Há mais ou menos 20 anos, o filme Acusados mostrava uma promotora levando aos tribunais os espectadores de um estupro. Por quê? Na verdade, eles incitaram o crime. Além disso, a moça era vulgar, bêbada, oferecida, isto é, a vítima parecia culpada do seu infortúnio.
Não é grande coisa cinematograficamente, mas era representante daquele “avanço” de percepção que é uma qualidade subestimada às vezes da indústria cultural. O fato de a heroína ser vulgar, fácil, disfuncional, e ter os seus direitos garantidos, e o público se identificar com ela é algo que me vem à mente agora quando aconteceu o espantoso episódio da UNIBAN de São Bernardo do Campos. Ainda na época de Acusados, a PM representava para nós a repressão, os estudantes é que representavam as forças saudáveis da sociedade que permitem avanços de percepção como o do filme (independentemente de sua mediocridade como obra cinematográfica). Hoje a PM parece representar as forças da razão contra a total intolerância, boçalidade e reacionarismo de, pasme-se, estudantes universitários.Que retrocesso, que coisa incrível de se verificar em 2009: uma turba xingando e apupando uma pessoa que incomoda, que instiga, que provoca… E uma turba que se arroga o direito de ditar quem deve ou não permanecer num espaço social, que por definição é de todos.
Há exemplos mais graves ainda, mais preocupantes: eu detesto novela de televisão. Mas nos últimos tempos fico cada vez mais abismado com os espectadores de telenovelas. Nada contra o folhetim, o maniqueísmo entre mocinhos e vilões, nada disso, essas fórmulas sempre vão (e devem) existir. Minha impaciência com as telenovelas vem da sua chatice, da mesmice do seu ritmo, dos fatos já conhecidos e divulgados de antemão. Porém, há uma rastaquerice dos espectadores de novela que é um fenômeno alarmante: no final de Caminho para as Índias, as pessoas não queriam ver a vilã (Letícia Sabatella) ser derrotada, como demanda o folhetim. Eu observava as pessoas dizendo o seguinte: não vou perder de jeito nenhum o capítulo da novela hoje porque a fulana (a personagem de Sabatella) vai apanhar. Onde chegamos? Agora as pessoas assistem ao clímax das novelas para ver alguém apanhar. Bater no vilão, dar bofetadas e mais bofetadas, é obrigatório, não basta ele ser vencido, desmascarado, o bem vencer o mal.
Nâo é muito rastaqüera esse modo de vivenciar o ficcional? Não é um sintoma de uma impotência tão avassaladora diante da falência social do nosso sistema social que as pessoas acabem achando que esse baixo nível é uma resolução de problemas, que esse é um modo de solucionar conflitos e folhetins?
UNIBAN e bifa na vilã de novela: que saudade de “Acusados”…
08/11/2009
NOLL(WHERE)

JOÃO GILBERTO NOLL E “A GRAXA DIFÍCIL DE SAIR”

Suzana Amaral, que já fez duas marcantes (e difíceis) transposições da literatura para o cinema (A Hora da Estrela & Uma Vida em Segredo), mais uma vez demonstra gosto impecável na escolha de um livro, ao adaptar Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll.
Após um primeiro romance (A Fúria do Corpo, 1981) barroco, excessivo, transbordante, o notável escritor gaúcho, no texto seguinte (de 1985), Bandoleiros, surpreendeu com a linguagem seca, desidratada, sem a menor ênfase, estranhamente absorvente, mostrando a trajetória de um narrador errante, que se envolvia em incidentes irrisórios (mesmo quando violentos) e ao mesmo tempo claustrofóbicos e exasperantes. Essa tônica se manteve no livro seguinte, Rastros do Verão (1986) e chegou a um determinado clímax, justo em Hotel Atlântico, publicado há exatamente vinte anos.
Mais uma vez, temos um personagem que está em trânsito e vive precariamente: viaja sem bagagem, fica um dia ou dois numa espelunca qualquer, e parte, quando acicatado pela urgência do desespero (“Eu estou velho. Mal chegado aos quarenta, velho”; mais adiante: “Quando me vi com a passagem na mão me senti como que comprando a minha alforria. E me invadiu a sensação de uma liberdade demasiada. Como se eu não fosse dar conta sozinho”). Sabemos apenas que foi um ator pouco conhecido, e que agora só vai em frente, seja para onde for: “O que importava é que eu precisava continuar dando rumos à minha viagem”.
O relato se inicia no Rio de Janeiro, depois segue numa viagem de ônibus para Florianópolis, no final da qual a passageira norte-americana com quem o ex-ator conversa (surgindo certa atração entre eles) aparece morta (ela se suicidou; aliás, o texto se inicia com um cadáver sendo retirado do hotel em que ele se hospeda). Depois, ele pega uma carona, indo para o Rio Grande do Sul, acompanhando um noivo e seu futuro cunhado. Há uma farra num bordel de estrada, e então uma parada misteriosa, quando ele ouve Nélson (o cunhado) dizer a Léo (o noivo) que precisam assassinar aquele ator, uma testemunha. Do quê? Nunca saberemos, os acontecimentos de Hotel Atlântico, como tantos outros na obra de João Gilberto Noll, são incompletos, não são explicitadas as motivações dos outros, não conhecemos a cadeia dos fatos. Nem por isso, a habilidade mágica do autor de Harmada é menos eficiente em nos envolver, como se estivéssemos lendo uma narrativa em que tudo vai se completar de modo unívoco e convincente: mais radical do que Paul Auster, Noll nos mostra que o fortuito quase sempre pode ser irreparável e irrevogável.
Fugindo dos seus assassinos, nosso herói vai parar num povoado, onde se abriga na casa do padre (só que não há padre). Enquanto lavam sua única roupa, ele veste uma batina velha e sai a passear pelas imediações, inclusive dando a extrema-unção a uma moradora local.
Deixando a região, e sendo colhido por uma tempestade, totalmente desamparado, ele literalmente desmonta num outro lugarejo perdido nos cafundós gaúchos, Arraiol, e tem a sua perna amputada por um médico candidato a prefeito da cidade, cuja filha quer que o ex-ator agora mutilado a deflore. Desenvolve-se, a partir dái, uma relação de co-dependência com Sebastião, o enfermeiro que cuida dele e com o qual “foge” de Arraiol “Pensei o que seria de mim se Sebastião desaparecesse agora”.
Os dois vão para Porto Alegre e Sebastião deseja conhecer o mar. Aí aparece o Hotel Atlântico do título, o termo dessa jornada em que movimento e paralisia se alternam, e em que não veremos uma experiência de vida tornar-se coesa, discernível, ou seja, fazer sentido: “disse a Sebastião que um dia eu esperava entender por que foi que tudo aconteceu”. Esse dia nunca chegará, porque a morte, que poupou os narradores de Bandoleiros & Rastros do Verão toma a dianteira (ou não, porque nada é certo efetivamente). Para no romance seguinte, O Quieto Animal da Esquina (1991), tudo recomeçar: “um caldo escuro escorrendo das minhas mãos debaixo da torneira, eu tinha perdido o emprego, me despedia daquela graxa difícil de sair…”
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05/11/2009
LEITURA EM ESPELHO: Saramago e Lobo Antunes (“Caim” e “O arquipélago da insónia”)
LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras



“Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão
__ Não ouves?
procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…”
Finalmente terminei a primeira parte de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, após algumas atribulações e vicissitudes pessoais (neste sentido, e apenas neste, não dou sorte com Lobo Antunes: toda vez que leio um livro dele ou não estou muito bem de saúde, ou caio doente, ou acontece algo desagradável na minha vida).
Como já afirmei (ver abaixo), apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade. Parece que estamos vendo em ação o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os onipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos, como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): “…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…”. Cinquenta páginas depois: “…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…” Mais adiante: “De maneira que fico aqui à espra porque com um bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar conosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…”

04.11.09- Quando eu pensei em fazer uma leitura comparativa entre livros de Saramago & Lobo Antunes, a minha primeira idéia foi de usar Meu nome é legião como contraleitura de CAIM até por causa do seu título bíblico, mesmo que o romance de Lobo Antunes focalizasse a violência urbana dos nossos dias, centrando-se num grupo muito jovem de delinqüentes. Todavia, eu não resisti à beleza do título O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA e até que não errei muito na troca, uma vez que se pode afirmar que esse livro (publicado em Portugal em 2008) é extremamente “bíblico”. Acredito que Lobo Antunes atingiu, aqui, a primordialidade. Embora se possa (e se deva) fazer uma leitura histórica, de um meio rural português em meados do século passado, há um sopro de intemporalidade na descrição das relações, dos hábitos, da paisagem, que inscreve o texto numa ancestralidade bíblica, com o patriarcalismo triunfante: temos o Avô, o Pai, a Mãe, a Avõ, o Irmão, a Vila, a Herdade, enfim, tudo sendo construído e descontruído pela memória, naquela coisa louca loboantunisiana de fazer frases e falas voltarem a todo momento, mas tudo Único, primordial, ancestral no sentido mais visceral da palavra.


Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor
O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.
Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”
Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.
Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.
Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.
Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.
Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.
(resenha publicada em “A Tribuna” em 03.11.09)
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02/11/2009
Entre a insurreição ética e a vaidade: resenhas sobre José Saramago (1995-2006)
www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

À GUISA DE INTRODUÇÃO
Na sua produção octogenária, por assim dizer, Saramago de certa forma retomou de forma mais ”leve”, mais fluida, procedimentos de livros anteriores: assim, Ensaio sobre a lucidez (2004) retomava Ensaio sobre a cegueira (1995) e ao mesmo tempo sua produção baseada num núcleo alegórico, visivelmente político (caso também de A jangada de pedra); por sua vez, As intermitências da morte (2005) enriquecia uma outra faceta dessa tendência alegórica: o enlace com o mito. A morte apaixonada por um mortal fazia companhia à releitura de Orfeu em clave burocrática de Todos os nomes (1997). O ponto de encontro dessas duas facetas da tendência estaria no livro da virada do milênio, A caverna (2000).
A viagem do elefante (2008) retoma as diabruras com o romance histórico, exercitadas com rara maestria em Memorial do convento (1982). E agora CAIM (2009) faz uma releitura do Antigo Testamento, paralela à feita do Novo Testamento em O evangelho segundo Jesus Cristo (1991).
O romance é o mais curto de Saramago em toda a sua produção e como boa parte dos seus trabalhos pós-Nobel (em 98) apresenta uma certa irregularidade, ainda que a leitura valha a pena e o saldo seja positivo
Então, aqui vão as resenhas:

UMA OBRA-PRIMA DE JOSÉ SARAMAGO
Entre as boas novidades da Companhia de Bolso está uma edição mais popular de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o qual há 15 anos (foi lançado em 1991) permanece como uma das duas obras-primas literárias supremas a ter Cristo como protagonista (a outra é A Última Tentação, de Nikos Kazantzakis, um romance que se torna cinqüentenário em 2006). José Saramago já havia escrito coisas que até Deus duvida antes, e depois continuaria escrevendo, porém talvez nenhum texto seu seja tão deslumbrante. Ao mostrar o Criador como uma potência imperialista lutando pelo controle do mundo, ele literalmente fez o diabo, transformando a tessitura narrativa numa túnica inconsútil da qual é até difícil extrair uma citação.
“Deus não perdoa os pecados que manda cometer”. E Saramago tampouco perdoa: “se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco… o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada…” Mais adiante: “Por outras palavras, o teu Deus é o único guarda duma prisão onde o único preso é o teu Deus.” E, muito mais adiante ainda: “O problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.”
Ainda assim, a grande força do texto, seu centro de gravitação, é menos a acusação metafísica (já poderosa) que a afirmação de uma humanidade gritante ao cometer seus pecados. A primeira parte do romance (onze capítulos) é dominada pela figura de José (cujo destino também é morrer crucificado). Nunca antes o pai humano de Cristo ganhara contornos tão nítidos e inesquecíveis.
O grande autor português, talvez imbuído de “um espírito voltaireano, irônico e irrespeitoso”, ao focalizar o nascimento de Jesus e as atribulações do marido de sua mãe, ao cumprir suas obrigações religiosas, também não esquece de aquilatar de forma definitiva a crueldade do ser humano para com os animais. José vai ao templo em Jerusalém oferecer sacrifício: “uma alma qualquer, que nem precisará ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina…” Consumado o sacrifício: “…tudo voltará ao que era antes, a diferença é haver duas rolas a menos no mundo e um menino mais que as fez morrer.”
Não se pense que Saramago zombe da história de Cristo. Muito pelo contrário. Ele se mostra um formidável adversário daquilo que não aceita e não acredita, mas que não pode evitar enquanto narrador, acicatando “essa cicatriz benévola que é não pensar”. Talvez seu Cristo, ao ocupar a segunda parte da narrativa, não tenha a explosiva mistura Zaratustra-personagem de Dostoievski do Cristo de Kazantzakis; nunca, entretanto, desce a um mero nível de humanização adocicada, como o Cristo de Frei Betto no seu palidíssimo e aguado Entre todos os homens: “Sendo Jesus o evidente herói deste evangelho, que nunca teve o propósito desconsiderado de contrariar o que escreveram outros e portanto não ousará dizer que não aconteceu o que aconteceu, pondo no lugar de um Sim um Não…”
Sim e Não. Deus e o Diabo. Kazantzakis já nos advertia: “Sem dúvida foi Deus, Deus.. ou teria sido o Diabo ? Quem consegue distinguir entre os dois ? Eles trocam de cara. Deus às vezes é só escuridão; e o diabo, só luz.” Saramago, tão diferente dele, no entanto tão igual (como deus e o diabo ?): “…e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro (…) imagine-se o escândalo se Pastor lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava dentro”.
(resenha publicada em 14 de abril de 2006)

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA
I

O novo romance de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez (que vem sendo recebido com reservas pela crítica), vem formar dupla com o belíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), o qual, para mim, representou um marco na obra saramaguiana, e ainda é o livro do grande escritor de que mais gosto (embora tenha uma admiração especial e diferente, mais do ponto de vista literário mesmo, por O ano da morte de Ricardo Reis).
Saramago já escrevera coisas extraordinárias (Memorial do convento, o próprio Ricardo Reis), já havia hiper-humanizado Cristo e levado a cabo a mais terrível acusação a Deus em O Evangelho segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio sobre a cegueira começou a se operar na obra dele uma tendência definitiva à alegorização: um núcleo alegórico central e desenvolvido até as últimas conseqüências.
Em contrapartida, assiste-se a um processo pedagógico, através do qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes e A caverna. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético na contemporaneidade e causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação e do uso das maiúsculas no estilo saramaguiano.
Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca”, que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo que se convencionou chamar de “universo concentracionário” (o século XX, com os campos de concentração nazistas, stalinistas, etc, proporcionou experiências mais que suficientes para a imaginação). Falta de respeito, descaso, estupidez e violência. Falta de higiene, querelas e quizilas, a tomada de poder por uma quadrilha de cegos, que passa a extorquir pertences e favores sexuais (há estupros coletivos).
Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que cegou, a qual insistiu em permanecer com o marido afetado, e um cego “normal”, que faz parte da quadrilha. Um incêndio no manicômio, abandonado pelas autoridades, jogará no mundo essa mulher e um pequeno grupo nas ruínas da cidade, pois o mal se alastrou.
É um grupo pungente, que tem o acréscimo de um cão que passa a acompanhá-lo para o que der e vier e que bebe lágrimas (Saramago e um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo narrativo, não por acaso um dos pontos mais fortes de seu “processo contra Deus” em O evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles).
É um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendo o horror da massa, tal como vemos pelas terríveis cenas no manicômio e depois nas ruas da cidade até que uma “cura” tão gratuita quanto a aparição do mal chegue. Porém, como já afirmei outras vezes, é improcedente pensar em Kafka e seguidores ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira e um assunto curiosamente recorrente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente aos seus personagens femininos. Ao lançar agora Ensaio sobre a lucidez, e isso veremos na próxima seção, ele faz surgir novamente a mulher do médico que não perdeu a visão. Fez bem, é a maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.
nota- versão de artigo anterior, publicada de forma ligeiramente diferente, em 4 de maio de 2004; haveria ainda uma outra versão, em 13 de setembro de 2008, por conta do lançamento do filme de Fernando Meirelles. Essa versão termina da seguinte maneira:
A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente a essa esposa de médico, que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Qualquer um que tenha passado a amá-la, ficou felicíssimo quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.
)
II
Uma idéia genial e sedutora (ainda mais com a insatisfação generalizada com qualquer esfera do poder, seja executiva, legislativa ou judiciária) fundamenta o argumento de Ensaio sobre a lucidez: sem combinação prévia, mais de oitenta por cento do eleitorado vota em branco na capital de um país europeu, o mesmo que já sofrera uma epidemia de cegueira quatro anos antes, como narrado em Ensaio sobre a cegueira.
Desnorteado, após medidas autoritárias ostensivas e vãs, o governo coloca a cidade em estado de sítio e retira-se, deixando-a por sua conta e risco: “… com esta ação radical a cidade insurgente ficará entregue a si mesma, terá todo o tempo de que precisa para compreender o que custa ser segregada da sacrossanta unidade nacional, e quando não puder agüentar mais o isolamento, a indignidade, o desprezo, quando a vida lá dentro se tiver tornado num caos, então os seus habitantes culpados virão a nós, de cabeça baixa, a implorar o nosso perdão”. Contrariando todas as expectativas, tudo funciona perfeitamente.
O caos fica por conta dos detentores do poder. Incapazes de compreender o que se passa, ou de procurar novas posturas e novas metas, eles procuram desmoralizar os habitantes da cidade, chegando ao ponto de efetuar um atentado, mandando aos ares uma estação de metrô. Não conseguindo os resultados esperados, e ainda enfrentando a deserção de representantes da autoridade constituída (como acontece com o Presidente da Câmara Municipal, num dos melhores momentos do romance), os ministros procuram um culpado, um bode expiatório, e a escolhida é a mulher que não cegara no romance anterior, justamente a pessoa que manteve a lucidez no meio da desagregação social e pessoal desencadeada pela cegueira.
O problema é que o Comissário encarregado do inquérito (que, na verdade, é arbitrário e extra-oficial) não se convence da culpabilidade dela e ainda por cima é cativado pela suposta subversiva. Só que o Poder, em qualquer uma de suas encarnações, sempre leva a melhor, sempre chega a qualquer extremo para poder se manter…
Além da fluência extraordinária da narrativa (essa também era uma das qualidades do emocionante Ensaio sobre a cegueira, talvez o mais límpido dos grandes textos saramaguianos, porém ele tratava de uma matéria bem mais desagradável, mais terrível, mais opressiva), que confirma a maestria do escritor (aos 81 anos), o achado maior de Ensaio sobre a lucidez, que nos faz perdoar até algumas pequenas quedas na voltagem do texto, algumas puerilidades, algumas páginas banais,é o fato de que ele jamais penetra na mente das pessoas que votaram em branco na cidade (até mesmo a mulher que não cegou permanece uma figura esfíngica, quase oracular). O governo reúne-se, age, persegue, executa, mas nunca temos acesso ao lado oposto.
Só podemos ter uma pista, já que com certeza trata-se de atitudes do inconsciente coletivo, não de um movimento político (pois todos são desacreditados pelo texto), se pensarmos nas seguintes passagens de Ensaio sobre a cegueira: “está visto que aqui já ninguém pode se salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esprança”. E mais adiante: “mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, já estamos meio mortos, disse o médico. Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.
Os eleitores que votam em branco, que se recusam a imergir no caos patrocinado pelo poder público, talvez tenham redescoberto a esperança, talvez tenham lembrado a si mesmos que estavam meio vivos, e que essa “meia-vida” pode ser uma plataforma lúcida para outra forma de vida, simbolizada de uma forma lúdica (a molecagem do voto em branco). Saramago, entretanto, mantém o mistério da cidade. E da sua personagem mais fascinante.
É uma tristeza para o leitor que, pela própria lógica do poder, o destino dela tenha de ser trágico (e sempre acompanhada pelo cão que lhe bebia as lágrimas durante a outra situação), pois a partir da entrada do Comissário em cena, o tom leve, quase farsesco, e cheio de bonomia, de Ensaio sobre a lucidez, que destoa completamente das outras obras de Saramago, vai adensando-se e melancolizando-se, como neste diálogo entre o Comissário e a mulher que ele investiga: “Imagino que a vão estigmatizar perante a opinião pública. De não haver cegado há quatro anos. Bem sabe que para o ministro é altamente suspeito que a senhora não tenha cegado quando toda a gente estava a perder a visão, agora esse fato tornou-se motivo mais do que suficiente, desse ponto de vista, para a considerar responsável , no todo ou em parte, do que está a suceder. Refere-se ao voto em branco. Sim, ao voto em branco. É absurdo, é completamente absurdo. Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdo como se servem dele para entorpecer as consciências e aniquilar a razão”.
Contraposta à cegueira que nos governa, a lucidez é a possibilidade de se engendrar atos de insurreição ética.
(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 11 de maio de 2004)
![[José Saramago # 3] Nobel Prize in Literature [José Saramago # 3] Nobel Prize in Literature](http://armonte.files.wordpress.com/2009/10/saramago-no-fundo.jpg?w=542&h=542)
SARAMAGO E AS PAISAGENS ALEGÓRICAS
Uma tendência audaciosa da obra de José Saramago, exercitada em A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, e que reaparece agora em seu novo romance, A caverna, é o uso de um núcleo alegórico que determina os rumos da narrativa. E é preciso realmente ser um autor do quilate de Saramago para se aventurar nas paisagens alegóricas, em geral pobres e áridas, e obter êxito.
Dessa vez, o núcleo alegórico é o Centro, um mega-shopping que absorveu toda a vida quotidiana para dentro de suas paredes e no qual, além das compras e do lazer, as pessoas vivem e morrem (há moradias e crematórios). Saramago radicaliza ao extremo a visão de que hoje em dia não há mais indivíduos, há consumidores. É o “segredo de abelha” referido no texto: “reside em criar e impulsionar no cliente estímulos em sugestões suficientes para que os valores de uso se elevem progressivamente na sua estimação, passo a que se seguirá em pouco tempo a subida dos valores de troca, imposta pela argúcia do produtor a um comprador a quem foram sendo retiradas pouco a pouco, sutilmente, as defesas interiores resultantes da consciência da sua própria personalidade, aquela que antes, se alguma vez existiu um antes intacto, lhe proporcionaram, embora precariamente, uma certa possibilidade de resistência e auto-domínio”. É um mundo em que o capitalismo torna-se totalitário: ou se está dentro ou se é excluído inapelavelmente. Enfim, é a globalização.
Como se sabe, o título vem do mito criado por Platão: o homem contenta-se com simulacros, com uma impostura da realidade, vivendo numa caverna apartada da verdadeira realidade. E esse título terá sua função explicada plenamente na parte final.
Por sua vez, o Centro, tal como o conhecemos, só chegando à orla dos pequenos funcionários, do baixo escalão que o serve, nos remete a Kafka. Pode-se até acusar Saramago de utilizar por vezes um tom sub-kafkiano, como o diálogo entre o herói da narrativa, o oleiro Cipriano Algor, e um funcionário do Centro: “O Senhor é um chefe. Sou um chefe, de fato, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes. O Centro não é um tribunal. Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável”!!!! Ou ainda esta tentativa de humor negro, noutro diálogo entre os mesmos personagens: “Será caso para proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede de tirar com uma mão, logo acode a compensar com a outra. Se bem me lembro, isso das linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor. Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo…”
São momentos infelizes (e pode haver os que não pensarão assim, antes o contrário), porém perfeitamente diluíveis num romance longo e belo. Pois o verdadeiro, o grande Saramago, não está tanto na aproximação com o universo kafkiano, na apreensão de um vasto mundo desumanizado, e sim nas minúcias com que trata o avesso, isto é, o mínimo mundo humano que restou, simbolizado pelo núcleo familiar e Cipriano Algor.

Quem ler A caverna notará que nele se narra, à exaustão, todos os processos ligados à olaria, embora tudo o que acontece se origine na recusa do Centro de continuar comprando os artefatos artesanais de Cipriano Algor, que já não encontram consumidores. Não é por acaso que procede assim o grande escritor português: à gigantesca irrealidade do Centro, ele contrapõe a mínima, mas intensa e gritante realidade de Cipriano Algor, de sua filha Marta e de seu marido Marçal, da viúva Isaura Madruga e do cão Achado. Vale acrescentar, aliás, quanto às personagens do romance, que não é de hoje que as figuras femininas roubam a cena no universo saramaguiano. Tivemos a Blimunda de Memorial do convento, a Joana Carda de A jangada de pedra e a mulher sem nome de Ensaio sobre a cegueira. Agora temos Marta, que simplesmente congrega em si o que de melhor o livro tem a oferecer, e Isaura Madruga, no pouco que aparece, também é muito forte. Quanto ao cachorro Achado, mais uma vez Saramago cria uma grande figura canina, que vem fazer companhia ao Mr. Bonés, de Timbuktu, de Paul Auster, e ao cão que bebia as lágrimas da mulher que o adotou em Ensaio sobre a cegueira, como continuador de uma grande linhagem de cães e outros animais da ficção, que não passa pelo xampu de embelezamento e pieguice do mundo disney ou simulacros similares.
É por isso, por acompanhar gestos, palavras, sentimentos e pequenos atos desse grupo tão humano (Achado incluído), que não se pode colocar de maneira tão fácil o autor de A caverna, como já repeti tantas vezes, entre os escritores da desesperança, como Kafka (que ele evoca aqui tão canhestramente) ou Beckett. Crítico, sombrio, sim, mas um autor da esperança, talvez porque torne seus livros, com a riqueza humana dos seus personagens, atos de insurreição ética, como os que ele solicitou ao público na inesquecível entrevista que deu a Jô Soares no dia 04 de dezembro, não permitindo que seu entrevistador o “globalizasse”, levando-o para um terreno seguro, afável, cheio de gracinhas fáceis e digeríveis.
José Saramago, um dos mestres do final do milênio, exige que a vida social seja um pouco mais humana. Ela não o é, dificilmente o será, mas seus livros são uma grande ajuda para imaginá-la assim.
(resenha publicada, de forma ligeiramente alterada, em 12 de dezembro de 2000; era o primeiro romance de Saramago pós-Nobel).


NOBEL DESCOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA.
FINALMENTE.
(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 13 de outubro de 1998)
Finalmente o Nobel descobriu que existe a língua portuguesa. Pelo menos, a primeira escolha foi feliz. Já no ano passado, José Saramago era o favorito, entretanto ridiculamente escolheram Dario Fo, após deixar que morressem quase todos os maiores ficcionistas italianos do século: Italo Svevo, Carlo Emilio Gadda, Leonardo Sciascia, Dino Buzatti, Italo Calvino, Alberto Moravia, Elsa Morante, Cesare Pavese, para citar os mais óbvios, sem premiá-los.
Além de sua obra como dramaturgo (In nomine Dei; Que farei com este livro?), poeta, contista (Objecto quase), observador da “realidade” (A bagagem do viajante; Viagem a Portugal) e auto-cronista (nos dispensáveis e desagradáveis Cadernos de Lanzarote), o prolífico e notável primeiro autor nobelizado da nossa língua vem destacando-se, desde o início da década de 80 como romancista, um dos maiores da atualidade.
Levantado do chão (80) já prefigura, ao que parece, o grande Saramago. A explosão acontece com Memorial do convento (82), para muitos o seu melhor romance e que já tem o status de clássico, adotado inclusive por vestibulares. Nessa obra extraordinária, Saramago realizou um feito de concepção e de linguagem, feito que se repetiu no romance seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (84), no qual imagina o heterônimo mais conservador de Fernando Pessoa sobrevivendo ao seu criador e voltando a Portugal, justamente quando os países europeus estão sendo dominados pelo fascismo. Dos livros de Saramago, esse (que eu li em primeiro lugar) é o meu favorito, o mais rico, aquele em que os seus recursos narrativos se casaram melhor. Logo nas primeiras páginas, o leitor encontra uma homenagem a Jorge Luis Borges, pois uma das leituras de Reis no navio que o leva à pátria é um livro de Herbert Quain, criação do grande escritor argentino; assim, o jogo de espelhos das autorias se adensa e ao mesmo tempo se amplifica.
Em compensação, são artificiosos e forçados demais A jangada de pedra (86) e História do cerco de Lisboa (89). A idéia que norteia o primeiro é genial (a Península Ibérica aparta-se geologicamente da Europa e fica à deriva) e o livro é importante porque dá o primeiro passo para um desenvolvimento posterior de sua obra romanesca (uma situação alegórica inicial que se espraia pela narrativa toda), mas História do cerco de Lisboa parece concentrar o que de pior podemos dizer da obra saramaguiana, se não gostamos dela: certa tendência à monocórdia, à monotonia mesmo, um humor forçado e sisudo (se se aceitar a contradição de termos), e sobretudo uma aridez\ cortante.
Não é à toa que muitos consideram o livro praticamente ilegível. Não é o caso, evidentemente, porque nada do que José Saramago escreve como ficção pode ser descartado muito facilmente; aliás, agora, depois do Nobel, ou pelo menos daqui a algum tempo, a revisão de suas obras será natural e muitos juízos serão refeitos.
O vigor retornaria com o soberbo O evangelho segundo Jesus Cristo (91), a maior requisição contra Deus que já se fez num romance. Não é improvável que no curso dos próximos anos esse livro venha a se estabelecer como o ponto alto de toda a produção ficcional de José Saramago. Nunca é demais lembrar que ele fez milagres (se é que se pode usar uma palavra pela qual ele parece ter aversão) com um assunto tão batido.
Se Memorial do convento e O evangelho segundo Jesus Cristo demonstraram ser os livros mais prestigiados do Nobel de 1998, permitam-me uma impertinência: mesmo com toda a sua grandeza, eu admiro mais os dois últimos romances, que trabalham com uma situação ao mesmo tempo alegórica e contemporânea, tal como A jangada de pedra prenunciava. São eles Ensaio sobre a cegueira (95) e Todos os nomes (97). Talvez não tenham o virtuosismo dos outros, mas, resgatando mitos, pensando a situação atual, discutindo barbárie e civilização, caos e ordem, pessimismo e esperança, são obras emocionantes, candentes, memoráveis, que fazem pensar em autores como Albert Camus, Thomas Mann ou Doris Lessing, que exercitaram a difícil arte de persistir no humanismo, mesmo com toda a reprovação da vanguarda e do engajamento político mais evidente. Apressadamente declarou-se que a obra dos dois primeiros caducara e hoje percebe-se que estão mais vivos do que nunca. Mais próximo de Mann do que de Kafka, o objetivo de Todos os nomes e especialmente Ensaio sobre a cegueira, a meu ver, é mostrar horrores e situações-limite não de forma a reiterar o absurdo da existência e a desesperança, e sim, de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra tão ao gosto do autor de A montanha mágica, mas que não causaria estranheza aos autores de A peste e Shikasta).Ou seja, o ser humano precisa aprender.
Apesar da constrangedora vaidade que desnorteia o leitor dos Cadernos de Lanzarote é esse aspecto da obra de José Saramago que o torna proeminente (no sentido de um entrelaçamento do fazer literário com uma postura ética), mesmo em meio a seus pares igualmente merecedores do Nobel, nessa literatura tão ignorada no Brasil como é a de Portugal: Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes e Eugênio Andrade.
Há outro aspecto digno de se destacar do prêmio deste ano: foi dado a um escritor que ainda está produzindo, que ainda está no melhor da sua forma; em suma, que ainda está vivo, no sentido amplo da palavra. Sabemos que nem sempre foi assim nas premiações do Nobel.
Atenção- Todos os livros de Saramago destacados nesta resenha estão publicados no Brasil e acessíveis. Com exceção de Memorial do Convento e Levantado do chão, publicados pela Difel-Bertrand Brasil, todos os demais foram lançados pela Companhia das Letras.

RESGATANDO A AMADA DO ARQUIVO MORTO
A burocracia foi um dos pesadelos que mais assombraram a imaginação do século XX. O esmagamento do indivíduo em meio a corredores intermináveis, seções, departamentos, repartições, tornou-se ainda mais horrível com a formalidade burocrática que norteou a organização dos campos de extermínio nazistas. De Kafka & George Orwell a Joseph Losey (o de Cidadão Klein, um dos grandes filmes dos anos 70) e Danilo Kîs, esse pesadelo burocrático assolou livros e filmes, pondo em xeque a identidade pessoal, a nossa preciosa individualidade, tanto quanto os direitos do mero cidadão, pois muitas vezes rimou com totalitarismo. Talvez nenhuma imagem seja tão eloqüente quanto a do subversivo (vivido por Robert de Niro) sendo literalmente aniquilado por papéis, em Brazil, de Terry Gillian.
José Saramago retomou a imaginário burocrático (desprezando a moderna tecnologia, na qual a informática, com o seu inquietante universo virtual, faz o mundo ainda mais abstrato e vulnerável do que a papelada em arquivos físicos) consagrado pelo século que está em vias de terminar. Em Todos os nomes, ele apresenta a Conservatória, uma repartição gigantesca do serviço público em que convivem, separados, os verbetes das pessoas que nascem e os das pessoas que morrem. Os corredores dos mortos formam um labirinto e é preciso levar um fio de ariadne para orientar-se.
O herói, chamemo-lo assim, senhor José,é um oficial de baixo escalão que mora numa casa pegada à Conservatória (e, portanto, pode entrar no edifício à noite, detalhe essencial à trama) e cujo hobby é colecionar informações sobre celebridades. Um dia, ele tem a idéia de copiar informações dos verbetes da Conservatória para enriquecer sua coleção e, por acaso, acaba tendo em mãos o verbete de uma mulher desconhecida. Desinteressando-se da sua coleção de celebridades, ele passa a infringir regras, faltar ao serviço, invadir propriedades, tudo para coligir informações sobre a desconhecida, até descobrir que ela deixou o arquivo dos vivos e foi colocada no labiríntico arquivo dos mortos (se nesse resumo parecem confundir-se a existência do indivíduo com a sua documentação, isso é decorrência do enredamento que a narrativa de Saramago faz dos dois; bizarramente, porém, em uma narrativa que se chama Todos os nomes, nenhum personagem tem nome, exceção feita ao senhor José).
Não há ninguém mais rebaixado em termos de condição humana do que esse senhor José. Trata-se de um sujeitinho insignificante, burocrática e socialmente (lembra até o protagonista do clássico O capote, de Gógol). Porém, ao investigar a vida de uma mulher que ele não conheceu, porque ela se suicida, subverte toda a sua irrelevância e dá um novo sentido à conservação da memória praticada pela sua repartição (que, na verdade, não conserva nada, transforma tudo em papel morto).
Nenhum momento da bela narrativa de Saramago deixa isso mais claro do que a noite em que o senhor José penetra no labirinto do arquivo dos mortos para resgatar o verbete da desconhecida. Nesse momento, ele deixa de ser o burocrata reles e atrapalhado para se tornar um Orfeu, descendo aos infernos em busca de sua Eurídice. Não será, aliás, a única vez em que ele vagará pelos mortos, pois Todos os nomes ainda tem uma memorável cena em um cemitério, o qual, na sua expansão desmesurada, espelha o crescimento desenfreado da cidade onde vive o senhor José. É ali que ele descobre a outra última morada da suicida desconhecida, além dos arquivos dos mortos. E descobre que, também ali, seu nome está perdido (porque um pastor tem o hábito de trocar os números das lápides):
“Tinha procurado a mulher desconhecida por toda a parte, e veio encontrá-la aqui, debaixo deste montículo de terra, fecharam-se para ela todos os caminhos do mundo, andou o que tinha de andar, parou onde quis, ponto final, porém o senhor José não consegue libertar-se dessa idéia fixa, a de que mais ninguém, a não ser ele, poderá mover a derradeira pedra que ficou no tabuleiro, a pedra definitiva, aquela que, se for movida na direção certa, virá a dar sentido real ao jogo, sob pena, não o fazendo, de o deixar empatado para a eternidade. Não sabe que mágico lance será esse, se aqui se decidiu a passar a noite não foi por ter esperança de que o silêncio lho viesse segredar ao ouvido nem que a luz da lua amavelmente lho desenhasse entre as sombras da árvore, está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar a paisagem de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sente que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões”.
Como os heróis mitológicos, o senhor José é auxiliado por forças superiores, e esse é outro detalhe surpreendente e matreiro de Todos os nomes. Quem o ajuda é o supremo chefe da repartição, o Conservador, por motivos que é melhor deixar em segredo, apenas adiantando que esse sorrateiro personagem é um dos achados do romance.
Assim, nesse jogo entre vida e morte, memória e esquecimento, autoridade e rebelião, profanação e sagração, caos e ordem (um jogo que é também uma corda bamba perigosa entre alegoria e realismo), José Saramago mostra, mais uma vez, o dom de conduzir as palavras certas com o fio de ariadne da maestria literária para trazer à luz nossos medos e desacertos. E alguma esperança.
(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 11 de novembro de 1997)

SARAMEGO
José Saramago é um dos grandes ficcionistas atuantes. Pelo menos dois romances seus são leituras básicas e obrigatórias do nosso tempo, Memorial do convento (82) e O evangelho segundo Jesus Cristo (91). Seu romance mais recente, Ensaio sobre a cegueira (95), mostrou que, além da estatura literária, o autor português (que completa 75 anos agora em 97), ainda alcançou uma estatura ética digna de um Thomas Mann.
Por isso, é uma desagradável surpresa a leitura dos CADERNOS DE LANZAROTE, diários que cobrem três anos (93, 94, 95) da vida do autor de O ano da morte de Ricardo Reis em Lanzarote, uma das Ilhas Canárias, ara onde se mudou. Nesses diários, Saramago se compraz num narcisismo chocante, numa masturbação discursiva auto-centrada que só se pode chamar de senil.
O leitor tem de agüentá-lo cultivando o jardim encantado (para ele) do elogios e lisonjas, recolhendo trechos de críticas que falam em dele, transcrevendo cartas que falam bem dele, transcrevendo recados da secretária eletrônica que… falam bem dele, exaltando a invenção do fax, de onde espoucam papéis que, ufa, falam bem dele!!!
E não apenas isso, há que se agüentar igualmente as palestras, conferências, seminários, nos quais se fala da obra dele, nos quais o elogiam, nos quais encontra outros escritores (como Jorge Amado ou Gonzalo Torrente Balléster, autor de O rei pasmado e a rainha nua), de quem ele gosta e que gostam dele. Resultado: uns falam bem dos outros, recomendam uns aos outros para prêmios. E assim 650 páginas se acumulam inutilmente.
O mistério de CADERNOS DE LANZAROTE é como a ironia afiada de Saramago, tão deslumbrante em seus romances, não se apercebeu da ridícula empreitada representada por esses diários? Alguém levantará a mão e dirá, mas moço, ele previu essa acusação de narcisismo desenfreado, de prima-donismo, no seu prefácio (“gente maliciosa vê-lo-á como um exercício de narcisismo a frio”). Explicação há para tudo, os políticos brasileiros que o digam. Difícil é engolir.
Outro constrangimento da papelada que migrou das Ilhas Canárias, numa arribação dispensável, é verificar como o pensamento que brilha na ficção fica com a cara deslavada de filosofia de praça de aposentados, sem graça, quando vertido em papel como “mera idéia”: “O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha reta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se” etc,etc. É tão banal que nem parece o mesmo homem que exercita um dos estilos mais entranhadamente pessoais da literatura contemporânea.
O que salva o tempo de leitura e o dinheiro investido nesses troços e destroços oriundos de um desastre nas Canárias são algumas (raras) observações sobre a feitura do belo Ensaio sobre a cegueira, entre um e outro afago para o saramego, e também o povoamento da casa com cães que o destino (tão banalizado no trecho citado) encarrega-se de trazer para a família. É o único momento em que ele parece ser humano, gente como a gente, não um senhor enfatuado e “medalhão” (ainda por cima com o complexo de inferioridade dos portugueses com relação ao resto da Europa, ou melhor, com relação a Europa que não é considerada “resto”): “Agora são três os cães que andam pela casa. De vez em quando Pepe irrita-se com Greta que é o mais impertinente dos seres vivos, persegue-a com toda a ferocidade de que é capaz; mas é a fingir, não chega nunca a morder-lhe. A descarada responde ladrando num tom de tal maneira agudo que parece perfurar-nos o os ouvidos. Por fim, rende-se, e fazem as pazes. A tudo isso assiste impávido Chico, com a serenidade de quem já viu muito mundo e comeu o pão que o diabo dos cães amassou… Digo que são três o cães, mas de vez em quando aparece-nos no jardim a cadela preta, aquela grande, de pernas altas. Por mim, acho bem. Uma amizade não se acaba só por os amigos estarem a viver em casas diferentes.”
O resto é um estupor que beira o delírio, em trechos como “Descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quanto me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles”!!!! Deus nos livre.
Depois dessa viajada da maionese, a inquietante questão suscitada pelos CADERNOS DE LANZAROTE é a seguinte: dá para continuar tendo uma alta idéia da estatura moral e ética de José Saramago, diante de tanta auto-complacência?
(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 25 de março de 1997)
A EDUCAÇÃO DO SER HUMANO PELO ABSURDO
Uma das contradições mais tristes e ridículas do ser humano é o fato de que todo mundo sempre pensar, a priori, o pior do próximo e ter uma visão por baixo da índole humana (“amigo é dinheiro no bolso”), e, no entanto, as pessoas sempre ficarem chocadas, escandalizadas, quando, numa situação-limite, vem à tona justamente esse lado pior da nossa natureza.
José Saramago dramatiza magistralmente esse choque, esse escândalo tragicômico no seu Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras), o qual segue a trilha das grandes obras anteriores do autor português, como Memorial do convento (82), O ano da morte de Ricardo Reis (84) e O evangelho segundo Jesus Cristo (91), que compensam na sua prolífica e incessante produção coisas chatíssimas como A jangada de pedra (desperdício de uma idéia genial) e História do cerco de Lisboa.
Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de cegueira que leva o governo a isolar os atingidos num manicômio. Lá, vivenciarão os horrores daquilo a que se denominou universo concentracionário: descaso, estupidez e violência por parte das autoridades (o Salazarismo deixou fantasmas na ficção portuguesa), picuinhas pessoais, falta de higiene, uma quadrilha de cegos que toma o poder e extorque dinheiro, pertences e favores sexuais.
Duas pessoas estão ali e não são vítimas da tal “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista, que quis permanecer com o marido, e um cego “normal”, membro da quadrilha. Um incêndio jogará a mulher do médico e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou pelo mundo.
É um grupo comovente, acrescido de um cão que os acompanha e bebe lágrimas. É um grupo que, apesar de Saramago não nomear ninguém, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa, tal como vemos em cenas como esta: “… o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, uns quanto cegos a avançarem de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar… a vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava” (pág. 105).
Mas é improcedente pensar em Kafka, nos autores do teatro do absurdo (Ionesco; Beckett; o autor das peça Os Cegos), em Elias Canetti, o Nobel de 81, autor de um poderoso romance intitulado A cegueira (no Brasil, Auto-de-fé), até mesmo, em certo sentido, em Ernesto Sabato (que criou, em Sobre heróis e tumbas, uma conspiração de cegos, governando subterraneamente nosso mundo). Nesses autores, as parábolas que escrevem levam ao desespero, ao sentimento de inutilidade dos esforços humanos, ao lamento de Jozef K. (de O processo), ao ser executado, de estar morrendo como um cão, sem saber o porquê.
Saramago passa longe disso. Seu estilo, muito peculiar (como já se notou diversas vezes, fazendo da leitura dos seus livros uma das grandes experiências com a língua portuguesa em nossos dias), se alinha mais ao tipo de literatura humanista cujo expoente é Thomas Mann (outro grande representante é o Camus de A peste): mostrar os horrores não de forma a reiterar o absurdo, e sim de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra bem ao gosto de Mann). Trocando em miúdos, o ser humano precisa aprender.
É por isso que há a genial identificação do narrador com a mulher do médico que cegou: ambos mostram ao leitor o que é ver enquanto os outros são cegos. A mulher do médico nos leva além do narrador, pois ele apenas relata (tal como o velho cego da venda preta, outro personagem emocionante); ela não só vê como sente, desespera-se, solidariza-se, está no meio do caos. Seu olhar intacto não revela supremacia, mas um desejo de modificar o estado das coisas.
Essa mulher de um oftalmologista cego, essa mulher que o leitor aprende a amar, é a maior personagem feminina da literatura do nosso tempo.
(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 12 de dezembro de 1995, ano do lançamento do livro)

23/10/2009
VAMPIROS E HIGH SCHOOL, DRÁCULA E ZACH EFRON
Livraria Porto das Letras na Internet, acesse:
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Ontem assisti ao primeiro episódio de Vampire Diaries (Warner, 5as.feiras, 21 h) e foi o esperado em série capitaneada por Kevin Williamson: na linha de “Dawson´s Creek” e de várias temporadas da não-williamsoniana na produção, porém bem parecida proposta, “Smalville”, temos esses jovens velhos, essas mensagenzinhas caretinhas (a irmã vai atrás do irmão viciado no banheiro dos homens para conferir se ele está “chapado” e lhe passar um sermão). Tivemos o cemitério de praxe do livro, a floresta onde jovens incautas penetram à noite, a ausência dos adultos, a melhor amiga da heroína branca (agora, sempre uma negra), que são figuras de fundo geralmente chatas e empatadoras…
Fell´s Church do livro se transformou em Mystic Falls. Achei bem inteligente nos pouparem do ridículo de fazer com que Stefan e Damon fossem oriundos da Florença Renascentistas. Não, dessa vez, eles são da época colonial dos EUA, e talvez a guerra de secessão substitua a Renascença, o que é uma perspectiva muito mais convincente. Eles também não perderam tempo em tentar fazer com que a aparência dos vampiros fosse muito marcada ou marcada: são dois mauricinhos e pronto (Stefan agora mora com um suposto “tio” e não mais numa pensão, como no livro).
O que estraga é que os dois atores são de lascar: em meio a todos os bonitinhos insípidos, escolheram justamente um ápice de insipidez: Paul Wesley, que é literalmente um “cara de nada”. Triste, preocupado, apaixonado, apavorado, em luta, em repouso, ele mantém impávido a mesma expressão. Chega a ser cômico que as jovens do lugar se digladiem por ele, tanto que nem insistiram muito nesse aspecto (bem acentuado no livro). Quanto a Ian Somerhalder, quando ele apareceu em alguns episódios de “Smalville”, sem se destacar exatamente pelo talento, chamou atenção pela sua beleza, digamos “pura”, irretocável. Depois, ele participou da primeira temporada de “Lost” e de lá para cá o que aconteceu? Acho que não vão cair no ridículo de colocá-lo como jovem de ensino médio (não é a linha de Damon), como aconteceu com o Duda Nagle, em “Caminho das Índias”. Só que ele está com cara de plástico, parece embotocado, ou maquiado demais, comprometendo toda a sua beleza, ou seja, sua maior qualidade, já que no quesito carisma, personalidade ou talento…
Apesar do escândalo que é a cara sambada do elenco (Paul Wesley interpretar um jovem no ensino médio é uma piada, e não só ele; pelo menos poderiam adaptar a trama para alguma universidade provinciana), gostei da heroína Nina Dobrey, que no meio da insipidez geral, da inexistência de Wesley e da canastrice de Somerhalder, conseguiu o tom exato de sua Elena. Não sei o que vai ser da série, se ela vai vingar,ou o que vai ser da carreira de Nina Dobreý. Só sei que ela é a melhor coisa de Vampires Diaries até agora. Ou a única coisa.


O DESPERTAR, GENÉRICO DE CREPÚSCULO?
De quando em quando, os vampiros ressurgem dos seus túmulos e assolam a indústria cultural, abocanhando um suculento lucro. O tremendo sucesso dos romances de Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer), agora prolongado no cinema, é certamente o marco da nova aparição daquelas figuras que nunca morrem. E dia 22, quinta-feira, estréia na Warner, o seriado Vampire Diaries, baseado em outra série de sucesso.
Confesso que não consegui encarar a empreitada de ler Meyer (só Crepúsculo tem 416 páginas, na edição brasileira), contentando-me com seu genérico: O Despertar, primeiro volume de Diários do Vampiro, tem apenas 236 páginas. Curiosamente, embora pareça vir na esteira do sucesso da rival, a série de L.J. Smith é muito anterior. Os livros iniciais foram lançados em 1991. Mas ainda que apresentassem alguma inovação impactante (não apresentam), Smith nunca mais vai poder se livrar da sombra de Meyer.
O único detalhe que diferencia O Despertar das histórias similares é que seus vampiros sobrevivem ao amanhecer e à luz solar, desde que usem um amuleto protetor, de tal forma que um deles pode freqüentar a escola e se tornar um elemento importante no time local. Os irmãos Stefan e Damon (um, bonzinho; o outro, malvado) foram transformados no século XV, em Florença, pela menina que os dois amavam e que acirrara a rivalidade entre ambos. Reaparecem em Fell´s Church, na Virginia, como pretendentes de outra garota, Elena, a qual se parece com a primeira amada. Original, não? E, como já se convencionou, a figura dos vampiros é sempre a de um dândi, cavalheiresco e meio lânguido (Damon é perverso, mas charmoso e atraente).
É claro que com toda a vivência de séculos dos dois vampiros, e ainda mais tendo vivido na Renascença, eles acham o máximo encanto da vida e da existência se enterrar em cidadezinhas provincianas dos EUA, e viver toda a magia única da vida do ensino médio, com sua obsessão pela popularidade, pela identificação dos “perdedores”, pelos bailes de formatura, pela rainha da festa, e toda aquela avalanche de estereótipos e figuras carimbadas que já vimos em milhares de filmes. O curioso é que Smith tenta nos mostrar que os estudantes que estão no topo da popularidade, os belos, os atléticos, são o equivalente da nobreza de outros tempos.
As jovens do livro acreditam no “amor eterno”, quando encontrarem o “cara certo”, vão ao cemitério (que estão sempre abertos a qualquer hora) para conversar com os pais mortos (a protagonista inevitavelmente tem um histórico de tragédia familiar, já notaram?), sempre têm pressentimentos certeiros e conseguem conciliar todas essas emoções avassaladoras e experiências aterrorizantes (presença de vampiros, sepulcros abertos, assassinatos, etc) com trabalhos escolares, futricas e rivalidades comezinhas. Vampiros com séculos de experiências são abalados pela força de personalidade de jovenzinhas provincianas.
Por falar em experiência, só alguém muito jovem pode ler um livro desses e levá-lo minimamente a sério, até como fabulação. Não há nenhum momento em que O Despertar não seja absolutamente previsível: Elena vê um corvo meio ameaçador, e, é claro, descobre no final que se tratava de Damon., o irmão mau. Há um baile de Halloween e qualquer um percebe que um antipático professor de história, com o qual Stefan teve um entrevero, e que está fazendo o papel de uma vítima sacrificial druida, será realmente morto –por Damon—e que herói levará a culpa; há até aquele momento em que, ainda não sabendo que Stefan a ama, e sentindo-se desprezada por ele, Elena vai a um lugar ermo com um boçal da escola e é quase surrada e estuprada e… é salva por Stefan.
Smith nos dá a era high school da temática vampiresca (não à toa, o criador da série televisiva é Kevin Williamson, de Dawson´s Creek, aquele seriado com jovens que pareciam velhos, jovens com corações,mentes e almas já senis). Enfim, é o mundo reduzido à visão adolescente. Só falta a aparição do Zach Efron e a trilha sonora do Jonas Brothers. Não há nada de errado em alguém se iniciar na leitura através dessa série de L.J. Smith. Mas qualquer pessoa com mais de 16 anos que se encantar com essa história levantará as mais sérias suspeitas…
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Serviço: Diários do Vampiro: O Despertar, de L.J. Smith (EUA, 1991) Tradução de Ryta Vinagre. Ed. Record, Selo Galera. 236 páginas. R$ 24,90.
(resenha publicada em 20 de outubro de 2009)
INTRODUÇÃO (18.10.09)
Na época da minha adolescência (estou falando aqui do final dos anos 70), após alguns anos de ostracismo, a figura do vampiro voltava: foi a época dos antípodas Drácula, de John Badham, e Nosferatu, de Werner Herzog. Este, um belo filme; aquele, uma breguice (embora fosse uma produção “A”, que resgatava Drácula das sub-produções da Hammer inglesa, o filme envelheceu bastante) que trazia Frank Langella posando de vampiro-galã, numa composição que parece hoje meio cômica ou, no mínimo, equívoca, apesar de que o objetivo, na época, era deixar explícito o conteúdo erótico das investidas do vampiro e que as donzelas mordíveis e mordidas no fundo ansiavam por aquilo. Já o vampiro de Herzog era mais na linha da figura patética, quase de dar pena, com sua aparência verdadeiramente de morto-vivo (uma genial encarnação de Klaus Kinski), que Murnau imprimira à tradição pós-Bram Stoker.
A partir daí, volta e meia surgem ondas vampirescas, algumas avassaladoras (como a série de Anne Rice, uma gay fantasy, que fez sucesso também em filme. Gosto muito do livro Entrevista com o Vampiro e o filme é bom, mas o resto da série me deixa impaciente; o Drácula de Coppola, que uniu com rara felicidade, o conteúdo erótico, o patético, e o aterrorizante, com ênfase nos três, o que o torna a mais ampla abordagem do tema; os vampiros de de John Carpenter), algumas nem deixando marola (como a série (primeiro no cinema e depois na tevê) Blade. Só não posso deixar de dizer que Anjos da Noite, que está nesse sub-patamar, pelo menos tem a mais bela das vampiras: Kate Beckinsale (que teve, aliás, uma overdose do gênero, pois participou também do péssimo Van Helsing).


Hoje novamente estamos em pleno vampirismo. Nos últimos anos, alguns seriados também abraçaram o tema: tivemos, entre outros, Blood Ties (exibido pelos canais AXN e Animax), com um vampiro-dândi, Henry Fitzroy, filho de Henrique VIII, vejam só, e que era companheiro de investigações sobrenaturais da detetive Vickie Nelson. Baseado em livros de Tanya Huff, o seriado tinha como atrativo a deliciosamente sedutora, fugindo de qualquer modismo de sensualidade, Christina Cox, uma das mulheres mais atraentes já vistas em qualquer série, capaz de ser gostosa utilizando comportado coque, cabelo preso e óculos. Tanto que quando vi um episódio pela primeira vez, não botando muita fé, não consegui desgrudar os olhos, não pela trama, pelos personagens (que até não são dos piores), mas pelo incrível magnetismo e pela presença de La Cox.

O ousado e afrontoso True Blood talvez seja o mais original, ou pelo menos, o mais alternativo entre as releituras do vampirismo no cenário atual. E tem o correspondente masculino de Christina Cox no sentido de explosão de sensualidade e talento: Ryan Kwanten, o desajustado irmão de Anna Paquin, a protagonista. Que diferença dos aguados Zach Efron e Robert Pattinson, que são bonitos, mas parecem virtuais, bonequinhos de bolo de noiva.


Destaque do blog: UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ


TRECHOS DA PRIMEIRA PARTE:
“– Imbecil! Não estou pedindo a você para me dizer o que é que ele era. Sei muito bem o que era, se é que você viu– O abade Arkos deu várias pancadas na mesa para acentuar o que dizia. — Quero saber se você, você!, tem absoluta certeza de que ele era apenas um homem comum!
Essas perguntas estavam confundfindo o irmão Francis. Para ele não havia uma nítida linha divisória entre a ordem natural e a sobrenatural, mas antes uma zona intermediária mais ou menos obscura…uma região confusa, o preternatural, onde coisas deitas de simples terra, ar, fogo ou água tinham uma tendência a se comportar estranhamente, como coisas que não eram deste mundo… Ele nunca tinha ´certeza absoluta´ de nada, como o abade queria que tivesse…”
“Emily tinha um dente de ouro. Emily tinha ujm dente de ouro. Emily tinha um dente de ouro. Era, na verdade, perfeitamente certo. Tratava-se de uma dessas trivialidades históricas que, de algum modo, conseguem ficar na memória dos vivos, em lugar dos fatos importantes que deveriam ser lembrados, mas que nunca foram registrados, obrigando algum historiador monástico do futuro a escrever: Nada do que contém a Memorabilia ou qualquer fonte arqueológica até agora descoberta revela o nome do chefe que ocupava o Palácio Branco durante a sexta década do século XX… E, no entanto, estava claramente registrado na Memorabilia que Emily tinha um dente de ouro…”
“A Simplificação cessara de obedecer a qualquer plano ou propósito logo depois de ter começado, e tornou-se um frenesi insano de assassinato e destruição das massas, como só ocorre quando já não há mais vestígio de ordem social. A loucura foi transmitida às crianças que tinham aprendido não só a esquecer, mas a odiar, e vagas de fúria reapareceram esporadicamente até na quarta geração após o Dilúvio. Então, não mais se destruíam os sábios, que já não existiam, mas os simples alfabetizados.”
ATRECHO DA SEGUNDA PARTE
“O abade inclinou-se: …Seja bem-vindo em nome de São Leibowitz, Mestre Taddeo. Bem vindo em nome de sua abadia, em nome de quarenta gerações que esperaram pela sua vinda. Esteja em casa. Aqui estamos para servi-lo. –Ass palavras eram sinceras, tinham sido reservadas por muitos anos para esse momento…
Por um momento seu olhar encotrou o do escolástico. Sentiu esfriar rapidamente seu ardor. Aqueles olhos de gelo –frios, investigadores e cor de cinza. Caóticos, famintos e orgulhosos. Sentia-se estudado por eles, como se fosse uma curiosidade sem vida.
Fervorosamente, Paulo rezara para que esse momento fosse como uma ponte sobre o abismo de doze séculos– e para que, através dele, o último cientista martirizado de uma era remota pudesse dar a mão ao porvir. Havia, na verdade, um abismo. Isso era claro. O abade sentiu de repente que não pertencia à era presente, que ficara encalhado num banco de areia ao longo do rio do Tempo, e que nunca houvera uma ponte.”
TRECHOS DA TERCEIRA PARTE (“Fiat voluntas tua”)
“Velha de séculos mas recentemente alargada, a estrada era a mesma que fora percorrida por exércitos pagãos, peregrinos, camponeses, carroças de burro, nômades, selvagens cavaleiros do leste, artilharia, tanques e caminhões de dez toneladas. Seu tráfego fora intenso, médio ou quase nulo, de acordo com a época ou a estação. Uma vez, há muito tempo, houvera seis pistas e tráfego de robôs. Depois, o movimento cessara, a pavimentação rachara, e uma relva rala chegara a aparecer depois de chuvas ocasionais, através das fendas. A poeira terminara por cobri-la. Os habitante do deserto picaram o concreto quebrado para construir choupanas e barricadas. A erosão a transformou em simples caminho através do deserto. Mas agora havia seis pintas e tráfego de robôs, como antigamente.”
“Fogo, o mais belo dos quatro elementos do mundo e, todavia, um elemento do Inferno. Ao mesmo tempo que ardia em adoração no centro do Templo, exterminara a vida de uma cidade, naquela mesma noite, e lançara o seu veneno sobre a Terra. Como é estranho que Deus tenha falado do interior de uma sarça ardente, e que o Homem tenha feito de um símbolo do Céu um símbolo do Inferno. Olhou outra vez as estrelas nevoentas da madrugada. Bem, não haveria Paraíso ali em cima, diziam. Entretanto, pra lá tinham ido homens que olhavam para estranhos sóis em ainda mais estranhos céus… em mundos de geladas tundras equatoriais e de escaldantes florestas árticas, suficientemente parecidas com a Terra para que, de algum modo, o Homem pudesse viver com o mesmo suor do seu rosto (…) Os homens quanto mais se aproximavam de um paraíso por eles mesmos construído, mais impacientes pareciam ficar com a sua obra e consigo próprios… Quando o mundo jazia na escuridão e na tristeza, era fácil crer na perfeição e desejá-la ansiosamente. Mas quando tornou-se brilhante com a inteligência e as riquezas,começou a pressentir a estreiteza do fundo da agulha e a exasperar-se, pois nada mais havia a esperar. E agora iam destruí-lo outra vez, este jardim do Paraíso, civilizado e sábio, iam outra vez dilacerá-lo, para que o Homem pudesse voltar a esperar no meio da escuridão angustiosa.”

Anotações de 16 de outubro
Quando eu passei a comprar livros sistematicamente, no começo dos anos 80, além das livrarias e dos sebos, havia o Círculo do Livro. Foi através dele que tive minha primeira experiência com UM CÃNTICO PARA LEIBOWITZ, de Walter M. Miller Jr (1923-1996). A capa da edição do Círculo é a imediatamente acima, breguinha de doer. A obra, porém, foi um impacto e um deslumbramento que se repetem agora que estou me ocupando dela devido ao cinqüentenário do seu lançamento em livro (a publicação original ocorreu num magazine de ficção científica, uns quatro anos antes, em forma de três novelas; creio que a última publicação no Brasil foi pela Melhoramentos, na mesma ótima tradução de Maria da Glória de Souza Reis, embora também com uma capa horrível).
UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ é tão bom quanto Fundação, de Isaac Asimov (com o qual tem pontos de contato, embora seja melhor escrito; não melhor romance ou realização ficcional, apenas melhor escrito; outro livro com o qual ele apresenta afinidades temáticas é O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse) ou Solaris, de Stanislaw Lem.
Apesar do título elegíaco e do próprio tema apocalíptico, o livro é extremamente bem-humorado: Miller se vale, de forma muito inspirada, do imaginário católico (e da terminologia católica) para nos apresentar um futuro pós-devastação pela guerra nuclear, no qualo Ordens monásticas procuram preservar os fragmentos da cultura e de conhecimento, pois as gerações que sobreviveram ao desastre optaram por uma drástica Simplificação, ou seja, a martirização de todos os sábios, intelectuais, eruditos e letrados que, de forma ativa ou não, colaboraramm para que a civilização chegasse àquele estágio. Quase todo o nosso arsenal cultural foi destruído, e só a pertinácia de alguns monges permitiu que sobrasse algum vestígio.
Esse é o quadro geral, e não é de forma alguma original com relação ao Zeitgeist, o espírito da época dos anos pós-Segunda Guerra (dominados pela Guerra Fria), uma vez que a ameaça nuclear penetrava fundo na indústria cultural e na cultura popular, e havia a paranóia da destruição global (hoje, ainda há essa paranóia só que adquiriu outros contornos).
Miller (que escreveu as três partes que compõem o livro mais ou menos quando tinha 32 anos) era católico, tinha sido da Força Aérea norte-americana na Segunda Grande Guerra e evoca-se bastante uma imagem que o impressionou fortemente: o bombardeio de um mosteiro beneditino em Monte Cassino.
A primeira parte, “Fiat Homo” (um latim meio estropiado, assim como aconteceu na Idade Média, é o meio de comunicação entre os personagens de várias ordens) mostra uma abadia em meio a uma das paisagens desérticas que surgiram a partir da destruição nuclear, seiscentos anos antes (essa parte terminará no ano 3174). O personagem principal é um noviço, irmão Francis (de Utah), que não sabe se tem a vocação monástica, contudo não há outro caminho intelectual. A abadia é dedicada ao Beato Leibowitz, o qual foi um dos principais mártires da época da Simplificação, e que ao perder contato com a esposa, fez-se religioso. A narrativa se inicia quando está ocorrendo o processo de canonização do Beato (o sobrenome judeu parece não causar espécie alguma nesse nada admirável mundo novo, embora para nós evoque o genocídio dos judeus durante a guerra, a qual, lembrem-se, ainda estava muito próxima na época da publicação original). Como toda a Memorabilia manuseada pelos monges (ou seja, textos, imagens, diagramas, etc), a vida desse santo homem é mal conhecida, a documentação é fragmentária e todos repetem e copiam os conhecimentos sem os entender muito bem. Cultuadores incuiltos, assim como somos da Grécia ou de pretensas civilizações mais antigas (Atlântida, por exemplo), o passa-tocha é mais importante que a compreensão. O que importa é a idéia civilizatória. É o caso de Roma: o Papa já não está mais na cidade original, destruída, ou em ruínas, tanto faz, mas em algum lugar que sempre está mudando, porém ainda é o centro religioso: a Nova Roma, onde quer que esteja. Os viajantes utilizam burros, ainda se come pão e queijo e se bebe vinho, mas os caminhos são perigosos porque um bando de monstrengos, seres mal formados, podem atacar, roubar e até devorar suas vítimas. As aves de rapina sobrevoam as paisagens, mais soberanas que o papa.
Pois bem, o irmão Francis está fazendo jejum no deserto durante a Quaresma e encontra um velho peregrino, uma espécie de Judeu Errante, nada simpático, ainda mais para alguém que vive a tortura da fome e da sede e que teme o ataque das aves de rapina e dos lobos e, para isso, tenta construir uma frágil toca para a noite. Só que falta uma pedra para rematar esse abrigo tosco e o velho peregrino é quem acaba indicando a mais adequada. Como está desconfiado dele, Francis não se aproxima muito e o velho coloca uns sinais para que ele a reconheça.
Ao remexer nessa pedra, após a partida do intruso, Francis descobre um antiquíssimo abrigo nuclear, com documentos e restos mortais (que podem pertencer à esposa do Beato Leibowitz; conseguir a data exata da morte dela seria uma ajuda inestimável ao seu processo de canonização, pois dúvidas pairam sobre se, ao tomar o hábito, ele continuava ou não casado, já que não a encontrara em meio ao desastre).
Ao levar uma caixa com achados para a abadia, inicia-se uma deliciosa comédia humana. O abade fica alarmado diante da celeridade com que a boataria e a imaginação romanesca aumentam o acontecido com Francis (há quem diga que ele esbarrou com o próprio Leibowitz), interroga Francis diversas vezes, em diálogos engraçadíssimos e memoráveis. Como o noviço estava em estado de jejum e por isso propenso aos delírios e às alucinações (mesmo que tenha realmente descoberto algo concreto, pois tem a caixa para provar), ele quer um desmentido cabal para encerrar o diz-que-diz. O sadio senso de realidade do noviço poderia ajudar, mas não ajuda (ele diz que pensa ser altamente improvável que tivesse encontrado o Beato Leibowitz, morto há tantos séculos, não diz que é impossível, o que faz toda a diferença do mundo). Como castigo, por sete anos ele é impedido de pertencer à Ordem, tornando-se um noviço veterano, ajudando na cozinha.
Quando Roma mostra interesse pelos documentos encontrados (inclusive, num detalhe muito divertido, pois Miller era engenheiro elétrico, há um diagrama de uma turbina elétrica que é um dos objetos de devoção e cópia, pois há uma indústria de cópias da Memorabilia do Beato Leibowitz e eles não têm a menor idéia da serventia daqueles artefatos ou conceitos, pois houve um total retrocesso tecnológico, e a narrativa parece antes ambientada no remoto passado do que no futuro por vir), o Abade se torna mais afável e condescendente com Francis e permite que ele tome o hábito, passando a trabalhar na seção de copistas e fazedores de iluminuras. Por quinze anos ele vai trabalhar numa iluminura que recria um diagrama elétrico que ele achou no abrigo nuclear e é ele quem vai levar o original e a cópia (muito mais bonita) para o Papa, durante um faustoso jubileu (como se vê, as cerimônias religiosas sobreviveram ao colapso da civilização, a Roma papal sobreviveu à Roma de César), no qual, entre outras comemorações, dar-se-á a tão aguardada canonização de Leibowitz.
Na jornada para Roma (que pelo visto agora fica no território dos antigos EUA), Francis, já bem mais velho, é assaltado: roubam-lhe a mula, vários objetos e ainda por cima a cópia na qual trabalhou por 15 anos, pois o ladrão acreditava que era o original. Só fica com ele a sagrada relíquia, que chega sã e salva até o Papa, o qual, após saber das aventuras e desventuras do monge leibowitziano, dá a ele um presente: as duas moedas de ouro que permitiriam pagar o resgate da iluminura (exigência do salteador). Assim, Francis fagueiramente retorna à abadia e leva uma flechada bem entre os olhos, caindo morto no mesmo local onde fora assaltado e sendo enterrado pelo velho peregrino que aparecera a ele quando noviço e que iniciara toda a sua trajetória.

A segunda parte, “Fiat Lux” (19/10/09)
A segunda parte de UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ se encerra em 3781, já vários séculos depois da descoberta do irmão Francis. O único personagem que se mantém da narrativa anterior é o estranho peregrino, responsável pela descoberta do abrigo nuclear e dos novos documentos para a Memorabilia. Será o mesmo? O abade Paulo se irrita porque todos o consideram o próprio Judeu Errante (e que está aguardando a vinda do Messias), vivendo há séculos.
Houve progresso e vemos cenas mundanas, na corte de Hannegan, governante que quer criar um Império, unificando todo o antigo território norte-americano e submetendo as tribos nômades. A Memorabilia ainda é guardada, copiada e estudada na erma abadia da Ordem de São Leibowitz, mas há também o Collegium, uma espécie incipiente de Universidade, em que sábios leigos procuram reavivar a ciência. O mais brilhante deles é Mestre Taddeo, um tanto quanto descrente da autenticidade e utilidade da Memorabilia, mas que é recebido na abadia para estudar os documentos… Recebido com desconfiança, mesmo porque vem escoltado por uma guarnição militar de Hannegan, com o propósito expresso de protegê-lo na travessia de regiões perigosas, mas com o propósito oculto de estudar a arquitetura do santuário, que o torna uma verdadeira fortaleza, de forma a que, numa guerra, ele sirva como fortificação militar, defendendo as fronteiras de um nascente império.
Boa parte da narrativa (tão brilhante quanto a primeira parte, e talvez mais colorida e diversificada) se funda nos debates entre os pontos de vista de Paulo e de Taddeos. Quando este chega, um dos monges (Irmão Kornhoer), que gosta de fazer experiências, acabou de aperfeiçoar um dínamo que permite a iluminação elétrica da sala dos copistas (não é à toa que essa parte chama-se “Fiat Lux”), e para que o dínamo funcione ali, retiram um grande crucifixo que ali estava há séculos (o simbolismo da cena fala por si). No final, quando as posições ideológicas se tornaram bem polarizadas, o abade ordena que recoloquem o crucifixo e, pasmem leitores modernos e esclarecidos, somos quase tentados a ficar do lado dele, mais simpático do que Taddeos. Mas Walter M. Miller Jr. aparentemente não toma partido, deixa que seus personagens exponham suas idéias e visões do mundo, e todos têm razão em parte, o que significa que nenhum ponto de vista é absoluto.
Taddeos descobre que a Memorabilia não era tão inútil assim e mesmo assim fica um pouco despeitado porque suas “descobertas” científicas e “criações” de conceito são, de fato, redescobertas tardias e recriações do já feito e já pensado em épocas mais evoluídas. E fica espantado como um simplório humilde como Kornhoer chegou a uma invenção sensacional, apenas pelo bom senso prático e pela intuição no uso dos antigos conhecimentos fragmentários e não pelo raciocínio, pela dedução e pela lógica.
As páginas finais dessa parte expõe um cenário de guerra, que também é evolução e mobilidade, após séculos de estagnação e paralisia. Porém, sobranceiras, no deserto e nas regiões ainda inóspitas, as aves de rapina sobrevoam e aguardam.
terceira parte, “FIAT VOLUNTAS TUA” (23.10.09)
“Nenhum mal no nundo, exceto o que é introduzido pelo Homem (…) O único mal no mundo, agora, é o fato de que o mundó já não é….”
Na terceira parte, confirmando a estrutura cíclica a que a visão de Miller se atém, nós vemos a civilização humana novamente atingir um novo auge tecnológico, as potências novamente se ameçarem mutuamente com armas nucleares e, enfim, a destruição do planeta. Mais uma vez, um abade da Ordem de Leibowitz (Zerchi) é o centro da trama. Ele instrui o irmão Joshua a se preparar para ser o líder espiritual de um grupo que embarcará numa nave, levando os tesouros espirituais da abadia para outra galáxia, para iniciar uma nova etapa da existência da humanidade (quando a nave parte: “Viram a face de Lúcifer,qual um horrível cogumelo sobre a nuvem tempestuosa, subindo vagarosamente como um titã erguendo-se depois de séculos de aprisionamente na Terra“), seguindo ordens da Nova Roma, quando se constata que o fim é iminente e inevitável.
Sempre surpreeendendo com suas soluções narrativas, Miller coloca o abade Zerchi em situações insólitas e contestatórias (ele chega a ser quase agredido por policiais quando tenta impedir uma vítima da radiação e sua filha sejam encaminhadas a um eufemístico “Campo de Misericórdia”, organiza piquetes, etc). No clímax da narrativa, quando realmente se dá o desastre nuclear final (pelo menos, neste ciclo da história), ele está ouvindo a confissão de uma mutante, a sra. Grales, que é bicéfala, e sempre está arengando porque sua outra cabeça, que ela chama Raquel, e da qual nunca ninguém viu o menor sinal de vida (a não ser o irmão Joshua) não é batizada.
O desastre acontece, o padre fica entalado num buraco, moribundo (“Quando voltou a si não havia senão pó. Estava preso no chão até a cintura… Começou a recolher as hóstias, desajeitadamente, com a mão que ficara livre. Cuidadosamente, foi apanhando cada uma do meio da areia. O vento ameaçava fazer voar, os pequenos flocos de Cristo…. Um fio de sangue, de vez em quando, entrava-lhe nos olhos. Enxugava-o com o braço para evitar manchar o Pão Sagrado com os dedos sujos. Esse não é o sangue certo, Senhor, é o meu e não o vosso….), vendo as aves de rapinas mais uma vez reaparecendo (…quando acordou já não estava só… Era um pássaro escuro e feio, mas não como aquela Outra Escuridão. Esse só lhe cobiçava o corpo: O jantar ainda não está pronto, irmão pássaro –disse, irritado.– Você vai ter de esperar. Não haveria mais muitos jantares, notou o abade, antes que o próprio pássaro se tornasse jantar para outro, pois tinhas as penas chamuscadas pelo clarão e um dos olhos, fechado. Estava encharcado com a chuva, e Zerchi imaginava que esta trouxesse consigo a morte”).
Aí sobrevem o ponto mais discutível do livro, pois a sra. Grales morreu e Raquel nasceu, é o ser que surge da destruição, a última visão do abade, na sua inocência e candura. Eu até compreendo a necessidade de Miller de inserir essa cena na sua saga religiosa, mas ela se abeira perigosamente do piegas (ela é quem batiza o padre moribundo, embora esteja aprendendo a falar, como ser recém-nascido): “A imagem daqueles olhos verdes e cheios de frscor ficou com ele até o fim. Não indagou por que Deus quisera fazer surgir uma criatura com a inocência primitiva (sic) do ombro da Sra. Grales, ou por que lhe dera os dons preternaturais do Paraíso, aqueles mesmos dons que o Homem tentara arrancar o Céu a viva força, desde que os perdera. Vira a inocência primitiva naqueles olhos e uma promessa de ressurreição. Um só vislumbre tinha sido uma magnanimidade e ele chorou de gratidão…”
21/10/2009
EM TORNO DE UM CORPO


DESPEDIDA EM SANGUE
Em 1958, a mãe de James Ellroy (que tinha dez anos à época), Gineva, foi estrangulada com uma meia de nylon, um assassinato nunca esclarecido. Vinte e nove anos depois, a obsessão do filho com o crime gerou Dália Negra, romance que explora ficcionalmente uma investigação-fetiche nos EUA e é dedicado à mãe do grande escritor norte-americano, uma “despedida em sangue”.
O mesmo crime deu origem (dez anos antes de Dália Negra) à outra excelente engrenagem ficcional que remontava aos anos 40: Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne, que faz tudo o que Agosto de Rubem Fonseca não fez pelos nossos anos 50. Dunne e sua esposa, e ainda melhor romancista, Joan Didion (cujo recente O ano do pensamento mágico é uma homenagem ao marido que acabara de morrer), adaptaram Confissões Verdadeiras para um ótimo filme de Ulu Grosbard, onde Robert de Niro e Robert Duvall estão magníficos como irmãos. E, como se sabe, Dália Negra foi adaptado por Brian de Palma, revelando-se uma desalentadora surpresa: não se sabe o que aconteceu, como o bolo desandou, porém o velho mestre realizou um trabalho que poderia ser assinado (ou assassinado) por qualquer um, burocrático e distante, a anos-luz de um Intocáveis ou, mais recentemente, de um Olho de Serpente, e principalmente das suas obras com um pé na paródia e na molecagem criativa, que pilha o terreno alheio e cria novos territórios, como Dublê de Corpo.


E por falar em corpo, o de Elizabeth Short é encontrado na rua 39 esquina com a Norton em janeiro de 47 e vira obsessão para os parceiros Lee Blanchard e Bucky Bleichert (narrador e protagonista), conhecidos como Mr. Fire (Fogo) e Mr. Ice (Gelo), pois como pugilistas adversários conseguiram uma verba importante para o departamento de polícia de Los Angeles; eles fazem parte (depois de maquinações fraudulentas de Lee, mr. Fire, pois ambos são da Divisão de Capturas, e esse é um dado importante no esquema geral) da imensa força-tarefa que investiga o crime. Completando o trio, há Kay, ex-prostituta “amigada” com o fogo (que não arde) e que se apaixona pelo gelo (e é correspondida, mas ele mantém sua lealdade ao parceiro até seu desaparecimento abrupto…).
Ao seguir sozinho uma pista em bares de lésbicas, Bleichert conhece Madeleine, com a qual a “dália negra” se assemelhava um pouco, e assim se envolve com sua bizarra e criminosa família, cuja fortuna remonta a negociatas nos tempos do cinema mudo, quando o conhecido letreiro, idealizado por Mack Sennet, ainda era Hollywoodland, (as últimas letras são retiradas durante o espaço de tempo da trama, 1946-1950). Além disso, há um “amigo” da família, desfigurado, o que evoca o romance de Victor Hugo, O Homem que Ri (que eu só conheço através da sua adaptação, com Jean Sorel. O enredo é fascinante).
Elizabeth Short, a dália negra, além de “substituta simbiótica” à mãe de Ellroy, é também uma concentração de ícones norte-americanos: o fetiche pelo cinema, que fazia (e faz) mocinhas inquietas se deslocarem do país inteiro para acabar muitas vezes como prostitutas, a idealização dos G.I. Joes, os que lutaram na 2ª. Guerra (e eram objeto de desejo por parte da morta); e também a mulher-anjo, “perdida no lodo”, ou a femme fatale, no qual os homens projetam suas fantasias, quaisquer que sejam. Não é à toa que seu fantasma persegue Bleichert ao ponto de ele pagar uma prostituta anônima para reencarná-la ou gostar de Madeleine pela semelhança, principalmente na hora da transa. Quando ele consuma sua relação com Kay, uma das formas que Madeleine utiliza para voltar a atraí-lo é sair para noitadas fantasiada de “dália negra”. Eu acho incrível que alguém com a obsessão de Brian de Palma por Hitchcock, demonstrada tantas vezes, não tenha aproveitado esse gancho para relembrar a obsessão de James Stewart em recriar a supostamente morta Kim Novak em Um corpo que cai, de forma tal que ele atormenta a “substituta simbiótica”, vestindo-a e penteando-a para que fique igual à falecida. Possivelmente faltou isso à Dália Negra, o filme: obsessão. Ele é apenas uma sessão de cinema, fácil de ver e esquecer. E é engraçado notar que um diretor que nunca se destacou por sequer uma mínima marca pessoal como Curtis Hanson conseguiu extrair a essência de Ellroy em Los Angeles- Cidade Proibida, como se tivesse visto ali a grande chance da sua vida.


O painel de Dália Negra enfatiza igualmente a canibalização do crime pela mídia, a qual praticamente comanda a investigação policial, com a opinião pública exacerbada pelo volume de exposição do caso, e o promotor (Ellis Loew, personagem também de Los Angeles, Cidade Proibida) tentando impedir que vazem notícias sobre a promiscuidade da vítima para não perder a simpatia do público (e futuros eleitores). O caso Isabela é a ilustração mais recente do fenômeno.
É pena que um escritor tão brilhante seja também tão prolixo. O livro é sensacional até a elucidação do paradeiro de Lee Blanchard, quando mr. Ice o procura no México; depois começa a ficar saturado e quase informe até chegar a um clímax um tanto exagerado e irreal, mesmo amarrando todas as pontas (o que a certa altura parecia quase impossível). A “despedida em sangue” talvez tenha viciado por demais Ellroy: em sua obsessão ele extrapolou ao soltar todos os esqueletos do armário.


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“No meio da grande ruína”: Alain Robbe-Grillet (1922-2008)



“… escrevemos doravante, alegres, sobre ruína…f ragmentos esparsos, colunas rompidas, sistemas falidos, cacos de linguagem…” (Alain Robbe-Grillet)
Alain Robbe-Grillet foi vítima da letal mania de reduzir uma pessoa a um repisado rótulo. “Um dos principais representantes do noveau roman”! Embora tenha escrito um ensaio polêmico, Por um novo romance (1963), e feito parte de um grupo de escritores da editora Minuit que se celebrizou com seus experimentos na renovação do gênero (repudiando o psicologismo que teria chegado ao limite com Marcel Proust, e também aquele estilo lapidar e cinzelado, consagrado por André Gide), o fato é que ter sido “um dos principais representantes do noveau roman” pouco tem a nos dizer. Há todo um fascínio próprio da época (uma das mais contestatórias de que se tem notícia), entretanto é provável que Robbe-Grillet, como outros autores em cuja permanência aposto (é o caso dos geniais Marguerite Duras e Claude Simon, e como esquecer dos dois belos romances de Michel Butor, L´emploi du temps- Inventário do tempo e A modificação, ou de A encenação, de Claude Ollier, ou ainda da misteriosa Nathalie Sarraute ?), fique melhor apartado do rótulo “consagrador”, que só incita mal entendidos ou simplesmente má vontade.
A princípio, fiquei fascinado com o Robbe-Grillet que escreveu o texto de O ano passado em Marienbad (1961), uma das obras-primas de Alain Resnais (talvez o cineasta mais apaixonante do cinema europeu, tirando Bergman), bem mais do que com o autor de La jalousie- O ciúme (1957) e La maison de rendez-vous-Encontro em Hong Kong (1965), embora tivesse achado esses dois romances extremamente bem engendrados:
“O parque desse hotel era uma espécie de jardim à francesa, sem árvores, sem flores, sem nenhuma vegetação… O cascalho, a pedra, o mármore, a linha reta, marcavam nele espaços rígidos, superfícies sem mistério. Parecia, à primeira vista, impossível alguém se perder nele… à primeira vista… ao longo das alamedas retilíneas, entre as estátuas de gestos estáticos e as lajes de granito, onde você já estava quase perdida, para sempre, na noite tranqüila, sozinho comigo.”


No universo francês cartesiano, tão certinho e límpido, de repente era possível perder-se. Aliás, na obra de Robbe-Grillet (que, seja dita a verdade, conheço relativamente pouco, apenas cinco livros), sempre houve um gosto pelo trompe-l´oeil (aquele tipo de pintura que procura, a um só tempo nos convencer de que é real, e fazer saber que não passa de um efeito ilusório), como a quinta Triste-le-Roy, palco do clímax de A morte e a bússola, de Jorge Luis Borges:
“Lönrot explorou a casa. Por antesalas e galerias saiu a pátios iguais e repetidas vezes ao mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente multiplicou-se em espelhos opostos; cansou-se de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, fora, o mesmo jardim desolado de várias alturas e vários ângulos… a casa lhe pareceu infinita e crescente…”[1]
Os dois únicos textos do autor francês que, salvo engano, foram publicados no Brasil na última década, Os últimos dias de Corinto (Sulina) e A retomada (Record), reafirmam esse aspecto de forma insistente. São excêntricos e brilhantes, apesar da irritante auto-referencialidade que parece ser um mal francês já que a obra de Marguerite Duras é toda assim também.


A retomada é o livro de virada do milênio de Robbe-Grillet. Apareceu em 2001 e representa, tal como Atonement- Reparação, de Ian McEwan (publicado na mesma época), um elogio da ficção, essa “loucura fabulatória ativa”. O título nacional é muito mal escolhido, aclimata muito mal o La reprise original, com seu sentido de reapresentação de espetáculo, de “vale a pena ver de novo”:
“Henri Robin tem agora, em todo caso, uma certeza: está de volta ao seu quarto de hotel, e foi lá que passou o final de uma noite agitada. Entretanto, embora tenha consciência de haver regressado muito tarde, não lembra de ter pedido para ser acordado a nenhuma hora… Aliás, pode-se dizer que a noção de tempo, exata ou mesmo aproximada, perdeu toda importância para ele, talvez porque sua missão especial tenha sido suspensa, ou então depois de ter submergido na contemplação do quadro de guerra pendurado naquele quarto infantil… De fato, a partir da espécie de deriva mental causada por aquela abertura duplamente cega, murada com um trompe-l´oeil, pleno de uma significação ausente, os acontecimentos dessa noite lhe produzem uma desagradável impressão de incoerência, ao mesmo tempo causal e cronológica, uma sucessão de episódios que parecem não ter outros laços senão os da contigüidade (o que não permite dar a eles uma posição definitiva)…”
Hoje que escrevo esse artigo-preito lamento (e olha que eu o possuo há vinte anos) não ter lido Les gommes- Entre dois tiros, seu primeiro romance publicado, em 1953, porque A retomada parece ser a “reprise” da trama daquele livro, inclusive repetindo sua estrutura (prólogo, cinco capítulos correspondentes a cinco dias, epílogo) e sua trama edipiana. Portanto, há toda uma dimensão que eu perdi, ainda que isso não impeça a fruição de uma ótima narrativa a se desfiar, se destecer, se esboroar, progressivamente. Ao fim e ao cabo (exatamente de quê?), Henri Robin, que já lançara mão de vários nomes, adota a identidade e condição social do seu duplo? irmão?, o qual tentara matá-lo, por achar que os dois eram demais para a mesma história, e cujas notas à sua própria narrativa tentavam destruir sua credibilidade já precária.
A certa altura, dois policiais da dividida Berlim pós-guerra (e no início de um milênio, onde há ainda uma parte toda fracionada e ocupada da Europa, é muito pertinente esse fantasma de uma situação que definiu boa parte do século XX para a consciência ocidental), confrontam Robin com objetos encontrados na revista feita (sem que ele soubesse) em seu quarto de hotel: um sapato feminino de festa com a gáspea de escamas azuis cujo forro em couro de cabrito branco estava manchado de sangue; uma pistola automática Beretta nove mm; quatro cápsulas disparadas; uma bonequinha nua de celulóide cor de carne; uma calcinha de cetim com babados de renda, igualmente manchada de sangue; um frasquinho de vidro branco contendo um resto de líquido; um fragmento de uma taça de champanhe cuja ponta aguda apresentava marcas de sangue. Robin, então, pondera a respeito do frasquinho de vidro: “Este, na verdade, é o único elemento no heteróclito conteúdo da maleta que não me recorda nada”. Porque todos os outros aparecem e reaparecem, saindo do baralho de forma protéica, fazendo parte de situações diferentes que se anulam, se contradizem, ou se complementam de maneira a sempre deixar arestas: “Como era de se esperar, após o longo percurso naquele túnel profundo semi-alagado, estou agora na outra margem do canal sem saída, em frente à suntuosa mansão de múltiplas armadilhas, loja de bonecas, ninho de agentes duplos, comércio de carne fresca, prisão, clínica…” Mais adiante: “Eu me preparava para responder com franqueza, hesitando porém quanto ao que tinha direito de revelar à polícia berlinense sobre a suposta missão, cada vez mais obscura, da qual progressivamente eu me tornava a vítima.”
Tênue trama (claro que pode ser trompe-l`oeil) amarra essa sucessão obscura de episódios mirabolantes: dois irmãos separados pela guerra e pela fuga da mãe da Alemanha (por ser judia, e não ter o apoio do marido, oficial em ascensão na Gestapo), se odeiam entre si e ao pai, a quem ambos assassinam (essa é a suposta missão de Henri Robin, ele chega a acreditar que a executou, mas quem a executa é o irmão); há ainda uma madrasta sedutora para apimentar a quizila e, comprovando sua “vocação de romancista perverso” (como nos diz em Os últimos dias de Corinto), uma ninfeta, Gigi; aos 14 anos amante de ambos, apesar de ser possivelmente filha do “duplo” de Robin, ou Ascher, homem das cinzas e das sombras.
O próprio artífice não se furta de aparecer para reiterar o caráter de ilusão fabricada:
“À esquerda e à direita deste vasto escritório de carvalho, cuja pomposa ornamentação napoleônica já descrevi em outros textos, cada vez mais invadido por todos os lados pelas insidiosas pilhas de papelório existencial que se acumula em estratos, ficam agora fechadas o dia inteiro as três janelas que dão para o parque, ao sul, ao norte e a oeste, a fim de não me dar conta do descalabro em que vivo após o furacão que devastou a Normandia logo depois do natal, marcando de maneira certamente inesquecível o final do século e a mítica passagem para o ano dois mil. A bela harmonia de folhagens, vales e relvados cede lugar a um pesadelo de que não se pode escapar, perto do qual parecem ridículos os estragos homéricos do tornado de 1987, já relatado por mim… Muitas vezes falei da alegre energia criadora que o homem precisa desenvolver para transformar em construções novas o mundo em ruínas. E eis que volto a este manuscrito após um ano poucos dias depois da destruição de uma parte considerável da minha vida, encontrando-me então em Berlim, após outro cataclismo, mais uma vez com outro nome, outros nomes, cumprindo um ofício de encomenda munido de diversos passaportes e de uma missão enigmática, sempre prestes a se dissolver, continuando porém a me debater com obstinação em meio a duplicações, aparições intangíveis e imagens recorrentes em espelhos que retornam.”
“Já relatado por mim”. É verdade, ele o relatou (“…o parque de Mesnil foi devastado por um furacão nunca visto, conforme a memória humana, em toda a Normandia e a Bretanha, desfiguradas desta vez em poucas horas”) em Os últimos dias de Corinto, o final de uma trilogia iniciada com O espelho que retorna e continuada por Angélique ou O encantamento, uma forma de autobiografia invadida pela ficção, e também pela memória (“consciente de sua própria impossibilidade constitutiva”) do próprio fazer literário, isto é, da fabricação dessa ficção. Temos mais um estrangeiro viajante e pedófilo, Henri de Corinto, mais meninas quase impúberes, e novamente um sapato de baile feminino aparecendo por toda parte (até na costa uruguaia; o Brasil também é cenário), mais duplos, mais bonecas que parecem vivas (ninfetas e bonecas…):
“… um relâmpago da memória, inapreensível, e talvez imaginário, Corinto tem a impressão muito viva de já ter visto em outro lugar esses sapatos de baile…” etc
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Já ao iniciar-se (“A carne das frases sempre ocupou, sem dúvida, um grande espaço no meu trabalho”), brinca-se com a produção anterior do autor, parodiando o célebre início de La maison de rendez-vous, “A carne das mulheres sempre ocupou lugar de relevo em meus sonhos”. E o livro todo vai nessa toada. É claro que eu não consegui “pegar” todas as referências, já que, como disse, conheço só algumas poucas obras. Porém, eu me diverti muito. E saí da leitura convicto de que, qualquer que seja o seu destino literário, o autor de Os últimos dias de Corinto não merece ser somente “um dos principais representantes do noveau roman”.
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[1] “Lönrot exploró la casa. Por antecomedores y galerías salió a patios iguales y repetidas veces al mismo patio. Subió por escaleras polvorientas e antecámaras circulares; infinitamente se multiplicó en espejos opuestos; se cansó de abrir o entreabrir ventanas que le revelaban, afuera, el mismo desolado jardín desde varias alturas y varios ángulos… la casa le pareció infinita y creciente…”
FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?


21 de outubro de 2009
A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.
10 de agosto de 2009
Não sou fumante e no entanto considero autoritária, quase fascista, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que, curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha.


UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO
O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.
Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.
No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.
O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):
“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.
(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 14 de novembro de 1995)
16/10/2009
O INCOMENSURÁVEL


O Fausto quinhentista, o qual se lamentava por ser apenas “ainda um homem”, era tentado a pactuar com o Diabo para obter poderes mágicos: “Oh, dai-me algumas provas de magia/Que eu possa conjurar num bosque espesso/E plena posse tenha de tais bens”, podemos ler na História Trágica do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe. 240 anos depois, no ápice da lenda em sua feição literária, no quinto ato da Segunda Parte do Fausto de Goethe, o herói, pouco antes da sua conversa com a Apreensão (Sorge), num solilóquio que marca o começo do fim do seu pacto, diz: “Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria/Desaprender os termos de magia/ Só homem ver-me, homem só, perante a Criação/ Ser homem valeria a pena, então. // Era-o antes que as trevas explorasse/ Blasfemo, o mundo e o próprio ser amaldiçoasse/ Hoje o ar está de espíritos tão cheio/ Que não há como opor-se a seu enleio”. Um longo percurso. Da lenda e da sua elaboração literária. Da peça de Goethe, que ele começou a elaborar na juventude e concluiu no ano da sua morte, já octogenário (a primeira parte apareceu na íntegra em 1808). Da tradução de Jenny Klabin Segall, que (numa sincronia apreciável com o lançamento da obra de Marlowe pela Hedra) reaparece agora em grande estilo, numa cuidadíssima edição bilíngüe de mil páginas, trabalho que lhe consumiu décadas, sendo terminado também só no seu derradeiro ano de vida e publicado (como o original alemão) postumamente. E é um longo, longo percurso que se exige do leitor. Se ele conhece apenas a Primeira Parte pode esquecê-la, a Segunda pouco tem a ver com ela. Trata-se de uma daquelas obras exuberantes e idiossincráticas, cuja leitura representa um desafio cognitivo até para admiradores, como é o caso também da Tentação de Santo Antão, de Flaubert, ou do Finnegans Wake, de Joyce (e, para citar um exemplo da fusão música e texto, da Flauta Mágica, de Mozart, com seu simbolismo igualmente extravagante). Um efeito perseguido, uma vez que Goethe afirmou ao seu fiel Eckermann, pouco antes de conclui-la: “Estou persuadido de que quanto mais incomensurável e difícil de ser compreendida é uma obra, tanto melhor ela é”! Incomensurável. Nenhuma palavra caracterizaria mais precisamente o desenvolvimento da história para além do pacto (na verdade, uma aposta entre o Diabo e o Criador, na visão goethiana). Saímos da sedução que envolve e destrói Gretchen e que representa o fulcro dramático da Primeira Parte, e vemos Fausto no “grand monde”, dotado de poderes incríveis, sempre acompanhado por Mefistófeles, embora cercado de uma atmosfera de charlatanismo. No primeiro ato, eles aparecem como cortesãos do Imperador, num ritmo de mascarada. Fausto é capaz de ir aos confins do universo para satisfazer o soberano, fazendo com que retornem ao nosso plano, como espetáculo para a Corte, os espíritos de Páris e Helena, e apaixonando-se por esta. Temos dois atos em que entidades greco-romanas se misturam à cultura judaico-cristã, e sejamos francos: já era árdua essa parte quando a li numa tradução mais prosaica de Flávio M. Quintiliano; em versos, torna-se quase uma travessia do Liso do Sussuarão (o lugar mortífero de Grande Sertão: Veredas). Não desista, leitor, há vários momentos belíssimos nesse festim peculiar e exasperante do velho Goethe. Contudo, apenas nos dois atos finais é que retornamos à Corte e ao cerne da tragédia, a luta de Deus e o Diabo pela alma do pactário.
Fausto- Segunda Parte, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Tradução de Jenny Klabin Segall (1899-1967). Edição bilíngüe organizada por Marcus Vinícius Mazzari. Editora 34. 1085 páginas.
