MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/11/2014

Destaque do Blog: O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque

buarque

irmão alemão

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de novembro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 26 de novembro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/11/um-inferno-repleto-de-livros-o-irmao.html)

Boa parte do impacto da leitura de O Irmão Alemão reside— a meu ver— menos no aproveitamento ficcional de uma contingência biográfica, a existência do meio-irmão do título (e seus desdobramentos na vida do narrador), e mais na exploração (física e simbólica) do espaço da biblioteca da família Hollander:

“E quando não havia ninguém por perto, eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. Também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito, identifiquei como os Sermões do Padre Antônio Vieira (…) Até os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira, durante toda a minha infância mantivesse essa ligação sensual com os livros.

       Nessa casa tomada (“Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporto desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão”), onde o pai — leitor voraz e eminente intelectual — pontifica, quase um minotauro no labirinto, sujeitando a mãe a um papel servil (“no fundo ela sempre soube que meu pai, embora marido extremoso, não a distinguia muito bem da biblioteca”), o acesso do filho apaixonado pelos livros é restrito (tanto que será clandestina sua “descoberta” do irmão alemão, a partir de uma carta metida num volume no qual ele não poderia mexer: “Preciso guardá-lo exatamente em seu lugar, pois se meu pai não admite que eu mexa nos seus livros, que dirá neste”), índice do distanciamento paterno:

…“uma noite em casa, no meio do jantar, sem mais nem menos lancei esta: eu não me envergonharia de ter um filho alemão. Meu pai ficou com o garfo suspenso diante da boca aberta, enquanto meu irmão continuava a folhear a Playboy à esquerda do prato. Só mamãe, depois de um momento atônita, se manifestou: ma quem tem vergonha de um filho tedesco, Ciccio? Sei lá, disse eu, só sei que o Thomas Mann tinha vergonha da mãe brasileira. Era uma afirmação controversa, pelo que havia lido a respeito, mas feita com o propósito de suscitar  uma reação do meu pai.  Ele poderia retrucar que o próprio Mann reconhecia traços da ascendência latina em seu estilo, ou que a mãe lhe inspirara belos personagens para seus romances, poderia dizer em suma que eu estava falando asneira. Mas pronto, estaria estabelecida uma ponte entre nós, talvez daí em diante meu pai me ouvisse de vez em quando, me corrigisse, de algum modo me filiasse…”

A biografia de Francisco de Hollander, conforme seu torto relato, será então imantada por essa biblioteca monstruosa e invasiva: nunca conseguirá exatamente sair dali, e suas experiências serão arremedos, vivências de segunda mão, transando com as mulheres que passaram primeiramente pelo quarto do irmão, grande sedutor, e nada intelectual (nem por isso o pai lhe regateará a estima e o afeto), ou paródias de relacionamentos com estranhos, a partir das fantasias obsessivas em torno de Sergio, o “fratello tedesco”, como diria a mãe (personagem que roça perigosamente o farsesco, tão caricato é o seu modo de expressão).

borges bibliotecabilbio

Os dois irmãos de Francisco        quase que fraternamente, por assim dizer, terão um destino fantasmático similar, fruto de regimes arbitrários: enquanto os vestígios de um se esfumam nas medidas profiláticas tomadas pela burocracia nazista com relação à raça pura, e depois na divisão da Alemanha na Guerra Fria, o outro, na superfície mais engajado num donjuanismo cafajeste (o próprio Francisco flerta desajeitadamente com o que poderíamos chamar de “delinquência playboy”), desaparece durante a Ditadura pós-64.

No final, com a morte do pai, o labirinto é franqueado. Nem por isso será de muito proveito a quem que levou uma vida postiça e “emprestada”. Francisco e a mãe (tomada pela cegueira), já bastante idosa, continuam, por anos, naquele sacrário esvaziado de sentido e pleno de perdas: “Não tínhamos mais hora, o jantar era servido antes do meio-dia, tirávamos cochilos aqui e ali, nos recolhíamos com o dia claro. Que dia é hoje?, ela me perguntava. Vinte e cinco de janeiro de 1973. Ainda?…Ela estranhava que o tempo ultimamente andasse tão pesado, e de fato, lá em casa, 1973 levou alguns anos para passar. Mesmo quando a situação no país tendia  a se amenizar, fiz bem em mantê-la desatualizada, porque o nome do meu irmão não constava em nenhuma lista de beneficiários da anistia… Logo se restaurou a democracia no Brasil e nos países vizinhos,  até o muro de Berlim veio abaixo,  mas à minha mãe eu pedia um pouco mais de paciência”, veja o leitor que engenhoso registro de passagem de um extenso período de tempo.

Chico Buarque criou o equivalente contemporâneo de Bibliomania (1836), de Flaubert, ou de Auto-de-fé (1935), de Elias Canetti: uma fábula terrível e ácida sobre o culto bibliófilo que se transforma, ao fim e ao cabo, em cegueira e negação solipsista, e mais incisiva ainda com relação ao papel dos intelectuais em momentos de irracionalidade histórica, quando forças retrógradas tomam o poder.

Alcir Pécora, em resenha para a Folha de S.Paulo, criticou duramente a narrativa de O Irmão Alemão por sucumbir à “borgiária”, à emulação de Borges (o autor mais identificado universalmente com bibliotecas; em contrapartida, na sua autobiografia As Palavras, de 1964, Sartre descreveu a “neurose da literatura” interiorizada nesse trato obsessivo, fetichismo puro, com o objeto-livro, inclusive em edições raras, de colecionador, que transformam a biblioteca num capital). Parece-me que ocorreu justamente o oposto: a hipertrofiação do elemento borgiano e o quase emparedamento no meio de incontáveis volumes escancaram o grotesco da perspectiva “o paraíso deve ser algo parecido como uma biblioteca”[1].

E na figura de Francisco de Hollander, tal como se depreende de sua autoapresentação, o grande poeta da nossa MPB demonstra que andou lendo atentamente a nossa prosa atual: não foram poucas as vezes em que O Irmão Alemão me trouxe à memória o universo de Ricardo Lísias e sua triturante e incômoda reinvenção ficcional de dados biográficos, em textos como O Céu dos Suicidas (2012). Entre os pontos de contato mais óbvios, estão o desamparo no mundo explícito (as cenas em que o narrador aborda transeuntes oferecendo-se para acompanhá-los em seu percurso) e a irrisão raivosa que beira o histérico nas suas tentativas de ação:

“Com certeza riem dos meus sapatos, do meu relógio de segunda mão,  do meu jeans fodido, sujo de giz e de outras melecas, que não tiro do corpo e cujos bolsos me ponho agora a apalpar. Súbito enfio a mão no bolso esquerdo até o fundo, e a cartolina por baixo da caixa de chicletes só pode ser o cartão de visita do afinador de pianos. De fato é, e apesar de curvo e desbotado, tendo sobrevivido a um ou outro mergulho no tanque de lavar roupa, ainda traz legíveis as coordenadas de Lázar Rosenblum. Abandono a algazarra da sala e disparo até o telefone da secretaria, mas na casa do Lázar sua mulher me informa que ele saiu, vai passar a manhã cuidando do piano da TV Record. Ali acontece o famoso festival de música popular,  e dona Dalila me fala de seus cantores prediletos, começa até a cantarolar uma balada romântica quando corto a ligação. Em vinte minutos de caminhada chego ao Teatro Record,  onde encontro uma fila na bilheteria e uma pequena aglomeração junto à porta lateral. É a entrada dos artistas, protegida por seguranças a quem apresento o cartão de visitas do Lázar,  depois de forçar a passagem entre fãs e puxa-sacos. O cartão passa de mão em mão,  e um funcionário suarento vem me avisar que estou barrado, porque já tem um afinador no palco. Pois foi ele quem me chamou, afirmo cheio de moral, me passando pelo pianista do João Gilberto. Mas o João Gilberto não tem pianista nem concorre no festival,  segundo os dedos-duros à minha volta,  então me esgueiro até o bar ao lado e peço um café no copo para tomar com um pé na calçada.  Minhas pálpebras custam a se reerguer cada vez que pisco os olhos,  e estou no quarto copo de café  quando o Lázar sai pela porta dos artistas. Tem um chilique quando o arrasto pelo paletó, já não faz ideia de quem eu seja…”— não estranharia em ver essa passagem em Lísias ou, para citar outro exemplo da prosa relevante dos nossos dias, em Alexandre Dal Farra e seu Manual da Destruição (2013).

Essa “influência”, na falta de termo melhor, fez muito bem a Francisco de Holanda: resultou no seu romance menos “policiado” e mais pessoal. Só não entendi a utilidade das duas notas finais (esclarecendo os vínculos entre ficção e biografia!) e o linguajar da mãe, acordes desnecessariamente dissonantes de uma composição de mestre.

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NOTA

[1] E olhe que a minha formação de leitor seguiu um pouco os passos do narrador de O Irmão Alemão, esse apelo sensorial-sensual dos livros, presente inclusive nos meus dias como leitor já naquela outrora conhecida como “meia-idade”, quando percorro prazerosamente meus milhares de volumes espalhados pela casa inteira (embora sem o componente bibliófilo, da aquisição de livros raros e primeiras edições).

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/19/existe-o-romance-buarquiano-sobre-budapeste-e-leite-derramado/

https://armonte.wordpress.com/2013/06/19/a-poesia-da-prosa-de-chico-110409/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/sob-o-signo-de-bauman-ficcoes-da-modernidade-liquida-vila-matas-chico-buarque/

chico

irmão alemão

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18/11/2014

Como conhecer as coisas senão sendo-as?: Os nadifúndios de Manoel de Barros (1916-2014)

manoel-de-barros2

Há quem  receite a palavra ao ponto de osso, de oco,

ao ponto de ninguém e de nuvem.

Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na

sarjeta.

Sou mais a palavra ao ponto de entulho.

Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las

pro chão, corrompê-las

até que padeçam de mim e me sujem de branco.

Sonho exercer com elas o ofício de criado:

usá-las como quem usa brincos.

(de Arranjos para assobio, 1980)

compêndioguardador de águas

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de novembro de 2014)

“Bom era/ser como o junco/no chão: seco e oco./Cheio de areia, de formiga e sono./Ser como pedra na sombra (almoço de musgos)/ ser como fruta na terra, entregue/aos objetos…”

Foi já quarentão que o recém-falecido — aos 97 anos — Manoel de Barros chegou às formulações poéticas na feição que o tornaram tão querido, no seu quarto livro (estreou em 1937, com Poemas concebidos sem pecado[1]), Compêndio para uso dos pássaros (1961). A popularidade imensa de que desfrutava viria bem mais tarde, na esteira de O guardador de águas (1989), com o qual iniciou uma prolífica (às vezes repetitiva e diluidora) produção provecta, com títulos famosos como O livro das ignorãças, Livro sobre nada (onde lemos: “Nasci para administrar o à toa/o em vão/o inútil” e “Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável!”[2]), Retrato do artista quando coisa ou Memórias inventadas.

Os treze poemas de Compêndio para uso dos pássaros se organizam em duas partes. Na primeira, ele orquestra visões infantis sobre as coisas e os seres, e pela primeira vez, pelo menos nesse grau de intensidade, as imagens inusitadas que o consagraram como um dos nossos maiores criadores de poesia (não confundir com a associação regressiva de uma suposta autenticidade com o apego ao mundo rural, como certa apropriação piegas de sua obra sugere).

Se em Poesias (1956) lemos estes bonitos e convencionais versos, “Ah como é bom a gente ter infância!/Como é bom a gente ter nascido numa pequena cidade/banhada por um rio./Como é bom a gente ter jogado futebol no Porto de Dona/ Emília, no Largo da Matriz/ E se lembrar disso agora que já tantos anos são passados, aqui nos deparamos com: “O menino caiu dentro do rio, tibum/ ficou todo molhado de peixe”, “Meu bolso teve um sol com passarinhos”, ou seja, a força anímica e mesmerizante das águas, dos pássaros, das árvores, dos peixes, num moto contínuo, as identidades quase permutáveis: um lambarizinho “se beijou todo de água, “vi um rio indo embora de andorinhas, “na areia tem raiz/ de peixes e de árvores. E em vez do óbvio “como é bom a gente ter infância”, uma topografia lírica inusitada: “O córrego ficava à beira/de um menino.

compêndio leya

É temerário escolher qual o mais bonito e seminal entre os poemas mais longos (na verdade, aglutinação inspirada de pequenas unidades), “Poeminhas pescados na fala de João”, “A menina avoada”, O menino e o córrego”, ainda que essa primeira parte se encerre com os breves  “Noções sobre João-Ferreiro” (“Seu caminho consiste para um esvoo rente/ rente até o chão ervar-se/ de seu corpo) e o soneto “Um bem-te-vi”.

Na segunda, os poemas são mais concisos, e a mirada, adulta, perseguindo evocativamente “um rumo/ nem desconfiado, no qual as madrugadas trazem “estes começos de coisas/indistintas:/ o que a gente esperou dos sonhos/ os cheiros do capim/ e o berro dos bezerros/ sujos a escamas cruas…”. O fecho não poderia ser mais perfeito, com “Um novo Jó”, do qual retirei os versos que abrem esta resenha, e cuja epígrafe, de Jorge de Lima, encerra todo um projeto: “como conhecer as coisas senão sendo-as?”

A que alturas andava esse objetivo de “ser as coisas”, vinte e cinco anos atrás, quando Barros, no limiar da sua fama tardia, lançou O guardador de águas? Nele, combinam-se poemas de várias páginas, versos longos e de forte teor narrativo com desenhos, versos breves e aforismáticos, todos explorando “nadifúndios” (Não tenho bens de acontecimentos), “Coisas/ Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de/ mate (nos montes de borra de mate crescem abobreiras/ debaixo das abobreiras sapatos e pregos engordam…)/ De forma que recolhia coisas de nada, madeiras, falas/ de tontos, libélulas — coisas / Que o ensinavam a ser interior, como silêncio/ nos retratos”.

E qual efeito guardar águas acarretou para a dicção poética?: “A água passa por uma frase e por mim./ Macerações de sílabas, inflexões, elipses, refegos./ A boca  desarruma os vocábulos na hora de falar/ E os deixa em lanhos na beira da voz”. Talvez a súmula se encontre nestes versos: “Ai frases de pensar!/ Pensar é uma pedreira. Estou sendo./ Me acho em petição de lata…”[3]

Viver é calejar-se, gastar-se, desencantar-se. Mas numa equação (que pesco no Compêndio, que me parece uma ótima introdução ao singular universo do poeta mato-grossense) proposta por Manoel de Barros é possível a transfiguração do cansaço existencial pelo lirismo radical: Hoje sofro de gorjeios/ nos lugares puídos de mim.

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TRECHOS SELECIONADO

A MENINA AVOADA

I

Vi um pato andando na árvore…

   Eu estava muito de ouro de manhã

perto daquele portão –

  Veio um gatinho debaixo de minha

janela ficou olhando para meu pé rindo…

    Então eu vi iluminando em cima de

nossa casa um sol!

   E  o passarinho com uma porcariinha

na boca se cantou.

     Fiquei toda minada de sol na minha boca!

    

   II

   Quis pegar

   entre meus dedos

    a Manhã.

    Peguei vento.

   Ó sua arisca!

 

    Nas ruas do vento

    brincavam os passarinhos

    perto de meu quarto

     junto do pomar.

 

    Estes passarinhos

    sempre eram fedidos a árvores com rios

   que eles traziam da mata

   antes de chover.

 

               III

   Manhã?

   Era eu estar sumida de mim e todo-mundo

me procurando na Praça

    estar viajando pelo chão

    que a água é atrás

    até ficar árvores

    com a boca pendurada para os passarinhos…

(…)

      VI

    Você brincou de mim que uma borboleta

no meu dedo tinha sol?

   Você ia pegar agora

o que fugiu de me rosto agora?

 

    Na beira da pedra aquele cardeal,

    você viu?, fez um lindo ninho

    escondido bem

    para a gente não ir apanhar

seus filhotes, que bom.

 

    Ó meu cardeal,

    você não é um sujeito brocoió à toa!

    Você é um passarinho de atravessado…

(…)

         X

    O bigode do pai crescia no quarto.

    João, caindo aos restos de ninho, chegava

    cheirando a pássaros com ilhas.

    Ia buscar minha boca e voltava do

mato em perfumes…

    Árvore?

    Era a terra debaixo dela ser escura…

(…)

        XV

     Ainda estavam verdes as estrelas

       quando eles vinham

    com seus cantos rorejados de lábios.

    Os passarinhos se molhavam de

        vermelho na manhã

   e subiam por detrás de casa para me

espiarem pelo vidro.

     Minha casa era caminho de um vento

comprido comprido que ia até o fim do mundo.

    O vento corria por detrás do mundo

corria lobinhando — ninguém

   não via ele

   com sua cara de alma.

nadifúndios

________________________________________

NOTAS

[1] Do qual transcrevo o último poema, bem dentro da toada modernista de então (para nós, agora, d´antanho):

Informações sobre a Musa

Musa pegou no meu braço. Apertou.

   Fiquei excitadinho pra mulher.

   Levei ela pra um lugar ermo (que eu tinha que fazer uma

lírica):

__ Musa, sopre de leve em meus ouvidos a doce poesia,

a de perdão para os homens, porém… quero seleção,

ouviu?

__ Pois sim, gafanhoto, mas arreda a mão daí que a hora

é imprópria, sá?

    Minha musa sabe asneirinhas

   Que não deviam de andar

    Nem na boca de um cachorro!

    Um dia briguei com Ela

    Fui pra debaixo da Lua

    E pedi uma inspiração:

__ Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel

principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou

gozar da vida; vocês poetas são uns intersexuais…

   E por de japa ajuntou:

__ Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor

de corno; por que não vai nela?

poemas concebidos sem pecado

[2] 13.

Venho de nobres que empobreceram.

Restou-me por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo  monumentou a Humildade quando beijou os

pés dos seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos).

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

de orvalho.

 

11.

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo — elas

podem um dia milagrar de flores.

 

(Os objetos sem função têm muito apego pelo aban-

dono)

 

Também as latrinas desprezadas que servem para ter

grilos dentro — elas podem  um dia milagrar violetas.

 

(Eu sou beato em violetas)

 

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam

a Deus.

Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável!

 

(O abandono me protege)

 

8.

Nasci para administrar o à toa

                                    o em vão

                                    o inútil.

Pertenço de fazer imagens.

Opero por semelhanças.

Retiro semelhanças de pessoas com árvores

                                de pessoas com rãs

                                de pessoas com pedras

                                 etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.

Não tenho habilidades pra clarezas.

Preciso de obter sabedoria vegetal.

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã

no talo)

E quando esteja apropriado para pedra, terei também

sabedoria mineral.

(Livro sobre nada, 1996)

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[3] Outro exemplo, tirado de Matéria de poesia (1970):

(Passeio número 1)

Depois de encontrar-me com Aliocha Karamazoff,

deixo o sobrado morto

    Vou procurar com os pés essas coisas pequenas do chão

perto do mar

     Na minha boca estou surdo

     Dou mostras de um bicho de fruta.

 

(Passeio número 2 )

   Um homem (sozinho como um pente) foi visto da

varanda pelos tontos

    Na voz ia nascendo uma árvore

    Aberto era seu rosto como um terreno.

 

(Passeio número 3)

Raízes de sabiá e musgo

subindo pelas paredes

   Não era normal

o que tinha de lagartixa na palavra paredes.

 

(Passeio número 4)

O homem se olhou: só o seu lado de fora subindo

a ladeira…

   Caminhos que o diabo não amassou — disse.

   Atrasou o relógio

    Viu um pouco de mato invadindo as ruínas de

sua boca!

2LIVRO SOBRE NADA

LNarranjos

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13/11/2014

PAISAGENS ESCARPADAS: “O herói do nosso tempo”, de Liérmontov

Lermontov

(uma versão do texto abaixo foi publicado no Letras in.verso e re.verso, em 12 de novembro de 2014: VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/11/o-heroi-do-nosso-tempo-texto.html)

PREÂMBULO

“E ele, rebelde, busca a tempestade

Como se na tempestade houvesse paz…” (trecho de “O veleiro”, trad. Paulo Bezerra)

Nos seus trinta anos (1825-55) como czar da Rússia, Nicolai I instaurou o terror e a opressão, sem desdenhar de artimanhas para se livrar dos contestadores: assim, Mikhail Liérmontov — sucessor de Puchkín como grande poeta nacional e feroz adversário do regime, por isso mesmo exilado no Cáucaso a partir de 1837 — morreu num suspeitíssimo duelo aos 27 anos: tirou-se proveito de seu gosto por provocações e brincadeiras para forjar um incidente que lhe seria fatal. E, assim, sua breve existência se deu entre datas que se refletem cabalisticamente: 1814-41.

Houve tempo para deixar uma obra que não só apresenta um título emblemático como também mostrou-se seminal para a tradição romanesca russa: Grigóri Alieksândrovitch Pietchórin, o “herói do nosso tempo”, terá seus avatares em Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev e até mesmo no mais tardio Tchekhov, só para citar quatro mestres.

O palco das paradoxais aventuras de Pietchórin é o Cáucaso, espécie de ímã para a imaginação russa, no que apresenta de território invadido, desafio e fronteira entre civilização e barbárie (basta lembrar que a derradeira obra-prima de Tolstoi transcorre nesse cenário: Khadji Murát)[1]. Uma paisagem de cordilheiras escarpadas e perigosas, mimetizando o sobrenome e o caráter do personagem: como nos ensina Paulo Bezerra, na introdução de sua tradução de O Herói do Nosso Tempo[2], Pietchórin vem de “pietchóri”: “cadeia de penhascos” (ou seja, um terreno acidentado e inóspito, conquanto possa ter sua beleza). E talvez um dos poemas de Liérmontov, “O rochedo”, multiplique essa simbologia, como podemos aventar a partir da seguinte estrofe (em tradução de Guilherme Zani): “Há um rastro de umidade na dobra/ Do velho rochedo. Isolado/ Pensa profundamente, parado./E silente no deserto chora”.

herói do nosso tempo

I

“Da tempestade da vida fiquei apenas com algumas ideias — e nenhum sentimento. Faz muito tempo que não vivo com o coração, mas com a cabeça. Peso e analiso minhas próprias paixões e atos com rigorosa curiosidade, mas com isenção. Há em mim dois seres: um vive no pleno sentido da palavra, outro pensa e julga-o; o primeiro talvez se despeça para sempre de você e do mundo daqui a uma hora, enquanto o segundo… o segundo…”

O Herói do Nosso Tempo é dividido em duas partes, e o protagonista só assumirá o relato (através do seu diário) após duas histórias (“Bela” e “Maksim Maksímitch”) em que episódios da sua vida são contados por meio da interposição de narradores: há um primeiro, que atravessa o Cáucaso e ganha como companheiro na acidentada viagem o velho militar Maksim Maksímitch. É este que lhe confidencia como, durante sua convivência com Pietchórin numa distante guarnição, sempre ameaçada por ataques dos “bandidos” tchetchenos, o jovem oficial levou a cabo o rapto de uma donzela, Bela, em troca do fabuloso cavalo de um célebre malfeitor rebelde, Kázbitch.

Conseguindo vencer a relutância da moça, que acaba se apaixonando por ele, logo em seguida Pietchórin, entediado, se desinteressa dela (que terá um triste fim, devido à vingança de Kázbitch). O que importou para ele foi o perigo, a emoção da aventura, do rapto, do logro do tchetcheno, mas essa euforia passou rapidamente.

Aqui temos um primeiro autorretrato do “herói do nosso tempo”:

“… tenho a alma corrompida pela sociedade, a imaginação intranquila, o coração insaciável; nada me basta: eu me acostumo à tristeza com a mesma facilidade com que me acostumo ao prazer, e minha vida vai ficando dia a dia mais vazia; resta-me um recurso: viajar. Tão logo seja possível, viajarei; apenas não será para a Europa, Deus me livre! Irei à América, à Arábia, à Índia — talvez eu morra no caminho, em algum lugar!”

No segundo relato, o narrador conhece pessoalmente Pietchórin, testemunhando a frieza com que ele trata o velho companheiro de guarnição, o qual ficara todo animado com a possibilidade de reencontrá-lo, ao ponto de esquecer pela primeira vez na vida, suas “obrigações”[3]. Por conta da desilusão de Maksim Maksímitch (narrada com uma destreza psicológica digna de Proust; e assombrosa quando lembramos da idade em que morreu Liérmontov), o narrador se depara com um inusitado presente: os papéis pessoais de Piétchorin, que comporão o restante do volume.

Em “Taman”[4], o leitor conhecerá os eventos da passagem do herói por essa “detestável” cidade costeira e como o feitio do seu caráter faz com que ele tenda a desbaratar situações que já vêm de longa data (no caso, pessoas humildes envolvidas com contrabando), por desfastio, por capricho (mas, como ele afirma, “que tenho eu a ver com as alegrias ou as desgraças humanas, eu, um oficial errante, e ainda por cima andando com salvo-conduto oficial”). E assim se encerra a primeira parte, que esboça um retrato negativo.

Na segunda, formada por dois textos, “A princesinha Mary” (de longe, o mais longo) e “O fatalista”, ainda encontraremos o mesmo homem caprichoso, volúvel, byroniano, tomado por um don-juanismo crônico com relação à vida (“nada me basta”, não esqueçamos), mas por alguma razão, mais humano e simpático para o leitor (menos quando mata seu cavalo de exaustão, num de seus momentos maníacos, quando se empolga efemeramente).

“A princesinha Mary” se passa na estação de águas de Piatigorsk, um oásis de mundanismo em meio ao tumultuoso Cáucaso (como alerta o médico Werner a Pietchórin, com relação a um comprometimento amoroso que pode significar casamento forçado: “O ar das estações de águas é perigosíssimo; quantos jovens maravilhosos, dignos de um melhor destino, vi saírem daqui direitinho para o altar…”). Ali, além de reencontrar uma antiga amante (casada), nosso herói se envolve num triângulo amoroso com a princesinha do título e outro jovem, Gruchnítski,  “interessante” por usar um capote (as moças da sociedade pensam que ele é um oficial degradado) e que se revela em toda a sua personalidade “cacete” ao se graduar como oficial. Vemos, então, o velho fetiche pelo traje que marca a narrativa russa, desde Gógol, com efeitos cômico-patéticos:

“Meia-hora antes do baile, Gruchnítski apareceu em minha casa com todo o brilho de seu uniforme de infantaria. Do terceiro botão pendia uma corrente de bronze com um monóculo de lentes duplas; as dragonas de tamanho descomunal apontavam para cima como as asas de Cupido;  as botas rangiam; a mão esquerda segurava as luvas de pelica marrons e o quepe, a direita desfazia a cada instante o topete crespo em pequenos caracóis; seu rosto traduzia presunção e ao mesmo tempo certa insegurança; seu aspecto solene  e seu andar sobranceiro me fariam dar gargalhadas se isso estivesse de acordo com as minhas intenções…”

Curiosamente, esse ser ridículo será alvo de uma surda rivalidade por parte do narrador, que resolve conquistar a princesinha, através de uma atitude estudadamente distante e indiferente. E por que, uma vez que ele não pretende se casar ou se envolver seriamente, e aquela sociedadezinha provinciana o entendia mortalmente (além de considerar o outro pretendente visivelmente inferior a ele mesmo)?:

“Tenho uma paixão natural por contradizer; toda a minha vida não passou de uma cadeia de contradições tristes e desastrosas com o coração e a razão. A presença de um entusiasta deixa-me dominado por um frio gélido e fico a pensar que ligações constantes com um fleumático melancólico me transformariam em sonhador e apaixonado. Confesso ainda que, naquele instante, uma sensação desagradável porém conhecida correu pelo meu coração: era a sensação da inveja, e digo corajosamente inveja porque tenho o hábito de confessar tudo a mim mesmo. É difícil haver um jovem que, após encontrar uma mulher bonita que lhe prende a indolente atenção e de repente a vê dando preferência a outro, que tampouco conhece e ainda por cima na sua presença, é difícil, repito, é difícil encontrar um jovem (naturalmente  da alta sociedade e acostumada a dar asas ao seu amor-próprio) que, num caso desses, não experimente uma desagradável surpresa.”

Esse imbróglio sentimental (atrelado a outro, seu caso adúltero, que é  retomado) o levará a experimentar emoções que o desgostam (entre elas, a inclinação inequívoca pela princesinha, como um Valmont, de As relações perigosas, que se deixasse enfeitiçar por Mme. de Tourvel, apesar de sua perversidade[5]) e até o arrastará a atos extremos, como um duelo com Gruchnítski (o qual vai perdendo o pé na comicidade e revelando-se quase um vilão[6]). E diante da possibilidade de morrer na contenda, Pietchórin faz uma reflexão prenhe de contradições (crença numa sorte pessoal, num destino, aliada à sua sensação de fastio, seu “spleen” byroniano):

“Mas nós vamos tirar a sorte!… E então… então…e se a sorte pender para o lado dele? E se minha estrela finalmente me trair?… Não seria nada do outro mundo: ela passou tanto tempo servindo aos meus caprichos… No céu não há mais constância que na terra.

     Bem! Se é para morrer, que venha a morte! O mundo não vai sofrer grande perda, e além disso eu mesmo já estou bastante enjoado. Sou como o homem que boceja no baile e só não vai embora porque sua carruagem ainda não chegou. Mas a carruagem está à espera — adeus!

    Memorizo todo o meu passado e involuntariamente me pergunto: para que vivi? Com que fim nasci?… Mas devo haver algum fim e alguma alta missão, porque sinto em mim forças imensuráveis; mas não descobri essa missão de me entreguei à tentação de paixões ingratas e vazias.  Do crisol dessas paixões saí  duro e frio como o fero, mas perdi para sempre o ardor das aspirações nobres, a mais genuína flor da vida (…) Meu amor não trouxe felicidade a ninguém, porque nada sacrifiquei por aqueles a quem amava; eu amava por mim mesmo, para meu próprio prazer, apenas satisfazia uma estranha necessidade do coração, devorando avidamente os sentimentos, a ternura, as alegrias e tristezas das pessoas amadas — e nunca pude saciar-me. Era como alguém que, atormentado pela fome, adormece exausto e sonha com manjares finos e vinhos espumantes; devora extasiado os dons etéreos da imaginação e experimenta uma sensação de alívio… Entretanto, mal acorda, o sonho se dissipa, restando-lhe uma fome redobrada e o desespero!”.[7]

Essa questão da “sorte” — como um destino especial — em relação às aleatoriedades da vida, será retomada no relato final, “O Fatalista”, que humaniza ainda mais a figura de Pietchórin e faz o leitor lamentar o prosador que a literatura perdeu de forma tão abrupta.

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II

 “Sinto em mim essa avidez insaciável que devora tudo o que encontra no seu caminho; olho para os sofrimentos e alegrias dos demais somente naquilo que me diz respeito, como para um alimento que sustenta as minhas energias espirituais. Eu mesmo não sou mais capaz de fazer loucuras sob o impacto da paixão. Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias, mas se manifestou sob outro aspecto, pois a ambição nada mais é que sede de poder, e o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia; despertar por si sentimentos de amor, fidelidade e pavor não será o primeiro sinal e o maior triunfo do poder? Servir de motivo para os sentimentos e alegrias de alguém sem ter para tanto qualquer direito real não será o sustento mais doce do nosso orgulho? E o que é a felicidade? Um orgulho satisfeito? Se eu me considerasse melhor, mais poderoso que todos no mundo, seria feliz;  se todos me amassem,eu encontraria para mim fontes infindas de amor.”

Ainda permanece a questão crucial: por que esse don juan autocentrado e árido (e sempre contraditório) deveria ser considerado “o herói do nosso tempo”? Na passagem acima encontramos a chave política que permite entrever o projeto de Liérmontov: “Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias” (leia-se, os arbítrios de Nicolai I). Toda uma geração sofreu esse impacto de um regime repressivo. E, pelo avesso, Pietchórin simboliza a sociedade do seu tempo, e ele se torna um pequeno Nicolai, com sua sede de poder: “o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia”. Ou seja, quanto mais afastado da Corte, ali no distante Cáucaso, quanto mais enredado nas intrigas de uma microcosmo social ínfimo, quanto mais colado ao seu egoísmo, ao seu orgulho, à sua autossabotagem (como um Fernando Pessoa avant la lettre), mais ele descortina a paisagem social inóspita sob o autoritário czar, ainda que tenha oferecido para o público — colhendo descontentamento — “uma fábula sem a moral da história no final” (mas talvez a moral da fábula seja a reação do próprio Nicolai após a leitura: “Livros como este pervertem a moral e exacerbam o caráter… As pessoas já são propensas demais à hipocondria ou à misantropia, então para que estimular tais tendências com semelhantes escritos? Trata-se de um talento deplorável, que revela a mente deformada do autor”. Caso clássico de rejeição ao reflexo do espelho).

“Descobrimos em nós a única substância verdadeira: eis porque tivemos de cavar abismos intransponíveis entre conhecer e fazer, entre alma e estrutura, entre eu e mundo, e permitir que, na outra margem do abismo, toda a substancialidade se dissipasse em reflexão; eis porque nossa essência teve de converter-se, para nós, em postulado e cavar um abismo tanto mais profundo e ameaçador entre nós e nós mesmos”, escreveu Lukács (e poderiam ser reflexões do diário de Pietchórin) no seu clássico A Teoria do Romance (1920), no qual caracteriza o herói problemático do “romantismo da desilusão”, aquele que esbarra no sem-sentido de um mundo burguês todo reificado, já que a costura épica que fazia necessária e possível a ação heroica foi esgarçada até romper-se:  Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina, inicia o grande pensador húngaro o seu ensaio.

Pietchórin, o herói do nosso tempo, tem a perfeita consciência disso, numa passagem de “O fatalista”:

“Voltei para casa pelas ruas desertas. A lua, cheia e vermelha como o clarão de um incêndio, começava a aparecer por trás da linha denteada dos telhados; as estrelas brilhavam plácidas no firmamento azul-escuro, e achei engraçado quando me lembrei de que, outrora, homens muito sábios imaginavam que os astros celestes influíam nas nossas insignificantes disputas por um pedaço de terra ou certos direitos imaginários!… Pois sim! Esses lampiões que eles supunham acesos apenas para iluminar-lhes os combates e triunfos brilham sempre com o mesmo esplendor, ao passo que as suas paixões e esperanças há muito se extinguiram junto com eles, como uma fagulha acesa na orla de um bosque pisada por um andarilho despreocupado. Mas, por outro lado, que força de vontade lhes dava a certeza de que todo o céu, com seus incontáveis habitantes, os contemplava com simpatia, silenciosa, é verdade, porém invariável!… E nós, seus mesquinhos descendentes, que vagamos pela terra sem convicções nem orgulho, sem prazer nem pavor, salvo aquele medo involuntário que nos oprime o coração quando pensamos no fim inevitável, já não somos capazes de grandes sacrifícios nem pelo bem da humanidade nem pela nossa própria felicidade, porque a sabemos impossível, e passamos indiferentes de uma dúvida a outra como os nossos antepassados se lançavam de um equívoco a outro, sem termos, como eles, nem esperança nem aquele prazer indefinido porém verdadeiro que a alma encontra em qualquer luta contra os homens ou contra o destino.

    Muitas ideias semelhantes ainda me passavam pela mente; eu não as retinha porque não gosto de me deter em nenhuma espécie de pensamento abstrato. Afinal, que se ganha com isso?… Na minha primeira juventude fui um sonhador: gostava de acalentar imagens ora lúgubres, ora radiantes que me pintava a imaginação irrequieta e ávida. Mas que me restou de tudo isso? Apenas o cansaço, como depois de um combate noturno contra fantasmas, e ainda uma recordação vaga e cheia de lamentações.  Nesta luta inútil gastei o ardor da alma e a constância da vontade, indispensável a uma vida real. Mergulhei nessa vida após tê-la vivido na imaginação, e senti  tédio e nojo como quem lê a imitação barata de uma obra que há muito se conhece.”

um herói do nosso tempo

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NOTAS

[1] Lemos no livro de Liérmontov: “Sem querer, fiquei impressionado com a capacidade do homem russo de se adaptar aos costumes dos povos entre os quais lhe ocorre viver; não sei se essa qualidade de sua inteligência é censurável ou elogiável; o fato é que ela mostra a sua incrível  flexibilidade e a existência daquele evidente bom senso que perdoa o mal em todos os lugares onde o considera necessário ou acha impossível extirpá-lo.

[2] Publicada em 1988 pela Guanabara e em 1999 pela Martins Fontes (que, deslealdade muito comum entre as nossas editoras, não faz nenhuma referência à edição anterior). O texto original, Герой нашего времени, foi publicado em 1840.

Nunca se poderá enaltecer suficientemente a importância crucial de Paulo Bezerra para um conhecimento maior (e direto) da literatura russa no Brasil. Não posso, entretanto, deixar de fazer um reparo quanto a um vezo que acabou se tornando incomodamente recorrente (e que torna árdua a leitura de suas traduções do romances dostoievskianos publicadas pela 34, por exemplo): a inflação de notas de rodapé. Será que é muito importante para o leitor saber, por exemplo, na própria página em que aparece o nome, e criando um ruído na fruição da bela tradução, que Ekaterinogrado é a “aldeia cossaca de Ekateronográdskaia, no norte do Cáucaso. Transformou-se posteriormente na cidade de Ekaterinodar, hoje Krasnodar”!!!??? Um glossário no final do volume, para os curiosos, seria muito menos intrusivo.

[3] O próprio Pietchórin confessa: “Não tenho aptidão para amizades. Entre dois amigos, um sempre é escrevo do outro, embora (…) nenhum dos dois o reconheça; ser escravo é coisa que não consigo, e mandar, neste caso, é um trabalho enfadonho porque além de tudo ainda é preciso enganar; além do mais tenho um criado e dinheiro!”

É preciso dizer que existe um componente inegável de subalternidade na amizade de Maksim Maksímitch com relação ao colega mais jovem.

[4] Incluído, em tradução de Aurora Fornoni Bernardini, na Nova Antologia do Conto Russo/1772-1998 (Ed. 34, 2011).

[5] Não esqueçamos que Pietchórin é movido pelo don-juanismo, pela necessidade de combater o tédio pela multiplicidade de experiências, pelo seu aspecto quantitativo, inclusive com relação às mulheres.

[6] Um aspecto vaudevillesco também se insinua no relato: há inúmeras cenas em que Pietchórin surpreende conversas a seu respeito, postado de uma forma que permanece oculto (é assim que ele descobre as tramas do antagonista contra ele). Assim, apesar de seus aspectos realistas e “modernos”, O Herói do Nosso Tempo paga seu tributo ao folhetim romântico.

As maquinações perversas em torno do duelo ganham um aspecto dolorosamente irônico, quando se sabe como foi o fim de Liérmontov.

[7] Nosso herói é profundamente hamletiano, como se vê.

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11/11/2014

O PROFUNDO DAS COISAS E A CONTORÇÃO DAS VÍRGULAS: a problemática edição de “Nossa Teresa- Vida e morte de uma santa suicida”

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“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” (trecho de Nossa Teresa)

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2014)

Devido ao arrojo e à qualidade, inclusive dos projetos gráficos, a Patuá tornou-se o selo editorial independente mais prestigiado do país. É comum ver títulos do seu catálogo entre os finalistas dos prêmios mais badalados. E é bem possível que isso aconteça (não obstante certos reparos que farei a seguir) com um de seus últimos lançamentos, Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, romance de estreia (após alguns livros de poemas) da pernambucana Micheliny Verunschk, aos 42 anos.

Em V., cidade interiorana onde a estatística de suicídios impressiona (“o suicídio em V. é uma doença antiga, mas as pesquisas não avançam, porque para analisar o tema a cidade se fecha em copas”), havendo um Cemitério dos Proscritos (o suicídio sendo anatematizado em todas as religiões — mas, se olharmos de perto, os mártires e santos não foram suicidas?) a fervorosa adolescente Teresa, cujo nome evoca outras figuras femininas da tradição católica, mata-se, abrindo caminho para que o ambicioso padre Simão ascenda na hierarquia da igreja até ser eleito papa. Ele, “que tinha consigo a certeza de que os caminhos para alcançar a mão de Deus são mais que tortuosos, incapaz por si próprio de ser um “santo homem de Deus, no entanto “não deixava escapar a íntima vontade de descobrir, lapidar, orientar a santidade de alguém.

A canonização de Teresa, com seus trâmites burocráticos e ligados ao mundo material e mercantil (“O que não contou para sua canonização , no entanto, foram as histórias de vida daqueles tantos que a sua mão, a força do seu exemplo, conduziu pelos caminhos  do suicídio, coisa realmente espantosa”), é a espinha dorsal do relato, feito por um narrador que, em razão de um “acidente isquêmico transitório” fica cego e a um só tempo guia o leitor e discute continuamente com ele, açulando-o (“foi como pás de terra sobre um vivo que eu quis compor essa narrativa, foi como uma tampa de madeira sobre um cataléptico que eu quis contar a minha história), através do passado de V., seus cidadãos suicidas, e também por delírios e êxtases religiosos (em meio à fome, à guerra, ao desconcerto geral do mundo), tais como o sebastianismo e o terrorismo movido pela jihad, compondo uma cartografia narrativa estilhaçada e múltipla do que a religião tem tanto de processo civilizatório quanto de instrumento da barbárie.

Agregadas, portanto, à curta (em número de anos vividos) e longa (após a morte) existência simbólica de Teresa, outras autoimolações, como a de Severa, grávida do professor do filho, futuro escritor famoso, ou a de Samir, que explode um avião, como ato de fé; biografias que a narrativa sugere, mas não desenvolve, como a de outra Teresa, que daria “um livro igual a esse que você lê agora. Talvez até melhor; e mesmo aqueles que não se suicidaram, nem por isso deixaram de ser afetados pelo ato, como os pais de Teresa, recusando a devoção em torno da filha.

Nossa Teresa apresenta até uma virtual biblioteca de suicidas (também uma Babel, pois há na essência das mensagens para os que ficam “uma importante falha no ato comunicativo”)[1]. Outro momento a destacar é o capítulo de depoimentos de diversos conterrâneos da santa. Aí, temos a medida do talento inegável de Micheliny Verunschk.

Infelizmente, houve açodamento no lançamento do livro. É evidente que, com seu background poético, sua verve narrativa e o escopo temático que sua inventiva explora, seu texto não está suficientemente lapidado: “nenhuma vírgula se contorce se não for para o bem da exatidão, afirma o narrador, em suas contínuas espicaçadas no leitor. No entanto, não é o que constatamos ao longo do leitura. Há imagens e afirmações de gosto duvidoso, passagens de prosa inflada e que pouco acrescentam ao vigor da narrativa, escorregadelas em lugares comuns (o que é bem diferente de trabalhar criativamente com afirmações repisadas do tipo “do pó vieste, ao pó voltarás” ou “nada de novo sob o sol”)[2] e assustadores deslizes gramaticais, inaceitáveis numa autora que trabalha em alta voltagem de linguagem[3].

Todos cometemos erros aqui e ali, parece quase inevitável, e nesse ponto é que entra o crucial trabalho de editoração; por isso, a publicação de Nossa Teresa, tal como está, foi bastante precipitada e inglória: além da ausência, de revisão do texto digna do nome (o que Flávio Rodrigo Penteado, o responsável, fez exatamente?), a impressão acrescentou outros horrores, separando palavras, de uma linha para a outra, de maneira bisonha[4].

Tal como está, Nossa Teresa ficou como o arcabouço apaixonante de uma obra que pode, ainda, transformar-se num exemplo relevante da nossa ficção recente, digna de todos os prêmios. Por mais que respeite tanto o arrojo da autora como da editora (caso não esmoreça no nível de qualidade, sua marca até agora), uma segunda edição, completamente revisada, se faz urgente.

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NOTAS

[1] “O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? Você a partilhou com quem? Com um? Com muitos? Com nenhum? É uma exclusividade sua, a qual acaricia como a um animalzinho insone nas horas mais terríveis? Acaso conseguiu esquecê-la? Não se despreza um presente, ainda que este seja uma mágoa.

   Teresa não deixou uma linha sequer. O que queria dizer ela com isso? (…) Não será importante esse pedaço de papel, por mais ínfimo que seja (…) pelo menos para tentar comunicar o incomunicável?

    Teresa brinca entre as exceções , mas a regra diz que , caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos (…) Em V., a sucursal dessa biblioteca imaginária não seria tímida, bem sabemos. O prédio para abrigá-la poderia ser apropriadamente a antiga casa colonial da Rua do Mercador, a mesma na qual nascera e morrera Luis Osvaldo de Azevedo. É de praxe esse tipo de homenagem a escritores, embora haja quem prefira saudá-los com um nome de rua ou praça ou até com uma estátua mal-ajambrada numa localidade qualquer em que o dito desavisadamente passou. Soubesse que o colocariam ali em duro metal, estático à merda dos pombos e maus cheiros de toda ordem da cidade, teria mudado de trajeto, talvez de trajetória.

   A biblioteca dos suicidas de  paredes verdes por fora e vermelha por dentro sugeririam um aconchego de fruto ou a queda num poço. Eu poderia ser o bibliotecário. Sou vaidoso e gosto do papel. Me orgulharia de saber a exata localização de cada volume. As mensagens, encadernadas, catalogadas, organizadas por tema (morte por tiro, defenestração, envenenamento, enforcamento, asfixia por gás), sexo, idade, motivos aparentes (desilusão amorosa, dívida, problemas familiares, desajuste social) e, claro, maravilha das maravilhas, tudo estaria ligado em rede compondo uma árvore com infográficos, fotografias, relações de todas as espécies inclusive com suicidas  de outros lugares, famosos e anônimos. E eu, já cego, como cabe a todo genuíno bibliotecário, saberia os lugares e movimentos de todos pelo tato, pelo gosto,  pelos cheiros, pela audição, pelo sentido ultrassuperior que agrega todos os outros sentidos quando se é cego. E eu sentiria os movimentos dessa biblioteca pela respiração.”

[2]  “A vida não é uma novela. Seria, antes,  como tenho dito,  um novelo”!!!????

[3] Cf, por exemplo, págs. 123 e 140.

[4] Cf, por exemplo, págs. 36, 52, 125, 132.

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07/11/2014

A Miss Bundinha de Curitiba e o Prêmio Camões: “A Polaquinha”, de Dalton Trevisan

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de maio de 2012)

Antes tarde do que nunca: semana passada, nosso maior escritor vivo finalmente foi lembrado (aos 86 anos) para o prêmio Camões.

A complicação, em se tratando de fazer uma homenagem à obra de Dalton Trevisan como um todo é a quantidade de títulos. Praticamente um livro por ano (quando não mais — fora as antologias), nenhuma resenha daria conta do seu escopo como contista, a transformação de Curitiba num microcosmo onde se pode acompanhar a passagem do rural para o urbano, o palco montado para as guerras conjugais, os fetiches, a metamorfose de meninos de família em “vampiros” sedentos de luxúria (pelo menos no terreno das fantasias descabeladas), a lenta contudo inexorável disseminação da criminalidade no cotidiano. Que títulos escolher? Essenciais, certamente (desde o seu primeiro livro “reconhecido”, Novelas nada exemplares, de 1959): O vampiro de Curitiba; Cemitério de Elefantes; A guerra conjugal; O rei da terra;A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos; o recente Violetas e pavões.

Também lenta e inexorável foi desidratação a que submeteu sua prosa, cada vez mais econômica, abeirando-se do haicai narrativo, quase no limite do não-dizer (nesse sentido, a coletânea 234, de 1997, é emblemática, praticamente um “resumo da ópera”). Isso sem falar nos termos pra lá peculiares, conhecidos de sobra por seus leitores, e que permitiriam até a fixação de um léxico dalton-trevisiniano (quem pode esquecer da “corruíra nanica”?). Ou seja, não há como confundir seu texto como o de qualquer outro autor.

Resolvi, então, celebrar o Camões para Dalton Trevisan comentando seu único e genial romance. Uma das feições que seus relatos tomavam era a das minibiografias ficcionais (como o conto-título de Virgem louca, loucos beijos, que eu particularmente adoro). Em A Polaquinha (1985) a narradora conta para alguém (ou conversa consigo mesma, quem sabe?) suas venturas e desventuras com o gênero masculino, primeiramente com aqueles chamados “homens da sua vida” (um estudante de medicina, um engenheiro, um advogado e depois um motorista de ônibus), antes de se tornar uma profissional do sexo de tempo integral (antes, ela—funcionária num hospital—fazia michês para, como se diz, inteirar o orçamento).

Justamente, um dos achados de um livro inacreditável é  colocar um hiato na narrativa e não explicar claramente como se deu essa passagem brutal. Mesmo porque não se tem certeza de que os fatos ali sejam totalmente verdadeiros, volta e meia ela repassa incidentes que já havia descrito de forma crua, e os enfeita, os retoca para si mesma. Como, aliás, todos fazemos, em maior ou menor medida.

Até “cair na vida”, a Polaquinha se mantém na corda bamba do que se costuma chamar de respeitabilidade: órfã de pai, por um desentendimento com a mãe e as irmãs foi morar sozinha, e seu dia-a-dia (pelo menos, ao rememorá-lo) se concentra no envolvimento com homens e as relações sexuais com eles (e em se tratando de um romance erótico, tudo é muito bem resolvido; aliás, um dos raros em que a linguagem e os atos se combinam perfeitamente, sem falsa poesia ou baixaria gratuita).

No mais, aquela deformação cultural que persiste mesmo depois da emancipação feminina: a expectativa de que o homem mesmo que não sustente a mulher, a “ajude”, dê presentes porque já obteve “o que queria” (num dos capítulos, ela liga para um antigo amante para pedir dinheiro para as cautelas de penhora de joias). Sempre com seu olho atentíssimo aos costumes, o extraordinário escritor curitibano mostra muito bem as diferenças dos pontos de vista masculino e feminino quanto às “vias de fato”, e os desencontros que isso acarreta.

Não há drama, não há moralismo, não há lição a se tirar. Como quase todos, a Polaquinha vai empurrando com a barriga, tateando entre códigos morais vacilantes e inoperantes, entre os desafios da  realidade material e a passagem impalpável do tempo que não poupará nem a grande Miss Bundinha de Curitiba (Meu futuro com ele? O tanque de lavar roupa).

Em tempo: nunca é demais registrar como foi feliz a escolha da capa, uma sensacional figura feminina de Colombotto Rosso que já é parte constituinte da mística dessa obra-prima da nossa literatura.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/24/a-tessitura-da-genialidade-o-passaro-de-cinco-asas-e-a-trombeta-do-anjo-vingador/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/24/miserias-minimalistas-50-anos-de-dalton-trevisan/

sobreCultura+ - Dalton Trevisan (fig1)polaquinha-dalton-trevisan-darel-confraria-bibliofilos-18056-MLB20149223381_082014-F

04/11/2014

O BUDA NO SÓTÃO, de Julie Otsuka: destaque entre as traduções de 2014

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 2014]

Um desafio tremendo enfrentado por quem se propõe a escrever um romance é encontrar o “tom” da voz narrativa e, nesse sentido, O Buda no sótão [“The Buddha in the attic”, 2011, que comento na tradução de Lilian Jenkino, lançada pela Grua], de Julie Otsuka, pode ser considerado, sem precipitação, um belíssimo experimento com a linguagem romanesca.

Em seu segundo trabalho no gênero (estreou com Quando o Imperador era divino, 2002), a autora nascida na Califórnia (em 1962) aborda a experiência de famílias japonesas nos EUA desde a chegada das mulheres num navio (os casamentos arranjados com pretendentes que já haviam imigrado e que enviaram o dinheiro da passagem) até a revoltante e traumática segregação em campos de concentração, após o ataque a Pearl Harbor, em função da paranoia generalizada, uma das maiores vergonhas na história da nação[1].

Na incessante ficção feita por descendentes de imigrantes, geralmente acompanha-se uma família típica, desde o núcleo inicial, a partir daí mostrando-se o inevitável choque de gerações na complexa adaptação a uma sociedade como a norte-americana (tomada em sua essência como “supremacia anglo-saxã e protestante”). Cristalizou-se um padrão, o qual perpassa tanto textos literários ambiciosos quanto rasos e previsíveis dramalhões televisivos (deles, tivemos nossa cota também, basta lembrar das novelas de Benedito Ruy Barbosa).

O Buda no sótão foge do clichê já por sua extensão: o relato dá conta de uma imigração maciça e de algumas gerações, em cerca de 130 páginas, e mesmo assim surpreende pela amplitude e fôlego épico (vocações naturais do gênero), onde já se viu!? No entanto, o toque de mestre está mesmo na maneira como Otsuka venceu o desafio de plasmar uma voz para sua mirada na história: se a primeira pessoa do plural, boa parte das vezes em que é empregada numa narração, apresenta um quê de postiço e brega, desta vez foi encontrado o acorde preciso e irretocável para dar vida e ritmo a uma experiência coletiva, soma de inúmeras vivências pessoais irredutíveis. A magia do livro está em nunca deixar passar em branco essa imponderável equação[2].

Vejamos um trecho exemplar (os japoneses, mesmo após décadas no território americano — com todos os episódios de servidão, espoliação e humilhação — passam à condição de virtuais traidores durante a guerra[3]): “Todas as noites, após o cair do sol, começávamos a queimar nossas coisas: velhos registros e comprovantes bancários, altares budistas da família, pauzinhos de madeira, lanternas de papel, fotografias de nossos parentes carrancudos no vilarejo natal, com suas roupas estranhas de interioranos. Fiquei olhando o rosto do meu irmão virar cinza e subir flutuando em direção ao céu”.

Note-se o deslizar do “nós” para o “eu”, recorrente no romance, como se pode constatar em outra passagem, a respeito “deles” (os americanos): “Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…”

    No campo e na cidade, a enumeração e justaposição de várias existências nunca causa a sensação de esquematismo, e o leitor ganha uma densa “lição de coisas”: sobre a vida conjugal, sobre a dureza das condições de trabalho, sobre a criação dos filhos, sobre o preconceito e o racismo (além da histeria xenofóbica), a partir do momento em que as noivas (a primeira frase é lapidarmente irônica: “No navio éramos quase todas virgens[4]) desembarcam após penosa e interminável travessia, em busca de uma terra cujas promessas de prosperidade e felicidade são tão enganosas quanto as fotografias enviadas pelos futuros esposos: “Agora estamos na América, arrancando as ervas daninhas para o homem que eles chamam de Patrão… Meu marido não é o homem da fotografia. Meu marido é o mesmo homem da fotografia, mas muito mais velho. O homem da fotografia é o melhor amigo lindo do meu marido…” Todas acalentavam uma equivocada noção das casas americanas, do lar que as esperava, descobrindo, desiludidas: “Casa era onde quer que nossos maridos estivessem”[5], ou seja, párias num sistema de exploração, precariedade, segregação, no qual se culpa a vítima (por se aferrar aos seus costumes, isolando-se). Diga-se de passagem, além do impacto do início de O Buda no sótão, que em momento algum se dilui nos sete capítulos restantes, é preciso ressaltar o segundo, um dos pontos altos da prosa recente: nele, são narradas as inúmeras “primeiras noites” com seus maridos das imigrantes.

Com a possível exceção do poderoso O melhor tempo é o presente, o último trabalho da recém-falecida Nadine Gordimer, O Buda no sótão é, a meu ver, o destaque entre as traduções de romance lançadas em 2014, até agora.

Julie Otsuka - The Buddha in the Attic (v5.0)Julie-Otsuka-Certaines-navaient-jamais-vu-la-mer

 

TRECHO SELECIONADO

“Asayo—a mais bonita de nós—partiu do Rancho Novo em Redwood carregando a mesma maleta de junco que havia trazido consigo 23 anos atrás no navio. Ela ainda parecia novinha em folha. Yasuko partiu do apartamento em Long Beach com uma carta de um homem que não era o marido, cuidadosamente dobrada e guardada dentro do estojo de maquiagem no fundo da bolsa. Masayo partiu depois de ter dado adeus ao filho mais novo, Masamichi,  no hospital de San Bruno, onde ele morreria de caxumba no fim daquela semana. Hanako partiu com medo e com tosse, mas tudo o que tinha era um resfriado. Matsuko partiu com uma dor de cabeça. Toshiko partiu com febre. Shiki partiu em transe. Mitsuyo partiu com náuseas e com uma gravidez inesperada, pela primeira vez na vida, aos 48 anos de idade. Nobuye partiu se perguntando se havia desligado o ferro de passar roupa, que usara pela manhã para retocar as pregas da blusa. Preciso voltar, ela dizia para o marido, que só olhava para a frente e não respondia. Tora partiu com uma doença venérea contraída na última noite no Hotel Palace. Sachiko partiu praticando o abecedário como se fosse apenas um dia qualquer. Futaye, que tinha o melhor vocabulário de todas nós, partiu atônita. Atsuko partiu com o coração despedaçado depois de se despedir de todas as árvores de seu pomar. Eu as plantei quando eram mudas. Miyoshi partiu com saudades de seu cavalo grande, Ryuu. Satsuyo partiu procurando os vizinhos, Bob e Florence Eldridge, que haviam prometido aparecer para se despedir. Tsugino partiu com a consciência tranquila depois de gritar um segredo horrível e há muito tempo guardado dentro de um poço. Eu enchi a boca do bebê com cinzas e ele morreu. Kiyono partiu da fazenda em White Road convencida de que estava sendo punida por um pecado que cometera em uma vida passada. Devo ter pisado em uma aranha (…) Shizue partiu do Acampamento número 8 na Ilha Webb entoando um sutra que havia acabado de lembrar depois de 34 anos. Meu pai costumava recitá-lo todas as manhãs diante do altar (…) Chiyoko, que sempre insistira para a chamarmos Charlotte, partiu insistindo para que a chamássemos Chiyoko. Mudei de ideia pela última vez (…) Haruko partiu deixando uma pequena imagem de latão de um Buda risonho lá no alto, em um canto do sótão, onde ele ri até hoje.”

manzanar

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NOTAS

[1] Um dos motivos do meu imediato interesse pelo romance de Otsuka é um antigo filme, Adeus a Manzanar (1976), com direção de John Korty, que assisti ainda menino quando exibido pela Rede Globo e que deixou marcas na minha imaginação sobre esse tema. Nunca mais o revi nem sei como o avaliaria a esta altura, mas é daquele tipo de experiência imaginativa precoce que abre os olhos e alarga a imaginação.

[2] Por isso, as recorrentes enumerações nunca cansam, moduladas como são num ritmo narrativo impecável. VER O TRECHO SELECIONADO.

[3] Só que “traidores” (título de um dos capítulos) ganha um duplo sentido na narrativa, o clima de desconfiança se interioriza nas comunidades japonesas:

“Agora, sempre que converso com alguém, tenho que me perguntar: Será que essa pessoa é capaz de me trair? Precisávamos ter cuidado com o que falávamos perto dos nossos filhos mais novos também. O marido de Chieko foi denunciado como espião pelo filho de apenas oito anos de idade. Algumas de nós começavam a refletir sobre o próprio marido: Será que ele tem uma identidade secreta que eu não conheço?”

[4] Assim como é irônico o recurso à proverbialidade, muito ligada à “sabedoria das mães”: “… espelhos de prata dados por nossas mães, cujas últimas palavras ainda ecoavam no ouvido. Você vai ver: mulheres são fracas, mas mães são fortes.”

[5] “Porque se nossos maridos tivessem dito a verdade nas cartas—que não eram mercadores de seda, mas apanhadores de frutas, que não viviam em casas com muitos cômodos, mas em barracas, em celeiros e ao ar livre, nos campos, sob o sol e as estrelas—, jamais teríamos vindo para a América fazer o trabalho que nenhum americano com amor-próprio aceitaria fazer.” Como lemos numa outra passagem: “Porque no Japão a pior ocupação que uma mulher pode ter é a de serviçal.”

buda no sótão

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