
O AMOR IMODERADO DE SALINGER PELOS SEUS PERSONAGENS
(resenha publicada em 29 de maio de 2001)
I
O personagem de Sean Connery no filme (mediano, é preciso dizer) de Gus Van Sant, Encontrando Forrester, é inspirado em J. D. Salinger. Em O Campo dos Sonhos (1989) também havia um escritor, interpretado por James Earl Jones, baseado nele (no romance original, ao que parece, o próprio Salinger é raptado pelo herói que, na adaptação cinematográfca, foi vivido por Kevin Costner, será que alguém ainda lembra?), recluso, intratável no tocante à imprensa e à publicidade e que, no entanto, ganha status de guru (para o assassino de John Lennon, por exemplo). Salinger é, portanto, um mito e só o o caso de Thomas Pynchon (outro arredio misterioso) lhe é comparável. Mais relevante, embora menos motivador de fofocas e factóides, é o fato de que ele poderia aspirar ao título de maior escritor norte-americano das últimas décadas, caso não enfrentasse um páreo duríssimo que ainda não foi satisfatoriamente definido (aliás, alguns concorrentes fortes arrasaram-no ao abordar seu trabalho: Norman Mailer, John Updike, Joan Didion, Mary MacCarthy).
A exibição de Encontrando Forrester coincide com a nova tradução que a Companhia das Letras lança do último livro que Salinger publicou (em 1963): Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira (1955) & Seymour, uma apresentação (1959) O primeiro já fora agraciado no Brasil com o título pueril e boboca de Pra cima com a viaga, moçada porque na época (1984) a editora Brasiliense procurava cortejar , mesmo que tivesse que apelar (e como ela apelou) o público jovem.


II
Paralelamente ao incrível O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. É quase impossível dizer qual a melhor delas. Talvez a mais impactante, por ser a primeira, seja “Um dia ideal para os peixes-banana”, na qual acompanhamos um tenso diálogo telefônico entre mãe e filha a respeito do marido desta, Seymour Glass; depois ele aparece em cena, conversando com uma garotinha, até voltar para o quarto de hotel (onde a esposa, após a refrega com a mãe, está adormecida), pegar uma pistola e se matar.
Issso acontece em 1948. O casamento de Seymour e Muriel fora em 42 e esse dia é narrado em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira pelo irmão do noivo, Buddy, na época com 23 anos e vítima de uma pleurisia (está em tratamento num hospital militar). É a época da guerra e alguns dos sete irmãos Glass estão mobilizados.
Quando chega a Nova York para o casamento, Buddy não conhecia Muriel e sua família. No hotel onde será realizada a cerimônia, descobre que o noivo não aparecerá (estava “feliz em demasia” para se casar oficialmente). Na debandada geral após o fiasco, em limousines, Buddy acaba se reunindo com pessoas desconhecidas, incluindo mrs. Burwick, a dama de honra da noiva, uma das personagens mais fantásticas criadas por Salinger. Começam, então, os geniais diálogos nos quais ele é um mestre supremo.
A deliciosa mrs. Burwick põe-se a fazer uma análise “psicológica” do noivo, sem saber a princípio que Buddy era seu irmão, muito calcada na avaliação da própria mãe de Muriel (aquela mesma do telefonema de “Um dia ideal para os peixe-banana”): ele é possivelmente um homossexual latente e um tipo esquizóide; segundo um psicanalista, é vítima de um “complexo de perfeição”.
É um dia de calor infernal e uma parada imobiliza o trânsito. Desesperados com a temperatura e a tensão entre eles, depois que Buddy é desmascarado como irmão de Seymour, todos (Buddy, a dama de honra, o marido dela, uma simpática parente da noiva, um velhinho surdo-mudo) saem do carro procurando um lugar para se refrescar. Não encontram. Buddy, então, sugere o apartamento que dividia com Seymour antes da guerra. Ali, prosseguem os embates entre o grupo (através de um telefonema, ah esses telefonemas salingerianos!, a dama de honra fica sabendo da fuga de Muriel com o noivo) e Buddy encontra o diário de Seymour,a única interferência direta do esquivo noivo em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, com exceção de uma cena no começo do texto.

III
Apesar de todos os esforços de Buddy Glass em fornecer uma aura de poesia ao irmão, Seymour quase sempre soa falso.O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, um personagem que surgiu da necessidade de Salinger de adaptar seues estudos e exercícios expirituais do zen (e similares) ao universo ultra-ocidental e “sofisticado” em que se movem seus personagens típicos. Mas é quando retrata o ultra-ocidental que J.D. Salinger é um escritor excepcional e não quando tenta fazer dos sete irmãos da família Glass (que aparecem em diversos textos) algo assim como uma confraria mística.
Num trecho do diário que Buddy lê escondido dos seus inesperados convidados, no banheiro do apartamento, Seymour conta ter ido ao cinema com Muriel, comovendo-se quando ela se entrega ao espírito do dramalhão hollywoodiano, como numa cena em que aparecem gatinhos filhotes: “Como sou mesmo um chato, mencionei a definição de sentimentalismo de R.H. Blyth: uma pessoa é sentimental quando confere a alguma coisa mais ternura do que Deus a ela confere. Disse-lhe (pomposamente) que Deus sem dúvida ama os gatinhos, mas, muito provavelmente, não com botinhas nas patas e em tecnicolor. Ele deixa esses toques imaginativos para os escritores de roteiros cinematográficos”.
Involuntariamente (?!) ferino e crítico, Seymour quer, pelo contrário, ser indiscriminado, amar tudo, “ir de um pedaço de Terra Sagrada para outro”, e mesmo o mundo falso, sentimental, burguês e materialista, ou seja, “em tecnicolor”, que cerca Muriel, o comove e o faz ser feliz “em demasia”.
Quem matou a charada quanto ao mal estar que isso traz ao leitor (e sua subseqüente impressão, talvez errônea, de que a obra de Salinger enfraquece após obras-primas como O apanhador no campo de centeio & Nove estórias) foi John Updike quando afirmou que “Salinger ama os Glass mais do que Deus os ama. Ele os ama demasiado exclusivamente. A criação deles tornou-se um refúgio para ele. Ele os ama em detrimento da moderação artística.”

O MISTÉRIO E O FEITIÇO DE SEYMOUR (A APRESENTAÇÃO, NÃO O APRESENTADO)
resenha publicada em cinco de junho de 2001, de forma ligeiramente diferente
Seymour, uma apresentação merece atenção especial já pelo simples fato de ser difícil de se chegar a uma avaliação final sobre ele. Desde que o li pela primeira vez em 1984 (quando saiu no Brasil como Seymour, uma introdução), já o admirei muito, já o detestei e o achei incongruente, já o considerei um dos limites finais da ficção em matéria de ousadia formal, já o achei uma lengalenga, já o achei o máximo. São quase dezessete anos de um incessante movimento pendular.
Qual o problema? Na seção anterior, constatava-se que há um excesso de amor de Salinger pela família Glass, a qual povoa vários de seus textos. Em “Lá embaixo, no bote”, uma das Nove estórias, veja-se a descrição de Boo Boo Glass: “… ela era em termos de rostos eternamente memorável e imoderadamente perceptiva, uma moça definitiva e impressionante”!!?? É em termos eternamente memoráveis e imoderadamente perceptivos que se constrói (ou se destila?) a longa apresentação de Seymour Glass por seu irmão Buddy. Quem é Seymour? É um visionário, um poeta. Um santo?
Quando atirou na sua têmpora direita, ele deixava atrás de si 184 poemas. Buddy não transcreve nenhum, mas fala muito (muito mesmo) deles. Existirá algo mais irritante do que falar, no vazio, da obra de um personagem imaginário? Buddyt quer compor a hagiografia do irmão, quer santificá-lo como um poeta que foi além da poesia, isto é, como um místico que, no Ocidente, aplicou princípios orientais. Estamos diante de um Sócrates, e seu discípulo fala por ele, ou então de um Jesus, e vemos desdobrar-se o destino de um apóstolo? Ou Seymour era um avatar de Buda? Aí, o excesso de amor afeta a qualidade do texto, desequilibra-o consideravelmente.
“Teddy”, a última das Nove estórias, apresentava um garoto de 10 anos que dava aulas de espiritualidade em meio a uma viagem transatlântica. Apesar do personagem-título, que é um chato (e que não passa de mais um exemplo do eterno garoto-prodígio que aparece tanto na indústria cultural norte-americana), o conto é magnífico, soando falso e desequilibrando-se artisticamente apenas que dá a palavra a ele: “A lógica é a primeira coisa que você tem de abandonar…Sabe aquela maçã que o Adão comeu no Paraíso, de acordo com a Bíblia? Sabe o que havia naquela maçã? Lógica. Lógica e troços intelectuais. Era só isso que havia nela. Por isso, se você quiser ver as coisas como elas realmente são, então tem que vomitar tudo isso…. O problema é que a maioria das pessoas não quer ver as coisas como elas realmente são. Não querem nem parar de nascer e morrer o tempo todo. Todo mundo só quer ter um novo corpo, em vez de parar e ficar com Deus, que é o que é bom mesmo” (lembre-se, leitor, DEZ anos!).
O que irritava em Teddy irrita em Seymour: o papo é místico, mas o tom é de preleção, é professoral, vem de cima para baixo.
Não é impossível criar santidade com palavras: E. M. Forster provou isso em Passagem para a Índia com sua mrs. Moore, a personagem feminina mais admirável de toda a ficção (na opinião de quem aqui escreve, é claro) e um protótipo de evolução espiritual, quase uma santa laica. Mas Salinger derrapa nas suas pretensões e parece atolar mais no nível de percepção de Buddy Glass, o qual, ironicamente, é quem salva o texto de Seymour, uma apresentação para a literatura.
Evidentemente, ele tem um sério revanchismo subliminar com relação ao irmão, embora escamoteie-o através das mais diversas estratégias. O resultado dessas manobras é um dos estilos mais virtuosísticos jamais alcançados. Que Salinger fosse um virtuose do estilo se evidenciara desde O apanhador no campo de centeio, um daqueles romances raros que têm uma linguagem única, peculiaríssima, inimitável, onde tudo parece recém-inventado, como acontece também com Lolita, Grande Sertão:Veredas ou Viagem ao fim da noite, por exemplo. Entretanto, Seymour, uma apresentação leva essa peculiaridade ao extremo. E é o discurso de Buddy que acaba prevalecendo mais do que a presença artificiosa e forçada de Seymour. E descobrimos um narrador que não faria feio no mundo de Nabokov: o veneno retórico, a retaliação contra aqueles que não o aprovam e que ele não aprova, a ironia letal, mesmo num trecho aparentemente inofensivo como: “Vivo só (e sem gatos, faço questão de que todos saibam)”, o uso incessante dos parênteses paa criar múltiplos jogos de espelhos. E o que mais se evidencia na “apresentação” é o desgaste final do personagem “apresentado”, ele que aos 10 anos é tão pentelho quanto o Teddy do conto citado, ttanto que, quando o irmão mais novo está jogando bola de gude com um amigo, ele, como uma prima-do0na do esoterismo cósmico, aproxima-se e diz: “Por que você não tenta mirar menos?, perguntou-me sem se mover do lugar. Se você acertar quando mirar vai ser pura sorte, continuou falando, comunicando, sem por isso quebrar o encanto. Então eu tratei de quebrar o encanto. De propósito. Como é que vai ser sorte, se eu mirei?, respondi não muito alto, porém com mais irritação na voz do que estava de fato sentindo [vocês acreditam nisso, é claro!?]. Ele não disse nada por alguns intantes, apenas se deixou ficar equilibrado no meio-fio, olhando-me, eu sabia imperfeitamente, com amor: porque vai ser, acabou dizendo. Você vai ficar satisfeito se acertar a bola dele, não vai? Não vai ficar satisfeito? E, se você fica satisfeito quando acerta a bola de alguém, então, secretamente, é porque não esperava muito acertar. E é por isso que tem de haver uma dose de sorte, tem de ser meio sem querer, disse ele”.
O resto do texto (já é quase no final) é dedicado a extrair profundas lições espirituais dessa intervenção de Seymour e transmiti-las ao leitor. Por que será, então, que decorridos quase 17 anos de releituras, a sensação é de que ele acaba induzindo o leitor a uma imagem antipática do irmão, quando este se manifesta verbalmente? Não tem jeito mesmo: admirável, detestável, incongruente, limite da ficção ou lengalenga, o mistério de Seymour, uma apresentação continua. E seu feitiço também.

UMA CAIXA COM TRÊS TÍTULOS DE SALINGER NOS 50 ANOS DE ‘NOVE ESTÓRIAS”

I-
resenha publicada em 12 de agosto de 2003
Em 1953 (portanto, há 50 anos) era publicada a coletânea Nove estorias. Isso deve ter motivado a Editora do Autor a lançar os três livros de J.D. Salinger que detém em seu catálogo juntos numa caixa (cujo preço salgado é bastante desproporcional aos três volumes): o próprio Nove estórias; o clássico O apanhador no campo de centeio (1951), já várias vezes reeditado; e Franny e Zooey (1961), que só havia sido publicado uma vez no Brasil e é, portanto, de certa forma o destaque. Por esse motivo, inicia uma pequena série de artigos.
O livro divide-se em dois textos, numa estrutura que lembra a de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação. Há um mais anedótico, por assim dizer, Franny (publicado originalmente em 1955) e um outro mais diretamente comprometido com a mística muito particular da família Glass, Zooey (que apareceu em 1957; entre ambos, Salinger publicou Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, no qual, segundo alguns, “deu adeus à vida real”); isso significa que é narrado por Buddy, irmão de Franny e Zooey, e que em algum momento se pode esperar ensinamentos espirituais derivados do irmão mais velho deles, Seymour, o qual se suicidou com um tiro.
Seymour é muito chato, Buddy e Zooey ficam muito chatos quando trazem à baila seus ensinamentos. No entanto, Seymour é a pedra angular dos textos que envolvem a família Glass. Será possível não o suportar e ainda assim apreciá-los?
É possível. Salinger é um escritor fenomenal. Fica difícil engolir a preleção mística, mesmo assim é impossível não se emocionar com os vínculos afetivos e existenciais que envolvem a família Glass, que só encontrará páreo, na ficção norte-americana, na família Berry criada por John Irving no inesquecível Hotel New Hampshire (1981), no qual há também uma Franny.
A Franny de Salinger tem uma espécie de colapso nervoso em meio a um fim de semana que foi passar com o namorado, Lane (ambos estão cursando universidades de elite). Ela está passando por um surto de paroxismo místico e não consegue levar a sério as preocupações intelectuais e acadêmicas dele.
O que torna o texto brilhante é a maneira como a tensão sexual, mais do que as diferenças ontológicas, entre eles, é explorada em detalhes certeiros. Pot exemplo, ao vê-la na estação com um casaco de lontra (que destoa dos modelitos femininos em voga), Lane sente o orgulho da posse de uma garota tão bonita e rara (sabemos que Franny é bonita e rara porque Salinger não poupa elogios aos membros da família, com um exagero que chega a ser constrangedor): “pensava, com uma excitação reprimida, que era a única pessoa naquela plataforma que realmente conhecia o casaco de Franny. Lembrava-se de que, certa vez, num carro emprestado, depois de beijar Franny por meia-hora mais ou menos, beijara também a gola daquele casaco, como se fosse um prolongamento orgânico e perfeitamente desejável da própria pessoa que o vestia”.
Quando horas mais tarde, eles já estão praticamente em guerra, Franny vai ao banheiro e e olha o casaco: “Examinou-o agora com uma antipatia pouco menos do que irrestrita. As rugas do forro de seda pareciam, por alguma razão, irritá-lo profundamente”.
No segundo texto, Franny volta para casa, após o desastroso fim-de-semana, e seu irmão Zooey, tão desamparado quanto ela diante da vida que tem de enfrentar com os padrões espirituais que adquiriu do irmão mais vellho, tenta ajudá-la, até mesmo se passando por Buddy, numa conversa telefônica. Ambos são muito jovens (são os caçulas) e têm nítida percepção do custo de manter seus padrões (o suicídio de Seymour, o isolamento obsessivo de Buddy, a alienação deliberada de Boo Boo, a outra única moça entre os sete irmãos).
É um texto que fascina e irrita, da mesma forma que Seymour, uma apresentação. Há um diálogo enorme e genial entre Zooey e a mãe, Bessie Glass, um dos melhores momentos da ficção do século XX; há a sensacional descrição da sala onde Franny está prostrada (numa formulação salingeriana do dilema da Bela Adormecida, ela está se preparando para acordar para a vida), que mostra que Salinger é um grande cronista de uma determinada faixa social de Manhattan; contudo, quando envereda pelas intermináveis exortações de Zooey a Franny sobre uma conduta espiritual mais autênticqa e correta, pisamos na lama e sentimos a derrapagem.
O final, então, parece saído de um manual de auto-ajuda. E aí faz sentido o (maldosíssimo) reparo de Leslie Fiedler quanto aos personagens de Salinger: “A angústia deles é improvavelmente inspirada em perguntas do tipo: Será que o garoto de Harvard com quem vou sair no fim-de-semana realmente compreende o que é poesia”.

II
resenha publicada em 19 de agosto de 2003)
“Decidi que ia sumir do Pencey, dar o fora naquela noite mesmo e tudo. Nada de esperar até quarta-feira. Não quero mais ficar zanzando por lá. O troço todo estava me deixando triste e solitário pra burro. Por isso resolvi ir para um hotel em Nova York, um hotelzinho barato e tudo, e ficar flanando até quarta-feira. Aí, na quarta-feira, ia para casa descansado e me sentindo cem por cento… Além disso, eu estava precisando de umas feriazinhas. Meus nervos estavam abalados. No duro.”
Como inúmeras outras pessoas, ao longo dos últimos 50 anos, eu sou doido por O apanhador no campo de centeio. Mas por que será que a história de um pirralho riquinho de 16 anos, expulso de um colégio de elite, resolvido a “flanar” por alguns dias, antes de contar a situação para os pais, acabando por se envolver em episódios mais ou menos sórdidos, numa trajetória que o levará direto a um sanátório, enfeitiçou tantos leitores no mundo inteiro, transformando-se num cult.
O grande crítico George Steiner avaliou isso de forma negativa: “Ele nada exige dos seus leitores em termos de cultura ou interesse político, lisonjeia-lhes a ignorância e a superficialidade moral. Sugere-lhes que a ignorância, apatia política e um vago sentimento de tristeza são virtudes. É aí que entra o uso engenhoso e meio deturpado que ele faz do zen. O zen está na moda. Gente que nem sequer tem os rudimentos de conhecimento necessários à leitura de Dante, nem a fibra que Schopenhauer exige, compra logo o último livro sobre zen”.
Tirando o fato de que ninguém é obrigado a ler Dante ou Schopenhauer, pode-se argumentar que um dos pontos centrais de O apanhador no campo de centeioé que o desamparo de Holden Caulfield evidencia-se porque percebe que todo o aparato da cultura formal está fundado numa grande mentira, que os adultos supostamente mais sábios e preparados, que deveriam orientá-lo e esclarecê-lo, forjam vidas aparentemente respeitáveis e, no entanto, totalmente em desacordo com os seus sentimentos.
O livro, portanto, convoca em nós aquele sentimento de insurreição contra a “realidade”, contra o estabelecido,que anda cada vez mais amortecido. Se isso é um resquício de adolescência (pois, desculpem a afirmação óbvia, não se pode eternamente ter 16 anos tal qual Holden), que felicidade é poder reencontrá-la em nós! E como Holden vive num mundo tão próspero, numa esfera social tão privilegiada, isso torna o efeito mais poderoso, pois a indignação moral é muito mais óbvia numa história, digamos, de alguém colocado diante do Holocausto na Segunda Guerra, onde o horror da situação oblitera que é preciso reformular a vida e não apenas corrigir injustiças e atrocidades.
Essa sensação não se desvencilha da questão do estilo: como já se afirmou outras vezes aqui nesta coluna, O apanhador no campo de centeio é um daqueles livros raros e únicos, onde a linguagem parece recém-inventada, tudo parece novo e intacto. O aspecto mais delicioso é a oralidade descontraída e desabusada que reproduz de maneira íntegra a voz adolescente de Holden (a narração é feita por ele mesmo), principalmente na reiteração de certas expressões fáticas (a tradução extraordinária, diga-se passagem, precisava ser revisada no quesito gíria para o texto não perder esse efeito de frescor) e no uso da hipérbole, do exagero. O vestíbulo de uma espelunca cheira “a cinqüenta milhões de cigarros apagados”. Uma peça de teatro “meio morrinha” era “a história de uns quinhentos mil anos na vida de um casal velho”. A opinião sobre um filme: “Quem não quiser vomitar até morrer não deve nem entrar no cinema quando estiver passando essa fita”. Pensando na morte: “Fiquei imaginando milhões de chatos indo ao meu enterro e tudo”. Uma cama tem “dez quilômetros de comprimento”. A irmã tem ‘uns cinco mil cadernos”. Saindo de fininho de casa, “por pouco não quebrei o pescoço nuns dez milhões de latas”. A esaposa do professor que lhe dá conselhos “era mais velha que o professor Antolini uns sessenta anos”.
Além disso, há as reações impagáveis às pessoas. Ele conhece, numa boate, três mocréias: “Tentei começar um papo inteligente, mas era praticamente impossível. Só torcendo o braço delas”; um oficial da marinha “era um desses sujeitos que acham que vão parecer viados se não quebrarem uns quarenta dedos da mão da gente na hora de serem apresentados”.
A tentação é seguir citando. Só para encerrar, porém, lembrando da tal apatia alienada recriminada por George Steiner, não custa citar um trecho de extrema coragem numa época pós-guerra e num país do tipo dos EUA. Holden recorda de seu irmão, D.B., falando sobre sua experiência da guerra: “Disse que o exército estava praticamente tão cheio de filhos-da-puta quanto os nazistas”.

III
resenha publicada em 02 de setembro de 2003
Após comentar Franny & Zooey e O apanhador no campo de centeio, só faltava um artigo para dar conta da caixa lançada pela Editora do Autor, abordando Nove Estórias, as jóias da coroa da obra de J.D. Salinger. Entre elas, qual a mais preciosa?
Talvez as três narrativas em primeira pessoa: O Gargalhada (The laughing man); Para Esmé, com amor e sordidez (For Esmé with love and squalor); A Fase Azul de De Daumier Smith (De Daumier Smith´s Blue Period). O Gargalhada é um daqueles textos evocativos de uma inocência perdida que fazem a peculiaridade da grande literatura norte-americana. Um time infantil de beisebol que fica siderado pelas histórias que o treinador narra sobre um herói, o Gargalhada, cujas aventuras deliciosamente se passam na fronteira entre Paris e a China. A ascensão, glória e queda do romance do treinador com uma garota determinam o abrupto final do ídolo e também da infância; Para Esmé é a história do soldado americano na Inglaterra que conhece uma garotinha, a qual, ao saber que ele é escritor, lhe pede uma história “extremamente sórdida e comovente”. A maneira como ele cumpra a promessa é fenomenal; já a história da ‘Fase Azul” de De Daumier-Smith (na verdade, pseudônimo do narrador para ingressar numa “escola de arte” no Canadá) é a prova que nem sempre inclinações místicas atrapalham os textos de J.D. Salinger. A paixão do jovem e desmesurado professor de desenho pela freira que lhe manda esboços é uma obra-prima.
Ou os maiores quilates pertencem aos contos nos quais aparece a família Glass? Em Um dia ideal para os peixe-bananas (A perfect day for bananafish) se conta o suicídio de Seymour Glass, após uma conversa com uma garotinha de 10 anos, que o chama de Viu Mais Vidro (See More Glass), embora os melhores momentos sejam reservados para uma conversa da sua esposa, Muriel, com a mãe, a respeito do estranho marido que lhe coube; em Tio Wiggily em Connecticut, o fantasma de Wade Glass, morto na guerra, assombra a fútil e ao mesmo tempo desesperada vida da protagonista, Eloise, tanto quanto sua filhinha inventa sucessivos amigos invisíveis (houve uma adaptação cinematográfica, My foolish heart, com a grande e melodramática Susan Hayward); em Lá embaixo, no bote, Boo Boo Tannenbaum, irmã de Seymour e Wade, a qual deliberadamente aderira a uma vida burguesa alienada (tal como Eloise), para escapar do estranho destino dos seus familiares, tem que enfrentar a hiper-sensibilidade do filho, que se refugia num bote, desamparado diante de um mundo cheio de estranhos.
Pouco antes da guerra com os esquimós é um daqueles textos onde se chega ao máximo de sofisticação em termos de sociedade norte-americana. É um máximo de civilização e um igualmente maciço teor de vazio, aridez e desespero latente. E a perícia com que a história de Ginnie (que conhece o apartamento, o irmão e o amigo da parceira de tênis, de quem cobrou uma dívida, Selena) é narrada só encontra páreo na ficção dos EUA em gente do naipe de Dorothy Parker, Truman Capote ou John Cheever. Em nossa literatura, o leitor pode encontrar algo similar em certos contos e romances (Ciranda de Pedra, uma parte de As meninas) de Lygia Fagundes Telles.
Lindos lábios e verdes meus olhos (Pretty mouth and green my eyes) é uma história de adultério estruturada em torno de uma conversa telefônica, procedimento em que o autor de Nove estórias é um mestre consumado (como o conto sobre o suicídio de Seymour demonstra logo nas primeiras e paradigmáticas páginas, pois abre a coletânea), principalmente porque poucos podem se comparar a ele na arte do diálogo.
Sobra o incômodo Teddy: um texto-pregação no qual Salinger quis expressar sua “filosofia de vida”. Escolheu, para isso, um pirralho de 10 anos, que é a um só tempo um gênio e um iluminado. Mas gênio e iluminado mesmo só pode ser um escritor que consegue com um chatinho desses e com as distorções que a sua obra adquiriu (devido à tal “filosofia de vida”) permanecer grande. Cinqüenta anos depois de sua publicação original é o que nos prova cada jóia rara e única reunida em Nove estórias.

J.D. SALINGER (1919-2010), UM AUTOR ÚNICO
(resenha-homenagem publicada em 02 de fevereiro de 2010)
“…fico imaginando uma porção de garotinhos num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto –quer dizer, ninguém grande— a não ser eu. E estou na beirada de um precipício louco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se eles estiverem correndo sem olhar para onde estão indo, eu tenho que sair de algum canto e agarrar eles. Só isso que ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio”.
O leitor desta minha coluna me perdoará, espero, a interrupção do comentário a respeito de Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de Lobo Antunes (na verdade, ia fazer um paralelo entre a obra dele e a de Saramago como os grandes mestres da atual ficção de língua portuguesa) para homenagear J.D.Salinger, cuja morte teve grande repercussão na semana passada e que criou esse artefato raro, o livro-ícone, pop, cult, o que se quiser dizer, e que é ao mesmo tempo uma grande obra literária: O apanhador no campo de centeio (1951), um dos textos mais famosos e influentes do século XX, e em todos os níveis da cultura.
Quem viu o filme Teoria da Conspiração lembra que o personagem de Mel Gibson era um assassino criado por experiências de laboratório e que se desgarrava dos seus mentores; no entanto, havia nele a compulsão (incutida) de comprar exemplares do livro de Salinger, permitindo assim que o pudessem localizar. E esse é apenas um exemplo da constante presença no imaginário da nossa época da história de Holden Caufield, onde pela primeira vez se deu uma voz convincente a uma figura que ficava numa espécie de “limbo” entre os personagens da ficção: o adolescente.
Muito admirado, muito atacado e esnobado, O apanhador no campo de centeio transformou o esquivo Salinger num guru, e isso acarretou dois efeitos negativos: obrigou o autor a encerrar prematuramente sua carreira, com apenas quatro livros publicados (seu último livro apareceu em 1963, e depois ele só publicou mais um conto, em 1965), e se tornar um recluso mítico e assediado, até sua morte aos 91 anos; pior ainda, obscureceu o resto da sua obra, num grave prejuízo para a literatura.
Pois se com o frescor da sua linguagem, o mais famoso texto de Salinger é uma obra carismática, sua obra-prima com certeza é a coletânea Nove Estórias (1953), que eu sempre chamo de as jóias da coroa salingeriana. São oito contos maravilhosos (não aprecio o nono, “Teddy”, porque já tem aquele pé na auto-ajuda e no misticismo, que ficarão cada vez mais acentuados em sua produção posterior, porém é uma questão de gosto). Aí aparecem pela primeira vez os membros da singular família Glass, criada como contraponto ao materialismo do “american way of life”: sete irmãos, sendo Seymour, o visionário, o poeta, quase um santo. Ele surge no extraordinário conto “Um dia ideal para os peixes-banana”, e alguns de seus irmãos nos contos “Tio Wiggily em Connecticut” e “Lá embaixo, no bote” , mas os meus preferidos no livro são “O gargalhada”, com aquele tema essencial da ficção americana, a perda da inocência, “Pouco antes da guerra com os esquimós” e “A Fase Azul de De Daumier-Smith”, que entram em qualquer antologia sensata dos melhores contos de todos os tempos.
Nesses dois livros iniciais, temos uma visão muito clara do desamparo diante do mundo adulto e das escolhas que oferece (ou impõe), com a fixação na idéia de realização, sucesso e certezas monolíticas, o precipício no campo de centeio que Holden imagina, vendo-se como uma barreira para a imolação de futuras vítimas, num devaneio que muitos acham pueril, mas que é, no fundo, extremamente pungente.
O restante da obra de Salinger é perturbador e problemático: ele continuou sendo um mestre da narrativa e do diálogo (e no retrato de uma determinada faixa sofisticada de Manhattan e da Nova Inglaterra) em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Franny (1955), além de fazer experiências formais maravilhosas, como em Seymour, uma apresentação (1959), um dos textos mais radicais já escritos. Porém, seu apego pelo místico, pela disciplina do “zen”, e sua idealização da figura de Seymour Glass, prejudicaram muito o equilíbrio dessa última fase, especialmente a última obra citada e Zooey (1958), dando munição a seus detratores. São as peculiaridades e estranhezas do talento supremo, que nunca agradará a todos, mesmo. E por isso, ele foi único.