MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE DOIS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de outubro de 2018) 

Continuo meu comentário sobre “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ, de Lima Barreto. Foi o primeiro romance levado a cabo pelo grande escritor carioca (por isso se nota a “angústia da influência” com relação a Machado de Assis e seu Conselheiro Aires). 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

A atitude filosófica de Gonzaga de Sá lembra, é claro, mas só superficialmente, a do Conselheiro Aires criado por Machado de Assis para filtrar de modo ainda mais sutil seu humor e pessimismo corrosivos.  

Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado como o narrador de outro grande romance de Barreto (foi o próximo a ser completado), “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (publicado em 1909): “Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado. Por que mas deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! Se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria, uma por uma, as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise”. 

Nesse entrançar de mocidade e velhice, revolta e sabedoria, amizade e solidão, espírito amplo e amargura, o Rio de Janeiro avulta. O livro é uma das mais cabais demonstrações da “poesia das cidades” instaurada por Baudelaire, sendo, como é, um passeio pela cidade, centro, praias e subúrbios, passado e presente. É por isso que seu ponto alto é a extraordinária sequência de capítulos em que Machado acompanha Gonzaga de Sá para velar e enterrar um compadre que morava no subúrbio. É ali que, na atmosfera carregada do velório, Machado despertará para o desejo sexual representado por Alcmena, vizinha do compadre falecido: “No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso, glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, diante da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica.”.

Anúncios

16/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de outubro de 2018) 

Em 1919 foi publicado (por Monteiro Lobato) o derradeiro livro de Lima Barreto, “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”. Na verdade, foi o primeiro que ele escreveu. 

Nele, o narrador, Augusto Machado, conta como conheceu o personagem-título, também funcionário público (só que bem mais velho) por causa de uma ridícula questiúncula envolvendo o número de salvas de canhão devidas a um bispo em visita a uma cidade. 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

Veja-se o que Machado nos conta no capítulo “O passeador”: “O que me maravilhava em Gonzaga de Sá era o abuso que fazia da faculdade de locomoção. Encontrava-o por toda parte… Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre e fumando voluptuosamente, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala. Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos que pelo correr do dia, lembrava-se: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias… Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas coisas mortas sugeriram durante aquelas épocas da sua vida”. 

O leitor de “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ” vai notando que, conforme o livro vai se desenvolvendo, Gonzaga de Sá parece o passeador e mais ele e Machado representam, no fundo, uma só pessoa: Machado, a mocidade; Gonzaga, a maturidade (uma maturidade, uma atitude sábia, um tanto problemáticas). Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado (continua na próxima semana). 

25/11/2012

O FALSO CONSELHEIRO AIRES: “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá”

A Ática incluiu na sua série de clássicos da língua portuguesa Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, uma das melhores obras de Lima Barreto, mas que está bem longe de ser conhecida como Triste Fim de Policarpo Quaresma ou, nos últimos anos, Clara dos Anjos. Foi o primeiro romance levado a cabo pelo grande escritor carioca (por isso se nota a “angústia da influência” com relação a Machado de Assis e seu Conselheiro Aires), porém o último a ser publicado em vida (por iniciativa de Monteiro Lobato, em 1919, só que não parece ter sofrido nenhuma demão muito significativa).

Nele, o narrador, Augusto Machado, conta como conheceu o personagem-título, também funcionário público (só que bem mais velho) por causa de uma ridícula questiúncula envolvendo o número de salvas de canhão devidas a um bispo em visita a uma c cidade.

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República.

Veja-se o que Machado nos conta no capítulo “O passeador”: “O que me maravilhava em Gonzaga de Sá era o abuso que fazia da faculdade de locomoção. Encontrava-o por toda parte… Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre e fumando voluptuosamente, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala. Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos que pelo correr do dia, lembrava-se: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias… Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas coisas mortas sugeriram durante aquelas épocas da sua vida”.

A atitude filosófica de Gonzaga de Sá lembra, é claro, mas só superficialmente, a do Conselheiro Aires criado por Machado de Assis para filtrar de modo ainda mais sutil seu humor e pessimismo corrosivos. O leitor de Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá vai notando que, conforme o livro vai se desenvolvendo, menos Aires parece o passeador e mais ele e Machado representam, no fundo, uma só pessoa: Machado, a mocidade; Gonzaga, a maturidade (uma maturidade, uma atitude sábia, um tanto problemáticas). Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado como o narrador de outro grande romance de Barreto (foi o próximo a ser completado), Recordações do escrivão Isaías Caminha (publicado em 1909): “Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado. Por que mas deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! Se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria, uma por uma, as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise. Então, encher-me-ia de respeito por tudo e por todos, só sabendo que devia viver, de qualquer modo”.

Nesse entrançar de mocidade e velhice, revolta e sabedoria, amizade e solidão, espírito amplo e amargura, o Rio de Janeiro avulta. O livro é uma das mais cabais demonstrações da “poesia das cidades” instaurada por Baudelaire, sendo, como é, um passeio pela cidade, centro, praias e subúrbios, passado e presente. É por isso que seu ponto alto é a extraordinária seqüência de capítulos em que Machado acompanha Gonzaga de Sá para velar e enterrar um compadre que morava no subúrbio. É ali que, na atmosfera carregada do velório, Machado despertará para o desejo sexual representado por Alcmena, vizinha do compadre falecido, rebelando-se contra o fato de estar atrelado a uma cerimônia de morte, quando deseja tanto viver, sentir-se vivo, antecipando um pouco o “estrangeiro” de Camus: “No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso,glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, diante da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica.”

É um dos maiores momentos da nossa literatura, que compensa até a frouxidão (justificável, num texto escrito aos 20 e poucos anos, e hesitando entre dois caminhos conflitantes: um deles, faria dele um êmulo talentoso de Machado; o outro, o que ele seguiu gloriosamente) da estrutura narrativa e o excesso de discursos na fala dos personagens (como se estivessem fazendo preleções e não conversando).

75 anos após a sua morte (em primeiro de novembro de 1922), Lima Barreto continua muito vivo, mais do que muitos autores do Modernismo.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de outubro de 1997, ano dos 75 anos da Semana de Arte Moderna)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/a-traicao-ao-anonimato-papeleiro/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/08/genio-da-raca-lima-barreto/

https://armonte.wordpress.com/2014/01/23/os-caminhos-de-isaias-caminha-ou-tres-voltas-sobre-o-mesmo-parafuso/

Blog no WordPress.com.