MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/02/2015

Destaque do Blog: UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO, de Stephen Hawking

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«Pode-se dizer que o tempo teve início no Big Bang, no sentido de que tempos anteriores simplesmente não teriam definição…» (Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo)

«… toda a ciência desta Terra não me dirá nada que me assegure que este mundo me pertence. Vocês o descrevem e me ensinam a classificá-lo. Vocês enumeram suas leis e, na minha sede de saber, aceito que elas são verdadeiras. Vocês desmontam seu mecanismo e minha esperança aumenta. Por fim, vocês me ensinam que esse universo prodigioso e multicor se reduz ao átomo e que o próprio átomo se reduz ao elétron. Tudo isto é bom e espero que vocês continuem. Mas me falam de um sistema planetário invisível no qual os elétrons gravitam ao redor de um núcleo. Explicam-me este mundo com uma imagem. Então percebo que vocês chegaram à poesia: nunca poderei conhecer. Tenho tempo de me indignar?  Vocês já mudaram de teoria…» (Albert Camus, O Mito de Sísifo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de fevereiro de 2015)

« O objetivo final da ciência é fornecer uma teoria única que descreva todo o universo (…) Sempre ansiamos por compreender a ordem subjacente do mundo… nossa meta não é nada menos do que uma descrição completa do universo onde vivemos. »

Eddie Redmayne levou todos os prêmios mais badalados (Golden Globe, SAG, Oscar) ao interpretar Stephen Hawking.  E o sucesso de A Teoria de Tudo[1] rendeu nova edição brasileira (atualizada e corrigida) do mais popular livro de divulgação científica do cosmólogo inglês, Uma Breve História do Tempo (1988)[2], bem no ano em que a Teoria da Relatividade Geral comemora seu centenário.

Como relata Hawking, a partir de Einstein, fomos obrigados a mudar nossa concepção de espaço e de tempo: eles não são apenas um pano de fundo imutável para os eventos do universo, mas são “quantidades” dinâmicas; mais ainda, co-dependentes, de forma que é mais exato o conceito de espaço-tempo.

A grande revolução na física teórica foi a proposição de que o universo não é eterno: teve um início (o agora tão popular big bang) e muito provavelmente terá um fim (big crunch). O próprio Einstein não aceitava essas conclusões (propostas há apenas 50 anos, à época em que Hawking fazia seu doutorado em Cambridge e lutava com as manifestações iniciais da sua doença neurológica degenerativa) a partir de sua teoria; convencido de que o universo era estático, chegou a inserir em suas equações uma “constante cosmológica”[3].

De todo modo, não obstante sua importância fundamental, a Teoria da Relatividade só permite uma descrição (e, portanto, compreensão) parcial do universo, com sua mirada no extraordinariamente vasto. A descoberta de partículas e subpartículas e o impulso dado à mecânica quântica, com a adoção do Princípio da Incerteza de Heisenberg[4], fizeram com que o extraordinariamente minúsculo ganhasse o centro do palco.

A “Teoria de Tudo” é o esforço de uma vida, após anos dedicados ao estudo das “singularidades” (eventos cósmicos que desafiam noções da física clássica, um campo gravitacional onde “tudo está dentro de nada”), entre elas os buracos negros, na tentativa de encontrar as equações que permitam conciliar essas teorias parciais, a da relatividade e a da mecânica quântica, na direção para o qual a passagem tirada de Uma Breve História do Tempo que abre esta minha resenha indica. Uma teoria da gravitação quântica.

Uma busca linda, envolventemente sintetizada por Hawking[5] — só a parte em que ele enumera as numerosas partículas é um pouco árida, e sinceramente acho chocante no nível da física em que ele atua (mesmo que sejamos leigos), ilustrações tão chinfrins[6], dignas dos livros didáticos mais elementares. Ninguém conseguirá ver a grandeza das proposições nesses esqueminhas e gráficos hilários.

No final, porém, fica um travo de fracasso; de que, feitas as contas, só há teorias e de que elas estão muito longe, apesar das equações complicadíssimas, de explicarem de fato o universo, apesar da profusão de modelos cósmicos, nenhum inteiramente válido, não mais do que a Cabala ou outras concepções cosmológicas ancestrais. O grande cientista pode nos brandir frases como «não se pode discutir com um teorema matemático», contudo ele mesmo chega a temer por suas concepções («Já estudei muito os buracos negros e todo o meu trabalho iria por água abaixo se descobríssemos que eles não existem»).

Portanto, não deixa de ser temerária (mas sem a arrogância de um Richard Dawkins, decerto) a afirmação de que «…podemos estar próximos de encerrar a busca pelas leis definitivas da natureza». Entretanto, numa espécie cuja existência e sobrevivência se devem à desordem entrópica (como Hawking afirma, a certa altura), todos os voos da imaginação são possíveis, como indica a epígrafe de Camus. Ainda bem.

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TRECHO SELECIONADO

«… por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande? Se acreditarmos que o universo se expandirá e depois voltará a se contrair, como a proposição sem-contorno parece sugerir, a questão passará a ser entender por que devemos estar na fase de expansão e não na de contração…

     As condições na fase de contração não seriam adequadas para a existência de seres inteligentes capazes de fazer a pergunta ´Por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande?’. A inflação nos primeiros estágios do universo, que é prevista pela proposição sem-contorno, significa que o universo deve estar se expandindo a uma taxa muito próxima da taxa crítica na qual escaparia de entrar outra vez em colapso por uma margem mínima e, desse modo, não demorará muito a entrar em colapso. A essa altura, todas as estrelas já terão se extinguido e os prótons e nêutrons nelas provavelmente terão decaído em partículas de luz e radiação. O universo se encontraria em um estado de quase completa desordem… A desordem não poderia aumentar muito, pois o universo já estaria em um estado de quase completa desordem. Entretanto, precisa haver uma seta termodinâmica forte para que exista vida inteligente. A fim de sobreviver, os seres humanos têm de consumir alimento, uma forma ordenada de energia, e convertê-la em calor, uma forma desordenada de energia. Assim, a vida inteligente não poderia existir na fase de contração do universo. Isso explica por que observamos as setas do tempo termodinâmica e cosmológica apontando na mesma direção. Não é que a expansão do universo cause o aumento da desordem, mas sim que a condição de sem-contorno leva a desordem a aumentar e faz com que as condições sejam adequadas para a vida apenas na fase de expansão… »

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NOTAS

[1] Como se sabe, o filme de James Marsh (2014) é baseado no livro de Jane Hawking.  No entanto, há um roteiro muito superior (de Peter Moffat), que rendeu um telefilme da BBC, Hawking (2004), dirigido por Philip Martin, e com interpretação, essa sim brilhante (e não apenas correta), de Benedict Cumberbatch, luminoso como Hawking.

Quem quiser conferir:

https://www.youtube.com/watch?v=U_ytm34YVCU

[2] A Brief History of Time, que comento na tradução de Cássio de Arantes Leite (Intrínseca).

Não custa lembrar que a edição original do livro e a sua primeira tradução (lançada pela Rocco, e depois muito criticada devido a erros e imprecisões conceituais) foram, junto com o trabalho de Carl Sagan, um momento pioneiro na divulgação de uma área hoje razoavelmente conhecida e que conta com os seus best sellers (Brian Greene, Marcelo Gleiser). Assim se explica uma parte do charme e do sucesso do seriado The Big Bang Theory (em conexão com um certo triunfo da cultura geek, ou nerd).

[3] “Na teoria da relatividade, não existe tempo absoluto único; em vez disso, cada indivíduo tem sua própria medida de tempo, que depende de onde ele se encontra e de como está se movendo.

    Antes de 1915, o espaço e o tempo eram vistos como um palco fixo onde os eventos ocorriam, mas que não era afetado pelo que acontecia nele… Era natural  pensar que o espaço e o tempo prosseguissem eternamente.

    A situação, no entanto, é bastante diferente na teoria da relatividade geral. Espaço e tempo passaram a ser quantidades dinâmicas… Espaço e tempo não apenas afetam como também são afetados pelo que acontece no universo (…) Roger Penrose e eu demonstramos que a teoria da relatividade geral de Einstein sugeria que o universo deve ter um início e, possivelmente, um fim.”

[4] Segundo o qual, nunca podemos ter certeza exata ao mesmo tempo sobre a posição e a velocidade de uma partícula; quanto maior a precisão com que sabemos um valor, menos preciso será o outro.

[5] Infelizmente, devido às limitações características de uma resenha não poderei abordar alguns aspectos especialmente fascinantes do livro de Hawking, por exemplo o fato de que as suas teorias implicam uma noção do universo “sem bordas nem contornos” e todas as suas consequências:

“…ao combinarmos a relatividade geral com o princípio da incerteza da mecânica quântica, é possível que tanto o espaço quanto o tempo sejam finitos sem bordas nem contornos…”

[6] De autoria de Ron Miller.

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11/10/2013

ALICE MUNRO E O UNIDUNITÊ DOS AFETOS: “ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR, CASAMENTO”

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“Eram duas pessoas sem meio-termo, nada situado entre as formalidades educadas e uma intimidade avassaladora. O que houvera entre eles, por todos esses anos, fora mantido em equilíbrio por causa de seus dois casamentos. Seus casamentos eram o verdadeiro conteúdo de suas vidas–o casamento dela com Lewis, o às vezes áspero e desconcertante, indispensável conteúdo de sua vida. Essa outra coisa dependia desses casamentos, por sua afabilidade, sua promessa de consolo. Não era como se fosse algo que pudesse se sustentar sobre si mesmo, ainda que ambos fossem livres.E contudo, não era um nada. O perigo residia em testá-lo, em vê-lo desmoronar e então pensar que não havia sido nada.” (trecho de Comfort-Conforto)

“O trabalho que tinha a fazer, segundo achava, era se lembrar de tudo–e por ´lembrar´queria dizer a experiência em sua mente, mais uma vez–e então guardar aquilo para sempre. Ter a experiência daquele dia ordenada, nenhuma parte dela deixada pendurada ou solta, tudo ajuntado como um tesouro, e encerrada, posta de lado.” (trecho de What is remembered- O que é lembrado)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em 11 de outubro de 2013, após o anúncio do Nobel para Alice Munro)

O Nobel ignorou a ficção de língua francesa, voltada para os rincões rústicos—eivados de pulsões—,tal como vemos na obra de Anne Hébert (1916-2000), e também a polimorfamente perversa reflexão (em língua inglesa) sobre os vínculos da periferia (a ex-colônia) e o centro (o Reino Unido) com os labirintos da condição feminina, da obra de Margaret Atwood, para distinguir, enfim, uma escritora do Canadá com uma produção calcada na narrativa curta e que, no entanto,  compartilha de certas características comuns (ou incomuns) das duas grandes autoras citadas, mais polivalentes quanto ao exercício de gêneros: Alice Munro.

Sim, é verdade que o nome escolhido como vencedor em 2013 mostra bem a vitalidade da tradição tchekhoviana, dos pequenos conflitos retratados com consumada e compassiva maestria. Nem por isso deixa de haver um toque que lembra outra praticante notável da forma curta, Flannery O´Connor, indicando meandros e contornos mais “pesados”, por assim dizer, na representação de incidentes e situações cotidianas, que são a base para uma arte ficcional marcada pela síntese e pela economia[1].

O leitor brasileiro teve a sorte de conhecer essa inquietante feição dupla (tchekhoviana-flanneryana) de Alice Munro já no primeiro livro dela  traduzido em nosso país (por Cássio de Arantes Leite para a editora Globo, e lançado em 2004): Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento [Hateship,  Friendship, Courtship, Loveship, Marriage], título que causa estranheza por sua rebarbativa sequência de substantivos que, separada ou combinadamente, amiúde aparecem em títulos de auto-ajuda e congêneres, mas que, aqui, tem a ver com uma ladainha tipo unidunitê, executada por duas adolescentes no texto-título (o primeiro dos nove contos longos que compõem essa coletânea de 2001): “A única boa ideia que Sabitha teve era escrever num papel o nome de um garoto e o seu próprio, descartar as letras que se repetiam e somar então as restantes. Depois elas contavam o número na ponta dos dedos, dizendo, Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, até recebe o veredicto sobre o que poderia acontecer entre elas e o garoto”.

Esse unidunitê do aleatório da vida (disfarçado no ritmo da ladainha)  e das escolhas que supostamente fazemos, é muito presente nas histórias contadas por Munro, e equacionado com o peso emocional das pessoas na vida dos seus personagens.

Dessa maneira, ainda no conto-título, um dos jogos das duas garotas, Sabitha e Edith, em sua efêmera condição de “melhores amigas” (até que as diferenças de condição social se evidenciem, afastando-as[2]) leva ao núcleo anedótico do relato, que é a decisão da empregada do avô de Sabitha de pedir demissão, para ir ao encontro do pai da neta de seu patrão: no caso, um viúvo que tem tanto de aventureiro e sedutor quanto de fracassado, e que sequer tomara conhecimento da existência dela;  porém, as meninas inventaram toda uma correspondência que aos poucos foi convertendo a austera e parcimoniosa Johanna Parry (uma das maiores personagens da ficção mais recente) em candidata a noiva.

Vamos conhecendo as etapas da evasão de Johanna (junto com uma mobília a qual, guardada por anos, é um ponto-chave na trama), aos poucos, e de uma forma admirável, pois antes de sabermos a causa de todo o imbróglio e conhecermos os demais personagens, travamos contato primeiro com a sua peculiar personalidade (quando vai comprar a sua passagem de trem e combinar os detalhes do transporte da referida mobília), numa impactante cena inicial.

Nos últimos parágrafos dessa pequena obra-prima, temos uma frase genial, que indica o espírito travesso de Munro, a sua gota de veneno nos licores de laranjeira (tal como sua colega dos EUA, Anne Tyler, mais afeita ao romance). É relacionada a Edith, uma das parceiras no unidunitê que envolve os destinos da até então solteirona  Johanna e do pai de Sabitha: “Pois onde, dentre a lista de coisas que planejava conseguir em sua vida,  havia qualquer menção ao fato de que seria a responsável pela existência no mundo de uma pessoa chamada Omar?” . Desde a Emma de Jane Austen, não víamos consequências tão divertidas (em porções de deleite e de ridículo) a partir da interferência na vida alheia.

Cada um dos nove textos tem seu próprio unidunitê. Em  Urtigas [Nettles], a narradora abandona o primeiro marido e reencontra aquele que foi a paixão da sua infância (também casado), durante visita a uma amiga, e eles estacam no limiar de um relacionamento, afinal interdito devido a todas as decisões anteriores, e sobretudo pelo medo de “estragar” a magia dos jogos da infância (embora seja uma memória muito diferente para cada um deles).

Quando um empregado da pequena fazenda onde ela e a família viviam (e ele estava de passagem, pois o pai executava um serviço temporário) “malda” a convivência dos dois, e a mãe dela os defende: “Ela estava enganada. O empregado chegara mais perto da verdade do que ela. Não éramos como irmão e irmã, nem como nenhum irmão e irmã que eu já houvesse visto (…) E não éramos como as esposas e maridos que eu conhecia, que para começo de conversa eram velhos, e viviam em mundos tão separados que pareciam mal reconhecer um ao outro. Éramos como um casalzinho íntimo e vigoroso, cuja ligação não necessitava de muita expressão exterior. Algo, pelo menos para mim, solene e emocionante”.

Anos depois, quando adultos (numa cena que justificará o título):

“Tão perto um do outro que éramos incapazes de nos olhar (…) Mike liberou meus pulsos e pousou as mãos sobre os meus ombros. Seu toque ainda era para restringir, mais do que confortar.

    (…) A chuva continuava a cair, mas já se tornara uma chuva pesada qualquer. Ele tirou suas mãos, e ficamos de pé, tremendo. Nossas calças e camisas estavam grudados no corpo (…) Tentamos sorrir, mas mal tínhamos força para isso. Então nos beijamos e nos apertamos brevemente. Isso foi antes um ritual, um reconhecimento de sobrevivência, mais do que a inclinação de nossos corpos.”[3]

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A condição de observadora de relações cristalizadas também é um componente da narradora de Queenie. Ela, que, mais tarde, será uma professora com carreira, marido e filhos, conta um episódio formativo, quando, ainda jovem, visita a “irmã” (a Queenie do título, que agora quer ser chamada de Lena, para não irritar o tirânico marido, com o qual vive numa espécie de cortiço)— na verdade, a filha da mulher que casou com o seu pai—, a qual fugira de casa para se casar com o antigo patrão (o sr. Vorguilla, metamorfoseado em Stan]. O objetivo é conseguir um emprego de verão, mas ela principalmente se dedica a observar o relacionamento de Queenie (que se diz uma “criatura do amor”, reproduzindo—pensa a narradora—clichês assistido nos filmes comerciais no cinema onde trabalha) não apenas com o marido, mas também com os amigos dele:

“Meu pai e Bet. Sr e Sra. Vorguilla. Queenie e o Sr.  Vorguilla. Até mesmo Queenie e Andrew. Esses eram casais, e cada um deles, por mais desunido que fosse, tinha agora ou na lembrança um refúgio particular com seu calor e tumulto, do qual eu ficava de fora. E eu tinha de ficar, eu queria ficar de fora, pois era incapaz de ver qualquer coisa em suas vidas que pudesse me instruir ou encorajar.”

  Então, nessa altura da vida, há a disponibilidade., o unidunitê de um caminho indeterminado, um futuro cheio de possibilidades. O que lhe permite pensar: “Se ao menos tivesse um quarto, pensei, Queenie teria um lugar para onde fugir caso o Sr. Vorguilla ficasse fulo da vida com ela outra vez. E se Queenie um dia decidisse deixar o Sr. Vorguilla (eu seguia pensando nisso como uma possibilidade…), então com o salário de nossos dois empregos quem sabe conseguíssemos um pequeno apartamento”.

Queenie, de fato, inesperadamente “some”, largando o Sr. Vorguilla. E nunca mais é vista. E então se torna uma peça irônica na engrenagem da vida futura da narradora: ela, que era a que tinha dado o mau passo e “fechado” o seu destino, ganha a aura de figura mítica, que pode estar em qualquer lugar e ter qualquer vida: “nesses anos em que meus filhos cresceram  e meu marido se aposentou, e ele e eu viajamos um bocado, tenho a impressão de que às vezes vejo Queenie (…)Certa vez, foi num aeroporto lotado, e ela usava um sarongue e um chapéu de palha com adornos floridos. Bronzeada e animada, parecendo rica, cercada de amigos. E certa vez ela se achava entre mulheres na porta de uma igreja à espera dos noivos e sua comitiva. Vestia uma jaqueta de camurça manchada e não parecia próspera ou bem de vida…” No unidunitê da desaparição de Queenie, as possibilidades multiplicam-se e contradizem-se, e ela adquire uma condição nostálgica e poética.

Haveria muito o que explorar em Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento no caminho dessas linhas de força em que o aleatório (unidunitê) e a presença irrevogável de alguém formam uma espécie de dialética da construção da memória do cotidiano e da trajetória de uma vida.

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Para atender a um propósito de brevidade, me restringirei aos dois contos que considero mais bonitos do livro (uma façanha e tanto, diga-se de passagem), mesmo enfatizando que o conto-título é uma obra-prima à parte: Ponte Flutuante e The bear came over the mountain.

Ponte Flutuante [ Floating Bridge] se inicia significativamente com o relato de uma ocasião em que a protagonista, Jinny, quase largou o marido, Neal (um ativista sempre lutando por boas causas, entre elas a reeducação de delinquentes juvenis). Ela não leva seu intento adiante, mas o leitor já fica de orelha em pé para as fissuras entre um casal cujo engajamento tem muito a ver com uma obrigatória cumplicidade (e olhe que ele é bem mais velho que ela):

“Alugaram uma cama de hospital—na verdade, ainda não tinham necessidade dela, mas fora melhor pegar uma assim que possível, porque em geral a oferta não era grande. Neal pensou em tudo. Pendurou algumas cortinas pesadas que haviam sido descartadas do salão de jogos de um amigo. Tinham uma coleção de canecas de cerveja com tampa e objetos equestres de bronze que Jinny achava muito feios. Porém ela sabia agora que havia épocas em que o feio e o bonito serviam exatamente para o mesmo propósito, quando qualquer coisa para a qual se olha é apenas um pino onde pendurar as sensações descontroladas de seu corpo e os bocados e pedaços de sua mente.”

Quando Jinny é submetida à quimioterapia (com os estragos concomitantes), Neal arranja uma moça desajustada para cuidar da casa. É no dia em que ela  começará a trabalhar e viver com eles que o relato se concentra. Tudo é difícil e pesado para Jinny: o calor do dia, as decisões de Neal, que fazem com que eles tenham de ir à dilapidada propriedade da família que cuidava de Helen, a desajustada empregada, e com que ela tenha contatos com pessoas desconhecidas, hospitaleiras até em demasia, enquanto sente náuseas e uma terrível necessidade de solidão. Parece que o destino de Jinny é ficar atada a esses “compromissos morais” (o marido, quando ela recusa entrar na casa, lhe diz: “você não quer que eles pensem que se julga acima deles, não?”), enquanto a morte vai se aproximando.

Mas eis que a progressão do relato nos mostra que ainda há o unidunitê na vida de Jinny, que ela ainda não acabou (aliás, uma informação sobre o estágio da doença dela vai modificar um pouco o panorama do futuro), e ela tem uma experiência estranha, até assustadora (pode ter ficado à mercê de um desses psicopatas tão contumazes nesse hemisfério), com direito à noite estrelada e beijo (o que rende um trecho lindo: “Beijou-a na boca. Pareceu a ela que pela primeira vez na vida compartilhava um beijo que era em si mesmo um evento. A história completa, encerrada no beijo”). A arte de Alice Munro aí nos envolve totalmente, parece que vemos o mundo com o olhar da sua personagem, e ao mesmo tempo também podemos acompanhar claramente a maneira como os outros a percebem e tiram conclusões a seu respeito.

Encerrando a coletânea, o extraordinário The bear came over the mountain[4] se destaca por um motivo extemporâneo:  foi adaptado para o cinema, mantendo todas as suas qualidades, por Sarah Polley, em Longe Dela. Mesmo após aparecer a visão cirúrgica e ainda mais impiedosa do  tema em Amor (2012), de Michael Haneke, penso que a variação Munro-Polley mantém seu impacto e frescor por levantar questões inteiramente diferentes.

Na juventude, a decisão de Fiona casar-se com Grant obedece ao espírito “unidunitê”: “Acha que seria divertido se nos casássemos”. Entretanto, já na época, para Grant, o assunto se apresentava com mais gravidade: “Jamais queria ficar longe dela. Ela possuía a centelha de vida”. Isso não o impediu de, ao longo de um casamento de décadas, ter casos, alguns sérios, alguns até ameaçando sua carreira (como professor universitário), seguindo  modismos de comportamento sexual,  ainda  que de forma moderada. Enquanto ela, até por um certo esnobismo (ou autenticidade, ou profunda absorção em si mesma) se mantinha à parte.

Com o Alzheimer (não-nomeado, mas supõe-se que seja) evoluindo, ela mesma pondera que o melhor é internar-se numa instituição, na qual uma das regras é: nos primeiros 30 dias, nada de contato com familiares.Então ao revê-la, Grant percebe que ela passou para o outro lado da montanha. Está longe dele. E vemos o reverso doloroso do unidunitê: como conciliar que aquela pessoa-centelha na sua vida o oblitere quase que inteiramente,que lhe seja alheia quase que por vontade própria?

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O que torna o texto sensacional é o fato de que Munro mostra que, mesmo com as deteriorações psíquicas, que esgarçam os laços afetivos de toda uma existência, A VIDA NÃO PARA. Fiona, apesar de se manter renitentemente  opaca—e isso até o final maravilhoso do relato—para  o leitor (no filme, um efeito também da admirável interpretação de Julie Christie), constrói novos afetos e relações ali no Meadowlake. Se a vida (nesse sentido, de afetos e desejos) não para lá fora,  dentro da instituição também não. E Grant se obriga, por ciúme, por desespero, por inaptidão existencial, a acompanhar essa metamorfose dos sentimentos da  esposa. E se acompanhamos Shakespeare, Machado de Assis, Proust e Graham Greene nas suas travessias infernais do ciúme, The bear came over the mountain nos descortina novas veredas nesse território:

“Meadowlake tinha poucos espelhos, de modo que ele não era obrigado a ver a si mesmo espreitando e rondando. Mas de vez em quando lhe ocorria o quão patético, idiota e talvez fora dos eixos devia parecer, perseguindo Fiona e Aubrey por toda parte. E sem sorte alguma em confrontá-la, ou a ele. Cada vez menos seguro sobre que direito tinha de estar na cena, mas incapaz de se retirar. Mesmo em casa, enquanto trabalhava em sua escrivaninha, fazia limpeza ou removia neve com a pá, caso necessário, o tique-taque de um metrônomo dentro de sua mente fixava-se em Meadowlake, em sua próxima visita. Às vezes ele parecia a si mesmo um garoto obstinado fazendo uma corte impossível, outras, um desses malucos que seguem mulheres famosas pelas ruas, convencidos que um dia essas mulheres irão se virar e reconhecer seu amor.”

Conforme a narrativa se complica e se aprofunda, como acontece sempre nesses casos, vai agregando reflexões perspicazes, muito calcadas na concretude da vida (mesmo que tudo o que é sólido nas relações se desmanche no ar). Quando Marian, a esposa de Aubrey, explica a Grant sua relutância em interná-lo de vez no Meadowlake (e a ausência de Aubrey ali acelera a deterioração física e mental de Fiona)—ela teria de vender a casa para mantê-lo ali, e conservar a propriedade da casa é um ponto de honra para ela, a quem a vida tirou tanto–, lemos:

“Ele falhara com a esposa de Aubrey, Marian. Já previra que poderia falhar mas de maneira alguma previra o porquê. Pensara que tudo com que teria de se haver seria o ciúme sexual ou seu ressentimento (…) Não fazia a menor ideia da maneira como ela podia encarar as coisas. E mesmo assim, de algum modo deprimente, a conversa não lhe soara pouco familiar. Isso porque o lembrou de conversas que tivera com gente de sua família. Seus tios, seus parentes, provavelmente até sua mãe teriam pensado da forma como Marian pensava. Teriam acreditado que quando outras pessoas não pensam dessa forma era porque estavam se tapeando—tinham ficado muito intelectuais ou estúpidas, por conta de suas vidas confortáveis e protegidas ou de sua educação. Haviam perdido o contato com a realidade. Gente educada, gente instruída, gente rica como o sogro socialista de Grant havia perdido o contato com a realidade. Devido a uma boa sorte imerecida ou a uma estupidez nata. No caso de Grant, suspeitava, eles achavam  sinceramente que era os dois.

    Era assim que Marian o veria, certamente. Uma pessoa tola, cheia de conhecimento enfadonho e por um acaso protegido da verdade da vida. Uma pessoa que não tinha de se preocupar em manter sua casa e podia sair por aí ruminando seus pensamentos complicados.”

Como se vê, pelo escopo das reflexões e da estrutura narrativa, Munro poderia ser uma escritora que naturalmente passaria para o romance. Que ela tenha conseguido encontrar essa forma intermediária, ao mesmo tempo tão  contida e ampla-flexível, é a sua marca, e uma marca e tanto. Assim como o fato de ela não deixar nunca que a balança penda apenas para um lado, nem para o jogo aleatório nem para os “laços de ternura”. Tal como Anne Tyler, ela tem perfeita noção da tênue fronteira entre eles. Mas sabe que, de fato, Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, em suas formas mais diversas, são realidades substantivas em nossas existências.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/15/no-mundo-de-alice-o-amor-de-uma-boa-mulher-e-um-nobel-indiscutivel/

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TRECHOS SELECIONADOS

Tinha seu orgulho, ela pensou. Isso era algo a ser considerado. Talvez fosse melhor jamais mencionar as cartas nas quais se abrira tanto. Antes de partir, ela as destruíra. Na verdade, destruíra uma por uma mal as acabara de ler bem o bastante para sabê-las de cor, e isso não demorava muito. Uma coisa que certamente não queria era que as cartas caíssem nas mãos da pequena Sabitha e de sua amiga insidiosa. Especialmente aquela parte da última carta sobre a camisola e estar na cama. Não que esse tipo de coisa não existisse, mas podiam ser consideradas vulgares, piegas ou um convite ao ridículo quando postas no papel (…) Mas ela jamais o frustraria, se era isso que ele esperava.

    Isso não era uma experiência inteiramente nova, este sentimento revigorante de expansão e responsabilidade. Ela sentira alguma coisa parecida pela Sra. Willets—outra pessoa negligente e de aparência distinta necessitada de cuidados e atenção. Ken Boudreau revelou-se um pouco mais desse jeito do que se preparara para ver,  e existiam as diferenças que seriam de se esperar num homem, mas certamente não havia nada em relação a ele de não pudesse dar conta.

    Após a Sra. Willets, seu coração secara, e costumava considerar que poderia ser assim para sempre. E agora esta comoção acalorada, este amor atarefado. (de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento)

Novamente dentro da van, Helen falou para Neal.

__ Só está desperdiçando gasolina.

__ Norte da cidade?, disse Neal. Sul? Norte sul leste oeste, que região?, Helen diz a melhor direção.

__ Eu já disse. Fez tudo que vai fazer por mim hoje.

__ E eu disse: Vamos buscar aqueles sapatos pra você antes de voltar para casa.

   Independentemente de quanto estivesse inflexível, Neal sorria. Seu rosto exibia uma expressão de tolice consciente, mas involuntária. Sinais de uma invasão de felicidade. Todo o ser de Neal era invadido, trasbordava de felicidade tola.

__ Como você é teimoso, disse Helen.

__ Cai ver como sou teimoso.

__ Também sou. Sou tão teimosa quanto você.

    Pareceu a Jinny que podia sentir o ardor da bochecha de Helen, que estava tão perto deles. E certamente conseguia ouvir a respiração da garota, rouca e carregada de agitação, exibindo algum indício de asma. A presença de Helen era como a de um gato doméstico que jamais deveria ser levado em veículo algum, sendo irritável demais para ter juízo, disposto demais a projetar-se entre os bancos.

   O sol queimava através das nuvens outra vez. Um disco de latão alto no céu (…)

 __ Talvez a gente devesse simplesmente ir embora, disse Jinny. Talvez apenas ir para casa.

    Helen interrompeu, quase gritando:

__ Não quero atrapalhar ninguém a ir pra casa.

__ Então basta me explicar o caminho, disse Neal (trecho de Ponte  Flutuante)

Assim, se Alfrida ia falar sobre isso, pensei, era uma boa coisa que meu noivo não estivesse junto. Uma boa coisa que não tivesse de ouvir falar sobre a mãe  de Alfrida e por tabela descobrir alguma coisa sobre minha mãe e a relativa, ou quem sabe substancial, pobreza de minha família. Ele era um admirador de ópera e do Hamlet de Laurence Olivier, mas não tinha tempo para a tragédia—para a sordidez da tragédia—na vida comum. Seus pais eram saudáveis, bem-apessoados, prósperos (embora ele dissesse, é claro, que eram estúpidos), e parecia que não tivera de conhecer ninguém que não vivesse em circunstâncias igualmente felizes. Admirava-se dos fracassos da vida—fracassos na sorte, na saúde, nas finanças—, que lhe soavam como lapsos, e sua aprovação sem ressalvas de minha pessoa não se estendia às minhas dilapidadas origens. (trecho de  Mobília de Familia[Family Furnishings], que—entre outras coisas, em especial a caracterização de Alfrida, outra grande personagem como a Johanna do conto-título —é muito interessante e divertida enquanto retrato de escritora quando jovem: “ A história que escrevi, com isso incluso, não seria escrita senão anos mais tarde, apenas quando se tornou insignificante o suficiente para que eu pensasse em quem enfiara a ideia em minha cabeça, para começo de conversa”).

“Desistiram após algum tempo de ter um filho. E ela suspeitava que ambos eram um pouco egocêntricos demais—não gostavam do pensamento de se verem enredados nas ligeiramente cômicas e aviltantes identidades de papai e mamãe. Os dois—mais Lewis, em particular—eram admirados pelos estudantes por serem diferentes dos outros adultos da escola (…)

    Ela ingressou num grupo coral. Muitos dos recitais eram executados em igrejas, e foi então que aprendeu quanto Lewis detestava lugares como esses. Ela argumentava que dificilmente havia outros espaços adequados e disponíveis (…). Dizia-lhe que estava sendo antiquado e que nenhuma religião poderia fazer muito mal, nos dias atuais. Isso suscitou uma enorme discussão. Tiveram de correr pela casa batendo janelas, para que suas vozes elevadas não fossem escutadas pelos que passassem na calçada na quente noite de verão.

    Uma briga como aquela era de assustar, revelando não só quanto ele era propenso a fazer inimigos, mas como ela era incapaz de abandonar uma discussão que beirava as raias da violência. (trecho de Conforto)

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As garotas, a exemplo dos garotos, estavam divididas em dois lados, mas uma vez que não havia tantas meninas quanto meninos, não podíamos servir de fabricantes de munição e enfermeira para apenas um soldado. Havia alianças, ainda. Cada garota tinha sua própria pilha de bolas e trabalhava para alguns soldados em particular, e quando um soldado tombava ferido, gritava o nome de uma garota, de modo que pudesse arrastá-lo e cuidar de seus ferimentos o quanto antes. Fiz armas para Mike, e quando ele gritava por socorro, era meu nome que chamava. Havia tanto barulho acontecendo—gritos constantes de Você morreu, triunfantes ou ofendidos (…) tanto barulho, que tínhamos de permanecer o tempo todo alertas para a voz do garoto que iria chamar nosso nome. Havia um sentimento penetrante de alarme quando o grito vinha, uma eletricidade zunindo por todo o corpo uma sensação de fanática devoção (pelo menos para mim era assim, que, ao contrário das demais garotas, prestava meus serviços a único guerreiro) (…) Que alegria imensa foi participar de uma aventura tão arrebatadora e abrangente e ser escolhida, dentro dela, para empenhar-se essencialmente aos serviços de um combatente. Quando Mike se feria ele nunca abria os olhos, ficava lânguido e imóvel enquanto eu pressionava as folhas enlameadas em sua testa, sua garganta e—tirando sua camisa—seu abdômen pálido e macio, com seu doce e vulnerável umbigo. (trecho de Urtigas, que evoca uma brincadeira entre crianças, vejam só!)

Contou-lhe a única lembrança que tinha da mãe. Estava no centro, com ela, num dia de inverno. Havia neve entre a calçada e a rua. Acabara de aprender a ler as horas, ergueu os olhos para o relógio da agência dos Correios e viu que era hora do programa que ela e sua mãe ouviam todos os dias no rádio. Sentiu uma forte preocupação, não de perdê-lo, mas porque ficou imaginando o que aconteceria com as pessoas na história se o rádio não fosse ligado e ela e sua mãe não estivessem ouvindo. Foi mais do que preocupação que sentiu, foi pavor, pensar na forma como as coisas poderiam se perder, poderiam não acontecer, devido ao acaso ou a uma ausência ocasional.

    E mesmo nessa lembrança, sua mãe era apenas um par de ancas e ombros, dentro de um pesado casaco. (trecho de Coluna e Viga [Post and Beam], outro belo momento da coletânea, em que uma esposa muito mais jovem que o marido, um professor, se sente atraída por um ex-aluno—um sujeito de personalidade à Wittgenstein—do marido; há também a visita de uma prima provinciana e ressentida na casa deles, construída da forma arquitetônica que dá sentido ao título do relato; um dos momentos mais bonitos é quando Lorna, a protagonista, visita clandestinamente o quarto de Lionel, o ex-aluno—que se encontra ausente: “A nudez, o anonimato do quarto era seriamente desafiador. Cama, cômoda, mesa, cadeira. Apenas a mobília que tinha de ser providenciada para que o quarto pudesse ser anunciado como mobiliado. Até mesmo a colcha marrom de chenile devia já estar ali antes de ele ter se mudado. Nada de quadros—nem mesmo um calendário—e, o mais surpreendente, nada de livros. As coisas deviam estar escondidas em algum lugar. Nas gavetas da cômoda? Ela era incapaz de olhar. Não apenas porque não havia tempo—podia ouvir Elizabeth chamando lá do jardim–, mas a própria ausência de qualquer coisa que pudesse ser considerada pessoal tornava a sensação de Lionel mais forte”; outro detalhe fascinante, para mim: a intrusão de Polly, a prima, na casa de Lorna, me lembrou—com o momento fantástico em que ela volta com a família para casa, após um fim-de-semana, crente de que encontrará sua hóspede morta por suicídio, num espetáculo destinado a assombrar seus dias, por ter desertado da família—a dinâmica entre as duas personagens principais de Homens e Anjos, a obra-prima de Mary Gordon).

Imaginava que se não tivesse sido capaz de fazer aquilo, sua vida talvez tivesse sido completamente diferente.

    Como?

    Talvez não houvesse permanecido com Pierre. Talvez não tivesse conseguido manter seu equilíbrio. Tentar equiparar o que fora dito antes da balsa com o que fora dito  e feito mais cedo naquele mesmo dia a teria tornado mais alerta e mais curiosa. Orgulho e contrariedade talvez tenham desempenhado um papel—a necessidade de fazer algum homem engolir aquelas palavras, uma recusa em aprender sua lição—mas isso não teria sido tudo. Havia um outro tipo de vida que ela poderia ter tido—o que não era o mesmo que dizer que teria preferido assim. Provavelmente por causa de sua idade (algo que estava sempre se esquecendo de levar em conta) e por causa do ar frio e rarefeito que respirava desde a morte de Pierre é que podia pensar naquele outro tipo de vida simplesmente como uma espécie de pesquisa, compreendendo suas armadilhas e realizações.

     Talvez a pessoa não descobrisse tanta coisa, afinal. Talvez a mesma coisa vez após outra—que poderia ser um fato óbvio, porém perturbador, acerca de si mesma. No caso dela, o fato de que a prudência—ou pelo menos algum tipo econômico de gerenciamento emocional—fora sua luz guia em todo o percurso. (trecho de O que é lembrado)

Levantei-me e caminhei pelo apartamento. A gente nunca pode dar uma boa olhada nos lugares onde as pessoas moram enquanto elas estão lá.

    A cozinha era o espaço mais agradável, embora escuro demais. Queenie tinha hera crescendo em torno da janela sobre a pia e colheres de pau enfiadas numa linda caneca sem alça, exatamente do jeito que a Sra. Vorguilla costumava ter. Na sala de estar, havia um piano, o mesmo piano que estivera na outra sala de estar. Havia uma poltrona, uma estante de livros feita com tijolos e tábuas, um aparelho de som, uma porção de discos esparramados pelo chão. Nada de tevê. Nada de cadeiras de balanço em nogueira ou de cortinas bordadas. Nem mesmo o abajur de papel-arroz com cenas japonesas. Ainda que todas essas coisas houvessem feito parte da mudança para Toronto, num dia de neve. Eu estivera em casa na hora do almoço e vira o caminhão de mudança. Bet não conseguia sair de perto da vidraça na porta da frente. Finalmente esqueceu toda a dignidade que normalmente gostava de aparentar para estranhos, abriu a porta e gritou para os homens da mudança: Voltem para Toronto e digam a ele que se algum dia der as caras por aqui outra vez vai se arrepender pelo resto da vida.

   Os homens acenaram alegremente, como se estivessem acostumados com cenas como essa, e talvez estivessem. Mudança de mobília deve expor a pessoa a muito xingamento e rancor.

   Mas para onde fora tudo? (trecho de Queenie)

Inúmeras vezes ele alimentara o orgulho, a fragilidade de alguma mulher, oferecendo-lhe mais afeição—ou uma paixão mais selvagem—do que qualquer coisa que realmente sentisse. Tudo isso para que se visse agora sendo acusado de ferir, explorar, destruir a autoestima. E de enganar Fiona—como é claro de fato enganara; mas teria sido preferível fazer com os outros fizeram com suas esposas e deixá-la?

    Jamais considerara tal coisa. Em nenhum momento parara de fazer amor com Fiona, a despeito das exigências complicadoras em alguma outra parte. Jamais ficara longe dela nem por uma única noite. Nada de inventar histórias intricadas a fim de passar um fim de semana em San Francisco ou acampar na Ilha de Manitoulin. Pegara leve com o baseado e a bebida e continuara a publicar artigos acadêmicos, participar de comitês, progredir em sua carreira. Jamais tivera qualquer intenção de jogar pela janela seu trabalho e seu casamento e ir embora para o campo a fim de praticar marcenaria e cuidar de abelhas. (trecho de The bear came over the mountain)

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[1]  A obra de Alice Munro apresenta um “parentesco”, também, com a de uma escritora injustamente esquecida, que nos deixou vários livros excelentes de narrativas mais curtas, Katharine Anne Porter, e com a parte contística da produção de Doris Lessing.

[2] “Sabitha era agora uma pessoa reservada, bonita e, notável, incrivelmente magra. Usou um chapéu preto sofisticado e não falou com ninguém, a não ser que lhe dirigissem a palavra antes (…) Na igreja Edith tomara a precaução de não falar com Sabitha primeiro; logo, Sabitha não poderia falar com ela.”

[3] Urtigas é outra prova cabal do modo magistral com que Munro constrói seus textos, sempre partindo de informações fragmentárias, “soltas”, e de tempos alternados, para depois chegar ao âmago da anedota. Por essa razão, um dos aspectos mais interessantes desse conto é a parte da infância, em que a narradora seleciona elementos nostálgicos bem flanneryanos, como uma brincadeira de crianças que se revela um jogo de guerra bastante sexualizado, e muito ligado à morte, a baixas humanas, além da descrição da atividade econômica familiar, com seu elemento de brutalidade pragmática:

“Eu tinha mais familiaridade com sangue e matança de animais do que Mike. Levei-o para ver a mancha num canto do pasto, próximo ao portão do curral anexo ao celeiro, onde meu pai sacrificava e cortava os cavalos com os quais alimentava as raposas e martas. O chão era liso de tão pisoteado e parecia tingido de cor de sangue, um vermelho-ferrugem escuro. Então eu o levei para o açougue no celeiro, onde as carcaças dos cavalos ficavam dependuradas antes de serem moídas para virar ração. O açougue era apenas um barracão com paredes de tela, que ficavam cobertas de moscas, enlouquecidas com o cheiro de carne apodrecendo. A gente pegava as leves telhas de madeira e esmagava um monte delas.” O Canadá apresentado por Munro é um palimpsesto de tempos, onde o rústico, o rural, o ermo convive com o urbano, o s choques contraculturais, os modismos. Veja-se o seguinte exemplo (um, entre muitos), tirado de Mobília de Família:

“Os dentes das pessoas nessa época dificilmente apresentavam um aspecto maciço e bonito como os das pessoas de hoje, a menos que fossem falsos. Mas esses dentes de Alfrida eram invulgares em sua individualidade, seu espaçamento linear e seus tamanhos avantajados…”

[4] Que o tradutor preferiu deixar no original, já que é a alusão à canção folclórica em que o urso vai para atrás da montanha para saber o que havia lá…e lá havia o outro lado da montanha.

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06/03/2013

Para seguidores e neófitos de Poe: Os arabescos de CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO

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“E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo (…) Desmaiara;mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo—não! No delírio—não! Em um desmaio—não! Na morte—não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E, contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia),não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloqüentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é—o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba?”

“… um asco para o qual o mundo não tem um nome…”

           (Edgar Allan Poe, O poço e o pêndulo)

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

(a resenha abaixo, sem as notas de rodapé e os trechos selecionados, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de março de 2013)

Um novo seriado de sucesso, The Following, no qual um professor de literatura psicopata arregimenta seguidores em crimes que evocam o universo de Edgar Allan Poe (1809-1849), recolocou em pauta o fascínio exercido pelo genial escritor norte-americano[1].

Assim, é oportuno que a Tordesilhas tenha lançado Contos de Imaginação e Mistério, em tradução de Cássio de Arantes Leite [o Prefácio, um célebre texto de Baudelaire, foi traduzido por Daniel Abrão]. Aproveitou-se uma edição clássica (Tales of mystery and imagination, publicada em Londres pela editora Harrap, em 1919), reunindo um terço das histórias de Poe, com ilustrações marcantes e altamente estilizadas (com toque à Beardsley) de Harry Clarke (1889-1931) para o universo das 22 narrativas, entre as quais poucas não são presença constante em antologias: Leonizando, 1835; Silêncio—Uma fabula, 1837;  O Colóquio de Monos e Una, nenhuma das três, a meu ver, memorável, a não ser que o leitor se deleite, por exemplo, com o diálogo entre as almas de dois amantes, em que um dos interlocutores narra sua própria decomposição.

Entre as “canônicas”, a mais antiga é de 1833, Manuscrito encontrado numa garrafa, que dá o tom a quase todas elas (geralmente em primeira pessoa[2]):  o protagonista, após um fenômeno atmosférico singular em alto mar ,descobre-se a bordo de um navio fantasma. Como sói acontecer nas minhas leituras de Poe, nunca dera até agora importância ao texto antes, porém a revisão—e ter em mente que foi escrito aos 24 anos—o valoriza tremendamente. A derradeira, em termos cronológicos, é uma obra-prima sobre a execução atroz de uma vingança, O Barril de Amontillado (1846), e já mostra como ele se exercitava novas modulações para seus temas recorrentes: o diálogo é vivo e matreiro, e nada falta-nada sobra no texto; pois, genialidade à parte, Poe não costumava apurar sua prosa (até porque morreu aos 40 anos), e atura-se muita retórica pomposa, muita necessidade pueril de enfatizar desnecessariamente uma atmosfera “tenebrosa”, que as fabulações já tinham de sobra, sem essas apelações. Até a qualidade da tradução (com uma exceção importante, que comentarei adiante, e não levando em conta os injustificáveis erros de revisão[3]) colabora para que esses floreios cansativos fiquem evidentes.

Da safra dos anos 1830, temos O Encontro Marcado, Rei Peste,  A Queda da Casa de Usher, William Wilson,  todas famosas e marcantes:  um pacto de morte entre amantes, em Veneza; uma estranha corte onde marinheiros pândegos elegem um “rei”  na Londres abandonada devido à Peste, um solar que vem abaixo, apocalipticamente, no momento mesmo que o casal de gêmeos—últimos descendentes de uma família senhoria—sucumbe à morte anunciada; e, claro, a fábula pré-freudiana que originou  infinidade de variações, envolvendo um duplo do herói[4] ;  e como esquecer a trinca de nome de mulheres: Berenice, Morella, Ligeia: a primeira é ainda a mais impressionante, com o heroi violando o túmulo da amada para ficar com seus dentes; as outras não ficam muito atrás: uma filha que é a reencarnação da mãe (falecida no parto) e com uma personalidade adulta e moribunda desde tenra infância; e uma segunda esposa que é possuída pela alma da primeira.

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Embora cultuadas por uma infinidade de leitores (que justificam o postulado de The Following), é preciso dizer que nenhuma delas deixa de ter páginas rebarbativas e “poluídas”. Poe  quase estraga A Queda da Casa de Usher por prolongar inutilmente  suas obsessões necrófilas , só chegando ao clímax da destruição da casa nuns poucos parágrafos finais abruptos. Sequer a extraordinária e paradigmática William Wilson escapa de umas  tantas “gordurinhas”.

Nos textos dos anos 1840, já bem amadurecido, ele vai oscilar entre os relatos bem longos (é caso das aventuras que deram origem ao gênero detetivesco: Os Assassinatos da Rue Morgue e O Mistério de Marie Roget, das quais nunca consegui ser muito entusiasta, apesar da sua óbvia importância histórica) e contos mais bem modulados, menos monocórdios e bombásticos. Dessa década, infelizmente a final, temos Uma descida no Maelström, A Máscara da Morte Vermelha,  O poço e o pêndulo, O Coração Denunciador O Escaravelho de Ouro, O Gato Preto, O Enterro Prematuro: uma exemplar “história de pescador”; as alucinantes (e definitivas) visões da Peste como “penetra” num baile de uma torpe elite, que deixara o povo à mercê do caos e do horror, e das torturas impetradas pela Inquisição; temos um coração e um gato que denunciam, de um modo excruciante, em clima de pesadelo, os crimes dos narradores (diga-se de passagem, há um quê de revolucionário em apresentar protagonistas criminosos e sórdidos); temos uma caça ao tesouro através da decifração de um criptograma (aqui, todos os efeitos engenhosos do texto são destruídos no que concerne ao leitor brasileiro, pois o Cássio de Arantes Leite não se deu ao trabalho de encontrar equivalentes em português às partes do código; uma pena, pois a narrativa—uma das “longas” do volume—é brilhante); e, por fim, temos uma sequência de “causos” sobre a possibilidade de se enterrar alguém vivo, que tem o seu quinhão de mistificação, e também o charme de mostrar que Poe já se divertia e brincava com seus temas obsedantes. O que ficou dele, portanto, já é assombroso e único, imagine se vivesse mais tempo, com sua arte se apurando em consonância com sua afiadíssima imaginação.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinado no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente (…) No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrasa de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu-se, oscilou—e precipitou-se.”  (Manuscrito encontrado numa garrafa, 1833-a ilustração abaixo não é de Harry Clarke)

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“Sonhar, continuou, retomando o tom de sua conversa errática, conforme erguia à rica luz de um incensório um dos magníficos vasos—, sonhar tem sido a ocupação de minha vida. De tal modo que excogitei para mim, como vê, um refúgio de sonhos. No coração de Veneza poderia eu ter erguido um melhor? O que o senhor contempla em torno, admito, é uma miscelânea de ornamentos arquitetônicos. A pureza da Jônia ultrajada por motivos antediluvianos, e as esfinges do Egito esticando-se sobre tapetes de ouro. E contudo, o efeito é incongruente apenas para o tímido. Convenções de lugar, e sobretudo de época, nada são além de abominações que insuflam terror na espécie humana, abstendo-a de contemplar a magnificência…” (O encontro marcado, 1834)

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“A batida de uma porta me perturbou e, ao erguer o rosto, descobri que minha prima partira do aposento. Mas do desordenado aposento da minha cabeça, ai de mim!, não partira, nem era expulso, o espectro branco e fantasmagórico de seus dentes (…) Vejo-os agora ainda mais inequivocamente do que os contemplei então. Os dentes!—os dentes!—estavam aqui, e lá, e por toda parte, e visivelmente, palpavelmente, diante de mim; longos, estreitos e excessivamente brancos, com os lábios pálidos se contraindo em torno, como no próprio momento de seu primeiro e terrível crescimento. Então seguiu-se a plena fúria de minha monomania, e lutei em vão contra sua estranha e irresistível influência. Dentre os múltiplos objetos do mundo externo eu não tinha pensamentos senão para os dentes. Por eles anelava com desejo maníaco (…) e eles, em sua individualidade única, tornaram-se a essência de mina vida espiritual…” (Berenice, 1835)

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“Mas na verdade, chegara agora um tempo em que o mistério da conduta de minha esposa me oprimia como um feitiço. Eu já não suportava o contato de seus dedos lívidos, nem o tom grave de seu falar musical, tampouco o brilho de seus olhos melancólicos. E ela sabia disso tudo, mas não me censurava; parecia consciente de minha fraqueza ou de minha insensatez e, sorrindo, chamava a isso Destino. Parecia, ainda, consciente de uma causa, por mim desconhecida, para o gradual alheamento de minha estima (…) E contudo era mulher, e o anseio a consumia a cada dia. No fim, a mancha escarlate  se fixou firmemente em sua face, e as veias azuis sobre a fronte pálida ficaram proeminentes; e, num instante, minha natureza se fundia em piedade, mas no seguinte, eu cruzava o relance de seus olhos eloqüentes, e então minha alma adoecia e ficava tonta com a tontura de quem baixa o rosto para o interior de algum abismo austero e insondável…” (Morella, 1835)

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“_Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com sua presença?

__Querida Duquesa, irei de todo coração.

__ Ora bolas, não!—virás com todo teu nariz?

__Cada pedacinho dele, meu amor, disse eu; então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack´s.

  Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

__ Aí vem ele!, disse alguém na escadaria.

__ Aí vem ele!, disse alguém mais no alto.

__ Aí vem ele!, disse alguém ainda mais no alto.

__ Ele veio!, exclamou a Duquesa. Ele veio, o amorzinho!—e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vez no nariz.” (Leonizando, 1835, que tem algo de um Oscar Wilde “avant le lettre”, por isso coloquei uma ilustração de Beardsley abaixo)

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“Diante de cada um daquele grupo havia um crânio cortado, que era usado como taça. Acima ficava suspenso um esqueleto humano, pendurado por uma corda amarrada a uma das pernas e presa a uma argola no teto. A outra perna, livre de qualquer peia, projetava-se do corpo em ângulo reto, levando toda a ossada solta e chocalhante a balançar e girar ao sabor de qualquer ocasional sopro de vento que porventura invadisse o ambiente. No crânio dessa coisa hedionda havia um punhado de carvão em brasa que lançava uma luz indecisa mas vívida sobre toda a cena; enquanto caixões e outros artigos pertencentes à oficina de um agente funerário empilhavam-se até o teto em torno da sala, obstruindo todas as janelas e impedindo qualquer raio de luz de escapar para a rua.

  À visão dessa extraordinária assembléia, e deus ainda mais extravagantes aparatos, nossos dois marujos não se conduziram com esse grau de decoro que seria de esperar…”  (O Rei Peste, 1835)

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“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da comoção; e uma apavorante tempestade se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade—e as pancadas de chuva se abateram sobre a cabeça do homem—e houve cheias no reio—e o rio tornou-se um tormento espumoso—e os nenúfares guincharam em seus leitos—e a floresta foi destroçada pelo vento—e o trovão reverberou—e o raio caiu—e a rocha sacudiu em suas fundações. E eu permaneci em meus esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão;–mas a noite  declinava e ele sentava sobre a rocha.

   Então tomei-me de fúria e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos nenúfares. E foram amaldiçoados, e acalmaram-se…” (Silêncio-Uma fábula, 1837; há discrepâncias no texto quanto a essa data de publicação original—nas notas aparece o ano de 1838)

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“Umas poucas otomanas e candelabros de ouro, de feitio oriental, eram dispostos em pontos variados—e havia também o divã—o divã nupcial—de um modelo indiano, baixo, esculpido em ébano sólido, encimado por um dossel semelhante a um pálio fúnebre. Em cada um dos cantos do aposento fora colocado de pé um gigantesco sarcófago de granito negro, das tumbas dos reis diante de Luxor, com suas tampas antiqüíssimas cobertas de entalhes imemoriais. Mas era na colgadura do apartamento que residia, hélas! A principal fantasia de todas. As elevadas paredes, gigantescas na altura—beirando mesmo a desproporção—cobriam-se de alto a baixo, em bastos pregueados, por uma tapeçaria pesada e de aspecto maciço—feita de um material que era igualmente encontrado no chão, como coberta para as otomanas e a cama de ébano, como dossel para a cama e como as cortinas de suntuosas volutas que tampavam parcialmente a janela. O material era um riquíssimo tecido de ouro. Pintado inteiramente, a intervalos irregulares, com padrões de arabescos, medindo cerca de 30 centímetros de diâmetro, e lavrados sobre o tecido em padrões do mais negro azeviche. Mas esses padrões partilhavam da genuína característica do arabesco (…) eram feitos de modo a assumir um aspecto mutável. Para alguém adentrando o ambiente, exibiam a aparência de simples monstruosidades; mas ao se avançar mais além, essa aparência gradualmente desaparecia; e, passo a passo, conforme o visitante mudasse de posição no aposento, via-se cercado por uma infinita sucessão das formas espectrais pertencentes à superstição dos normandos ou surgidas nos sonos culpados do monge. O efeito fantasmagórico era vastamente ampliado pela introdução artificial de uma corrente de vento forte e persistente por trás dos reposteiros—emprestando ao todo uma animação hedionda e inquietante…” (Ligeia, 1838)

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“Ele era prisioneiro de certas impressões supersticiosas com respeito à morada que ocupava,e a qual, por muitos anos, jamais se aventurara a deixar—com respeito a uma influência cuja força espúria era transmitida em termos obscuros demais para serem aqui reiterados—uma influência que algumas peculiaridades na mera forma e substância de sua mansão familiar haviam, por força do longo sofrimento, disse-me, obtido sobre seu espírito—um efeito que a constituição das paredes e torres cinzentas, e do escuro lago dentro do qual tudo isso se mirava, havia, enfim, produzido sobre o ânimo de sua existência.

   Ele admitia, entretanto, embora com hesitação, que grande parte da peculiar melancolia que desse modo o afligia podia ser rastreada até uma origem mais natural e muito mais palpável—à enfermidade grave e prolongada—na verdade, ao óbito evidentemente próximo—de uma irmã ternamente adorada—sua única companheira por longos anos—sua última e única relação de sangue no mundo. Seu falecimento, disse com um amargor que jamais esquecerei, faria dele (ele, o desesperado e frágil), o último da antiga estirpe dos Usher…” (A Queda da Casa de Usher, 1839)

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“Já falei mais de uma vez dos repulsivos ares protetores que assumia em relação a mim, e da interferência freqüente e obsequiosa com minha vontade. Essa interferência muitas vezes ganhava o caráter indesejável de um conselho; conselho não abertamente dado, mas sugerido ou insinuado. Eu recebia isso com uma aversão que ficava mais forte a cada ano que passava. E contudo, nesse dia distante, que me seja permitido lhe fazer apura justiça de admitir que não consigo me recordar de uma ocasião sequer em que as sugestões de meu rival tenderam pelo lado desses erros ou tolices tão comuns a sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, no mínimo, quando não seus talentos gerais e sabedoria mundana, eram de longe muito mais penetrantes que os meus; e que eu poderia, hoje, ter me constituído num homem melhor e, desse modo, mais feliz, houvesse com menos freqüência rejeitado os conselhos manifestados naqueles sussurros significativos que na época com tanta veemência odiei e com tanta amargura desprezei.

    Do modo como foi, acabei por me mostrar impaciente ao extremo sob sua tutela desagradável e a me ressentir cada vez mais abertamente do que considerava sua arrogância intolerável…” (William Wilson, 1839)

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“Parece-me que o mistério é considerado insolúvel pelo mesmo motivo que deveria fazer com que fosse tido como de fácil solução—quero dizer, pelo caráter outré de suas circunstâncias. A polícia está perplexa com a aparente ausência de motivo—não com o crime em si—mas com a atrocidade do crime. Estão desconcertados, também, pela aparente impossibilidade de conciliar as vozes ouvidas em altercação com o fato de que ninguém foi encontrado no andar de cima além da assassinada Mademoiselle L´Espanaye, e de que não havia meios de sair sem passar pelo grupo que subia. A desordem selvagem do quarto; o cadáver enfiado, de cabeça para baixo, pela chaminé; a pavorosa mutilação do corpo da velha senhora; essas considerações, juntamente com as que acabo de mencionar, e outras a que não é necessário fazer menção, bastaram para paralisar as autoridades, deixando completamente às escuras seu tão propalado acúmen. A polícia caiu no erro grosseiro mas comum de confundir o insólito com o abstruso. Mas é nesses desvios do pano do ordinário que a razão encontra seu caminho, se é que o encontra, na busca da verdade. Em investigações tais como as que empreendemos agora, não deve tanto ser perguntado o que ocorreu como o que ocorreu que nunca ocorreu antes. Na verdade, a facilidade com que chegarei, ou cheguei, à solução desse mistério está em proporção direta cm sua aparente insolubilidade aos olhos da polícia…” (fala o gabola detetive Dupin de Os assassinatos da Rue Morgue, 1841)

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“Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos nas próprias garras da voragem, eu sentia maior frieza do que no momento em que apenas nos aproximávamos. Tendo me determinado a não alimentar mais qualquer esperança, livrei-me em grande parte daquele terror que me privava do brio no início. Presumo que era o desespero que me abalava os nervos.

    Pode parecer bravata—mas o que lhe digo é a verdade—comecei a refletir sobre a coisa magnífica que era morrer daquela maneira, e que tolice da minha parte pensar numa consideração tão mesquinha como minha própria vida individual em vista de uma manifestação tão maravilhosa do poder de Deus (…) Pouco depois fui possuído da curiosidade mais intensa sobre o próprio torvelinho. Senti um positivo desejo de explorar suas profundezas, mesmo ao preço do sacrifício que estava prestes a fazer…” (Uma descida no Maelström, 1841)

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“A atividade no corpo animal cessara por completo. Músculo algum estremecia; nervo algum vibrava; artéria alguma palpitava. Mas ele parecia ter brotado no cérebro, isso a respeito do qual palavra alguma podia transmitir à inteligência meramente humana uma concepção até mesmo vaga. Permita-me denominá-lo uma pulsação pendular mental. Era a encarnação moral da ideia abstrata que o homem faz do Tempo. Pela absoluta uniformização desse movimento—ou de tais como ele—os ciclos dos próprios orbes do firmamento foram ajustados. Com seu auxílio medi as irregularidades do relógio sobre a lareira, e dos relógios de bolso dos atendentes. O tique-taque deles chegou-me penosamente aos ouvidos. Os mais ligeiros desvios da autêntica proporção—e esses desvios predominavam em todos—afetavam-me exatamente como as violações da verdade abstrata costumavam, no mundo, afetar o senso moral. Embora não houvesse ali no aposento dois relógios capazes de  dar os segundos individuais pontualmente juntos, mesmo assim não tive dificuldade em manter com firmeza em minha mente os tons e respectivos erros momentâneos de cada um…” (O Colóquio de Monos e Una, 1841)

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“O sétimo apartamento era densamente amortalhado em reposteiros de veludo negro pendendo por todos os lados do teto e das paredes, caindo em pesados drapejamentos sobre um tapete de mesmo material e matiz. Mas apenas nesse recinto a cor das janelas deixava de corresponder à da decoração. As vidraças eram escarlates—uma profunda cor de sangue. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia lamparina ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todo o recinto ou pendurados no teto. Não havia luz de espécie alguma emanando de lamparina ou de vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que atravessavam o conjunto ficava, diante de cada janela, um pesado tripé portando um braseiro incandescente que projetava seus raios através do vidro colorido e, desse modo, iluminava intensamente o ambiente. E assim se produzia uma variedade de fenômenos extravagantes e fantásticos. Mas no aposento oeste, ou salão negro, o efeito da luz do fogo que vertia sobre os reposteiros escuros através das vidraças tintas de sangue era macabro ao extremo e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes dos que ali entravam que poucos dentre os convidados eram suficientemente ousados para até mesmo pisar ali dentro.

   Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo, extraordinariamente musical, mas vibrando com nota e ênfase tão peculiares que, ao lapso de cada hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua apresentação, para escutar o som; e desse modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava conta de toda a alegre comitiva; e, enquanto o carrilhão do relógio ainda soava, observava-se que os mais agitados iam ficando pálidos, e os mais idosos e entorpecidos passavam a mão na testa como que em confuso devaneio ou meditação…” (A máscara da morte vermelha, 1842)

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“Como você observou em suas anotações, a opinião mais geral acerca desse triste episódio é, e sempre foi desde o início, a de que a garota havia sido vítima de uma gangue de meliantes. Ora, a opinião popular, sob certas condições, não deve ser desprezada. Quando surgida por si mesma—quando se manifestando de um modo estritamente espontâneo—devemos olhar para ela como análoga a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio individual. Em 99 de cada 100 casos eu me pautaria pelo que ela decidir. Mas é importante não encontrarmos o menor vestígio palpável de sugestão. A opinião deve ser rigorosamente apenas do público; e a distinção é muitas vezes sumamente difícil de perceber e de manter. No presente caso, parece-me que essa opinião pública em relação a uma gangue foi introduzida pelo evento colateral que está detalhado no terceiro dos meus excertos. Toda Paris ficou agitada com a descoberta do cadáver de Marie, uma moça jovem, muito bonita e conhecida. Esse corpo foi encontrado exibindo marcas de violência e boiando no rio. Mas é depois divulgado que, nesse mesmo período, ou por volta desse mesmo período, em que se supõe que a garota foi assassinada, uma barbaridade de natureza similar à que se submeteu a falecida, embora em menor extensão, foi perpetrada por uma gangue de jovens rufiões contra a pessoa de uma segunda jovem. Não é extraordinário que uma atrocidade conhecida influencie o juízo popular em relação à outra, desconhecida? Esse juízo aguardava uma orientação, e a conhecida barbaridade pareceu tão oportunamente concedê-la! (…) A ligação entre os dois eventos teve tanto de palpável que o verdadeiro motivo de espanto teria sido a população deixar de percebê-la e dela se apoderar…” (O Mistério de Marie Roget, 1842)

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“Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessava a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento de fuga chegara (…) Naquele momento, ao menos, eu estava livre.

   Livre!—e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre!—eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum—alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente—, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente…” (O poço e o pêndulo, 1842)

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“Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento!—prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso; sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que  o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim—o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho!…” (O coração denunciador, 1843—pode ser apenas uma impressão confusa da minha parte, mas me parece que, em termos estilísticos, a primeira pessoa é exercitada aqui de maneira superior aos textos da década anterior)

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“Nesse estágio de minhas reflexões, empenhei-me em me lembrar, e de fato lembrei-me, com perfeita nitidez, de cada incidente ocorrido no período em questão. Fazia frio (ah, que acidente raro e feliz!), e um fogo ardia na lareira. Eu estava acalorado pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, puxara uma cadeira para junto da lareira. Assim que pus o pergaminho em sua mão, e você estava no ato de inspecioná-lo, Wolf, o terra-nova, entrou e saltou sobre seus ombros. Com sua mão esquerda, o acariciou e o manteve à distância, enquanto sua mão direita, segurando o pergaminho, pôde pender frouxamente entre seus joelhos, e em estreita proximidade com o fogo. A certa altura imaginei que a chama o alcançara, e estava prestes a adverti-lo, mas, antes que pudesse falar, você o recolheu, e passou a examiná-lo. Quando considerei todas estas particularidades, não duvidei sequer por um momento que o calor fora o agente que trouxera à luz, sobre o pergaminho, o crânio que ali vi desenhado. Está bem ciente de que tais preparados químicos existem, e existiram desde sempre, por meio dos quais é possível escrever, seja em papel, seja em velino, de modo que os sinais se tornem visíveis apenas quando submetidas à ação do fogo (…)

    Examinei então a caveira cuidadosamente. Seus contornos exteriores—as bordas do desenho mais próximas das bordas do velino—eram muito mais nítidas do que as outras. Ficou claro que a ação térmica fora imperfeita ou desigual. Imediatamente acendi uma chama e submeti cada área do pergaminho a um calor ardente…” (O escaravelho de ouro, 1843, mau momento da tradução de Cássio de Arantes Leite, e texto-arauto tanto de Verne quanto de Stevenson)

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“De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém—não sei dizer como nem por que—sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente—muito gradualmente—comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.

   O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subseqüente à noite em que o levei para casa, de que como Pluto, ele também fora privado de um olho (…) Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim parecia aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender…” (O gato preto, 1843)

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“As fronteiras que dividem a Vida e a Morte são, na melhor das hipóteses, obscuras e vagas. Quem poderá dizer onde uma termina e onde a outra começa? Sabemos da existência de enfermidades em que ocorre a total cessação de todas as funções aparentes de vitalidade, e nas quais contudo essas cessações são meramente suspensões, propriamente falando. São apenas pausas temporárias no mecanismo incompreensível. Um certo período transcorre, e algum misterioso princípio mais uma vez põe em movimento os mágicos escapos e as enfeitiçadas engrenagens. O fio de prata ainda não se soltou para sempre, tampouco o cálice de ouro se quebrou irremediavelmente. Mas onde, nesse meio-tempo, ficou a alma?” (O enterro prematuro, 1844, que por incrível que pareça é um dos textos mais “leves” da coletânea)

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“Falei tanto de som como de voz. Quero dizer que o som foi pronunciado com extrema nitidez—com extraordinária, penetrante nitidez—, sílaba a sílaba. O Sr. Valdemar falou—obviamente em resposta à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:

__ Sim;–não; eu estava dormindo—e agora—agora—estou morto.

    Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras, assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O estudante desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e não houve como convencê-los a voltar. Quanto a minhas próprias impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio—sem que ninguém pronunciasse uma única palavra—, dos procedimentos para reanimar o estudante. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar a condição do Sr. Valdemar. (Os fatos do caso do Sr. Valdemar, 1845, em cuja tradução mexi ligeiramente)

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“__ (…) Um trago deste Médoc nos protegerá da umidade.

   Nisso destampei o gargalo de uma garrafa que puxei de uma longa fileira de outras iguais a ela que jaziam no solo do sepulcro.

__ Beba, falei, oferecendo-lhe o vinho.

    Ele a levou aos lábios com um lúbrico olhar de soslaio. Parou e balançou a cabeça para mim com familiaridade, os guizos tilintando.

__ Bebo, disse, aos sepultados que repousam em torno de nós.

__ E eu à sua longa vida.

   Voltou a segurar meu braço, e prosseguimos.

__ Estas suas caves, disse, são extensas.

__ Os Montresor, repliquei, eram uma família grande e numerosa.

__ Esqueci quais são suas armas.

__ Um enorme pé dourado, em um fundo blau; o pé esmaga uma serpente rompante cujas presas estão cravadas no calcanhar.

__ E a divisa?

__ Nemo me impune lacessit [Ninguém me fere impunente]

__Magnífico!, disse ele…” (O barril de Amontillado, 1846)

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[1] Os primeiros episódios de The Following foram deprimentemente ruins e previsíveis (dava para antecipar cada cena). Nem mesmo James Purefoy, que esteve tão marcante (ao mesmo tempo bruto e sensual) em Roma, está bem, no seu papel estereotipado de psicopata genial, culto e charmoso. E as alusões a Poe não poderiam ser mais óbvias, quase todas restritas ao poema O Corvo. Voo curtíssimo, portanto, pelo menos até agora. Se mudar o panorama, caso eu não desista de ver, reformularei esta nota.

[2] As exceções se tornam, talvez por isso, bem expressivas, caso de A máscara da morte vermelha.

[3] Em O poço e o pêndulo,um trecho fica absurdo: “Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros” !!!!????

A palavra “incontinenti” é trocada várias vezes por “incontinente”,por exemplo:

“deixei, incontinente, as dependências do antigo ateneu para nunca mais voltar”!!!??

Também há confusão entre “brocha” e “broxa”:

“aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim”!!!???

Um exemplar custa R$59,90. Podiam ser mais profissionais, não?

Em compensação, há momentos muito bacanas na tradução, como o seguinte trecho de Uma descina no Maelström: “Houve uma circunstância inesperada que contribuiu imensamente para reforçar essas observações, e deixar-me ansioso em delas tirar partido, e essa circunstância foi que, a cada revolução, passávamos por algo como um barril, ou então a verga ou o mastro quebrado de um navio, enquanto inúmeras dessas coisas, que havia estado em nosso nível quando abi os olhos pela primeira vez para os portentos do turbilhão, encontravam-se agora muito acima de nós, e pareciam ter se movido muito pouco de sua posição original.”  Aí recupera-se o sentido original de “revolução” e o trecho ganha em expressividade. Há também uma “expressão arabesca” no rosto de alguém, e outros achados bem felizes.

[4] Talvez seja a obra-prima suprema de Poe.

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22/02/2012

Leituras em espelho: O livro do Pai (Os Descendentes) e o livro da mãe (Precisamos falar sobre o Kevin)

“Esther entra com uma pilha de panos de pratos. Ela olha para as meninas, depois olha para mim. Devo estar pálido. Devo parecer completamente perdido, porque ela balança a cabeça e estala a língua. Guarda os panos em uma gaveta. Sussurra alguma coisa no ouvido de Alex e então caminha direto na minha direção. Dou um passo para trás, mas ela agarra minha cabeça e me puxa contra os seios. Fito seu peito, horrorizado, mas depois me entrego, e pela primeira vez choro de verdade, como se só agora percebesse o que está acontecendo com minha esposa, comigo e com essa família. Minha esposa não vai voltar, minha esposa não me amava, e tenho de cuidar das coisas daqui pra frente.” (Os descendentes)

“Portanto, meu receio não era apenas de virar minha mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionária que fornece a plataforma para a abordagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta—desmazelada, meio gorda—que acena adeuses e manda beijos quando uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com o babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído (…) Eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho… Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com meu próprio egoísmo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o ´virar da página´, sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia…” (Precisamos falar sobre o Kevin)

   É necessário esclarecer que, ao colocar como “leituras em espelho” Precisamos falar sobre o Kevin & Os descendentes, não estou equiparando-os em termos de qualidade.

   Os descendentes está longe de  ter o quilate literário, a complexidade e a autoridade moral de Precisamos falar sobre o Kevin (mesmo porque é um livro que apresenta os acertos e erros típicos de um primeiro romance), mas os dois se tangenciam ao privilegiar os polos paterno (no caso do primeiro) e materno (no caso do segundo) como eixo estruturador das narrativas em primeira pessoa; além disso, ambos foram material de origem para versões cinematográficas de 2011, agora exibidas no Brasil.

O LIVRO DO PAI

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos em 21 de fevereiro de 2012)

    Assim como as novas capas nacionais de Precisamos falar sobre o Kevin e O espião que sabia demais, a de Os descendentes (a tradução de Cássio de Arantes Leite para The descendants, EUA-2003) reproduz o cartaz do filme e representa uma decisão bem mais deletéria porque, ao contrário dos demais, o romance de  estreia de Kaui Hart Hemmings é mais frágil literariamente e pode ser facilmente engolido  pelo prestígio (superestimado, a meu ver) da versão cinematográfica de Alexander Payne, a qual, aliás, é bastante fiel às linhas gerais da trama.

    Quem narra é Matt King: ele e sua numerosa família (em termos de primos dos mais diversos graus) são descendentes de uma princesa havaiana nativa e um missionário americano e possuem uma quantidade apreciável de terras cobiçadas pela especulação imobiliária. Matt detém o poder de bater o martelo a respeito do comprador adequado. Esse lado da história, com raízes na própria história do Havaí (“…agora me pego relutando em abrir mão disso—da terra, da próspera relíquia de nossa tribo, dos mortos. A última terra possuída por havaianos terá ido embora, e eu terei minha participação nisso. Mesmo que a gente não pareça havaiano, mesmo que nossa constante recombinação tenha apagado a evidência de nossa etnicidade, protraindo nossos rostos achatados, alisando nosso cabelo pixaim, mesmo que a gente  aja como haoles, frequentando escolas particulares e clubes,sem dominar muito bem o inglês pidgin, minhas filhas e eu somos havaianos, e essa terra é nossa…”), é o que  mais me interessou, mas não é suficientemente desenvolvido nem pela autora nem pelo roteiro do filme (no qual ela faz uma participação rápida, como funcionária do protagonista), tanto que a resolução final de Matt King não convence e parece uma solução de compromisso politicamente correta.

    A trama se volta mais para a perplexidade dele em cuidar das filhas problemáticas com a esposa em coma, após um acidente de barco (“Olho para minhas filhas, completos mistérios, e por um breve momento tenho a horrível sensação de que não quero ficar sozinho no mundo com essas duas meninas. Estou aliviado por não terem me perguntado do que eu mais gosto nelas”), que se complica com o veredicto médico: ela não recuperará a consciência e deixou instruções explícitas para não ser mantida viva por aparelhos. Pior ainda: descobre que Joanie (no filme, Elizabeth) estava apaixonada por outro e pretendia deixá-lo. Resolve, então, procurar o amante, e aí parte em viagem com as filhas e o amigo/namorado/ficante, sabe-se lá o quê (de qualquer forma, um tipo meio Débi & Lóide), da mais velha, o que dá ao desenrolar da narrativa um ar de Pequena Miss Sunshine (um grupo familiar disfuncional jogado no mundo, que mesmo assim descobre que a família ainda é a unidade básica com que contamos para enfrentar essa realidade que vivemos) mesclado com A família Savage (filme que poderia ter sido dirigido por Payne, e parece ter sido marcado pelos filmes anteriores dele, e que toca num ponto nevrálgico em Os descendentes: como a mortalidade nos ronda, mesmo disfarçada em rotinas hospitalares, detalhes burocráticos, documentação, arranjos práticos—é uma das qualidades da história, tanto no livro de Hemmings quanto na adaptação de Payne).

    O que é difícil de acreditar é que, em meio a uma negociação tão complexa, importante e badalada, as empresas que fizeram ofertas deixem Matt tão livre, leve e solto para confrontar seus fantasmas pessoais, sem pressão de qualquer tipo.

   Mesmo assim, apesar de deixar a desejar neste e em vários aspectos e ficar próximo da banalidade em seu terço final (“Deixo que ele se vá junto com os meus antigos costumes. Todos nós deixamos que ele se vá, bem como o que éramos antes disso, e agora somos só nós três, para valer…”), o romance, como um todo, é bem melhor que o filme (ainda que este não seja um mau filme, só não é o grande filme que as premiações—e os trabalhos anteriores de Payne—nos autorizavam aguardar) e Matt é um narrador que apresenta lampejos e percepções que valem a leitura (“É absurdo quanta coisa se espera que os pais de hoje saibam. Venho de uma escola de pensamento onde a ausência do pai é algo com que se pode contar. Hoje em dia, vejo todos os homens com bolsas camufladas para troca de fraldas e os bebês pendurados em seus peitos como pequenas figuras de proa de um navio. Quando eu era um pai novo, lembro que minhas filhas meio que me incomodavam, por serem bebês, e todo mundo em volta correndo para atender suas necessidades).

Por isso mesmo, posso afirmar que George Clooney (eu sei, eu sei que ele é bonito, charmoso, engajado nas boas causas e quase todo mundo—mulheres, especialmente—acham que ele é sedutor e carismático) esvaziou o personagem de qualquer traço marcante com sua inexpressividade (para mim, uma constante na sua carreira de ator); no elenco, diga-se de passagem, só o veterano Robert Forster consegue deixar um traço memorável como o sogro truculento. Tirando essa limitação intransponível de Clooney enquanto intérprete, quem no entanto acredita seriamente que alguma esposa vai traí-lo com Matthew Lillard, o Salsicha dos filmes do ScoobyDoo, que ressurge em versão marombada?!!! Aí, já não estamos mais no Havaí e sim no território do país das maravilhas e do chapeleiro louco, no “mondo bizarro” cantado pelos Ramones (pelo menos foi a minha primeira impressão: pensando melhor, como Payne é um diretor nada bobo, a escolha desse ator pode significar—e nunca teremos a resposta, só a suspeita, com uma mulher em coma e logo em seguida falecida—o nível de desespero a que uma esposa—com um pé no alcoolismo—pode  chegar ao lado de um marido complacente e basicamente insatisfatório [1], ainda que com a estampa de George Clooney).

O LIVRO DA MÃE

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 07 de fevereiro de 2012)

   Quando Lionel Shriver veio em 2010 ao Brasil, para a FLIP, Precisamos falar sobre o Kevin (a ótima tradução de Beth Vieira  & Vera Ribeiro para We need to talk about Kevin, 2003) já tivera 15 mil exemplares vendidos por aqui. Eu me pergunto, contudo, quantos compradores ficaram realmente satisfeitos com a leitura dessa obra-prima da ficção (provavelmente o mais importante romance da primeira década deste século), uma vez que se faz de tudo para vinculá-la a uma temática específica: o fenômeno das matanças em escolas (é o que faz o Kevin do romance, doze dias antes do massacre de Columbine).

   Geralmente, os livros são exaltados ou por seu aspecto formal ou por seu assunto. A ênfase sempre recai sobre um ou outro pólo. Da minha parte, acho esse vezo lamentável, especialmente no caso de uma autora como Shriver, por razões que, espero, ficarão claras ao longo do meu texto.

   A narrativa é estruturada através das cartas que a mãe de Kevin, Eva Khatchadourian (descendente de armênios), redige para o marido (o qual também foi assassinado), durante aquele período profundamente desmoralizador da recontagem de votos na eleição norte-americana de 2000. E nelas não encontraremos  qualquer vestígio daquelas irritantes e hipócritas “histórias de superação” que nos mostram reis que superam sua gagueira ou adolescentes afro-americanas que sofrem abuso sexual e doméstico, além de bullying na escola, e mesmo assim conseguem sucesso na vida. Não há nenhuma lição positiva, nenhuma “mensagem” a tirar de Precisamos falar sobre o Kevin. Pelo contrário, através da voz peculiaríssima de Eva (que pode se irmanar a outras vozes inigualáveis como a de Riobaldo de Grande sertão: veredas, Humbert Humbert de Lolita ou Holden Caufield de O apanhador no campo de centeio, só para citar algumas; e é absolutamente inusitado que o alicerce dreiseriano, de combatividade e admoestação, que admiro em Zola, Tolstói, Lawrence ou Doris Lessing tenha se plasmado na voz de um personagem, o que dá uma característica original à autora de Precisamos falar sobre o Kevin dentro dessa linhagem: talvez por ter adotado a persona da Mãe ela pôde realizar esse feito único), Shriver lança um terrível anátema contra a civilização norte-americana e o os chamados “valores familiares”.

    Eva reconhece no filho logo cedo a sociopatia. Mas como toda a cultura à sua volta é regida por estereótipos, que vão do amor materno inato ao desejo de etiquetar e rotular cada distúrbio, como se a infelicidade pudesse ser domada e virar um atributo social com nomes como “depressão pós-parto”, “transtorno do déficit de atenção”, “bipolaridade” etc, enfim toda essa a enxurrada de modismos (e bobajadas) psiquiátricos e pedagógicos que enfrentamos na atualidade, ela se vê isolada no seu diagnóstico íntimo e implacável do filho, entrando em rota de colisão com o próprio marido, que nada vê de anormal em Kevin, e o cria com toda a complacência que caracteriza a relação pais e filhos na sociedade de consumo (e depois as pessoas se surpreendem que os afetos tradicionais tenham ficado cada vez mais esgarçados): “Não que Kevin não tivesse tudo em abundância, já que você o enchia de brinquedos (…)Talvez  a sua generosidade tenha saído pela culatra ao forrar o salão de jogos com o que devia parecer um mar de plástico; e talvez ele soubesse que presentes comprados em lojas eram fáceis para nós, que éramos ricos, e portanto, por mais caras que essas tranqueiras fossem, continuavam sendo baratas…”

   E é uma pena que a rara combinação de altíssima realização estética com o que só posso chamar de autoridade moral (e é por isso que não me lembro de nenhum romance contemporâneo ter me abalado tanto, com a exceção de Desonra, de J. M. Coetzee[2]) não tenha sido captada pela versão cinematográfica de Lynne Ramsay. Optando por uma narrativa não-linear, ela passa longe do registro impiedosamente cirúrgico do original e transforma tudo numa espécie de tormento psicológico expressionista, numa atmosfera que sacrifica, em primeiro lugar, a descrição da dinâmica familiar e reduz todos que não são Eva e Kevin a caricaturas grotescas (o que não acontece no romance, com certeza [3]). Além disso, apesar de tanto Jasper Newell quanto Ezra Miller serem perfeitos como Kevin em diferentes fases, precisamos falar sobre o que há de discutível na caracterização de Tilda Swinton: atriz de presença magnética em cena, ela peca pela falta de sutileza, está sempre tão intensa em todos os momentos, é tudo tão dramático no seu olhar, que se tem a intuição de que não precisava dos feitos de Kevin para carregar a mesma dramaticidade exagerada[4]. Como não há progressão na história, tal como contada no filme, quem não leu o romance nunca percebe quando se cristaliza o processo implacável que a torna “mãe do ignóbil Kevin Khatchadourian é quem sou agora, uma identidade que significa mais uma das vitórias de nosso filho…”

  E, por falar em Kevin, não deixa de ser engraçado que as pessoas achem amedrontador o filme de terror recente chamado Filha do Mal. Pois o terror que esse menino, cuja vida conhecemos até os 18 anos, carrega consigo é infinitamente mais devastador: “É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho, e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribuí a rejeição—talvez ele fosse 15 vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego quase a admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antagonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe. Porque, depois de quase dezoito anos, faltando apenas três dias, posso finalmente anunciar que estou exausta demais e confusa demais e sozinha demais para continuar brigando, e, nem que seja por desespero, ou até por preguiça, eu amo meu filho. Ele tem cinco anos para cumprir numa penitenciária de adultos, e não posso botar minha mão no fogo pelo que sairá de lá no final. Mas, enquanto isso, tenho um segundo quarto em meu apartamento funcional. A colcha é lisa. Há um exemplar de ´Robin Hood´ na estante. E os lençóis estão limpos…”

   Em tempo: quem na Intrínseca teve a infausta ideia de trocar a capa brasileira original, que chamava a atenção para o livro de forma tão inquietante, para uma reprodução do cartaz do filme? É a proverbial ideia de jerico.


[1] “… também me lembrei de todas aquelas noites em que ela saía até tarde com as amigas. Terminava desabando na cama, cheirando a tequila ou vinho… Me pergunto se parte de mim não ficava contente por ela estar se mantendo entretida, permitindo que eu me concentrasse em meu trabalho, tão absorto em criar meu próprio legado, em vez de tomar de empréstimo os legados daqueles que vieram antes de mim. Sim. Parte de mim devia gostar de ficar sozinho…”

[2] Eu tenho um caderno repleto de citações copiadas de Precisamos falar sobre o Kevin, suas observações precisas, mortiferamente lúcidas. No entanto, isso seria contraproducente, pois eu poderia citar e citar e não transmitiria o poder do livro como um todo, como experiência de leitura impressionante.

[3] Não se dá nenhuma atenção, por exemplo, ao personagem-chave do marido, vivido por John C. Reilly de forma mais opaca e inexistente ainda do que o normal, mesmo para ele, um ator que não deixa marcas (o que pode ser eficaz em certo tipo de filme, porém é especialmente infeliz diante de Tilda Swinton). Como a narrativa de Eva é dirigida ao marido—que foi uma das vítimas do dia do massacre realizado por Kevin—, às vezes de maneira desleal, por ser um olhar retrospectivo e portanto “informado” , ao qual devemos ficar atentos, considero  essa “ausência”  desastrosa e uma falha perceptível na direção dos atores.

[4] De passagem, pelo que conheço de sua carreira, Swinton ainda está nos devendo uma caracterização em personagem “normal”, do dia a dia. Com seu histrionismo  bem marcado, ela tem sido utilizada em fantasias e caracterizações bizarras:  o papel-título de Orlando, o anjo de Constantine, a bruxa das Crônicas de Nárnia. Ao interpretar uma vilã do mundo empresarial, ou seja, da realidade mais prosaica, em Michael Clayton-Conduta de risco, ela também ficou a dever, muito próxima do caricatural (achei sua premiação com o Oscar bem injusta). Com certeza, ela não é nenhuma Toni Colette que transita bem tanto em constelações mais bizarras quanto no universo mais cotidiano.

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