MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/05/2012

A IMPLACÁVEL SIMPLICIDADE DE “A TRÉGUA”

“…Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos…”

Haverá modo de escrever mais fácil do que a imitação do formato de um diário? O escritor finge registrar o dia a dia e assim temos um livro… Esse é um dos equívocos mais freqüentes com relação à ficção. Tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos! O mesmo com a poesia, ainda mais moderna, sem rima, verso branco. Todo mundo acha fácil escrever… E tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de um Carlos Drummond de Andrade ao utilizar o cotidiano como matéria-prima!

Em A trégua (La Tregua, 1960)  que já fora traduzido há alguns anos (em edições pela Brasiliense e pela Martins Fontes) e agora ressurge com grande alarde, boa tradução (de Joana Angélica D´Avila Melo) e péssima capa pela Alfaguara, um poeta/ficcionista, o uruguaio Mario Benedetti, exercitou a forma de diário. E, como os autores acima mencionados, mostra cabalmente a complexidade e finura estilística que são necessárias para criar uma narrativa nesse feitio, toda calcada na poesia do cotidiano.

Trata-se de um ano na vida do senhor Santomé, o ano em que comemora seu cinqüentenário e pode se aposentar, viver no ócio. O que o espera? Nem ele sabe, acostumado a uma rotina opaca (sem lugar para “a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo”). Basta mencionar que um motivo de emoção irônica para ele, esse drummondiano que vive pela “paixão medida” e que trabalhou durante um quarto de século numa seção de contabilidade, é verificar a mudança na sua letra de Heródoto contábil“Em 1929, eu tinha uma caligrafia escarranchada: os t minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os d, os b ou os h, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos f, dos g e dos j pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. Os M e o H eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um farsante, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro.”

Viúvo, morando com os três filhos, descobre que um deles é gay e apaixona-se (e é correspondido) por Laura Avellaneda, subalterna com metade da sua idade. A salamandra arde em chama fria (a velhice já soprando em sua vida), porém há que se prestar atenção no que pode significar a “trégua” do título, ainda mais se pensarmos que o autor já afirmou ser o pessimista “um otimista bem-informado”.

A trégua é um romance formidável porque Benedetti poetiza o cotidiano com uma prosa sintética, regular, disciplinada, clara, calibrada com a mais absoluta precisão, e no entanto essa poetização se faz com objetivos mortíferos, pois realça o que há de absolutamente angustiante, asfixiador e amorfo no cotidiano (sem chegar aos extremos do seu compatriota genial, Juan Carlos Onetti). E o senhor Santomé, apesar da sua inteligência, é presa dos preconceitos e das superstições de um habitante pequeno-burguês da Montevidéu de meados do século passado. Falando do filho: “Já que o homem da família lhe falhara, dedicou-se a negar o homem que havia em si mesmo. Ufa! Que explicação complicada para desenvolver um fato tão simples, tão ordinário, tão indiscutível. Meu filho é um maricas… Eu preferiria que ele me saísse ladrão, morfinômano, imbecil.”

Mas assim como ele prefere a “assustadora franqueza” da feiúra arquitetônica do Palácio Salvo, até nas suas limitações pessoais ele sobressai como um dos grandes personagens da literatura latino-americana.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  19 de maio de 2007)

A FICÇÃO DO POETA BENEDETTI

 

“Não é boa uma vida sem fantasmas, uma vida cujas presenças sejam todas de carne e osso ”

“Existem matizes, não? (Mario Benedetti)

(abaixo, resenha  publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em  06 de junho de 2009)

      UM ESPELHO POLIFÔNICO EM 45 FRAGMENTOS

    Quem escreve periodicamente sobre qualquer assunto, percebe, ao longo do tempo, que a tarefa não fica mais fácil, que o maior desafio é encontrar ganchos diferentes, formas diferentes de abordagem, e que na verdade estas últimas se reduzem a umas poucas variações. Por isso, acaba sendo providencial e confortável um gancho fornecido pelas efemérides da vida. Exemplo: a morte de Mario Benedetti, em 17 de maio, que coincidiu com o lançamento da tradução de Primavera num espelho partido (Primavera con  una esquina rota, em tradução de Eliana Aguiar para a Alfaguara).

O Uruguai tem um gênio: Juan Carlos Onetti, autor de romances que eu considero obrigatórios como A vida breve; Junta-Cadáveres; O estaleiro; Deixemos falar o vento e de contos igualmente notáveis (Tão triste como ela). Não conheço quase nada da prolífica obra poética de Benedetti (o que conheço não é de molde a me fazer um admirador), porém um romance como A trégua (1960) é suficiente para que ele não fique ofuscado pelo responsável por colocar nosso país vizinho no mapa da literatura.

mario benedetti

A trégua (ver resenha abaixo) era um exercício modelar da narrativa em primeira pessoa, imitando a forma de diário e ocultando, numa superfície de simplicidade, requintes psicológicos e de estilo.

Primavera num espelho partido é mais diversificado e ambicioso, um espelho polifônico (são muitos os narradores) estilhaçado em 45 fragmentos. Polifonia era a técnica que permitia o que o grande pensador russo Mikhail Bakthtín denominava “texto dialógico”: várias vozes na montagem das quais não havia hierarquia ou predominância (a nossa outra leitura da semana, As meninas, também pratica isso, embora ambos sejam aplicações mais simples do dialogismo bakthiniano que tem os romances de Dostoievski como a grande referência e cuja textura discursiva é bem mais complicada).

O núcleo do romance é uma família cujo pai “caiu” em decorrência do golpe de estado de 1973 (e a transformação do país naquela nossa velha conhecida latino-americana, a Ditadura) e a qual tem de se exilar na Argentina. Em torno desse núcleo, o autor constrói e diversifica  seis segmentos narrativos:

–Intramuros (mais tarde, Extramuros), com a narrativa em 1ª. pessoa de Santiago, o pai,  preso por “cinco anos,  dois meses e quatro dias”, e depois anistiado (“intra”, articulada, linear; “extra”, desarticulada, primavera num espelho partido). São oito capítulos;

–Feridos e contundidos, em 3ª.pessoa, e muito caracterizado pela abundância de diálogos, onde Graciela, a esposa de Santiago, é focalizada em sete capítulos;

–Don Rafael, com a narrativa em 1ª. pessoa feita pelo pai de Santiago (num dos capítulos há uma longa carta do próprio Santiago narrando ao pai o único assassinato que cometeu em sua militância política), em sete capítulos;

– Exílios, no qual às vezes Mario Benedetti é o personagem, às vezes ele se refere a compatriotas exilados (há até uma linda história de solidariedade, no capítulo chamado “Adeus e Boas-vindas”), em nove capítulos;

–Beatriz, na qual a narrativa em 1ª. pessoa é feita pela filha de nove anos de Santiago e Graciela, em sete capítulos;

–O outro, no qual o foco narrativo é um discurso indireto livre focalizando Rolando Asuero, useiro e vezeiro em citar versos de tangos, também exilado em Buenos Aires, como a família de Santiago (seu velho amigo) e que se torna o novo amor de Graciela,  em sete capítulos.

Portanto, o problema é que Graciela já não consegue mais amar o Santiago, e se culpa porque a condição de preso político do marido se arrasta durante anos, o que faz com que sua vida fique emperrada até que resolve declarar sua paixão por Rolando. Um dos aspectos mais pungentes na alternância de vozes do livro é que ao mesmo tempo temos acesso às cartas de Santiago, com sua paixão por Graciela, e conhecemos o embate que se passa dentro dela (o marido ficando a cada ano mais e mais fantasmático). Não haverá mais Penélopes à espera dos desterrados Ulisses? “Ah, se pudesse jogar no imperialismo a culpa por essas olheiras”, diz outro personagem. Também conhecemos o papel secundário que os maridos militantes (Rolando é um caso à parte, um solteirão inveterado, don juan) reservam às mulheres, o machismo-leninismo dos ilustres varões”.

Até voltar em 1983 ao Uruguai Benedetti viveu na Argentina, no Peru (de onde foi expulso). Durante alguns anos sua obra girou em torno da descompressão do golpe (com todos os sentidos que a palavra pode ter), o “desexílio”, como chamava.

Primavera num espelho partido, que é de 1982, se situa nessa fase, entre os poemas de Vento do exílio (1981) e os ensaios de O desexílio e outras conjeturas (1984). “O exílio (interior, exterior) será uma palavra-chave desta década”. O título tem sua justificação interna (fora sua justificação poética) no relacionamento entre Santiago e a mãe. Dom Rafael lembra: “Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera.  Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida.  É como o seu termômetro,  seu padrão, sua norma”…

Todos os personagens e situações do romance são interessantes, porém Benedetti é particularmente feliz na criação da pequena Beatriz. Além do tour-de-force da linguagem (mimetizando a lógica infantil, por isso é sensacional o capítulo em que ela confunde “poluição” com “polução”), há a perplexidade (que eu nunca vi ser tão bem colocada) da criança que tem um pai preso e de quem se diz que é um herói e não um criminoso. Como ajustar isso a uma percepção incipiente da realidade? “Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um  preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora  meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade.  Estão vendo como é enorme?”. Com uma realidade como a latino-americana (espelho partido) essa é uma lógica de rigor impecável.


   

 

24/05/2012

A tessitura da genialidade: “O pássaro de cinco asas” e “A trombeta do anjo vingador”

(as anotações e citações abaixo são excertos de apontamentos da leitura, em agosto de 2007 da edição conjunta—pelo Círculo do Livro—de A trombeta do anjo vingador e O pássaro de cinco asas, quando então planejava um curso sobre a obra de Dalton Trevisan que se chamaria “Curitibenses”, usando a palavra em lugar do correto “curitibanos” por causa de James Joyce e seu Dublinenses; ao todo, são 41 textos de um universo fabuloso e peculiaríssimo)[1]

“Quanto mais ele se humilhava, mais era exaltada: égua branca de fogo, terceiro olho na testa, querubim de cinco asas, não de seis dedos, boca de sete espirros.

   Negava-lhe o menor carinho:

__ A boca é para beijar meu filho!”

Dalton Trevisan é o gênio mimetizador de uma época em que o rural e o urbano ainda conviviam ostensivamente, em que a hipocrisia criava todo um fetichismo sexual, em que fantasia e realidade podiam conviver na linguagem (e ele mostra isso de forma magistral). Nele, o kitsch se revela como requinte autoral.

Veja-se o trecho abaixo do paradigmático Mister Curitiba (de A TROMBETA DO ANJO VINGADOR, 1977):

“Monstro de mil máscaras, desta vez quem seria? O confessor na cela da freirinha, de sete saias, a madre escutando atrás da porta? Um estropiado de guerra, a enfermeira suspensa no pescoço, girando sem parar na cadeira de rodas? O noivo de pé no corredor, rasga em tira a calcinha, os pais da menina .circo… Ela a domadora de botinha preta e chicotinho?

     Zumbia no ouvido um chorrilho de meigos palavrões…”

Ou este outro trecho, de As setes pragas da noiva:

“Em agonia, pedindo água, tapa nas costas, colher de azeite. E tossia, o maldito caroço entalado na garganta.

   Por mais que ela apontasse o olhinho negro espinho no bolso do pijama…”

Ou ainda (de Durma, gordo):

“Você sabe, não é? Então me diga, dona Chica: Por que a segunda empadinha nunca é tão gostosa? Por que o garçom não serve a segunda antes da primeira?”

E esta imagem genial (do extraordinário Questão de herança): “Sem responder, uma funda tragada, as bochechas murchas se beijaram”. E até o mundo dos michês adolescentes ele captura (em O caçador furtivo). E num dos meus contos prediletos, Meu pai, meu pai podemos ler: “Fim de noite um chorou nos braços do outro, pai e filhos bêbados. Se Pedro, que era Pedro, por três vezes negou a Jesus, por que não podia ele negar o pai?”

A tessitura da genialidade:

“Perdido de casa, sem dinheiro para o táxi, fugitivo do último inferninho…”

“…no fundo azedo das entranhas, floresce o lírio vermelho da azia…”

“Na adoração das nascidas rainhas da noite aberto o saco de presentes e distribuídos seus tesouros. Os três magos num só, em busca da estrela do Oriente, a quem ofertou o reloginho de pulso? Todo o ouro para a gorda do Tiki Bar? A mirra para a que era o palácio dos prazeres? O incenso para a Ritinha dos quatro mosqueteiros?”

“Na boca os mil beijos da paixão, sabendo uns a amendoim torrado, outros a batatinha frita…” (são todos trechos da obra-prima que é A longa noite de natal)

E do conto-título, “as mil pulgas da insônia”. E em O despertar do boêmio, “o  lírico e maldito rei da noite, maior tarado da cidade, último vampiro de Curitiba… À procura do sapato perdido na famosa viagem ao fim da noite… Enfia o roupão de seda azul com bolinha branca—lembrança da lua-de-mel… No mapa da babugem a rosa-dos-ventos indica os sete inferninhos da paixão… araponga louca do meio-dia…Tateia o pulso e, ó surpresa, ali está—um relógio à procura de uma bailarina?… Um noivo toucando-se para as núpcias com o sol…”

Achei uma anotação minha, da primeira leitura, já há quase vinte anos, no final de Galinha pinicando na cabeça: “conto genial, o melhor da coletânea inteira”. Não sei se afirmaria isso agora, contudo sei o que me atraiu: a crueza, a rapidez, a eficiência sintética e lapidar. Três páginas concisas que valem por dez: “De noite a gente quer se chegar. Mulher não é para isso? O calorzinho gostoso. Toda a alegria do pobre. Mãezinha do céu, por que ela não deixa? São oito filhos, o que é mais um?

   Essa traidora, depois de velha, não me quer na cama. Sou cachorro sem dono na chuva?”

E o eterno “doutor”, onipresente, ouvindo todas as torpezas, em tantos contos? E os eternos joões e marias. E tem o eterno amigo, André, que às vezes come a Maria.

“Se não vem, Maria, deixa eu…

   Guardada pelas verdes asas do dragão na parede.

__ Dormir com você?

    Fez biquinho, estalou a língua, tão pouco-caso.

__ Ah, é? Ah, é?

   Maria arregalou os grandes olhos putais. Não é que ele já de pistolinha na mão?

__Me acuda, Nossa Senhora. Me salve.

               (…)

   Abrindo a blusa em desafio:

__Atire, covarde. Atire em peito de mulher!” (A pombinha e o dragão vermelho).

E as deliciosas referências intertextuais: “Mudou o natal ou mudei eu?” “Janeiro é o menos cruel dos meses”. “outros barões assinalados”. E tem até um que sonha ser o “Fellini de Curitiba”, enquanto arruína uma puta, mas já estamos em O pássaro das cinco asas (1974):

“…a fabulosa égua do carro do Faraó (…) e se for gaguinha? Ou fanhosa? (…)Amor tão furioso, carro de bombeiro com a sirena uivando, a pobre Laura não podia ignorá-lo—a simples bolinha de papel que ela pisava era escorpião abrasado de fogo.

(…) No álbum de retratos antigos o calvário de sua perdição—normalista seduzida pelo próprio tio (…) Entre beijos soluçando que a crucificava de pequenas delícias, ó gostosão de todos o mais fogoso. Menos doida de paixão estivesse, não falaria assim, obrigado a recordar-se de quantos tipos a desfrutaram.

(…) Caçula mimado, o rapaz quase nos 30 anos, não trabalhava e sua mesada mal dava para o cigarro, o jornal, o cinema…”

Aliás, esse conto-título introduz um elemento novo, salvo engano: o intelectualizado, fã de Fellini e Bergman. Mas agarrado ás saias da mãe [e das putas, claro]. E há a narrativa sofisticada (no quesito tempo narrativo) em A segunda volta da chave. Já O gatinho perneta pressagia o rumo do hai-kai narrativo que o grande escritor curitibano trilharia.

E mais trechos:

“Sofria as noites curitibanas, cálice de conhaque na mão (…) á sua espera no final do corredor o sórdido quartinho de pensão.

   Era a mulher da minha vida. Por que é que eu não sabia? Como é que ninguém me contou? (…) Não tivesse ela casado com o garçom eu a esquecia. Hoje estava com outra. Agora fiquei preso a ela para sempre.” ( Noites de Curitiba)

“(…)barata leprosa

    Cambaleando ou não, os bêbados são o verdadeiro mistério do mundo (…) Ou como você explica que, por mais labirintos em que se enveredem, nunca se percam no caminho, encontrem sempre a porta exata, que fecham atrás de si com a segunda volta da chave?

 (…) O triste da noite é dormir com uma mulher”. (O guardador de bêbados)

“Esfregava o bigodão na perna gorducha, deliciando-se ao ver a pele que se arrepiava e os pelinhos que se eriçavam. Tivesse ali na coxa uma pinta de beleza? Não é—intuição? Visão do paraíso? Milagre?—que tinha mesmo, olho negro de longas pestanas.” (Peruca loira e botinha preta)

“(…) a moça pagou o táxi e o hotel.

   Alisava a costeleta e exibia a falha do pré-molar—o galã penteia mil vezes o fulgurante cabelo negro, sempre esquece de escovar os dentes…” (um dos melhores entre os melhores: A noite não tem segredos)[2]

  Adoro A rosa despedaçada, um daqueles contos mini-biografias em que ele é mestre:

“…um gigante de 18 anos, dono da única moto da cidade.

(…) Em bacanal no famoso quarto de espelhos, surpreendida no uniforme de normalista.

   À saída, preveniu o rapaz que de nada lhe valia conhecer as 64 posições do KAMA SUTRA, gritar de amor só com o infame Josias, arrebatada para sempre na garupa da moto, franguinha ao vento.

  O moço chorou de ódio, assim mesmo casou.”

Tem o telefonema-paradigma para a esposa, após a noitada de farra e excesso, e não ter chegado no “santo lar”: “Insistiam os amigos que dona Maria era uma santa, ele rato piolhento de esgoto. Santa podia ser, mas imprestável na cama.” E a frase-paradigma da mulher sobre o homem “desgracido”: “Assim que ele morra eu começo a viver”.

Entre os contos que eu destacaria, estão  Que fim levou o vampiro de Curitiba?, narrado pelo indefectível Nelsinho, e Eu, bicha:

“…que foi feito do inocente menino?

(…) O corpo de moço bonito, mais bem construído que o da mulher, não pode ser altar de sacrifício?

(…) corredor do Cine Curitiba (ali era chão sagrado)

…Django

…barata leprosa de olho pintado

(…)observavam de mão no bolso…”

   Trevisan sempre capricha nos seus títulos. Mas Última corrida de touros em Curitiba é quase insuperável.

Cito agora os dois extraordinários parágrafos finais de Moela, coração e sambaquira:

“Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce os chifres e se derrete no pires de sal. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço?

  (…) Que gosto tem a gota de sangue na gema do ovo (…) se não posso ter a minha sopa de bucho com dois aperitivos e um pão, só me cabe morrer (…) O rei da terra, quando a peticinha oferecia, erguendo um canto da saia e exibindo a grossa coxa nua: Aqui tem bastante, meu velho, para a tua fome?”

Agora: terrível mesmo é Ó doce cantiga de ninar, no qual a mãe “satisfaz” o filho, mostrando que até no aleijamento e retardo a gente não se livra do desejo e do instinto sexual, é a nossa maldição, pelo menos das formas que vivemos isso.

E Os velhinhos é o fecho perfeito para a coletânea, com seu malicioso título que evoca qualquer coisa de cândido e com um sopro nostálgico, e mostra o inferno humano, a falta de sabedoria mesmo na avançada idade:

“…única diferença de um para outro quarto é a morrinha de cada velho, ali a catinga de cachorro molhado, aqui a tristura de papagaio piolhento.

…lambem as migalhas esses que, um dia, poderosos e terríveis, foram os reis da terra… Mais que se enfeitem, não passam de velhinhos sebosos (…) A primeira janela que se ilumina no edifício vizinho encontra-os no canto escuro, passando o binóculo um para o outro (…) É suficiente olhar, espiar, frestar. Não sozinho, na doce companhia tenebrosa dos outros (…) enxame fervente de baratas leprosas na cinza do fogão…”


[1] Sou eternamente grato à coleção “Literatura Comentada” da Abril Cultural que me apresentou, entre outras, a obra de Dalton Trevisan. Foi no volume dedicado a ele que me apaixonou por Virgem louca, loucos beijos; logo depois, li Cemitério de elefantes e então o mal já estava feito.

[2] Aliás, naqueles dias de leitura do livro de Trevisan assisti numa madrugada qualquer, no Canal Brasil, um filme dos anos 1970, Bordel-Noites proibidas, que me ajudou deveras a entender ainda mais esse clima sórdido, com seus atores velhos em cenas de cama deprimentes, maus tratos às mulheres, babujando, com ar de taradas, e assim mesmo, com toda essa caíção, refletindo o gosto do público. Por que, em caso contrário, por que fariam tal filme? A que demanda ele atendia?

MISÉRIAS MINIMALISTAS: 50 anos de Dalton Trevisan

      A primeira coletânea “’oficial” (parece que havia uns volantes anteriores, uma espécie de literatura-mimeógrafo avant la lettre, que se tornaram famosos na Curitiba da época) de Dalton Trevisan, Novelas nada exemplares, foi lançada em 1959. Neste meio século, ele publicou uma seqüência extraordinária de títulos (Cemitério de elefantes; O vampiro de Curitiba; A guerra conjugal; O rei da Terra; O pássaro de cinco asas; A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos, para citar alguns), fazendo jus, após a morte de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, ao posto de nosso maior prosador vivo, pelo menos para mim, que o adorei de cara, assim que comecei a ler seus textos. Em meados dos anos 80, estava no apogeu quando publicou o inusitado romance A polaquinha, que nasceu com vocação de obra-prima.

Já na época em que minha coluna em “A Tribuna” se iniciou (1993), depois de livros como Dinorá e Ah, é?, eu me perguntava se o grande escritor curitibano não ficara em “ponto morto”. De fato, colocando no mercado praticamente uma obra por ano, a impressão que, ligado o piloto automático, cada uma delas era a mesma com novo título. Por esse motivo, fazia alguns anos que nem me dava ao trabalho de ler seus últimos textos, como Macho não ganha flor ou O maníaco do olho verde.

Violetas e pavões  (não confundir com o belo Violetas e caracóis, de Autran Dourado) se tornou assim, uma bela surpresa. Como já confessei, não li a produção mais recente de Dalton Trevisan e não posso avaliar se as qualidades dessa coletânea estavam presentes nas anteriores; baseando-me apenas nela, no entanto, afirmo que nosso maior contista está dando conta da realidade do século 21. É lógico que parte dos 22 textos ainda se voltam para suas obsessões recorrentes com os fetiches sexuais da pequena burguesia, o que nos proporciona deliciosas, porém manjadas (para o leitor habitual de Trevisan) brincadeiras como, por exemplo, “Lábios vermelhos de paixão”: “Minha putinha é o encontro místico das ondas do céu e das nuvens do mar. Já lambida do licor de abelha rainha –os pentelhos emaranhados, os grandes lábios trêmulos, o vale das sombras no portal das coxas fosforescentes”).

O surpreendente em Violetas e pavões é a substituição dos filhinhos de boa família que se pervertem em fantasias sexuais delirantes, nos bas-fonds de Curitiba, ou dos egressos de um mundo ainda rural insistindo nos seus direitos de macho e vivendo em perpétua e sórdida guerra conjugal, pela terrível realidade que inunda o noticiário atual. Temos agora vidas regidas pelo tráfico onipresente, pela necessidade incessante de drogas como o crack, pelas passagens na polícia, pelas prisões inúteis, pelo flerte com a bandidagem e a contravenção, mesmo de empregadinhos “honestos”. Nesses contos ou nos micro-textos (que ironicamente imitam a diagramação da poesia) é que Trevisan renova sua obra, de uma forma aterradora.

Ainda temos a modernização das temáticas mais antigas: a velha professora que mergulha num inferno dantesco ao ser internada num hospital público (/’Misericórdia”), a filha obrigada pelo pai a substituir a mãe (que se mandou com o amante) como parceira de cama, o que evoca o mundo constitucionalmente patriarcal da obra daltontrevisiniana (“Ele”), a sordidez miserável da guerra conjugal no caso do marido que joga álcool na mulher e a deixa toda queimada, e que, saído da cadeia, a obriga a aturar sua presença sempre por perto e ameaçadora (“Cachaça e pamonha”).

Mas os contos verdadeiramente renovadores são aqueles que, como “A desgraça de Zeno”, “Aprendiz de traficante”, “Não sou o Buba”, “Tenha uma boa noite!” ou “Elas cantam só pra mim”, nos proporcionam numa impressionante miniatura, verdadeiros short cuts os contornos da nossa atualidade. Nesses contos, Trevisan consegue o milagre de chegar quase ao “grau zero de escritura”: geralmente são em primeira pessoa, mas em certo ponto parece que essa voz se torna anônima, e estamos ouvindo conhecidos, gente que escutamos de passagem, jornalistas relatando fatos que adquirem contorno de  “lendas urbanas”. Parece que chegamos a um estado de mito, em que tudo é ritualizado e reatualizado: a mulher que resolve ir à Bolívia e traficar, e que é roubada por falsos (falsos?) policiais, o rapaz que recebeu seu salário e que, após uns chopes, tem de voltar para casa (e para as reclamações da mulher grávida) através de uma área “barra pesada”, o rapaz que tem de reconhecer o corpo do irmão abatido por traficantes a quem devia, o fotógrafo que gosta de fumar seu baseadinho e que é pego num excesso de zelo por guardas municipais e que se complica porque tem fotos comprometedoras de menores em seu laptop…

Vejamos um exemplo:

“A polícia sabia da casa 749 do tráfico ali perto. Foram até lá. Direto pelo caminho de sangue e os sinais de luta.

     No quarteirão escuro a única de luz acesa.

      A equipe rodeou quietinha. Daí um grito lá dentro: A polícia, turma. Sujou, é a polícia!

     Um deles quis pular a janela e quando viu o cerco, voltou. A casa foi invadida. Tinha ali dois tipos de olho vidrado, três mulheres e uma ou duas crianças. A tevê ligada, um monte de latas de cerveja pelo chão. Até salgadinho e pipoca.

    No canto uma calça jeans –epa! A barra ainda molhada de sangue. Numa gaveta um revólver 38, outro 22, bastante munição.Armas e calça foram apreendidas.  Isso pelas duas e meia da manhã.” (Esse trecho faz parte do relato em primeira pessoa do irmão do assassinado personagem título de “A desgraça de Zeno”; note-se o relato impessoal, em tom de noticiário, que poderia ser feito por qualquer um).

É quase um trabalho de linguagem invisível porque tão parecido com o que se conta e reconta por aí, nas ruas, nos jornais, nos botecos. Dalton Trevisan, o Homero minimalista das pequenas guerras de Tróias compostas por corrupção policial, balas perdidas, dívidas de tráfico e salários curtos.

Aos 50 anos de carreira, o mestre renova sua fórmula.

(resenha publicada de forma um pouco mais condensada, em “A Tribuna”, em 24 de novembro de 2009)

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22/05/2012

Destaque do Blog: ADÃO NO ÉDEN, de Carlos Fuentes (1928-2012)

“O narrador é um empresário muito poderoso que vê como o país está sendo minado pelos narcotraficantes, por diversas formas de corrupção, e que decide ganhar dos narcotraficantes e dos criminosos em seu próprio jogo, sendo mais criminoso que eles.”

“Se não houvesse a demanda norte-americana, não haveria a oferta mexicano… não creio que mesmo Obama, que é um político bem-intencionado, se atreva a descriminalizar a droga nos Estados Unidos.”

Adão no Éden se baseia nas notícias que qualquer um lê todos os dias no México nestes tempos. É o romance de um leitor de periódicos e as notícias têm a ver com execuções, violência, crime organizados e chefões da droga.”

“Um primeiro plano grotesco nele no qual a atualidade (mexicana) se cola por muitos lados. Há duas maneiras de ler um romance: o que se diz e o que se deixa de dizer.”

“Dou minha opinião política em meus artigos jornalísticos e todo mundo a conhece, porém um romance é um espaço muito mais amplo, uma vez que nele se intenta dar escopo a muitas vezes, inclusive as divergentes.”

“Nesta novela  intentei mesclar gêneros, há de saída uma relação crucial com o que se chama em literatura a pequena história, que é de fato a notícia da imprensa, grandes romances têm se baseado na pequena história.  Há uma relação entre o romance e a imprensa.”

“É possível nela como um noticiário da realidade mexicana, há uma pequena história inserta na grande história da nossa atualidade, uma atualidade que poderia ser vista como um dramalhão, porém a melhor definição de dramalhão que escutei é que o dramalhão é a comédia sem humor. Prefiro a comédia com horror e é o que ofereço neste romance, a fim de deixar claras as convenções que regem tanto a imprensa  como a história, e mesmo a ficção, a fim de explorar constantemente, e creio que é uma das missões do romance, a outra maneira de dizer as coisas e ao fim e ao cabo de usar uma linguagem, a do romancista, que ilumina outra linguagem que é a da imprensa, da política, do crime e do sexo.”

“O romance é um conjunto de elementos de horror e humor, uma mescla de gêneros que na literatura se chama ´a pequena história’, que são notícias da imprensa que servem de inspiração para compor um romance.”

“Este é um romance do que nos assola no México: o crime, o narcotráfico, a presença carcerária.”

(declarações de Carlos Fuentes sobre Adão no Éden)[1]

“…Que tudo isso passou pela cabeça de Adão Gorozpe (que sou eu, o que narra, mas que não sou eu, o que antes fui) é indubitável, tão indubitável como a celeridade do pensamento, unido á velocidade do ato previsto ao introduzir o pênis na nada virginal Zoraida. Não é isto o extraordinário, mas o que então ocorreu, sem intervenção alguma de Zoraida ou de Adão.

Tremeu. Foi o grande tremor de 19 de setembro de 1985, quando boa parte da Cidade do México foi destruída, sobretudo a área edificada sobre antiquíssimos lagos e canais que naquela manhã em que eu estava deitado com Zoraida retornaram para reclamar seu fluxo soterrado.

Mexiam-se as luminárias, os tetos, os móveis,  soavam os cabides dentro dos armários, caíram no chão as imagens da Virgem de Guadalupe neste quarto e em todos os do bordel de Durango,a louça e as vaginas troaram, as pontes e as estradas se desvaneceram e fora do prostíbulo a cidade despertou sobressaltada consigo mesma, abertos os olhos para tudo o que a metrópole era e havia sido, como se o passado fosse  o fantasma adormecido do México, o grande Deus da Água que ressuscita de vez em quando e, como não encontra leito, chega agitadamente, sacode seu corpo capturado entre cimento e adobe [...]

O fato é que eu, Adão Gorozpe, no ato de penetrar uma bela mocinha de olhos verde-cinza e cabelo solto, fiquei preso dentro de seu sexo.

Assim mesmo. Preso. A vagina de Zoraida se contraiu com o medo e com a simples sensação de que algo estranho estava acontecendo, e eu fiquei prisioneiro num sexo transformado em cadeado.

Não sei o que aconteceu. Por um lado, senti o terror combinado de um terremoto e de uma prisão. Eu não era dono de minha virilidade. Zoraida tampouco de sua feminilidade. Meu corpo de homem e o corpo da mulher juntos como os de dois cães vira-latas que não conseguem se soltar, isso me enchia de pavor [...]

Aconteceram então três coisas.

Parou de tremer e os corpos se separaram com um suspiro, não sei se de alívio ou de pesar. Em todo caso, com agonia.

Eu me levantei da cama e abri as cortinas. O ar ululava de sirenes. Havia poeira por todas as partes e alguns soluços distantes.

Olhei para fora. Havia tremido. Passou um astro. A manhã foi violada por um terremoto e redimida por um cometa que seguia a órbita do sol nascente. Sua cauda luminosa abarcava a cidade, o país, o mundo inteiro [...]

Eu me afastei da janela.

Zoraida havia acordado.

Olhou meu corpo nu, primeiro com uma espécie de aprovação dorminhoca.

Depois, deu um grito…”

(trecho de Adão no Éden)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, de forma mais condensada, em 22 de maio de 2012)

Recentemente, na minha coluna de A TRIBUNA e neste blog  comentei Aura, um dos dois grandes textos de Carlos Fuentes (o outro é A morte de Artemio Cruz) que chegaram em 2012 ao cinquentenário e o projetaram entre as figuras de proa do chamado boom latino-americano, o qual tornou conhecidos mundialmente nomes que são ainda referência tanto na ficção (Borges, Garcia Márquez, Vargas Llosa…) quanto na poesia (Neruda, Octavio Paz…).

Mas que bom que haja um lançamento recente, Adão no Éden (Adán en Edén, 2009, em tradução de Carlos Nougué editada pela Rocco), para homenagear o escritor mexicano, falecido no último dia 15 (seria difícil abarcar sua produção: só em traduções brasileiras contamos com cerca de 22 títulos, muitos deles traduzido por Nougué e lançados pela Rocco).

Nele, o narrador Adão Gorozpe guarda um segredo momentoso, verdadeiramente bíblico, só sabido por uma prostituta (após uma relação traumática para ele, pois interrompida por um terremoto que assusta tanto a parceira que ela contrai o seu sexo e aprisiona o do amante de forma férrea, como podemos ler na citação acima) e por seu grande amor, chamado de Ele, com quem se encontra às ocultas, e com o qual vive o “presente”, sem as prisões do vivido: “Decidi carecer de memória, e já é hora de o leitor sabê-lo. O que lembro não desejo. O que desejo não lembro.” Talvez só assim se possa ser de fato Adão no Éden.

Gorozpe é um eminente empresário, que se fez na vida dando o proverbial golpe no baú. Não suporta a esposa (cujos hábitos encantadores são a flatulência em eventos sociais e esbofetear as empregadas) nem o sogro (o Rei do Pão, dono de uma cadeia de panificadoras, católico desabrido). No momento em que a narrativa se inicia, sente palpavelmente que perdeu as rédeas da sua vida, que seus funcionários já não mais lhe são leais (passam de uma hora para outra a usar óculos escuros que lhes escondem as expressões), que o país mergulhou no caos do narcotráfico, e que, portanto, o poder constituído, a Ordem, que já não era lá muito justa e harmônica, se deixou arrastar para veredas modernosas e globalizantes ainda mais tenebrosas de corrupção, de invasão do crime organizado em todas as esferas da vida social e política; não bastasse isso, surge outro Adão, sobrenome Góngora, que lhe quer usurpar o status, assim como se apossou da “legalidade” no país, sendo o chefe de polícia e ao mesmo tempo o principal gângster.

Como em Terra Nostra (mas sem as dimensões oceânicas deste seu outro romance muito famoso, de 1975, pois Adão no Éden é curto), Fuentes manipula presságios e referências esotéricas (curiosamente, omitidas pelo autor na sua caracterização do livro, como podemos ler acima): há a discussão sobre a passagem dos cometas ao longo da história e um menino-Deus interrompe o tráfego na capital do país pregando uma regeneração espiritual. A ironia é que o milagroso não está no que se proclama, mas no que se esconde.

O que me encantou foi a surpreendente molecagem de Carlos Fuentes, que à época do lançamento do livro, chegara aos 80 anos. Como outros macróbios audazes da grande literatura (Saramago, com Caim, Nadine Gordimer, com De volta à vida), ele se apresenta irreverente, subversivo, manejando com fluência a matéria atual com um frescor de linguagem que, tivesse lançado o romance com pseudônimo, seria atribuído a um autor com muitas décadas a menos nas costas. Há uma vitalidade no ritmo de Adão no Éden que o torna, de saída, bem acima da média.

Porém, eu sempre tive um pé atrás com Fuentes, por desconfiar de que poderia estar levando gato por lebre na leitura da maioria das suas obras, devido a certos truques de araque, certas veleidades metalinguísticas rançosas, certos jogos de linguagem inúteis (pelo menos, na tradução; mas, como é uma constante na sua produção, acho que não é culpa de Nougué), que a mim certamente nunca agradaram. Depois do capítulo 25 (num total de 43), esse infeliz vezo fuentesiano vai se disseminando aqui e ali e prejudica em larga medida a parte final de Adão no Éden: a mixórdia espreita onde se pensava que o autor iria dar conta da tentacular realidade da desmoralização da sociedade mexicana. É uma lástima porque nas primeiras cem páginas do romance eu acreditava que Fuentes iria realizar o feito de sintetizar seu país no início do século XXI.

Ao fim e ao cabo, talvez a grande síntese esteja na totalidade problemática e fascinante da sua obra, que se torna o espelho fiel desse país tão multifacetado. Como se diz no livro (aliás, num dos seus momentos mais discutíveis):

“__Necessidade de adiar os desfechos:

__ Não há desfecho. Há leitura. O leitor é o desfecho.”


[1] «El narrador es un hombre de empresa muy poderoso que ve como está siendo minado el país por los narcotraficantes, por formas diversas de la corrupción y que decide ganarles a los narcotraficantes y a los criminales en su propio juego siendo más criminal que ellos»

«Si no hubiese la demanda norteamericana no habría la oferta mexicana…no creo que ni siquiera Obama, que es un político bienintencionado, se atreva a despenalizar la droga en los Estados Unidos.»

«Adán en Edén está basada en las noticias que uno lee todos los días en México en estos tiempos. Es la novela de un lector de periódicos y las noticias tienen que ver con ajusticiamientos, violencia, crimen organizado y capos de la droga.»

«Un primer plano grotesco en el que la actualidad (mexicana) se cuela por muchos lados. Hay dos maneras de leer una novela: lo que se dice y lo que se deja de decir.»

«Yo doy mi opinión política en mis artículos periodísticos y todo mundo la conoce, pero una novela es un espacio mucho más amplio, en el que uno intenta dar cauce a muchas voces, incluso aunque sean voces divergentes.»

«En esta novela intenté mezclar géneros, hay desde luego una relación crucial con lo que se llama en literatura la pequeña historia, que  es realmente la noticia de prensa, grandes novelas se han basado en la pequeña historia. Hay una relación entre la novela y la prensa. »

«Es posible ver en ella como un noticiero  de la actualidad mexicana, hay una pequeña historia inserta en la gran historia de nuestra actualidad, una actualidad que podría ser vista como un melodrama, pero la mejor definición de melodrama que he escuchado es que melodrama es la comedia sin humor. Yo prefiero la comedia con horror y es lo que ofrezco en esta novela, a fin de hacer conscientes las convenciones que rigen tanto a la prensa, como a la historia, como a la ficción misma, a fin de explorar constantemente, y creo que es una de las misiones del novelista, la otra manera de decir las cosas y al fin y al cabo de usar un lenguaje, el del novelista, para iluminar otro  lenguaje que es el de la prensa, el de la política, el del crimen y el del sexo.»

«La novela es un conjunto de elementos de horror y humor, son una mezcla de géneros que en la literatura se llama ‘la pequeña historia’, que son noticias de prensa que sirven de inspiración para hacer una novela.»

«Esta es la novela de lo que nos está asolando en México: el crimen, el narcotráfico, la presencia carcelaria. »

Oncologia, Ecologia, Ontologia

Em Get a Life-De Volta à Vida (em tradução de Ivo Korytowski para a Companhia das Letras), Nadine Gordimer relata uma série de eventos dramáticos envolvendo a família de seu protagonista, Paul Bannerman: ele passa por uma “quarentena” obrigatória, após a operação de extração de um tumor maligno na tireóide e a aplicação de iodo radiativo; seu pai, numa viagem ao México, conhece outra mulher, apaixona-se e nunca mais volta para sua mãe, a qual, por sua vez, adota uma menina negra (é a África do Sul pós-apartheid) de três anos, que fora estuprada, contaminada com o vírus HIV e abandonada; sua própria esposa engravida novamente, contra a sua vontade.

Além disso, há a luta do grupo de ambientalistas do qual Paul faz parte contra projetos governamentais ecologicamente ruinosos: a destruição de dunas e de um delta cuja extensão o faz ser identificável até do espaço. A humanidade, a “civilização” como tumor maligno na natureza, desafiando sua capacidade de recuperação, uma “quarentena” muito além da capacidade imaginativa do indivíduo.

Não faltam, portanto, elementos para compor mais um vigoroso painel contemporâneo, com a musculatura narrativa que a grande escritora sul-africana alega ter desenvolvido tarde em sua carreira (mais especificamente, a partir de O Falecido Mundo Burguês, de 1966), em reação à sua “sensibilidade aguçada”, mais propensa a envolver a vida num envelope transparente na esteira de uma Virginia Woolf. Numa das famosas entrevistas da “Paris Review” ela declara: “minha luta tem sido para não perder a agudeza de captar nuances de comportamento e casá-las com sucesso a um talento narrativo. Porque a espécie de assuntos que estão ao meu redor, que me atraem, que vejo e me motivam, exige uma forte habilidade narrativa”.

Os resultados dessa luta não podiam ser melhores: o mosaico de uma sociedade repressiva e dividida, e sua posterior e conflituosa superação (“mas, é claro, num certo sentido você é ‘sortudo’ se tem grandes temas”), em romances já clássicos como The Conservationist- O Amante da Natureza (ganhador do Booker Prize em 74, publicado no Brasil apenas em 82), A Filha de Burger, O Pessoal de July. Neles, e em trabalhos mais recentes, como Ninguém para me acompanhar ou A Arma da Casa, a determinação é quase balzaquiana, mesmo com a apurada sofisticação técnica: é uma realidade social específica que está sendo delineada diante de nossos olhos (evidentemente, daí advém a sua eficácia universal, a velha história de que falando da nossa aldeia…).

Pois bem, com todos os conflitos que permeiam o livro, com toda essa tarimba, Nadine Gordimer manda tudo às favas em De Volta à Vida, desossando a tal musculatura narrativa desenvolvida por ela, desencarnando-a mesma, e nada ficando a dever a mestres da insubstancialidade contemporânea: Don DeLillo, Bernardo Carvalho, Paul Auster, João Gilberto Nöll. Acompanhando o estado fantasmático que cerca Paul Bannerman desde sua “quarentena”, ela nos apresenta a realidade sul-africana num puro “envelope transparente”, digno de Virginia Woolf, num estilo quase a ponto de se desfazer, de se volatilizar, que eu só tinha visto até hoje, com essa intensidade, nos romances de Joan Didion, Democracia e A Última coisa que ele queria, uma espécie de má vontade com o material que tem de lidar (e que visto do espaço, em escala cósmica…) e frases-refrão que reaparecem e reaparecem, dando ritmo a esse estranho sussurro narrativo, que persiste na reticência intransigente do que poderia ter sido um grande romance tradicional.

Mas que romance tradicional poderia surgir quando se lida com o inconcebível, quando as pessoas têm de se acomodar ao intolerável (esse “tema” que é tão caro ao compatriota de Gordimer, J.M. Coetzee, e que rendeu uma obra-prima como Disgrace-Desonra): “… O que aconteceu —essa formulação implica o passado, o que existe agora é um presente sem existência no domínio das experiências fornecidas…”?

Se Doris Lessing, aos 82 anos, impressionou com o fôlego épico de O Sonho Mais Doce (2001), também de certa forma mostrou-se estática (mesmo com toda a sua autoridade) na exploração do mesmo universo das  obras anteriores (é que o universo lessinguiano é rico e vasto), Gordimer (que também chegava aos 82 no ano da publicação original de De Volta à Vida, 2005) surpreende e faz um dos romances mais atrelados, ou entrelaçados, ao que conhecemos pelo nome vago de pós-modernidade. E assim como o corpo de Paul Bannerman irradia invisivelmente seu perigo, e assim como falamos em escombros (da tradição narrativa, da África do Sul do apartheid, do meio ambiente), falemos também de um talento, ainda que inaparente, que irradia perigo (“açula a atenção, isca-a com o risco”, como no poema de João Cabral de Melo Neto): o leitor pode ficar tão fascinado por ele que não aceite mais outro tipo de texto representativo de nosso zeitgeist, do espírito da nossa época. Assim, com uma simplicidade alucinante (que parece ser típica dela), essa senhora octogenária se torna a escritora mais moderna, up to date, do mundo.

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em A TRIBUNA de Santos,  em  27 de outubro de 2007)

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LEITURA EM ESPELHO: Saramago e Lobo Antunes (“Caim” e “O arquipélago da insónia”)

 

saramargoloboantunes

arquipélago da insonia

ANOTAÇÕES DE 21 de janeiro de 2010

“e portanto não tenho senão uma mulher inventada a respirar do lado da consola numa cama de estilo, a prima Hortelinda a mostrar-me o livro

__ Não constas aqui”

“Deve ser o fim ou qualquer coisa parecida com o fim…”

Por conta de Drummond e a “estranha idéia de família viajando através da carne”, voltei a uma leitura que deixara interrompida, não porque o romance não fosse bom, muito, muito pelo contrário, mas por atribulações e vicissitudes pessoais: O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, de António Lobo Antunes, ainda sem edição brasileira.

Reli esta semana as cem páginas iniciais e depois o livro inteiro e portanto já posso dizer, kde saída, que é uma das grandes obras do maior escritor de língua portuguesa do momento. É  parecido, sob alguns aspectos, com Eu hei-de amar uma pedra, inclusive pelo intrincado da narração, intrincado não pelos fatos em si,mas porque nós os acompanhamos em toda a sua concreticidade, se é que se pode dizer assim, de uma concreticidade visceral, acachapante e depois eles são des-realizados, se tornam fantasmáticos, recombinados, redistribuídos, ressignificados: como em Faulkner, no mundo de Lobo Antunes o tempo enquanto sucessão não existe.  Porém, a partir da segunda parte (eu estava no começo dela quando interrompi a leitura em novembro), ficamos sabendo que a narrativa em parte está a cargo de um autista (o irmão do narrador insone, que espera a manhã, que virá dali a pouco, e no entanto nunca será manhã). Agora: quem não tem o seu quê de autismo nesse universo todo regido pela incomunicabilidade? Veja-se na terceira parte, quando Maria Adelaide (a cunhada do autista) assume seu lugar na roda de narradores (a função primordial de todos: narradores, nessa vida que é absorvida monstruosamente por um livro continuamente escrito: “que espécie de livro é este que custa tanto escrever?”):

“eu com seis anos no quintas e cinqüenta aqui e no entanto a mesma pedra a esconder-me dos outros convencida que havia outrose não há outros…”;

ou ainda:

“e portanto faleci em criança, as sombras da santinha e do enfermeiro sob a sombra da serra

__ Diz-me se cheiro a defunta não mintas

     e o meu cunhado a olhar para mim sem olhar para mim”

e mais adiante:

“e o pai do meu sogro as descer do mulo diante da casa que não existe chegado de uma herdade que não existe…”

“quantas vezes pedi ao meu marido que levasse o irmão de volta ao hospital e eu pudesse esquecer que faleci e achar que estou viva, não me habituo a Lisboa, estas avenidas que me assustam e esta gente que me ignora, quantas vezes perguntei ao meu marido

__ Por que tenho de morar com o teu irmão

       e o meu marido um gesto que se dissolvia no garfo (…)

__ Porque não tenho mais ininguém”…

Além da revelação do autismo do narrador inicial (que cria um poderoso mundo primordial na primeira parte e depois gera uma formidável incerteza quanto ao que poderia haver de conteúdo “real” ali, quando o localizamos num hospital, sendo visitado intermitentemente pela família), um dos achados de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA é o personagem da Prima Hortelinda, uma espécie de Parca portuguesa, que consulta no seu caderno quem deve morrer (e a região rural onde vive já moribunda, quase sem mortos para serem apontados no caderno, e o narrador insone eternamente poupado, para viver o inferno da lembrança, mas que lembranças exatamente?).

A morte como ser compassivo, suas intermitências:

“supõe-se que a morte nos quer mal, vai-se a ver e mentira, não gosta do que faz (…) quantas ocasiões deve ter perdido

__ Por que não entregam este serviço a outra?”

ou:

“e, depois, claro, a pergunta do costume

__ Por que eu?

     como se houvesse um motivo, não há motivo algum”

e se a morte é assimilada à compassiva Prima Hortelinda, Deus é assimilado à figura do avô:

“perguntei-lhe [ para Prima Hortelinda]

__ Quem é que manda em você?

       e um olhar para o teto

__ Ele já não sabe mandar porque até Deus, com a idade, se lhe turvou a cabeça, amolecia num banco a repetir perplexo, esfregando as mãos nos joelhos

__ Que estranha coisa é a vida”

No entanto, eu confesso aos meus leitores: eu não saberia nem como nem por onde começar uma análise “global” e que se pretendesse esclarecedora e totalizante de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA. Ele me derrota, nesse sentido, assim como já fui derrotado por outros Lobo Antunes ou poir Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.

O romance de Lobo Antunes tem um impacto sensorial, em sua matriz de imagens e falas que vão aparecendo e reaparecendo, recombinando-se, e dando a sensação de que entramos realmente na mente dos personagens. Fisicamente, eu quero dizer. Há sempre algo associado a alguém (o pai e o cavalo; o avô e o mulo; a avó e a chávena no pires; Prima Hortelinda e os goivos; a mãe e os baús perfumados); há as inúmeras modulações das afirmações que reaparecem e vão criando o referido impacto: “no tempo em que nada faltava na casa?”; “indiferença do meu irmão que continua comigo nesta casa em que apesar de igual quase tudo lhe falta”;  “na casa em que apesar de igual tudo principiava a faltar-lhe”; “o meu avô que continua nesta casa a quem tudo falta, apesar de igual”; “conforme se desfez a casa em que apesar de igual tudo lhe falta hoje em dia”. A questão é justamente essa: quando é “hoje jem dia”, quando tudo falta na casa, apesar de igual, casa que porventura talvez nem tenha existido: “Qual a minha idade hoje em dia e quantos anos se passaram desde aquilo que contei?”; “qual  é a minha idade, quantos anos passaram, catorze, vinte, trezentos ou nenhum”.

Anotações de cinco de novembro de 2009

“Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão

     __ Não ouves?

      procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira  e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros  por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés  se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que  podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou  sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…”

    Finalmente terminei a primeira parte de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, após algumas atribulações  e vicissitudes pessoais (neste sentido, e apenas neste, não dou sorte com Lobo Antunes: toda vez que leio um livro dele ou não estou muito bem de saúde, ou caio doente, ou acontece algo desagradável na minha vida).

Como já afirmei (ver abaixo), apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade.  Parece que estamos vendo em ação o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os onipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos,  como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): “…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…”. Cinquenta páginas depois: “…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…”  Mais adiante: “De maneira que fico aqui à espra porque com um  bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar conosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…”

antunes

04.11.09- Quando eu pensei em fazer uma leitura comparativa entre livros de  Saramago & Lobo Antunes, a minha primeira idéia foi de usar Meu nome é legião como contraleitura de CAIM até por causa do seu título bíblico, mesmo que o romance de Lobo Antunes focalizasse a violência urbana dos nossos dias, centrando-se num grupo muito jovem de delinqüentes. Todavia, eu não resisti à beleza do título O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA e até que não errei muito na troca, uma vez que se pode afirmar que esse livro (publicado em Portugal em 2008) é extremamente “bíblico”. Acredito que Lobo Antunes  atingiu, aqui, a primordialidade. Embora se possa (e se deva) fazer uma leitura histórica, de um meio rural português em meados do século passado, há um sopro de intemporalidade na descrição das relações, dos hábitos, da paisagem, que inscreve o texto numa ancestralidade bíblica, com o patriarcalismo triunfante: temos o Avô, o Pai, a Mãe, a Avõ, o Irmão, a Vila, a Herdade, enfim, tudo sendo construído e descontruído pela memória, naquela coisa louca loboantunisiana de fazer frases e falas voltarem a todo momento, mas tudo Único, primordial, ancestral no sentido mais visceral da palavra.

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Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor     

       O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.

      Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e  questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um  momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”

    Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.

    Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.

      Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.

      Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.

       Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.

(resenha publicada em “A Tribuna” em 03.11.09) 

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20/05/2012

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (primeira parte)

Uma idéia genial e sedutora (ainda mais com a insatisfação generalizada com qualquer esfera do poder, seja executiva, legislativa ou judiciária) fundamenta o argumento de Ensaio sobre a lucidez: sem combinação prévia,  mais de oitenta por cento do eleitorado vota em branco na capital de um país europeu, o mesmo que já sofrera uma epidemia de cegueira quatro anos antes, como narrado em Ensaio sobre a cegueira.

Desnorteado, após medidas autoritárias ostensivas e vãs, o governo coloca a cidade em estado de sítio e retira-se, deixando-a por sua conta e risco: “… com esta ação radical a cidade insurgente ficará entregue a si mesma, terá todo o tempo de que precisa para compreender o que custa ser segregada da sacrossanta unidade nacional, e quando não puder agüentar mais o isolamento, a indignidade, o desprezo, quando a vida lá dentro se tiver tornado num caos, então os seus habitantes culpados virão a nós,  de cabeça baixa, a implorar o nosso perdão”. Contrariando todas as expectativas, tudo funciona perfeitamente.

O caos fica por conta dos detentores do poder. Incapazes de compreender o que se passa,  ou de procurar novas posturas e novas metas, eles procuram desmoralizar os habitantes da cidade,  chegando ao ponto de efetuar um atentado, mandando aos ares uma estação de metrô. Não conseguindo os resultados esperados, e ainda enfrentando a deserção de representantes da autoridade constituída (como acontece com o Presidente da Câmara Municipal, num dos melhores momentos do romance), os ministros procuram um “culpado”, um bode expiatório, e a escolhida é a mulher  que não cegara no romance anterior, justamente a pessoa que manteve a lucidez no meio da desagregação social e pessoal desencadeada pela cegueira.

O problema é que o Comissário encarregado  do inquérito (que, na verdade,  é arbitrário e extra-oficial) não se convence da culpabilidade dela e ainda por cima é cativado pela suposta subversiva. Só que o Poder, em qualquer uma de suas encarnações, sempre leva a melhor, sempre chega a qualquer extremo para poder se manter…

Além da fluência extraordinária da narrativa (essa também era uma das qualidades do emocionante Ensaio sobre a cegueira, talvez o mais límpido dos grandes textos saramaguianos, porém ele tratava de uma matéria bem mais desagradável, mais terrível, mais opressiva), que confirma a maestria do escritor (aos 81 anos), o achado maior de Ensaio sobre a lucidez, que nos faz perdoar até algumas pequenas quedas na voltagem do texto, algumas puerilidades, algumas páginas banais, é o fato de que ele jamais penetra na mente das pessoas que votaram em branco na cidade (até mesmo a mulher que não cegou permanece uma figura esfíngica, quase oracular). O governo reúne-se, age, persegue, executa, mas nunca temos acesso ao lado oposto.

Só podemos ter uma pista, já que com certeza trata-se de atitudes do inconsciente coletivo, não de um movimento político (pois todos são desacreditados pelo texto), se pensarmos nas seguintes passagens de Ensaio sobre a cegueira“está visto que aqui já ninguém pode se salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. E mais adiante: “mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, já estamos meio mortos, disse o médico. Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Os eleitores que votam em branco, que se recusam a imergir no caos patrocinado pelo poder público, talvez tenham redescoberto a esperança, talvez tenham lembrado a si mesmos que estavam meio vivos, e que essa “meia-vida”  pode ser uma plataforma lúcida  para outra forma de vida, simbolizada de uma forma lúdica (a molecagem do voto em branco). Saramago, entretanto,  mantém o mistério da cidade. E da sua personagem mais fascinante.

É uma tristeza  para o leitor que, pela própria lógica  do poder, o destino dela tenha de ser trágico (e sempre acompanhada pelo  cão que lhe bebia as lágrimas  durante a outra situação), pois  a partir da entrada do Comissário em cena, o tom leve, quase farsesco, e cheio de bonomia, de Ensaio sobre a lucidez, que destoa completamente  das outras obras de Saramago,  vai adensando-se  e melancolizando-se, como neste diálogo entre o Comissário e a mulher que ele investiga: “Imagino que a vão estigmatizar perante a opinião pública. De não haver cegado há quatro anos. Bem sabe que para o ministro é altamente suspeito  que a senhora não tenha cegado quando toda a gente estava a perder a visão, agora esse fato tornou-se motivo mais do que suficiente, desse ponto de vista, para a considerar responsável , no todo ou em parte, do que está a suceder. Refere-se ao voto em branco. Sim, ao voto em branco. É absurdo, é completamente absurdo. Aprendi neste ofício  que os que mandam  não só não se detêm  diante do que nós chamamos absurdo como se servem dele para entorpecer as consciências e aniquilar a razão”.

    Contraposta à cegueira que nos governa, a lucidez é a possibilidade de se engendrar atos de insurreição ética.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de maio de 2004)

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (segunda parte)

O novo romance de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez (que vem  sendo recebido com reservas pela crítica), vem formar dupla com o belíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), o qual, para mim, representou um marco na obra saramaguiana, e ainda é o livro do grande escritor de que mais gosto (embora tenha uma admiração especial e diferente, mais do ponto de vista literário mesmo, por O ano da morte de Ricardo Reis).

Saramago já escrevera coisas extraordinárias (Memorial do convento, o próprio Ricardo Reis), já havia hiper-humanizado Cristo e levado a cabo a mais terrível acusação a Deus em O Evangelho segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio sobre a cegueira começou a se operar na obra dele uma tendência definitiva à alegorização: um núcleo alegórico central e desenvolvido até as últimas conseqüências.

Em contrapartida, assiste-se a um processo pedagógico, através do qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes e A caverna. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético na contemporaneidade e causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação e do uso das maiúsculas no estilo saramaguiano.

Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca”, que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo que se convencionou chamar de “universo concentracionário” (o século XX, com os campos de concentração nazistas, stalinistas etc, proporcionou experiências mais que suficientes para a imaginação). Falta de respeito, descaso, estupidez e violência. Falta de higiene, querelas e quizilas, a tomada de poder por uma quadrilha de cegos, que passa a extorquir pertences e favores sexuais (há estupros coletivos).

Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que cegou, a qual insistiu em permanecer com o marido afetado, e um cego “normal”, que faz parte da quadrilha. Um incêndio no manicômio, abandonado pelas autoridades, jogará no mundo essa mulher e um pequeno grupo nas ruínas da cidade, pois o mal se alastrou.

É um grupo pungente, que tem o acréscimo de um cão que passa a acompanhá-lo para o que der e vier e   que bebe lágrimas (Saramago e um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo narrativo, não por acaso um dos pontos mais fortes de seu “processo contra Deus” em O evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles).

É um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendo o horror da massa, tal como vemos pelas terríveis cenas no manicômio e depois nas ruas da cidade até que uma “cura” tão gratuita quanto a aparição do mal chegue. Porém, como já afirmei outras vezes, é improcedente pensar em Kafka e seguidores ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira e um assunto curiosamente recorrente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente aos seus personagens femininos. Ao lançar agora Ensaio sobre a lucidez, e isso veremos na próxima seção, ele faz surgir novamente a mulher do médico que não perdeu a visão. Fez bem, é a maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

nota- versão de artigo anterior, publicada de forma ligeiramente diferente, em 4 de maio de 2004; haveria ainda uma outra versão, em 13 de setembro de 2008, por conta do lançamento do filme de Fernando Meirelles. Essa versão termina da seguinte maneira: 

A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente a essa esposa de médico, que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Qualquer um que tenha passado a amá-la, ficou felicíssimo quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

Orfeu e o inferno do Arquivo Morto: “Todos os nomes”, de José Saramago

A burocracia foi um dos pesadelos que mais assombraram a imaginação do século XX. O esmagamento do indivíduo em meio a corredores intermináveis, seções, departamentos, repartições,  tornou-se ainda mais horrível com a formalidade burocrática  que norteou a organização dos campos de extermínio nazistas. De Kafka & George Orwell a Joseph Losey (o de  Mr.Klein-Cidadão Klein, um dos grandes filmes dos anos 70) e Danilo Kîs, esse pesadelo burocrático assolou livros e filmes, pondo em xeque a identidade pessoal, a nossa preciosa individualidade, tanto quanto os direitos do mero cidadão, pois muitas vezes rimou com totalitarismo. Talvez nenhuma imagem seja tão eloqüente quanto a do subversivo (vivido por Robert de Niro) sendo literalmente aniquilado por papéis, em Brazil, de Terry Gillian.

José Saramago retomou a imaginário burocrático (desprezando a moderna tecnologia, na qual a informática, com o seu inquietante universo virtual, faz o mundo ainda mais abstrato e vulnerável do que a papelada em arquivos físicos) consagrado pelo século que está em vias de terminar. Em Todos os nomes, ele apresenta a Conservatória, uma repartição gigantesca do serviço público em que convivem, separados, os verbetes das pessoas que nascem e os das pessoas que morrem. Os corredores dos mortos formam um labirinto e é preciso levar um fio de ariadne para orientar-se.

O herói, chamemo-lo assim, senhor José,é um oficial de baixo escalão que mora numa casa pegada à Conservatória (e, portanto, pode entrar no edifício à noite, detalhe essencial à trama) e cujo hobby é colecionar informações sobre celebridades. Um dia, ele tem a idéia de copiar informações dos verbetes da Conservatória para enriquecer sua coleção e, por acaso, acaba tendo em mãos o verbete de uma mulher desconhecida. Desinteressando-se da sua coleção de celebridades, ele passa a infringir regras, faltar ao serviço, invadir propriedades, tudo para coligir informações sobre a desconhecida, até descobrir que ela deixou o arquivo dos vivos e foi colocada no labiríntico arquivo dos mortos (se nesse resumo parecem confundir-se a existência do indivíduo com a sua documentação, isso é decorrência do enredamento que a narrativa de Saramago faz dos dois; bizarramente, porém, em uma narrativa que se chama Todos os nomes, nenhum personagem tem nome, exceção feita ao senhor José).

Não há ninguém mais rebaixado em termos de condição humana do que esse senhor José. Trata-se de um sujeitinho insignificante, burocrática e socialmente (lembra até o protagonista do clássico O capote, de Gógol). Porém, ao investigar a vida de uma mulher que ele não conheceu, porque ela se suicida, subverte toda a sua irrelevância e dá um novo sentido à conservação da memória praticada pela sua repartição (que, na verdade, não conserva nada, transforma tudo em papel morto).

Nenhum momento da bela narrativa de Saramago deixa isso mais claro do que a noite em que o senhor José penetra no labirinto do arquivo dos mortos para resgatar o verbete da desconhecida. Nesse momento, ele deixa de ser o burocrata reles e atrapalhado para se tornar um Orfeu, descendo aos infernos em busca de sua Eurídice. Não será, aliás, a única vez em que ele vagará pelos mortos, pois Todos os nomes ainda tem uma memorável cena em um cemitério, o qual, na sua expansão desmesurada, espelha o crescimento desenfreado da cidade onde vive o senhor José. É ali que ele descobre a outra última morada da suicida desconhecida, além dos arquivos dos mortos. E descobre que, também ali, seu nome está perdido (porque um pastor tem o hábito de trocar os números das lápides):

“Tinha procurado a mulher desconhecida por toda a parte, e veio encontrá-la aqui, debaixo deste montículo de terra, fecharam-se para ela todos os caminhos do mundo, andou o que tinha de andar, parou onde quis, ponto final, porém o senhor José não consegue libertar-se dessa idéia fixa, a de que mais ninguém, a não ser ele, poderá mover a derradeira pedra que ficou no tabuleiro, a pedra definitiva, aquela que, se for movida na direção certa, virá a dar sentido real ao jogo, sob pena, não o fazendo, de o deixar empatado para a eternidade. Não sabe que mágico lance será esse, se aqui se decidiu a passar a noite não foi por ter esperança de que o silêncio lho viesse segredar ao ouvido nem que a luz da lua amavelmente lho desenhasse entre as sombras da árvore, está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar a paisagem de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sente que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões”.

Como os heróis mitológicos, o senhor José é auxiliado por forças superiores, e esse é outro detalhe surpreendente e matreiro de Todos os nomes.  Quem o ajuda é o supremo chefe da repartição, o Conservador, por motivos que é melhor deixar em segredo, apenas adiantando que esse sorrateiro personagem é um dos achados do romance.

Assim, nesse jogo entre vida e morte, memória e esquecimento, autoridade e rebelião, profanação e sagração, caos e ordem (um jogo que é também uma corda bamba perigosa entre alegoria e realismo), José Saramago mostra, mais uma vez, o dom de conduzir as palavras certas com o fio de ariadne da maestria literária para trazer à luz nossos medos e desacertos. E alguma esperança.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em  A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 1997)

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