MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2016

Destaque do Blog: OS PAPÉIS DE ASPERN, de Henry James

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«Essas coisas me atingiram então quase com a palpitação que haviam causado, os sucessivos estados afetando minha consciência de tal modo que, quando a porta do aposento se fechou atrás de mim, julguei estar realmente face a face com a Juliana de algumas das mais primorosas e célebres poesias de Aspern. Eu fiquei acostumado a ela posteriormente, embora nunca completamente; mas, enquanto ela se manteve lá diante de mim, meu coração bateu tão disparado como se o milagre da ressurreição houvesse acontecido em meu benefício. Sua presença parecia de algum modo conter e expressar a própria presença do poeta e, naquele primeiro momento em que a vi, eu me senti mais próximo a ele do que nunca sentira um dia nem sentiria futuramente».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2016)

Este ano é marcado pelo centenário da morte de Henry James. De sua grandiosa obra, o mais recente lançamento (pela Penalux), em nosso país. é a versão de Chico Lopes para Os papéis de Aspern (“The Aspern Papers”, 1888)[1], no qual um editor que idolatra um grande poeta já falecido[2] consegue infiltrar-se — em Veneza — no desolado casarão onde vivem obscuramente a idosa Juliana Bordereau (amor da juventude de Jeffrey Aspern) e Miss Tina[3], uma sobrinha solteirona, com o objetivo de se apossar de supostos documentos (correspondência, manuscritos inéditos) que enriqueceriam a fortuna crítica e biográfica do cultuado autor.

   «Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida». Esta frase, de O altar dos mortos (1895)[4], revela o cerne do universo jamesiano, povoado por relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi” sobre o que “é”.

Nesse sentido, como romance curto, Os papéis de Aspern é exemplar como introdução, sintetizando vários desdobramentos obsessivos: para começar, todos são americanos — durante toda a sua longa produção, James explorou imbróglios envolvendo conterrâneos seus em terras europeias[5]; depois, o escrutínio ético e moral do ardor estético; não poderia, ainda, faltar uma atmosfera de intriga, tanto no sentido mundano, de boataria, quanto no conspiratório, com o narrador usando ardis (a certa altura, Miss Tina indaga:  «Então era uma trama premeditada, uma espécie de conspiração?»; «So it was a regular plot — a  kind of conspiracy?») e, sorrateiramente, sendo envolvido numa soturna teia: «Estaria eu ainda em tempo de salvar meus bens? Essa questão estava em meu coração, pois o que agora vinha a ocorrer era que, na inconsciente celebração do sono, eu havia retornado a uma passional apreciação do tesouro de Juliana. Os pedaços que o compunham eram agora mais preciosos do que nunca, e uma ferocidade positiva havia se introduzido em minha necessidade de adquiri-los. A condição que Miss Tina havia ajuntado a este ato não mais aparecia como um obstáculo digno de reflexão, e, por uma hora, nesta manhã, minha imaginação arrependida deixou-a de lado. Era absurdo que eu não fosse capaz de inventar nada; absurdo que renunciasse tão facilmente e me afastasse inapelavelmente da ideia de que o único modo de me tornar possuidor dos papéis era me unir a ela pelo resto da vida. Eu poderia não escapar do laço, porém ainda poderia ter o que ela tinha»[6].

Sobretudo, o que se destaca — afora a grandiosa, com toques sinistros (a viseira) e até sórdidos, figura de Juliana (que diálogos geniais os das transações financeiras com o seu inquilino) — é a cegueira do homem, o autoengano de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva (1903). Nesta novela notável, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo portentoso vai acontecer com ele, qual uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo”, lemos afirmações que serviriam perfeitamente para o narrador de Os papéis de Aspern, com relação à pobre Miss Tina: «A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar — este era o conhecimento — conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida»[7].

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino[8], incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em Os papéis de AspernA fera na selva pode causar uma ressaca de angústia no leitor, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais implacáveis que já existiram. Ter um gosto tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril,  nada intemerato, é prova de uma lucidez intimorata.

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ORIGINAL DA EPÍGRAFE

«They come back to me now almost with the palpitation they caused, the successive feelings that accompanied my consciousness that as the door of the room closed behind me I was really face to face with the Juliana of some of Aspern’s most exquisite and most renowned lyrics. I grew used to her afterward, though never completely; but as she sat there before me my heart beat as fast as if the miracle of resurrection had taken place for my benefit. Her presence seemed somehow to contain his, and I felt nearer to him at that first moment of seeing her than I ever had been before or ever have been since».

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TRECHO SELECIONADO

«Sei apenas que, pela tarde, quando o ar estava brilhando especialmente com o pôr do sol, encontrei-me diante da igreja dos Santos João e Paulo, erguendo os olhos para o pequeno rosto de queixo quadrado de Bartolommeo Colleoni, o terrível condottiere24 que monta firmemente seu enorme cavalo de bronze no alto pedestal no qual a gratidão veneziana o mantém. A estátua é incomparável, a mais bela de todas as figuras a cavalo, a menos que a de Marcus Aurelius, que cavalga benignamente diante do Capitólio Romano, a supere; mas eu não estava pensando nisso; apenas me descobri olhando fixamente para o capitão triunfante como se ele trouxesse um oráculo em seus lábios. A luz ocidental brilha em toda a sua intensidade feroz nessa hora e a torna maravilhosamente pessoal. Mas ele continuou a olhar para muito longe de minha cabeça, na imersão vermelha de outro dia, – ele vira tantos se acabarem na laguna ao longo dos séculos! – e, se estava pensando em batalhas e estratagemas, eram de uma qualidade diferente de qualquer uma que eu tivesse a lhe contar. Ele não podia me orientar quanto ao que fazer, tanto quanto eu poderia erguer meu olhar para ele […]Sem ruas e veículos, o rugido de rodas, a brutalidade dos cavalos, e com seus pequenos caminhos tortuosos onde as pessoas se aglomeram, onde as vozes soam pelos corredores de uma casa, onde o passo humano circula como se contornasse os ângulos da mobília, e os sapatos nunca se gastam, o lugar tem a característica de um imenso apartamento coletivo, no qual a Piazza San Marco, no seu ângulo mais ornamentado, e palácios e igrejas, de resto, fazem o papel de grandes divãs de repouso, mesas de entretenimento, extensões da decoração. E de algum modo, o esplêndido domicílio comum, familiar, doméstico e ressonante também evoca um teatro com seus atores batendo os calcanhares sobre pontes e, em procissões esparsas, tropeçando em fundações. Quando se está sentado numa gôndola, as calçadas que, em certos trechos, margeiam os canais, assumem ao olhar a importância de um palco, igualando-se a ele num ângulo semelhante, e as figuras venezianas, movendo-se de cá para lá contra o cenário desgastado de suas pequenas casas de comédia, nos parecem membros de uma companhia teatral sem fim».

«I only know that in the afternoon, when the air was aglow with the sunset, I was standing before the church of Saints John and Paul and looking up at the small square-jawed face of Bartolommeo Colleoni, the terrible condottiere who sits so sturdily astride of his huge bronze horse, on the high pedestal on which Venetian gratitude maintains him. The statue is incomparable, the finest of all mounted figures, unless that of Marcus Aurelius, who rides benignant before the Roman Capitol, be finer: but I was not thinking of that; I only found myself staring at the triumphant captain as if he had an oracle on his lips. The western light shines into all his grimness at that hour and makes it wonderfully personal. But he continued to look far over my head, at the red immersion of another day– he had seen so many go down into the lagoon through the centuries– and if he were thinking of battles and stratagems they were of a different quality from any I had to tell him of. He could not direct me what to do, gaze up at him as I might […] Without streets and vehicles, the uproar of wheels, the brutality of horses, and with its little winding ways where people crowd together, where voices sound as in the corridors of a house, where the human step circulates as if it skirted the angles of furniture and shoes never wear out, the place has the character of an immense collective apartment, in which Piazza San Marco is the most ornamented corner and palaces and churches, for the rest, play the part of great divans of repose, tables of entertainment, expanses of decoration. And somehow the splendid common domicile, familiar, domestic, and resonant, also resembles a theater, with actors clicking over bridges and, in straggling processions, tripping along fondamentas. As you sit in your gondola the footways that in certain parts edge the canals assume to the eye the importance of a stage, meeting it at the same angle, and the Venetian figures, moving to and fro against the battered scenery of their little houses of comedy, strike you as members of an endless dramatic troupe».

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NOTAS

 [1] É a terceira, em 1984 foram publicadas as de Maria Luiza Penna (Global) e Álvaro A. Antunes (Interior edições); só li a primeira, desconhecendo a existência da segunda até há poucos dias.

[2] «Eu o havia invocado e ele viera; pairava diante de mim metade do tempo; era como se seu fantasma luminoso houvesse retornado à terra para me assegurar que considerava a questão como sua não menos que minha e que tínhamos que conduzi-la fraternal e afetuosamente até uma conclusão. Era como se ele houvesse dito: “Pobre querido, tenha calma com ela; ela tem alguns preconceitos naturais; é só uma questão de lhe dar tempo. Por mais estranho que lhe possa parecer, ela foi muito atraente em 1820. Enquanto isso, não estamos juntos em Veneza, e que melhor lugar existe para o encontro de amigos queridos? Veja como a cidade reluz com o verão avançado; como o céu e o mar e o ar róseo e o mármore dos palácios todos tremeluzem e se fundem”. Minha excêntrica missão particular tornava-se parte do romantismo e da glória geral – eu sentia até uma camaradagem mística, uma fraternidade moral com todos aqueles que, no passado, haviam estado no serviço à arte»; «I had invoked him and he had come; he hovered before me half the time; it was as if his bright ghost had returned to earth to tell me that he regarded the affair as his own no less than mine and that we should see it fraternally, cheerfully to a conclusion. It was as if he had said, “Poor dear, be easy with her; she has some natural prejudices; only give her time. Strange as it may appear to you she was very attractive in 1820. Meanwhile are we not in Venice together, and what better place is there for the meeting of dear friends? See how it glows with the advancing summer; how the sky and the sea and the rosy air and the marble of the palaces all shimmer and melt together.” My eccentric private errand became a part of the general romance and the general glory– I felt even a mystic companionship, a moral fraternity with all those who in the past had been in the service of art».

[3] No original. Miss Tira:

«…foi assim que a altamente trêmula solteirona provou chamar-se, de um modo um tanto incongruente»; «…(for such the name of this high tremulous spinster proved somewhat incongruously to be)».

[4] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

[5] «Seu país de origem abrigara a maior parte de sua vida, e sua musa, como se dizia na época, era essencialmente americana. Era por isso que eu o prezara a princípio; porque, numa época em que nossa terra natal era crua e provinciana, quando a sua famosa falta de “atmosfera” não era sequer lastimada, quando a literatura ali estava perdida, e a arte e a forma, quase impossíveis, ele havia encontrado meios para viver e escrever como um dos grandes; para ser livre e universal e totalmente destemido, para sentir, entender e expressar tudo»;  «His own country after all had had most of his life, and his muse, as they said at that time, was essentially American. That was originally what I had loved him for: that at a period when our native land was nude and crude and provincial, when the famous “atmosphere” it is supposed to lack was not even missed, when literature was lonely there and art and form almost impossible, he had found means to live and write like one of the first; to be free and general and not at all afraid; to feel, understand, and express everything».

[6] «Was I still in time to save my goods? That question was in my heart; for what had now come to pass was that in the unconscious cerebration of sleep I had swung back to a passionate appreciation of Miss Bordereau’s papers. They were now more precious than ever, and a kind of ferocity had come into my desire to possess them. The condition Miss Tita had attached to the possession of them no longer appeared an obstacle worth thinking of, and for an hour, that morning, my repentant imagination brushed it aside. It was absurd that I should be able to invent nothing; absurd to renounce so easily and turn away helpless from the idea that the only way to get hold of the papers was to unite myself to her for life. I would not unite myself and yet I would have them».

[7] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

[8] Curiosamente, como típico herói jamesiano, o narrador é acusado por Juliana de se interessar por atividades “pouco viris”, como se preocupar com as flores do jardim.

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23/09/2012

O conforto do acanhamento e as promessas do breu: “O estranho no corredor”, de Chico Lopes

VER TAMBÉM NO BLOG:

 

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/onde-os-fracos-nao-tem-vez/

 

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/destaque-do-blog-hospedes-do-vento-de-chico-lopes/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/15-destaques-de-2010/

 

 

Preâmbulo

“Achara um  de seus triunfos na vida da cidade, nos primeiros dias de adaptação, o ter conseguido orientar-se sozinho, com os nomes de bairros e números de linhas dos circulares e, alegre, com algum dinheiro para gastar, percorrer muitos trajetos, retornando sempre ao terminal no centro, feito fosse sempre necessário isso—os círculos bem descritos, as referências precisas—para que, aos poucos fosse se apossando do novo território. Daí, tempos depois, já tinha um ar blasé à janelinha, olhando a movimentação urbana como se fosse parte trivial de sua vida, como personagem de filme rodado em metrópole, superior, senhor de si, intimamente alegre como um moleque no domínio de uma engrenagem que, na verdade, inspira medo e pode, a qualquer momento, apresentar imprevistos foram de controle. Assim, precisava não demonstrar ansiedade, não queria que o considerassem caipira e, portanto, não tomava informações,  perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela…”

Assim como o seu protagonista (não nomeado) arriscou-se a sair do interior para viver na capital, o autor de O estranho no corredor(edição da 34), Chico Lopes,  após três fortes, densos e sobretudo coesos volumes de contos (Nó de sombras; Dobras da noite; Hóspedes do vento) arriscou-se num território mais amplo: a narrativa longa, mais espraiada, embora ainda dentro de certos limites, pois ele exercitou suas forças naquela forma que chamamos de novela e que sempre é caracterizada algo confusamente. Para nossos objetivos imediatos neste texto, basta considerá-la—confortavelmente, sem maiores ilações quanto à imprecisão da fórmula—como a forma intermediária entre o conto e o romance.

O curioso é que Lopes se valeu nesta sua novela de um mote que é característico do  romanção realista à la século XIX, em sua matriz balzaquiana (ou mesmo dickenseniana): o provinciano que enfrenta a metrópole, e que ali tem triturada suas “ilusões” (se pensarmos bem, até em Crime e castigo o mote se faz presente). Por essa perspectiva, considerando a trajetória do “herói” (se utilizarmos tal epíteto no sentido de Northrop Frye quando caracteriza o  modo irônico, no qual o leitor tem a “sensação de olhar de cima uma cena de servidão, malogro ou absurdo”) de O estranho no corredor ela não difere muito do modelo: aliás, segue o mesmo arco do maravilhoso romance de Eça de Queiroz, A Capital!,  em que após ter as “ilusões perdidas”, o protagonista volta ao interior para lamber as feridas e encontrar um pouco de sentido na sua vida.

No entanto, Lopes não optou por escrever um “romanção”. A forma adotada por ele segue outra genealogia muito interessante no que tange à situação dramática que fornece o título e a tensão narrativa principal: um estranho que se posta desdenhosa e desafiadoramente frente ao protagonista, como se eles tivessem contas a ajustar, e que, malgrado essa atitude hostil, não se aproxima, não  fala com ele, e que ao fim e ao cabo determina suas ações (e seu recuo da capital para o interior).

Paralelamente ao “romanção” balzaquiano, o século XIX forneceu inúmeros exemplos de textos curtos que rompiam os limites do realismo, roçando o sobrenatural, sobrepujando o lógico, o racional, o psicologicamente compreensível à primeira vista. De Poe a Stevenson, de Hoffmann a Henry James, essa obsessão pelo “estranho” nos rendeu novelas que até hoje são alvo de interpretações diversas. Só para citar as mais óbvias, tivemos O homem da areia (Hoffmann), Sylvie (Nerval), Bartleby (Melville), William Wilson (Poe), O estranho caso do dr. Jekyll e do Sr. Hyde (Stevenson), A volta do parafuso (James), O Horla (Maupassant), sem falar em certas obras curtas de Dostoiévski, como O duplo ou Memórias do subsolo[1]; em todas elas, tocamos limites da condição humana que ainda servem como matrizes do imaginário ocidental capitalista (principalmente pós-Freud), acima mesmo das experiências formais dentro da ficção e das suas formas tradicionalmente estabelecidas.

Portanto, em O estranho no corredor dialogam o mote do romanção balzaquiano e a atmosfera das “narrativas derradeiras”. O que se pode perguntar é o que pode haver de derradeiro numa narrativa desse tipo, já um tanto tardia para o século XXI? Pois Chjco Lopes não é um autor experimental, inovador formalmente, ele se alinha às narrativas derradeiras via o intimismo, o viés psicológico de certa linha de ficção  introspectiva (muitas vezes, de raiz católica) que tivemos por aqui: João Alphonsus, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria, Antônio Olavo Pereira, Otto Lara Rezende, Rosário Fusco, Cyro dos Anjos, Gustavo  Corção (sem falar no Graciliano de Angústia)[2], e que hoje parece estar bastante esquecida, e  nos aparece como algo quase recôndito, ultrapassado. Será mesmo?

1.               Um  herói típico do nosso autor

“…não queria que o considerassem um caipira e, portanto, não tomava informações, perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido de que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela e, para isso, era necessário, de algum modo, imitar personagens de alguns livrinhos de ação e policiais que lera quando menino, aqueles sujeitos que, sem perderem o cigarro no lábio, sem enrugarem um terno, sem entortarem uma gravata, andavam pelas ruas de Los Angeles, San Francisco ou New York com suas pastas e óculos escuros em direção a finalidades muito precisas. Imaginava que os portentos não tinham tampouco nenhuma indecisão, nenhum terror, ao chamarem um elevador, ao enfiarem-se numa galeria de inúmeras lojas, ao urinarem naquelas longas filas masculinas rapidamente organizadas e desfeitas em mictórios…”

    A continuação da citação do preâmbulo permite entrar no território Chico Lopes propriamente dito: como se pode ver, o provinciano de O estranho no corredor, apesar do seu quinhão de ingenuidade, está longe do herói da linhagem balzaquiana evocado por mim, devido à interposição de um ingrediente especificamente moderno: a ironia. Para ser bem entendido, a ironia, aqui neste passo,  reside no fato de que o personagem—assim como tantos outros da literatura a partir do modernismo—se movimenta por projeções: ele leu muito, e viu muito cinema (o que também é citado explicitamente ao longo do texto) e sempre há uma referência que torna certos atos, movimentos e decisões paródias do lido e do visto (é bem verdade, que no romanção do século XIX houve a projeção napoleônica, e sua reversibilidade também é irônica, mas tratava-se de um destino excepcional, fortemente calcado numa concepção épica do herói a que nenhuma projeção moderna pode recorrer a sério), no caso os protagonistas de romances de ação e de policiais.

O que eu quero apontar e é o que afasta o protagonista de O estranho no corredor do provinciano do romanção e o aproxima dos protagonistas das “narrativas derradeiras” é que, embora a metrópole em larga medida o desiluda, seu problema essencial já vem de antes, já veio com a bagagem do interior: sua—e para ele inexplicável—falta de requisitos para exercitar a virilidade, a presença máscula no mundo, o à-vontade dos heróis daqueles livros e filmes lidos e vistos e que ele vê nos homens da metrópole como via nos homens da sua cidadezinha, que permite que eles se postem nos mictórios sem complexo de inferioridade, sem a sensação de serem esmagados, aviltados e ridicularizados. Para ele, “papel de homem” quase vem a significar “papel no mundo”.

Para um sujeito assim, até mesmo a amizade com outro homem terá de ser ambígua e ameaçadora. E, de fato, seu único “amigo” na capital, Russo, um loser um tanto barrigudo, mas ainda boa-pinta para as mulheres, já é caracterizado  de saída com uma aura que contém esses dois adjetivos utilizados por mim (ambígua e ameaçadora):

“Fora na banheiro, quando o sujeito chegara para urinar perto e ele se virara, escondendo o óbvio, já inibido e incapaz de verter gotinha, furioso por estar tolhido e o intrometido achar isso engraçado. O filho da puta era risonho e se aproximara mais ainda, dando uns passos avante, encostando, fazendo-o recuar, mas havia o limite bem preciso de uma parede suja, esverdeada por infiltrações, e, parede, parede, parede, olhar acuado, garganta seca, urgia achar uma saída, fazer de conta que essa abordagem não era com ele—como se houvesse mais gente naquele canto mínimo onde, no máximo, mijavam dois—sem coragem para enfrentar esse desgraçado que tinha obviamente mais músculos que ele. Não tinha mais para onde fugir, apavorado,  como reagir, como repelir um vicioso determinado daquele jeito?  Quando acreditava que, literalmente, teria que erguer os braços, render-se e deixar que fizesse o que quisesse daquilo que ele escondera o quanto pudera esconder, o tipo começou a rir, descontroladamente, batendo em seu ombro, e garantindo que, rapaz, não precisava ter medo, era só uma brincadeira…”

Tema obsessivamente trabalhado nas coletâneas de contos que precederam a novela, essa questão da espectralização da virilidade, tornada esquálida e bruxuleante no protagonista, e uma espécie de entidade de pesadelo expressionista nos demais (“Todos sempre me pareciam maiores, mais desenvoltos, mais capazes de fazer coisas, fazê-las sem remorso, fazê-las com uma eficiência mortal, o que era, afinal, o seu dever de virilidade. Se eu me atrevesse, descobririam que eu não tinha jeito que eu era um impostor, que minhas imitações do tom, do porte, das atitudes do clube, não eram bem feitas, que eu não podia participar de seu código. Eu não tinha convicção necessária, eu não conseguia”) ganha um sombreamento mais rico e inquietante ao ser sobreposta ao confronto com os desafios da capital, mas acho que ganha sua dimensão maior na volta ao interior, quando então—como os personagens dostoievskianos—nosso herói passar a viver quase num “estado de vexame”. Mas não antecipemos.

Frustrado candidato a escritor, eternamente fiando e desfiando memórias da sua vida interiorana—e  mesmo nelas se ocultam perigos ( “…com frequência escrevia mais do que pretendia, enveredava pelo que não queria—alguém dentro dele, em desacordo com as idéias que queria claras, pegava-lhe a mão e o levava para outro caminho, para a proximidade, para a iminência  de revelações que sentia, pressentia funestas…”; ou, ainda: “Eram dias felizes, mas, quando me ponho a lembrá-los com mais cuidado, tenho medo da quantidade de coisas escuras que se movem por trás deles”), ele acaba reproduzindo no grande espaço da capital o círculo de giz da sua existência provinciana, como se caísse numa armadilha (até por causa da condição econômica): criado por uma tia severa e autoritária (que despojou a mãe e o pai dos seus direitos; este, por ser um beberrão imprestável e inoportuno, aquela por uma suposta perturbação mental), sempre muito protegido e com aquele tipo de comportamento dos muitos resguardados que eram chamados, na minha época de garoto, de “mariquinhas”, quando vai embora da cidade natal parece que é para não mais voltar (ele reluta em escrever para a tia, seu único elo afetivo, por assim dizer), e é inteligente como estratégia narrativa que esse momento—o da decisão de partida e a partida em si—nunca seja narrado, o que dá ao texto uma feição enrodilhada instigante.

Na cidade, após tentar alguns contatos da tia (muito tênues e desinteressados) e literários (escritores publicados com os quais mantinha uma “vaga correspondência” e que fogem do escritor provinciano como o diabo da cruz), consegue  um  empreguinho como professor (num bar perto da escola é que cultivará sua “amizade” com Russo). O pior de tudo é que reproduzirá com a senhora que lhe aluga um quarto, embora de forma mais melíflua, mais enviesada, não tão autoritária quanto a da tia, uma relação de guardiã, de censora das “tentações” do mundo.

E óbvio, com uma psicologia recalcada dessas, que o sexo é um assunto onipresente. Nem vou falar da repressão homoerótica, que acredito evidente nas citações anteriores, mas em nenhum outro aspecto a falta de horizontes é mais terrível, e todo aquele aspecto de perambulação pela cidade, mostrado na citação que abre este meu estudo, se mostra mais irrisório e deprimente. O mais que o nosso herói consegue é a masturbação em cinemas pornôs que já há vinte anos atrás chamávamos de “pulgueiros”, o que realça o teor furtivo da sua existência[3]. As duas únicas situações eróticas são tributárias da presença de Russo, e sombreadas por ela (uma “pre-sença” não no sentido heideggeriano, mas no  literal e físico, como veremos).

Há, primeiro, a ida a um puteiro, uma pensão, descrita com todos os signos da breguice brasileira imemorial, a estética “pinguim de geladeira”[4], e cuja dona, Neide, é meio que embeiçada com Russo, e onde o “teacher”—bêbado—experimenta uma desanimadora chupada:

“O esforço da mulher dera resultados, mas teve que suportar vê-la, tranquila, habituada, it para uma pia cuspir o que engolira, o som daquela cuspida lhe doía horrivelmente (…) um corpo de mulher assim à vontade, com o desprezo utilitário e frio que ela demonstrava ter pelo seu, lhe dava uma sensação estranha, como se fossem ambos peças de açougue, carne num necrotério (…) Era madrugada quando, perturbado, ganhou a rua, sem ter  visto mais que um relance de Russo e Neide nus, na cama, o quarto com a porta escancarada, pensou em chamar o amigo, que não o via nem o ouviria, e envergonhou-se um pouco de, dali, poder ver, muito claras, as suas nádegas que se erguiam e abaixavam, no ritmo da penetração…”

Note-se que, enquanto nosso herói representou um aspecto passivo do sexo, sendo chupado, Russo por contraste é visto em plena potência de penetração, e são suas “nádegas” em movimento que dominam a cena entrevista.

Depois, há uma visita ao edifício onde mora Russo, que lhe apresentara—no bar—Carla, mãe solteira e moradora no mesmo prédio, que também tem uma queda por ele, mas mantida na condição de “irmãzinha” (a quem pede préstimos e empréstimos, no entanto). Russo por várias vezes meio que empurrara o “teacher” e Carla na direção um do outro. Um dia, nosso herói resolve ir até o apartamento dela. O episódio, um dos melhores momentos de O estranho no corredor, começa com um dos raros momentos de tentativa de autoafirmação do personagem:

“Erguer-se, rebelar-se. Não era justo que fosse sempre assim, quase indiferenciado, quase um nada, no cômodo dos fundos, ou lá na frente, ao lado de dona Graça, assustado com o mundo, compartilhando os chás, as sessões da tarde, os discos. Procurou uma de suas melhores camisas, vestiu uma calça, engraxou cuidadosamente os sapatos. Possível ficar bonito, com essa cara, esses óculos? Carla devia ter achado algum encanto nele, se Russo insistia (…) Algumas modificações, e seria aceitável ao menos.”

Essa intenção “positiva” começa a se esboroar quando percebe que Russo não participará do jantar no apartamento de Carla e que não consegue ficar “à-vontade” com a moça (que oferece outro dos raros vislumbres de uma vida pessoal que não seja a do protagonista, nessa narrativa quase claustrofóbica de tanto emparedamento individual): “Melhor seria nunca ter saído de casa, arriscado essa visita que não tinha uma razão muito clara…”.  O encontro a sós entre os dois tem uma pungência notável, sem que o autor o realce com qualquer melodramaticidade ou excesso [5]. Carla oferece a oportunidade para que ele entenda o residual e arruinado sex appeal de Russo, quando ela diz: “Nenhum rumo na vida. E tão bonito…”:

“Ele tentou imaginar como uma mulher poderia achar Russo bonito, mas o amigo, sem nada que parecesse beleza no sentido mais imediato, tinha sem dúvida uma dessas masculinidades inteiras e compressoras, afirmativas e displicentes, que atraem e perpetuam desejos…”

A visita toma um rumo sexual, mas da forma mais inusitada. Carla se despe para o “teacher”:

“__Não quero.

__ Faça por ele. Como ele faria.

__ Não sou ele.

__ Não serei eu…”

No final, a visita acaba como uma homenagem à masculinidade do amigo ausente.

2.              O sóbrio “umheimlich” de Chico Lopes

Amalgamando todas essas experiências derrisórias da capital, e como se materializasse toda a rejeição (ou o desafio que ele não pode peitar) que ela proporciona ao herói, há a figura do “estranho no corredor”. Apesar da atmosfera fora do comum (em especial, na mensagem marcando um encontro “domingo, às onze horas”), com algo do Poe de William Wilson, Lopes com grande inteligência arquitetou esse aparecimento do estranho, do sinistro, na  acepção freudiana (o “umheimlich”, em sua interpretação de O homem da areia, de Hoffmann) de uma forma não-fantástica nem sobrenatural, e ainda sim inquietante e acuadora. Qualquer que seja a interpretação que se dê a esse estranho no corredor, ele representa momentos de auto-percepção, de desnudamento do próprio personagem principal, e com isso o autor de Nó de sombras ganha a parada da verossimilhança e do uso de um símbolo, pois ele não precisa justificar com nenhum mirabolante recurso narrativo ou com nenhum truque de efeito na intriga urdida por ele a presença desse estranho, e não precisa dar a ele uma forma definida ou definitiva, mantendo o mistério (tanto que me ocorreram várias possibilidades durante a leitura, todas plausíveis—como, por exemplo, a tia ter um daqueles relacionamentos sexuais tortuosos e furtivos com o pai dele, cuja entrada na casa é ostensivamente proibida–mas  nenhuma que se justifique impor ao leitor).

Antes de vê-lo, é possível que nosso herói o tenha ouvido na infância, na casa da tia (não por acaso, a evocação vem em seguida à lembrança de atividades masturbatórias—sempre cercadas de muita culpa, ainda mais com uma tia tão castradora, e que uma vez o pegara em flagrante contemplação incestuosa):

“Incomodava-o agora a lembrança da noite em que—quantos anos tinha?—tivera a certeza de que alguém andava de cá para lá, inquieto, no corredor que ligava quarto e sala. O homem, alguém que de modo algum poderia ou deveria estar ali, acabaria por bater à porta, pedir para entrar—ele não querendo, haveria arrombamento. Encolhia-se por completo na cama, à espera do que de pior fosse decidido, suando. Nada. Os passos, no entanto, continuavam. Tiravam-lhe o sono. Eram pesados, bem definidos—inequivocamente masculinos—e impacientes.

   Quando decidiu, no meio da madrugada, levantar e abrir a porta, acender a luz do corredor com quanta coragem desesperada fosse possível, já nada mais ouvia. Estava vazio. Não conseguia crer que tivesse apenas sonhado. Precisava entender. Esperou a noite seguinte, outra e mais outra. Aprendeu a conhecer os passos, distingui-los com precisão infalível dos da tia (…) Os do estranho tinham uma qualidade singular, uma como que musicalidade escura. Havia uma identidade precisa ali, no seu visitante, mas como poderia sair dos cobertores que o embrulhavam e eram insuficientes para aplacar a sua tremedeira? Para decifrar o enigma, precisaria arremeter-se nos momentos mais duros, quando os sons do corredor eram totalmente nítidos e produzidos por alguém ou algo presente de modo inegável. Mas era nesses momentos que queria, que precisava morrer. Toda essa indecisão acabou, a presença desapareceu, a tia tinha trazido o padre e benzido a casa inteira (…) e ele nunca dissera a ninguém de suas cismas e terrores…”

Aí se podem ver a ambiguidade da casa da tia (refúgio e lar, mas também lugar de “coisas escuras que se movem por detrás”) e a pusilanimidade que destitui o personagem do seu estatuto viril, e que vai afetá-lo pela vida afora.

Anos depois, já na capital, o ouvido se torna uma visão:

“Andava pelo centro quando algo soprou em seus ouvidos, com um pequeno arrepio que lhe chegou pelo lado esquerdo da cabeça, que precisava olhar para trás, que era um caso instintivo de fazer isso ou não sobreviver. Ficou todo trêmulo, virou-se com muito medo e não demorou a avisar uma sombra bem definida. Ele estava lá, olhando-o, medindo-o, alto, sólido, quase blindado, encostado, com uma naturalidade arrogante, a uma porta de uma velha barbearia, espremida entre duas agressivas e atulhadas lojas de importados. Fumava, tranquilo, e o olhava com uma fixidez provocadora, com o despudor de quem examina clinicamente todos os ângulos de um objeto. A pose e o olhar diziam claramente que ele estava marcado. Para quê?”[6]

   Ao mesmo tempo, temos a sensação de pessoa acossada e também uma maneira de se distinguir do rebanho, da insignificância geral. Pode-se dizer que o estranho praticamente expulsa o “teacher” da capital, ao fazê-lo fugir, mas essa expulsão-fuga quase ganha foros de uma marca distintiva, transforma-o em “alguém”. Ele até mesmo, tenta, no capítulo 8,  num prurido de heroísmo meio à Charles Bronson, perseguir o estranho, contudo aborda o sujeito errado e o esforço o esmaga:

“Que força! Gozava de sua superioridade, nesse momento. Poderia, se quisesse, apanhar um pedaço de pau, ou uma barra de ferro—procurava o porrete olhando para os lados—e golpeá-lo com todos os golpes que quisesse, o suficiente para transformá-lo numa massa de carne e sangue informe, sem tanta capacidade de desdenhar, ali na rua, nos paralelepípedos. Mais passos, mais passos. Alcançou as costas, deu um tapinha cuidadoso nas espáduas (…) Não era ele (…) O estranho não disse nada, afrouxou aos poucos a carranca, dando-o por inofensivo o bastante para que retomasse seu caminho no mesmo ritmo, sem importar-se. Ele desabou numa escada para um trecho de casas idênticas, de onde ninguém o olhava, tapou o rosto e ficou ali, imóvel, por horas”.

2.a. A cidade do seu destino final[7]: o teacher se transforma no “filho do Terremoto”

“..que consolo poder voltar a um lugar tão pouco atraente, tão bom como esconderijo, anulação, fim de sonhos, de riscos!”

A partir do capítulo 12 (a novela tem um total de 19), nosso herói volta a V., sua cidade natal. Apesar de se acomodar novamente na casa da tia, com o mesmo regime sob o qual vivia antes de partir, já não é possível “lavar as mãos” do mundo, mesmo porque a partir daí o estado dele será meio que febril, e ele viverá num “estado de vexame” que os personagens de Dostoiévski (penso aqui em O duplo ou Memórias do subsolo, antepassados legítimos de O estranho no corredor) conheceram bem: ao diversas perambulações pela cidade, para descontentamento da tia cujo baluarte é a respeitabilidade,  confrontarão o “teacher” à figura do seu pai, e sempre de forma desfavorável, a começar pelo membro viril.

O primeiro confronto com a “fama” do pai acontece no bar do Azulão, cujo dono “sempre lhe parecera  um tanto grande demais, o tórax de cantor de ópera, um  bigode muito largo emendando-se às costeletas espessas, peludo, vermelho, hiperbólico (…) Queria não olhá-lo, queria não ter consciência de sua densidade, de seu tamanho, de uma existência que parecia reduzir a sua a uma irrisão aparvalhada.” Esse homem lhe dirá, provocando nele uma série de bravatas alcoólicas vexatórias que o afastarão cada vez mais do mundo da tia e o aproximarão do mundo do pai, ainda que sem os requisitos necessários, como já vimos:

“__ Porra, nem parece filho dele.

__ Por quê?

__Se fosse, saberia.

__ O quê?

__ Que este era o tango favorito do teu pai, homem. Você se lembra do Terremoto, né, Garcia?—disse ao freguês e ambos começaram a rir muito, e riam ainda mais de sua expressão de ignorância—Sabe, rapaz? Teu pai foi uma grande figura…

__Um grande gozador—dizia o freguês.

__ Ali, tudo era bem grande…—riu o cantor—Vinha gente aqui pr comprovar. Carregava uma régua, média pra que todos conferissem. Ele se divertia. Nunca houve nada parecido na região…

__Quero beber alguma coisa…

__O quê? Um guaraná, um copinho de leite com groselha?

__Conhaque. Aquele…

__ Caralho, parece que é herdeiro legítimo…—o homem o olhava, procurava os olhos do freguês, ambos pareciam  cúmplices de algum intento de zombaria de que só podia suspeitar e isso o irritava horrivelmente.”

Essa e outras cenas penosas parecem acentuar a desmoralização do personagem e, por extensão, a lição de alguns périplos ficcionais: de que o herói encontrará seu lugar longe das ilusões da capital, no seu rincão natal. Muito pelo contrário, parece que o fracasso da cidade se duplica e se complica em V., onde parece que o filho do Paiva, o filho do “Terremoto” não tem mais lugar, mesmo porque cada vez mais parece insustentável a sua permanência na casa da tia, saindo às escondidas, ou então saindo e não voltando, senão no dia seguinte, bêbado, amarfanhado, enxovalhado.

Entretanto, há um inesperado elemento de positividade nessa dolorosa etapa final da narrativa. Como já mencionei, o estranho que o afrontava na capital deixara ao “teacher” (justamente após a ida ao puteiro e à bebedeira que acarretaram recriminações de dona Graça, a locadora, ao ver seu hóspede de ressaca) um envelope com a indicação de um encontro no domingo, às onze horas.

A princípio, o filho do “Terremoto”  pensara ter se livrado do estranho na sua fuga a V. Aos poucos, ele se dá conta de que deseja o encontro, de que é um compromisso marcado ao qual não se pode furtar. É interessante que a expectativa desse encontro (não vou citar nada, para deixar ao leitor a descoberta de um belo momento da nossa ficção atual) se reveste de todos os elementos disseminados ao longo do relato: a casa da tia, sensaçãoes auditivas (as batidas na porta, gente querendo entrar na casa) até a presença efetiva do estranho se configurar.

Tendo a tia à janela (que muito provavelmente será fechada de vez), tendo se despojado da sua frágil dignidade não-viril, esse encontro parece abrir ao nosso protagonista a perspectiva de uma virada real em sua vida, para baixo (ser um bêbado contumaz e vexatório) ou para não se sabe onde,  as “promessas do breu” em direção a um rumo onde não há modelos distorcidos ou acachapantes, e no qual até sua sexualidade possa ser vivida de maneira menos crucificante e furtiva.

Os problemas certamente não são solucionados, mas a fuga ou o recolhimento, a sensação de segurança, o “conforto do acanhamento”.

Conclusão

“Passa-se uns anos longe, e eis novas lojas surgindo, lanchonetes sendo substituídas por outras lanchonetes, o banal pelo banal, o estúpido pelo estúpido, e sempre novas gradações de banalidade e estupidez e utilitarismo sem beleza se sucedendo, e em seguida, despojo, nojo, ruína, o aumento dos figurões donos de bustos e de nomes nos bancos dos jardins, um velho comércio de bugigangas sendo substituído por outras de 1,99 (…) Reconhecia um rosto, um corpo, uma certa voz que o cumprimentava. Não fazia tanto tempo assim que deixara a cidade e, ultimamente, o que ali consideravam progresso andava dando as caras, ´vamos todos passar um pelo outro sem nos cumprimentar pra fingir          que a cidade ficou grande´, dizia o dono de um boteco…”

Agora, feito o percurso, posso voltar à pergunta do preâmbulo: ainda é pertinente, ainda faz sentido, uma narrativa na feição “umheimlich” à moda daquelas, tão fascinantes, do século XIX, em plena segunda década do século XXI? Em plena era digital, com a garotada já de saída na vida manejando celulares, tablets e artefatos eletrônicos os mais diversos, decidindo a moda que deseja seguir, com as conquistas sociais efetivadas pelos presidentes do Real, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, com o mundo rural já tendo sido tragado pelo urbano, após um processo de industrialização que começou há meio século, ainda é pertinente uma abordagem desses miasmas interioranos, desses recalques recônditos, desses machos problemáticos de um Brasil que ficou para trás?

  Claro que sim, respondo, se já não ficou claro no decurso do meu próprio texto: qualquer um que conheça a realidade cotidiana brasileira, que ande pelas ruas, e veja esses peões com visual moderninho, mas comportamento retrógrado, jovens que aderem a velhos cafajestismos e comportamentos atávicos, mesmo “conectados com o mundo”, e não precisa nem ser nos grotões e igarapés deste nosso país (para utilizar algumas expressões favoritas de uma escritora que nada entende da realidade nacional ou de qualquer outra realidade que não seja a  da retórica, Nélida Piñon), aqui mesmo na Baixada Santista onde moro, encontramos esses miasmas camuflados pelos signos e adereços ostensivos do moderninho.

Houve mudanças, é claro. Mas, além de ir a Tóquio, Berlim, ao Cairo ou a Moscou para fazer apologia da globalização e escrever livros “antenados”, os escritores brasileiros precisam ainda dar conta do que permaneceu inculcado, atávico e deformante em nossa formação nacional. E isso O estranho no corredor realiza esplendidamente.

(18 de março de 2012, escrito especialmente para o blog)

nota especial- Os quadros reproduzidos neste post (com as exceções óbvias) são todos de autoria do próprio Chico Lopes, que assim mostra outra faceta do seu talento criador.

[1]              E  Se me for permitida uma nota pessoal, eu já trabalhei muito com essas narrativas em outros escritos meus, e até mesmo num curso (As margens derradeiras: textos do limite) e sempre pensei nelas como “narrativas derradeiras”.

[2]              Não é meu objetivo aqui fazer distinções qualitativas entre esses diversos autores, porém devo dizer que Chico Lopes se aproximaria mais, dentre eles, de um João Alphonsus, grandíssimo contista, e—pela linguagem concisa, afeita à precisão—de um Cyro dos Anjos, longe daquela coisa fuliginosa, prolixa , sobrecarregada e muitas vezes estilisticamente pobre que vemos em um Octavio de Faria ou  até mesmo num Lúcio Cardoso. Dito isto, Cornélio Penna é um gênio da nossa literatura, e seu apego peculiar à forma do romance é um caso excepcional.

[3]         Num diálogo paradigmático entre Russo e seu amigo, o “teacher”:

         __Quando a gente olha aquelas cidadezinhas na noite, em estradas da serra, acha que aquilo parece o lar prometido, um refúgio, um presépio, sei lá. Imagino que seria feliz com uma mulher, um filho, um empreguinho simples, uma casa pra morar no mato.

         __ Melhor ficar com isso na cabeça e não ir lá ver o que de fato existe.

         __ Que é que você fazia lá? Escritor, punheteiro, só ficando nisso?

         __ Não tinha outra saída.

         __ Continua não tendo.

         __Aqui ao menos não se é tão vigiado.

         __ Mas você se  comporta como se fosse, teacher. Não me engana, ora…”.  Diga-se de passagem, é um dos raros momentos em que O estranho no corredor nos permite acesso ao Outro, à sua existência concreta e irredutível, não apenas simbólica para o protagonista.

[4]              [4] Eu não sei se é proposital (acredito que sim), mas esse e outros momentos da narrativa de Chico Lopes dão a ela um ar atemporal, como se o que ali é narrado pudesse estar em qualquer ponto entre os anos 1960 e o nosso próprio tempo. Voltarei a isso na conclusão

[5]              A não ser num pequeno detalhe, um dos poucos deslizes e falseamentos de tom que eu já percebi em Chico Lopes, quando Carla—referindo-se à sua relação com Russo—diz: “Não é aqui o seu único porto. Quem sou eu, né? Nada de quebrar o tabu do incesto…”

A propósito, também acho pouco convincente uma fala da prostituta da pensão de Neide:

         “__ Me diz aí o que você quer…

         __ Paz de espírito, acho.

         __ Artigo que não tem por aqui.”

Não combinam com o universo de Lopes essas frases de efeito, essa intelectualização súbita de  personagens populares. Por outro lado, Carla me lembra um pouco algumas mulheres saramaguianas, como a Joana Carda de A jangada de pedra, a Blimunda de Memorial do Convento e outras mais, mulheres crispadas, sem ilusões, resignadas e com o seu quinhão comovente, mas prático acima de tudo, de ternura.

Aprovando  o “quesito defeitos”, também preciso salientar que certo traço caricatural excessivo me incomodou um pouco (por exemplo, na figura do intelectual glutão e arrivista, que visita a tia) e certos exageros generalizantes, que não ajudam muito a entender a complexidade das relações, como na caracterização um tanto sumária dos alunos da escola: “vindos do comércio, de famílias abastadas, quase todos adolescentes entediados e agressivos que acompanhavam as aulas raramente com atenção, felizes quando algum incidente ridículo quebrava o silêncio e a concentração nada duradouros. Ele tinha sempre uma pressa contida, exasperada, de acabar com as aulas, não ver os rostos desdenhosos (…) incomodado pelos olhares das garotas—que diziam claramene que le nada apresentava de sedutor” (sempre acho que esse tipo de caracterização vem dos estereótipos cinematográficos, pois quem dá aulas sabe que não é só isso).

[6]           “Fora   no fim da aula noturna, quando olhava para o cinzento nunca purificado pela chuva insistente de um prédio próximo, que sentira a presença às suas costas, os passos pesados, uma força que vinha em sua direção, alguém que emergia do escuro de um corredor—o homem.”

[7]         Faço aqui uma brincadeira com o título do romance de Peter Cameron,The city of your final destination (2002)

13/05/2012

15 DESTAQUES DE 2010

(uma versão reduzida saiu em A TRIBUNA de Santos de 04 de janeiro de 2011)

É sempre  bom esclarecer que quando um crítico propõe destaques entre as publicações de um ano, ele não está propondo uma lista de melhores, o que seria risível. Quem lê tudo o que se lança num ano? E se lesse, que tipo de pessoa seria essa?  Por exemplo, saíram em 2009 e são dois dos melhores livros da década  A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz, e Quando haverá boas notícias, de Kate Atkinson, e o leitor não os encontrará na minha lista do ano passado. O mesmo deverá acontecer com lançamentos de 2010, que não tive oportunidade de ler. Também não entrarão na minha lista obras que ganharam nova tradução, caso de reaparições importantíssimas, como  Walden, de Thoreau, nas mãos especialíssimas de Denise Bottmann, ou as novas versões dos romances de William Kennedy (A grande jogada de Billy Phelan & Ironweed), ou de Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow, ou ainda de A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov, só para citar alguns; ou então  novas edições de autores essenciais (é o caso de dois lançamentos primorosos do ano que acabou, os Contos Completos de Lima Barreto e a edição conjunta de Diário do Hospício  & Cemitério dos Vivos).

Tendo em mente essas limitações, eis 15 lançamentos imprescindíveis do último ano (em comentários sumários e necessariamente superficialíssimos):

1)Sartoris, de William Faulkner (CosacNaify)-  Romance fundador, que em 1929 deu início à saga da decadência sulista, representada pelo mítico condado de Yoknapatawapha, um dos lugares fundamentais da ficção,  e em que a obsessão do maior escritor norte-americano pelo tempo se traduz numa narrativa  caleidoscópica fascinante.

2) Verão, de J.M. Coetzee, e Invisível, de Paul Auster (Companhia das Letras)-  Dois dos mais notáveis escritores da pós-modernidade no auge de sua maestria, em relatos que se aproximam do limite do relato tal como conhecemos.

3) Memórias Inventadas, de Manoel de Barros (Planeta)- Um poeta que se recusa a sair da infância e vet o mundo e a linguagem  com outros olhos que não sejam os da não-domesticidade, do não-conformismo. O resultado é uma poesia-brincadeira-infantil muito séria e contundente. Neste ano também, pela Leya saiu a sua Obra Completa, a qual preencheria um ano todo da vida de um leitor.

4) O arquipélago da insônia, de António Lobo Antunes (Alfaguara)- O mais lírico e pungente dos livros ciclópicos publicados pelo grande autor português nesta última década, chegando ao requinte de ter um narrador autista. Também prova cabalmente como a lição de Faulkner foi fecunda. Mas poucos o seguiram com tal radicalismo.

5)A câmara de inverno, de Anne Michaels (Companhia das Letras)- Finalmente, depois de mais de uma década,  o segundo romance da fabulosa autora canadense, que já criara um fascinante deslocamento geográfico em  Peças em fuga. Memória, esquecimento, conservação, deterioração, os opostos se atraem nessa autêntica poesia da prosa, incursão bissexta no gênero narrativo de uma poetisa consagrada.

6) Senhores e Criados e Outras Histórias, de Pierre Michon (Record)- O grande autor francês, de Vidas minúsculas, aproxima a ficção  da pintura e do relato biográfico, em três textos, pelos quais circulam figuras como Van Gogh, Goya, Watteau, Piero della Francesca ou Claude Lorrain. Michon é da estirpe de um W. G. Sebald ou de um Claudio Magris.

7) Um homem apaixonado, de Martin Walser (Planeta)-  Uma bela incursão pela alma, mente, espírito e corpo de Goethe, o qual, septuagenário, se inspira na sua paixão por uma mocinha de 19 anos para compor um de seus mais famosos poemas. É o eros da criação contra a aproximação da morte, e aí não importa tanto se a paixão biográfica foi bem sucedida ou não.

8) A morte de Matusalém, de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras)- O maior contador de histórias curtas da 2ª. metade do século XX em plena forma, tanto nas incursões sobrenaturais, onde mergulha no imaginário judaico, quanto (ou sobretudo) nas soberbas narrativas realistas.

9) Hóspedes do Vento, de Chico Lopes (Nankin)- Talvez o mais talentoso contista  brasileiro surgido nesta década, em sua terceira e mais equilibrada coletânea, após os talentosos Nó de sombras & Dobras da noite.

10) Sabres e utopias, de Mario Vargas Llosa (Objetiva)-  Uma chance de conhecer o pensamento político do incontornável vencedor do Nobel de 2010, sem que necessariamente tenha de se concordar com ele.

11) A questão dos livros, de Robert Darnton (Companhia das Letras)- magnífica reunião de ensaios  do historiador norte-americano onde ele discute o passado, o presente e o futuro do livro e do conhecimento enciclopédico.

12) Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- Quanto mais vou conhecendo a obra de Vila-Matas, mais vou achando que ele é um dos grandes nomes da literatura atual. Este talvez seja o seu livro mais ambicioso.

Hors concours: 2666, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras) & Os embaixadores, de Henry James (CosacNaify)- O que teria em comum um romance escrito por um Chileno e que transcorre num México microcosmo da nossa época, e um romance  em que James nos mostra o problema do cosmopolitismo, a problemática convivência entre americanos e europeus? Simplesmente são os romances mais ambiciosos escritos na década inicial do século, no caso de Bolaño, o nosso próprio século, e no caso de James, o século passado, e que parecem esgotar as formas narrativas em curso.

Feliz 2011 e um monte de leituras para todos.

22/04/2012

As margens derradeiras: “Eu vi com meus próprios olhos”

DUAS RESENHAS SOBRE A VOLTA DO PARAFUSO

acesse também http://www.naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/04/o-parafuso-jamesiano.html

e NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-romance-mais-fascinante-de-henry-james-duas-resenhas-sobre-as-asas-da-pomba/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/04/a-taca-de-ouro-e-a-arte-do-romance/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/o-que-james-sabia/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/18/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-primeira-parte/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/19/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-segunda-e-ultima-parte/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/mais-uma-vez-com-que-roupa/

(resenha publicada em  A TRIBUNA  em razão do centenário de A volta do parafuso, em 15 de dezembro de 1998)

Apesar de Freud (e de qualquer observação direta da realidade) ainda há um senso comum sentimental que insiste na “inocência” natural das crianças. Nada menos verdadeiro (o que não significa que elas não sejam seres vulneráveis, que precisam de proteção). É justamente a revolucionária percepção da maldade infantil que mantém intacto o impacto de A volta do parafuso (The turn of the screw, 1898), obra-prima de Henry James (1843-1916) que está completando cem anos (e inaugura, em tradução de Olivia Krahenbühl,  uma coleção de literatura fantástica da Ediouro, a “Biblioteca de Babel”, inspirada num empreendimento similar de Jorge Luis Borges).

A volta do parafuso é uma história de fantasmas: a narradora nos conta como foi mandada para Bly, propriedade rural do seu empregador, para cuidar dos seus sobrinhos órfãos, Miles e Flora, ambos encantadores, lindos e perfeitos (como o tio). Uns anjos!

Tudo estaria bem e acabaria bem e a preceptora dedicada cumpriria seu dever (lema geral da época vitoriana), se Miles não tivesse sido expulso do colégio, por razões obscuras (mas desonrosas), e se ela mesma não começasse a testemunhar aparições de dois empregados falecidos (também de forma obscura e desonrosa): o guarda-caça Quint e a preceptora, miss Jessel.

São sempre aparições silenciosas – e presenciadas apenas pela narradora, o que deu margem a uma linha de interpretação do livro que se baseia na não-confiabilidade do relato dela, tal como acontece também em Dom Casmurro: primeiro, ela vê Quinn na torre do solar e, dias depois, olhando pela janela; depois, miss Jessel aparece na outra margem do lago (e temos mais uma dama do lago bem dentro da tradição romântica inglesa, inclinada ao gótico e ao lúgubre); as próximas aparições de ambos serão dentro da casa, na escada; mis Jessel ainda aparece na sala de estudo das crianças; sua última aparição é novamente no lago; as aparições finais são de Quinn, novamente na janela (“qual uma sentinela diante de uma prisão”), no clímax da história, envolvendo a preceptora e Miles, uma das cenas mais impressionantes da literatura.

Portanto, ao todo, nove aparições fugazes; suficientes, porém, para causar terror à personagem e um clima opressivo à narrativa. A originalidade insuperável de A volta do parafuso reside no fato de que o terror e angústia do que é contado se afastam das aparições sobrenaturais e voltam-se para o comportamento das adoráveis crianças.

No meu entender, há um processo de desmascaramento da auto-ilusão na trama: a narradora quer cumprir seu dever, como boa vitoriana, e concebe essa meta de forma romântica, deixando-se ofuscar pelas aparências (a charmosa figura do patrão distante,as crianças “especiais”, “abençoadas” com todos os dons da natureza e da condição social). Ora, tudo o que uma aparição de fantasma não pode ser é natural. E, diante dessa bizarra violação do que seria devido, lícito e correto no transcorrer das coisas, a preceptora é forçada a ver o avesso das aparências (ainda que insistindo na sua aura de heroína romântica). Ela começa a perceber que, deixadas à sua própria “natureza”, seus pequenos patrões, como todas as crianças, mas especialmente as privilegiadas por um sistema social injusto, são malvadas, cruéis e perversas. O terror de A volta do parafuso é que o mal aparentemente encarnado pelas aparições está nas supostas vítimas, assim como o monstro era o avesso do médico, na clássica história de Stevenson (não por coincidência, produto do mesmo período histórico).

E que mal é esse? Como não podia deixar de ser, em se tratando da época vitoriana, é o da sexualidade que não se reprime e que borra o agradável quadro das aparências, da integridade do caráter e das classes sociais rígidas. Sexualidade que assume um evidenciamento escandaloso no casal falecido, que se tornara uma espécie de casal de pais substitutos para Miles e Flora (e os prolongamentos dessa linha de raciocínio são ainda mais assustadores para a moral, pois Quinn está sempre à procura do menino).

O rendimento literário da ambigüidade dessa situação é tremendo: tudo fica na sombra, no reino do possível, do que não pode vir à baila de tão impensável, embora possa perfeitamente ter ocorrido. É o assunto onipresente entre a narradora e sua confidente, a cozinheira, miss Grose, as quais estão sempre falando “do que não pode ser dito”, uma especialidade de James, basta ler Pelos olhos de Maisie e As asas da pomba.

Enfim, o agora centenário A volta do parafuso (também conhecido no Brasil, em outra tradução, como Outra volta do parafuso, vá saber por que, e também como Os inocentes, por causa da magistral adaptação cinematográfica, escrita por Truman Capote, estrelada por Deborah Kerr –num grande momento—e dirigida por Jack Clayton) é mais uma prova de como a literatura do século passado revelou coisas essenciais sobre o “infraturável caroço de noite” que habita em nós, humanos. Desde a infância.

(resenha publicada originalmente  em   ATRIBUNA de Santos, em três de agosto de 2004)

     Uma boa idéia que vem se ampliando nos últimos tempos é o lançamento de edições bilíngües. É o caso da nova tradução (de Chico Lopes, pela Landmark) de A volta do parafuso, até hoje o texto mais conhecido do norte-americano Henry James aqui no Brasil, mesmo que já tenham sido traduzidos recentemente obras-primas como Retrato de uma senhora, What Maisie Knew- Pelos olhos de Maisie, As asas da pomba, A taça de ouro, A fera na selva, O desenho no tapete, Os papéis de Aspern.

E quem assiste à teve a cabo está sendo bombardeado com versões cinematográficas moderninhas e lastimáveis (inclusive uma, particularmente bizarra,com Lauren Bacall como a cozinheira-confidente) dessa fascinante investigação sobre o Mal, irmã daquela outra grande novela (aquela forma intermediária indefinível entre o conto e o romance) da mesma época, O coração das trevas, de Joseph Conrad. A leitura das duas em conjunto é uma experiência e tanto.

A narradora e protagonista é uma jovem preceptora, cheia de idéias românticas a respeito do patrão, ao qual mal chega a conhecer, e que  a manda para a longínqua Bly a fim de cuidar dos sobrinhos órfãos, Miles e Flores, as crianças mais encantadoras do mundo.

Além da fixação no patrão, ainda há a determinação de cumprir o dever, uma obsessão da era vitoriana. O problema é que toda essa harmonia, a perfeição das crianças, a engrenagem do dever sendo cumprido, é corroída pela suspeita de uma sutil corrupção sexual efetivada por um casal de criados, Peter Quint e a miss Jessel. Só que eles estão mortos!

Decidida a enfrentar esses fantasmas, a jovem heroína passa a ser uma presença  tão opressiva na casa que o leitor se pergunta se a luta contra o Mal e a perversão não pode conter em si o Mal e a perversão também. Mesmo porque em nenhum momento da trama temos outro personagem que tome a palavra para nos dizer que está vendo os tais fantasmas: “O que me parecia o mais impossível era eu me livrar da idéia de que, o que quer que eu tenha visto, Miles e Flora tinham visto muito mais coisas terríveis e inimagináveis que emergiam das tenebrosas passagens que tinham tido com a dupla no passado”.

A partir de textos  A Volta do Parafuso, o também contemporâneo Dom Casmurro, surgiu uma categoria do foco narrativo (o ponto de vista pelo qual se conta uma história): o narrador não-confiável. Isso obriga o leitor a garimpar nas entrelinhas a possível verdade dos fatos (Capitu traiu? não traiu? Os fantasmas existem? não existem?), o que combina como uma luva com autores que preferem o alusivo e o oblíquo, como James, Machado de Assis ou o Joseph Conrad de O Coração das Trevas (também dessa época), que podem ser considerados a suprema trindade da virada do século XIX para o XX.

Marguerite Yourcenar costumava se ocupar todos os anos de  A Volta do Parafuso. É realmente um dos livros que mais demandam um ritual desses. E cada tradução ajuda a raspar mais uma camada dessa arqueologia do nosso inconsciente. A encrenca é que Henry James tem muitos outros textos que, após serem lidos, tornam-se releituras obrigatórias. E onde encontrar os anos?

17/03/2012

Onde os fracos não têm vez

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https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/destaque-do-blog-hospedes-do-vento-de-chico-lopes/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/15-destaques-de-2010/

“Era o que havia de melhor: um mundo de heróis másculos, nutridos, movendo-se muito além do seu. Servia a um deles –não era natural que todas as mulheres o quisessem, o amassem? uma até o comparara a Tab Hunter. Esmagado, ainda não nascera,  não merecera um olhar feminino. Era gordo, fugia às aulas de Educação Física para não ter as pernas curtas e roliças ridicularizadas, para que não lhe apontassem a barriga, e os doces lhe comiam os dentes.  Não importava; vingava-se com as idas ao cinema, copiando os gibis a lápis de cor, espiando Olavo com seus halteres.”

(“O recado”, em Nó de Sombras, de  Chico Lopes)

No filme Laura, de Otto Preminger, o herói, um detetive da polícia, se apaixona (é o que pensamos) por uma mulher morta, a fascinante Laura do título, cuja imagem o obceca. Com o desenvolvimento da trama, porém, essa “área de sombra”, por assim dizer, é iluminada pela constatação sadia: ele não amava uma morta, pois no final das contas, Laura continuava viva e o heroísmo do detetive saía fortalecido.

E se, no entanto, o herói não fosse confirmado por nada? E se o seu desejo, o seu anelo, o seu afã mesmo, permanecessem fantasmáticos e patéticos, e ainda por cima ancorados numa fraqueza interior, numa auto-imagem de insuficiência e vácuo, um “nó de sombras” que jamais se iluminasse?  E mais, e se houvesse no mundo uma figura que fosse o lembrete sempre vivo de toda essa desvirilização, desse nó, dessa falta de competência para aspirar a um lugar definido neste mundo ainda tão patriarcal, em que o “macho” da espécie ainda não definhou completamente, apesar dos “pós-tudo” tão insistentemente alardeados?

A citação que abre este texto, retirada do último dos dez contos de Nó de Sombras (2000), coletânea que marca a estréia literária de Chico Lopes, deixa ver de imediato as cartas do meu jogo de interpretação e análise: através de sutis variações, temos o mesmo tema insistentemente retomado; tanto que uma primeira leitura dá a impressão errônea de samba de uma nota só, de monocordia, o que só uma segunda leitura, mais atenta, provará ser errônea: pois não temos tantos heróis insones, que andam para lá e para cá pela cidadezinha onde moram, apartados de todos, mas sem possibilidade de escapatória, presos numa rede provinciana e sufocante (e muitas vezes imbuídos de uma sensação de pesadelo, ampliado pelo uso do álcool, último recurso desses lúcidos desesperados), “à espera da morte sob um sol maravilhoso, numa cidade a mais salutar possível”, e no entanto, apesar da alternativa lógica, “Para que ficar? Mais um cigarro, era voltar para casa tomando outros quarteirões, mas os desvios sempre sem atrativos,  desesperadamente iguais, meu Deus, há tantos anos tinha pensado em ir embora da cidade, mas ficara demais, ficara tanto que outro mundo, outros hábitos, eram impensáveis...”

O  que aperta ainda mais esse nó dos protagonistas de Chico Lopes é a existência de uma “assombração fechada”, o “meu não”, o “meu nojo”, como diz o narrador de Um corpo no rio sobre o amigo viril e bruto, Nuno, que ele se sente obrigado a matar, para afirmar o pouco de si, só para no final, beber como ele (quando antes, nada bebia) e parecer com ele, na decadência, no declínio.

O espantoso em Nó de Sombras é a maneira crua como Chico Lopes descortina essa “coisa aberrante e esquiva” que condiciona a (de) formação do homem-macho: poucas vezes li essa problemática da afirmação masculina do mundo de modo tão transparente, sem que fosse pelo espelho do homoerotismo. Por isso, já vou desatravancar o caminho e dizer que não é por essa pista que entenderemos os homens complexados e mutilados desses contos, ainda que a presença do pênis, no sentido de exibição, de poder, de intimidação, de recalque, de umbigo do mundo, ser quase tão evidente e avolumada quanto num texto de Jean Genet. Mas é que a camaradagem masculina, e até o desejo pelas mulheres e até mesmo a temível solidão, passa por essa “medição de tamanho”, por mais estranho que pareça, por essa competição a olho nu, por essa visibilidade do espaço fálico que se ocupa no mundo. Não é à toa que o relato em Um corpo no rio começa com Nuno, o viril, obrigando o narrador a abaixar as calças e mostrar o “seu”, numa humilhação que será a tônica dessa “camaradagem”. Não é à toa que nesse mesmo conto, o revólver (instrumento do suicídio do pai, tentação para o suicídio do narrador) é sexualizado, de uma forma que lembra a coerção da presença viril desse camarada tão odiado, presença que o desviriliza, que o violenta psicologicamente: “Temia um pouco tocar naquilo, de repente. Ia ser contagiado pela impressão de que parecia inchado, palpitante”.

    Esse conflito é levado às últimas conseqüências em Nos fundos:  o protagonista acolhe um mendigo maltrapilho em casa, já pressentindo nele um poder sobre si, que  o subjugará, fará com que se permita ser explorado, humilhado e provocado zombeteiramente, até que, num ato final de rendição, ele se deixe castrar pelo intruso a quem conferiu tanto poder.

Em contrapartida, é a visão do pai progressivamente se desvirilizando (“numa manhã apareceu-nos à mesa do café sem o bigode…quem era esse cinqüentão pueril?…Parecia um aposentado precoce com suas chinelas, seu pijama, o sono fácil, o gosto por comer muito e deixar-se engordar”), em A fresta, além da incomunicabilidade tácita estabelecida entre eles, como acontece com as demais relações pai-filho nesses textos, que fará com que o narrador se resolva a ir embora de casa, mas primeiro “medindo-se” com o pai. Vale a pena transcrever a reveladora passagem:

“O quintal.  Não o esperava encontrar tarde da noite ali. Lá na frente, a sombra alta, cabeça voltada para o quintal dos novos vizinhos, acreditava-se à vontade, longe de todos,  protegido pela hora avançada.  À minha aproximação,  surpreendeu-se –estava urinando e, envergonhado,  a noite muito clara,  devolveu o sexo à braguilha, trêmulo… eu tinha visto o bastante para emocionar-me,  sentir-me unido a ele e também um pouco humilhado.  Decidi também urinar e empinei-me.  Teve que olhar, avaliar, coçando a cabeça, embaraçado. Quando guardei o meu,  concedeu-me um sorriso de aprovação: eu não tinha por que me sentir diminuído. Olhamos ambos para a janela que fôra a de Alzira:

__Pai—eu disse.

__O que é, rapaz?—pôs a mão no meu ombro timidamente.

__ Eu vou-me embora daqui.”

A fresta é um dos três belos textos que encerram a coletânea (os outros são O clarão e O recado, os meus favoritos). Todos os três, ao contrário dos demais, se voltam para ritos de passagem, e se concentram no final da infância e na adolescência, no limiar da vida adulta. Mas a vida adulta tal como aparece nos contos anteriores lança uma sombra sobre as perspectivas que esses três relatos abrem, e é bastante significativo que A fresta se inicie com uma sobreposição de tempos, e a perspectiva do presente não parece nada animadora: “…isso é agora ou então? Tenho dormido pouco e minhas idéias andam assim duvidosas entre um tempo e outro, e não conto com ninguém  para conversar, dissipar irrealidades…” Estamos num círculo ao que parece totalmente fechado, o ir-se embora do final não garante nada, assim como a irônica paz doméstica que se segue a um período de atribulações (justamente o da formação do narrador), em O clarão: o irmão do pai, o protótipo do sujeito desvirilizado e desprezado desses contos todos, vai morar na casa, e, apesar da condescendência do irmão, que o protege, vai definhando, odiado pela cunhada, que aproveita sua presença para extravasar ressentimentos e coopta o filho para o seu lado, contra o poder do pai. No final, ela “vence”: o cunhado morre, o marido a deixa em paz, arriado por um luto misteriosamente intenso pelo irmão falecido, que era justamente o seu oposto, só que o filho está pronto para repetir a sina do tio…E se tornar um desses homens-fantasmas, o velho de Parque dos cães; o  narrador de O quarto e a rua; o narrador de Um corpo no rio; o protagonista que se dispõe a ser castrado, de Nos fundos; o protagonista que não quer ter medo, que quer enfrentar o seu nó de sombra, de Do outro lado (o meu terceiro favorito do livro); o viúvo de Uma das mil noites.

Embora tenha um dos fantasmas da masculinidade, o conto Parque dos cães  cria um efeito mais multifacetado, ao contrastar “o velho das roupas azuis” com outros passageiros de um mesmo ônibus (um fanático religioso, que já deixa entrever todos os problemas de “medição” e “tamanho”, que são tanto um índice de sensação de insuficiência na vida quanto marcas de pulsão sexual; uma mulher que parece egressa das peças de Tennessee Williams, e um estuprador): A gaveta é o que se afasta mais dessa reiteração angustiante, mas também tem uma figura masculina equívoca, no sentido de que sua exibição de virilidade, presença masculina segura e certeira no mundo, seduzindo mulheres incautas, adquire um toque ironicamente sobrenatural, pois se trata de um recorte de revista (aliás, o sobrenatural também roça o final de Do outro lado; diga-se de passagem, Chico Lopes capricha bastante nos seus finais, mesmo contos de que gostei menos, como o já citado Parque dos cães e Uma das mil noites, se valorizam bastante com o efeito final; só há um que me insatisfaz quase que totalmente, O quarto e as ruas, pois eu tenho a impressão, nele todo, como em passagens isoladas de outros, que não só estou lendo uma temática já vista em autores mais antigos como João Alphonsus, Rosário Fusco, o primeiro Érico Veríssimo, como também a linguagem parece ser a daquela época, em que a introspecção e o intimismo tingiram a prosa do Modernismo).

E O recado, embora não destoe da temática geral, uma vez que mostra mais um candidato à desvirilização e à condição fantasmática, o menino gordo e fraco que é criado pelo irmão mais velho, um galã local, e que é encarregado de dar um recado a uma suposta amante, uma espécie de Malena (aquela do filme do Tornatore), desejada por todos, tem um final, que mistura angústia e promessa, uma sensação quase opressiva com uma espécie de vastificação do mundo interior. A mulher a quem o menino dá o recado, fica revoltada com a defecção do irmão gostosão e a certa altura beija o portador do recado frustrante:

“…ela o enlaçou pela nuca e tomou-lhe a boca.  Então, aquilo era um beijo: crueza de cuspe, de sabor de bebida,  dentes, carne, carne, carne, lábios rachados, avidez de sumidouro e mais rancor. Essa boca, que o aniquilava,  demorou a desgrudar-se. Depois ela o empurrou—Agora pode ir…

    A subida dos bambuzais , na volta, talvez duas da madrugada, foi lenta. O desejo lhe doía nos rins,  mas a lembrança na boca lhe parecia uma fonte infinita de asco.  Não tinha um lenço para limpar, limpar, talvez arrancar, os lábios.  Tinha de suportar ir até a linha de luz da cidade, carregando o encanto e o nojo. Ela também o incumbira.”

Num mundo de “atestados de insignificância”,  de ruína ontológica”,  de vácuos que imploram”, de um vácuo que ganisse”, esse momento pode ser um dos “fundamentos da sombra” mas se parece também com uma porta aberta para a vida, para suas possibilidades. O nó de sombras e a linha de luz da cidade.

(escrito em 14 de junho de 2010 especialmente para o blog)

Destaque do Blog: HÓSPEDES DO VENTO, de Chico Lopes

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/onde-os-fracos-nao-tem-vez/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/23/o-conforto-do-acanhamento-e-as-promessas-do-breu-o-estranho-no-corredor-de-chico-lopes/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/15-destaques-de-2010/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de agosto de 2010)

Jorge Luis Borges afirmava que Henry James era um “habitante resignado do Inferno”.  Ao longo das coletâneas Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004), Chico Lopes—não por acaso tradutor e admirador do autor de A Volta do Parafuso—delineou muito claramente o “Inferno” específico por onde se movem seus personagens. Em termos espaciais, ele poderia ser circunscrito pela seguinte passagem, que consta do seu terceiro livro, Hóspedes do Vento, lançado este ano (pela Nankin):

“Gente espremida, coisas que a nova cidade encurralava com bares, lanchonetes, carros estacionados com toca-fitas estrugindo música sertaneja, lojas de 1,99, de conveniências, e difícil chamar de footing o que havia na rua 15 de Janeiro, mas uns remanescentes, de idade indefinível, ainda subiam e desciam. Sem esperar mais nada, cumpriam a rotina por nunca terem tido outra coisa ou imaginação para sequer cogitar dela. Milagre que ainda andassem para cima e para baixo, sem rumo, que não fossem nomes nos anúncios da funerária, colocados nos principais pontos da rua”

Ou seja, o espaço urbano das pequenas cidades interioranas tornou-se “moderninho” como qualquer lugar do planeta, entretanto não eliminou as almas perdidas, os fantasmas, a má consciência quase mítica que ficou de uma época espremida entre um tradicionalismo sufocante e uma transformação célere, sobretudo espetaculosa, sem atingir de fato os alicerces da repressão sexual, dos recalques, das fantasias, dos fetiches; enfim uma realidade em que um dos personagens de Dobras da Noite pode confidenciar a outro: “Parceiro, foi aqui que eu entendi direito o que é solidão, o que significa ser uma alma penada”. Ou, como lemos na nova coletânea, “Mágoa de que viver fosse isto—um eterno suspiro por uma não-existência, por algo cuja comprovação jamais fora possível”.

Homens cuja “falha trágica” é a virilidade débil e titubeante, arrastando-se de bar em bar, gays, mulheres solitárias, os personagens de Hóspedes do Vento se arrastam pelo “Inferno” inscrito vigorosamente por Chico Lopes no mapa da nossa ficção contemporânea, porém de uma maneira a princípio mais fluida, menos espessa e irrespirável, do que nos  volumes anteriores.

Dos treze contos reunidos, boa parte se constitui de textos curtos, de grande precisão técnica e nos quais o foco narrativo feminino é bastante explorado:  homens-fetiche de masculinidade, assovios incitadores, povoam as histórias de O assovio, O nome no ar, Perdendo Heitor. Enquanto isso, rapazes passam por testes de virilidade, sempre aquém das imagens do “macho da espécie”, triunfante e dominador, em A mulher do cantor (onde se exercita uma espécie de narrativa à Vargas Llosa, em que uma colóquio conduz a narração) e O quarto da atriz (o melhor dos textos curtos de Hóspedes do Vento, a meu ver, e do qual eu extraí a longa a citação acima sobre o espaço urbano): “Encostei-me àquelas paredes, excitado, esgueirando-me para frente, para finalmente ficar junto à janela, passar os dedos sobre sua madeira, afagá-la, descascá-la mais um pouco. Era preciso urinar, urinar livremente, para tornar tudo isso mais completo.Era meu, era eu”.

A certa altura do livro, os contos vão ficando maiores e se espessando. Chico Lopes parecia ter conduzido o seu leitor para um caminho mais leve e menos áspero… ledo  engano, era apenas um atalho para encurralá-lo novamente nesse seu universo em que noite e a sombra se dobram e formam nós inescapáveis. E dessa vez, o envelhecimento, a realidade bruta da morte enquanto possibilidade, aparece como um componente muito presente, caso de Dois no Espelho, no qual a aparente superioridade de um velho heterossexual sobre um equivalente homo se esfuma.

E aí então três contos logos e maravilhosos se encarregam de recolher os leitmotivs semeados ao longo da sua trajetória ficcional, amplificando-os e tornando-os vertiginosos: todas as mulheres dos outros contos e seus “heróis” másculos se condensam na procura fantasmática da protagonista de A terceira porta, todos os homens tíbios e acossados (agora inclusive pela idade e pela “indesejada das gentes) podem ser representados pelo Max de A recusa, o qual movido pelo seu nome de conquistador (Maximiliano, assim como outro personagem, o de O caso dos pés, prefere o nome estrangeiro e de general vencedor, Wellington, em lugar do verdadeiro, de que ele se envergonha tanto, como símbolo da sua pobreza e insignificância), disputa uma garota muito, mas muito mais jovem, com outro galanteador maduro (só que mais vulgar e truculento) até que se vê acossado pelo pavor primordial:

Não quer dormir, a idéia vem assustando-o ultimamente, desde que começara a ter pesadelos, desde que começara a achar que esse prédio—um dos mais antigos da cidade—fora má escolha, nesses três anos. Mudara muitas vezes de endereço, nada o satisfazia, e achara, no início, que ali estaria bem, próximo a tudo, todos os ruídos, a vida da cidade a subir-lhe pela janela, mas um esconderijo tranqüilo; a vista dava-lhe uma sensação de domínio, era o último andar, mas a verdade é que havia velhos demais, que pela noite adivinhavam-se tosses, servidões, vísceras inquietas, movimentos nauseantes, naquelas mulheres divorciadas, viúvas ou simplesmente solitárias pela vida toda, naqueles senhores que pareciam estar sempre indo e vindo de hospitais, gente que por vezes aparecia pálida no elevador, gente que tentara se aproximar dele, mas fora repelida e mantinha agora um olhar ressentido e malévolo, bem metido, esse aí, ouvira um ex-vereador dizer entre dentes, e os corredores, e o mofo difícil de debelar, e um cheiro de coisas deixadas, acumuladas, perdidas, furtivas, escamoteadas, restos obscuramente fatais a impregnar paredes, a tornar os corredores anormalmente vivos e de uma melancolia ameaçadora. Por vezes, ao descer do elevador, a luz automática não funcionava, e parecia demorar demais a chegar a seu apartamento, parecia que teria que lutar contra densidades no ar; um ondular de forças, de lembranças, olhares, pequenas bocas borradas de batom, ávidas de sugar, pedaços de cabelos, pernas, fragmentos de muitas almas que se interpunham entre ele e a porta, até que, finalmente, alívio, a abrisse.”

 

E no outro ponto alto de Hóspedes do Vento, os rapazes todos obcecados com seus ritos de passagem, que povoaram todos os três livros de Chico Lopes (o que já rendera um dos seus melhores contos, Cavalo e Sombra, de Dobras da Noite) se cristalizam no narrador de Estrela de Junho. Temos ao mesmo tempo Paraíso (através da rememoração quase proustiana), Purgatório e (o já esperado) Inferno: hipocrisia, disse-que-disse, desejos reprimidos e no entanto um lirismo que nos permite ver, ouvir, sentir, pressentir, quase cheirar essas reminiscências, nas quais encontramos esta bela passagem (que aparece após um escândalo “sexual” na festa junina principal da cidadezinha , ainda num tempo sem “gente espremida, coisas que a nova cidade encurralava com bares, lanchonetes, carros estacionados com toca-fitas estrugindo música sertaneja, lojas de 1,99, de conveniências” ):

[meu pai] “sorria para si, lembrando de algo bem preciso e cômico que não ia me contar; cuspia de lado, ria outra vez, batia com força no meu ombro; gostava que a minha cara de inexperiência ficasse u pouco corada, que tivesse o que me ensinar.

      Mas, quanto ao que eu aprendia, era obscuro…”

Portanto, apesar das novidades, da variedade maior, da técnica ainda mais apurada, Chico Lopes nos faz sentir o mesmo que o personagem de Certo pássaro Noturno, que fecha com honra o seu melhor livro: “Mudara de estado, embocara em outra geografia, e por isso era estranho que, de repente, ao abrir um pouco mais a janela, parecesse estar voltando a um quadro bem conhecido….” Sorte para nós, leitores.

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