MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/02/2017

A LITERATURA LÍQUIDA DE VLADEMIR LAZO

vlademir-lazo gotas-no-asfalto-livro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2017)

“Em repouso os próprios pensamentos. Indagava como encontrar minha amiga, entretanto, preferindo não tecer mais considerações, deixando apenas para quando chegar ao balneário colocar em prática o imprescindível para revê-la… Mas é a paisagem, imperecível, transformada ou não pelo homem, a única que permanece, não sai do lugar (ou será a gente que ocupa esse desígnio?), se atribui dona de um espaço no qual transitamos de passagem, igual turistas cruzando céleres ou passivos essa faixa de terra que pode ser a rua em que moramos ou o mundo inteiro”.

O trecho acima aparece no notável capítulo 8 de GOTAS NO ASFALTO (Penalux) (que comentei na semana passada, sob outra perspectiva), o qual é um representante da “literatura líquida” (para utilizar a metáfora de Bauman sobre a nossa época): no nosso tempo, as relações virtuais preponderam sobre o contato físico, as experiências são aleatórias e desconexas.

Nesse capítulo, o narrador se propõe a sair do quarto do hotel para viver um dia “ensolarado”, esperando o encontro com Alice, com quem mantivera uma intensa ligação pelas redes sociais, mas ao fazer questão de conhecê-la, passou dias e noites frustrantes. Ao esperá-la no capítulo 8 na verdade é uma finalidade ilusória. Ele se perde na multidão que frequenta a praia e seus arredores, andando durante horas, numa espécie de “plenitude do vazio”, tendo em mente pequenos irrisórios objetivos, como comprar objetos e utensílios que nunca chagará a adquiri (e mesmo que o fizesse, nunca faria proveito deles).

Temos o epítome da literatura líquida: o mundo (com sua paisagem natural e sua paisagem humana) está à nossa frente, mas revela-se insubstancial, uma sucessão de horas a serem preenchidas. Vejam como ele relata a chegada de Alice: “Alice reparou que a observo, toda vez que se vira enquanto prosseguia recuando ou avançando mar a dentro, e hoje eu sei que no fundo meu encantamento era tanto uma contemplação carnal quanto um raro momento em que desfrutava daquela paz terrena que compartilhava com ela”. Enfim, uma errância (só ou acompanhado) desprovida de sentido.

O curioso é que no Alto Modernismo, autores como Samuel Becaett, chegaram a destruir todos os alicerces narrativos, desde o enredo até a identidade dos personagens, de maneira radical, tornando a leitura árdua e árida para o leitor comum. Bem ao contrário dessa radicalidade, os autores da literatura líquida, voltaram a exercitar a narrativa de feitio tradicional, de fácil leitura (não confundir com leitura fácil). Portanto, Vlademir Lazo nos conta um relato. Só não sabemos para que. O que não deixa dúvida é o sólido talento do autor gaúcho.

gotas-no-asfalto-jornal

07/02/2017

UM OLHAR SUSPEITOSO SOBRE O MUNDO: Gotas no Asfalto de Vlademir Lazo

gotas-no-asfalto-livro vlademir-lazo

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de fevereiro de 2017)

A Alice de Lewis Carroll, aquela que visitou o país das maravilhas e atravessou o espelho, adquirindo tamanhos diversos que muitas vezes não cabiam com o ambiente ao seu redor, e questionando as regras arbitrárias e/ou ilógicas do mundo adulto, tornou-se um arquétipo e várias narrativas contemporâneas.

É o caso do romance de estreia de Vlademir Lazo, GOTAS NO ASFALTO (Penalux). Começamos a acompanhar a história do “casal” Júlio e Alice perambulando pelos dois lados da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, com o objetivo de comprar remédios que funcionam como drogas, sem receita médica (sai como personagem de Bukowski, um autor que todos adoram, menos eu). Júlio, o narrador, passa a contar intensa pré-história desse “encontro”, durante anos nas redes sociais, quando Júlio alimenta a ideia fixa de conhecer pessoalmente Alice, a qual flerta com ele, faz sexo virtual, foge, desaparecendo dos seus contatos, até finalmente ceder, marcando um encontro na fronteira com o Uruguai.

Mesmo dividindo o mesmo quarto de hotel, a intimidade das relações virtuais nunca é alcançada. Alice arrasta Júlio em noitadas frustrantes e sempre em lugares límbicos, impessoais: rodoviárias, hotéis, bares, praças, numa perambulação errática, onde as confidências são rançosas. É como se “O Lado Bom da Vida”, livro e filme, fosse contado por um João Gilberto Noll ou um Juan Calos Onetti.

“Ando de um lado ao outro da minúscula estação, a mochila nas costas e a tiracolo a bolsa, com minhas roupas, que me servia de bagagem. Ignorei as fileiras de cadeiras velhas de plástico. Comprara roupas novas para me proporcionar um aspecto apresentável. Você compra dez peças diferentes de roupa, mas sente vontade de continuar usando as mesmas velhas de sempre. Uma segunda pele que, ao invés de cobrir, mantém desnudo como a não ocultar quem somos, sem trajes ou fantasias”.

Disfuncionalidade (com relação às regras da sociedade), autoimagem dilacerada (quando não se cabe no mundo), um olhar suspeitoso sobre tudo e todos, eis os ingredientes amargos, mas transformados por Vlademir Lazo num poderoso e denso romance.

gotas-no-asfalto-jonrla

31/01/2017

MARIA VALÉRIA REZENDE CONQUISTA O VASTO MUNDO

maria-valeria-rezende

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2017)

O lendário prêmio Casa de Las Américas acaba de ser atribuído ao livro OUTROS CANTOS (Alfaguara, 2016) de Maria Valéria Rezende, poucos meses depois de seu romance Quarenta Dias ganha o Jabuti, não apenas como melhor romance de 2015, como também o de livro do ano. Estas premiações prestigiosas tiraram a grande escritora santista (embora radicada na Paraíba), de um limbo em que ela era mais conhecida e premiada por sua obra infanto-juvenil – não que isso fosse demérito (eu, por exemplo, adoro O Arqueólogo do Futuro e O problema do Pato) –, contudo a força do seu universo ficcional está nos romances e contos adultos.

Assim como José Saramago, ela começou a publicar tardiamente, o que se revelou uma dádiva, pois sua obra é uma poética da experiência, marcada pela materialidade do mundo e das relações humanas, desde o seu primeiro livro publicado, Vasto Mundo (Editora Beca, 2001). Ali conhecíamos as histórias do povoado de Farinhada, um ermo sertanejo invadido pelo “vasto mundo” numa incrível sucessão de estórias. Já era maravilhoso nesta primeira versão. Em 2016, ganhou fôlego ainda maior transformado definitivamente em romance.

Mas sua primeira obra no gênero foi o extraordinário O Voo da Guará Vermelha (Objetiva, 2005), o qual contava o amor entre uma prostituta com AIDS e um peão cujas peripécias eram a base de uma relação “pedagógica”. No ano seguinte apareceu Modo de Apanhar Pássaros à Mão, coletânea onde ela (e o leitor também) se comprazia em demonstrar sua versatilidade formidável, na abordagem tanto do meio rural quanto do urbano (com predominância do espaço urbano).

Depois veio interregno de quase uma década, em que ela esteve mais engajada na área infanto-juvenil, a explosão representada por Quarenta Dias, a segunda versão de Vasto Mundo e Outros Cantos. Agora aguardo ansiosamente não só um novo romance, como também a reunião de vários contos maravilhosos, dispersos aqui e ali, numa só coletânea, principalmente “O Muro”, genial texto alegórico, que sintetiza suas escolhas de vida, e muito pertinente num momento histórico nomeado por uma figura grotesca como Donald Trump. O conto narra o descenso social da narradora, que, é uma ascensão na escala solidária e humanitária: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”.

maria-valeria-rezende-jornal

24/01/2017

Crônica de uma ruína anunciada: “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum

dois-irmaos-livro milton-hatoum

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2017)

A certa altura de DOIS IRMÃOS (2000) (a narrativa não é linear), ficamos sabendo da relutância de Halim um dos personagens principais, em ter filhos:

“Não queria três filhos; aliás, se dependesse da vontade dele, não teria nenhum. Repetiu isso várias vezes, irritado, mordendo o bico do narguilé. Podiam viver sem chateação, sem preocupação, porque um casal enamorado, sem filhos, pode resistir à penúria e a todas as adversidades. No entanto, teve de ceder ao silêncio da esposa e ao tom imperativo da frase posterior ao silêncio. Ela sabia insistir, sem estardalhaço: ‘Quer dizer que vamos passar a vida sozinhos neste casarão? Nós dois e essa indiazinha no quintal? Quanto egoísmo, Halim! ’ ”
‘Um filho é um desmancha-prazer’, dizia ele, sério.
‘Três, querido. Três filhos, nem mais nem menos’ ”.

Já pelos capítulos anteriores, o leitor descobria o “acerto” nas palavras de Halim, pois conhecera os resultados da teimosia de sua esposa Zana: a rivalidade quase fratricida entre os gêmeos, Yacobi e Omar, e a existência da sombra da única filha, Rânia. Mas a passagem citada também revela os ingredientes que fomentaram toda a tragédia posterior: a inércia quase letárgica do pai e as fantasias exacerbadas da mãe (as duas posturas equivocadas e egoístas), as quais acarretam a ruína da família.

Eu nunca fui muito fã do trabalho de Luiz Fernando Carvalho, contudo o que ele fez com o romance de Milton Hatoum é imperdoável: movido pelo seu esteticismo incontrolável, que não deixa nenhuma sendo fluir naturalmente, fazendo os intérpretes caírem na caricatura, numa gritaria há muito não vista em produções nacionais (lembram como era irritante a impostação dos atores? No cinema brasileiro, mesmo nos melhores filmes), parece que ele sonha em ser uma mistura de Glauber Rocha e Visconti. Tenho que confessar que dei várias gargalhadas no decorrer desse dramalhão.

Voltando ao sóbrio romance de Milton Hatoum, seu mistério continua sendo a figura de Yacobi: por que ele, que sofre tantas vicissitudes injustas, não conquista a empatia do leitor? O único personagem parecido com ele que me vem à mente é Michael Corleone de “O Poderoso Chefão”, mais no livro de Mario Puzo do que nos filmes; ambos começam a vida com as melhores intenções, e posteriormente se transformam em máquinas calculistas e gélidas, num desperdício de afetos realmente trágico.

 

dois-irmaos-jornal

17/01/2017

ZYGMUNT BAUMAN E A “EMANCIPAÇÃO” INDIVIDUAL

zygmunt-baumanaaaacapa_ModernidadeLiquida_21-#2A2.ai

 

(Uma versão da resenha abaixo, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2017)

E foi-se, na semana passada, o polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017). Apesar de se repetir em sua prolifica (alguns dirão, excessiva) obra, subestimado por muitos, eu o considero um pensador fundamental, principalmente por sua “Magnum opus” MODERNIDADE LÍQUIDA (ZAHAR) (2000), transcendendo em muito sua área de especialização, a sociologia, chegou à confusão do fracasso de organizar o mundo simetricamente ao conhecimento. Isso acontecia porque na modernidade a ética estava “no inverno”. Devido à sua preocupação com a eficácia, a administração da vida, a modernidade deixou recuar cada vez mais a consciência moral.

O momento em que foi publicado (na virada do milênio) também não podia ser mais oportuno. No prefácio ele afirma que “fluidez” e “liquidez” são as metáforas apropriadas para captar a natureza da presente fase da modernidade. Estamos na fase do depois do “tudo que é sólido se desmancha no ar”. A partir dessa constatação, ele analisa cinco grandes categorias afetadas por essa “liquidez”: emancipação, individualidade, tempo-espaço, trabalho comunidade.

Queremos a liberdade de fato? As pessoas podem estar satisfeitas com o que lhes cabe, mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser “objetivamente” satisfatório e o fracasso do socialismo não ajuda muito a aspirar um “objetivamente” satisfatório que seja alternativa válida para a sociedade de consumo. Fato: As pessoas gostam de padrões e rotinas. Eles nos poupam da agonia, do vácuo da escolha, no sentido mais radical da palavra: graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais fomos treinadas, sabemos como proceder na maior parte do tempo e raramente somos encontrados em (e por) situações sem sinalização. A ausência, ou a mera falta de clareza, das normas, é o pior que pode acontecer às pessoas em sua luta para dar conta dos afazeres da vida. Não seria esse o fardo, o fundo de angústia da nossa atual condição, “líquida”?

A vida líquida ainda não atingiu os extremos que a fariam sem sentido, mas a corrosão das crenças, instituições e valores já causou muito dano, e todas as futuras ferramentas da certeza, inclusive as novíssimas rotinas (que provavelmente não durarão o suficiente para se tornarem hábitos) não poderão ser mais que muletas.

Tudo agora é encontrado “dentro do indivíduo”, já que não há instituições críveis ou instâncias seguras. A liberdade concebível e possível de alcançar já foi alcançada: é o indivíduo que segue seu próprio norte (dentro do raio de ação do capitalismo global e da sociedade de consumo, bem entendido). Homens e mulheres dos países desenvolvidos são inteira e verdadeiramente livres, e assim, a agenda da libertação está praticamente esgotada. As instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual, o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta. Aliás, vivemos um tipo de sociedade que não mais reconhece qualquer alternativa para si mesma.

modernina-liquida-jornal

10/01/2017

OS “TIOZÕES” DE LUIZ ROBERTO GUEDES

luiz-roberto-guedes miss-tatto-livro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 10 de janeiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Luiz Roberto Guedes (que acostuma utilizar o pseudônimo de Paulo Flexa, pois é um artista multimídia) reuniu em MISS TATTO – UMA QUASE NOVELA (Jovens escribas), quinze textos, nos quais faz uma “poética do tiozão”, uma taxonomia que abrange desde tipos “descolados” (que circulam pela noite e modismo) até tipos introspectivos, todos eles voltados nostalgicamente para os anos 1980; inclusive muitos trechos de canções da época são citados.

“Ele soltou um suspiro, inconformado. Toda sua vida tinha sido pressionado por mulheres fortes, imperiosas, autoritárias. A mãe, as professoras, as diretoras de escola, a xerife Latorre. Será que Luísa teria se tornado assim tão rígida, se tivesse vivido o bastante?
O acordo tácito permanecia em vigência. Késia continuou frequentando sua cama e voltando para seu próprio quarto, logo que ele dormia. O marmanjo retardado não tinha batido mais em sua porta, sua mãe estava se recuperando bem, e ele desfrutava de um sossego entorpecente, mas que sabia temporário”. Essa passagem (de “Késia com K”, um dos meus favoritos do livro) faz parte da história de um professor sessentão que oferece carona e moradia para uma ninfeta, enfrentando a família, a empregada e a sindica; sua carência infelizmente não tem reciprocidade: a garota foge com um skatista (noutro registro, temos uma situação similar em “Primeiro esboço de Heloísa”, um conto simplesmente brilhante).

Não falta sequer um Mr. Kurtz chanchadesco e reichiano, em “Cibele, si belle”.

No conto-título, o narrador é chamado pelo pai milionário de uma patricinha, a qual deseja tornar-se uma nova Xuxa ou Angélica. O produtor musical veterano e a menina se envolve, mas surgem em cena Miss tatto, seduzindo o produtor, que depois terá uma surpresa com relação a suas estrelas.

É incrível a leveza da prosa de Luiz Roberto Guedes. Ele escreve como um autor policial norte-americano. Entretanto, é uma falsa leveza, ainda que o leitor ache tudo fluente, jocoso e mordaz. Deve-se prestar atenção ao uso variado do foco narrativo: além da primeira e terceira pessoa, há contos que usam a segunda: caso “A garota do Café Barão”: “Garota esperta. Trata por doutor a todo engravatado que circula neste quadrilátero do fórum. Caminhando para o escritório, você aprecia as mulheres da manhã ensolarada. Ó Deus, lá vem uma negra alta, atlética, numa calça-bailarina justíssima, azul-elétrico: o púbis glorioso ressalta das coxas exuberantes. Nigra et formosa. Rainha de Sabá coroada de trancinhas. Você volta rapidamente a cabeça para admirar a bunda suntuosa”.

É amargura no fundo do riso, é o ácido no suco da laranjeira.

miss-tatto-jornal

05/01/2017

Destaques Literários de 2016

jorge-reis-sa a-definicao-do-amor-jorge-reis-sa

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2017)

Como sempre, alerto, não dá para ler tudo e gostar de tudo. Na minha opinião, esses foram os melhores de 2016. A ordem, após o livro do ano, não é de hierarquia, e sim por sobrenomes dos autores, e peço desculpas pelos comentários genéricos:

Livro do Ano: A DEFINIÇÃO DO AMOR, Jorge Reis-Sá (Tordsilhas): surpreendente romance português, no qual um fato real que parece ficção (uma mulher mantida viva por aparelhos por causa da gravidez) ganha uma dimensão literária, sem resvalar para o dramalhão ou para sensacionalismo. É um exemplo maravilhoso de “romance com temática”, que muitos desdenham, mas eu, da minha parte, adoro, como é o caso dos romances de Lional Shriver, e de REBENTAR, de Rafael Gallo.

Também se destacaram:

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;

LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA, Michel Laub, Companhia das Letras: Excelente romance onde um dos melhores autores brasileiros da atualidade mostra o impacto de certos eventos na sua geração. A ele se aplicam as palavras de Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral”;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia das Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS, Elvira Vigna, Companhia das Letras: Mais um acachapante livro dá mais genial autora da atualidade;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

lista-dos-melhores-de-2016

27/12/2016

Destaque do Blog: “Falso Trajeto”, de Fabio Weintraub

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos em 27 de dezembro de 2016)

falso fabio

“Contraditório, e daí?/as pessoas mudam/os tempos mudam//não sou neurótico de guerra/pra ficar defendendo/territórios já anexados//o ostracismo cansa: se voltei ao mainstream/é porque estou vivo//tenho cinquenta anos/não vou posar de herói/quero que se foda/a coerência do criador/é a obra que importa//não vou bancar o mártir//o Brasil está desse jeito/por ser católico, culpado e de esquerda/vamos ser ricos, não coitados//não se se tem jabá: cala a boca/ouça a música (pessoas jurídicas não odeiam).

Há um mistério na poesia de Fabio Weintraub, que fica evidente na antologia FALSO TRAJETO (Editora Patuá): Ela parece opaca (muitos diriam: sem atrativos), misturando temas triviais, especulações metafisicas, poemas sobre partes do corpo (mãos, mão e perna), poemas sobre quedas e muitos poemas onde o “eu lírico” é quase um narrador. Há uma profusão de títulos já carregados de simbolismos, os quais parecem não ter muita relação com os versos do autor. E mais: são poemas sem imagens fortes, boas para citações, quase destituídos de figuras de linguagem.

No entanto, o leitor fica hipnotizado com cada poema, relendo e relendo, constatando o brilho profundo desse poeta ímpar.

Northrop Frye (um crítico genial) utilizava o termo sparagmós para descrever situações de despedaçamento, de fragmentação do indivíduo e sua busca de sentido e unidade. Veja-se o poema mão e perna: “tua perna adormeceu/o que ela sonha? //que salta a corda lançada/ao chão perto do patíbulo/que é cruzada sem calcinha/sobre o joelho macio/que molha a canela no sangue/antes de entrar no gesso/que despede o cachorro/atracado à panturrilha/que ajoelhada no milho/é deixada atrás da porta/que se arruína em trombose/e avacalha dois cortejos://de núpcias/de exéquias”.

Enfim, o trajeto existencial pode ser falso, errático e sujeito a acidentes, mesmo numa condição letárgica (Aliás, Fábio Weintraub é o grande lírico da letargia). Porém, o grande poeta paulista escreve certo por linhas tortas, onde o chão é o limite: “qual britadeira/bate a bengala/contra o chão/como se quisesse/vingar-se da infirmeza/dando ao pavimento/a irregularidade/em que/os demais/também/tropeçarão”.

 

falso-trajeto-jornal

20/12/2016

SUGESTÕES DE LIVROS PARA O NATAL

as-horas-livroLiturgia do Fim - Livropassos-ao-redor-do-teu-canto-livroa-utopica-teresevile-livroo-instante-quase-livroestacao-das-clinicas-livroroteiros-para-uma-vida-curta-livroa-vista-particular-livrogalveias-ed-portAmora

 

(Uma versão da resenha abaixo, foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de dezembro de 2016)

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;
LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

como-se-estivessemos-um-palimpsesto-de-putas-livro o-sol-vinha-descalco-livro

A UTÓPICA TERESEVILE, André Jorge Catalan Casagrande, Garimpo: Romance que revela um episódio histórico praticamente desconhecido;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia de Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

vespera-de-lua-foto outros cantos

VÉSPERA DE LUA, Rosângela Vieira Rocha, Penalux: Romance de 1989, pioneiro de muitas práticas da atualidade;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS em Palimpsesto de Putas, Elvira Vigna, Companhia de Letra: Simplesmente, o livro do ano, sem nenhuma chance para qualquer outro;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

sugestoes-jornal

 

 

 

13/12/2016

OS NOVOS TRUQUES DA CARTOLA DE ALEX ANDRADE

as-horas-livro alex-andrade-autor-livro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos em 13 de dezembro de 2016)

Em Amores, Truques e outras versões, Alex Andrade contava aventuras e uma procura incessante de amores baseado na quantidade e multiplicidade, ressaltando a mesma insatisfação. Gostei muito da coletânea, mas fiquei preocupado de que ele ficasse restrito ao universo homoafetivo.

AS HORAS (Penalux), então, aparece para dissipar qualquer dúvida sobre o seu talento, pois é um livro que vai em diversas direções. Lendo com atenção percebe-se uma linha contínua entre os contos: dessa vez, são casais nos quais um elemento é mais fraco e vulnerável que o outro; são homens e mulheres à espera do amado (a) chegando às raias da insanidade, da necrofilia mesmo uma velhinha quase octogenária ainda sonha em viver um grande amor: “A velha abriu a boca em xingamento e começou a chorar. E era um choro bobo, manso e inútil. Chorava feito criança. E fazia algum tempo que não chorava assim, e lembrou-se de que há muito tempo não fazia quase nada, não tinha sequer vontade de fazer alguma coisa. E percebeu que o tempo passara depressa. Mas ocorre que precisava urgentemente acreditar que poderia fazer tudo o que não pôde. E que mesmo com a idade que tinha necessitava perigosamente amar”. (“Tá vendo o dia lá fora?”).

Emblemático na coletânea é o seu texto mais longo e ambicioso “Eu não amava Rolling Stones à toa”, onde o abandono por parti da esposa espelha o da mãe do protagonista num fluxo incessante de nostalgia, alucinação, mal-estar físico e solicitações da realidade (a síndica do prédio). No momento brilhante!

Outro ponto alto é Poema, no qual a protagonista que dá o título é uma descendente legítima dá Macabea de Clarice Lispector (mas também me lembrou o mundo de José Luiz Peixoto, onde o personagem-título se chamava Livro) sem que o autor perca sua marca pessoal, e talvez tenha escrito um texto mais bonito de sua carreira até agora.

O único senão a pontar em AS HORAS são escorregadas vez em quando num tom de autoajuda ou de filosofia de botequim: por exemplo: “A velha trave testemunha de tantos gols, o grito dos meninos, Ruth cantando e arrastando a barra da saía ou do vestido, o que fosse, o menino que jamais conheceu, todas essas memórias, a solidão de ser quem jamais sonhou, o tempo, a incerteza de saber se seria infeliz ou se ainda poderia sonhar. E não há nada que se possa fazer. Eis a vida que escorre como se as comportas estivessem abertas para a água escapar. Transbordando tudo” (“Tempo”). Estivesse na primeira pessoa, seria perdoável e coerente, jamais na terceira pessoa.

Ainda assim, considero Alex Andrade um autor já plenamente maduro. Espero novos truques de sua cartola.

 

as-horas-jornal

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.