MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2016

Destaque do Blog: OS PAPÉIS DE ASPERN, de Henry James


842540._SX540_SY540_papeis-de-aspern

«Essas coisas me atingiram então quase com a palpitação que haviam causado, os sucessivos estados afetando minha consciência de tal modo que, quando a porta do aposento se fechou atrás de mim, julguei estar realmente face a face com a Juliana de algumas das mais primorosas e célebres poesias de Aspern. Eu fiquei acostumado a ela posteriormente, embora nunca completamente; mas, enquanto ela se manteve lá diante de mim, meu coração bateu tão disparado como se o milagre da ressurreição houvesse acontecido em meu benefício. Sua presença parecia de algum modo conter e expressar a própria presença do poeta e, naquele primeiro momento em que a vi, eu me senti mais próximo a ele do que nunca sentira um dia nem sentiria futuramente».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2016)

Este ano é marcado pelo centenário da morte de Henry James. De sua grandiosa obra, o mais recente lançamento (pela Penalux), em nosso país. é a versão de Chico Lopes para Os papéis de Aspern (“The Aspern Papers”, 1888)[1], no qual um editor que idolatra um grande poeta já falecido[2] consegue infiltrar-se — em Veneza — no desolado casarão onde vivem obscuramente a idosa Juliana Bordereau (amor da juventude de Jeffrey Aspern) e Miss Tina[3], uma sobrinha solteirona, com o objetivo de se apossar de supostos documentos (correspondência, manuscritos inéditos) que enriqueceriam a fortuna crítica e biográfica do cultuado autor.

   «Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida». Esta frase, de O altar dos mortos (1895)[4], revela o cerne do universo jamesiano, povoado por relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi” sobre o que “é”.

Nesse sentido, como romance curto, Os papéis de Aspern é exemplar como introdução, sintetizando vários desdobramentos obsessivos: para começar, todos são americanos — durante toda a sua longa produção, James explorou imbróglios envolvendo conterrâneos seus em terras europeias[5]; depois, o escrutínio ético e moral do ardor estético; não poderia, ainda, faltar uma atmosfera de intriga, tanto no sentido mundano, de boataria, quanto no conspiratório, com o narrador usando ardis (a certa altura, Miss Tina indaga:  «Então era uma trama premeditada, uma espécie de conspiração?»; «So it was a regular plot — a  kind of conspiracy?») e, sorrateiramente, sendo envolvido numa soturna teia: «Estaria eu ainda em tempo de salvar meus bens? Essa questão estava em meu coração, pois o que agora vinha a ocorrer era que, na inconsciente celebração do sono, eu havia retornado a uma passional apreciação do tesouro de Juliana. Os pedaços que o compunham eram agora mais preciosos do que nunca, e uma ferocidade positiva havia se introduzido em minha necessidade de adquiri-los. A condição que Miss Tina havia ajuntado a este ato não mais aparecia como um obstáculo digno de reflexão, e, por uma hora, nesta manhã, minha imaginação arrependida deixou-a de lado. Era absurdo que eu não fosse capaz de inventar nada; absurdo que renunciasse tão facilmente e me afastasse inapelavelmente da ideia de que o único modo de me tornar possuidor dos papéis era me unir a ela pelo resto da vida. Eu poderia não escapar do laço, porém ainda poderia ter o que ela tinha»[6].

Sobretudo, o que se destaca — afora a grandiosa, com toques sinistros (a viseira) e até sórdidos, figura de Juliana (que diálogos geniais os das transações financeiras com o seu inquilino) — é a cegueira do homem, o autoengano de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva (1903). Nesta novela notável, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo portentoso vai acontecer com ele, qual uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo”, lemos afirmações que serviriam perfeitamente para o narrador de Os papéis de Aspern, com relação à pobre Miss Tina: «A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar — este era o conhecimento — conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida»[7].

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino[8], incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em Os papéis de AspernA fera na selva pode causar uma ressaca de angústia no leitor, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais implacáveis que já existiram. Ter um gosto tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril,  nada intemerato, é prova de uma lucidez intimorata.

5000670papeis_aspern_01

 

ORIGINAL DA EPÍGRAFE

«They come back to me now almost with the palpitation they caused, the successive feelings that accompanied my consciousness that as the door of the room closed behind me I was really face to face with the Juliana of some of Aspern’s most exquisite and most renowned lyrics. I grew used to her afterward, though never completely; but as she sat there before me my heart beat as fast as if the miracle of resurrection had taken place for my benefit. Her presence seemed somehow to contain his, and I felt nearer to him at that first moment of seeing her than I ever had been before or ever have been since».

james

TRECHO SELECIONADO

«Sei apenas que, pela tarde, quando o ar estava brilhando especialmente com o pôr do sol, encontrei-me diante da igreja dos Santos João e Paulo, erguendo os olhos para o pequeno rosto de queixo quadrado de Bartolommeo Colleoni, o terrível condottiere24 que monta firmemente seu enorme cavalo de bronze no alto pedestal no qual a gratidão veneziana o mantém. A estátua é incomparável, a mais bela de todas as figuras a cavalo, a menos que a de Marcus Aurelius, que cavalga benignamente diante do Capitólio Romano, a supere; mas eu não estava pensando nisso; apenas me descobri olhando fixamente para o capitão triunfante como se ele trouxesse um oráculo em seus lábios. A luz ocidental brilha em toda a sua intensidade feroz nessa hora e a torna maravilhosamente pessoal. Mas ele continuou a olhar para muito longe de minha cabeça, na imersão vermelha de outro dia, – ele vira tantos se acabarem na laguna ao longo dos séculos! – e, se estava pensando em batalhas e estratagemas, eram de uma qualidade diferente de qualquer uma que eu tivesse a lhe contar. Ele não podia me orientar quanto ao que fazer, tanto quanto eu poderia erguer meu olhar para ele […]Sem ruas e veículos, o rugido de rodas, a brutalidade dos cavalos, e com seus pequenos caminhos tortuosos onde as pessoas se aglomeram, onde as vozes soam pelos corredores de uma casa, onde o passo humano circula como se contornasse os ângulos da mobília, e os sapatos nunca se gastam, o lugar tem a característica de um imenso apartamento coletivo, no qual a Piazza San Marco, no seu ângulo mais ornamentado, e palácios e igrejas, de resto, fazem o papel de grandes divãs de repouso, mesas de entretenimento, extensões da decoração. E de algum modo, o esplêndido domicílio comum, familiar, doméstico e ressonante também evoca um teatro com seus atores batendo os calcanhares sobre pontes e, em procissões esparsas, tropeçando em fundações. Quando se está sentado numa gôndola, as calçadas que, em certos trechos, margeiam os canais, assumem ao olhar a importância de um palco, igualando-se a ele num ângulo semelhante, e as figuras venezianas, movendo-se de cá para lá contra o cenário desgastado de suas pequenas casas de comédia, nos parecem membros de uma companhia teatral sem fim».

«I only know that in the afternoon, when the air was aglow with the sunset, I was standing before the church of Saints John and Paul and looking up at the small square-jawed face of Bartolommeo Colleoni, the terrible condottiere who sits so sturdily astride of his huge bronze horse, on the high pedestal on which Venetian gratitude maintains him. The statue is incomparable, the finest of all mounted figures, unless that of Marcus Aurelius, who rides benignant before the Roman Capitol, be finer: but I was not thinking of that; I only found myself staring at the triumphant captain as if he had an oracle on his lips. The western light shines into all his grimness at that hour and makes it wonderfully personal. But he continued to look far over my head, at the red immersion of another day– he had seen so many go down into the lagoon through the centuries– and if he were thinking of battles and stratagems they were of a different quality from any I had to tell him of. He could not direct me what to do, gaze up at him as I might […] Without streets and vehicles, the uproar of wheels, the brutality of horses, and with its little winding ways where people crowd together, where voices sound as in the corridors of a house, where the human step circulates as if it skirted the angles of furniture and shoes never wear out, the place has the character of an immense collective apartment, in which Piazza San Marco is the most ornamented corner and palaces and churches, for the rest, play the part of great divans of repose, tables of entertainment, expanses of decoration. And somehow the splendid common domicile, familiar, domestic, and resonant, also resembles a theater, with actors clicking over bridges and, in straggling processions, tripping along fondamentas. As you sit in your gondola the footways that in certain parts edge the canals assume to the eye the importance of a stage, meeting it at the same angle, and the Venetian figures, moving to and fro against the battered scenery of their little houses of comedy, strike you as members of an endless dramatic troupe».

767076._SY540_

NOTAS

 [1] É a terceira, em 1984 foram publicadas as de Maria Luiza Penna (Global) e Álvaro A. Antunes (Interior edições); só li a primeira, desconhecendo a existência da segunda até há poucos dias.

[2] «Eu o havia invocado e ele viera; pairava diante de mim metade do tempo; era como se seu fantasma luminoso houvesse retornado à terra para me assegurar que considerava a questão como sua não menos que minha e que tínhamos que conduzi-la fraternal e afetuosamente até uma conclusão. Era como se ele houvesse dito: “Pobre querido, tenha calma com ela; ela tem alguns preconceitos naturais; é só uma questão de lhe dar tempo. Por mais estranho que lhe possa parecer, ela foi muito atraente em 1820. Enquanto isso, não estamos juntos em Veneza, e que melhor lugar existe para o encontro de amigos queridos? Veja como a cidade reluz com o verão avançado; como o céu e o mar e o ar róseo e o mármore dos palácios todos tremeluzem e se fundem”. Minha excêntrica missão particular tornava-se parte do romantismo e da glória geral – eu sentia até uma camaradagem mística, uma fraternidade moral com todos aqueles que, no passado, haviam estado no serviço à arte»; «I had invoked him and he had come; he hovered before me half the time; it was as if his bright ghost had returned to earth to tell me that he regarded the affair as his own no less than mine and that we should see it fraternally, cheerfully to a conclusion. It was as if he had said, “Poor dear, be easy with her; she has some natural prejudices; only give her time. Strange as it may appear to you she was very attractive in 1820. Meanwhile are we not in Venice together, and what better place is there for the meeting of dear friends? See how it glows with the advancing summer; how the sky and the sea and the rosy air and the marble of the palaces all shimmer and melt together.” My eccentric private errand became a part of the general romance and the general glory– I felt even a mystic companionship, a moral fraternity with all those who in the past had been in the service of art».

[3] No original. Miss Tira:

«…foi assim que a altamente trêmula solteirona provou chamar-se, de um modo um tanto incongruente»; «…(for such the name of this high tremulous spinster proved somewhat incongruously to be)».

[4] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

[5] «Seu país de origem abrigara a maior parte de sua vida, e sua musa, como se dizia na época, era essencialmente americana. Era por isso que eu o prezara a princípio; porque, numa época em que nossa terra natal era crua e provinciana, quando a sua famosa falta de “atmosfera” não era sequer lastimada, quando a literatura ali estava perdida, e a arte e a forma, quase impossíveis, ele havia encontrado meios para viver e escrever como um dos grandes; para ser livre e universal e totalmente destemido, para sentir, entender e expressar tudo»;  «His own country after all had had most of his life, and his muse, as they said at that time, was essentially American. That was originally what I had loved him for: that at a period when our native land was nude and crude and provincial, when the famous “atmosphere” it is supposed to lack was not even missed, when literature was lonely there and art and form almost impossible, he had found means to live and write like one of the first; to be free and general and not at all afraid; to feel, understand, and express everything».

[6] «Was I still in time to save my goods? That question was in my heart; for what had now come to pass was that in the unconscious cerebration of sleep I had swung back to a passionate appreciation of Miss Bordereau’s papers. They were now more precious than ever, and a kind of ferocity had come into my desire to possess them. The condition Miss Tita had attached to the possession of them no longer appeared an obstacle worth thinking of, and for an hour, that morning, my repentant imagination brushed it aside. It was absurd that I should be able to invent nothing; absurd to renounce so easily and turn away helpless from the idea that the only way to get hold of the papers was to unite myself to her for life. I would not unite myself and yet I would have them».

[7] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

[8] Curiosamente, como típico herói jamesiano, o narrador é acusado por Juliana de se interessar por atividades “pouco viris”, como se preocupar com as flores do jardim.

12625694_792748624162469_1083707490_n

capaloja-hjames

2 Comentários »

  1. Republicou isso em O SOL NASCERÁ….

    Comentário por anisioluiz2008 — 26/01/2016 @ 14:27 | Responder

  2. Alfredo, Henry James é sempre muito bom. Parabens pela critica execelente. Boas leituras em 2016. abraços.

    Comentário por Miguel — 26/01/2016 @ 14:58 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: