MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2016

Destaque do Blog: OS PAPÉIS DE ASPERN, de Henry James

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«Essas coisas me atingiram então quase com a palpitação que haviam causado, os sucessivos estados afetando minha consciência de tal modo que, quando a porta do aposento se fechou atrás de mim, julguei estar realmente face a face com a Juliana de algumas das mais primorosas e célebres poesias de Aspern. Eu fiquei acostumado a ela posteriormente, embora nunca completamente; mas, enquanto ela se manteve lá diante de mim, meu coração bateu tão disparado como se o milagre da ressurreição houvesse acontecido em meu benefício. Sua presença parecia de algum modo conter e expressar a própria presença do poeta e, naquele primeiro momento em que a vi, eu me senti mais próximo a ele do que nunca sentira um dia nem sentiria futuramente».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2016)

Este ano é marcado pelo centenário da morte de Henry James. De sua grandiosa obra, o mais recente lançamento (pela Penalux), em nosso país. é a versão de Chico Lopes para Os papéis de Aspern (“The Aspern Papers”, 1888)[1], no qual um editor que idolatra um grande poeta já falecido[2] consegue infiltrar-se — em Veneza — no desolado casarão onde vivem obscuramente a idosa Juliana Bordereau (amor da juventude de Jeffrey Aspern) e Miss Tina[3], uma sobrinha solteirona, com o objetivo de se apossar de supostos documentos (correspondência, manuscritos inéditos) que enriqueceriam a fortuna crítica e biográfica do cultuado autor.

   «Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida». Esta frase, de O altar dos mortos (1895)[4], revela o cerne do universo jamesiano, povoado por relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi” sobre o que “é”.

Nesse sentido, como romance curto, Os papéis de Aspern é exemplar como introdução, sintetizando vários desdobramentos obsessivos: para começar, todos são americanos — durante toda a sua longa produção, James explorou imbróglios envolvendo conterrâneos seus em terras europeias[5]; depois, o escrutínio ético e moral do ardor estético; não poderia, ainda, faltar uma atmosfera de intriga, tanto no sentido mundano, de boataria, quanto no conspiratório, com o narrador usando ardis (a certa altura, Miss Tina indaga:  «Então era uma trama premeditada, uma espécie de conspiração?»; «So it was a regular plot — a  kind of conspiracy?») e, sorrateiramente, sendo envolvido numa soturna teia: «Estaria eu ainda em tempo de salvar meus bens? Essa questão estava em meu coração, pois o que agora vinha a ocorrer era que, na inconsciente celebração do sono, eu havia retornado a uma passional apreciação do tesouro de Juliana. Os pedaços que o compunham eram agora mais preciosos do que nunca, e uma ferocidade positiva havia se introduzido em minha necessidade de adquiri-los. A condição que Miss Tina havia ajuntado a este ato não mais aparecia como um obstáculo digno de reflexão, e, por uma hora, nesta manhã, minha imaginação arrependida deixou-a de lado. Era absurdo que eu não fosse capaz de inventar nada; absurdo que renunciasse tão facilmente e me afastasse inapelavelmente da ideia de que o único modo de me tornar possuidor dos papéis era me unir a ela pelo resto da vida. Eu poderia não escapar do laço, porém ainda poderia ter o que ela tinha»[6].

Sobretudo, o que se destaca — afora a grandiosa, com toques sinistros (a viseira) e até sórdidos, figura de Juliana (que diálogos geniais os das transações financeiras com o seu inquilino) — é a cegueira do homem, o autoengano de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva (1903). Nesta novela notável, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo portentoso vai acontecer com ele, qual uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo”, lemos afirmações que serviriam perfeitamente para o narrador de Os papéis de Aspern, com relação à pobre Miss Tina: «A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar — este era o conhecimento — conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida»[7].

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino[8], incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em Os papéis de AspernA fera na selva pode causar uma ressaca de angústia no leitor, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais implacáveis que já existiram. Ter um gosto tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril,  nada intemerato, é prova de uma lucidez intimorata.

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ORIGINAL DA EPÍGRAFE

«They come back to me now almost with the palpitation they caused, the successive feelings that accompanied my consciousness that as the door of the room closed behind me I was really face to face with the Juliana of some of Aspern’s most exquisite and most renowned lyrics. I grew used to her afterward, though never completely; but as she sat there before me my heart beat as fast as if the miracle of resurrection had taken place for my benefit. Her presence seemed somehow to contain his, and I felt nearer to him at that first moment of seeing her than I ever had been before or ever have been since».

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TRECHO SELECIONADO

«Sei apenas que, pela tarde, quando o ar estava brilhando especialmente com o pôr do sol, encontrei-me diante da igreja dos Santos João e Paulo, erguendo os olhos para o pequeno rosto de queixo quadrado de Bartolommeo Colleoni, o terrível condottiere24 que monta firmemente seu enorme cavalo de bronze no alto pedestal no qual a gratidão veneziana o mantém. A estátua é incomparável, a mais bela de todas as figuras a cavalo, a menos que a de Marcus Aurelius, que cavalga benignamente diante do Capitólio Romano, a supere; mas eu não estava pensando nisso; apenas me descobri olhando fixamente para o capitão triunfante como se ele trouxesse um oráculo em seus lábios. A luz ocidental brilha em toda a sua intensidade feroz nessa hora e a torna maravilhosamente pessoal. Mas ele continuou a olhar para muito longe de minha cabeça, na imersão vermelha de outro dia, – ele vira tantos se acabarem na laguna ao longo dos séculos! – e, se estava pensando em batalhas e estratagemas, eram de uma qualidade diferente de qualquer uma que eu tivesse a lhe contar. Ele não podia me orientar quanto ao que fazer, tanto quanto eu poderia erguer meu olhar para ele […]Sem ruas e veículos, o rugido de rodas, a brutalidade dos cavalos, e com seus pequenos caminhos tortuosos onde as pessoas se aglomeram, onde as vozes soam pelos corredores de uma casa, onde o passo humano circula como se contornasse os ângulos da mobília, e os sapatos nunca se gastam, o lugar tem a característica de um imenso apartamento coletivo, no qual a Piazza San Marco, no seu ângulo mais ornamentado, e palácios e igrejas, de resto, fazem o papel de grandes divãs de repouso, mesas de entretenimento, extensões da decoração. E de algum modo, o esplêndido domicílio comum, familiar, doméstico e ressonante também evoca um teatro com seus atores batendo os calcanhares sobre pontes e, em procissões esparsas, tropeçando em fundações. Quando se está sentado numa gôndola, as calçadas que, em certos trechos, margeiam os canais, assumem ao olhar a importância de um palco, igualando-se a ele num ângulo semelhante, e as figuras venezianas, movendo-se de cá para lá contra o cenário desgastado de suas pequenas casas de comédia, nos parecem membros de uma companhia teatral sem fim».

«I only know that in the afternoon, when the air was aglow with the sunset, I was standing before the church of Saints John and Paul and looking up at the small square-jawed face of Bartolommeo Colleoni, the terrible condottiere who sits so sturdily astride of his huge bronze horse, on the high pedestal on which Venetian gratitude maintains him. The statue is incomparable, the finest of all mounted figures, unless that of Marcus Aurelius, who rides benignant before the Roman Capitol, be finer: but I was not thinking of that; I only found myself staring at the triumphant captain as if he had an oracle on his lips. The western light shines into all his grimness at that hour and makes it wonderfully personal. But he continued to look far over my head, at the red immersion of another day– he had seen so many go down into the lagoon through the centuries– and if he were thinking of battles and stratagems they were of a different quality from any I had to tell him of. He could not direct me what to do, gaze up at him as I might […] Without streets and vehicles, the uproar of wheels, the brutality of horses, and with its little winding ways where people crowd together, where voices sound as in the corridors of a house, where the human step circulates as if it skirted the angles of furniture and shoes never wear out, the place has the character of an immense collective apartment, in which Piazza San Marco is the most ornamented corner and palaces and churches, for the rest, play the part of great divans of repose, tables of entertainment, expanses of decoration. And somehow the splendid common domicile, familiar, domestic, and resonant, also resembles a theater, with actors clicking over bridges and, in straggling processions, tripping along fondamentas. As you sit in your gondola the footways that in certain parts edge the canals assume to the eye the importance of a stage, meeting it at the same angle, and the Venetian figures, moving to and fro against the battered scenery of their little houses of comedy, strike you as members of an endless dramatic troupe».

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NOTAS

 [1] É a terceira, em 1984 foram publicadas as de Maria Luiza Penna (Global) e Álvaro A. Antunes (Interior edições); só li a primeira, desconhecendo a existência da segunda até há poucos dias.

[2] «Eu o havia invocado e ele viera; pairava diante de mim metade do tempo; era como se seu fantasma luminoso houvesse retornado à terra para me assegurar que considerava a questão como sua não menos que minha e que tínhamos que conduzi-la fraternal e afetuosamente até uma conclusão. Era como se ele houvesse dito: “Pobre querido, tenha calma com ela; ela tem alguns preconceitos naturais; é só uma questão de lhe dar tempo. Por mais estranho que lhe possa parecer, ela foi muito atraente em 1820. Enquanto isso, não estamos juntos em Veneza, e que melhor lugar existe para o encontro de amigos queridos? Veja como a cidade reluz com o verão avançado; como o céu e o mar e o ar róseo e o mármore dos palácios todos tremeluzem e se fundem”. Minha excêntrica missão particular tornava-se parte do romantismo e da glória geral – eu sentia até uma camaradagem mística, uma fraternidade moral com todos aqueles que, no passado, haviam estado no serviço à arte»; «I had invoked him and he had come; he hovered before me half the time; it was as if his bright ghost had returned to earth to tell me that he regarded the affair as his own no less than mine and that we should see it fraternally, cheerfully to a conclusion. It was as if he had said, “Poor dear, be easy with her; she has some natural prejudices; only give her time. Strange as it may appear to you she was very attractive in 1820. Meanwhile are we not in Venice together, and what better place is there for the meeting of dear friends? See how it glows with the advancing summer; how the sky and the sea and the rosy air and the marble of the palaces all shimmer and melt together.” My eccentric private errand became a part of the general romance and the general glory– I felt even a mystic companionship, a moral fraternity with all those who in the past had been in the service of art».

[3] No original. Miss Tira:

«…foi assim que a altamente trêmula solteirona provou chamar-se, de um modo um tanto incongruente»; «…(for such the name of this high tremulous spinster proved somewhat incongruously to be)».

[4] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

[5] «Seu país de origem abrigara a maior parte de sua vida, e sua musa, como se dizia na época, era essencialmente americana. Era por isso que eu o prezara a princípio; porque, numa época em que nossa terra natal era crua e provinciana, quando a sua famosa falta de “atmosfera” não era sequer lastimada, quando a literatura ali estava perdida, e a arte e a forma, quase impossíveis, ele havia encontrado meios para viver e escrever como um dos grandes; para ser livre e universal e totalmente destemido, para sentir, entender e expressar tudo»;  «His own country after all had had most of his life, and his muse, as they said at that time, was essentially American. That was originally what I had loved him for: that at a period when our native land was nude and crude and provincial, when the famous “atmosphere” it is supposed to lack was not even missed, when literature was lonely there and art and form almost impossible, he had found means to live and write like one of the first; to be free and general and not at all afraid; to feel, understand, and express everything».

[6] «Was I still in time to save my goods? That question was in my heart; for what had now come to pass was that in the unconscious cerebration of sleep I had swung back to a passionate appreciation of Miss Bordereau’s papers. They were now more precious than ever, and a kind of ferocity had come into my desire to possess them. The condition Miss Tita had attached to the possession of them no longer appeared an obstacle worth thinking of, and for an hour, that morning, my repentant imagination brushed it aside. It was absurd that I should be able to invent nothing; absurd to renounce so easily and turn away helpless from the idea that the only way to get hold of the papers was to unite myself to her for life. I would not unite myself and yet I would have them».

[7] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

[8] Curiosamente, como típico herói jamesiano, o narrador é acusado por Juliana de se interessar por atividades “pouco viris”, como se preocupar com as flores do jardim.

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05/05/2013

“Atrasado e amargo… algum gosto de vida”: A MADONA DO FUTURO e A FERA NA SELVA

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VER TAMBÉM NESTE BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/04/a-taca-de-ouro-e-a-arte-do-romance/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-romance-mais-fascinante-de-henry-james-duas-resenhas-sobre-as-asas-da-pomba/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/mais-uma-vez-com-que-roupa/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/22/as-margens-derradeiras-eu-vi-com-meus-proprios-olhos/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/o-que-james-sabia/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/18/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-primeira-parte/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/19/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-segunda-e-ultima-parte/

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 1997)

Publicada originalmente em 1873, A MADONA DO FUTURO (The Madonna of the Future, em tradução de Arthur Nestrovski para a ótima coleção Lazuli, da editora Imago),  não é uma antevisão oitocentista da popstar que estrelou Evita. É uma visão quase melodramática sobre o desencontro entre o ideal e a realidade, e também uma prova cabal de como Henry James (1843-1916), já naquela época (e ainda muito jovem), refletia sobre o esgotamento criativo diante do peso da tradição cultural.

O narrador americano, H., conta numa reunião que, quando era moço, visitou Florença, encontrando em sua primeira noite na cidade um compatriota, o pintor Teobaldo. Este acredita que a Madona della Seggiola, de Rafael, seja o momento culminante da arte, e acredita também que ainda é possível surgir uma “madona” como síntese da arte do período em que vivem. Aliás, ele está se preparando para pintar tal “madona”.

Teobaldo, ridicularizado pelo círculo de americanos com o qual também convive H. em sua estadia em Florença, acredita até ter encontrado o modelo para a sua madona, e gasta anos de sua vida na contemplação desse modelo, imbuindo-se da sua figura para um dia tornar real o seu sonho. Ele concede a H. a honra de conhecer Serafina, e é na descrição da musa do pintor que James atinge o ponto alto de A MADONA DO FUTURO:

“Que ela era, de fato, uma bela mulher, eu logo percebi, depois de me recobrar da surpresa em ver que não exibia o frescor da juventude. Sua beleza era de uma espécie que perdendo a juventude, não perde quase nada de seu encanto essencial (…) Admirei sua beleza intensamente, mas com boa dose de reserva. Certa suave apatia intelectual pertence, de direito, a este tipo de beleza, e contribui para torná-lo mais acabado e aparente, mas o que essa Egéria burguesa revelava, salvo engano, era uma prosaica estagnação da inteligência. Talvez tivesse brilhado algum dia em sua face uma vaga luz espiritual, mas há muito já começava a minguar (…) Nem macilenta, nem abatida, nem sem cor, ela era simplesmente tosca. A alma prometida por Teobaldo não parecia digna de comentário; seu mistério não passava de uma certa suavidade matronal dos lábios e da fronte”.

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James, aqui seguindo os passos de um Balzac que fosse também um Stendhal, é um autor cruel. Ele mostra que Teobaldo, carregando todo o peso da tradição estética, é incapaz de olhar Serafina sem o embelezamento da possível obra que pode extrair dela, obra que ele se torna incapaz de criar porque aquela mulher que ele visita todas as noites anos a fio é a sua própria obra. E esse é um equívoco constante e permanente, não só na literatura (quem pode esquecer o Swann de Marcel Proust apaixonando-se pela vulgar, sonsa e tola Odette só porque ela lembra uma figura de Botticelli?), mas na vida. Quem já teve, como eu, a visão de uma mulher que parecia diáfana e transcendente, de uma beleza surpreendente, em meio a um ambiente reles, para dizer o mínimo, e descobriu ao fim e ao cabo uma personalidade tosca e xucra, não só com a inteligência referida por H., mas principalmente a sensibilidade, rarefeitas, não pode deixar de admirar a força com que James descreve a pertinaz ilusão de Teobaldo.

Sua incessante preparação para realizar sua obra (que acaba num quadro em branco) é também uma das versões de James para o problema do auto-ofuscamento, se é que se pode chamar assim, de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva  (The beast in the jungle, que foi traduzido por Fernando Sabino para a Rocco). Nesta outra novela notável, o personagem principal, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo terrível vai acontecer com ele, algo portentoso, como uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote sobre alguém. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo terrível” (não convém contar aqui, para não estragar o efeito do texto, e é preciso dizer, meu leitor, que poucas vezes a expressão “efeito do texto” fez tanto sentido), o narrador diz coisas que serviriam perfeitamente para Teobaldo, quando H. destrói sua visão idealizada de Serafina:

“A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar—este era o conhecimento—conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida.”

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino, incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em A MADONA DO FUTURO e A fera na selva pode causar uma ressaca de angústia, lidas em conjunto as duas novelas, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais lúcidos que já existiram. Ter um gosto estético tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril e autista, é um feito admirável.

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04/05/2013

“A Taça de Ouro” e a arte do romance

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VER TAMBÉM NESTE BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-romance-mais-fascinante-de-henry-james-duas-resenhas-sobre-as-asas-da-pomba/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/mais-uma-vez-com-que-roupa/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/22/as-margens-derradeiras-eu-vi-com-meus-proprios-olhos/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/o-que-james-sabia/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/18/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-primeira-parte/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/19/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-segunda-e-ultima-parte/

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de agosto de 2002)

Se houver historiadores no futuro, a visão que eles descortinarão do casamento a partir dos romances realistas do século XIX (e começo do século XX) será muito parecida com a ideia que fazemos do inferno, isto é, de condenação eterna. Não é à toa que o adultério foi o grande tema do romance burguês. Essa é a atmosfera que alimenta as muitas e sombrias páginas de A TAÇA DE OURO (The Golden Bowl, 1904), só agora traduzido no Brasil, constituindo-se (pelo atraso e pela eminência) o maior evento literário do ano, assim como vem acontecendo com cada aguardada tradução tardia da obra de Henry James (1843-1916).

Em A TAÇA DE OURO, como de hábito, o incrível escritor norte-americano coloca personagens de seu país às voltas com a civilização europeia. O rico Mr. Verver tem uma intensa ligação com sua filha, Maggie, que casa com Amerigo, nobre italiano. O pai participa também intensamente da vida do casal, mas está solitário, percebe-se. Maggie, então, como já o fizera a Emma de Jane Austen, conspira para que ele se case com sua amiga, Charlotte, para que o quadro fique “perfeito”. O que ela não sabe é que Amerigo e Charlotte já foram amantes. O quadro decerto configura-se “perfeito” para o adultério e para mais uma conspiração, bem mais deletéria. Até que Maggie enfim fica “sabendo” dos fatos, lançando-se numa contra-conspiração para poupar o pai e preservar o marido.

O leitor deve ter notado, no parágrafo anterior, a ênfase dada ao “quadro perfeito” e à “conspiração”. Quem já leu outros textos textos jamesianos sabe que sempre há um clima conspiratório neles, principalmente (mas nem sempre) pela questão do dinheiro: é dessa forma que Isabel Archer, enleada pelas intrigas de Madame Merle, vem a casar com o improvável Gilbert Osmond (em Retrato de uma senhora), e é dessa forma que se constitui o triângulo amoroso de As asas da pomba, para dar dois exemplos óbvios e supremos.

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O que James desenvolveu de forma mais original em A TAÇA DE OURO é o “quadro perfeito”: seus personagens representam o que há de melhor na civilização burguesa, são movidos pelas mais nobres intenções e poderiam figurar numa tragédia clássica por seu estofo e por sua elevada noção de ética. E é isso que torna mais desesperançado o resultado a que se chega: não dá para evitar o mal intrínseco da natureza humana (em suas distorções sociais), e é por isso que mulheres do quilate de Madame Merle, de Kate Croy (de As asas da pomba) e de Charlotte Verver acabam tendo de cumprir o papel de vilãs, ou de agentes do destino.

E personagens “bons” como Maggie (toda a magnífica segunda parte de A TAÇA DE OURO gira em torno dela) acabam sendo sacudidas de sua complacência (como diz o pai dela, o “incauto” Mr. Verver: “Como se estivéssemos sentados em divãs, fumando ópio e tendo visões”) e tendo de estender suas consciências para regiões inóspitas e impensáveis, às vezes sórdidas e abjetas.

O estilo de James, “mantendo as aparências”, deixando as coisas ocorrerem nos bastidores, permite uma ampla liberdade ao leitor de pescar as entrelinhas de frases como esta: “Charlotte estava vestida para sair, e seu marido parecia positivamente preparado para não fazer o mesmo”.

E é o estilo que torna complicado fazer um julgamento da versão brasileira: traduzir James é sempre um tour-de-force, e merece aplauso. Porém, Alves Calado deve ter um escrivão de polícia dentro de si, pois só isso explicaria o abundante e insuportável uso dos termos “o mesmo” e “a mesma”, que remetem a mais alta ficção à ambiência dos boletins de ocorrência. Será que não havia uma solução mais criativa e menos horrível? O tradutor também deve ter esquecido que o infinitivo não é uma forma verbal apenas impessoal, que há momentos em que é preciso, e se deve, fazer a concordância de pessoa. Numa edição que custa 55 pilas, e de um autor como James, também não há desculpa para uma capa tão ordinária, digna de um best seller pronto para virar minissérie.

Mas uma das lições dos livros de Henry James é que, por melhor que se tente ser, sempre há a imperfeição humana para rachar as mais perfeitas taças douradas, e tornar possível que elas venham a se quebrar algum dia.

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de julho de 2004)

Algumas obras-primas de uma época áurea do romance chegam ao centenário este ano (Esaú e Jacó, Nostromo, O falecido Mattia Pascal, por exemplo). Uma delas é A taça de ouro (The Golden bowl). Quando foi finalmente editada no Brasil, em 2001, entre os muitos deslizes (capa constrangedora, tradução incompatível com o quilate do autor) contava-se a ausência do prefácio escrito quando Henry James (1843-1916) reuniu as suas principais obras, o seu “cânone”, por assim dizer, na clássica Edição de Nova York.

Esse texto pode ser encontrado numa recente e indispensável antologia de prefácios jamesianos preparadas por Marcelo Pen para a editora Globo, A ARTE DO ROMANCE, cuja capa reproduz justamente o frontispício do segundo volume de A taça de ouro na referida série; em seu prefácio, aliás, James discorre longamente sobre a questão da ilustração, por quaisquer meios, de uma obra literária, chegando à célebre conclusão: “Tudo o que desobriga a prosa responsável da tarefa de ser boa o bastante, interessante o bastante, pictórica o bastante, acima de tudo por si própria, presta-lhe o maior dos desserviços, podendo muito bem inspirar ao amante da literatura apreensão sobre o futuro desta instituição”.

Assim, o leitor brasileiro pode confrontar agora teoria e prática de um mestre exercitando de forma definitiva o grande tema do romance burguês: o adultério (a norte-americana riquíssima, Maggie Verver, casa-se com o nobre italiano, príncipe Amerigo; o pai dela, Mr. Verver, é muito presente na vida do casal, e todavia a filha quer casá-lo com a melhor amiga, Charlotte—que fora amante de Amerigo).

James mostra como seu método predileto (delegar o relato—tornando-o, assim, indireto e oblíquo—a um substituto do autor impessoal, atingindo a fórmula um caso determinado+ uma visão próxima e individual sobre ele, derrubando o que ele denomina de “mera majestade muda de uma autoria irresponsável”: “…esquivando-me dela e repudiando sua pretensão enquanto desço à arena e faço o melhor que posso para viver, respirar, para roçar o ombro e palestrar com as pessoas engajadas na luta capaz de proporcionar aos que estão nas fileiras circundantes a diversão do Grande Jogo) é refinado ao extremo, ao cindir a narrativa em duas versões: na primeira parte, de Amerigo; na segunda, de Maggie, e tendo a taça dourado do título como símbolo do lado equívoco e escorregadio do casamento (ela seria o presente de Charlotte, futura Mrs. Verver, entretanto a compra não é efetivada, embora a taça reapareça na vida do casal mais tarde, assumindo um papel revelador, quando não catalisador):

“A coisa permanece sujeita ao registro, sempre meticulosamente mantido, da consciência de apenas duas personagens, se atendo rigorosamente à sua lei de primeiro mostrar Maggie por meio da visão exibitória que seu pretendente e marido tem dela, e então mostrar o príncipe, com uma intensidade mais ou menos igual, por meio da visão da sua mulher, a vantagem sendo assim que essas atribuições da experiência apresentam os próprios sujeitos sencientes ao mesmo tempo e também com o acesso o mais próximo possível a uma vivacidade desejável. É o  príncipe quem abre a porta para a metade da luz que recebemos de Maggie, da mesma forma que é ela quem nos descerra a porta para metade da luz que recai sobre ele; o restante da nossa impressão vem direto do próprio movimento com que o ato é executado”.

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Portanto, o romance é um triunfo na aplicação da restrição do foco narrativo. James leva essa arte ao ponto supremo, nunca superado: “Vemos bem poucas pessoas em A taça de ouro, mas o esquema da narrativa, em compensação, determina que devemos na realidade observá-las até o limite permitido por uma forma literária coerente”.

Geralmente, em suas maiores ficções, James atribui dubiedade a certas personagens femininas, de tal forma que elas poderiam ser tachadas de vilãs, como é o caso das fascinantes Madame Merle (Retrato de uma senhora), Kate Croy (As asas da pomba) e a própria Charlotte Verver. Em contrapartida, as heroínas têm de estender, por assim dizer, as suas asas da pomba, isto é, suas consciências, a princípio complacentes, até regiões inóspitas e impensáveis, por serem representantes de um arquétipo feminino que ele chamava de “herdeira potencial de todas as eras”. É o caso de Isabel Archer, Milly Theale e de Maggie Verver, dos mesmos livros acima citados.

É nesse sentido que, ao mostrar a luta interior de Maggie para preservar seu casamento, ele utilize imagens ambivalentes, mesclando alto estofo moral e indignidade:

“… nossa jovem cedia ocasionalmente ao que era insidioso nessas predestinadas engenhosidades de sua piedade, que durante minutos seguidos, algumas vezes, o peso de um novo dever parecia repousar sobre ela, o dever de falar antes que a separação constituísse seu abismo, de pedir algum benefício que pudesse ser levado para o exílio como o último objeto valioso salvo da emigre, a joia enrolada num pedaço de seda velha e negociável algum dia no mercado da miséria”.

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03/05/2013

O romance mais fascinante de Henry James: duas resenhas sobre “As asas da pomba”

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 1998)

1998 coloca um delicioso dilema para o apreciador de ficção: será difícil escolher, como o evento mais importante do ano, entre as traduções para lá de tardias de Middlemarch, de George Eliot, e AS ASAS DA POMBA (The Wings of the Dove).

Provavelmente a obra-prima de Henry James (publicada originalmente em 1902) aparece neste momento no Brasil como consequência da fraquíssima versão cinematográfica, dirigida por Iain Softley, que ganhou aqui o pífio título de Asas do amor (quando poderia se chamar, de forma mais exata, “As asas da bomba”).

O livro é a consumação da atmosfera de dois textos jamesianos bem mais antigos: Daisy Miller (1878), uma das suas melhores histórias curtas, e o maravilhoso Retrato de uma senhora (1880-81). Em todos, a confrontação entre o comportamento de uma jovem americana com valores do Velho Mundo. Só que na história de Milly Theale, envolvida com o casal inglês, Kate Croy e Merton Densher, em Londres e Veneza,os contornos do confronto se tornam labirínticos, de uma maneira que os espectadores do esquálido roteiro de Asas do amor jamais poderia supor, a não ser pelo que a interpretação de Helena Bonham-Carter, merecidamente indicada para o Oscar (e o seria mais, se fosse indicada ao de coadjuvante), consegue sugerir com sua Kate, a mentora do plano perverso-piedoso (se é possível uma conjunção dessas) que envolve Milly e sua imensa fortuna (é curioso como em Henry James sempre há um teor conspiratório e futriqueiro na trama). Pois Milly está irremediavelmente doente e apaixona-se por Merton, o amado de Kate (o relacionamento do casal não agrada à tia dela, que a sustenta—e também à sua família); ela, então, planeja fazer do pobretão o herdeiro de Milly. Só que a “pomba”, ao se oferecer para o sacrifício, mostra-se muito mais forte do que se supunha, mesmo depois da sua morte, separando inclusive o casal que se amava tanto.

Parece simples e melodramático, não? Pois não é. Nada mais difícil e intrincado do que ler As ASAS DA POMBA, principalmente porque, embora os diálogos, como sempre em James, sejam magníficos, a narrativa é toda indireta. E dizer isso ainda não é dizer nada. Nós ficamos sempre sabendo dos fatos “depois”, e através do testemunho ou da exegese (sim, é o único termo que me ocorre) de alguém, que luta consigo mesmo ou com seu interlocutor para “interpretar” os acontecimentos decorridos. O leitor praticamente tem de adivinhar tudo o que está ocorrendo, está para ocorrer ou já ocorreu, sem nunca se ter muita certeza de nada: tudo está envolvido numa intolerável ambiguidade, desde o maquievalismo fraternal de Kate Croy até os derradeiros motivos das atitudes de Milly Theale. Um clima bastante explorado nas falas dos personagens, sempre alusivas, raríssimas vezes abordando diretamente qualquer assunto (lembra, leitor, dos colóquios entre a angustiada preceptora e a cozinheira, em A volta do parafuso?, imagine 500 páginas recheadas deles!).

Nunca na ficção se conseguiu algo tão próximo do tom trágico como em AS ASAS DA POMBA, ou seja, personagens que mesmo em seus deslizes morais e em suas tortuosas atitudes têm “nobreza”, o que jamais poderia se esperar de um gênero tão burguês como o romance, uma “nobreza” que nada fica a dever aos personagens de Sófocles, Shakespeare ou Racine (especialmente, deste último).

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Por isso não dá para entender o que se quis fazer desses personagens no cinema.  Pois, à exceção da intérprete de Kate (a única que parece ter uma mínima ideia do universo em que está se movimentando), que gente vulgar e ordinária é essa que vemos na tela? O que eles querem? Que falta de estofo![1] Vê-se mais um desfile de figurinos do que interpretações, uma coisa lamentável. Será que não se é mais capaz hoje em dia de intensidade, densidade e substância; estofo, enfim?

Será que a “pomba” Milly Theale, que mesmo a perspicaz Kate Croy pensa ser fácil de “sacrificar”  (em função de seu futuro com Merton), não merecia coisa melhor, ela que nos oferece os momentos mais nobres e elevados da arte da ficção? Ela, cuja carta para Merton Densher (que chega após suam morte e é queimada por Kate, sem que ele a leia) constitui um enigma tão cruel quando a dúvida com relação a Capitu, em Dom Casmurro?: [seria] “uma revelação cuja perda era como a visão de uma pérola inestimável jogada diante dos seus olhos—depois de ele jurar que não ia resgatá-la—no mar insondável” (tradução de Marcos Santarrita, numa horrorosa edição da Ediouro).

E existirá momento mais lindo já escrito do que aquele, lírico, belo e atroz, em que Milly na sala de visita do médico, se dá conta que saiu da América “para viver”, quando, na verdade, está sob “sentença de morte”:

“Ela se dispusera a ver o mundo, e aquilo, pois, seria a luz do mundo, o rico lusco-fusco de um ´fundo´ londrino, aquelas as paredes do mundo, aquelas as cortinas e os tapetes do mundo”.

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2002)

Na seção passada, comentei A taça de ouro. Coincidentemente, outra obra de Henry James (1843-1916) tornou-se centenária este ano: AS ASAS DA POMBA, um romance tão importante (embora não tão famoso e cultuado) quanto Em busca do tempo perdido, Ulisses ou O processo, e editado aqui pela Ediouro, a qual—ao contrário da Record (responsável pela tradução de A taça de ouro)—manteve o indispensável prefácio do autor, mas igualmente pecou pela feiura lancinante e apelativa da capa, e um odioso texto de contracapa, um marco de estupidez entre os já perpetrados pelo meio editorial brasileiro.

Em alguns dos seus textos mais famosos, James “lançou no mundo” (leia-se a Europa) uma jovem norte-americana que se torna centro de atenção da trama. Todos, inclusive leitores apaixonados, querem saber “no que vai dar a sua vida”. No caso de Isabel Archer (Retrato de uma senhora) e Maggie Verver (A taça de ouro), temos destinos em aberto; no caso da protagonista de Daisy Miller e de Milly Theale (AS ASAS DA POMBA), a morte transforma suas trajetórias em destinos trágicos. “Herdeiras potenciais de todas as eras”, todas cumprem a “rósea aurora de uma apoteose que chegava tão curiosamente cedo”. Para Daisy e Milly (esta “queria abismos”), a sina “era viver rápido”:

“Tratava-se  estranhamente da questão de curto prazo e da consciência proporcionalmente abarrotada”.

Milly viaja para a Europa com sua amiga/dama de companhia, Mrs. Stringham, ambas representando o cantão dos EUA focalizado pela obra jamesiana (Nova York e Boston). Em Londres, Mrs. Stringham retoma contato com sua antiga colega, Mrs. Lowder, e Milly torna-se amiga da sobrinha dela, Kate Croy. Esta mantem uma ligação proibida (pela tia, de quem é agregada) com o jornalista Merton Densher, que Milly conhecera em Nova York e por quem se apaixonara.

Kate descobre que a “pomba” está com os dias contados. Quando todos vão para Veneza, ela faz com que Merton fique próximo a Milly, para que herde o dinheiro dela. Todavia, não se engane, leitor: assim como Madame Merle (de Retrato de uma senhora), Kate Croy é muito, muito mais do que uma mera vilã. É uma personagem extraordinária na sua ambiguidade e duplicidade. Seu plano é ao mesmo tempo egoístico e perverso, piedoso e fraterno, depois que ela decide que Milly pode ser “sacrificada” ao seu futuro com Merton.

Quem assistiu à fraquíssima adaptação cinematográfica, Asas do amor, e não chegar a conhecer o romance, pensará que Kate é a personagem principal, por causa da mocoronga que interpreta Milly (ao passo que Helena Bonham-Carter está perfeita como Kate). A taça de ouro, ao que parece, teve mais sorte, pois a sua transposição para as telas, foi realizada pelo grande James Ivory, de Vestígios do dia.[2]

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A jornada da consciência de Milly Theale, “abarrotada” pelo desejo de viver rápido (e viver tudo), antes da sua morte em Veneza, exige muito do leitor. James, assim como Conrad, tem horror de mostrar fatos diretamente, deleitando-se na repercussão deles para os personagens em diálogos inimitáveis (e que exasperarão muita gente, com certeza), cheios de alusões a realidades sobre as quais nunca podemos ter certeza absoluta (e aí, serão mesmo “realidades”?).

É em A taça de ouro que encontramos um dos poucos fatos importantes mostrados “diretamente” pelo narrador, o momento em que a taça dourado do título entra em cena (seria um presente de casamento de Charlotte à sua amiga Maggie e seu marido Amerigo—que fora amante de Charlotte, mas a compra acaba não sendo concretizada; a taça vai entrar na vida do casal de outra maneira, mais dramática e reveladora).

Em AS ASAS DA POMBA, o leitor não tem tanta sorte. Nunca ficaremos sabendo, por exemplo, o que Milly—estendendo suas asas—escreveu a Merton Densher na carta que, após sua morte, a “pérola inestimável jogada diante dos seus olhos… no mar insondável”, é queimada por Kate diante de seus olhos.

Talvez por isso o livro seja o mais fascinante de Henry James.


[1] Nota de 2013- Após essa decepção, acompanhei a carreira de Alison Elliott e Linus Roache (que eu já vira em O padre); creio que ela se tornou uma coadjuvante muito respeitável, em filmes como O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford  e em certos episódios de Law & Order; quanto a ele, foi a série de Dick Wolf, onde viveu o promotor Michel Cutter nas últimas temporadas, que me fez admirá-lo (ele não fazia nada feio junto ao grande Sam Waterston). Quanto à Helena Bonham-Carter, depois que se casou com Tim Burton e começou a atuar nos filmes dele, a persona “abilolada” se apossou dela irremediavelmente, e todos as suas atuações têm um tom caricato horroroso (ela exagera, e por conseguinte destoa da sobriedade geral, até na caracterização de bruxa má na série Harry Potter).

[2] Nota de 2012- Na verdade, não chegou a ser um momento marcante da sua filmografia, mas não é indigno dele.

VER TAMBÉM NESTE BLOG:

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https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

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