MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/03/2013

Para seguidores e neófitos de Poe: Os arabescos de CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO


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“E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo (…) Desmaiara;mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo—não! No delírio—não! Em um desmaio—não! Na morte—não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E, contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia),não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloqüentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é—o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba?”

“… um asco para o qual o mundo não tem um nome…”

           (Edgar Allan Poe, O poço e o pêndulo)

Poe capa

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(a resenha abaixo, sem as notas de rodapé e os trechos selecionados, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de março de 2013)

Um novo seriado de sucesso, The Following, no qual um professor de literatura psicopata arregimenta seguidores em crimes que evocam o universo de Edgar Allan Poe (1809-1849), recolocou em pauta o fascínio exercido pelo genial escritor norte-americano[1].

Assim, é oportuno que a Tordesilhas tenha lançado Contos de Imaginação e Mistério, em tradução de Cássio de Arantes Leite [o Prefácio, um célebre texto de Baudelaire, foi traduzido por Daniel Abrão]. Aproveitou-se uma edição clássica (Tales of mystery and imagination, publicada em Londres pela editora Harrap, em 1919), reunindo um terço das histórias de Poe, com ilustrações marcantes e altamente estilizadas (com toque à Beardsley) de Harry Clarke (1889-1931) para o universo das 22 narrativas, entre as quais poucas não são presença constante em antologias: Leonizando, 1835; Silêncio—Uma fabula, 1837;  O Colóquio de Monos e Una, nenhuma das três, a meu ver, memorável, a não ser que o leitor se deleite, por exemplo, com o diálogo entre as almas de dois amantes, em que um dos interlocutores narra sua própria decomposição.

Entre as “canônicas”, a mais antiga é de 1833, Manuscrito encontrado numa garrafa, que dá o tom a quase todas elas (geralmente em primeira pessoa[2]):  o protagonista, após um fenômeno atmosférico singular em alto mar ,descobre-se a bordo de um navio fantasma. Como sói acontecer nas minhas leituras de Poe, nunca dera até agora importância ao texto antes, porém a revisão—e ter em mente que foi escrito aos 24 anos—o valoriza tremendamente. A derradeira, em termos cronológicos, é uma obra-prima sobre a execução atroz de uma vingança, O Barril de Amontillado (1846), e já mostra como ele se exercitava novas modulações para seus temas recorrentes: o diálogo é vivo e matreiro, e nada falta-nada sobra no texto; pois, genialidade à parte, Poe não costumava apurar sua prosa (até porque morreu aos 40 anos), e atura-se muita retórica pomposa, muita necessidade pueril de enfatizar desnecessariamente uma atmosfera “tenebrosa”, que as fabulações já tinham de sobra, sem essas apelações. Até a qualidade da tradução (com uma exceção importante, que comentarei adiante, e não levando em conta os injustificáveis erros de revisão[3]) colabora para que esses floreios cansativos fiquem evidentes.

Da safra dos anos 1830, temos O Encontro Marcado, Rei Peste,  A Queda da Casa de Usher, William Wilson,  todas famosas e marcantes:  um pacto de morte entre amantes, em Veneza; uma estranha corte onde marinheiros pândegos elegem um “rei”  na Londres abandonada devido à Peste, um solar que vem abaixo, apocalipticamente, no momento mesmo que o casal de gêmeos—últimos descendentes de uma família senhoria—sucumbe à morte anunciada; e, claro, a fábula pré-freudiana que originou  infinidade de variações, envolvendo um duplo do herói[4] ;  e como esquecer a trinca de nome de mulheres: Berenice, Morella, Ligeia: a primeira é ainda a mais impressionante, com o heroi violando o túmulo da amada para ficar com seus dentes; as outras não ficam muito atrás: uma filha que é a reencarnação da mãe (falecida no parto) e com uma personalidade adulta e moribunda desde tenra infância; e uma segunda esposa que é possuída pela alma da primeira.

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Embora cultuadas por uma infinidade de leitores (que justificam o postulado de The Following), é preciso dizer que nenhuma delas deixa de ter páginas rebarbativas e “poluídas”. Poe  quase estraga A Queda da Casa de Usher por prolongar inutilmente  suas obsessões necrófilas , só chegando ao clímax da destruição da casa nuns poucos parágrafos finais abruptos. Sequer a extraordinária e paradigmática William Wilson escapa de umas  tantas “gordurinhas”.

Nos textos dos anos 1840, já bem amadurecido, ele vai oscilar entre os relatos bem longos (é caso das aventuras que deram origem ao gênero detetivesco: Os Assassinatos da Rue Morgue e O Mistério de Marie Roget, das quais nunca consegui ser muito entusiasta, apesar da sua óbvia importância histórica) e contos mais bem modulados, menos monocórdios e bombásticos. Dessa década, infelizmente a final, temos Uma descida no Maelström, A Máscara da Morte Vermelha,  O poço e o pêndulo, O Coração Denunciador O Escaravelho de Ouro, O Gato Preto, O Enterro Prematuro: uma exemplar “história de pescador”; as alucinantes (e definitivas) visões da Peste como “penetra” num baile de uma torpe elite, que deixara o povo à mercê do caos e do horror, e das torturas impetradas pela Inquisição; temos um coração e um gato que denunciam, de um modo excruciante, em clima de pesadelo, os crimes dos narradores (diga-se de passagem, há um quê de revolucionário em apresentar protagonistas criminosos e sórdidos); temos uma caça ao tesouro através da decifração de um criptograma (aqui, todos os efeitos engenhosos do texto são destruídos no que concerne ao leitor brasileiro, pois o Cássio de Arantes Leite não se deu ao trabalho de encontrar equivalentes em português às partes do código; uma pena, pois a narrativa—uma das “longas” do volume—é brilhante); e, por fim, temos uma sequência de “causos” sobre a possibilidade de se enterrar alguém vivo, que tem o seu quinhão de mistificação, e também o charme de mostrar que Poe já se divertia e brincava com seus temas obsedantes. O que ficou dele, portanto, já é assombroso e único, imagine se vivesse mais tempo, com sua arte se apurando em consonância com sua afiadíssima imaginação.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinado no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente (…) No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrasa de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu-se, oscilou—e precipitou-se.”  (Manuscrito encontrado numa garrafa, 1833-a ilustração abaixo não é de Harry Clarke)

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“Sonhar, continuou, retomando o tom de sua conversa errática, conforme erguia à rica luz de um incensório um dos magníficos vasos—, sonhar tem sido a ocupação de minha vida. De tal modo que excogitei para mim, como vê, um refúgio de sonhos. No coração de Veneza poderia eu ter erguido um melhor? O que o senhor contempla em torno, admito, é uma miscelânea de ornamentos arquitetônicos. A pureza da Jônia ultrajada por motivos antediluvianos, e as esfinges do Egito esticando-se sobre tapetes de ouro. E contudo, o efeito é incongruente apenas para o tímido. Convenções de lugar, e sobretudo de época, nada são além de abominações que insuflam terror na espécie humana, abstendo-a de contemplar a magnificência…” (O encontro marcado, 1834)

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“A batida de uma porta me perturbou e, ao erguer o rosto, descobri que minha prima partira do aposento. Mas do desordenado aposento da minha cabeça, ai de mim!, não partira, nem era expulso, o espectro branco e fantasmagórico de seus dentes (…) Vejo-os agora ainda mais inequivocamente do que os contemplei então. Os dentes!—os dentes!—estavam aqui, e lá, e por toda parte, e visivelmente, palpavelmente, diante de mim; longos, estreitos e excessivamente brancos, com os lábios pálidos se contraindo em torno, como no próprio momento de seu primeiro e terrível crescimento. Então seguiu-se a plena fúria de minha monomania, e lutei em vão contra sua estranha e irresistível influência. Dentre os múltiplos objetos do mundo externo eu não tinha pensamentos senão para os dentes. Por eles anelava com desejo maníaco (…) e eles, em sua individualidade única, tornaram-se a essência de mina vida espiritual…” (Berenice, 1835)

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“Mas na verdade, chegara agora um tempo em que o mistério da conduta de minha esposa me oprimia como um feitiço. Eu já não suportava o contato de seus dedos lívidos, nem o tom grave de seu falar musical, tampouco o brilho de seus olhos melancólicos. E ela sabia disso tudo, mas não me censurava; parecia consciente de minha fraqueza ou de minha insensatez e, sorrindo, chamava a isso Destino. Parecia, ainda, consciente de uma causa, por mim desconhecida, para o gradual alheamento de minha estima (…) E contudo era mulher, e o anseio a consumia a cada dia. No fim, a mancha escarlate  se fixou firmemente em sua face, e as veias azuis sobre a fronte pálida ficaram proeminentes; e, num instante, minha natureza se fundia em piedade, mas no seguinte, eu cruzava o relance de seus olhos eloqüentes, e então minha alma adoecia e ficava tonta com a tontura de quem baixa o rosto para o interior de algum abismo austero e insondável…” (Morella, 1835)

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“_Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com sua presença?

__Querida Duquesa, irei de todo coração.

__ Ora bolas, não!—virás com todo teu nariz?

__Cada pedacinho dele, meu amor, disse eu; então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack´s.

  Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

__ Aí vem ele!, disse alguém na escadaria.

__ Aí vem ele!, disse alguém mais no alto.

__ Aí vem ele!, disse alguém ainda mais no alto.

__ Ele veio!, exclamou a Duquesa. Ele veio, o amorzinho!—e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vez no nariz.” (Leonizando, 1835, que tem algo de um Oscar Wilde “avant le lettre”, por isso coloquei uma ilustração de Beardsley abaixo)

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“Diante de cada um daquele grupo havia um crânio cortado, que era usado como taça. Acima ficava suspenso um esqueleto humano, pendurado por uma corda amarrada a uma das pernas e presa a uma argola no teto. A outra perna, livre de qualquer peia, projetava-se do corpo em ângulo reto, levando toda a ossada solta e chocalhante a balançar e girar ao sabor de qualquer ocasional sopro de vento que porventura invadisse o ambiente. No crânio dessa coisa hedionda havia um punhado de carvão em brasa que lançava uma luz indecisa mas vívida sobre toda a cena; enquanto caixões e outros artigos pertencentes à oficina de um agente funerário empilhavam-se até o teto em torno da sala, obstruindo todas as janelas e impedindo qualquer raio de luz de escapar para a rua.

  À visão dessa extraordinária assembléia, e deus ainda mais extravagantes aparatos, nossos dois marujos não se conduziram com esse grau de decoro que seria de esperar…”  (O Rei Peste, 1835)

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“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da comoção; e uma apavorante tempestade se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade—e as pancadas de chuva se abateram sobre a cabeça do homem—e houve cheias no reio—e o rio tornou-se um tormento espumoso—e os nenúfares guincharam em seus leitos—e a floresta foi destroçada pelo vento—e o trovão reverberou—e o raio caiu—e a rocha sacudiu em suas fundações. E eu permaneci em meus esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão;–mas a noite  declinava e ele sentava sobre a rocha.

   Então tomei-me de fúria e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos nenúfares. E foram amaldiçoados, e acalmaram-se…” (Silêncio-Uma fábula, 1837; há discrepâncias no texto quanto a essa data de publicação original—nas notas aparece o ano de 1838)

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“Umas poucas otomanas e candelabros de ouro, de feitio oriental, eram dispostos em pontos variados—e havia também o divã—o divã nupcial—de um modelo indiano, baixo, esculpido em ébano sólido, encimado por um dossel semelhante a um pálio fúnebre. Em cada um dos cantos do aposento fora colocado de pé um gigantesco sarcófago de granito negro, das tumbas dos reis diante de Luxor, com suas tampas antiqüíssimas cobertas de entalhes imemoriais. Mas era na colgadura do apartamento que residia, hélas! A principal fantasia de todas. As elevadas paredes, gigantescas na altura—beirando mesmo a desproporção—cobriam-se de alto a baixo, em bastos pregueados, por uma tapeçaria pesada e de aspecto maciço—feita de um material que era igualmente encontrado no chão, como coberta para as otomanas e a cama de ébano, como dossel para a cama e como as cortinas de suntuosas volutas que tampavam parcialmente a janela. O material era um riquíssimo tecido de ouro. Pintado inteiramente, a intervalos irregulares, com padrões de arabescos, medindo cerca de 30 centímetros de diâmetro, e lavrados sobre o tecido em padrões do mais negro azeviche. Mas esses padrões partilhavam da genuína característica do arabesco (…) eram feitos de modo a assumir um aspecto mutável. Para alguém adentrando o ambiente, exibiam a aparência de simples monstruosidades; mas ao se avançar mais além, essa aparência gradualmente desaparecia; e, passo a passo, conforme o visitante mudasse de posição no aposento, via-se cercado por uma infinita sucessão das formas espectrais pertencentes à superstição dos normandos ou surgidas nos sonos culpados do monge. O efeito fantasmagórico era vastamente ampliado pela introdução artificial de uma corrente de vento forte e persistente por trás dos reposteiros—emprestando ao todo uma animação hedionda e inquietante…” (Ligeia, 1838)

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“Ele era prisioneiro de certas impressões supersticiosas com respeito à morada que ocupava,e a qual, por muitos anos, jamais se aventurara a deixar—com respeito a uma influência cuja força espúria era transmitida em termos obscuros demais para serem aqui reiterados—uma influência que algumas peculiaridades na mera forma e substância de sua mansão familiar haviam, por força do longo sofrimento, disse-me, obtido sobre seu espírito—um efeito que a constituição das paredes e torres cinzentas, e do escuro lago dentro do qual tudo isso se mirava, havia, enfim, produzido sobre o ânimo de sua existência.

   Ele admitia, entretanto, embora com hesitação, que grande parte da peculiar melancolia que desse modo o afligia podia ser rastreada até uma origem mais natural e muito mais palpável—à enfermidade grave e prolongada—na verdade, ao óbito evidentemente próximo—de uma irmã ternamente adorada—sua única companheira por longos anos—sua última e única relação de sangue no mundo. Seu falecimento, disse com um amargor que jamais esquecerei, faria dele (ele, o desesperado e frágil), o último da antiga estirpe dos Usher…” (A Queda da Casa de Usher, 1839)

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“Já falei mais de uma vez dos repulsivos ares protetores que assumia em relação a mim, e da interferência freqüente e obsequiosa com minha vontade. Essa interferência muitas vezes ganhava o caráter indesejável de um conselho; conselho não abertamente dado, mas sugerido ou insinuado. Eu recebia isso com uma aversão que ficava mais forte a cada ano que passava. E contudo, nesse dia distante, que me seja permitido lhe fazer apura justiça de admitir que não consigo me recordar de uma ocasião sequer em que as sugestões de meu rival tenderam pelo lado desses erros ou tolices tão comuns a sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, no mínimo, quando não seus talentos gerais e sabedoria mundana, eram de longe muito mais penetrantes que os meus; e que eu poderia, hoje, ter me constituído num homem melhor e, desse modo, mais feliz, houvesse com menos freqüência rejeitado os conselhos manifestados naqueles sussurros significativos que na época com tanta veemência odiei e com tanta amargura desprezei.

    Do modo como foi, acabei por me mostrar impaciente ao extremo sob sua tutela desagradável e a me ressentir cada vez mais abertamente do que considerava sua arrogância intolerável…” (William Wilson, 1839)

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“Parece-me que o mistério é considerado insolúvel pelo mesmo motivo que deveria fazer com que fosse tido como de fácil solução—quero dizer, pelo caráter outré de suas circunstâncias. A polícia está perplexa com a aparente ausência de motivo—não com o crime em si—mas com a atrocidade do crime. Estão desconcertados, também, pela aparente impossibilidade de conciliar as vozes ouvidas em altercação com o fato de que ninguém foi encontrado no andar de cima além da assassinada Mademoiselle L´Espanaye, e de que não havia meios de sair sem passar pelo grupo que subia. A desordem selvagem do quarto; o cadáver enfiado, de cabeça para baixo, pela chaminé; a pavorosa mutilação do corpo da velha senhora; essas considerações, juntamente com as que acabo de mencionar, e outras a que não é necessário fazer menção, bastaram para paralisar as autoridades, deixando completamente às escuras seu tão propalado acúmen. A polícia caiu no erro grosseiro mas comum de confundir o insólito com o abstruso. Mas é nesses desvios do pano do ordinário que a razão encontra seu caminho, se é que o encontra, na busca da verdade. Em investigações tais como as que empreendemos agora, não deve tanto ser perguntado o que ocorreu como o que ocorreu que nunca ocorreu antes. Na verdade, a facilidade com que chegarei, ou cheguei, à solução desse mistério está em proporção direta cm sua aparente insolubilidade aos olhos da polícia…” (fala o gabola detetive Dupin de Os assassinatos da Rue Morgue, 1841)

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“Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos nas próprias garras da voragem, eu sentia maior frieza do que no momento em que apenas nos aproximávamos. Tendo me determinado a não alimentar mais qualquer esperança, livrei-me em grande parte daquele terror que me privava do brio no início. Presumo que era o desespero que me abalava os nervos.

    Pode parecer bravata—mas o que lhe digo é a verdade—comecei a refletir sobre a coisa magnífica que era morrer daquela maneira, e que tolice da minha parte pensar numa consideração tão mesquinha como minha própria vida individual em vista de uma manifestação tão maravilhosa do poder de Deus (…) Pouco depois fui possuído da curiosidade mais intensa sobre o próprio torvelinho. Senti um positivo desejo de explorar suas profundezas, mesmo ao preço do sacrifício que estava prestes a fazer…” (Uma descida no Maelström, 1841)

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“A atividade no corpo animal cessara por completo. Músculo algum estremecia; nervo algum vibrava; artéria alguma palpitava. Mas ele parecia ter brotado no cérebro, isso a respeito do qual palavra alguma podia transmitir à inteligência meramente humana uma concepção até mesmo vaga. Permita-me denominá-lo uma pulsação pendular mental. Era a encarnação moral da ideia abstrata que o homem faz do Tempo. Pela absoluta uniformização desse movimento—ou de tais como ele—os ciclos dos próprios orbes do firmamento foram ajustados. Com seu auxílio medi as irregularidades do relógio sobre a lareira, e dos relógios de bolso dos atendentes. O tique-taque deles chegou-me penosamente aos ouvidos. Os mais ligeiros desvios da autêntica proporção—e esses desvios predominavam em todos—afetavam-me exatamente como as violações da verdade abstrata costumavam, no mundo, afetar o senso moral. Embora não houvesse ali no aposento dois relógios capazes de  dar os segundos individuais pontualmente juntos, mesmo assim não tive dificuldade em manter com firmeza em minha mente os tons e respectivos erros momentâneos de cada um…” (O Colóquio de Monos e Una, 1841)

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“O sétimo apartamento era densamente amortalhado em reposteiros de veludo negro pendendo por todos os lados do teto e das paredes, caindo em pesados drapejamentos sobre um tapete de mesmo material e matiz. Mas apenas nesse recinto a cor das janelas deixava de corresponder à da decoração. As vidraças eram escarlates—uma profunda cor de sangue. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia lamparina ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todo o recinto ou pendurados no teto. Não havia luz de espécie alguma emanando de lamparina ou de vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que atravessavam o conjunto ficava, diante de cada janela, um pesado tripé portando um braseiro incandescente que projetava seus raios através do vidro colorido e, desse modo, iluminava intensamente o ambiente. E assim se produzia uma variedade de fenômenos extravagantes e fantásticos. Mas no aposento oeste, ou salão negro, o efeito da luz do fogo que vertia sobre os reposteiros escuros através das vidraças tintas de sangue era macabro ao extremo e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes dos que ali entravam que poucos dentre os convidados eram suficientemente ousados para até mesmo pisar ali dentro.

   Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo, extraordinariamente musical, mas vibrando com nota e ênfase tão peculiares que, ao lapso de cada hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua apresentação, para escutar o som; e desse modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava conta de toda a alegre comitiva; e, enquanto o carrilhão do relógio ainda soava, observava-se que os mais agitados iam ficando pálidos, e os mais idosos e entorpecidos passavam a mão na testa como que em confuso devaneio ou meditação…” (A máscara da morte vermelha, 1842)

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“Como você observou em suas anotações, a opinião mais geral acerca desse triste episódio é, e sempre foi desde o início, a de que a garota havia sido vítima de uma gangue de meliantes. Ora, a opinião popular, sob certas condições, não deve ser desprezada. Quando surgida por si mesma—quando se manifestando de um modo estritamente espontâneo—devemos olhar para ela como análoga a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio individual. Em 99 de cada 100 casos eu me pautaria pelo que ela decidir. Mas é importante não encontrarmos o menor vestígio palpável de sugestão. A opinião deve ser rigorosamente apenas do público; e a distinção é muitas vezes sumamente difícil de perceber e de manter. No presente caso, parece-me que essa opinião pública em relação a uma gangue foi introduzida pelo evento colateral que está detalhado no terceiro dos meus excertos. Toda Paris ficou agitada com a descoberta do cadáver de Marie, uma moça jovem, muito bonita e conhecida. Esse corpo foi encontrado exibindo marcas de violência e boiando no rio. Mas é depois divulgado que, nesse mesmo período, ou por volta desse mesmo período, em que se supõe que a garota foi assassinada, uma barbaridade de natureza similar à que se submeteu a falecida, embora em menor extensão, foi perpetrada por uma gangue de jovens rufiões contra a pessoa de uma segunda jovem. Não é extraordinário que uma atrocidade conhecida influencie o juízo popular em relação à outra, desconhecida? Esse juízo aguardava uma orientação, e a conhecida barbaridade pareceu tão oportunamente concedê-la! (…) A ligação entre os dois eventos teve tanto de palpável que o verdadeiro motivo de espanto teria sido a população deixar de percebê-la e dela se apoderar…” (O Mistério de Marie Roget, 1842)

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“Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessava a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento de fuga chegara (…) Naquele momento, ao menos, eu estava livre.

   Livre!—e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre!—eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum—alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente—, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente…” (O poço e o pêndulo, 1842)

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“Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento!—prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso; sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que  o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim—o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho!…” (O coração denunciador, 1843—pode ser apenas uma impressão confusa da minha parte, mas me parece que, em termos estilísticos, a primeira pessoa é exercitada aqui de maneira superior aos textos da década anterior)

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“Nesse estágio de minhas reflexões, empenhei-me em me lembrar, e de fato lembrei-me, com perfeita nitidez, de cada incidente ocorrido no período em questão. Fazia frio (ah, que acidente raro e feliz!), e um fogo ardia na lareira. Eu estava acalorado pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, puxara uma cadeira para junto da lareira. Assim que pus o pergaminho em sua mão, e você estava no ato de inspecioná-lo, Wolf, o terra-nova, entrou e saltou sobre seus ombros. Com sua mão esquerda, o acariciou e o manteve à distância, enquanto sua mão direita, segurando o pergaminho, pôde pender frouxamente entre seus joelhos, e em estreita proximidade com o fogo. A certa altura imaginei que a chama o alcançara, e estava prestes a adverti-lo, mas, antes que pudesse falar, você o recolheu, e passou a examiná-lo. Quando considerei todas estas particularidades, não duvidei sequer por um momento que o calor fora o agente que trouxera à luz, sobre o pergaminho, o crânio que ali vi desenhado. Está bem ciente de que tais preparados químicos existem, e existiram desde sempre, por meio dos quais é possível escrever, seja em papel, seja em velino, de modo que os sinais se tornem visíveis apenas quando submetidas à ação do fogo (…)

    Examinei então a caveira cuidadosamente. Seus contornos exteriores—as bordas do desenho mais próximas das bordas do velino—eram muito mais nítidas do que as outras. Ficou claro que a ação térmica fora imperfeita ou desigual. Imediatamente acendi uma chama e submeti cada área do pergaminho a um calor ardente…” (O escaravelho de ouro, 1843, mau momento da tradução de Cássio de Arantes Leite, e texto-arauto tanto de Verne quanto de Stevenson)

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“De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém—não sei dizer como nem por que—sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente—muito gradualmente—comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.

   O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subseqüente à noite em que o levei para casa, de que como Pluto, ele também fora privado de um olho (…) Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim parecia aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender…” (O gato preto, 1843)

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“As fronteiras que dividem a Vida e a Morte são, na melhor das hipóteses, obscuras e vagas. Quem poderá dizer onde uma termina e onde a outra começa? Sabemos da existência de enfermidades em que ocorre a total cessação de todas as funções aparentes de vitalidade, e nas quais contudo essas cessações são meramente suspensões, propriamente falando. São apenas pausas temporárias no mecanismo incompreensível. Um certo período transcorre, e algum misterioso princípio mais uma vez põe em movimento os mágicos escapos e as enfeitiçadas engrenagens. O fio de prata ainda não se soltou para sempre, tampouco o cálice de ouro se quebrou irremediavelmente. Mas onde, nesse meio-tempo, ficou a alma?” (O enterro prematuro, 1844, que por incrível que pareça é um dos textos mais “leves” da coletânea)

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“Falei tanto de som como de voz. Quero dizer que o som foi pronunciado com extrema nitidez—com extraordinária, penetrante nitidez—, sílaba a sílaba. O Sr. Valdemar falou—obviamente em resposta à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:

__ Sim;–não; eu estava dormindo—e agora—agora—estou morto.

    Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras, assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O estudante desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e não houve como convencê-los a voltar. Quanto a minhas próprias impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio—sem que ninguém pronunciasse uma única palavra—, dos procedimentos para reanimar o estudante. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar a condição do Sr. Valdemar. (Os fatos do caso do Sr. Valdemar, 1845, em cuja tradução mexi ligeiramente)

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“__ (…) Um trago deste Médoc nos protegerá da umidade.

   Nisso destampei o gargalo de uma garrafa que puxei de uma longa fileira de outras iguais a ela que jaziam no solo do sepulcro.

__ Beba, falei, oferecendo-lhe o vinho.

    Ele a levou aos lábios com um lúbrico olhar de soslaio. Parou e balançou a cabeça para mim com familiaridade, os guizos tilintando.

__ Bebo, disse, aos sepultados que repousam em torno de nós.

__ E eu à sua longa vida.

   Voltou a segurar meu braço, e prosseguimos.

__ Estas suas caves, disse, são extensas.

__ Os Montresor, repliquei, eram uma família grande e numerosa.

__ Esqueci quais são suas armas.

__ Um enorme pé dourado, em um fundo blau; o pé esmaga uma serpente rompante cujas presas estão cravadas no calcanhar.

__ E a divisa?

__ Nemo me impune lacessit [Ninguém me fere impunente]

__Magnífico!, disse ele…” (O barril de Amontillado, 1846)

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[1] Os primeiros episódios de The Following foram deprimentemente ruins e previsíveis (dava para antecipar cada cena). Nem mesmo James Purefoy, que esteve tão marcante (ao mesmo tempo bruto e sensual) em Roma, está bem, no seu papel estereotipado de psicopata genial, culto e charmoso. E as alusões a Poe não poderiam ser mais óbvias, quase todas restritas ao poema O Corvo. Voo curtíssimo, portanto, pelo menos até agora. Se mudar o panorama, caso eu não desista de ver, reformularei esta nota.

[2] As exceções se tornam, talvez por isso, bem expressivas, caso de A máscara da morte vermelha.

[3] Em O poço e o pêndulo,um trecho fica absurdo: “Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros” !!!!????

A palavra “incontinenti” é trocada várias vezes por “incontinente”,por exemplo:

“deixei, incontinente, as dependências do antigo ateneu para nunca mais voltar”!!!??

Também há confusão entre “brocha” e “broxa”:

“aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim”!!!???

Um exemplar custa R$59,90. Podiam ser mais profissionais, não?

Em compensação, há momentos muito bacanas na tradução, como o seguinte trecho de Uma descina no Maelström: “Houve uma circunstância inesperada que contribuiu imensamente para reforçar essas observações, e deixar-me ansioso em delas tirar partido, e essa circunstância foi que, a cada revolução, passávamos por algo como um barril, ou então a verga ou o mastro quebrado de um navio, enquanto inúmeras dessas coisas, que havia estado em nosso nível quando abi os olhos pela primeira vez para os portentos do turbilhão, encontravam-se agora muito acima de nós, e pareciam ter se movido muito pouco de sua posição original.”  Aí recupera-se o sentido original de “revolução” e o trecho ganha em expressividade. Há também uma “expressão arabesca” no rosto de alguém, e outros achados bem felizes.

[4] Talvez seja a obra-prima suprema de Poe.

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