MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2011

Destaque do Blog: PONTO ÔMEGA, de Don DeLillo


 «Mas era impossível ver demais. Quanto menos havia para ver, mais ele olhava, mais ele via. A questão era essa. Ver o que está aqui, finalmente olhar e saber que se está olhando, sentir o tempo passando, estar vivo para o que está acontecendo nos menores registros do movimento».

 «O ponto ômega, ele disse. Não sei qual o significado original desse termo, se é que tem significado, se não é um caso de linguagem se esforçando para chegar a alguma idéia fora de nossa experiência».

 (Don DeLillo, Ponto Ômega)

 (uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de maio de 2011)

   «Está tudo impregnado, as horas e minutos, palavras e números por toda parte, estações ferroviárias, itinerários de ônibus, taxímetros, câmeras de segurança. Tudo tem a ver com o tempo, tempo idiota, tempo inferior, gente consultando os relógios e outros instrumentos, outros lembretes. É o tempo das nossas vidas escorrendo ralo abaixo. As cidades foram construídas para medir o tempo, para retirar o tempo da natureza… Quando você retira todas as superfícies, quando você olha dentro da coisa, o que resta é o terror».

    Um homem deixa-se absorver pela contemplação de uma “instalação” conceitual, num museu, na qual Psicose, de Hitchcock, é exibido (sem som) a uma velocidade lentíssima, de forma a durar 24 horas.

     Um acadêmico que colaborou com o Pentágono na elaboração de justificativas para a invasão do Iraque retira-se para o deserto, tendo por companhia um jovem documentarista  “fracassado”, o qual pretende fazer um filme com ele, mas o projeto vai se esvaziando frente àquele espaço indiferente («havia uma casa e fora dela só havia distâncias, nem paisagens nem linhas de visão abrangentes, apenas distâncias»).

     Essa imersão num tempo e num espaço não-domesticados, que basicamente anulam nossas referências cronometradinhas e mesquinhas («O tempo se esvaindo. É o que sinto aqui, disse ele. O tempo lentamente ficando mais velho. Velhíssimo. No dia a dia. É um tempo profundo, milenar. Nossas vidas recuando para um passado distante. É o que está lá fora. O deserto do Plistoceno, o domínio da extinção»), é a matéria de Ponto Ômega [Point omega, EUA-2010, traduzido por Paulo Henriques Britto], de Don DeLillo, o supremo gênio literário a surgir na minha própria e limitada escala cronológica (ele começou a publicar na década de 70), autor dos quatro romances mais belos dos últimos 30 anos (Ruído Branco; Mao II; Submundo & Cosmopolis) e que este ano completa 75 anos.

Apesar da sua imersão numa escala cósmica, há um narcisismo arraigado em Richard Elster, o acadêmico estrategista de guerra, que só será quebrado após a filha, Jessie, que para ali fora mandada pela mãe (preocupada com um relacionamento “esquisito”), desaparecer, sem deixar quaisquer indícios. Possibilidades do que poderia ter acontecido com ela misturam-se em nossa mente ao destino de Janet Leigh na cena do chuveiro em Psicose: «O ponto ômega se estreitou, aqui e agora, reduzindo-se à ponta de uma faca penetrando um corpo. Todos os grandes temas do homem reduzidos a uma única dor local, um corpo, lá fora em algum lugar, ou não».

    Em contrapartida, o episódio que de certa forma emblematiza o romance acontece quando Jim (o documentarista) está à procura de Jessie e se sente perdido no deserto, sem achar o seu carro: «Não sabia muito bem se aquele caminho de granito esfarinhado era o mesmo pelo qual eu viera. Tentei relembrar a cor e textura, até mesmo o ruído que meus sapatos faziam sobre o cascalho». Embora ele acabe por encontrar enfim o veículo, a sensação de que a alternativa contrária seria factível e irrisória passa a assombrar o leitor: «Perguntei a mim mesmo se aquela garganta, aquele desfiladeiro, se ramificava, um ramo norte e um ramo sul, e teria eu entrado no ramo errado? Não consegui me convencer de isso não era possível?». É possível, é provável, só que parece não fazer a menor diferença.

Ponto Ômega é o limite da saturação, da consumação entrópica que o ser humano está preparando para si mesmo: «Porque agora vem a introversão. O padre Teilhard de Chardin sabia disso, o ponto ômega. Um salto para fora da nossa biologia. Faça essa pergunta a você mesmo. Nós temos que ser humanos para sempre? A consciência se esgotou. Agora é voltar para a matéria inorgânica. É isso que nós queremos. Queremos ser pedras num campo».

    Principalmente na brecha que se abre no tempo cerrado das cidades para um tempo mais “real”, por assim dizer, durante a exibição do filme de Hitchcock, muitas vezes lembrei-me do universo de Julio Cortázar, mestre em delinear outras orillas, margens alternativas para o nosso mundo ( «se a mostra fosse estendida e ele continuasse voltando, cinco, seis, sete horas por dia, semana após semana, seria possível para ele viver no mundo? Ele queria isso? Onde ficava o tal do mundo?»). A grande diferença é que Cortázar, apesar de inquietante, não é um pessimista, antes pelo contrário. O universo de DeLillo é muito mais desesperado. Nele, e nesse sentido Ponto Ômega pode ser considerado a síntese da sua poética narrativa, há sempre uma atmosfera de véspera do fim. Não aquela tolice profetizada por calendários maias e quejandos, porém uma espécie de exigência estética, de desatulhar o mundo das referências e conexões. Um apocalipse higiênico.

Delillo_Omega

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 ANEXO IDIOSSINCRÁTICO

    Uma das minhas limitações como apreciador de arte  é o fato de não suportar “instalações” (e, de resto, arte conceitual em geral, a própria palavra “conceitual” me dá arrepios). Não consigo levar a sério um sujeito que faz uma estrutura com ripas e compensados de madeira onde a gente entra, o espaço vai se estreitando, a gente vai se apertando até sair numa fenda estreitíssima e então alguém lá fora nos explica que a tal estrutura “é   o capitalismo parindo o terceiro mundo”!!!

  Digo isso uma vez que o gatilho de Ponto Ômega foi, ao que parece, acionado no imaginário de Don DeLillo por uma “instalação”, e, apesar de considerar o texto lindíssimo, tenho a certeza de que se fosse eu o espectador, acharia tudo gratuito e meio hilário.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/o-triunfo-inesperado-do-romance-submundo-de-don-delillo/

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/mao-ii-de-don-delillo-o-indizivel-o-impensavel-e-a-linguagem-que-o-ocidente-entende/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/09/se-todas-as-direcoes-sao-a-mesma-cosmopolis-e-o-futuro-insistente/

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