MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

A AURA PERDIDA: pequena antologia baudelairiana

A perda da aura

“E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”

“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”

“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”

“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”

Ao leitor

A tolice, o erro, o pecado, a usura,

Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,

E alimentam nossos amáveis remorsos,

Como os mendigos nutrem seus piolhos.

Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos

Nós colocamos alto preço nas nossas confissões

E nós entramos alegremente no caminho lamacento

Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas

Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto

Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado

E o rico metal de nossa vontade

É todo volatilizado por esse sábio alquimista.

É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!

Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;

Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,

Sem horror, através de trevas que fedem.

Assim como o devasso pobre que beija e suga

O seio martirizado de uma já gasta vadia,

Nós queremos de súbito um prazer clandestino

Que nós esprememos como uma velha laranja.

Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais

Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,

E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões

Desce, rio invisível, com surdas queixas.

Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,

Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,

O desígnio banal de nossos patéticos destinos,

É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.

Mas entre os chacais, as panteras, os linces,

Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,

Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,

No bestiário infame de nossos vícios,

Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!

Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,

Ele voluntariamente faria da terra um monturo

E numa bocejada engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,

Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé

Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,

Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!

Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861

Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…

Eu disse:

Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…

Quantas vezes…

Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,

Teu gosto pelo infinito,

Que em tudo, no próprio mal se proclama,

Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,

Teus subúrbios melancólicos,

Tuas pensões,

Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,

Tuas igrejas vomitando a reza musicada,

Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,

Teus desencorajamentos;

E teus fogos de artifício, erupções de alegria,

Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,

Teu venerável vício entremeado na seda,

E tua risível virtude, de olhar infortunado,

Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…

Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,

Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.

Teus domos de metal os quais incendeia o sol,

Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,

Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,

Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,

Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,

Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,

Se engolfando no Inferno como Orenocos,

Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos

Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,

Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever

Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.

Pois de cada coisa extraí a quintessência,

Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.

O sol

Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas

Persianas abrigam secretas luxúrias,

Quando o sol cruel atira setas redobradas

Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,

Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,

Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas,

Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.

Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,

Acorda nos campos os vermes como as rosas;

Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,

E enche os cérebros e as colméias de mel.

É ele que rejuvenesce os aleijados

E os deixa alegres e doces como donzelas,

E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem

No imortal coração que sempre deseja florescer!

Quando, como um poeta, ele desce às cidades,

Enobrece a categoria de coisas mais vis,

Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,

Em todos os hospitais e em todos os palácios.

 

O  anoitecer ao crepúsculo

Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;

Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu

Se fecha lentamente como uma grande alcova,

E o homem impaciente se transforma em besta fera.

Ó noite, amável noite, desejada por aquele

Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,

Nós trabalhamos! –É a noite que alivia

Os espíritos devorados por uma dor selvagem,

O sábio obstinado cuja testa entorpece,

E o operário curvado que retoma sua cama.

Entretanto demônios malsãos na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócios,

E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros

Através dos clarões que açoitam o vento

O Meretrício se incendeia pelas ruas;

Como um formigueiro ele trama suas passagens;

Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,

Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;

Ele se desloca no seio da cidade de lama

Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.

Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,

Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;

As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,

Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,

E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,

Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,

E forçar docemente as portas e os cofres

Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.

Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,

E tapa tua orelha a esse bramido.

É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!

A escura Noite os sufoca; vai findando

Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;

O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um

Não virá mais atrás da sopa aromática,

No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.

Ademais a maior parte deles jamais conheceu

A doçura do lar e jamais tinha vivido!

A uma passante

A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.

Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,

Uma mulher passa, com mão suntuosa,

Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.

Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,

No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,

A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade

Cuja mirada me fez subitamente renascer,

Não te verei mais senão na eternidade?

Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!

Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,

Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!

O cisne A Victor Hugo

Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,

Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu

A imensa majestade de tuas dores de viúva,

Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu

Fecundou de súbito minha memória fértil,

Quando eu atravessava o novo Carrossel.

A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade

Muda mais depressa, infelizmente!,  que o coração de um mortal);

Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,

Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,

A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,

E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.

Ali se expunha outrora uma feira de animais,

Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus

Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo

Levanta um escuro furacão no ar silencioso,

Um cisne que havia fugido do seu gradil,

E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,

No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,

Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,

Banhava nervosamente suas asas na poeira,

E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:

“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”

Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,

Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,

Para o céu irônico e cruelmente azul,

Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,

Como se dirigisse censuras a Deus!

II

Paris muda! Mas nada na minha melancolia

Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,

Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,

E minhas recordações são mais pesadas que rochas.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime;

Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,

Como os exilados, ridículo e sublime,

E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,

Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,

Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.

À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;

Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!

Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,

Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,

Os coqueiros ausentes da soberba África,

Por trás da muralha interminável da neblina.

Em qualquer um que perdeu e não recuperou

Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas

E mamam a Dor como uma boa loba!

Nos magros órfãos fenecendo como flores!

Assim na floresta onde meu espírito se exila,

Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!

Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,

Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!

Sonho parisiense

I

Dessa terrível paisagem,

Tal que nenhum mortal jamais viu,

Esta manhã ainda a imagem,

Vaga e longínqua, me arrebata.

O sono é cheio de milagres!

Por um capricho singular,

Eu havia banido desses espetáculos

O vegetal irregular.

E, pintor orgulhoso do meu gênio

Eu saboreava na minha tela

A embriagante monotonia

Do metal, do mármore e da água.

Babel de escadas e arcadas,

Era um palácio infinito,

Cheio de tanques e cascatas

Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;

E cataratas lentas

Como cortinas de cristal

Suspendiam-se, resplandecentes,

Por muralhas de metal.

Não árvores, mas colunas

Os tanques imóveis circundavam,

Onde gigantescas naiâdes,

Iguais às mulheres, se miravam.

Lençóis de água abundando, azuis,

Entre cais rosas e verdes,

Seguindo milhões de léguas

Até os confins do universo.

Havia pedras inauditas

E ondas mágicas; havia

Imensos espelhos ofuscados

Por tudo que elas refletiam.

Negligentes e taciturnos

Ganges, no firmamento,

Vertiam o tesouro de suas urnas

os abismos de diamante.

Arquiteto das minhas feéricas fantasias,

Eu fazia, a meu bel prazer,

Sob um túnel de pedrarias

Passar um oceano represado;

E tudo, mesmo a cor negra,

Parecia polido, claro, irisado;

O líquido engastava sua glória

No raio cristalizado.

Nem astro de alhures, nem vestígios

Do sol, mesmo no baixo céu,

Para iluminar esses prodígios

Que brilhavam com um fogo próprio!

E sobre essas movediças maravilhas

Pairava (terrível novidade!

Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)

Um silêncio de eternidade.

II

Reabrindo meus olhos em febre

Eu vi o horror do meu muquifo

E senti, entrando em minha alma

A pontada de desassossegos malditos.

O pêndulo com acentos fúnebres

Anunciava brutalmente o meio-dia

E o céu vertia trevas

Sobre o triste mundo embotado.

Uma carniça

Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada

Uma bela manhã de verão tão doce:

Na curva de uma vereda uma carniça infame

Num leito semeado de seixos.

De pernas pro ar, como uma mulher safada,

Destilando e suando miasmas,

Abria de maneira desleixada e cínica

Seu ventre cheio de exalações.

O sol brilhava sobre tal podridão,

Como querendo cozê-la ao ponto

Para dar multiplicado à Grande Natureza

Tudo o que num conjunto ela reunira.

E o céu olhava a carcaça soberba

Como uma flor a desabrochar,

O fedor era tão forte que, sobre a relva,

Tu crias desfalecer.

As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,

De onde saíam negros batalhões

De larvas que corriam como um espesso líquido

Ao longo desses vivos andrajos.

Tudo isso descia, subia, como uma onda,

Que espumava cintilando,

Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,

Vivia multiplicando-se.

E o mundo tocava uma estranha música

Como água corrente e vento,

Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados

Agita e repousa em sua peneira.

As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.

Um esboço lento a se delinear,

Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba

Apenas de memória.

Atrás das rochas uma cadela inquieta

Nos fixava um olho irado

Vigiando o momento de reaver no esqueleto

O bocado que ela havia largado.

-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,

A essa horrível infecção,

Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,

Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,

Após os últimos sacramentos,

Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,

Mofar em meio às ossadas.

Então, ó minha bela! Digas ao verme

Que te devorará de beijos

Que eu guardei a forma e a essência divina

De meus amores decompostos!

A musa doente

Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?

Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,

E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez

A loucura e o horror, frios e taciturnos.

O súcubo esverdeado e o rosado duende

Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?

O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,

Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?

Queria eu que exalando o odor da saúde

Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado

E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,

Com os sons numerosos das sílabas antigas,

Onde revivem alternadamente o pai das canções,

Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.

O albatroz

Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem

Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,

Que seguem, indolentes companheiros de viagem,

O navio que desliza por abismos amargos.

Tão logo eles o largam sobre o convés

Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,

Largando lastimosamente suas grandes asas brancas

Como remos arrastados pelos lados.

Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!

Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!

Um, açula seu bico com um cachimbo,

Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!

O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens

Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,

Exilado no solo em meio à balbúrdia,

Suas asas de gigante o impedem de andar.

 

 

 

O letes

Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,

Tigre adorado, monstro de ar indolente;

Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos

Na espessura de sua juba pesada;

Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume

Sepultar minha cabeça dolorida,

E respirar, como uma flor murcha,

O doce ranço do meu amor defunto.

Quero dormir! Dormir de preferência a viver!

Num sono tão doce como a morte,

Eu espalharei meus beijos sem remorso

Sobre teu belo corpo polido como o cobre.

Para engolir meus soluços apaziguados

Nada se compara ao abismo do teu leito;

O esquecimento potente habita teus lábios,

E o Letes corre nos teus beijos.

A meu destino, doravante minha delícia,

Obedecerei como um predestinado;

Mártir submisso, inocente condenado,

Cujo fervor provoca o suplício,

Sugarei, para afogar meu rancor,

O elixir contra a tristeza e a boa cicuta

Nas arestas encantadoras desse colo ferino

Que nunca abrigou um coração.

A viagem A Maxime du Camp

I

Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,

O universo é igual ao seu vasto apetite.

Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!

Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!

Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,

O coração repleto de rancor e desejos amargos,

E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama

Embalando nosso infinito no finito dos mares:

Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;

Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,

Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,

Circe tirânica com perigosos perfumes.

Para não serem transformados em bestas, embriagam-se

De espaço e de luz e de céu abrasados,

O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,

Apagando lentamente a marca dos beijos.

Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem

Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,

De sua predestinação jamais se desviam.

E, sem saber por que, dizem sempre: Avante!                             !

Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,

E que sonham, como um alistado, com o canhão,

Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,

E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!

II

Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola

Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência

A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar

Como um anjo cruel que vergasta sóis.

Singular destino cuja meta se desloca

Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!

Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,

Para encontrar o repouso corre como um louco!

Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;

Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!

Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:

“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.

Cada ilhota avistada pelo vigia

É um Eldorado prometido pelo Destino;

A imaginação que enfeita sua orgia

Não encontra senão um recife na claridade da manhã.

Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!

É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,

Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,

Cuja miragem torna o abismo mais amargo!

Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,

Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;

Seu olhar iludido descobre uma Cápua

Onde a vela ilumina apenas um antro.

III

Assombrosos viajantes! Que nobres histórias

Lemos em vossos olhos profundos como os mares!

Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,

Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.

Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!

Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,

Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela

Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.

Dizei, o que vistes?

IV

“Nós vimos astros

E ondas; nós vimos areais também;

E, apesar de choques e de imprevistos desastres

Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.

A glória do sol sobre o mar violeta,

A glória das cidades ao pôr-do-sol,

Acenderam em nossos corações um ardor inquieto

De mergulhar num céu de reflexo sedutor.

As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,

Jamais continham o atrativo misterioso

Daquelas que o acaso compunha com nuvens

E sempre o desejo nos deixava em desassossego!

Gozar ao desejo acrescenta a força.

Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,

Enquanto engrossa e endurece sua casca,

Teus ramos querem ver o sol mais de perto!

Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa

Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,

Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,

Irmão que considerais belo o que vem de longe!

Nós temos saudado ídolos com trompa,

Tronos constelados de jóias luminosas;

Palácios lapidados cuja feérica pompa

Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.

Costumes que som para os olhos uma embriaguez;

Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,

E jograis sábios que a serpente acaricia.”

V

E depois? E depois ainda?

VI                            “Ó cérebros pueris!

Para não esquecer a coisa essencial,

Vimos por toda parte, e sem haver buscado,

De alto a baixo da escada fatal,

O espetáculo tedioso do imortal pecado.

A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,

A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,

O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,

Escravo do escravo e valeta de esgoto.

O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,

A festa que condimenta e perfuma o sangue;

O veneno do poder obcecando o déspota,

E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.

Muitas religiões semelhantes à nossa,

Todas escalando o céu; a Santidade,

Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,

Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.

A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,

E, louca hoje como o foi outrora,

Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:

“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!

E os menos tolos, temerários amantes da Demência,

Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,

E refugiando-se no vasto ópio!

–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”

VII

Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!

O mundo, monótono e pequeno, hoje,

Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:

Um oásis de horror num deserto de tédio!

É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;

Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,

Para enganar o inimigo vigilante e funesto,

O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso

Como o Judeu Errante e como os Apóstolos

Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,

Para fugir ao Gladiador infame; e há outros

Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.

Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha

Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”

Assim como de outra feita nós partíamos para a China,

Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,

Nós navegávamos no mar das Trevas,

Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,

Escutando essas vozes encantadoras e funestas,

Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer

O Lótus perfumado! É aqui a vindima

Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;

Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira

Dessa sesta que não tem fim?”

De um sotaque familiar se adivinha o espectro:

Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.

“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”

Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.

VIII

Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!

Se o céu e o mar são negros como nanquim,

Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!

Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!

Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,

Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?

No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.

EPILOGO , em Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)

Coração contente, subi a montanha

De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,

Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,

Onde toda enormidade floresce como flor.

Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,

Que por lá não ia espalhar um pranto vão;

Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,

Queria me inebriar da enorme prostituta

Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.

Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias

Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,

Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,

E bandidos, como tais ofereceis prazeres

Que não compreendem os profanos vulgares.

 

“Quero inebriar-me com a enorme prostituta”: A capital do lirismo moderno, Baudelaire e Benjamin

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de agosto de 1995)

I

No meu artigo anterior, comentei Paris no século XX, de Júlio Verne, afirmando que, malgrado antecipação do futuro, o texto na verdade era uma visão crítica dos perigos da própria Paris do século XIX, a qual justamente passava por profundas transformações em seu perfil urbano.

Podemos encontrar tais transformações problematizadas nos “pequenos” poemas em prosa de SPLEEN DE PARIS (1869), de Charles Baudelaire, que reaparece em nova tradução pela Imago (realizada por Leda Tenório da Motta para a coleção Lazuli), e que, lido com o romance de Verne, prova de forma definitiva por que o grande crítico alemão Walter Benjamin, no seu belíssimo Charles Baudelaire- Um lírico no auge do capitalismo (em tradução de Carlos H. Barbosa e Hemerson A. Baptista para o volume 3 das Obras escolhidas de Benjamin, pela Brasiliense), mostra o poeta francês como a consciência lírico-crítica do século passado, por sua apreensão da poesia das cidades: “Aquilo que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa…”

O americano Marshall Berman, no melhor ensaio de seu Tudo o que é sólido desmancha no ar envereda por um caminho similar, mas está longe de escrever como Benjamin e incorre no erro de fazer do texto literário suporte das suas reflexões, o que sempre redunda numa simplificação impertinente e incômoda.

II

Esta vida é um hospital em que cada doente é possuído pelo desejo de mudar de leito”. Um dos grandes temas de SPLEEN DE PARIS é, obviamente, o tédio (spleen) advindo da vida obsessivamente institucionalizada que a burguesia instaurou e que engaiola e manieta o cotidiano de forma árida, amesquinhadora. Tudo é válido para fugir dele: Convite à viagem, um dos mais famosos e interessantes textos do livro, nos fala da plenitude do imaginário País da Cocanha e deve ter influído Manuel Bandeira a sonhar seu clássico e libertário Pasárgada: “Sim, é lá que é preciso respirar, sonhar e prolongar as horas em sensações infinitas/ (…)/ Todo homem tem uma dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, mas do nascimento à morte, quantas horas tem de positivo júbilo…?”

Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentido da insuficiência da vida desse que é, com Flaubert, o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua cotidiana, corresponde também a tentação da metrópole, dessa Paris transformada, desse fervilhante mundo urbano que o artista, na tentativa de descobrir até nos seus aspectos mais repugnantes e degradantes a “revelação” que o transcenda e sublime, explora exaustivamente.

Baudelaire fez um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu intérprete, sua prostituta sagrada e oracular, o bebedor de quintessências, que perde sua auréola (a aura benjaminiana) e se rejubila: “Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você”.

Sendo impossível reproduzir o pensamento de Baudelaire em sua beleza e contundência, a tentação é de citá-lo indefinidamente: “Sabes bem, ó Satã, Senhor de meu desespero…/Queria inebriar-me com a enorme prostituta…/Amo-te, ó capital infame!Cortesãs/ E bandidos, como tais ofereceis prazeres/ Que não compreendem os vulgares profanos…”Ou afirmar com Benjamin: “A conivência com essa dissolução lhe saiu cara. Mas é a lei da sua poesia que paira” em toda a melhor produção poética dos últimos cem anos.

1 Nota de 2012Além dessa tradução, eu tenho a clássica versão de Aurélio Buarque de Holanda, numa edição da Nova Fronteira (mas publicada pela José Olympio em 1950, na coleção Rubáyat) e a de Gilson Maurity, publicada pela Record em 2006 (na coleção Grandes Traduções).Ambas saíram como Pequenos Poemas em Prosa. Pela Hedra em 2007 saiu a tradução de Dorothée de Bruchard que também privilegia no título Pequenos Poemas em Prosa, mas logo ao lado traz O spleen de Paris.

O autor da introdução na edição da Record, Ivo Barroso, lista como a versão brasileira mais antiga a de Paulo M. Oliveira (supostamente), que saiu pela Athena, em 1937.

 

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