso Al-Zindiq (cuja existência está atrelada por vários incidentes aos Banu-Hudail, entre eles seu romance proibido com uma das mulheres do clã, Zara): “Nosso futuro foi nosso passado” (por isso Zuair não sabe como agir e que rumo seguir, a princípio, ofuscado quixotescamente pelos princípios de cavalaria).

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[1] Cf. Street Fighting Years: an Autobiography of the Sixties (2005), aqui traduzido como O poder das barricadas (2008) por Beatriz Medina.

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09/06/2016

ENTRE SHAKESPEARE E O NOTICÍARIO POLICIAL

 

Nikolai

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk

(A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em sete de junho de 2016)

Desde a sua morte, há 400 anos, Shakespeare e suas personagens geraram inumeráveis versões e releituras. Uma das mais interessantes completou um século e meio: em 1865, o ainda jovem Nikolai Leskov com Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk.

No primeiro parágrafo o narrador explicita sua “aclimatação”: “De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáiolova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”.

A analogia com Lady Macbeth não é estritamente exata: como todos sabem, a personagem da peça instiga, espicaça o marido a fim de que ele cometa os crimes necessários para chegar ao poder. Veja-se um exemplo, a seguinte fala da personagem de Shakespeare num colóquio exasperado entre o casal Macbeth: “(…). Desde já me ponho/A duvidar de teu amor. Tens medo/De ser na ação e no valor o mesmo/Que és no desejo? Queres ter aquilo/Que estimas como o ornato da existência/E te mostras em tua mesma estima/Um covarde, dizendo “Não me atrevo”/Depois de “Quero”, como o pobre gato/Do provérbio, que quer comer o peixe/Mas sem sujar as patas? ”

Moça pobre, de temperamento impetuoso, Catierina Lvovna conformou-se em casar com um comerciante bem mais velho, e vive por cinco anos na grande propriedade do sogro um cotidiano de isolamento e tédio, até que numa ausência prolongada do marido, ela se envolve com um dos empregados, o mulherengo sedutor Serguiêi, e o torna seu amante. A paixão por Serguiêi desperta Catierina em todos os sentidos: “… deu plena expansão a seu gênio. Agora se mostrava uma mulher de pulso… enchia-se de altivez, determinando tudo pela casa afora, e sem deixar Serguiêi arredar pé de perto de si”. Para isso, ela tem de primeiramente liquidar o sogro, e o faz, envenenando-o. Mais tarde, eliminará o marido (uma cena impressionante e brutal), que volta de inopino.

Em tudo e por tudo, parece ser ela a ditar as regras, a derrubar os limites. Não é bem assim: do mesmo modo como se larga à modorra do clima e à languidez, ao bochorno do seu idílio adúltero, ela deixa que o aparentemente bonachão (embora cúmplice dos seus crimes) Serguiêi a induza, é um processo totalmente inverso ao que observamos no casal Macbeth e muito mais afim aos processos psicológicos observáveis em “Madame Bovary”, em que a fantasia pessoal tem sua parte nas transgressões de Emma, mas pesa muito mais o cálculo dos seus amantes e “cúmplices”, que se valem dessa mesma fantasia para manipulá-la e usufruir do que tem a oferecer. Serguiêi é que se revela o calculista-mor do enredo (sua amante sendo movida pela passionalidade). Isso fica claro quando, após o assassinato do marido (e o sumiço de seu corpo), aparece outro postulante à herança.

Por tais vias insidiosas, ele a instiga, espicaça a eliminar o pequeno Fiódor (numa outra cena extraordinária). Vai ser a desgraça do casal criminoso. Serão pegos em flagrante, julgados e condenados à Sibéria, aos trabalhos forçados, o que levará Lady Macbeth do distrito de Mtzensk a outro patamar, narrativo e psicológico. Poucas páginas finais são tão intensas e cruéis (e tão econômicas em seus efeitos): inverte-se a dinâmica do casal (ou melhor, ela se explicita tal como é, de fato) e vemos toda a impetuosidade de Catierina Lvovna (o Ilvovna que lhe dirige Serguiêi é marca do inculto, como nos esclarece o tradutor) degradar-se (em paralelo à sua degradação social) numa sofrida paixão de sujeição e humilhação. Haverá ainda um último ato em que ela reencontrará o seu “gênio” e tomará mais uma atitude extrema e irresignada: um lado Medeia bem mais forte do que o lado Lady Macbeth inscrito nesse temperamento. Assim, a tragédia elizabetana, a vida em ramerrão e a dimensão em que suas monstruosidades podem ser filtradas — como “exemplo”— no mundo pós-Revolução Industrial e da página policial, que galvaniza as atenções da sociedade, capitaneando a deterioração da narrativa no mundo da informação triunfante.

Lady Macbeth - Jornal

25/05/2016

Destaque do blog: BILLY BUDD, MARINHEIRO, de Herman Melville

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Herman Melville 2

Herman Melville ´- Billy Budd, mariheiro

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, vinte e quatro de maio de 2016)

 

Durante muito tempo, Herman Melville foi apenas o autor de Moby Dick; atualmente, porém, duas outras narrativas, bem mais curtas, foram tornando-se emblemáticas de sua obra. Na semana passada, comentei Bartleby, o escrevente; nesta, BILLY BUDD, seu último escrito (o manuscrito tem como data de conclusão abril de 1891), e só viria a ser publicado em 1924, quando começou a “reabilitação” melvilliana, após décadas ignorado.

BILLY BUDD, é uma alegoria inequívoca da era revolucionária. Senão vejamos: Billy é o Belo Marujo (é adorado por todos os companheiros, é o centro das atenções e, segundo o capitão do navio, o pacificador dos conflitos—não entrarão aqui as possíveis ilações homoeróticas da história, mesmo porque, na minha opinião, é uma coisa óbvia em se tratando de homens confinados juntos por muito tempo, em qualquer época ou latitude, e a beleza extrema é sempre algo perturbador), cujo passado—embora ele tenha traços nitidamente aristocráticos— é ignorado por ele mesmo, um enjeitado, e que serve num navio chamado “Direitos do Homem”. Quer coisa mais rousseauniana? É quase o “bom selvagem” num disfarce europeu.

Ora, o Belo Marujo é alistado à força num navio da marinha inglesa (o ano é de 1797, e a história ocorre na esteira de graves motins a bordo de navios da frota real). Ali, levaria a mesma existência que levava no “Direitos do Homem”—uma vida meio inconsciente, analfabeta, “pura”—não fosse pela inveja que consome o chefe de armas, Claggart, cujo passado também é envolvido em brumas, contudo brumas bem menos benignas que as de Billy: talvez ele tenha cometido um crime ou um ato desonroso. Claggart é a beleza sombria, a beleza que deixa os outros incomodados, é o cara pálido, que nunca pega sol, que parece ficar nos desvãos escuros do navio; enquanto Billy e a tez bronzeada, o saudável, o que reflete o mar em seus olhos.

Para chegar ao conflito entre os dois (conflito de que Billy, em sua “pureza”, mal tem consciência, ainda que receba a advertência de um dos veteranos a bordo, que logo percebe o jogo, mas que tem o péssimo hábito de falar em termos oraculares), Melville parece que vai à deriva, iniciando, mas interrompendo, prosseguindo um pouco, mas abrindo um novo parêntese, até realmente cerrar-se na narrativa, já mar alto, lá pelo meio do texto. Só que todas essas digressões e interrupções são todas estratégicas e deliberadas, preparam muito bem o leitor para a primordialidade e essencialidade do que acontece a bordo do “Indômito”, Claggart, após tentar prejudicar de mil comezinhas maneiras a tranquilidade do Belo Marujo, acaba optando por uma atitude radical: denuncia o gajeiro como fomentador de um motim (assunto dos mais delicados naquele momento). O capitão, que, como Arendt demonstrou, exercerá o papel da virtude e não das qualidades inatas, não acredita no relato de Claggart, e resolve fazer um acareamento. Nesse momento, ao saber da acusação, vem à tona o calcanhar-de-aquiles de Billy: ele tartamudeia quando fica sob pressão. Não podendo dar uma resposta verbal, articulada, ele parte para a violência e abate Claggart com um único golpe. Nunca um golpe mereceu tanto o epíteto de fulminante!

Apesar da simpatia que inspira a todos (e a ninguém mais do que ao capitão Vere), a corte marcial só pode pronunciar um único veredicto: o assassino do delator mentiroso deve ser enforcado, para bem da disciplina e da moral da marinha inglesa, nesse período conturbado e perigoso. Apesar de todos os protestos, Vere é firme em tomar o julgamento em suas mãos, no intuito de levá-lo a essa conclusão: Billy é bom, foi caluniado infamemente, porém se voltou contra um oficial superior, quebrou a espinha dorsal da hierarquia, abriu a porta do caos, da desordem, da semente de revolta e transformação:

“Suas firmes convicções serviam de dique contra as águas invasoras das novas ideias políticas e sociais que, de outra forma, levavam naqueles dias tantas cabeças de roldão—cabeças de natureza não inferior à sua. Enquanto outros membros da aristocracia, à qual por natureza pertencia, exasperavam-se com os renovadores porque suas teorias eram hostis às classes privilegiadas, o Capitão Vere opunha-se a elas com isenção, não apenas porque não lhe parecerem suscetíveis de tomar corpo em instituições duradouras, mas ainda por serem contrárias à paz entre os homens e ao verdadeiro bem-estar da espécie humana”.

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VER TAMBÉM NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/12/14/quando-abel-mata-caim-os-valores-absolutos-e-as-instituicoes-duradouras-em-billy-budd/

Billy Budd, o marinheiro - Jornal

19/05/2016

O HOMEM QUE PREFERIA NÃO FAZER

Herman Melville Bartleby, o escrevente

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em dezessete de maio de 2016)

 

“Preferiria não fazer (I would prefer not to) ”, uma das afirmações mais célebres da literatura ganha tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica: Já houve muitas outras; até agora, a minha favorita era a de Luís de Lima (Rocco); Pinheiro de Lemos traduz de maneira bem eficaz: “Preferia não fazê-lo” José Olympio; Confesso que não gosto da solução de Irene Hirsch: “Acho melhor não” (Cosac Naify), sem graça e no fundo pouco poética.
Estou falando da desconcertante recusa do personagem – título de Bartleby, o escrevente (1853), em cumprir as tarefas designadas a ele pelo patrão, o narrador, dono de um escritório em Wall Street. A situação se complica porque mesmo demitido, Bartleby se recusa a deixar o local de emprego (o qual transformou-se em moradia: “De pronto senti todo o drama: Que solidão e desamparo terríveis estão sendo revelados aqui! A sua pobreza é grande, mas a sua solidão… que horror! Pensem nisso. Num domingo, Wall Street é tão deserta quanto Petra, e todas as noites de todos os dias são um imenso vazio. E até este edifício, que nos dias de semana fervilha com vida e labor, à noite ecoa de tão absoluta inatividade e durante todo o dia dominical jaz abandonado. E é daqui que Bartleby faz seu lar…”). Apesar da irritação e dos problemas que o estranho individuo lhe acarretam, esse patrão acaba sentindo-se responsável pelo seu destino. Na verdade, é como se no mundo capitalista se infiltrasse um vírus de não-produtividade que colocasse em xeque todas as regras da economia e da hierarquia social.
Herman Melville escreveu uma obra prima muito adiante do seu tempo. Bartleby é um personagem que antecipa todos os anti-heróis do século seguinte, e até do nosso.  O autor de Moby Dick era realmente um visionário e poeta da prosa.
Por isso não apreciei a solução de Irene Hirsch para a emblemática declaração do bizarro escrevente. Há poesia na recusa de Bartleby, pois é uma recusa dentro de uma formulação da Possibilidade: “prefiro”, “preferia” ou “preferiria” não fazer, ou seja, há a possibilidade de fazer, mas abriu-se um pequeno e decisivo lapso: a “preferência”. Não é uma recusa propriamente dita: não vou fazer. É uma preferência que, manifesta, abole a possibilidade de fazer o que é solicitado. É minha opinião que tudo isso se perde no “acho melhor não”.
A superioridade indulgente do patrão sofre um profundo arranhão: “Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Eu não conhecera até então senão uma leve e nada desagradável tristeza. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse golpeado por um irresistível desalento… Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão”.
              Mas como todo texto em que o narrador nos fala de outro individuo, ele – mesmo sem o saber – termina por se revelar tanto quanto o seu objeto de estudo o interesse. Um dos mistérios de Bartleby, o escrevente é o mal-estar e a má consciência do patrão. Tente, caro leitor, descobrir o porquê mergulhando em páginas inesquecíveis. É mais ou menos como descobrir se Capitu traiu Bentinho.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/09/27/parede-e-muro-o-medico-e-o-mutismo-do-monstro/

Bartleby, o escrevente - Jornal

10/05/2016

Destaque do Blog: CORPO DE BAILE, de João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa      João Guimarães - Corpo de Baile VOL 1

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Depois de décadas reordenadas em três livros diferentes (Manuelzão e Minguilim; Noites do Sertão; No Urubuquaquá, no Pinhém), o leitor pode encontrar finalmente as sete estórias – para utilizar um termo caro a João Guimarães Rosa – de Corpo de Baile na formação original de 1956, em dois volumes.

O primeiro é composto por três textos sensacionais: Campo Geral; Uma Estória de Amor e A Estória de Lélio e Lina. Minguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão: Veredas. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância, é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hipersensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmão Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Minguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

Campo Geral sempre eclipsou injustamente Uma Estória de Amor (festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo povo, o dia inteiro. Dião de dia! ”

Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele tem medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, numa atração inequívoca pela nora. Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como Seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente solidão de quem tem que estar em atividades constantes para não cair na angústia.     Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o seu sabor dificultosamente, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: “Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver”. Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing. (Continua na próxima semana).

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em três de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

 

 

João Guimarães - Corpo de Baile VOL 2

 

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Na semana passada, comentei o primoroso primeiro volume com três tas sete estórias de Corpo de Baile. O segundo é mais irregular e desarmônico, porém representa um experimento de linguagem quase ímpar em nossa prosa.

O Recado do Morro, o texto de abertura, é uma obra-prima na qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de préfigurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos, é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

O protagonista de Lão-Dalalão é Soropita e ele está voltando para casa, “em meio-sonhada ruminação”. Ex matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável”. Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até mata-lo. Por quê? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de Dom Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

Aliás, o que faz com que Leão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não traduzidas em alemão e italiano.

Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já foi companheiro de infância de Minguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiava a ela? Talvez trazer notícias da vida de Cara-de-Bronze perdeu no processo de ser latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher”. A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra em Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado perrengue Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé, Sijisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim, Zijisbéu Saturni, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério, Segisberto Saturnino).

(Também complicada, contudo não tão perfeita como realização artística, é a ciranda amorosa de Buriti a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro, patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi busca-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado Dr. Miguel.

Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alterando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1ª e a 3ª pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a imprenssão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências.

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em dez de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

Livros - Capas da 1ª Ed. - Corpo de Baile

Corpo de Baile - Vol. 2 - Jornal Corpo de Baile - Jornal

 

 

24/04/2016

OS 400 ANOS DA MORTE DE CERVANTES

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 11:53
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CERVANTES

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em dezenove de abril de 2016)

 

Ao que parece, Shakespeare e Cervantes morreram no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Não se sabe se isso corresponde à estrita verdade dos fatos, mas como lenda literária é uma beleza, pois os dois criaram os mais duradouros personagens da Era Moderna, Hamlet e Dom Quixote.

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Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, considerava Dom Quixote  “antiquado, sórdido e grosseiro”. Trata-se de uma exceção porque o livro de Cervantes (cujo primeiro volume chega, em 2005, aos 400 anos), é particularmente amado por todos os que gostam de ler e que veem em seu protagonista um símbolo da curiosa atividade que é a leitura.

O genial escritor do século XVIII Laurence Sterne faz várias referências brincalhonas e carinhosas a Cervantes em seu extraordinário (e quixotesco) Tristram Shandy“Gentil Espírito do mais brando humor, que outrora pousaste na pena desembaraçada do meu amado Cervantes”, lemos, por exemplo, no capítulo 24 do volume IX.

Cervantes (1547-1616) passou muitos anos como prisioneiro em Argel, até que conseguissem pagar seu resgate (era época de corsários e guerra com os árabes, e tudo isso permeia seu grande romance). Publicou O Engenhoso Fidalgo em 1605, quando se encontrava empobrecido e esquecido, e o sucesso foi tamanho e o livro se difundiu de tal forma que alguém (certamente um inimigo literário, que utilizou o nome de Alonso Fernando de Avellaneda), em 1614,  publicou a continuação apócrifa das aventuras da dupla Quixote-Sancho Pança (na verdade, esse falso Quixote não é destituído de graça), ainda que no final do original aparecesse até o epitáfio do herói (junto com os epitáfios de Sancho, de Dulcinéia e até do cavalo Rocinante).

No ano seguinte, apareceu então o segundo livro, O engenhoso Cavaleiro D. Quixote de La Mancha (já que num dos episódios mais divertidos e irreverentes do primeiro o dono de uma estalagem sagra como cavaleiro o fidalgo enlouquecido pela leitura de romances de cavalaria), poucos meses antes da morte do autor. Ele queria que, através das aventuras farsescas (e aí entram os famosíssimos episódios da luta contra moinhos de vento ou contra odres de vinho, que se afiguram gigantes a D. Quixote, rebanhos que viram exércitos inumeráveis, estalagens que se tornam castelos, etc) dos seus dois heróis, jogados no mundo que nada tem de idealizado, e através de um humor nem sempre brando e sim às vezes bastante escrachado, os leitores sentissem a insuficiência da literatura ligada aos feitos heroicos, tema amplamente discutido, em vários momentos; o principal deles, quando D. Quixote é conduzido, enjaulado,  a sua casa –acreditando-se enfeitiçado– pelo cura e pelo barbeiro da sua aldeia, e o primeiro deles conversa com um cônego, e é aí que Cervantes expõe de forma clara seus pontos-de-vista e faz profissão de fé do tipo de relato ficcional e de teatro que ele gostaria que fossem  praticados, além de colocar a teoria em prática nos diversos relatos intercalados à história principal.

O que ele acabou realizando foi o paradigma da ficção ocidental, praticada a partir dele, o livro-referência de todos os romancistas (Nabokov que resmungue à vontade). Ou alguém pensa que a matriz da jornada de Frodo e Sam Gamgi (sem contar a própria relação entre eles), em O senhor dos Anéis, é outra?

DOM QUIXOTE

 

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Quando se lê com atenção O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha fica impossível não se constatar que, há 400 anos, o mundo muçulmano já assombrava, como hoje, o Ocidente e fazia parte do seu imaginário, obrigando-o também a lidar com seu mal-estar (e sua má fé) diante de uma alteridade tão evidente. Sancho Pança sempre se refere aos defeitos e destemperos dos mouros e na constelação de monstros e no bestiário do romance as alusões a eles são constantes também; há até uma das novelas intercaladas à narrativa principal (a história do Cativo, ocupando três longos capítulos) que evoca a vida de Cervantes, prisioneiro-refém em Argel durante muitos anos.

As novelas dentro do romance são outro aspecto fascinante. Ao colocar na boca de certos personagens (o cura da aldeia de D. Quixote, em sua conversa com um cônego, quando traz de volta para casa, enjaulado, o fidalgo lunático, o qual crê estar enfeitiçado) sua severa condenação à prática ficcional das novelas de cavalaria e ao teatro de seu tempo, Cervantes está propondo uma outra prática de ambos, de que ele seria o representante (já que não se furta a citar o próprio nome em seu texto, ou insinuá-lo).

O ponto central da argumentação está na inverossimilhança, no exagero, no fato de que as novelas de cavalaria não têm estrutura discernível (portanto, uma condenação formal), enquanto que o teatro da época está infestado de lances inconvincentes destinados a embasbacar o público crédulo. Certamente há aí intenção polêmica e vingativa com relação a inimigos literários, notadamente Lope de Vega, o autor de “Fuenteovejuna”. No prefácio ao 2º volume, essa atitude se reafirmará, pois, contra-atacando, ele mira detratores e rivais, inclusive plagiadores que usaram seu personagem, obrigando-o a escrever uma continuação, O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, publicada um ano antes de sua morte.

Qual seria o procedimento em contrário? Este apresentará uma contradição  instigante e produtiva: criticando a irrealidade e a falta de forma, Cervantes não pode se escusar de ver a trama de um feitio teatral (e fundamentalmente vaudevillesca, tanto nas partes, como na novela do “Curioso Impertinente” quanto no todo do livro), fazendo com que todos os seus personagens, que são de diferentes lugares e esferas sociais possíveis, se encontrem, quase que se acotovelando (é isso mesmo, chega a faltar espaço), por assim dizer, na humilde estalagem que a D. Quixote parece um castelo encantado. Tirando isso, e também as convenções que de tão visíveis se tornam risíveis e até ingênuas (toda heroína é a mais bela mulher do mundo, só que ele reúne quatro delas num mesmo local; todos infalivelmente sempre choram juntos quando cada personagem toma a palavra e conta as suas desventuras), o que vemos é um tipo peculiar de ficção impondo-se: a novela sentimental, onde um fundo aventuroso não impede a interiorização, a discussão às vezes profunda dos sentimentos.

Ficamos com a impressão de que as aventuras trapalhonas de D. Quixote e Sancho Pança são apenas a moldura desse que é o verdadeiro cerne, o miolo da obra (embora não seja o que tenha ficado de mais marcante para a posteridade; quem é que lembra da história do Curioso Impertinente ou do Cativo, enquanto todos citam os moinhos de vento, ou Dulcinéia, até sem ter lido o romance). Enfim, o que está supostamente apenas intercalado à aventura principal é o que Cervantes gostaria que estivesse sendo lido e representado (sendo ele o principal autor, é claro) em seu tempo, uma vez que as fascinantes e amalucadas andanças do Cavaleiro da Triste Figura e seu criado representam a liquidação de um gênero anterior.

CERVANTES JORNAL

05/04/2016

O POUCO MENOS QUE A BÍBLIA: O 150 anos de “Crime e Castigo”

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 14:40
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VÁRIOS ROMANCES NUM SÓ: OS 150 ANOS DE CRIME E CASTIGO

ca. 19th century --- Portrait of Russian novelist Feodor Dostoyevsky (1821-1881).  Undated photograph. --- Image by © Bettmann/CORBIS

(Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos em 04 de abril de 2016

Crime-e-Castigo

 

 

Quem já leu CRIME e CASTIGO jamais consegue esquecer determinadas cenas desse magistral romance de Dostoiévski publicado há 150 anos. Sem contar atmosfera toda, permeada pelo assassinato da velha usurária e de sua irmã, temos por exemplo o momento em que o protagonista Raskólnikov, na primeira visita em que faz para a prostituta Sônia, inclina-se e beija seus pés, dizendo: “Eu não me inclinei diante de ti, eu me inclinei diante de todo o sofrimento humano”.

Algum outro autor que não fosse um Dostoiévski conseguiria partir o coração do leitor com uma cena tão potencialmente ridícula (e, aliás, não faltam elementos “ridículos” em todos os grandes textos do genial autor russo)?

O mesmo Raskólnikov, muito tempo depois, na Sibéria, sofre o impacto da revelação do seu amor por Sônia (a quem tratava tão mal, apesar de ela ser a “representante viva do sofrimento humano”), ao olhar pela janela do hospital da prisão: “Ela estava em pé e parecia esperar algo. Nesse momento alguma coisa cortou o coração de Raskólnikov”. E do leitor também, por mais que lute contra essa emoção quase masoquista.

E o suicídio do inesquecível vilão psicológico que é Svidrigáilov (apaixonado por Dúnia, irmã de Raskólnikov), estourando os miolos e dizendo: “Para a América”?

E as maravilhosas cenas que envolvem Catierina Ivánovna (madrasta de Sônia), a personagem feminina mais marcante de um livro onde não faltam personagens marcantes? A reunião de exéquias do marido dela, a sua loucura pelas ruas de Petersburgo, e a sua morte (ela é tuberculosa) são momentos indescritíveis, que mostram bem a diferença entre ler uma cena inesquecível e comentá-la.

É engraçado haver tanta gente que lê histórias “edificantes”, de “superação” (quando não religiosas), e CRIME e CASTIGO, essa obra-prima da literatura, é o livro mais edificante e religioso já escrito. Todo o processo narrativo consiste em humilhar o orgulho intelectual de Raskólnikov, que o levou a cometer um crime para verificar se pertencia à família dos grandes homens (a quem é “permitido tudo”), até que ele aceite com humildade a sua redenção através do amor cristão de Sônia. É duro de engolir, é piegas, leitor, é isso que você está pensando? Experimente, então, ler impunemente o romance. Todos os julgamentos desse tipo ficam suspensos diante de Dostoiévski.

Teatro, folhetim, drama psicológico e metafísico, parábola de redenção mística, debate de ideias, painel social. É isso CRIME e CASTIGO e a obra desse russo que viveu de 1821 a 1881: é apenas um pouco menos que a Bíblia: “Sim, mas como matei? Aquilo lá é jeito de matar? Por acaso alguém vai matar como eu fui naquele momento? Algum dia eu te conto como eu fui. Por acaso eu matei a velhota? Foi a mim que eu matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre”.

Crime e   cASTIGO

 

 

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