MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/09/2018

NATURALISMO SÉCULO 21

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de setembro de 2018)

Há vertentes literárias que foram sendo desprestigiadas ao longo do tempo e seus autores, embora tenham importância histórica, são considerados de segunda linha. É o caso do naturalismo e seus expoentes como Aluísio Azevedo (“O mulato”, “O cortiço”) e Adolfo Caminha (“A normalista”, “Bom crioulo”). 

Em minha opinião, não há nada de errado com eles e não me surpreende encontrar exemplo da ótica naturalista no nosso século. E é o que concluo da leitura de ANTES QUE DEUS ME ESQUEÇA”, de Alex Andrade. O narrador, na prisão recorda sua trajetória em que os atavismos contam mais que as escolhas.  

O negro Joca, fruto de um estupro, cresce num bordel porque sua mãe foi expulsa de casa, no bairro de Encantado, ao qual volta, encontrando a família dividida: uma parte é evangélica, outra, ligada ao jogo do bicho. Joca torna-se a ponta do e a ponta fluente (desculpe o clichê) e as assistimos o mergulho na criminalidade que o levará para a cadeia: “O desespero foi tomando conta de tudo outra vez. Aos poucos, fui perdendo as forças, escorregando pela parede, enquanto a fumaça preenchia a cela. Quando enfim a porta se abriu, fui arrastado para o outro lado. Bandos de homens ateavam fogo em tudo. Não houve tempo de olhar para trás. Um buraco surgiu à frente: ‘Entra’, gritavam. Por um túnel, fomos seguindo durante horas; alguns me arrastavam feito um pacote se desfazendo. Quando a sede batia, era a água que se misturava ao barro que bebíamos. A mesma água que era lançada no meio dos cornos para me reanimar. Veio tudo à tona. Os pesadelos diante dos precipícios, as histórias do bordel, meus tios, minha mãe, todas as coisas e eu. Quando o sol surgiu à frente, fechei os olhos para não chorar. Deitei na grama verde, entre uma moita e um riacho que passava perto de mim, e deixei aquela luz arder sobre o meu corpo” o naturalismo ainda respira. 

 

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04/09/2018

CONTOS SEVEROS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 04 de setembro de 2018)

Tia Lucrécia parecia ser a coitada da família, “viúva do filho” mas de repente a sorte girou e ela teve uma vida plena, casando, viajando, enriquecendo (para a expectativa geral dos parentes). Ficamos conhecendo suas proezas na maneira sinuosa de Marco Severo em “A âncora encoberta pelo mar”, meu conto favorito de “CADA FORMA DE AUSÊNCIA É O RETRATO DE UMA SOLIDÃO”.

Severo faz jus ao seu sobrenome. Cada relato é duro, impiedoso. Vejam “Chupeta de baleia”: “Maldita seja eu por ter caído nessa esparrela que me fez acreditar que seria a melhor solução para um problema que eu literalmente carrego comigo desde antes de me entender como gente” (obesidade). Vejam “Mudança”: “No ano anterior, minha mãe tinha descoberto um câncer no útero, fez a cirurgia para removê-lo, teve uma complicação e precisou ficar mais de três meses afastada do trabalho. No dia que voltou foi demitida. Desde então ela se tornara uma mulher triste. Eu até a tinha ouvido dizer ao telefone para uma de suas irmãs que agora ela não servia mais para nada. Nem pra ser mãe, nem pra trabalhar). Vejam “Ser chacrete não é pra qualquer uma”: “Foi no nome que Vevé começou a alimentar um sonho durante anos: ser uma das chacretes. Era só o programa do Chacrinha começar para ela não sair da frente da televisão nem sob ameaça de bomba na vizinhança. Quase sem piscar, Vevé se via ocupando um daqueles lugares lá no alto, onde, ao longo dos anos, vira Marli Bang-Bang, Índia Potira, Rita Cadillac e Elza Cobrinha, entre outras mais e menos famosas. Só nesse momento passava a gostar do seu próprio nome” (Vera Vitalina).

Porém, a obra-prima, a narrativa mais impactante da coletânea é “O importante é ter Deus no coração”, a qual relata o rancor de um patrão pela prosperidade modesta que vai afortunando sua diarista, e que me parece a alegoria perfeita de um ranço classista que cresceu no Brasil pós-Lula: “Quando dona Onória voltou, disse que ninguém sabia quem tinha feito aquela maldade, que só podia ser alguém sem Deus no coração, diferente de mim, um homem tão bom. Para piorar, o marido ia ter que pagar ainda não sei quantas infinitas parcelas do empréstimo que havia feito para o empreendimento. Que tristeza, dona Onória. Mas o importante é ter Deus no coração e acreditar que as coisas vão melhorar, assegurei. Prometi a ela que iria indicá-la para conhecidos, já que os antigos patrões dela tinham conseguido outras pessoas para o seu lugar, mas não me dei ao trabalho. Se alguém pedir o telefone, dou. Não sou uma pessoa ruim, sou só esquecido. Hoje, dona Onória não canta mais. Melhor assim, tudo como era antes. Voltei a ter paz. De vez em quando eu a vejo chorando em algum canto da casa. Logo mais isso passa”.

Marco Severo é um dos nossos maiores contistas.

28/08/2018

Destaque do Blog: “Alarido”, de Bruno Molinero

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de agosto de 2018)

 “meu deus é um inseto/de corpo besourento/perninhas articuladas/olhos tão miúdos que somem em exoesqueleto crocante//casquinha que daria clact/de barata amassada/à menor pressão dos meus pés/–o que eu jamais ousaria/afinal”. Este trecho de “andré, 4, deus” representa uma das vozes que tentam sobressair-se da balbúrdia geral no ótimo “ALARIDO, de Bruno Molinero, que já começa inspirado com um caminhoneiro turbinado com o famigerado “rebite”: “o segredo/é o cochilo depois do rebite//você toma/de preferência com a janta/e vai dormir logo em seguida/depois de duas horas o corpo acelera/o ponteiro bate lá na direita/e aí,/meu amigo,/é só estrada”. 

Mas o tour de force é “mateus, 27, vagão A392”, onde o eu lírico-narrativo deseja uma moça lendo Shakespeare num vagão de metrô e multiplica seu nome em inúmeras situações que sempre se esboroam diante do impossível contato. A versão século 21 do paradigmático poema “Uma Passante” de Baudelaire, porém com fôlego prolixo e enumerativo de Walt Whitman.  

Há textos curtos e brilhantes, como “marcela, 43, casada”: “matei, sim senhor/porque quis/não, até que era bonzinho/na gaveta da cozinha. Uma daquelas grandes, sabe?/isso, ele estava no sofá/de costas/não, não me viu/dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele/não tirei porque mancharia ainda mais o tapete/ora, se sabe, por que pergunta?/desculpe. Sim, o corpo ficou lá/depois saí/mansão. Era muito rico/não. Deixou tudo para as meninas/eu sabia, sim senhor/porque quis, já disse/ cansei de subir em pau de sebo. Deslizar fácil não tem graça/sim. Mas vou ficar muito tempo?/é que deixei a panela no fogo”.  

Em tempo: gosto muito das edições da Patuá, contudo me incomodam as apresentações e orelhas laudatórias, como se os textos precisassem de tutela e muletas. Felizmente isso não acontece com “ALARIDO, já entramos de supetão num dos melhores livros de poesias dos últimos anos. 

21/08/2018

TIRANDO LEITE DE PEDRA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 21 de agosto de 2018)

“Nina fechou os olhos, os cílios compridos, colocou a mão no rosto, as unhas esmaltadas, os dedos longos que me deixavam eriçado quando me acariciavam e se dedicavam a desvendar os meus desejos, aqueles escondidos lá na última camada da epiderme e que ela sabia trazer à superfície com competência, ah, aquela mulher era o diabo. O barulho das ondas lá fora, o vento que balançava as casuarinas, o pio de um pássaro, os cliques da Leica e a nossa respiração. O universo perfeito, completamente alinhado, dentro daquele quarto da pousada de Búzios. Eu precisava eternizar esse instante além das fotos, se fosse possível recolheria o som desse quarto numa garrafa, igual àquelas que os náufragos atiram ao mar, para ouvir quando estivesse em agonia”.

         “Granulações” trata do tema mais banal, a separação de um casal, Pedro e Nina. Pedro tem um sentimento trágico da vida, é instável, contrai dívidas e é hostil com a família de Nina, além de beber demais; ela, por sua vez, é disciplinada, gosta de prevenir-se para o futuro, extremamente sociável, tanto que é sempre promovida.

         Anna Monteiro escolheu o esquema mais fácil e batido, capítulos alternando as vozes do casal. Qual o interesse do romance, então? Por que ele é incomum? Porque a autora segue o exemplo da grande Anne Tyler, especialista em tirar leite de pedra.

         O próprio título já traz o elogio do texto. O trecho citado acima mostra que a intimidade e não as personalidades é a última palavra sobre um relacionamento. Procure no Google, leitor, o significado de “granulação” (“Formação de pequenas massas, essencialmente de capilares neoformados, na superfície das feridas em cicatrização”). As diferenças entre os dois eram compensadas por rituais íntimos que cicatrizavam o conflito. Até perderem a força, como na bela música cantada por Nana Caymmi, “e a verdade mais doída é que o rasgo da ferida nunca mais doeu”. Mas é um processo longo, do qual as granulações das fotos em preto e branco de Pedro são a melhor metáfora.

14/08/2018

UM ROMANCE PARA TODAS AS PREMIAÇÕES: “DESAMPARO”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de agosto de 2018)

“DESAMPARO relata o povoamento do sertão de São Paulo. Admiravelmente, Fred di Giacomo foge do clichê de focar o tema numa única família e dá vida a diversos clãs que, a princípio, espalham-se de forma errática, com alguns conflitos com indígenas. Acompanhamos gerações e a história avança nos bastidores das estórias (há um quê de “Cem anos de Solidão”, mas Fred di Giacomo não faz feio ao lado de García Márquez). O romance tem uma narradora, Ritinha, descendente dos pioneiros: “Minha mãe chorou muito quando decidiu deixar aquelas terras. Seis filhos a acompanharam, mas eu não quis ir. Então, ela me contou que eu não era filha de Alexandre Ferreira, como todos pensavam, mas, sim, de Modesto. Naquele instante, descobri que era metade angola e chorei. Não de vergonha, nem de raiva, chorei porque percebi que muitas vezes eu também menosprezara o homem que não sabia ser meu pai. Meu cabelo era como o dele. Assim como eram meu nariz, minha boca e meus olhos. Tive raiva dos Capa Negra que diziam que Modesto era violador. Tive raiva dos Pinto Caldeira, que trouxeram aquela desgraça toda pro nosso povoado. Tive mais raiva por saber que no final das contas a história que sobreviveria seria a história contada por eles. Eu percebi isso ao ver como as paisagens daquele sertão mudavam”.

Eis que surge Manuel dos Santos comum projeto “civilizatório” (bem identificado com a lúgubre divisa da nossa república: ordem e progresso): exterminar os índios e espoliar os pioneiros de suas terras. Ele lembra o Snopes de Faulkner (na trilogia “O Povoado”, a cidade, a mansão) sonso e predatório, que construirá a primeira cidade da região, a qual por um tempo, e para o agrado de Ritinha, terá o nome de Nossa Senhora do Desamparo.

O que me agrada em “DESAMPARO é o fato de Fred di Giacomo não arremedar a linguagem de época, mas tudo soar verossímil e convincente, além de ser grandioso “Desamparo” é um dos melhores romances dos últimos tempos e deveria figurar em todas as premiações.

07/08/2018

UM LIVRO DE CONTOS SENSACIONAL

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de agosto de 2018)
Robert Altman, cineasta genial, em algumas obras-primas (“Nashville”, “Cerimônia de Casamento”, “Short Cuts”) contava dezenas de histórias ao mesmo tempo. O espantoso em “BRICABRAQUE” (“Coisas pequenas, badulaques, conjunto objetos de estimação, coleção de peças variadas, peças que aparentemente não servem para nada, miudezas”) é que André Mellagi faz o mesmo em uma página e meia ou duas. Ele semeia diversos elementos dispares e somente no final, com um parágrafo ou uma frase, ressignifica tudo que lemos de maneira estupenda, de cair o queixo. Não é por acaso que seus contos tenham títulos como “Entrelinhas”, “Bastidores”, “Interstícios”.

         Um dos meus favoritos, “Acontecer”, pode dar uma ideia da qualidade dos textos de André Mellagi: “O senhor se despediu da velha que continuava a separar os feijões. Em seguida vem a garota depressa batendo chinelo pela calçada. – Bom dia, florzinha, hoje mal posso respirar. Ele me ligou e disse que vai chegar. Somente daqui a quatro dias, eu sei, mas atravesso as semanas, os meses e os anos com ele. As canções que me acompanham e ecoam na sua fala melodiam a promessa de um beijo que se renova nas seguidas bodas que o tempo irá enobrecer. Já me deleito com os frutos de uma semente que ainda está por germinar e uma alegria dissipa qualquer ceio de que voltarei ao exílio, à solidão no deserto da multidão (…)” e no final: “(…) Mas para mim é todo um encanto escondido nesse apanhar de separar feijões, que peço para você traduzir. Faço como você faz e imito seus feijões em pedras que conto na peneira de giz riscado no chão. Entretenho em ouvir quando faz de sua peneira um xequerê plano e põe seus feijões a cantar. Observo a destreza com que esses grãos são separados por entre seus dedos nodosos e esse é o espetáculo que me encanta. Vivo sob esse eterno tirocínio que me faz abrir a tudo o que você cria ou destrói, como você varre, fabrica, corta e costura o tempo. Procuro entender o que te faz ora rir e ora chorar quando olha a este amontoado de papéis rabiscados; o espanto quando me revela que deixa de ser velha ao me mostrar uma fotografia amarelecida de uma menina. Tudo é mágica. Não pare de contar seus feijões. Transponho nos meus brinquedos sua cozinha, suas máquinas, suas engenharias. Reconstituo nas faces enrijecidas de bonecas tanto eu quanto você e todos que nos cercam, que uma vez se querem e outra vez se repelem como costumamos fazer, e às vezes fingimos nos esquecer. Enceno suas festas e suas guerras. Derramo seus feijões com imperícia, queimarei um dia o meu guisado. Mas não de contar.
Logo em seguida outras crianças da sua chama aquela que estava com a velha, que parte sem se despedir deixando pedrinhas no chão. A velha descarta no pé da moringa os feijões que não prestam e volta para dentro de casa”.

         A contadora de feijões adquire ares mitológicos. Aliás, alguns relatos aludem à mitologia. E temos a obra-prima “O Itinerário de Hermes”, que concentra todas as qualidades de “BRICABRAQUE”. Nada como o Deus mensageiro para costurar várias histórias.

31/07/2018

HOMENAGEM A HILDA HILST

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de julho de 2018)

Um dos privilégios da minha vida foi ter conhecido Hilda Hilst (a grande homenageada da FLIP 2018). Aos 20 anos, visitei a Casa do Sol, o sítio onde vivia. Era apaixonado por sua obra, que estava no auge, com a publicação da novela “A Obscena Senhora D” e os poemas de “Odes Mínimas” e “Cantares de Perda e Predileção”. O clímax inesquecível da visita foi a leitura em voz alta do ainda inédito “COM OS MEUS OLHOS DE CÃO”, publicado no ano seguinte (1986).

“COM OS MEUS OLHOS DE CÃO” trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma ideia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo e paciente, e sobreviver? ”.

 

24/07/2018

Destaque do Blog: “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” – PARTE 2

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de julho de 2018)

Não podia ser mais feliz o título “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” para a coletânea traduzida por Marcelo Backes. O conto-título vai ao cerne do universo de Kafka, cuja “solteirice” eterna constituiu uma maldição, uma falta de autonomia, que ele tentou quebrar com quatro noivados malogrados.

Há poucos pais protagonistas na obra kafkiana. Temos o pai de “Onze filhos” e temos as “A preocupação do pai de família”, o qual tem de lidar com um ser estranhíssimo chamado Odradrek: “Ele permanece, mudando sempre de lugar, no sótão, nas escadarias, nos corredores e no saguão. Às vezes, não pode ser visto durante meses; é quando por certo se mudou para outras casas; mas depois acaba voltando inescapavelmente à nossa casa. Às vezes, quando saímos pela porta e ele se encontra apoiado ao corrimão, lá embaixo, até temos vontade de dirigir a palavra a ele. É claro que não fazemos nenhuma pergunta complicada a ele, mas o tratamos – e já seu tamanho diminuto seduz a isso – como uma criança.
– Como é que tu te chamas? – pergunta-se a ele.
– Odradek – diz ele.
– E onde tu moras?
– Moradia indeterminada – diz ele e ri; mas é apenas uma gargalhada conforme se pode produzi-la sem ter pulmões. Soa mais ou menos como o farfalhar de folhas caídas”. O próprio solteirão blumfeld era perseguido em seu quarto por duas bolas vivas.

Avultam profissionais dedicados e escrupulosos que são desmoralizados e humilhados. O exemplo mais gritante é “um médico rural”.

Kafka escreveu muitos relatos longos, principalmente nos seus anos finais. O mais enigmático é “Investigações de um cão”. Tenho pra mim (sem nenhuma corroboração) que é uma alegoria de sua aproximação com o judaísmo (ele tinha planos de se mudar para a Palestina e trabalhar num Kibutz), mas permaneceu no círculo vicioso de suas obsessões como escritor e suas neuroses: “Como a minha vida mudou e como, ainda assim, ela não mudou nada, no fundo! Quando penso retroativamente e invoco os tempos em que eu ainda vivia em meio à comunidade canina, participando de tudo o que lhe importava, cão entre cães, considero que, olhando as coisas mais de perto, desde sempre havia algo que não andava bem, uma pequena ruptura à espreita, um leve mal-estar em meio aos mais veneráveis e populares eventos tomava conta de mim, sim, e até mesmo quando estava em círculos dos mais íntimos, às vezes, não, não apenas às vezes, mas de fato em muitas ocasiões, quando a simples visão de um cãopanheiro que me era querido, sua simples visão, de algum modo um novo olhar, acaba me constrangendo, me assustava, desamparando-me e até fazendo-me desesperar”.

17/07/2018

Destaque do Blog: BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS – PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA em 17 de julho de 2018)

“Estou parado na plataforma do bonde e completamente inseguro no que diz respeito à minha posição neste mundo, nesta cidade, em minha família. Nem mesmo de passagem eu seria capaz de indicar quais as exigências que eu poderia fazer com algum direito em uma direção qualquer. Não consigo sequer defender o fato de estar parado nesta plataforma, me segurar nesta alça, me deixar levar por este vagão, o fato de as pessoas desviarem dele ou caminharem em silêncio ou descansarem diante das vitrines… Ninguém o exige de mim, ademais, isso pouco importa”, (trecho de “O Passageiro”).

Sou apaixonado por Kafka. De quando em quando mergulho em sua obra. A portentosa antologia “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS”, a mais ampla, salvo engano, já lançada no Brasil, traduzida por Marcelo Backes, reavivou essa paixão.

Um prazer estranho. O mais original dos escritores joga o cotidiano e a razão lógica no absurdo, naturalizando o insólito, desmascarando as imposturas que chamamos leis: “ ‘Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra. ’ Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. ‘Caro senhor’, digo amistosamente, ‘um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostra-lo a mim? Eu lhe imploro. ’ E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: ‘Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez. ’ ‘Um morto? ’, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. ‘Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente. ’ Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: ‘Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vendo volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo’”, (Trecho de “Conversa com um Devoto”).

Presente na coletânea, o texto mais perturbador que já li. Eis um trecho de “O Abutre”: “O abutre ficou ouvindo em silêncio durante a conversa, deixando seu olhar passear entre mim e o homem. Agora eu via que ele compreendera tudo, levantou voo, recuou bastante para conseguir impulso suficiente e em seguida golpeou com o bico como um lançador de dardos através de minha boca bem fundo dentro de mim. Caindo para trás, senti, liberto, como ele se afogava de modo irremediável no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens”. (Continua na próxima semana).

 

10/07/2018

FUTEBOL E LITERATURA NUM ROMANCE ENCICLOPÉDICO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de julho de 2018)

“O DRIBLE” entrecruza o universo do futebol com a reaproximação (que se revela irônica, no final) entre pai (cronista esportivo) e filho, afastados por décadas, desde o suicídio da mãe, estabelecendo um ritual de encontros. Desses elementos Sérgio Rodrigues renova avocação enciclopédica do romance mesmo de forma sucinta. Eis alguns tópicos:

— O modo como o rádio, com a narração hiperbólica dos locutores, consolidou a mitologia em torno do futebol e os jogadores, agigantando partidas sofríveis medíocres.

— O racismo arraigado no Brasil, como vemos na trajetória de um jogador “sarará”, quase um novo Pelé, que se torna pai de santo. O uso hipócrita de termos como “moreno” ou “mulato”. O pai nórdico que humilha o filho chamando-o de Tiziu.

— A primeira geração que cresceu assistindo televisão e guarda com nostalgia lembranças de seriados como “Túnel do Tempo”, “Perdidos no Espaço” ou “Agente 86”. Essa mesma geração sofreu o impacto do advento da internet, mas antes vivenciou a breve, mas inesquecível supremacia do rock nacional.

Enfim, com altos e baixos (há momentos aborrecidos no texto), um romance caleidoscópico e acima da média. “Só existe no presente. Alguns cadáveres do pop podem ser tirados da cova de vez em quando, vagar uns tempos por aí como zumbis, mas são zumbis. Mortos-vivos mantidos de pé pelo fetichismo. A verdade é que Maxwell Smart vive de lixo, meu amigo. A começar por esse nome ridículo que decidi adotar. É como disse o Kafka: sou feito de lixo, não sou nada além disso e não posso ambicionar ser nada além disso”.

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