MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/07/2013

Um romance admirável de José Luiz Passos: “O sonâmbulo amador”


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“…entrementes ainda estamos vivos, todos nós, mesmo ele, o sonâmbulo; e na vida há sol, há ventos, rios correndo, ondas a estourar nas pedras. Isso não desperta o sonâmbulo, mas o agita (…) Certo, Manuel Bandeira fala de uma limpa solidão, ou alguém disse isso dele. Não creio. Solidão limpa só com vassoura e aspirador permanente: a solidão do homem é cheia de detritos, lembranças, pequenos fantasmas que são como objetos inúteis, quebrados, em um porão, nomes riscados em um caderno de telefones, teias de antigas aranhas.

    Mas por que lamentar o sonâmbulo? (…) Na verdade, temos outras coisas a fazer e desistimos tacitamente de jamais recuperar o sonâmbulo; vamos disfarçando, disfarçando até que um dia ele morra e então diremos sem muita hipocrisia: coitado.” (Rubem Braga, “O amigo sonâmbulo”, de Ai de ti, Copacabana)

“Sinto muito que meu relato seja tão caviloso…” (José Luiz Passos, Nosso grão mais fino)

 

o texto abaixo amplia a resenha publicada na FOLHA DE SÃO PAULO, em 19 de janeiro de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1216919-critica-autor-mescla-com-maestria-sonhos-e-existencia-em-livro.shtml

     Jurandir, em O Sonâmbulo Amador, narra sua “existência sonâmbula” num sanatório na Olinda dos anos 1960 (momento em que a presença dos militares, nas ruas e conversas, é cada vez mais visível). Difícil estabelecer uma linha fronteiriça entre  práticas cotidianas,  sonhos que redige ou relata para o psiquiatra,  reminiscências (as quais se transformam em anedota, para seu desgosto) que compartilha com outros internos e um enfermeiro,  Ramires, além de um vago sentido de missão heroica, de resolver uma questão trabalhista em favor de um operário acidentado na tecelagem onde trabalhou quase toda a vida (está à beira da aposentadoria).

Acidentes, aliás,não faltaram na sua vida: um o deixou manco, noutro, morreu o filho adolescente. O ocorrido com o funcionário da tecelagem e os trâmites do litígio levam esse homem que se enfronhou na burocracia a “pirar”,  incendiando o veículo da firma que dirigia a caminho da capital.

Mas o dicionário não apenas define o sonâmbulo como aquele que se encontra num limbo entre o sono e a vigília (no caso de Jurandir, essa permeação entre várias esferas faz com que não possamos confiar de todo no seu relato, pois ele desfaz e refaz a costura dos fatos incessantemente).  Também lemos (no Aurélio)  “diz-se de pessoa que age automaticamente”. Como ser atrelado a uma rotina de papelada e pastas, com tentativas cada vez mais truncadas de proximidade com relação aos outros (a esposa, a amante), abafando seus impulsos mais autênticos (como a nostalgia de um tempo em que cultivou a ambígua amizade do herdeiro da tecelagem, Marco Moreno—responsável pelo acidente que lhe deixou um joelho arruinado—posteriormente   vendida a um grupo anônimo[1]),, utilizando elementos de coesão no seu discurso como é “a verdade que”, “o fato é que”, não é antes essa a parte “sonâmbula” da existência de Jurandir?

Ele mesmo, quando se refere ao tratamento psiquiátrico, nos dá essa pista: “…dessa cura que custava a vir e que, , quando viesse me livraria de quê?…”  E que, ao conseguir se livrar da medicação pesada, com o conluio do enfermeiro, se vê “querendo o sal e o humor das coisas”[2].

A verdade é que (para usar um recurso verbal caro ao Jurandir que não se livra, mesmo na clínica, de relatórios e balanços[3]) O Sonâmbulo Amador  é um dos romances mais bem urdidos dos últimos anos, porque José Luiz Passos (na sua segunda experiência no gênero apenas) realiza o feito narrativo-estilístico de nos apresentar tudo junto, ou seja, as duas existências “sonâmbulas” do seu protagonista, de  modo que cada uma delas coloca a outra em xeque (e consegue ser convincente no constante relato  de sonhos, coisa dificílima)

Mesmo o início do romance, o primeiro “caderno” (dos quatro que o compõem, mais um apêndice), mais aparentemente linear, com sua atmosfera interiorana e sufocante, é colocado sob suspeita, dentro do conjunto. Pois esse personagem que se apresenta para nós como um representante de um certa linha literária muito presente na nossa tradição literária (o homem de imaginação tolhido pela insignificância da posição social e pela impotência), acaba se revelando matreiro, esquivo à definição (ou mesmo à autodefinição). Nem sei se o talentoso autor pernambucano os leu ou gosta de sua obra, mas eu sentia durante a leitura algo como se o narrador de A Trégua, de Mario Benedetti, de repente fosse encampado pelo universo do Onetti de A Vida Breve.

A única certeza é que Jurandir é uma “voz” narrativa de dicção inconfundível, e como todo personagem que se impõe pelo seu discurso,  peculiar em seus traquejos (até quando ele é exasperante, “sistemático”[4]), muito real para nós, leitores,   compelindo-nos a seguir os percursos em espiral dos seus sonambulismos. Eu até arriscaria a dizer O Sonâmbulo Amador uma obra-prima. Ainda é prematuro, reconheço, contudo fica a sugestão pairando no ar.

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TRECHOS ESCOLHIDOS

“Puto. Chupão. Cala a boca, Marco. Vai dormir, eu grito com ele, e salto do parapeito, dou marcha a ré até me acocorar entre o guarda-roupa e a cama, no ponto escuro do quarto, de onde vejo meu amigo coberto, mexendo as pernas, estirando um pé delas, desenrugando o lavor da colcha que Fátima forrou  mais cedo, na de visitas, sabendo que essa era a minha. Forrou para mim, mas bem ali foi parar o meu manhoso amigo.

   Naquele meu mês com ele, após o estouro de seu pai, ouvindo o trilado do vigia do quarteirão (…)

   Meu amigo se virou para mim. Jura, você acha que sou brito com quem gosto?

   Não respondi.

   Vem. Vamos dormir, ele disse.

   Então me levantei e fui para a cama.

  Senti o cheiro de goma nos panos, o lençol alvejado no varal e passado por Fátima na prancha de pau-de-ferro. Debaixo da colcha, rocei sem querer as talas da perna rija no  lastro de madeira. O barulho rascante me deu um arrepio.

   Marco continuava  calado. Depois, voltou à discussão de antes. O sangue, sim, é que é um suco bem especial, hem, Jura?

   Meu amigo comentava de novo o fato de eu nunca ter conhecido meu pai…”

****

“ Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas meras cinzas de um mero apelido defasado…”

****

“Era preciso muita resolução para deixar o povo, a cidade e tudo quanto agora me interessava, meus novos amigos e os tais kardecistas, meus relatórios, os gatos de Belavista e também os bichos dos outros (…) Tudo isso, confesso, me custava sofrimento deixar. Não tenho dúvida de que me tornaria bem depressa um bom cuidador em Belavista (…) Possivelmente eu, logo, logo, não poderia ser membro de nenhum outro grupo, senão daquele em que só convinha falar de delírios e associação de ideias, de entrevistas sobre tudo isso e de pedaços do passado. Já me sentia inclinado para a vida que levava, me sentia livre e mais perto da capital. Embora estivesse convicto dos males de uma agremiação reclusa, adorava ter sempre companhia a me ouvir contar o que quisesse contar. Poderia nisto me tornar tão arbitrário quanto qualquer apaixonado por essa existência sonâmbula…” 

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[1] “A amizade e a competição são laços fortes. Da mistura entre as duas berrantes da dedicação fazendo mais sentido que o resto. Fico vem um quê de feitiço que deixa a vida mais intensa e original, as cores imaginando se algum amigo do rapaz que queimou o rosto no vapor não esteve envolvido nisso. Se por acaso, por bem ou por mal, um colega não deixou ele cometer o erro de abrir o disjuntor de pressão antes de fechar as válvulas do compressor. Poderiam ter dito ou lembrado a ele que tomasse essa precaução. O rapaz quase perdeu um olho.

   Assim também Kid Couto, o garoto estroina e amigo de meu filho, poderia ter acedido à sugestão daqueles com mais juízo, para que ambos usassem capacete ou que ele pilotasse com meu menino numa velocidade mais baixa. De tanto que já lhes tinha contado a desgraça de um acidente de corrida, imagino que meu próprio filho deva ter aventado essa possibilidade. Mas em grupo tudo fica pior….”

[2]“Nas últimas semanas, quando o Ramires finalmente reconheceu meu pedido, mesmo sem que eu lhe pedisse de minha própria boca, fui aos poucos resgatando a clareza das coisas, revendo aqui e ali pedaços recentes de meu tempo na clínica e, mais ainda, a relação disto com eventos de bem antes. Meu amigos Ramires, sem o aval de doutor Ênio, diminuiu e parou com a medicação. Reagi daquela forma, enjoos fortes e uma tontura com pancadas de suor (…) Mas o efeito foi o pretendido. A névoa da indiferença me deixou a cabeça. Tive a impressão de que finalmente meus olhos voltavam a se abrir de todo, querendo o sal e o humor das coisas. Querendo também tragar novamente a tristeza que vai comigo. Pois pode haver riso, de verdade, mesmo no estado mais supremo de uma absoluta má sorte. E é isto que espero provar a todos vocês…”

[3] “A grande surpresa dos recém-chegados era eu, isso ela própria me disse. E que, dado meu sofrimento, eu tinha o que vir fazer em Belavista. Estava longe de ser uma alma-grátis comum. Mas Madame Góes insiste em que tenho um segredo esperando para se fazer notar numa conversa de botequim ou durante a ceia, com gente que é também do mesmo jeito. Daí minha ladainha ia sair de vez, num jorro monótono diante do doutor Ênio, na entrevista em que ele me aperte no ponto certo, dizendo vá, venha, diga, pode falar que estou ouvindo, Jurandir. Isso Madame Góes me garantiu, que eu ia me desculpar alegando que não tinha o que fazer ali, e não tinha. Ela é que pensa que sim. Diz que eu, negando com a cabeça e com as mãos, negando com tudo, depois de um silêncio vou começar. Aí daria início a minha cura, a parte efetiva dela. E mesmo assim, ela insiste, eu ainda resisto a isso…”

Ou ainda:

“Sempre que posso escrevo na banqueta que pus na frente da janelinha do quarto, aqui nesta masmorra que todos chamam carinhosamente de Belavista. Poder dispor de uma máquina de escrever é um verdadeiro acontecimento, ainda não cheguei lá. Ando tão demente, tão destruído pela produção de relatórios sobre meus sonhos, sobre as leituras e os balanços do dia a dia, que só enxergo compromissos e pretextos médicos, motivos que em tudo me parecem burocráticos, cheios de prognósticos e efeitos colaterais. Não me refiro, faz tempo, nem de longe, à minha cidade. Nem ao verdão. Neste ponto, de todas as pessoas, Minie é quem estava certa.

   Tenho medo de que você despreze o melhor de si mesmo. Essa cabecinha extraordinária, Jurandir, em favor da rotina. Aí, por mais que você ostente seu brilho, por mais que irradie organização, no saldo final, ela disse, isso tudo não vai valer nem uma centelha da história que só você pode contar.

     Quando Minie me falou isso, ainda estávamos no melhor da amizade…”

 [4] “Será que esse rio é fundo, Ramires?

Sei não. Uns vinte metros, talvez.

Vinte metros.                                             

Sei lá, Jurandir. Vinte. Ou cinco. Ou dois. Que diferença faz?

Faz muita. Vinte metros é muito fundo para um rio.

  O enfermeiro não rebateu. Talvez pensasse, como eu pensava, no quanto custaria abrir a boca para falar do que nos incomoda e dar , daí, um retrato do que acreditamos ser mais justos. Nestas circunstâncias, quem não tinha medo de virar a mesa? Ou cair, ficar na segunda linha, ver o pó. Sei como é isto. Por acaso vocês sabem? O Ramires sabia?

   Como me disse uma vez um borracheiro, acidente sem culpados é mais fácil de se aceitar. Pensava nisso, enquanto meu amigo comia com cuidado, para não estragar sua fantasia emprestada. De vez em quando ele parava para fazer um comentário sobre os militares ou me perguntava o que era mais que eu tinha para lhe contar…”

LEIA AQUI NO BLOG TAMBÉM:
https://armonte.wordpress.com/2013/01/22/os-muitos-materiais-misturados-com-precisao-em-nosso-grao-mais-fino/

JosŽ Luiz Passos, professor de literatura brasileira da Universidade da Calif—rnia - Los Angeles.

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