MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/05/2018

O LIVRO DAS SINGULARIDADES

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de maio de 2018)

“Aconteceu de forma tão lenta que nós não percebemos de imediato, nem eu, nem ela. Quando vimos havia esse passa intransponível entre nós. E foi justamente quando notamos que ele media o tamanho exato de um passo humano normal, 37 cm, que entendemos que além de tudo ele era intransponível. É, absolutamente intransponível. Toda vez que um de nós dois tentava se aproximar do outro, a fim de entrelaçar os nossos pés, como fazíamos antigamente, ou então tentando colar nariz com nariz, dar-nos um simples beijo, éramos interceptados por esse passo habitando o espaço entre nós dois” (trecho de “Passo entre nós”).

Na física quântica, uma singularidade é a concentração de energia e massa num ponto do universo, sugando tudo ao seu redor.

O conto de “TODO MUNDO QUER VER O MORTO”, de Natália Zuccala, em sua maioria, têm esse efeito de singularidade. Tem uma menina que se descasca o tempo todo e só se alivia na água salgada (uma possível sereia?), temos outra personagem que se desgruda do chão, outra que sente maresia e bichos marinhos em plena São Paulo, outra que descobre os perigos das esquinas…

Mas ela também é singular em textos mais “tradicionais”, como no extraordinário “Sperare”, onde as ausências da mãe pontuam o desenvolvimento da narradora como mulher: “Levantava eu então sabendo que a sua ausência seria a primeira existência com a qual me encontraria. Iniciava a senda diária na tarefa de esperar bem. Nada além disso, todo dia, aprendendo a espera-la bem”.

O estilo de Natália Zuccala é reiterativo e suas frases ficam martelando nas nossas cabeças: “Da primeira vez que eu andei de metrô em São Paulo… não, na verdade não foi exatamente da primeira vez. Na verdade não muita coisa acontece na primeira vez, eu sei disso agora que já não sou mais criança, não muita coisa acontece da primeira vez de nada, nem de ninguém. As pessoas dizem ‘da primeira vez’ por dois motivos: um – as pessoas não tem uma memória muito boa (eu tenho); dois – as pessoas acham bonito que as coisas aconteça, assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam na primeira vez você sempre fica meio perdido e não muita coisa acontece”.

Contrariando a autora, é incrível a primeira vez em que a lemos.

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08/05/2018

QUARENTA ANOS SEM OSMAN LINS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de maio de 2018)

Há 40 anos perdíamos um de nossos maiores escritores, Osman Lins. Morte precoce, mas pouco antes ele publicara sua obra-prima, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”.

Num país bloqueado (estamos nos anos “barra pesada” da ditadura militar), o narrador refugia-se num diário no qual procura analisar o romance inédito “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”, deixado pela sua falecida amante, Julia Enone, a respeito de uma “irmã em destino” da Macabéa de “A hora da Estrela” (1977), de Clarice Lispector, também nordestina e miserável, chamada Maria de França, a qual passa anos da sua vida pleiteando um benefício do antigo INPS, em vão, não conseguindo romper a temível malha burocrática, mesmo porque não tem instrução ou equilíbrio psicológico (passa por períodos de loucura e internação): “Fazem-lhe, ainda na Riachuelo, nova sugestão: recorrer à Assistência Judiciária, antes obtendo atestado de pobreza. Ela ouve o conselho, desce as escadas, as escadas sujas, repetindo-o. Ao chegar embaixo, já se esqueceu de tudo. ”

Tanto quanto o jogo metalinguístico fascinante, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” impressiona por sua dimensão política, apesar da sombria constatação do seu protagonista: “Assim, coincide melhor com as linhas gerais do romance outra visão –mais chã—do isolamento do escritor, não voltada para ele, e sim para a sociedade, que o recusa. ”

Inseto cavando sem alarme, perfurando a terra, escavando na obra de Julia Enone, sua orquídea antieuclidiana para desatar o labirinto (mito arquitetônico que foi um dos vários legados da civilização grega), o narrador comenta e transcreve notícias de jornal, nunca se referindo diretamente ao regime militar. Nenhuma obra dos anos 70, entretanto, captou tão poderosamente o clima opressivo da época e a degradação da informação enquanto valor na nossa sociedade, pois a maioria dos ficcionistas optou pela simplificação do “romance-reportagem” (“Infância dos Mortos”, “O crime antes da Festa”, “Lúcio Flávio”, “Acusado de Homicídio”, alguém lembra desses títulos?), onde, na tentativa de driblar a censura e oferecer um “retrato” da realidade nacional, o supostamente factual e referencial sufocava a narração e acabava-se reconfortando o leitor, mais do que o levando a uma atitude crítica, ao perseguir uma impressão de veracidade absoluta.

Flora Süssekind radiografou muito bem essa perspectiva naturalista e redutora no seu memorável estudo “Tal Brasil, qual romance? ” Ora, ao eleger a distorção dos fatos, até do espaço narrativo (Julia Enone funde Recife e Olinda como se fossem uma cidade só), o narrador de “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” dinamita essa mentira referencial, do que é “baseado na vida real”, e firma com o leitor um pacto ficcional, em que se finge a dor que deveras se sente. Ao descascar camadas e camadas de artifícios narrativos, ele nos transmite muito mais realidade (transbordante, simbólica, delirante que seja) do que qualquer medíocre relato de casos da época. É o triunfo do romance, mundo imerso no mundo, e, em última instância, da verdadeira literatura, sobre a reportagem que se disfarça (mal) de ficção.

01/05/2018

O UNIVERSO DE LEONARDO SCIASCIA: A SÍCILIA OU O BRASIL DE HOJE?

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 13:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de maio de 2018)

Em “A cada um o seu”, o fabuloso Leonardo Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático “O DIA DA CORUJA”: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe, é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”.

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõem uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator).

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas, entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

Bellodi pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de “A trama”, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em “A Cada Um o Seu”, o qual, ao contrário dos outros, nem faz ideia de onde está se metendo.

“O DIA DA CORUJA” é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas”, estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria… O médico ordenou que voltassem às dependências comuns… Nem os agentes nem o diretor deram sequência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prisão… os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios… Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”.

24/04/2018

TODO LÉU É UM MUNDO: SEGUNDA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de abril de 2018)

Na semana passada, iniciei um comentário sobre “CONVERSA DE JARDIM”, afirmando que “Vasto mundo” era o nó central do livro, pois Maria Valéria Rezende fazia uma segunda versão à época das conversas com Roberto Menezes.

A primeira versão foi considerada uma coletânea de contos, a nova provaria que se tratava de um romance, desfazendo o equívoco. Este assunto suscita contradições interessantes: fiquei chateado porque Maria Valéria desdenhou autores que planejam de antemão seus livros (assim fazia o grande Autran Dourado, o qual até escreveu uma obra detalhando os seus processos de criação: “Matéria de carpintaria”), e afinal lá estava ela com questões de planejamento e carpintaria.

No capítulo “V – Sucatas e quebra-cabeças”, lemos: “’O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Acho que os livros saem de um imenso depósito que tem na cabeça, um depósito de peças de vários puzzles de um quebra-cabeça bem peculiar, essas peças todas misturas que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora do mundo, que vem de dentro de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu’, Um grande quebra-cabeça, uma sucata, que dá no mesmo, uma sucata que a gente vai jogando lá o que a gente encontra na beira da estrada, com você falou, o tempo todo catando, e jogando lá, catando e jogando lá, e é uma sucata diferente, aqui os pedaços não preservam sua solidez, eles interagem, se interferem, numa transmutação à revelia da gente”.

Há uma confissão comovente de Roberto Menezes no capítulo “XVII – Qualquer mundo ao léu”: “Valéria, invejo a tua vasta experiência de vida, e dentro dessa tua experiência, a bagagem que você tem em literatura é admirável, você leu tudo o que quis, teve incontáveis escritores na família, estudou em boas escolas, pôde conhecer o mundo de perto, aí, até sem querer, fico aqui comparando tudo isso coma vida que tive, minha família era bem pobre, eu, meus irmãos, a gente estudava em escola estadual que quando podiam, meu pai, vendedor ambulante, nem quarta série estudou, minha mãe parou na segunda série, pois, bem distante da minha realidade, na infância a minha relação com os livros era de caça ao tesouro, livro pra mim era coisa rara, acredite se quiser, quando eu tinha uns oito, nove anos, eu torcia pra chegar aos sábados, nos sábados vinhas as testemunhas de Jeová, nem precisava bater, eu já tava lá esperando, a nova edição da revista A Sentinela”.

Parabéns às testemunhas de Jeová, nos deram um físico teórico e um grande escritor. Como já disse, um fabricador de frases de tirar o fôlego.

17/04/2018

QUALQUER LÉU É UM MUNDO: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de abril de 2018)

Confesso que sou imodesto, pois vou comentar um livro que me é dedicado e no qual sou citado várias vezes. Trata-se de “CONVERSA DE JARDIM”, todo mundo sabe que Maria Valéria Rezende é uma das nossas maiores escritoras, mas talvez não saibam que a casa onde mora, em João Pessoa, tem um maravilhoso jardim (eu sei, pois estive lá em diversas ocasiões) e ali manteve entre 2015 e 2017 conversas com Roberto Menezes, físico teórico “fabricador de frases de tirar o fôlego” (como diz Maria, narradora do seu admirável “Palavras que devoram lágrimas”, editado pela Patuá).

Roberto organizou o livro de forma inteligente, não linear, com capítulos curtos celebrando o ato de escrever. Temos: “Disciplina sem rotina longe da ritalina”, “Sucatas e quebra-cabeças”, “A voz do chão”, “Regras próprias”, “Cemitério de planos cemitério de memórias”, “Vasto mundo” (que é a meada principal para a qual a conversa sempre volta), “Da mente pro papel”, “Escrita no gen”, “Qualquer mundo ao léu”, “Além do solipsismos”, “Apanhando o mundo com a mão”, “Da memória e seus ardis” e “Até já”, são alguns dos leitmotivs que conduzem fecundos diálogos desses dois geniais tagarelas (e quem conhece Maria Valéria sabe que ela é uma incansável Xerazade): “Tem um amigo que diz que sou uma escritora materialista. Nunca faço longas digressões sobre a subjetividade. Na verdade, o sentimento, o que pensam os meus personagens, passa através das ações, do movimento, das descrições das coisas. Ultimamente tenho usado sempre um narrador na primeira pessoa, uma narradora, aliás. É em primeira pessoa, mas não é por ser em primeira pessoa que vou cair na falácia de ficar dissecando os seus sentimentos, nem os meus, como já disse. Faço com que ela, do seu jeito, fale do mundo que está fora dela. E quando ela imprime sua visão do mundo, necessariamente revela o seu ponto de vista”.

No capítulo XVII: “não existe isso de não poder ser escritor pelo fato de nunca ter viajado. Faz assim, dá pra esse jovem ler o meu ‘Quarenta Dais’, que é a descoberta de mundo e mais mundos, você viaja, tem mil viagens a fazer. ‘Quarenta Dias’ é uma odisseia, ‘A pé, ao léu. Numa pequena parte de uma cidade. Qualquer léu é um mundo. Tem que absorver o mundo pelos cinco sentidos” (continua semana que vem).

10/04/2018

RESENHA COMEMORATIVA: 25 ANOS DESTA COLUNA

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 17:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de abril de 2018)

Há 25 anos, eu iniciei essa coluna resenhando “A MÚSICA DO ACASO”. Mal sabia eu que duraria tanto e que Paul Auster seria um autor tão essencial na minha vida esse tempo todo, principalmente quando descobri tardiamente “A Trilogia de New York”. Meu desgosto é que nunca mais reeditaram “A MÚSICA DO ACASO” no Brasil.

Jim Nashe, como vários personagens de Auster, acredita na “tabula rasa”, ou seja, reinventar a existência. No seu caso, uma herança paterna (e paternidade e heranças são recorrentes na sua obra). Nashe resolve atravessar o país de carro e, após um ano, percebe que sua disponibilidade e “liberdade” diminuem conforme o dinheiro vai escasseando.

De forma aleatória ele se junta a Jack Pozzi, jogador inveterado (e não há símbolo maior para o acaso que os jogos de azar). Formam uma parceria contra dois milionários e perdem tudo. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir… Assim resumido (em parte), o enredo de “A MÚSICA DO ACASO” dá a impressão de pertencer à linha da literatura que seguindo as pegadas dos grandes Franz Kafka e Samuel Beckett, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka e Beckett para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que já é uma proeza) do que Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, Auster efetua uma cabal equação do que é “fortuito” (porque é fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Só não se pode deixar de destacar um grande personagem secundário, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe] “queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio. ”

03/04/2018

UMA CORROSIVA SÁTIRA À LEITURA ALIENADA

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de abril de 2018)

Quem, começar “O ÚLTIMO LEITOR” do mexicano David Toscana, com a expectativa elegíaca de homenagem ao ato de ler, ficará desapontado.

“Há um Deus que não diferencia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos… Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira”. Lucio, o último leitor, responsável pela biblioteca do miserável povoado de Icamole (onde não chove há anos), é mesquinho e tirânico. Os livros que não lhe agradam recebem o carimbo de censurado e são jogados num recinto infestado de baratas. Não suporta emprestar livros, embora seja sua função, lembrando o protagonista de “bibliomania”, de Gustave Flaubert, que assassinava os compradores de seus livros.

Uma menina é descoberta morta no poço de Remigio, o único com água na região. Lucio ajuda a esconder o corpo sob um abacateiro, o qual a partir daí passa a ter frutos melhores e mais doces (uma situação similar ao romance de Manoel Herzog, o ótimo “A Jaca do Cemitério é mais doce”).

Uma das manias mais irritantes de Lucio é aplicar acontecimentos reais situações lidas em romances (para ser justo, eu também faço isso: com o estado de coisas no Brasil me sinto num livro do genial Leonardo Sciascia, com sua Itália de corrupção e banditismo em todas as esferas). A menina morta se chama Anne, mas ele se refere a ela como Babette, heroína de um dos seus poucos romances preferidos. Esse jogo se torna insólito quando aparece na cidade a mãe da menina para investigar o paradeiro da filha, e ela se envolve com Lucio. Admiradora do mesmo romance, passa a se referir à filha como Babette.

Causou-me estranhamento a afirmação na orelha: “é, sobretudo, uma celebração dos romances que sabem embriagar e seduzir”. Pra mim, o livro de David Toscana é uma corrosiva sátira ao leitor alienado, incapaz de aprender com a experiência e adquirir sabedoria. Há uma cena em que o padre do povoado urina e o líquido logo desaparece na aridez do solo. É a mesma coisa que acontece com a mente do último leitor.

27/03/2018

A TRAGÉDIA DE JUDAS ISCARIOTES

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:13
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de março de 2018)

Taylor Caldwell foi um fenômeno. Boa romancista, menos prezada pela crítica, escreveu sobre todas as épocas: a antiguidade, os primórdios do cristianismo, a Mongólia de Gengis Khan, a França revolucionaria, até a Atlântida. “Médico de homens e almas”, “A terra de deus” e “Um pilar de ferro” são algumas das obras desse mapa mundi ficcional.

Em “EU, JUDAS” ela teve a colaboração de Jess Stearn e nos mostra um Judas filisteu abastado, revoltado com o domínio romano sobre a Judeia. Ele se entusiasma pela figura de Jesus Cristo, vencendo seus preconceitos aristocráticos contra os galileus, tidos como a ralé dos judeus (aliás, o livro revela as picuinhas e as diferenças entre os apóstolos). O que desaponta Judas e que o leva a cair na armadilha da traição é que Jesus não se apresenta como rei dos judeus, enfrentando os romanos, mas prega a respeito de um vago reino onde judeus e pagãos encontrarão a salvação, por isso perdendo prestigio, mesmo fazendo milagres espantosos.

Dando voz e vida a Judas, utilizando os eventos bíblicos com expressividade, o livro ganha força ao colocar em cena (praticamente em todos os capítulos) a cisão entre as diversas facções de Israel. Publicado em 1977, não dá para negar sua eficácia como exercício de imaginação e atualidade (há um belo epílogo protagonizado por Maria Madalena): “Não compreendendo o meu patriotismo, a maioria dos discípulos me considerara descrente. Mas o próprio Jesus desviava os ditos deles e me mostrava que me achava tão bom quanto os outros. – Tu, Judas, tens a tua missão, como os outros, e serás lembrado depois que muitos tiverem sido esquecidos. – Minha missão – disse eu – é libertar o meu povo. Ele levantou as sobrancelhas, delicadamente. – O teu povo, Judas? E posso saber quem é? – Os judeus em todo Israel e na Diáspora que desejem livrar-se de Roma. – E os outros povos? O povo de Roma, que desprezas, também não é vítima dessa tirania? Ele estava sempre a complicar as coisas. – Não foi dito claramente pelos profetas que o Messias libertará Israel, de modo que triunfará sobre as setenta nações? – Tu então queres substituir a tirania romana por outra? ”.

20/03/2018

A GENIAL JANE AUSTEN AGORA EM NOVELA DA GLOBO

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 16:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de março de 2018)

Numa entrevista que concedi a Herasmo Braga (em 2013), ele me fez a seguinte pergunta: “HB – Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM – Mas o que importa mesmo é não ler ‘de orelha’, nem de ‘segunda mão’. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram ‘inventando o humano’ além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à ‘cena atual’. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre ‘cena atual’. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre ‘da hora’”.

Jane Austen é tão da hora que a nova novela da Globo, “Orgulho e Paixão” é baseada em “ORGULHO E PRECONCEITO” (com pitadas de “Emma”), seu mais famoso romance. Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare. Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações”.

Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras, como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu, nunca cansarão de reler “ORGULHO E PRECONCEITO” é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela), percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica).

Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer, mas, respeitando as suas qualidades e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas”.  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz: “Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.

13/03/2018

Garp Quarentão

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:46
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de março de 2018)

Há exatamente 40 anos era lançado um romance fascinante: “O MUNDO SEGUNDO GARP”, terceira obra de John Irving, escrita aos 36 anos e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. 40 anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia “Uma suspeita sexual”; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”.

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, “O MUNDO SEGUNDO GARP” é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo sexo oral em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pênis do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente “Viúva por um ano”) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, “A pensão Grillparzer”, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário “Hotel New Hampshire” (o romance que me abriu a porta do seu universo), ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por “A pensão Grillparzer”. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

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