MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/09/2016

Destaque do Blog: “Roteiros para uma Vida Curta”, de Cristina Judar

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2016)

 

Há cem anos, no coração do Modernismo, Virginia Woolf revolucionava, em seus textos curtos (para não dizer, em romances como Senhora Dalloway), a percepção dos objetos, das ruas, das novidades tecnológicas. Seus protagonistas eram “eus” quase evanescentes, os quais envolvidos na introspecção, mesmo assim nos revelavam o mundo que as cercava.

Por incrível que pareça, guardadas as devidas proporções, é o que acontece nos contos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA (Editora Reformatório). Os personagens de Cristina Judar esbarram o tempo todo com as pessoas que passam pelas ruas, pelas noitadas, por objetos e fenômenos da natureza, pelos ritos cotidianos (“essa coisa de portas que abrem e fecham continuamente. que, por sua vez, dão para as ruas e projetam na sala a presença maciça do trânsito e traços de conversa vindos do cômodo ao lado até aqui, onde estou sentada, nesta casa – com mesa, cadeira, pés juntos em sapatos com fivelas, meus olhos contraídos pela luz”, lemos em Fotofobia), aparentemente alheias ao seu redor, mas nos trazendo uma poderosa sensação de realidade. Mesmo aqueles que se isolam do mundo, em seu autismo e alienação, são confrontados com as exigências de existir (“Para a fobia social, cloridrato de venlafaxina; ranitidina para o estômago fraco; para o desânimo, estrasse; gordura para o fêmur em evidência”, lemos em Ótimas em Humanas). Contudo o “eu” parece mais insubstancial, mais líquido (para seguir o pensamento de Bauman), do que os de Virginia Woolf (“Vitorino não se via refletido, confortável ou identificado, apenas paralelo de sua própria imagem em baixíssima definição. dele, não havia vapores condensados, que viriam, possivelmente, do exalar de suas narinas. na insistência, ele não parava de respirar, tomava goles imensos de ar”, lemos em Blue Train).

Insubstancialidade e hiper-realidade, uma alquimia paradoxal, e perigosa também. Todos os textos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA têm momentos brilhantes e, em geral, Cristina Judar consegue finais surpreendentes e admiráveis, quase como se fossem as “chaves de ouro” dos sonetos antigos. É preciso dizer, todavia, que às vezes a “literatice” artificiosa prepondera sobre a literatura contundente (dentro da linhagem de Julio Cortázar, aliás, homenageado num dos melhores momentos do livro Certa Diversão).

Mas como não tira o chapéu para a criadora de uma Alice pós-moderna que perambula alucinoriamente pela cidade (“O vento condensado em novelos de lã amarela. Essa era a moldura de mim que ali havia. Foi em um sopro quando caí em mim. Cair em si é um daqueles exercícios difíceis de engolir, embora necessários e suscetíveis aos bueiros destampados da cidade. Então, nesse pedaço de mundo em que tudo é variável e relativo tornaram-se gigantescos os homens das calçadas ao meu redor”), para terminar de forma deliciosamente cotidiana e irônica: “No embalo practpract dos sapatinhos de verniz, chego em casa, mamãe me aguarda. No ar, cheiro de coelho assado. O jantar está servido”?

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA é mais uma prova de que a nossa prosa de ficção, especialmente a publicada por editoras independentes, atravessa uma grande e estimulante fase.

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20/09/2016

Um romance histórico necessário para os dias de hoje: “A Utópica Teresevile”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2016)

Em pleno recrudescimento da intolerância, do preconceito, do retrocesso e da truculência, recomendo enfaticamente a leitura de A UTÓPICA TERESEVILE: baseado em fatos reais (não que isso seja uma virtude), o romance de André Jorge Catalan Casagrande narra uma experiência de socialismo utópico (sem as extravagancias de pensadores como Fourier) levada a cabo pelo médico francês Jean Maurice Fraive, com a anuência de Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, num Paraná ainda não desbravado, quase despovoado. Teresevile seria uma comunidade onde vigoraria igualdade absolutas entre raças, sexos, com todo mundo trabalhando em prol de todos, usufruindo dos lucros.

O autor insere na história da colônia a trajetória de Raimundo, escravo que ganha a liberdade, graças ao doutor Faivre. Mas, aí percebemos que nessa sociedade igualitária, nem todos são tradados igualmente, Raimundo não é aceito pelos membros de Teresevile, quase todos franceses e preconceituosos quanto à cor de pele. Ele acaba se unindo a um quilombo que se instalou na região. Pior ainda, ele tem a experiência dolorosa de constatar a intolerância de sua própria gente, a qual rejeita sua esposa, Alice, por ser branca, acarretando uma tragédia.

Apesar do estilo ser bem claro, há uma sutil polifonia narrativa que Casagrande poderia até explorar com mais ousadia e riqueza, pois o resultado é tímido, o que é perfeitamente aceitável num primeiro romance. O que me incomoda em A UTÓPICA TERESEVILE é o esquematismo dos personagens que empobrece as relações e os conflitos pessoais e ideológicos, tornando previsível o desenrolar da trama, mesmo assim enriquecida por lendas de origem africana e indígena.

Ao fim e ao cabo, é um livro – se não totalmente realizado – fecundo em ideias, temas ainda presentes, ao resgatar um fato histórico que coloca em discussão o que é realmente civilização: “Minha única exigência às dezenas de famílias que assentei em Tereza Cristina era de que usassem da mesma misericórdia que tive para com eles, com outros miseráveis quando houvesse possibilidade e recursos. A esperança de que a benevolência se alastrasse pela face da terra é que me motivava – a despeito de tudo – a lutar por uma civilização mais igualitária, onde todos pudessem ser felizes desfrutando dos frutos oriundos de seu próprio labor”.

Em tempo: o historiador Josué Corrêa Fernandes pesquisou a colônia Tereza Cristina, resultando na obra Saga da Esperança: Uma Utopia Socialista à Beira do Ivaí, publicada pela Imprensa Oficial do Estado, em 2006.

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13/09/2016

Juliana Diniz e a permanência de um instante na ausência da palavra: “O Instante-Quase”

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2016)

 

A expressão que dá título à coletânea (doze relatos com nomes de mulheres) O INSTANTE-QUASE (Editora 7Letras) já aparece no texto de abertura “Lúcia”, mas é emblematizada em “Lindalva”: uma noiva abandonada que percebe que a vida não passa, apesar da sua complexidade, de um “uni duni tê” de afetos e de escolhas (“O pai começa a recolher os restos de tecido em silêncio, sem perturbar o transe religioso da filha, atento ao olhar vidrado de Lindalva que destrói, ponto a ponto, sem dó ou indecisão, com golpes metálicos de tesoura, a lembrança tátil de um vislumbre de vida”). Por tanto, o admirável livro de estreia da cearense Juliana Diniz nos oferece um painel em que a sombra do que poderia ter sido paira sobre o que é.

Até nos estratos mais miseráveis da sociedade, ela vasculha as alternativas da existência. Um dos pontos altos de O INSTANTE-QUASE, “Perpétua”, é a história de uma mulher oriunda do sertão mais castigado pela seca que vai morar com o marido nas palafitas de Manaus, cercada pelo rio imenso e a mata (“Deu-se conta que a morte poderia acontecer de um susto, sem que aquele mundo farto de tanta vida notasse que ela deixou de existir”).

Juliana Diniz trabalha tanto com o realismo direto, quanto com o alusivo, o onírico (há um imaginário písceo explorado em “Perpétua” e em “Natália”, o qual se passa em outra classe social), o alegórico. Ou seja, ela sabe urdir “estórias” e também encontrar a linguagem lapidar para cada uma delas (só duas me passaram a sensação de fracas, mal desenvolvidas: “Gabriela” e “Marina”; em compensação temos momentos excepcionais como “Maria”, “Hilda” e “Olívia”: “Observo a janela aberta para o vazio e percebo que restamos apenas nós neste quarto estranho e sem lembranças, encastelados, quase desistentes, quase amantes, construindo a permanência de um instante na ausência da palavra”). Suas ficções curtas são tão caleidoscópicas que parecem romances encapsulados, na mesma linha de um mestre no gênero, a canadense Alice Munro (Nobel de literatura de 2013).

Um dos aspectos mais impressionantes dessa sabedoria textual numa autora tão jovem é a mistura que faz do arcaico, do recôndito, com os signos da modernidade: por exemplo, em “Lúcia” – conto no qual uma filha descobre a vida alternativa que a mãe poderia ter tido com o dono de um casarão antigo e aristocrático –; ou então em “Auxiliadora”, cuja protagonista é uma beata que se escandaliza ao descobrir que o juiz a quem serve fielmente durante décadas utiliza chats eróticos durante o expediente e encomenda viagra para seus encontros com uma fogosa amante (Auxiliadora planejará uma terrível vingança, trocando as pílulas de viagra por pílulas para pressão).

O Ceará já conta com contistas de peso, como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Raymundo Netto. Agora Juliana Diniz com sua prosa avassaladora vem mostrar aos pessimistas de plantão, sempre anunciando a morte da literatura, que a ficção está mais viva do que nunca. Nosso panorama literário encontra-se em ótimo momento e provavelmente ela será uma das suas principais figuras.

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06/09/2016

Matheus Arcaro e “o nada sem caroço”: O LADO IMÓVEL DO TEMPO

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 (A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2016)

Em seu romance de estreia, o jovem Matheus Arcaro (cujo livro de contos, Violeta Velha e Outras Flores, critiquei duramente nesta coluna pela falta de uma personalidade autoral com contornos definidos), ousa um formatado filosófico – usando sua formação na área – muito pouco praticado por aqui. Não que isso seja problema. Basta lembrar da junção entre filosofia e fabulação em A Náusea (1938), de Sartre, e de O Agressor (1943), de Rosário Fusco. Isso sem contar a ficção de tendência cristã que formou um verdadeiro subgênero da prosa, de Dostoievski a Gustavo Corção (autor de Lições do Abismo), com sua temática de culpa e expiação.

O LADO IMÓVEL DO TEMPO (publicado pela Patuá) provavelmente ficará como um romance de exceção como os de Fusco e de Corção. Ele trata da eternidade e da angustia da finitude sem significado: Salvador dos Santos aos 70 anos resolve tornar-se um assassino em série a fim de ficar para a posteridade, após uma vida caracterizada pela esposa que o abandonou (após o fracasso de suas tentativas como poeta) por uma “aura insossa”. Infelizmente, mesmo com a breve celebridade por causa de cinco assassinatos, Salvador da eternidade só sente “o nada sem caroço”, “poderia muito bem dizer que fiz o que fiz porque fui um títere nas mãos do fracasso”.

Livro singular, O LADO IMÓVEL DO TEMPO é uma ótima narrativa, chegando a momentos extraordinários como a cena em que Salvador, ainda criança, contempla-se no espelho do guarda-roupa tomando consciência da própria identidade e do seu corpo. Também é um despertar erótico, apesar do clima repressivo de sua casa (o pai é pastor religioso e despreza o filho).

Malgrado sua qualidade como narrativa e linguagem (muito trabalhada), não acho totalmente convincentes considerações filosóficas coladas à percepção de Salvador porque o personagem não tem estatura para absorvê-las e, como o autor confunde o foco narrativo (aliás, com admirável habilidade) dá uma sensação forçada várias vezes.

Esse não é, para mim, o aspecto mais problemático do romance. Minhas restrições quanto a Violeta Velha e Outras Flores residiam na linguagem afetada e decorativa, com imagens e metáforas gratuitas e sem substancia literária. O talentoso autor incide no mesmo erro, principalmente nas primeiras páginas (“Salvador ergueu o jornal a um palmo das pupilas”, por exemplo). Tenho consciência de que essa minha implicância com uma linguagem “abonitada” representa uma idiossincrasia, e que outros leitores podem se apaixonar pela obra de Arcaro justamente por esse uso da prosa. Questão de gosto.

O inegável, porém, é que o autor de O LADO IMÓVEL DO TEMPO deu um salto impressionante do primeiro para o segundo livro, obrigando-nos definitivamente a ficar de olho nele, apesar de um certo “quê” de anacrônico e obsoleto nas suas escolhas, o que faz dele o parente mais próximo do grande e esquecido Rosário Fusco em nossa literatura do século 21.

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30/08/2016

Destaque do Blog: VÉSPERA DE LUA, de Rosângela Vieira Rocha

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de agosto de 2016)

É bem oportuna a reedição, pela Penalux, de VÉSPERA DE LUA; escrito no final da década de 1980, o romance de Rosângela Vieira Rocha espantosamente antecipa uma das tendências mais fortes da ficção brasileira atual: o relato agônico feminino, no qual a protagonista encontra-se numa situação -limite, num ponto de inflexão da sua existência.

No caso de Paula, de VÉSPERA DE LUA, acompanhamo-la durante uma longa noite em que ela é atormentada por um problema recorrente: dores atrozes, pré-menstruação, além da perspectiva de um confronto definitivo com Ester, sua atual companheira. De forma não-linear, seguimos sua formação dentro do universo homoafetivo; iniciada pela mãe de uma amiga, depois apaixona-se por uma mulher casada que quer dividir suas amantes com o marido; agora ela sente o esgotamento da relação com Ester, de quem nos passa uma imagem de controladora e limitada intelectualmente, interessada apenas no corpo e na saúde (é professora de ginástica), vista de forma irônica e relutante por Paula.

O que aproxima da VÉSPERA DE LUA dos recentes romances de Elvira Vigna (Por Escrito), de Maria Valéria Rezende (Quarenta Dias), de Débora Ferraz (Enquanto Deus não está Olhando), de Roberto Menezes (Julho é um bom mês para morrer), é fato de que na trajetória da heroína, em pleno impasse, insinua-se uma alegoria do processo social brasileiro: por um lado, mentalidade retrógada, discriminatória, patrimonialista  e patriarcal, a qual agoniza, mas morta-viva ainda insisti em mostrar suas garras; do outro, novos comportamentos sociais trazendo comportamentos marcados pela diversidade e transgressão, para o bem e para o mal. É incrível que Rosângela Vieira Rocha tenha intuído temas e forma narrativa que hoje dominam nossa prosa. Se o romance poderia ter sido escrito em 2016.

Apesar de achar que ela resvala para um certo didatismo e tom explicativo, em alguns capítulos, encantou-me um procedimento que é bem raro por aqui e que tem como mestre Franz Kafka: a falsa terceira pessoa, disfarçando o relato em primeira pessoa; se o leitor reparar com atenção, toda a narrativa é permeada pela não-confiabilidade. Não sabemos se Paula é vítima de círculos amorosos viciados, ou se ela é artífice do seu emparedamento existencial (que ela chama de “enjuança”, um desgosto com a insuficiência dos afetos e das experiências, mais radical que o tédio). Como as heroínas dos romances acima citados, ela está com o pé nas forças retrógadas, porém não sabemos se será capaz de firmar o outro no Brasil mais libertário que vem se desenhando a trancos e barrancos:

“Depois da tentativa de suicídio, a família parou de fazer vista grossa à sua homossexualidade.
A trégua havia terminado.
Ministraram-lhe todos os cuidados que se ministram aos doentes portadores de doenças graves.
Teria sido mesmo assim? A lembrança daqueles meses é ambígua. Completa-a com a imaginação, construindo uma versão que, se não verdadeira, possui a vantagem de ser a sua. O conjunto, por assim dizer, não o reconstrói nitidamente”.

Nunca um título foi tão exato (além de belo). Estávamos na véspera da contemporaneidade literária e emancipatória do nosso país. Oxalá não retrocedamos.

Véspera de Lua - Jornal

23/08/2016

PÁSSAROS DE PERDIÇÃO: “Liturgia do Fim”, de Marilia Arnaud

Liturgia do Fim - Livro Marilia Arnaud

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2016)

 

Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possí- vel, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais –, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações…

…que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

(Franz Kafka, Carta ao Pai)

 

Há um detalhe emblemático em LITURGIA DO FIM: em sua volta à fazenda natal, após trinta anos de afastamento (fora expulso), o protagonista Inácio rememora um presente do casamento dos pais, um conjunto de louça com motivo de pássaros, que o pai, homem brutal e tirânico, quebrará em mil cacos, guardados cuidadosamente pela mãe. É uma analogia com o íntimo do próprio Inácio, no reencontro com o pai, o outro único sobrevivente na numerosa família Boaventura: “Meu estômago escoiceava numa náusea de mil cacos de vidro”.

Nem construindo uma vida urbana, Inácio escapou de Perdição, o seu lugar de origem, e das estruturas elementares do parentesco: “Não compreenderei se lhe dissesse que durante todos os anos em que estive ao lado de Ieda e Isabel experimentei com frequência a sensação de que a vida, a vida real, a minha vida estava em outro lugar, como se ali, ao lado delas, eu fosse apenas um personagem investido de determinado papel, de certo modo conveniente, que me tinha sido oferecido sei lá por quem, porque eu não me lembrava de tê-lo escolhido, eu simplesmente aprendera as falas com relativa facilidade e, ao longo das temporadas, fora se tornando cada vez mais sofrível, até as falas e os atos restarem impraticáveis, até eu ter de me tirar de cena”.

Como uma ginasta que não comete erros, Marilia Arnaud, arma suas piruetas e saltos mortais em torno de uma coreografia de metáforas que vão se espiralando sem vacilo; muito pelo contrário, o leitor fica com a respiração suspensa entre a densidade do narrado e a linguagem grave e austera, contudo lindíssima, a qual só em conta paralelo em Francisco J. C. Dantas, autor da obra-prima, “Coivara da Memória”.

Já ouvi muitas vezes – e sempre achei uma bobagem – que é mais fácil um escritor masculino usar uma voz narrativa feminina, do que uma mulher fazer o contrário. Poderia citar diversos exemplos que contestariam esse preconceito.            Mas a leitura de LITURGIA DO FIM, basta.

Seu romance anterior, “Suíte de silêncios”, já revelava um enorme talento para a ginástica com as palavras e sua estreita relação com a dor de existir; porém, às vezes se deixava levar pelos estereótipos da famígerada “escrita feminina”.

Com LITURGIA DO FIM, na contracorrente de Inácio Boaventura, ela se libertou de todas as gaiolas. No panorama literário de 2016, merece incontestavelmente a medalha de ouro.

 

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TRECHO SELECIONADO:

“A camisa colocava-se ao meu corpo. Detive-me sob jabuticabeira para me secar um pouco, beber água e fumar um cigarro. As bolinhas pretas que recobriam o tronco e os galhos assemelhavam-se a um monstruoso enxame. Na trama negra do solo, insetos apascentavam-se de frutos maduros. A fumaça do cigarro não tornava menos fulgurantes as coisas ao meu redor. Um sabiá, de minhoca de bico, esvoaçava de um galho a outro, inquieto com a minha presença, os filhotes num pipilar aflito, resguardados no ninho algum lugar acima da minha cabeça. Metido entre a vegetação rasteira, um camaleão de pele verde mantinha um olho em minha direção, outro fixo na presa, um besouro de casco luzidio. Por toda parte abriam-se os cálices das onze-horas, e, num pedaço de chão, as delicadas nuvens desenhavam um céu de pétalas.

Fora de mim, vibrava em toda a plenitude um universo sólido, claro, reconhecível, do céu à terra a vastidão de um reino de beleza a resplandecer contra minha dor, mais insuficiente para remediá-la.

Num dos trechos mais íngremes da subida, em que a picada serpenteia entre um córrego e uma pedreira abandonada, a fachada da casa branquejou e um gavião enterrou-me o bico do peito, a mesma estocada de quando me virei para olhá-la naquela manhã que julguei ser a última em Perdição.

Depois de haver sido escorraçado por papai, estivera alguns dias escondido no grupo escolar abandonado, ideia de mamãe, que me levava comida e me pedia paciência e serenidade, pois logo, logo tudo iria se resolver da melhor forma. Eu não percebia como as coisas poderiam se arrumar com Joaquim Boaventura ofendido em sua honra de pai, desbancado em sua imagem de homem intocável e, além do mais, já me fazendo distante de Perdição.

Trancafiado dia e noite no quadrado de paredes emboloradas, ouvindo a suindara rasgar com seu grito a mortalha da noite, tão assustado quanto os ratos que cruzavam o chão de esteira onde eu dormia, debatia-me, como o autor de um crime indefensável, entre o desejo de morrer e o de me entregar. Qual a atitude menos indigna? De qualquer forma, estaria morto, porque se um pai, de quem um filho herda a vida, diz-lhe estás morto, não há por que duvidar, nem de quem se valer, sentença de condenação irrecorrível”.

Liturgia do Fim - Jornal

16/08/2016

Eça à beça: comentário sobre “Alves & Cia.”

Eça de Queiroz Alves & Cia

“Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira, no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se por mil interesses comuns, com a ideia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre sofá. Mas por fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos”.
 

(Uma versão da resenha abaixado, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de agora de 2016)

 

Em muito boa hora, a Grua incluiu em sua coleção “A arte da novela” um dos sextos de Eça de Queiroz, um dos autores geniais tanto em romances longos (caso de Os Maias) quanto no formato ficcional mais breve (caso de O Mandarim): ALVES & CIA, só publicado na década de 1920 e restaurado integralmente décadas depois.

O protagonista, Godofredo, surpreende a esposa, Ludovina, em flagrante adultério com seu sócio, dez anos mais jovem e bonitão. Despacha a esposa para a casa do pai (embora mantenha as aparências para sociedade) e tenta de todas as maneiras – incluindo o duelo – uma reparação por parte do sócio. No final, o episódio adultero vai sendo desconstruído até se diluir. É o retorno à “regularidade das coisas” (isso é, à bêtise, a estupidez que rege o cotidiano, como aprendemos com Flaubrt) tão prezada por Godofredo, malgrado seu temperamento vagamente romanesco: “… gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel…”.

ALVES & CIA é uma daquelas obras que, em ponto pequeno, sintetiza toda a produção de um autor. No caso de Eça, a sátira ácida ao provincianismo da sociedade portuguesa, a hipocrisia das instituições, o vazio de noções cristalizadas como a da “honra”, a tragédia que se dissolve na mediocridade (tema da sua maior realização, Os Maias); não falta nem o poder doméstico alcançado pela criadagem (como em O primo Basílio), por conta da convivência, quando não conivência, com pecadilhos dos patrões: Godofredo é obrigado a tolerar o desleixo da criada e da cozinheira para que elas não espalhem pela vizinhança o fim do seu casamento. Lendo suas 120 páginas, temos uma perfeita compreensão da passagem do Romantismo para o realismo.

Eu particularmente admiro os romances da fase final de Eça, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, os quais considero profundos e brilhantes, contra a opinião generalizada de que são uma capitulação ao conformismo; não há, como negar, contudo, o fascínio de sua fase mais provocativa e cruel, da qual muitos manuscritos vieram a lume postumamente, muitas vezes com mutilações, felizmente corregidas em edições recentes.

De qualquer modo, meu conselho é este: ler o grande autor português, seja em formato volumoso, seja          em formato curto, uma vez ao ano. Eça à beça.

 

ALves & Cia. Jornal

 

 

10/08/2016

Destaque do Blog: “Amora”, de Natalia Borges Polesso

Natalia Polesso

Amora

 

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quatro quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão.”

(Trecho de “Flor, flores, ferro retorcido”)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos dia 09 de agosto de 2016)

À primeira vista, os 33 textos de AMORA (Não Editora) têm seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não por acaso, justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica” satirizando o gueto dessas mulheres, um “mundinho” com seus redutos e intrigas.

Mas, para mim, o inesperado encanto do livro é, nos seus melhores momentos, a habilidade técnica que demonstra ter Natalia Borges Polesso aprendido com os grandes contistas. Assim como Lygia Fagundes Teles, ela é capaz de nos dar todo um histórico familiar, a partir de uma embaraçosa pergunta durante uma refeição (“Vó, a senhora é lésbica?”; aliás um dos três pontos altos de AMORA; os outros dois são “Flor, flores, ferro retorcido” e o pungente “Marília acorda”: “Marília é medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu não vou suportar ficar sozinha, nem ela. Eu pensei em cuidar disso eu mesma. Pensei em fazer com calma, pensei em deitar com Marília, de meias, e no chá misturar uma dose que nos tranquilize e, com sorte, não acordaremos. Pensei só, mas não tenho coragem. Então eu rezo. Eu rezo para que sejamos juntas tão juntas como sempre fomos, agora e na hora da morte”).

Não chega a ser um enfraquecimento do conjunto (pois não faltam contos excelentes em AMORA), contudo Natalia Borges Polesso padece de um defeito comum à ficção contemporânea: o leitor tem a impressão de que o autor quer colocar no livro todo o conteúdo de suas gavetas, quando uma seleção mais rigorosa se faria necessária e daria mais força à coletânea.

Em todo caso, tira-se o chapéu para uma contista capaz de fazer uma personagem apaixonada ter a percepção realista e desencantadora do futuro da relação, como na seguinte passagem de “Como te extraño Clara”:

“Na terça-feira, antes de chegar ao curso de espanhol, Gentil pergunta alguma coisa sobre Fernanda. Ela vai responder que Fernanda está bem e logo, logo voltará à ativa, e o homem dirá que sente muito pela mãe de Clara, que é uma mulher muito boa e trabalhadora. Clara não entenderá, pois sabe que o homem não conhece sua mãe e também porque há nada de errado com ela e depois de cinco passos se dará conta de que ele fala de Fernanda. Então Clara vai pensar pela primeira vez na idade de Fernanda e num cálculo simples verá que a hipótese do homem não é descabida…”

Alguém ainda acha que AMORA é um livro sobre homoafetividade?

Amora - Jornal

 

16/06/2016

Destaque do Blog: SOMBRAS DA ROMÃZEIRA, de Tariq Ali

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de junho de 2016)

“Muita gente — geralmente, pessoas que têm medo de multidão — diz que qualquer ajuntamento com mais de uma dúzia de pessoas é presa fácil para demagogos capazes de atear fogo na plateia e insuflar qualquer ação insensata. Essa afirmação ignora as causas subliminares que fizeram tantas pessoas se reunirem, por razões diferentes. Todas as rivalidades, políticas e comerciais, foram esquecidas; todas as vinganças tinham sido anuladas; houve uma trégua entre as facções religiosas em luta dentro do islamismo em Al-Andaluz; a congregação estava unida contra os invasores cristãos. O que tinha começado como um gesto de solidariedade ao direito de uma viúva proteger os filhos tinha se transformado em uma pequena insurreição.”

O trecho acima (que cito na tradução de Beatriz Horta) pode ser encontrado no capítulo onze de Sombras da romãzeira (“Shadows of pomegranate tree”, 1992), o primeiro volume publicado do Quinteto Islâmico de Tariq Ali, e marca um momento “positivo” (embora efêmero) no terrível quadro histórico evocado pelo autor paquistanês: em 1500, os muçulmanos da Espanha sofreram uma perseguição muito próxima do genocídio.

A ação se concentra em Granada (ou Garnata, na terminologia árabe) e na propriedade senhorial (e as aldeias em torno) de al-Hudail, do clã de protagonistas do romance, os Banu-Hudail. Até a altura do capítulo onze, o jovem Zuair bin Omar está indeciso quanto ao rumo a tomar em sua vida, malgrado tenha deixado a casa paterna para lutar contra a opressão cristã e a exigência de conversão em massa, a abdicação de todos os costumes islâmicos (em desacordo com o tratado firmado quando da Reconquista pelos espanhóis de Granada).

Movido por uma firme porém anacrônica ética de cavalaria (que alimentou sua educação), é nesse momento de crise que ele desponta como um líder, ao discursar impulsivamente para a multidão que se revoltara contra a arbitrária prisão dos dois filhos de uma viúva, erguendo barricadas e preparando-se para um confronto aberto. Líder de uma causa perdida, parece líquido e certo. A retaliação espanhola é atroz e radical.

Mas já não são um destino e um caráter indefinidos: Zuair cresce aos olhos do leitor. Também o fato de que a sublevação não tenha resultado em nada bom para os “mouros” de Granada (e as trágicas consequências para os Banu-Hudail, justamente pela definição do destino e do caráter de Zuair, constituem a dolorosa parte final da narrativa) não inclina ao pessimismo quanto às manifestações populares (e provavelmente é uma bagagem de entusiasmo não-perdido que o escritor trouxe dos eventos dos anos 1960, entre eles o mítico maio de 1968[1]), cuja dinâmica ele sutilmente destrincha em poucas páginas, os longos anos de inércia, e então um evento aparentemente banal catalisa e faz eclodir a insatisfação generalizada, com surtos de truculência.

Contudo, como disse, a causa está perdida. A cultura islâmica será reprimida e esmagada na Espanha que se faz cada vez mais palco da Inquisição (e essa propensão das autoridades católicas é representada em Sombras da romãzeira pelo sinistro Ximenes de Cisneros, com o aval de Isabel e Francisco; de fato, o relato se inicia com o arcebispo ordenando um auto-de-fé com livros escritos em árabe), e os próprios muçulmanos têm sua culpa no processo, presos a um passado glorioso, ao conformismo ou a posturas tão anacrônicas quanto a ética de cavalaria que embasou a educação de Zuair (e de que pouca valia terá para a sobrevivência dos seus familiares, a não ser uma morte “honrada”).

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A estratégia narrativa de Tariq Ali faz com que o leitor evoque eventos como a Shoah da Segunda Guerra (o progressivo espoliamento de direitos civis, as restrições, e enfim uma “solução final”, genocida), e a Igreja Católica espanhola se define como estrategista de um pogrom monstruoso e deliberado, mancomunada com um casal real ganancioso e inescrupuloso. Carregando as tintas nesse sentido, ele inverte os termos da equação geralmente apresentada a leitores ou espectadores ocidentais: a barbárie pertence à nossa banda e não ocorre em terras longínquas, em guerras distantes, é no próprio território da “civilização”.

Complementando essa perspectiva do avesso (inclusive por propor uma vitimização paralela do povo muçulmano assimilado ao território europeu, tanto quanto a sofrida — e muito mais “badalada”, cantada em prosa e verso — pelos judeus), o mais surpreendente em Sombras da Romãzeira é que, para pessoas como os membros do clã Banu-Hudail, a Europa é o seu lar, e para os seus antepassados funcionou como o “Novo Mundo”. Um aspecto pouquíssimo explorado pela ficção, e que a meu ver é que representa o diferencial do romance de Ali, já que não seria o uso de uma história familiar, em cujas intrigas particulares, vão se imiscuindo os dramáticos e apocalípticos eventos gerais (afinal, já a minissérie Holocausto usava o mesmo mote: uma família-exemplo).

Habitantes da Europa há séculos, mas nunca “europeus” (e orgulhosos disso, com sua civilização poderosa—mas só superficialmente coesa), eles não se dão conta da voragem que os vitimará, e ao longo do romance ouvimos frases que são variações de uma bela frase dita pelo sábio e já idoso Al-Zindiq (cuja existência está atrelada por vários incidentes aos Banu-Hudail, entre eles seu romance proibido com uma das mulheres do clã, Zara): “Nosso futuro foi nosso passado” (por isso Zuair não sabe como agir e que rumo seguir, a princípio, ofuscado quixotescamente pelos princípios de cavalaria).

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[1] Cf. Street Fighting Years: an Autobiography of the Sixties (2005), aqui traduzido como O poder das barricadas (2008) por Beatriz Medina.

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09/06/2016

ENTRE SHAKESPEARE E O NOTICÍARIO POLICIAL

 

Nikolai

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk

(A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em sete de junho de 2016)

Desde a sua morte, há 400 anos, Shakespeare e suas personagens geraram inumeráveis versões e releituras. Uma das mais interessantes completou um século e meio: em 1865, o ainda jovem Nikolai Leskov com Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk.

No primeiro parágrafo o narrador explicita sua “aclimatação”: “De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáiolova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”.

A analogia com Lady Macbeth não é estritamente exata: como todos sabem, a personagem da peça instiga, espicaça o marido a fim de que ele cometa os crimes necessários para chegar ao poder. Veja-se um exemplo, a seguinte fala da personagem de Shakespeare num colóquio exasperado entre o casal Macbeth: “(…). Desde já me ponho/A duvidar de teu amor. Tens medo/De ser na ação e no valor o mesmo/Que és no desejo? Queres ter aquilo/Que estimas como o ornato da existência/E te mostras em tua mesma estima/Um covarde, dizendo “Não me atrevo”/Depois de “Quero”, como o pobre gato/Do provérbio, que quer comer o peixe/Mas sem sujar as patas? ”

Moça pobre, de temperamento impetuoso, Catierina Lvovna conformou-se em casar com um comerciante bem mais velho, e vive por cinco anos na grande propriedade do sogro um cotidiano de isolamento e tédio, até que numa ausência prolongada do marido, ela se envolve com um dos empregados, o mulherengo sedutor Serguiêi, e o torna seu amante. A paixão por Serguiêi desperta Catierina em todos os sentidos: “… deu plena expansão a seu gênio. Agora se mostrava uma mulher de pulso… enchia-se de altivez, determinando tudo pela casa afora, e sem deixar Serguiêi arredar pé de perto de si”. Para isso, ela tem de primeiramente liquidar o sogro, e o faz, envenenando-o. Mais tarde, eliminará o marido (uma cena impressionante e brutal), que volta de inopino.

Em tudo e por tudo, parece ser ela a ditar as regras, a derrubar os limites. Não é bem assim: do mesmo modo como se larga à modorra do clima e à languidez, ao bochorno do seu idílio adúltero, ela deixa que o aparentemente bonachão (embora cúmplice dos seus crimes) Serguiêi a induza, é um processo totalmente inverso ao que observamos no casal Macbeth e muito mais afim aos processos psicológicos observáveis em “Madame Bovary”, em que a fantasia pessoal tem sua parte nas transgressões de Emma, mas pesa muito mais o cálculo dos seus amantes e “cúmplices”, que se valem dessa mesma fantasia para manipulá-la e usufruir do que tem a oferecer. Serguiêi é que se revela o calculista-mor do enredo (sua amante sendo movida pela passionalidade). Isso fica claro quando, após o assassinato do marido (e o sumiço de seu corpo), aparece outro postulante à herança.

Por tais vias insidiosas, ele a instiga, espicaça a eliminar o pequeno Fiódor (numa outra cena extraordinária). Vai ser a desgraça do casal criminoso. Serão pegos em flagrante, julgados e condenados à Sibéria, aos trabalhos forçados, o que levará Lady Macbeth do distrito de Mtzensk a outro patamar, narrativo e psicológico. Poucas páginas finais são tão intensas e cruéis (e tão econômicas em seus efeitos): inverte-se a dinâmica do casal (ou melhor, ela se explicita tal como é, de fato) e vemos toda a impetuosidade de Catierina Lvovna (o Ilvovna que lhe dirige Serguiêi é marca do inculto, como nos esclarece o tradutor) degradar-se (em paralelo à sua degradação social) numa sofrida paixão de sujeição e humilhação. Haverá ainda um último ato em que ela reencontrará o seu “gênio” e tomará mais uma atitude extrema e irresignada: um lado Medeia bem mais forte do que o lado Lady Macbeth inscrito nesse temperamento. Assim, a tragédia elizabetana, a vida em ramerrão e a dimensão em que suas monstruosidades podem ser filtradas — como “exemplo”— no mundo pós-Revolução Industrial e da página policial, que galvaniza as atenções da sociedade, capitaneando a deterioração da narrativa no mundo da informação triunfante.

Lady Macbeth - Jornal

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