BLOG DO ALFREDO MONTE

08/02/2010

O (PE)DANTE DE GIULIO LEONI

    Pois bem, temos crimes ligados a concepções heréticas e blasfemas do mundo, conspirações cuja origem é o poder da igreja Católica, símbolos esotéricos, uma mulher que pode abalar os alicerces da civilização cristã, com um apelo ao mesmo tempo erótico e místico, igrejas sinistras, catacumbas, passagens secretas e, é claro, os templários, que parecem ser responsáveis por quase tudo o que aconteceu nos últimos dois milênios, ataques do PCC incluídos…

    Parece familiar? E é. E será enquanto os tolos formarem legião, conforme nos advertiu Umberto Eco, e encamparem as baboseiras dos códigos da Vinci e das operações cavalo de Tróia. Só que o livro em questão é Os Crimes do Mosaico (I Delitti Del Mosaico, Itália 2004). Nele, o italiano Giulio Leoni pega outro gênio da humanidade, Dante Alighieri, e o torna o investigador de sua trama: em junho de 1300, Dante é prior, uma autoridade mais de prestígio (o qual não funciona muito quando se está afogado em dívidas e perseguido por agiotas) do que de fato, em Florença, pertencente ao partido dos Brancos, que logo serão vencidos, o que acarretará seu exílio da cidade, “no meio da sua vida” (como colocará no início da Divina Comédia).  O Papa Bonifácio está de olho na cidade e não hesita em utilizar meios radicais para apressar seu domínio, como mandar envenenar o vinho dos priores, não para que eles morram, mas que sejam desmoralizados devido a alucinações.

    Um mosaicista, pertencente a um círculo de intelectuais, o Terceiro Céu, cuja missão é restaurar uma velha igreja para que se possa ali instalar uma universidade, é assassinado e, ao procurar seus confrades, os quais se reúnem numa taberna, Dante conhece Antilia (preste atenção no nome dela, é uma pista, se é que isso importa, leitor), uma dançarina que pode ser a herdeira do imperador Frederico, e, portanto, uma ameaça às pretensões hegemônicas de Bonifácio.

    No peito do morto fora traçado um pentágono, seu mosaico evoca o número 5 e este começa a avultar em todas as inquirições feitas por Dante. Investigando o enigma, ele se confronta com os inquisidores papais, com um exército de ladrões que pratica a mendicância e se refugia em inesperadas catacumbas deixadas pelo urbanismo romano, e acaba descobrindo que a identidade do assassino, de Antilia, e a solução do mistério encontram-se no que será chamado quase 200 anos depois de Novo Mundo, isto é, o continente além-oceano, a única parte da terra ainda isenta das maquinações e mazelas do cristianismo.

    Mais uma vez, apesar de ser perceptível a fluência narrativa de Giulio Leoni (ou seja, não é um desprazer ler Os Crimes do Mosaico), permanecemos mais na cenografia e no decorativo do que na ambientação autêntica, por mais que Dante perambule por toda Florença.  Não há um momento em que o romance convença enquanto discussão filosófica, especulação esotérica, crítica social ou confronto entre personagens, todas mal caracterizadas, difusas, truncadas. O único que merece realce se conduz de uma forma curiosa, pois o autor sistematicamente parece querer que antipatizemos com seu herói, um sujeito careta, reacionário (odeia o povo e é favorável à tortura e á repressão policial), puritano, vaidoso, hipócrita e auto-iludido.

    Como se trata de uma trama de mistério, isso prejudica em muito a empatia que poderíamos ter com o processo de investigação, já que o detetive não passa de um pe(dante). Por isso, não temos nem Agatha Christie nem Umberto Eco nem Dante. Talvez só um candidato à superprodução hollywoodiana.

(resenha publicada em 3 de junho de 2006)

____________________

 

Regra ou Enigma? Donna Tartt ou Dan Brown?

 

   É inequívoco o objetivo da editora Planeta de vender O Enigma do Quatro como um suspense na linha de O Código Da Vinci, inclusive ao trocar o “rule” (regra) do título original por um já desgastado “enigma”.

    Na verdade, ele se alinha com maior propriedade a um romance de certo sucesso da década passada, A História Secreta, de Donna Tartt, também uma história de impasses éticos e diferenças sociais em um grupo de amigos universitários, o qual participava de crimes associados a pesquisas e interesses eruditos.

    Há, é claro, na raiz da ficção norte-americana, desde os clássicos de Mark Twain (Tom Sawyer & Huckleberry Finn), uma obsessão em investigar a natureza da amizade e é por isso que a “regra” do quatro do romance de estréia de Ian Caldwell & Dustin Thomason é tanto uma chave para decifração de um texto antigo como igualmente e sobretudo uma focalização do enredo nos quatro colegas de dormitório de Princeton: Tom (o narrador), Paul, Charlie e Gil.

    Outro estereótipo querido e assaz usado marca presença: a sombra do pai. Tom rejeitou o seu, que no entanto inspirou Paul, que vai resgatá-lo para o verdadeiro filho, principalmente depois do confronto de ambos com os “pais” substitutos, no fundo perversos e perigosos: Richard Curry e o professor Taft, não por acaso antigos amigos do pai de Tom.

    Decidir se esses temas já deram o que tinham que dar é que será a medida para o leitor apreciar ou não O Enigma do Quatro.

    O que ocupa seus personagens é uma enigmática (e nunca satisfatoriamente estudada) obra do século XV, o Hypnerotomachia Poliphili, assunto da monografia de conclusão de curso de Paul, cujo orientador –Taft—planeja roubar, dedicado a ela como é há 30 anos, monomania que lhe custou o prestígio e o fez desentender-se com seus amigos (Curry e o pai de Tom), igualmente obcecados.

    Embora Tom tenha outro assunto para sua própria monografia (o Frankenstein de Mary Shelley) e uma namorada que não gosta muito de sua participação na decodificação do Hypnerotomachia Poliphili, ele ajuda Paul –até que se sente compelido a afastar-se. Na véspera do prazo final de entrega (coincidente ao fim-de-semana da Páscoa de 1999, quinhentos anos após a impressão original do texto; aliás, a ação se concentra nesses dias), ele é obrigado, assim como os leigos Charlie e Gil, a envolver-se novamente, já que Paul recebe das mãos de outro colega, logo a seguir assassinado, um diário que pertencia a Curry e fora roubado décadas antes e que o aproximará do segredo escondido no texto, possibilitando-lhe concluir a monografia…

    O que dá para apreciar de imediato em O Enigma do Quatro é a ambição da jovem dupla de autores, sua realização de uma fantasia cara a apaixonados por livros: transformar leitura em mistério (ainda que utilizando recursos já batidos). Ambição, mas sem poder de fogo. O texto escolhido, o tal Hypnerotomachia Poliphili jamais adquire vida para o leitor. Quando se chega à parte do confronto entre o suposto autor (Francesco Colonna) e Savanarola, sente-se falta de um sopro épico, de um pulso narrativo firme que lhe dê amplitude e relevo. Além do mais, há uma inconsistência básica na dinâmica narrativa: Paul chegou a esse confronto, que seria o grande achado do livro, através do diário roubado. Ele conseguiu, numa única noite, e com todo o corre-corre que acompanhamos, ler e decifrar um texto dificílimo, aplicando uma complicadíssima regra? Em que hora ele executou tal proeza?

    Por outro lado, se lembramos de A História Secreta durante a leitura não é porque sua melhor qualidade (o registro do cotidiano universitário) reapareça em O Enigma do Quatro; pelo contrário, ficamos incomodados com a irrealidade dessas conversas e atividades de estudantes. Todos estudam compenetradamente, não há drogas, sexo escasso, pouco rock’n roll, não há internet, só há um bêbado, convenientemente rejeitado e escorraçado. Em 1999?!! Por favor! Universidade e estudantes assim, nem em 1499.

(resenha publicada em 17 de junho de 2006)

________________________________________

07/02/2010

O ESGAR DO LEITOR

   O sorriso da sociedade, de Anna Lee, utiliza um crime entre intelectuais para compor um painel da nossa belle époque (que coincidiu com as primeiras décadas da República): em 1915, o sergipano Gilberto Amado, jornalista e deputado, assassinou um desafeto, o poeta de Mato Grosso, Annibal Theophilo, no Rio de Janeiro, onde ambos viviam. A partir desse fato, ela mostra um Rio colocado abaixo por reformas urbanas radicais, que expulsaram a população pobre do centro, iniciando-se o processo de favelização cujos resultados vemos hoje; os cafés e confeitarias, os grupos de intelectuais, as querelas entre eles, as figuras de proa (por exemplo, Euclides da Cunha, João do Rio, Bilac, Coelho Neto, Afrânio Peixoto, este último responsável pela célebre frase que fornece título ao livro). Nessa época consolidam-se, além das oligarquias republicanas, instituições como a ridícula (com a devida licença do seu genial e tão equivocado fundador, Machado de Assis) Academia Brasileira de Letras, que barrou Gilberto Amado naquela altura, mas o acolherá (e à sua nada imortal obra) na década de 60, quando ele mal lembrava do crime que cometera e do qual foi absolvido duas vezes, com uma defesa bizarra, envolvendo crises endocrinológicas que lhe alterariam o humor.

    Com material tão farto e tão rico, o primeiro susto que gela o sorriso do leitor e o transforma em esgar é verificar que o livro de Anna Lee é estarrecedoramente péssimo. Mais: é uma bomba radioativa de ruindade literária cujos efeitos perdurarão talvez muito tempo após a malfadada leitura. E mais uma vez seu padrinho editorial, Carlos Heitor Cony, o mais superestimado dos nossos escritores, errou feio, como no caso da também desprovida de talento Heloísa Seixas.

    Confesso, de saída, que nunca gostei do termo “jornalismo literário”. Ou há literatura, e portanto um talento único e pessoal, ou há jornalismo bem-escrito. A sangue frio é literatura, ponto. A canção do carrasco é literatura, ponto. Picture (Filme), de Lillian Ross, é jornalismo bem escrito, ponto. Anna Lee, porém, vive no pior dos mundos possíveis, uma vez que não conseguiu nem um nem outro. Sequer podemos considerar O sorriso da sociedade uma introdução ao tema, de tão mal alinhavado, confuso e rebarbativo. A pesquisa aparece de forma óbvia e rasa. O texto parece de livro escolar. Não há nenhum fato ou episódio que já não tenha sido explorado de forma melhor, e não dá para esquecer um livro esplêndido e merecidamente clássico (que Anna Lee não teve a dignidade de incluir na bibliografia, embora seja impossível que ela não tenha ouvido falar dele): Literatura como missão, de Nicolau Sevcenko, o qual aborda o mesmo período histórico, as mesmas figuras histórico-literárias.

    Para se ter uma idéia do (será que é possível utilizar tal palavra sem um sorriso de mofa, mas vá lá, que a pena da galhofa é a única solução possível) “estilo” de Anna Lee, basta ler a hilariante caracterização da roda que cercava o grande (e até hoje injustiçado como poeta) Olavo Bilac: “Faziam da ficção, da poesia e das brincadeiras, sem diferença, formas de expressão da imaginação, que era bastante fértil” Existe algum grupo literário digno desse nome que não tenha utilizado a ficção, a poesia (e as brincadeiras) como formas de expressão da fértil imaginação? Será que estamos diante de um fenômeno único? Único e ainda por cima passível de culpa: como eles poderiam utilizar, “sem diferença” coisas solenes como a poesia e a ficção e algo fútil como brincadeiras?

    A certa altura, Anna Lee afirma que está tratando de um tempo “em que se matava pela letra, pela palavra. Tadinha dela, se se levasse esse preceito a sério.

(resenha publicada em 4 de novembro de  2006)

03/02/2010

Diálogo em torno de uma tradução

 

    No meu post sobre Súplicas Atendidas, de Truman Capote, eu afirmava que a tradução de Guilherme da Silva Braga  era “cheia de escorregões e soluções ruins” (estendendo o reproche a uma parte dos tradutores da L&PM). Com toda a razão, o referido tradutor se referiu ao tom genérico e vago do meu comentário. pedindo que eu apontasse exemplos:

“Olá, Alfredo!

Não nos conhecemos, mas achei no seu blog uma referência à minha tradução “cheia de escorregões e soluções ruins” do livro Súplicas atendidas, do Truman Capote.

Como a crítica foi feita nos termos mais genéricos possíveis (sem um único exemplo) e é dirigida não só a mim mas todos os tradutores da editora, gostaria se possível que você me apontasse alguns desses deslizes para que eu possa analisá-los e comunicar à L&PM qualquer mudança pertinente. “(26.01.10)

     Não me fiz de rogado, é claro, e logo enviei uma lista de trechos, expressões e soluções que me desagradaram ou me pareciam estranhos:

… em alguns casos, talvez a revisão tenha falhado também, acredito que você também não é responsável pelo título: “Preces atendidas” seria mais exato, por causa da esfera religiosa da citação e porque todo o mundanismo  do livro se contrapõe a ela, num sentido muito moralista;

 
na pág. 25 aparece “Hadrian”, quando o correto já que é o costume seria “Adriano”.
    Aliás, a questão de títulos e nomes de  logradouros também é muito espinhosa, poderia ter sido unificada, e unas notas de rodapé, ou esclarecendo o título ou o significado que teriam em português, ou traduzindo, e em notas, colocando o original.  Por que deixar, na mesma pág. 25, em inglês os títulos dos contos de P.B.Jones? (“Suntan” e “Massage”; e na pág. 28, “Many Thoughts of Morton”)?, por que manter “upper Eighties” (p. 28) ?
na pág.30- Nuriêv não seria Nureyev ?;
 
há sempre uma preguiça em não traduzir trocadilhos e jogos de linguagem- na pág. 32, por exemplo, o jogo com Billy, o nome do reverendo sedutor e o “billy” para o pênis, foi muito mal resolvido.
 
As palavras garoto e menino, em várias passagens (p.34 ou p.37, por exemplo)´ficam muito aquém do significado sexual que lhes é conferido. No Brasil, temos o termo “bofe”, que cairia muito melhor. Aliás, esse termo, “bofe” é utilizado de maneira singularmente inadequada para um cliente de Jonesy na pág. 101 (um cliente de michês jamais seria um “bofe” na nossa cultura gay);
 
há os trechos que ficaram esquisitos ou meio sem sentido (ou eu fui muito burro e não consegui captar o sentido).: É estranho o “venho existindo” da pág. 19 (“na ACM de Manhattan onde venho existindo há um mês”);  na página seguinte: “Meu nome é P.B. Jones e estou com dois corações” (?).
   A caracterização do escritório de Boatwright (p. 24):  “O escritório tinha uma atmosfera  meio de negócios (!?).; parecia um salão vitoriano”. “Meio de negócios”?
 
 na pág. 29, “Faulkner, aficcionado em Lolitas”, a preposição está muito esquisita, não? e mesmo o termo “aficcionado”
 
na pág. 34- “depois de exagerar no vinho tinto e no amarelo”- não consegui entender esse “amarelo”.
na pág. 39 e em várias outras o termo “cafetão” não é muito exato, já que se trata do “bancador” do michê.
 
na pág. 40, um trecho estranhíssimo, que me parece truncado: “Denny prestava-se a um único papel, o de Amado, pois era tudo o que ele jamais tiinha sido [ já essa formulação de saída é muito estranha; a gente entende, mas é estranha]. Assim, exceto pelos  eventuais flertes com o comércio marítimo, o Amado tinha sido Watson” (!?).
 
na pág. 41, o que seria exatamente “o jeito bondoso e BIOLÓGICO”  de Jean Connoly?
    E na mesma página, que raios é um “cenografista”, função de Christopher Isherwood em Hollywood?
 
na pág. 47, mais um jogo de palavras perdido, que ficou forçado, porque “bastardo” não é um xingamento comum em português, mas sim em inglês:  “sabia que eu era um bastardo mas e me perdoava porque afinal de contas eu tinha nascido bastardo”. O primeiro bastardo tem, na verdade, acepção de canalha, filho-da-puta, como você bem sabe, e o trecho empastelou isso.
 
na pág. 52 eu não consegui entender o que significa “mas eu senti que ela tinha se juntado  à maioria”.
 
tudo bem que Capote cite em inglês um título de Colette, mas o tradutor brasileiro poderia procurar o título em francês de “My Mother´s house” ou indicá-lo em nota. (pág. 55)
 
na pág.61, há o seguinte trecho descuidado: “ele me deu um MURRO na cara, um GOLPE DE CARATÊ que deu a impressão…” etc etc. Não entende de caratê, mas creio que “murro” não seria o termo exato.
 
Não consigo imaginar ninguém falando (pág. 65): “Eu não levo. Posso meter. Mas não levo”. O cara diria “Eu não dou” ou algo similar, mas “não levo”, parece legenda de filme pornô, nas quais em vez de “me chupe” colocam “sugue meu pau”, coisa que ninguém fala na vida real.
 
Na pág. 76- Outra preposição e regência estranhas: “Por muitos anos fui parcial a Veneza” (e na página seguinte outro título de Jonesy que foi mantido em inglês).
 
         Em conversas com amigos que leram sua tradução, alguns estranharam outras coisas, que eu não tinha sacado, por exemplo  o termo “lambedora de carpetes” (pág. 79), que soa estranho em português.
      Espero, assim, ter escapado dos ´termos mais genéricos possíveis`, e sempre sublinhando que se trata apenas de opiniões”. (28.01.10)
 
       Fiquei impressionado com a presteza, a conscienciosidade e o brio profissional com que Guilherme me respondeu, quase ponto a ponto, e me envergonhei de não ter sido mais preciso no meu comentário sobre a tradução. Sua resposta também mostra como se pode discordar civilizada, porém incisivamente, de outrem:

“Agradeço muito os comentários mais detalhados enviados por email. Acho que tem um pouco de tudo: críticas em que você tem razão, críticas em que se trata de simples gosto pessoal (onde “gosto pessoal” é equiparado a “bom” e “gosto alheio” a “ruim”) e críticas relativas a trechos não há erro algum ou impropriedade alguma.

Alguns esclarecimentos gerais sobre opções tradutórias: não traduzo nomes de logradouros e não ponho notas de rodapé. Há quem goste e há quem não goste, mas são opções tão válidas e defensáveis quanto traduzir logradouros ou pôr as famigeradas (e na minha modesta opinião execrandas) notas de rodapé.

Quanto a “Hadrian”, você tem toda a razão — foi um deslize e vou avisar a editora.

“Nureyev” e “Nuriêv” estão ambos corretos e dependem apenas da norma usada para se transliterar do russo, mas as formas com Y em geral são meras cópias da transliteração inglesa, enquanto as versões com I seguem uma grafia mais de acordo com a nossa língua.Compare “Dostoevsky” com “Dostoiévski” ou “Tolstoy” com “Tolstói”, por exemplo.

A suposta preguiça na resolução do trocadilho Billy/billy explica-se simplesmente porque não há trocadilho: “billy” não é gíria para “pênis” em inglês. O personagem simplesmente chama o pênis do cliente pelo nome deste, da mesma forma que se poderia chamar o pênis de um sujeito chamado João de “joãozinho” ou algo assim.

  Observação de Alfredo Monte (também em função dos comentários gerados pelo post)- Na verdade, nunca pensei que “billy” fosse gíria para pênis, só achava que poderia haver uma adaptação para o português da brincadeira.

Os termos especificamente gays parecem realmente não estar de acordo. Também vou ver se resolvo isso melhor e comunico a editora.

“Estar com dois corações” é uma expressão bastante comum — ao menos por aqui (Porto Alegre) eu ouço com certa freqüência. O Google também registra mais de onze mil usos dessa mesma construção só na primeira pessoa do presente do indicativo, com o que se pode afirmar com razoável margem de segurança que se trata de expressão conhecida. Significa mais ou menos “não conseguir escolher entre duas opções por querer a ambas” (como em “Estou com dois corações — não sei se vou para a praia ou para a serra”, dando a entender que ambas opções são tão boas que é difícil escolher).

“Meio de negócios” quer dizer “mais ou menos como de negócios”, como se costuma dizer em linguagem corriqueira. Aqui já aproveito para ressaltar que esse livro destoa completamente, em termos estilísticos, de quase tudo o que o Capote escreveu — é muito mais coloquial e talvez (não sei) isso tenha afetado sua impressão a respeito da tradução como um todo. Mesmo em inglês, a linguagem do Capote deste livro pouco lembra o Capote de Bonequinha de luxo ou dos contos, por exemplo.

“Vinha amarelo” é simplesmente um tipo específico de vinho. Se chama assim mesmo em português (o Google registra cerca de 6.000 ocorrências).

O trocadilho com “bastardo”, é verdade, fica mais fraco em português. Mas simplesmente não há como resolver de maneira muito mais satisfatória — se você conhecer algum termo que queira dizer tanto “filho ilegítimo” como “filho-da-puta” na nossa língua, por favor queira me comunicar e prontamente pedirei a alteração. Esse é um exemplo bastante característico de crítica fácil a um problema tradutório para o qual uma solução ideal é absolutamente difícil de encontrar.

Sobre o livro da Collette: não há tradução para o português. Daí a opção por não traduzir (geralmente eu só traduzo os títulos de obras para as quais existe tradução, para evitar dar ao leitor a impressão — nesse caso, falsa — de que o livro existe em português).

Quanto a “não levo”, concordo que pode não ser muito comum, mas daí a dizer que não existe ou que é tradução malfeita vai um longo caminho. Uma busca por “não levo no cu” no Google, por exemplo, dá quase cem resultados.

“Lambedora de carpete” é um termo baseado na expressão bastante comum “lamber carpete” (fazer sexo oral em uma mulher, quase sempre com a implicatura de que quem faz sexo oral é também uma mulher).

Em relação às regências apontadas, você também tem razão, embora meia dúzia de erros desse tipo em um livro de 200 páginas não me pareçam justificar o emprego do termo “desleixo” em relação ao trabalho realizado. Na verdade foi o que me incomodou na sua crítica: não o fato de estar sendo criticado — o que faz parte, embora nunca seja agradável –, mas por simplesmente ver chamado de “desleixado” um trabalho que pode ter sido feito com qualquer coisa, menos desleixo.

Como você pode ler acima, pelo menos algumas das soluções criticadas com termos tão contundentes no blog são perfeitamente defensáveis e redigidas em português cursivo. Claro que daí a agradar vai um longo caminho — a meu ver, tão longo quanto o que separa a opinião perfeitamente legítima de “não gostei da tradução” ou “eu teria traduzido diferente” da opinião questionável (em vista dos argumentos acima) segundo a qual a tradução foi feita com desleixo.

Seja como for, agradeço o tempo que dedicou a essa correspondência.” (28.01.10)

            Creio também (e por isso pedi permissão a ele para divulgar nossa pequena correspondência) que as nossas observações mais detalhadas serão úteis e oportunas ao leitor do livro traduzido e do meu blog.

“Oi, Alfredo!,  Se quiser postar os esclarecimentos, fique à vontade, desde que eventuais comentários em resposta sejam feitos com respeito ao meu trabalho e também ao dos tradutores em geral. Naturalmente isso não o impede de tecer mais críticas se achar que esta é a coisa a fazer — apenas pressupõe que estas sejam redigidas com o mesmo bom-senso e a objetividade demonstrados no seu email, e não nos termos genéricos e abrangentes usados anteriormente no blog. Parece-me que críticas nos moldes dessas feitas no seu email só tem a acrescentar a essa relação tradutor-leitor (você apontou erros indiscutíveis pelo menos em relação ao nome “Hadrian” e às gírias do circuito gay — que pretendo corrigir em edições posteriores –, e acredito que pelo menos um ou dois comentários meus devam tê-lo convencido de que o que parecia ser erro não era), ao passo que menosprezar o trabalho do tradutor não contribui em nada para qualquer discussão que se pretenda minimamente séria ou útil a respeito do assunto.

Se estiver de acordo, vá em frente. Fique à vontade para corrigir quaisquer erros de digitação também (notei que comi um pedaço de uma frase logo no início do meu email e escrevi “vinha” amarelo, entre outros)”.(28.01.10);acho, por essa última observação que talvez ele pense que eu tenha uma sanha assassina andando à cata de erros e deslizes; só sou um pouco detalhista demais)….

Destaque do Blog: SÚPLICAS ATENDIDAS

Livraria Porto das Letras na Internet- acesse: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

Mas agora, disse ela, como quem volta ao que interessa, me diga o que você espera da vida, além de fama e fortuna, que são o óbvio. Eu respondi: Não sei o que espero. Sei o que eu gostaria. Eu gostaria de ser adulto.”  (Truman Capote, Monstros Imaculados)

 CAPOTE CAPOTOU?

      No Brasil existem algumas lacunas editoriais difíceis de explicar (Henry James que o diga). Mesmo com o sucesso  de A sangue frio & Breakfeast at Tiffany´s- Bonequinha de Luxo (por sinal, grandes obras literárias, antes de qualquer coisa), e com o pequeno volume do conjunto da obra de Truman Capote (1924-1964), há livros dele que nunca foram traduzidos por aqui, salvo engano: os seus dois primeiros romances, Others voices, others rooms (em Portugal, Outras vozes, outros lugares, mas também poderia ser “Outras terras, outras gentes”, aproveitando o verso proverbial), de 1948, e o encantador A harpa de ervas, de 1951. Pelo menos, agora temos uma edição (pela L&PM) de seu romance inacabado, ANSWERED PRAYERS-SÚPLICAS ATENDIDAS (não seria melhor  “Preces atendidas”, mesmo porque existe um livro de Danielle Steel com o título escolhido?), na tradução cheia de escorregões e soluções ruins de Guilherme da Silva Braga (a L&PM faz um trabalho fantástico de divulgação de um leque amplo de títulos para o leitor de qualquer nível aquisitivo, contudo não se pode dizer que exija muito capricho dos seus tradutores, como já pude comprovar muitas e muitas vezes)

      ´Capote começou a pensar em SÚPLICAS ATENDIDAS  logo após atingir o auge do sucesso com A sangue frio (nós sabemos o que lhe custaram esses anos envolvido com o livro devido às produções biográficas que trataram exautisvamente do assunto, o sonolento Capote & o ótimo Confidencial). Ele pretendia um vasto painel das mazelas e do avesso dos ricos e famosos com os quais convivia e que se aproximasse do microcosmo proustiano de Em busca do tempo perdido. Contrariando seus editores, ele publicou alguns capítulos do livro na revista “Esquire”, em meados dos anos 70 (apos anos adiando a publicação do livro, sempre negociando novos prazos) e foi execrado e transformado em inimigo público número um daquela gente toda. Por quê? Ele nem se deu ao trabalho de fazer o chamado “roman a clef”, o romance com pessoas reais aparecendo sob nomes que as disfarçassem, não, ele deu nome aos bois, contando as fofocas, os disse-me-disse, o que corria à boca pequena e à socapa E usou um tom venenoso, deletério, transformando todo aquele mundo numa espécie de caverna de monstros (não à toa, o primeiro capítulo tem o título de Monstros imaculados).

        No final, quando ele morreu, em  1984, todo o material prometido reduzia-se a três capítulos (a edição da L&PM tem 173 páginas). Nada mais foi encontrado (as hipóteses a respeito do assunto podem ser encontradas no Prefácio de Joseph M. Fox, para a edição póstuma de 1987, essa mesma que levou vinte e dois anos para chegar até nós).

        Portanto, qualquer avaliação de SÚPLICAS ATENDIDAS tem de levar em conta o seu inacabamento. Todavia, é quase impossível não comparar o resultado com outros que ficaram inacabados, como A morte feliz, de Camus, Um sopro de vida, de Clarice Lispector, Entre os atos, de Virginia Woolf, para não falar das grandes obras inacabadas que fazem parte da nossa imaginação (a de Kafka, a de Musil, O livro do desassossego, de Pessoa, até mesmo Em busca do tempo perdido, que nunca teve uma última demão). Como, apesar da ligação entre eles, Capote parece ter trabalhado em cada capitulo como um bloco separado, independente, pronto para publicação, não dá para evitar a sensação de que ele não se preocupou com o acabamento  de cada um deles, o que é mais preocupante do que a falta do conjunto. Cada um por si tem altos e baixos gritantes, que causam espanto ao leitor habitual do autor de Música para camaleões (meu livro favorito dele, para mim uma das maiores obras do século XX; aliás, Capote é o mais perfeito dos autores norte-americanos da 2a metade do século passado).

        O  tecto é uma narrativa de P.B. Jones, que está de volta a Nova York após anos de aventuras oportunistas na Europa e que escreve seu relato instalado na ACM  (“os corredores murmuram com as passadas abafadas de cristãos libidinosos; se você deixa a porta aberta, isso em geral é entendido omo um convite…”), aos 35 ou 36 anos (a imprecisão é devida às circunstâncias obscuras do seu nascimento).

      Com o sonho de ser escritor, logo cedo Jonesy começou a se prostituir, já quando trabalhava como massagista, e continuou na sua condição de michê , mesmo depois de publicar o primeiro (e único) romance, queimando-se no meio editorial nova-iorquino por abandonar a mulher (mais velha) com a qual passara a viver, uma personalidade marcante daquele meio. Na Europa, após inúmeras peripécias (e “quatorze mil dólares” de capital acumulado), ele conhece a (segundo o texto, porque o leitor não sente nada disso) Kate McCloud. É esse relacionamento e as conseqüências (ao que tudo indica, criminais) que deveria constituir o centro anedótico da narrativa de Jonesy, só que nunca saberemos, já que ele não existe, apenas a cena em que os dois se conhecem, e as inúmeras referências a ela. Portanto, falta a espinha dorsal do enredo de SÚPLICAS ATENDIDAS.

      Em Nova York, Jonesy volta a trabalhar como michê para a cafetina Victoria Self. Um dos seus clientes, embora não nomeado, é visivelmente Tennessee Williams, descrito de uma forma aniquiladora. No último capítulo “sobrevivente”, Jonesy acompanha uma amiga da alta sociedade ao La Côte Basque, lugar chiquíssimo de Nova York, onde os clientes são passados em revista, com todos os seus podres. Mas para o brasileiro de classe média de 2009, todas as fofocas malévolas e podres e lados b que avultam no texto não causam nenhum terremoto,  e boa parte do que se revela ali se mostra datado, letra morta, já que nenhuma personagem ganha relevo suficiente.

      O que mais me surpreende em Capote é o seu moralismo. Eu já afirmei, no meu post em que destacava algumas efemérides literárias ligadas ao século XX, que a mãe dele, Nina (que abominava ter um filho gay e tinha vergonha explícita do seu afeminamento), fez um ótimo trabalho para incutir culpa e automortificação em Capote. Em SÚPLICAS ATENDIDAS, ele parece se comprazer em se mostrar (e mostrar os conhecidos, e principalmente os gays) em contornos sórdidos: todos chafurdam na lama, todos são explorados ou exploradores, e a lealdade é pra lá de duvidosa… Não há dúvida de que esse ingrediente maldoso e essa psique tortuosa fazem parte do chamado mundo gay, todos nós conhecemos esse aspecto. O que espanta é que parece ser a única coisa que emergiu das vivências de Capote, toda aquele outro lado tão lírico e tão peculiar, que faz a delicia do leitor das histórias curtas (e quem esquece Breakfast at Tiffany´s?) e de A harpa de ervas, só não desapareceu porque há lampejos, lampejos lindos, que atravessam o livro (e não se pode deixar de lado que há coisas engraçadas e bacanas no meio das maldades, dos retratos derrisórios, nas anedotas engafarradas por anos na adega Capote prontas a serem servidas). No fundo, o estilo do romance manqué de Capote me parece de um discípulo de Louis-Ferdinand Céline, aquele terrível autor francês, que nas suas obras-primas Viagem ao fim da noite, de 1932, e Morte a Crédito, de 1934, descrevem a existência como um fardo de sordidez e canalhice, num estilo vulcânico, aos borbotões: “contra a abominação de ser pobre, é preciso, vamos confessar, é um dever, experimentar tudo”, lemos em Viagem ao fim da noite, ou ainda: “nus. É assim que a gente deve se habituar a imaginar desde o primeiro contato os homens que vêm nos visitar; os compreendemos bem mais depressa depois disso, distinguimos de imediato em qualquer criatura sua realidade de gigantesco e ávido verme. É um bom truque de imaginação. Seu imundo prestígio se dissipa, se evapora. Nu em pêlo, só resta em resumo diante de nós um pobre saco vazio despretensioso e cheio de si que se esforça em tartamudear num gênero ou noutro” ou ainda: “Indiscutivelmente haveria que fechar o mundo por duas ou três gerações pelo menos se não existissem mais mentiras para contar. Não teríamos mais nada a nos dizer, ou quase. Na literatura norte-americana, houve um discípulo de Céline, Norman Mailer. E o que sentia, lendo SÚPLICAS ATENDIDAS,é quse uma paródia do estilo de Mailer, ou então um Mailer que escrevesse parodiando o universo e o imaginário de Capote. O resultado saiu muito estranho.

      Não obstante, nenhum característica do livró é mais discutível ou mal solucionada do que seu próprio narrador-protagonista.  Capote fez dele ao mesmo tempo um alter ego e um catalisador de experiências, por meio da michetagem, que é mais ou menos correspondente ao pícaro (sem trocadilhos)  dos romances do tipo, que atravessam vários escalões da sociedade em suas aventuras. Mas, por alguma estranha razão, o autor (Capote) se esquece do physique de role básico do seu herói, que é essencialmente gay, e faz surgir diante de nós um hetero, apaixonado por Kate McCloud, um michê garanhão ativo, o que não convence ninguém, e falseia completamente os rumos da narrativa . Que Jonesy seja fascinado pelo mundo das mulheres (e que não o é?), tudo bem, mas que ele nos venha com ereções, tesões incontroláveis, disposições de cavaleiro andante,etc, nos faz rir e debochar.

J.D.SALINGER (1919-2010)

O AMOR IMODERADO DE SALINGER PELOS SEUS PERSONAGENS

(resenha publicada em 29 de maio de 2001)

     O personagem de Sean Connery no filme (mediano, é preciso dizer) de Gus Van Sant, Encontrando Forrester, é  inspirado em J. D. Salinger. Em O Campo dos Sonhos (1989) também havia um escritor, interpretado por James Earl Jones,  baseado nele (no romance original, ao que parece, o próprio Salinger é raptado pelo herói que, na adaptação cinematográfca, foi vivido por Kevin Costner, será que alguém ainda lembra?), recluso, intratável no tocante à imprensa e à publicidade e que, no entanto, ganha status de guru (para o assassino de  John Lennon, por exemplo). Salinger é, portanto,  um mito e só o o caso de Thomas Pynchon (outro arredio misterioso) lhe é comparável. Mais relevante, embora menos motivador de fofocas e factóides, é o fato de que ele poderia aspirar ao título de maior escritor norte-americano das últimas décadas, caso não enfrentasse um páreo duríssimo que ainda não foi satisfatoriamente definido (aliás, alguns concorrentes fortes arrasaram-no ao abordar seu trabalho: Norman Mailer, John Updike, Joan Didion, Mary MacCarthy).

       A exibição de Encontrando Forrester coincide com a nova tradução que a Companhia das Letras lança do último livro que Salinger publicou (em 1963): Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira (1955) & Seymour, uma apresentação  (1959) O primeiro já fora agraciado no Brasil com o título pueril e boboca de Pra cima com a viaga, moçada porque na época (1984) a editora Brasiliense procurava cortejar , mesmo que tivesse que apelar (e como ela apelou) o público jovem.

II

      Paralelamente ao incrível O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. É quase impossível dizer qual a melhor delas. Talvez a mais impactante, por ser a primeira, seja “Um dia ideal para os peixes-banana”, na qual acompanhamos um tenso diálogo telefônico entre mãe e filha a respeito do marido desta, Seymour Glass; depois ele aparece em cena, conversando com uma garotinha, até voltar para o quarto de hotel (onde a esposa, após a refrega com a mãe, está adormecida), pegar uma pistola e se matar.

       Issso acontece em 1948. O casamento de Seymour e Muriel fora em 42 e esse dia é narrado em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira pelo irmão do noivo, Buddy, na época com 23 anos e vítima de uma pleurisia (está em tratamento num hospital militar). É a época da guerra e alguns dos sete irmãos Glass estão mobilizados.

       Quando chega a Nova York para o casamento, Buddy não conhecia Muriel e sua família. No hotel onde será realizada a cerimônia, descobre que o noivo não aparecerá (estava “feliz em demasia” para se casar oficialmente). Na debandada geral após o fiasco, em limousines, Buddy acaba se reunindo com pessoas desconhecidas, incluindo mrs. Burwick, a dama de honra da noiva, uma das personagens mais fantásticas criadas por Salinger. Começam, então, os geniais diálogos nos quais ele é um mestre supremo.

       A deliciosa mrs. Burwick põe-se a fazer uma análise “psicológica” do noivo, sem saber a princípio que Buddy era seu irmão, muito calcada na avaliação da própria mãe de Muriel (aquela mesma do telefonema de “Um dia ideal para os peixe-banana”): ele é possivelmente um homossexual latente e um tipo esquizóide; segundo um psicanalista, é vítima de um “complexo de perfeição”.

      É  um dia de calor infernal e uma parada imobiliza o trânsito.  Desesperados com a temperatura e a tensão entre eles, depois que Buddy é desmascarado como irmão de Seymour, todos (Buddy, a dama de honra, o marido dela, uma simpática parente da noiva, um velhinho surdo-mudo) saem do carro procurando um lugar para se refrescar. Não encontram. Buddy, então, sugere o apartamento que dividia com Seymour antes da guerra. Ali, prosseguem os embates entre o grupo (através de um telefonema, ah esses telefonemas salingerianos!, a dama de honra fica sabendo da fuga de Muriel com o noivo) e Buddy encontra o diário de Seymour,a  única interferência direta do esquivo noivo em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira,  com exceção de uma cena no começo do texto.

III

     Apesar de todos os esforços de Buddy Glass em fornecer uma aura de poesia ao irmão, Seymour quase sempre soa falso.O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, um personagem que surgiu da necessidade de Salinger de adaptar seues estudos e exercícios expirituais do zen (e similares) ao universo ultra-ocidental e “sofisticado” em que se movem seus personagens típicos. Mas é quando retrata o ultra-ocidental que J.D. Salinger é um escritor excepcional e não quando tenta fazer dos sete irmãos da família Glass (que aparecem em diversos textos) algo assim como uma confraria mística.

       Num trecho do diário  que Buddy lê escondido dos seus inesperados convidados, no banheiro do apartamento, Seymour conta ter ido ao cinema com Muriel, comovendo-se quando ela se entrega ao espírito do dramalhão hollywoodiano, como numa cena em que aparecem gatinhos filhotes: “Como sou mesmo um chato, mencionei a definição de sentimentalismo de R.H. Blyth: uma pessoa é sentimental quando confere a alguma coisa mais ternura do que Deus a ela confere. Disse-lhe (pomposamente) que Deus sem dúvida ama os gatinhos, mas, muito provavelmente, não com botinhas nas patas e em tecnicolor. Ele deixa esses toques imaginativos para os escritores de roteiros cinematográficos”.

      Involuntariamente (?!) ferino e crítico, Seymour quer, pelo contrário, ser indiscriminado, amar tudo, “ir de um pedaço de Terra Sagrada para outro”, e mesmo o mundo falso, sentimental, burguês e materialista, ou seja, “em tecnicolor”, que cerca Muriel, o comove e o faz ser feliz “em demasia”.

       Quem matou a charada quanto ao mal estar que isso traz ao leitor (e sua subseqüente impressão, talvez errônea, de que a obra de Salinger enfraquece após obras-primas como O apanhador no campo de centeio & Nove estórias) foi John Updike quando afirmou que “Salinger ama os Glass mais do que Deus os ama. Ele os ama demasiado exclusivamente. A criação deles tornou-se um refúgio para ele. Ele os ama em detrimento da moderação artística.”

O MISTÉRIO E O FEITIÇO DE SEYMOUR  (A APRESENTAÇÃO, NÃO O APRESENTADO)

resenha publicada em cinco de junho de 2001, de forma ligeiramente diferente

        Seymour, uma apresentação merece atenção especial já pelo simples fato de ser difícil de se chegar a uma avaliação final sobre ele. Desde que o li pela primeira vez em 1984 (quando saiu no Brasil como Seymour, uma introdução), já o admirei muito,  já o detestei e o achei incongruente, já o considerei um dos limites finais da ficção  em matéria de ousadia formal, já o achei uma lengalenga, já o achei o máximo. São quase dezessete anos de um incessante movimento pendular.

      Qual o problema? Na seção anterior, constatava-se que há um excesso de amor de Salinger pela família Glass, a qual povoa vários de seus textos. Em “Lá embaixo, no bote”, uma das Nove estórias, veja-se a descrição de Boo Boo Glass: “… ela era em termos de rostos eternamente memorável e imoderadamente perceptiva, uma moça definitiva e impressionante”!!?? É em termos eternamente memoráveis e imoderadamente perceptivos que se constrói (ou se destila?) a longa apresentação de Seymour Glass por seu irmão Buddy. Quem é Seymour? É um visionário, um poeta. Um santo?

        Quando atirou na sua têmpora direita, ele deixava atrás de si 184 poemas. Buddy não transcreve nenhum, mas fala muito (muito mesmo) deles. Existirá algo mais irritante do que falar, no vazio, da obra de um personagem imaginário? Buddyt quer compor a hagiografia do irmão, quer santificá-lo como um poeta que foi além da poesia, isto é, como um místico que, no Ocidente, aplicou princípios orientais. Estamos diante de um Sócrates, e seu discípulo fala por ele, ou então de um Jesus, e vemos desdobrar-se o destino de um apóstolo? Ou Seymour era um avatar de Buda? Aí, o excesso de amor afeta a qualidade do texto, desequilibra-o consideravelmente.

      “Teddy”, a última das Nove estórias, apresentava um garoto de 10 anos que dava aulas de espiritualidade em meio a uma viagem transatlântica. Apesar do personagem-título, que é um chato (e que não passa de mais um exemplo do eterno garoto-prodígio que aparece tanto na indústria cultural norte-americana), o conto é magnífico, soando falso e desequilibrando-se artisticamente apenas que dá a palavra a ele: “A lógica é a primeira coisa que você tem de abandonar…Sabe aquela maçã que o Adão comeu no Paraíso, de acordo com a Bíblia? Sabe o que havia naquela maçã? Lógica. Lógica e troços intelectuais. Era só isso que havia nela. Por isso, se você quiser ver as coisas como elas realmente são, então tem que vomitar tudo isso…. O problema é que a maioria das pessoas não quer ver as coisas como elas realmente são. Não querem nem parar de nascer e morrer o tempo todo. Todo mundo só quer ter um novo corpo, em vez de parar e ficar com Deus, que é o que é bom mesmo” (lembre-se, leitor, DEZ anos!).

      O que irritava em Teddy irrita em Seymour: o papo é místico, mas o tom é de preleção, é professoral, vem de cima para baixo.

        Não é impossível criar santidade com palavras: E. M. Forster provou isso em Passagem para a Índia com sua mrs. Moore, a personagem feminina mais admirável de toda a ficção (na opinião de quem aqui escreve, é claro) e um protótipo de evolução espiritual, quase uma santa laica. Mas Salinger derrapa nas suas pretensões e parece atolar mais no nível de percepção de Buddy Glass, o qual, ironicamente, é quem salva o texto de Seymour, uma apresentação para a literatura.

          Evidentemente, ele tem um sério revanchismo subliminar com relação ao irmão, embora escamoteie-o através das mais diversas estratégias. O resultado dessas manobras é um dos estilos mais virtuosísticos jamais alcançados. Que Salinger fosse um virtuose do estilo se evidenciara desde O apanhador no campo de centeio, um daqueles romances raros que têm uma linguagem única, peculiaríssima, inimitável, onde tudo parece recém-inventado, como acontece também com Lolita, Grande Sertão:Veredas ou Viagem ao fim da noite, por exemplo. Entretanto, Seymour, uma apresentação leva essa peculiaridade ao extremo. E é o discurso de Buddy que acaba prevalecendo mais do que a presença artificiosa e forçada de Seymour. E descobrimos um narrador que não faria feio no mundo de Nabokov: o veneno retórico, a retaliação contra aqueles que não o aprovam e que ele não aprova, a ironia letal, mesmo num trecho aparentemente inofensivo como: “Vivo só (e sem gatos, faço questão de que todos saibam)”, o uso incessante dos parênteses paa criar múltiplos jogos de espelhos. E o que mais se evidencia na “apresentação” é o desgaste final do personagem “apresentado”, ele que aos 10 anos é tão pentelho quanto o Teddy do conto citado, ttanto que, quando o irmão mais novo está jogando bola de gude com um amigo, ele, como uma prima-do0na do esoterismo cósmico, aproxima-se e diz: “Por que você não tenta mirar menos?, perguntou-me sem se mover do lugar. Se você acertar quando mirar vai ser pura sorte, continuou falando, comunicando, sem por isso quebrar o encanto. Então eu tratei de quebrar o encanto. De propósito. Como é que vai ser sorte, se eu mirei?, respondi não muito alto, porém com mais irritação na voz do que estava de fato sentindo [vocês acreditam nisso, é claro!?]. Ele não disse nada por alguns intantes, apenas se deixou ficar equilibrado no meio-fio, olhando-me, eu sabia imperfeitamente, com amor: porque vai ser, acabou dizendo. Você vai ficar satisfeito se acertar a bola dele, não vai? Não vai ficar satisfeito? E, se você fica satisfeito quando acerta a bola de alguém, então, secretamente, é porque não esperava muito acertar. E é por isso que tem de haver uma dose de sorte, tem de ser meio sem querer, disse ele”.

      O resto do texto (já é quase no final) é dedicado a extrair profundas lições espirituais dessa intervenção de Seymour e transmiti-las ao leitor. Por que será, então, que decorridos quase 17 anos de releituras, a sensação é de que ele acaba induzindo o leitor a uma imagem antipática do irmão, quando este se manifesta verbalmente? Não tem jeito mesmo: admirável, detestável, incongruente, limite da ficção ou lengalenga, o mistério de Seymour, uma apresentação continua. E seu feitiço também.

UMA CAIXA COM TRÊS TÍTULOS DE SALINGER NOS 50 ANOS DE ‘NOVE ESTÓRIAS”

I-

resenha publicada em 12 de agosto de 2003

     Em 1953 (portanto, há 50 anos) era publicada a coletânea Nove estorias. Isso deve ter motivado a Editora do Autor a lançar os três livros de J.D. Salinger que detém em seu catálogo juntos numa caixa (cujo preço salgado é bastante desproporcional aos três volumes): o próprio Nove estórias; o clássico O apanhador no campo de centeio (1951), já várias vezes reeditado; e Franny e Zooey (1961), que só havia sido publicado uma vez no Brasil e é, portanto, de certa forma o destaque. Por esse motivo, inicia uma pequena série de artigos.

      O livro divide-se em dois textos, numa estrutura que lembra a de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação. Há um mais anedótico, por assim dizer, Franny (publicado originalmente  em 1955) e um outro mais diretamente comprometido com a mística muito particular da família Glass, Zooey (que apareceu em 1957; entre ambos, Salinger publicou Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, no qual, segundo alguns, “deu adeus à vida real”); isso significa que é narrado por Buddy, irmão de Franny e Zooey, e que em algum momento se pode esperar ensinamentos espirituais derivados do irmão mais velho deles, Seymour, o qual se suicidou com um tiro.

     Seymour é muito chato, Buddy e Zooey ficam muito chatos quando trazem à baila seus ensinamentos. No entanto, Seymour é a pedra angular dos textos que envolvem a família Glass. Será possível não o suportar e ainda assim apreciá-los?

     É possível. Salinger é um escritor fenomenal. Fica difícil engolir a preleção mística, mesmo assim é impossível não se emocionar com os vínculos afetivos e existenciais que envolvem a família Glass, que só encontrará páreo, na ficção norte-americana, na família Berry criada por John Irving no inesquecível Hotel New Hampshire (1981), no qual há também uma Franny.

     A Franny de Salinger tem uma espécie de colapso nervoso em meio a um fim de semana que foi passar com o namorado, Lane (ambos estão cursando universidades de elite). Ela está passando por um surto de paroxismo místico e não consegue levar a sério as preocupações intelectuais e acadêmicas dele.

     O que torna o texto brilhante é a maneira como a tensão sexual, mais do que as diferenças ontológicas, entre eles, é explorada em detalhes certeiros. Pot exemplo, ao vê-la na estação com um casaco de lontra (que destoa dos modelitos femininos em voga), Lane sente o orgulho da posse de uma garota tão bonita e rara (sabemos que Franny é bonita e rara porque Salinger não poupa elogios aos membros da família, com um exagero que chega a ser constrangedor): “pensava, com uma excitação reprimida, que era a única pessoa naquela plataforma que realmente conhecia o casaco de Franny. Lembrava-se  de que, certa vez, num carro emprestado, depois de beijar Franny por meia-hora mais ou menos, beijara também a gola daquele casaco, como se fosse um prolongamento orgânico e perfeitamente desejável da própria pessoa que o vestia”.

       Quando horas mais tarde, eles já estão praticamente em guerra, Franny vai ao banheiro e e olha o casaco: “Examinou-o agora com uma antipatia pouco menos do que irrestrita. As rugas do forro de seda pareciam, por alguma razão, irritá-lo profundamente”.

        No segundo texto, Franny volta para casa, após o desastroso fim-de-semana, e seu irmão Zooey, tão desamparado quanto ela diante da vida que tem de enfrentar com os padrões espirituais que adquiriu do irmão mais vellho, tenta ajudá-la, até mesmo se passando por Buddy, numa conversa telefônica. Ambos são muito jovens (são  os caçulas) e têm nítida percepção do custo de manter seus padrões (o suicídio de Seymour, o isolamento obsessivo de Buddy, a alienação deliberada de Boo Boo, a outra única moça entre os sete irmãos).

        É um texto que fascina e irrita, da mesma forma que Seymour, uma apresentação. Há um diálogo enorme e genial entre Zooey e a mãe, Bessie Glass, um dos melhores momentos da ficção do século XX; há a sensacional descrição da sala onde Franny está prostrada (numa formulação salingeriana do dilema da Bela Adormecida, ela está se preparando para acordar para a vida), que mostra que Salinger é um grande cronista de uma determinada faixa social de Manhattan; contudo, quando envereda pelas intermináveis exortações de Zooey a Franny sobre uma conduta espiritual mais autênticqa e correta, pisamos na lama e sentimos a derrapagem.

      O final, então, parece saído de um manual de auto-ajuda. E aí faz sentido o (maldosíssimo) reparo de Leslie Fiedler quanto aos personagens de Salinger: “A angústia deles é improvavelmente inspirada em perguntas do tipo: Será que o garoto de Harvard com quem vou sair no fim-de-semana realmente compreende o que é poesia”.

II

resenha publicada em 19 de agosto de 2003)

“Decidi que ia sumir do Pencey, dar o fora naquela noite mesmo e tudo. Nada de esperar até quarta-feira. Não quero mais ficar zanzando por lá. O troço todo estava me deixando triste e solitário pra burro. Por isso resolvi ir para um hotel em Nova York, um hotelzinho barato e tudo, e ficar flanando até quarta-feira. Aí, na quarta-feira, ia para casa descansado e me sentindo cem por cento… Além disso, eu estava precisando de umas feriazinhas. Meus nervos estavam abalados. No duro.”

       Como inúmeras outras pessoas, ao longo dos últimos 50 anos, eu sou doido por O apanhador no campo de centeio. Mas por que será que a história  de um pirralho riquinho de 16 anos, expulso de um colégio de elite, resolvido a “flanar” por alguns dias, antes de contar a situação para os pais, acabando por se envolver em episódios mais ou menos sórdidos, numa trajetória que o levará direto a um sanátório, enfeitiçou tantos leitores no mundo inteiro, transformando-se num cult.

      O grande crítico George Steiner avaliou isso de forma negativa: “Ele nada exige dos seus leitores em termos de cultura ou interesse político, lisonjeia-lhes a ignorância e a superficialidade moral. Sugere-lhes que a ignorância, apatia política e um vago sentimento de tristeza são virtudes. É aí que entra o uso engenhoso e meio deturpado que ele faz do zen. O zen está na moda. Gente que nem sequer tem os rudimentos de conhecimento necessários à leitura de Dante, nem a fibra que Schopenhauer exige, compra logo o último livro sobre zen”.

      Tirando o fato de que ninguém é obrigado a ler Dante ou Schopenhauer, pode-se argumentar que um dos pontos centrais de O apanhador no campo de centeioé que o desamparo de Holden Caulfield evidencia-se porque percebe que todo o aparato da cultura formal está fundado numa grande mentira, que os adultos supostamente mais sábios e preparados, que deveriam orientá-lo e esclarecê-lo, forjam vidas aparentemente respeitáveis e, no entanto, totalmente em desacordo com os seus sentimentos.

     O livro, portanto, convoca em nós aquele sentimento de insurreição contra a “realidade”, contra o estabelecido,que anda cada vez mais amortecido. Se isso é um resquício de adolescência (pois, desculpem a afirmação óbvia, não se pode eternamente ter 16 anos tal qual Holden), que felicidade é poder reencontrá-la em nós! E como Holden vive num mundo tão próspero, numa esfera social tão privilegiada, isso torna o efeito mais poderoso, pois a indignação moral é muito mais óbvia numa história, digamos, de alguém colocado diante do Holocausto na Segunda Guerra, onde o horror da situação oblitera que é preciso reformular a vida e não apenas corrigir injustiças e atrocidades.

      Essa sensação não se desvencilha da questão do estilo:  como já se afirmou outras vezes aqui nesta coluna, O apanhador no campo de centeio é um daqueles livros raros e únicos, onde a linguagem parece recém-inventada, tudo parece novo e intacto. O aspecto mais delicioso é a oralidade descontraída e desabusada que reproduz de maneira íntegra a voz adolescente de Holden (a narração é feita por ele mesmo), principalmente na reiteração de certas expressões fáticas (a tradução extraordinária, diga-se passagem, precisava ser revisada no quesito gíria para o texto não perder esse efeito de frescor) e no uso da hipérbole, do exagero. O vestíbulo de uma espelunca cheira “a cinqüenta milhões de cigarros apagados”. Uma peça de teatro “meio morrinha” era “a história de uns quinhentos mil anos na vida de um casal velho”. A opinião sobre um filme: “Quem não quiser vomitar até morrer não deve nem entrar no cinema quando estiver passando essa fita”. Pensando na morte: “Fiquei imaginando milhões de chatos indo ao meu enterro e tudo”. Uma cama tem “dez quilômetros de comprimento”. A irmã tem ‘uns cinco mil cadernos”. Saindo de fininho de casa, “por pouco não quebrei o pescoço nuns dez milhões de latas”. A esaposa do professor que lhe dá conselhos “era mais velha que o professor Antolini uns sessenta anos”.

       Além disso, há as reações impagáveis às pessoas. Ele conhece, numa boate, três mocréias: “Tentei começar um papo inteligente, mas era praticamente impossível. Só torcendo o braço delas”; um oficial da marinha “era um desses sujeitos que acham que vão parecer viados se não quebrarem uns quarenta dedos da mão da gente na hora de serem apresentados”.

      A tentação é seguir citando. Só para encerrar, porém, lembrando da tal apatia alienada recriminada por George Steiner, não custa citar um trecho de extrema coragem numa época pós-guerra e num país do tipo dos EUA. Holden recorda de seu irmão, D.B., falando sobre sua experiência da guerra: “Disse que o exército estava praticamente tão cheio de filhos-da-puta quanto os nazistas”.

III

resenha publicada em 02 de setembro de 2003

    Após comentar Franny & Zooey e O apanhador no campo de centeio, só faltava um artigo para dar conta da caixa lançada pela Editora do Autor, abordando Nove Estórias, as jóias da coroa da obra de J.D. Salinger. Entre elas, qual a mais preciosa?

     Talvez as três narrativas em primeira pessoa: O Gargalhada (The laughing man); Para Esmé, com amor e sordidez (For Esmé with love and squalor); A Fase Azul de De Daumier Smith (De Daumier Smith´s Blue Period). O Gargalhada é um daqueles textos evocativos de uma inocência perdida que fazem a peculiaridade da grande literatura norte-americana. Um time infantil de beisebol que fica siderado pelas histórias que o treinador narra sobre um herói, o Gargalhada, cujas aventuras deliciosamente se passam na fronteira entre Paris e a China. A ascensão, glória e queda do romance do treinador com uma garota determinam o abrupto final do ídolo e também da infância; Para Esmé é a história do soldado americano na Inglaterra que conhece uma garotinha, a qual, ao saber que ele é escritor, lhe pede uma história “extremamente sórdida e comovente”. A maneira como ele cumpra a promessa é fenomenal; já a história da ‘Fase Azul” de De Daumier-Smith (na verdade, pseudônimo do narrador para ingressar numa “escola de arte” no Canadá) é a prova que nem sempre inclinações místicas atrapalham os textos de J.D. Salinger. A paixão do jovem e desmesurado professor de desenho pela freira que lhe manda esboços é uma obra-prima.

     Ou os maiores quilates pertencem aos contos nos quais aparece a família Glass? Em Um dia ideal para os peixe-bananas (A perfect day for bananafish) se conta o suicídio de Seymour Glass, após uma conversa com uma garotinha de 10 anos, que o chama de Viu Mais Vidro (See More Glass), embora os melhores momentos sejam reservados para uma conversa da sua esposa, Muriel, com a mãe, a respeito do estranho marido que lhe coube; em Tio Wiggily em Connecticut, o fantasma de Wade Glass, morto na guerra, assombra a fútil e ao mesmo tempo desesperada vida da protagonista, Eloise, tanto quanto sua filhinha inventa sucessivos amigos invisíveis (houve uma adaptação cinematográfica, My foolish heart, com a grande e melodramática Susan Hayward); em Lá embaixo, no bote, Boo Boo Tannenbaum, irmã de Seymour e Wade, a qual deliberadamente aderira a uma vida burguesa alienada (tal como Eloise), para escapar do estranho destino dos seus familiares, tem que enfrentar a hiper-sensibilidade do filho, que se refugia num bote, desamparado diante de um mundo cheio de estranhos.

      Pouco antes da guerra com os esquimós é um daqueles textos onde se chega ao máximo de sofisticação em termos de sociedade norte-americana. É um máximo de civilização e um igualmente  maciço teor de vazio, aridez e desespero latente. E a perícia com que a história de Ginnie (que conhece o apartamento, o irmão e o amigo da parceira de tênis, de quem cobrou uma dívida, Selena) é narrada só encontra páreo na ficção dos EUA em gente do naipe de Dorothy Parker, Truman Capote ou John Cheever. Em nossa literatura, o leitor pode encontrar algo similar em certos contos e romances (Ciranda de Pedra, uma parte de As meninas) de Lygia Fagundes Telles.

      Lindos lábios e verdes meus olhos (Pretty mouth and green my eyes) é uma história de adultério estruturada em torno de uma conversa telefônica, procedimento em que o autor de Nove estórias é um mestre consumado (como o conto sobre o suicídio de Seymour demonstra logo nas primeiras e paradigmáticas páginas, pois abre a coletânea), principalmente porque poucos podem se comparar a ele na arte do diálogo.

      Sobra o incômodo Teddy: um texto-pregação no qual Salinger quis expressar sua “filosofia de vida”. Escolheu, para isso, um pirralho de 10 anos, que é a um só tempo um gênio e um iluminado. Mas gênio e iluminado mesmo só pode ser um escritor que consegue com um chatinho desses e com as distorções que a sua obra adquiriu (devido à tal “filosofia de vida”) permanecer grande. Cinqüenta anos depois de sua publicação original é o que nos prova cada jóia rara e única reunida em Nove estórias.

 

J.D. SALINGER (1919-2010), UM  AUTOR ÚNICO                

(resenha-homenagem publicada em 02 de fevereiro de 2010)

 “…fico imaginando uma porção de garotinhos num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto –quer dizer, ninguém grande— a não ser eu. E estou na beirada de um precipício louco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se eles estiverem correndo sem olhar para onde estão indo, eu tenho que sair de algum canto e agarrar eles. Só isso que ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio”.

     O leitor desta minha coluna  me perdoará, espero, a interrupção do comentário a respeito de  Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de  Lobo Antunes (na verdade,  ia fazer um paralelo entre a obra dele e a de Saramago como os grandes mestres da atual ficção de língua portuguesa) para homenagear J.D.Salinger, cuja morte teve grande repercussão na semana passada e que criou esse artefato raro, o livro-ícone, pop, cult, o que se quiser dizer, e que é ao mesmo tempo uma grande obra literária: O apanhador no campo de centeio (1951), um dos textos mais famosos e influentes do século XX, e em todos os níveis da cultura.

    Quem viu o filme Teoria da Conspiração lembra que o personagem de Mel Gibson era um assassino criado por experiências de laboratório e que se desgarrava dos seus mentores; no entanto, havia nele a compulsão (incutida) de comprar exemplares do livro de Salinger, permitindo assim que o pudessem localizar. E esse é apenas um exemplo da constante presença no imaginário da nossa época da história de Holden Caufield, onde pela primeira vez se deu uma voz convincente a uma figura que ficava numa espécie de “limbo” entre os personagens da ficção: o adolescente.

      Muito admirado, muito atacado e esnobado, O apanhador no campo de centeio transformou o esquivo Salinger num guru, e isso acarretou dois efeitos negativos: obrigou o autor a encerrar prematuramente sua carreira, com apenas quatro livros publicados (seu último livro apareceu em 1963,  e depois ele só publicou mais um conto, em 1965), e se tornar um recluso mítico e assediado, até sua morte aos 91 anos; pior ainda, obscureceu o resto da sua obra, num grave prejuízo para a literatura.

     Pois se com o frescor da sua linguagem, o mais famoso texto de Salinger é uma obra carismática, sua obra-prima com certeza é a coletânea Nove Estórias (1953), que eu sempre chamo de as jóias da coroa salingeriana. São oito contos maravilhosos (não aprecio o nono,  “Teddy”, porque já tem aquele pé na auto-ajuda e no misticismo, que ficarão cada vez mais acentuados em sua produção posterior, porém é uma questão de gosto). Aí aparecem pela primeira vez os membros da singular família Glass, criada como contraponto ao materialismo do “american way of life”: sete irmãos, sendo Seymour, o visionário, o poeta, quase um santo. Ele surge no extraordinário conto “Um dia ideal para os peixes-banana”, e alguns de seus irmãos nos contos “Tio Wiggily em Connecticut” e “Lá embaixo, no bote” ,  mas os meus preferidos no livro são “O gargalhada”, com aquele tema essencial da ficção americana, a perda da inocência, “Pouco antes da guerra com os esquimós” e “A Fase Azul de De Daumier-Smith”, que entram em qualquer antologia sensata dos melhores contos de todos os tempos.

     Nesses dois livros iniciais, temos uma visão muito clara do desamparo diante do mundo adulto e das escolhas que oferece (ou impõe), com a fixação na idéia de realização, sucesso e certezas monolíticas, o precipício no campo de centeio que Holden imagina, vendo-se como uma barreira para a imolação de futuras vítimas, num devaneio que muitos acham pueril, mas que é, no fundo, extremamente pungente.

     O restante da obra de Salinger é perturbador e problemático: ele continuou sendo um mestre da narrativa e do diálogo (e no retrato de uma determinada faixa sofisticada de Manhattan e da Nova Inglaterra) em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira  e Franny (1955), além de fazer experiências formais maravilhosas, como em Seymour, uma apresentação (1959), um dos textos mais radicais já escritos. Porém, seu apego pelo místico, pela disciplina do “zen”, e sua idealização da figura de Seymour Glass, prejudicaram muito o equilíbrio dessa última fase, especialmente  a última obra citada e  Zooey (1958), dando munição a seus detratores. São as peculiaridades e estranhezas do talento supremo, que nunca agradará a todos, mesmo. E  por isso, ele foi único.

 

 

26/01/2010

Destaque do blog: MIASMAS FAMILIARES em “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?”

“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma pedra)

      Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira, pela Alfaguara) tem um título que  é emblemático da visão de mundo que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar” na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore”.

        Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalingüística de forma mais feliz e conseqüente no seu mais recente romance, QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação também é problemática, pois, além de ser interpelado pelas suas criaturas,  afigura-se-nos que ele está numa corrida contra o tempo. Ele já afirmou que após os 70 anos (e,  nascido em 1942, portanto está quase lá) ninguém produz nada que preste. Então pode-se ler o seguinte nas págs.  108-109 do novo livro:

“o que pensará minmha mãe nesta altura, aposto que não há há espaço nela para pensar (…) e no entanto suponho que gorjeios, risinhos, uma palavra feita pedido de esmola ao telefone

___ Por quê?

         porque o mundo não se incomoda com a gente senhora (…)

__ Por quê?

      numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é seu testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu último livro, o que amarele por aí quando não existires…”

Como se sabe, nesta última década, talvez premido pelo “prazo” que decretou com suas declarações sempre um tanto dogmáticas, ele se lançou a uma tarefa ciclópica, quase assustadora (parece até que ele é um pactário, um Adrian Leverkühn), de lançar um após o outro uma série de livros “totais”, de uma amplidão que não deixa margem a dúvidas sobre quem é o maior nome da ficção em língua portuguesa dos nossos dias. Assim tivemos depois de  Eu hei-de amar uma pedra (2004): Ontem não te vi em Babilônia (2006), Meu nome é Legião (2007) e O arquipélago da insônia (2008).

E agora mais um tour-de-force.  A Alfaguara tem optado por manter a grafia de Portugal nas suas edições de Lobo Antunes, como outras editoras que estão fazendo o mesmo com seus lançamentos de autores lusitanos, entretanto não será essa a maior dificuldade do leitor que não está acostumado à sua linguagem peculiar, seus parágrafos que começam com letra minúscula (como se acompanhássemos um fluxo que não começa nem acaba) e se interrompem, os inúmeros parênteses que se abrem, as frases-refrões que surgem e ressurgem na boca dos mais diversos narradores, os fatos que parecem muito concretos e realistas e depois se tornam irreais e fantasmáticos… Na minha opinião, a obra dele é tanto um projeto modernista, no sentido de buscar a totalidade (como fizeram Joyce, Proust, Mann, Faulkner, Guimarães Rosa, Hermann Broch), quanto um projeto pós-modernista, no sentido de sombrear essa totalidade com seus escombros (o projeto modernista de Musil, que ficou inacabado, gigantesco fragmento, os autores pós-Beckett, que não acreditam mais em enredo, em personagens, no próprio real…

Ainda assim, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, por incrível que pareça, é mais fácil de ler que os anteriores (em O arquipélago da insônia, o efeito emaranhado era acentuado pela  perspectiva de um autista), com uma tessitura de fatos menos intrincada: acompanhamos os últimos momentos de vida da matriarca da decadente família Marques, e os depoimentos dos parentes mais próximos (e uma empregada fiel, ainda que desprezada, Mercília), especialmente dos filhos Francisco, Beatriz, Ana e João (há uma irmã que morreu, Rita, e um outro sobre o qual ninguém fala):  Francisco está roubando dos outros herdeiros os restos que conseguiu salvar da bancarrota; Beatriz é que nos dá a imagem de potência e plenitude que justifica o título (e que é retomada e/ou posta em dúvida pelos demais); Ana é viciada; e João é a vergonha da família, devido ao homossexualismo (na verdade, ele seria mais um pedófilo, caçando menininhos num parque) e ao fato de ter AIDS.

     Por mais histórias do gênero que já tenham sido escritas, poucas terão a visceralidade e radicalidade dessa investigação dos miasmas familiares que compõem nossa individualidade, essa “estranha idéia” que “viaja pela nossa carne”, como Drummond (autor muito importante para Lobo Antunes) tão bem colocou.

A leitura às vezes é exasperante, sobretudo porque, assim como Faulkner, nos vemos aprisionados numa visão de mundo em que o tempo como sucessão é anulado: o passado e o presente estão ali juntos, num círculo vicioso de impotência e paralisia. Não sou eu que o digo, é o próprio autor, veja-se outro trecho de Eu hei-de amar uma pedra, talvez sua obra maior: “pensando em como estas coisas se pegam a um homem, teimam, ficam tal como o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente”.  Mas mesmo quem recusar essa visão fatalística não poderá negar: Lobo Antunes é um narrador incomparável.

LEITURA EM ESPELHO: Saramago e Lobo Antunes (“Caim” e “O arquipélago da insónia”)

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

saramargoloboantunes

arquipélago da insonia

ANOTAÇÕES DE 21 de janeiro de 2010

“e portanto não tenho senão uma mulher inventada a respirar do lado da consola numa cama de estilo, a prima Hortelinda a mostrar-me o livro

__ Não constas aqui”

“Deve ser o fim ou qualquer coisa parecida com o fim…”

        Por conta de Drummond e a “estranha idéia de família viajando através da carne”, voltei a uma leitura que deixara interrompida, não porque o romance não fosse bom, muito, muito pelo contrário, mas por atribulações e vicissitudes pessoais: O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, de António Lobo Antunes, ainda sem edição brasileira.

     Reli esta semana as cem páginas iniciais e depois o livro inteiro e portanto já posso dizer, kde saída, que é uma das grandes obras do maior escritor de língua portuguesa do momento. É  parecido, sob alguns aspectos, com Eu hei-de amar uma pedra, inclusive pelo intrincado da narração, intrincado não pelos fatos em si,mas porque nós os acompanhamos em toda a sua concreticidade, se é que se pode dizer assim, de uma concreticidade visceral, acachapante e depois eles são des-realizados, se tornam fantasmáticos, recombinados, redistribuídos, ressignificados: como em Faulkner, no mundo de Lobo Antunes o tempo enquanto sucessão não existe.  Porém, a partir da segunda parte (eu estava no começo dela quando interrompi a leitura em novembro), ficamos sabendo que a narrativa em parte está a cargo de um autista (o irmão do narrador insone, que espera a manhã, que virá dali a pouco, e no entanto nunca será manhã). Agora: quem não tem o seu quê de autismo nesse universo todo regido pela incomunicabilidade? Veja-se na terceira parte, quando Maria Adelaide (a cunhada do autista) assume seu lugar na roda de narradores (a função primordial de todos: narradores, nessa vida que é absorvida monstruosamente por um livro continuamente escrito: “que espécie de livro é este que custa tanto escrever?”):

“eu com seis anos no quintas e cinqüenta aqui e no entanto a mesma pedra a esconder-me dos outros convencida que havia outrose não há outros…”;

ou ainda:

 “e portanto faleci em criança, as sombras da santinha e do enfermeiro sob a sombra da serra

__ Diz-me se cheiro a defunta não mintas

     e o meu cunhado a olhar para mim sem olhar para mim”

e mais adiante:

“e o pai do meu sogro as descer do mulo diante da casa que não existe chegado de uma herdade que não existe…”

“quantas vezes pedi ao meu marido que levasse o irmão de volta ao hospital e eu pudesse esquecer que faleci e achar que estou viva, não me habituo a Lisboa, estas avenidas que me assustam e esta gente que me ignora, quantas vezes perguntei ao meu marido

__ Por que tenho de morar com o teu irmão

       e o meu marido um gesto que se dissolvia no garfo (…)

__ Porque não tenho mais ininguém”…

        Além da revelação do autismo do narrador inicial (que cria um poderoso mundo primordial na primeira parte e depois gera uma formidável incerteza quanto ao que poderia haver de conteúdo “real” ali, quando o localizamos num hospital, sendo visitado intermitentemente pela família), um dos achados de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA é o personagem da Prima Hortelinda, uma espécie de Parca portuguesa, que consulta no seu caderno quem deve morrer (e a região rural onde vive já moribunda, quase sem mortos para serem apontados no caderno, e o narrador insone eternamente poupado, para viver o inferno da lembrança, mas que lembranças exatamente?).

       A morte como ser compassivo, suas intermitências:

“supõe-se que a morte nos quer mal, vai-se a ver e mentira, não gosta do que faz (…) quantas ocasiões deve ter perdido

__ Por que não entregam este serviço a outra?”

ou:

“e, depois, claro, a pergunta do costume

__ Por que eu?

     como se houvesse um motivo, não há motivo algum”

e se a morte é assimilada à compassiva Prima Hortelinda, Deus é assimilado à figura do avô:

“perguntei-lhe [ para Prima Hortelinda]

__ Quem é que manda em você?

       e um olhar para o teto

__ Ele já não sabe mandar porque até Deus, com a idade, se lhe turvou a cabeça, amolecia num banco a repetir perplexo, esfregando as mãos nos joelhos

__ Que estranha coisa é a vida”

    No entanto, eu confesso aos meus leitores: eu não saberia nem como nem por onde começar uma análise “global” e que se pretendesse esclarecedora e totalizante de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA. Ele me derrota, nesse sentido, assim como já fui derrotado por outros Lobo Antunes ou poir Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.

     O romance de Lobo Antunes tem um impacto sensorial, em sua matriz de imagens e falas que vão aparecendo e reaparecendo, recombinando-se, e dando a sensação de que entramos realmente na mente dos personagens. Fisicamente, eu quero dizer. Há sempre algo associado a alguém (o pai e o cavalo; o avô e o mulo; a avó e a chávena no pires; Prima Hortelinda e os goivos; a mãe e os baús perfumados); há as inúmeras modulações das afirmações que reaparecem e vão criando o referido impacto: “no tempo em que nada faltava na casa?”; “indiferença do meu irmão que continua comigo nesta casa em que apesar de igual quase tudo lhe falta”;  “na casa em que apesar de igual tudo principiava a faltar-lhe”; “o meu avô que continua nesta casa a quem tudo falta, apesar de igual”; “conforme se desfez a casa em que apesar de igual tudo lhe falta hoje em dia”. A questão é justamente essa: quando é “hoje jem dia”, quando tudo falta na casa, apesar de igual, casa que porventura talvez nem tenha existido: “Qual a minha idade hoje em dia e quantos anos se passaram desde aquilo que contei?”; “qual  é a minha idade, quantos anos passaram, catorze, vinte, trezentos ou nenhum”.

Anotações de cinco de novembro de 2009

“Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão

     __ Não ouves?

      procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira  e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros  por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés  se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que  podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou  sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…”

    Finalmente terminei a primeira parte de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, após algumas atribulações  e vicissitudes pessoais (neste sentido, e apenas neste, não dou sorte com Lobo Antunes: toda vez que leio um livro dele ou não estou muito bem de saúde, ou caio doente, ou acontece algo desagradável na minha vida).

      Como já afirmei (ver abaixo), apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade.  Parece que estamos vendo em ação o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os onipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos,  como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): “…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…”. Cinquenta páginas depois: “…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…”  Mais adiante: “De maneira que fico aqui à espra porque com um  bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar conosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…”

antunes

04.11.09- Quando eu pensei em fazer uma leitura comparativa entre livros de  Saramago & Lobo Antunes, a minha primeira idéia foi de usar Meu nome é legião como contraleitura de CAIM até por causa do seu título bíblico, mesmo que o romance de Lobo Antunes focalizasse a violência urbana dos nossos dias, centrando-se num grupo muito jovem de delinqüentes. Todavia, eu não resisti à beleza do título O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA e até que não errei muito na troca, uma vez que se pode afirmar que esse livro (publicado em Portugal em 2008) é extremamente “bíblico”. Acredito que Lobo Antunes  atingiu, aqui, a primordialidade. Embora se possa (e se deva) fazer uma leitura histórica, de um meio rural português em meados do século passado, há um sopro de intemporalidade na descrição das relações, dos hábitos, da paisagem, que inscreve o texto numa ancestralidade bíblica, com o patriarcalismo triunfante: temos o Avô, o Pai, a Mãe, a Avõ, o Irmão, a Vila, a Herdade, enfim, tudo sendo construído e descontruído pela memória, naquela coisa louca loboantunisiana de fazer frases e falas voltarem a todo momento, mas tudo Único, primordial, ancestral no sentido mais visceral da palavra.

jose-saramago-rosto-viagem-elefante-436caim

  Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor     

       O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.

      Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e  questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um  momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”

    Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.

    Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.

      Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.

      Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.

       Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.

(resenha publicada em “A Tribuna” em 03.11.09) 

_________________________

LIRISMO E REALISMO AO MODO LOBO ANTUNES

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em primeiro de novembro de 1994)

 Digitalizar0001

MOTE

    Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

    Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

    Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação lingüística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.

O CASO LOBO ANTUNES

    O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima.  Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

“A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira.-Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

     E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços”.

    Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (Fluxofloema; Qadós; Tu não te moves de ti).

CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

    Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

    Em Auto dos Danados,cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de  Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

    Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca  agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

    Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.

 (a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983)

 Lobo+Antunes

 

   

23/01/2010

“A cidade há de seguir-te(…) A esta cidade sempre chegarás”

  

  Em Pontos de fuga, Graham Greene, ao falar sobre lugares que capturam o nosso coração, escreve: “Aos 31 anos, na Libéria, dei meu coração à África Ocidental… Meu amor pela África aprofundou-se ali, em particular pelo que é chamado, no mundo inteiro, a Costa, aquele mundo de tetos de zinco, de urubus pousando ruidosamente, de caminhos de laterita ganhando uma cor rosada à luz do entardecer.”

    Há exatamente 50 anos, Lawrence Durrell (1912-1990) lançou o primeiro volume (Justine) do mais inesquecível registro ficcional do feitiço de um lugar: “Em essência, o que é essa nossa cidade? O que resume o nome Alexandria? Num relance, minha mente exibe incontáveis ruas tomadas de poeira..o doce odor da poeira dos tijolos e das calçadas quentes saciadas com água”.

    É desconcertante que só agora apareça uma tradução brasileira de O quarteto de Alexandria (durante anos circulou por aqui a ótima versão portuguesa, de Daniel Gonçalves), que seria completado em 1960. Trata-se de um dos romances mais belos a destrinçar o paradoxo de se existir mais na memória do que no próprio ato de viver.

    Então, temos a cidade e a memória, o labirinto e o fio de Ariadne que nos permite percorrê-lo. A cidade, em sua dimensão mitológica, onde Justine, amante do narrador “errava em busca (no meio de uma terrível solidão do espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser” (é preciso dizer que a, em geral correta, tradução brasileira, às vezes carece de graça. Veja-se como ele traduz o mesmo trecho: “buscando com uma dedicação assustadora a centelha definitiva que a elevaria até uma nova perspectiva de si mesma”). Essa busca é a tentativa de quebrar as imagens fixadas nos espelhos cuja reiterada aparição no livro acabam proporcionando-nos uma imprevisível mistura de Proust e Borges, o mundo da memória perseguindo o Ser e o mundo fantasmagórico em que o ser é apenas um reflexo e igualmente pode Não-ser: “Na hora de ir  para a cama, Justine olhava-se no espelho do primeiro patamar da escadaria e ralhava com seu reflexo: Estou cansada de você, sua judia presunçosa e histérica!”

    O narrador do livro é um professor irlandês, envolvido com uma dançarina de cabaré que se prostitui, Cléa. Ele conhece Justine, esposa do milionário Nessim, discípula do místico Balthazar, descendente espiritual da sua homônima criada pelo Marquês de Sade, envolta em sensualidade, mas com um “ar de perpétuo esgotamento” (“uma verdadeira filha de Alexandria; nem grega, nem síria, nem egípcia, mas um híbrido, um complexo”). Enfim, uma mulher “que arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros”. A cidade, a memória, a mulher, os grandes pólos enfeitiçantes, imantadores e galvanizantes da literatura, que propiciarão ao narrador o “primeiro grande desastre da idade madura”, numa ciranda amorosa alexandrina que oferecerá “uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos” na “zona de atração que  Alexandria criava para aqueles que escolhera como seus símbolos”.

    Cidade, memória, mulher, espelhos. E um fantasma literário vindo admoestar constantemente o Hamlet de Durrell: o poeta de Alexandria, Konstantinos Kaváfis (1863-1933), com sua poesia de momentos irrisórios impiedosamente reconstruídos:

    Dizes: “Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.

    Hão de existir outras cidades melhores do que esta.

    De todo o esforço feito –estava escrito—nada resta

    E sepultado qual um morto tenho o coração.

    Até quando vai minha alma ficar nesta inação?(…)

    Não acharás novas terras, tampouco novo mar.

    A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares

    Serão as mesmas… A esta cidade sempre chegarás…

    A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho

    Do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar”. ( (tradução de José Paulo Paes)

(resenha publicada em três de março de 2007)

______________________

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.