MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/01/2018

A MORTE DE CARLOS HEITOR CONY

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de janeiro de 2018)

Sempre digo que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Mesmo assim, com a morte de Carlos Heitor Cony, fiquei perplexo ao constatar quão pouco li de sua obra, apenas dois livros: “ROMANCE SEM PALAVRAS” e “Matéria de memória”.

Acho genial o título “ROMANCE SEM PALAVRAS”. Queria saber como ele solucionou o paradoxo. O narrador relata a estória aparente, ligada à ditadura: ele dividiu a cela com um padre, Jorge Marcos, barbaramente torturado. Com a ajuda de Iracema, sua grande paixão consegue libertá-lo. Jorge Marcos desiste de seus votos religiosos e casa com a Iracema. Beto, o narrador, acompanha ao longo dos anos o aburguesamento do casal.

Mas há sempre a sombra do triângulo amoroso, pois Iracema é sempre esquiva, além de ambiciosa, Jorge Marcos se aproxima novamente da religião: “Iracema foi promovida. Diziam que fora rebaixada para cima, perdera fatias de poder na empresa mas fora compensada com um cargo mais alto e de melhor remuneração. Quando soube disso, desconfiei que ela própria manobrara no sentido de obter essa queda para cima”. Mais adiante: “—E o seu romance? Falta muito para terminar? – Não vou terminar nunca. Falta muita coisa para acontecer na minha vida… coisas sem palavras…”.

ROMANCE SEM PALAVRAS” se torna digno de Machado de Assis e Nabokov: “Foi uma visita apressada, nem tive tempo de avisá-la. Bati em seu apartamento, em Higienópolis, um prédio dos mais antigos do bairro. Ela veio abrir, ficou espantada quando me viu. Falou meu nome nem alto: — Beto! Que surpresa! Ouvi um barulho na sala ao lado, de alguém que se retirava às pressas. Enquanto beijava Iracema no rosto, vi o vulto desaparecer”.

De quem é o vulto? Aqui permanece o mistério tanto quanto o de eu ter lido tão pouco Carlos Heitor Cony.

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09/01/2018

LEITURAS MARCANTES DE 2017: PARTE DOIS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 09 de janeiro de 2017)

A literatura brasileira atual vai muito bem, obrigado. Veja por que:

Modos inacabados de morrer”, André Timm, Editora Oito e Meio: apesar de algumas ressalvas, um romance talentoso. Sobre um protagonista que sofre de narcolepsia.

A oração do carrasco”, Itamar Vieira Junior, Editora Mondrongo: contos cheios de momentos impactantes.

Miss Tatto”, Luiz Roberto Guedes, Editora Jovens Escribas: as aventuras e desventuras dos “tiozões”.

A Jaca do cemitério é mais doce”, Manoel Herzog, Editora Alfaguara: ainda são poderosas a pena da galhofa e a tinta da melancolia, como nos ensinava Machado de Assis.

Outros Cantos”, Maria Valéria Rezende, Editora Alfaguara: a obra-prima da grande escritora (prêmio Casa de Las Américas, prêmio São Paulo de Literatura e Jabuti).

Naufragar jamais”, Pedro Alberto Ribeiro (poeta em queda), Editora 11Editora: em cadernos soltos poemas de grande força.

Diário da Cadeia com trechos da obra inédita impeachment”: Eduardo Cunha (pseudônimo), Ricardo Lísias, Editora Record: o poder absoluto da ficção.

Machado”, Silvano Santiago, Editora Companhia das Letras: um romance que eu gostaria de ter escrito, um mosaico em torno dos anos de viuvez de Machado de Assis (prêmio Jabuti e prêmio Oceanos).

O passado é lugar estrangeiro”, Suelen Carvalho, Editora Patuá: uma estreante com voz própria.

Insolitudes”, Tiago Feijó. Editora 7Letras: contos humanos e irretocáveis.

Gotas no Asfalto”, Vlademir Lazo, Editora Penalux: expectativas frustrantes gerando boa literatura.

 

02/01/2018

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de janeiro de 2018)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “As três mortes de Che Guevara”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Uma fuga perfeita é quase sem volta”, de Marcia Tiburi, editora Record: finalmente, a autora gaúcha acertou plenamente no romance, mostrando o retrocesso da ordem mundial.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

 

26/12/2017

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de dezembro de 2017)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “AS TRÊS MORTES DE CHE GUEVARA”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

19/12/2017

Destaque do Blog: “Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de dezembro de 2017)

Esta resenha vai desagradar quem defende a diminuição da maioridade penal e costuma dizer “e aí vem os direitos humanos”. Os protagonistas e narradores de “EM CONFLITO COM A LEI”, de Lucas Verzola, são menores infratores que roubam, traficam, estupram, assassinam, internos da Fundação Casa ou estão em liberdade assistida ou cumprem medidas socioeducativas.

Esse amplo leque é arrasador, pois como exigir civilidade de quem nunca foi tratado como um cidadão e não tem ferramentas mentais para entender a barbárie na qual estão mergulhados: “O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã. Só tem conselheira tutelas. As meninas sem pai sem mãe sem tio sem tia. Pelo menos uma tem a outra de irmã. As meninas no computador da sala mexendo na internet facebook globo yahoo. O menino olha e grita minha vez minha vez. As meninas falam gordo fedido sem mãe retardado. O menino pega a antena e cutuca as meninas. As meninas falam baixinho filha da puta preto vou contar pra tia que você passou a mão em mim. O menino é mentira é mentira. E bate com a antena. E elas choram. E ele chora. E a tia chega. Ele é tarado falou que ia colocar o pau na minha xoxota. É mentira é mentira eu só quero o computador não sou fedido não sou gordo. Menino, isso é coisa de polícia, isso é coisa de promotor, isso é coisa de juiz. O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã com polícia com promotor com juiz. O menino sem”.

O grande feito de Lucas Verzola é mostrar como, acuados entre a aversão da população, a linguagem jurídica incompreensível e as medidas hipócritas, eles, com um vocabulário mínimo elaboram um raciocínio repetitivo curto circuitado, mas sempre expressivo: “Tanto que eu estava tomando conta de um vasinho e pensando no mundão quando os policiais chegaram gritando perdeu perdeu, me obrigando a assumir B.O. de tráfico e a confessar que meu barraco era biqueira, se não apanhava mais e mais, apesar de dor física alguma ser maior que a ilusão de ver tua casa estraçalhada. E, daqui da Fundação, o que eu mais tenho curiosidade é de saber se a minha ausência já se fez tão grande quanto a do Gerson e se ainda chamam meu cantinho de barrado do Wesley, ou se não terei lugar algum pra retornar quando eu sair daqui”.

“EM CONFLITO COM A LEI” deveria ser leitura obrigatória para “coxinhas” e defensores da meritocracia.

12/12/2017

Zonas de Conflito: “Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de dezembro de 2017)

Como todos sabem, os ratos (para vergonha da humanidade) são as cobaias por excelência. O protagonista de “SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é chamado de Rato. Ele é demitido da agência que presta “serviços humanitários” em zonas de conflitos (na verdade, ele já estava “queimado”). Aceita uma missão absurda e quase suicida, pagar a terroristas o resgate de um refém desconhecido, indo para uma cidade em escombros, onde cada quarteirão é dominado por facções, embora a situação política e as coligações mudem a todo momento. Após um atentado, perguntamos: terá a cobaia caído numa armadilha?

O livro de Bernardo Carvalho muda então drasticamente. Misturando várias instâncias temporais, veremos Rato apaixonado pelo mexicano Chihuahua, que o manipula. Discípulo do grande pensador da violência e da inveja, René Girard, faz do Rato uma cobaia de experimentos afetivos, passionais e sexuais, um verdadeiro bode expiatório.

Mas estamos no universo de um mestre da insubstancialidade e das narrativas tortuosas (e repletas de digressões, como a transformação semântico-social de expressões como “perdeu, perdeu”). Mesmo em terceira pessoa, como acreditar que tudo é verdade?

“E ele chorou ainda mais forte, ouvindo aquele oratório de inspiração cristã, destruído pelo entendimento de que estivesse condenado à inveja e à luxúria, e que inveja e luxuria nada mais eram do que solidariedade e compaixão cósmicas reduzidas a pecado pela miséria do lugar onde agora ele se encontrava. Chorava de vergonha. Não tinha coragem de olhar para os lados. O que ele perdera não fora só o chihuahua, mas uma ideia de mundo e uma ilusão. Sem o chihuahua, agora ele sabia, não havia mais ligação cósmica possível, ele estava condenado a pecar”.

“SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é o melhor romance de Bernardo Carvalho desde “Nove Noites”, sua obra prima.

05/12/2017

OS SETENTA E CINCO ANOS DE MARIA VALÉRIA REZENDE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originamente em A TRIBUNA de Santos em 05 de dezembro de 2017)

Prestes a completar 75 anos (em oito de dezembro), a santista, paraibana, vastomundense Maria Valéria Rezende, recebeu o mais polpudo prêmio brasileiro, o São Paulo de Literatura. Talvez agora as pessoas se apercebam que ela é o nosso José Saramago. Ambos começaram tardiamente, contudo na plenitude de seus recursos de linguagem.

Já no seu primeiro e emblemático livro, “Vasto Mundo”, ela apresentava um universo completo, o mundo rural de Farinhada. Recentemente, ela unificou esse mar de estórias num romance na linhagem de “O Povoado”, de William Faulkner.

Seu segundo livro “O Voou da Guara Vermelha”, reafirma a necessidade de narrar o vivido para lhe dar um sentido e traz o tema atualíssimo do trabalho escravo. “Um corpo de homem aguenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outras coisas, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança”. Um decreto indecente tornou mais verdadeira e contundente esta frase.

Logo a seguir veio a coletânea “Modos de Apanhar Pássaros a Mão”, com temática mais urbana e técnicas diversas. Tinha até um vampiro que se apaixonava por nossas churrascarias.

Porém, durante uma década ela mergulhou na literatura infanto-juvenil, fora as traduções. Sua produção nessa área é excelente, mas eu temia que sua obra adulta caísse no esquecimento então apareceu o avassalador “Quarenta Dias”, tratando das pessoas “invisíveis” das grandes cidades. Ganhou o Prêmio Jabuti de romance e livro do ano. E com sua obra-prima “Outros Cantos”, sua produção adulta firmou-se de vez.

Um ponto que une Maria Valéria e Saramago é que eles nos reconectam à humanidade, ao que deveríamos ser. Por essa razão considero o conto “O Muro” (premonitório se pensarmos em Donald Trump) a chave de sua obra, uma mulher que escolhe o descenso social e a ascensão espiritual, isto é, fraternal: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”.

 

28/11/2017

Destaque do Blog: “Febre de Enxofre”, Bruno Ribeiro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de novembro de 2017)

Tinha jurado para mim mesmo nunca mais ler uma narrativa sobre um escritor em conflito com o mundo ou com bloqueio criativo, mas não contava com Bruno Ribeiro, o príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante: “Decido ir ao lançamento, teria conhecidos e precisava de uma massagem de ego. Velhos broxas e velhas de buceta seca adoram elogiar meu livro, falar dos prêmios, do glamour, da minha roupa e voz de barítono, cabelo renascentista; risadas de dentadura, jovens virgens e amantes da alta literatura me cumprimentando, amigos – não tão amigos, pois são escritores”, eis um trecho quase inofensivo no jorro atropelador de “FEBRE DE ENXOFRE”.

Yuri Quirino é um poeta que se sente asfixiado pela rotina de Campina Grande. Tenta até um patético suicídio, pulando do terceiro andar e está “queimado” na cidade por dar aulas de poesia a travestis. Então aparece Manuel di Paula, o qual lhe faz uma proposta, ir a Buenos Aires escrever sua biografia.

Esse convite tem algo de pacto diabólico, aliás enseja uma das cenas mais bizarras do romance, quando Manuel tira a arcada dentária e coloca na mão de Yuri Quirino, que a partir daí começa a sentir em si um cheiro fétido.

“Vocês têm o que, mas não tem o como. Mas ter o que é mais importante do que o como. O que há de estudantes de literatura preenchidos pelo como não há como contabilizar, são bilhões, trilhões, e nenhum deles tem o que, o que, o que, o que vou contar? Nada”.

Para escapar desse círculo “infernal”, ele viaja para Buenos Aires, que mais parece um show de Alice Cooper, enquanto acompanhamos a alucinante e infame biografia de Manuel di Paula, um dos pontos altos da nossa ficção atual.

Em tempo: Bruno Ribeiro escreveu a brilhante coletânea “Arranhando Paredes”, onde há a mesma fusão de divertimento e perversidade corrosiva.

 

21/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (SEGUNDA PARTE)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 21 de novembro de 2017)

“Fica um sabor de ausência – que tantas vezes eu senti na vida – resultado da atitude daquela tartaruguinha sonhadora, que só quer fazer o que não é possível”. Na semana passada, iniciei um comentário sobre “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM”, de Decio Zylbersztajn. O trecho citado é de “Não existe mulher como Giulietta”.

Eu o escolhi por representar o grande tema da maioria dos contos: a frustração. É o caso das vidas do microcosmo retratado em “Pletzale” (“A fechadura e a porta são as mesmas desde a minha infância. Só que hoje eu não vou ter tempo para fazer este reparo – pensou Julio, enquanto alcançava a grade de ferro antiga que separa a vila, formada por casas idênticas, da rua cheia de galpões comerciais. Ao sair, dobrou à esquerda, subiu a ladeira, atravessou a primeira esquina movimentada, e seguiu por três quarteirões até o Pletzale. Fez os mesmos movimentos que fazia todos os dias, previsíveis e lentos”), o qual me lembrou o universo de Naguib Mahfouz e Isaac Singer.

Em “Encruzilhada” há um jogo de gato e rato entre um empresário e uma velha senhora. O título é tanto topográfico quanto existencial. Em “O milagre do São Gonçalo”, acompanhamos a eterna expectativa da protagonista, com o curioso nome de Ultima, por um violeiro genérico (“A filha de seu Tião da Dô lançou um olhar para Juca, que continuou a receber os pratos, compartilhando a tarefa de ajeitar a mesa. Ultima sentiu o calor do corpo de Juca, os dois estavam espremidos pela multidão que se apertava no espaço do altar. O rapaz tinha cheiro de florada de café, misturado com suor de cavalo. Tudo muito familiar. Percebendo o sol sumindo no poente, Ultima levou as mãos à nuca para arrumar os cabelos e saiu para banhar-se, se preparar para a dança de São Gonçalo. Não faltava muito tempo par ao término da missa”).

E nesse livro de timing sobra espaço para “Mão pesada”, que seria aterrador se a realidade não o fosse mais. “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” é um dos livros mais importantes da década.

14/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (PRIMEIRA PARTE)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de novembro de 2017)

“Seu Mazinho se lembrava de tudo. Lembrava-se das histórias vividas e mais ainda das histórias vividas e mais ainda das histórias contadas. Parece que aqueles causos que ouvira dos velhos eram os mais reais. Tinham entrado fundo na sua lembrança. As histórias vividas não tinham as cores nem os sons e cheiros daqueles que seus ouvidos de bacuri ouviram. Com o passar do tempo, Mazinho já não sabia se sabia de ter ouvido ou se sabia de ter vivido. Era tudo igual em sabença”; “De vivo mesmo, só ficaram as histórias ouvidas que circulam pelas suas veias caboclas”.

Os trechos acima são de “Duelo com o Pescador”, onde Decio Zylbersztajn faz uma brilhante analogia entre histórias de pescaria e a chegada da “civilização branca”, destruindo a cultura e economia caboclas, herdadas dos índios e negros.

“Qual a graça de existir um parque vazio? ”, lemos no conto – título de “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” (o qual curiosamente destoa dos outros 10 da coletânea, mas é uma obra-prima), uma intrigante trama sobre duas irmãs ucranianas, uma delas viciada em heroína, que se envolvem com um turista provinciano, que adora parques, e um velho jardineiro. Não deixe ninguém contar o desfecho, que vai mostrar a “graça” de um parque vazio.

Decio Zylbersztajn é bom tanto nos relatos mais curtos, além de ser afeito às frases lapidares. É o caso de “Puro sangue Árabe”, “A chuvarada”, ambos excelentes. E eu fico estupefato de ele não ter mais reconhecimento (continua na próxima semana).

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