MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/12/2010

O CONTEXTO DE SHAKESPEARE: SOB O SIGNO DA PESTE


 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de outubro de 2001)

Já em 1956,  F. E. Halliday protestava contra a “ilusão de que pouco ou nada se sabe a respeito da vida de Shakespeare”. Nada poderia endossar mais o argumento de Halliday, de que se trata mesmo de uma “ilusão” (e uma indústria cultural muito lucrativa) do que as mais de 500 páginas de SHAKESPEARE (1998), do norte-americano Park  Honan. Como se poderia escrever mais de 500 páginas sobre o que pouco ou nada se sabe?

No entanto, como se trata de uma vida muito distanciada no tempo (Shakespeare viveu de 1564 a 1616) e sobre um autor que se revelou pouco em suas obras, a biografia de Park Honan (traduzida por Sônia Moreira) ganha interesse maior como um retrato detalhado e acurado da mentalidade elizabetana e jacobina, isto é, os dois reinados (o de Elizabeth I e o de Jaime I) sob os quais viveu o homem de Stratford on Avon, principalmente no contraste entre a província e a metrópole londrina, os dois pólos de sua existência:

“Shakespeare conheceu ordens sociais contrastantes: vindo da paróquia bem ordenada e quase medieval da sua juventude, foi parar no mundo anárquico e estilhaçado dos subúrbios, onde o sucesso no teatro dependia da sorte, do acaso, da agilidade e de empenho e rapidez de raciocínio. Stratford  tinha a sua cota de competitividade comercial, mas era também um lugar de valores comunitários e religiosos mais antigos, de tradições de comportamento e sentimentos opostos aos hábitos pragmáticos e oportunistas do meio teatral. Formado essencialmente pelo temperamento e pela mentalidade devota dos seus pais, é bem possível que Shakespeare se empenhasse sem nunca se sentir inteiramente satisfeito com nada que fizesse”.

Nesse aspecto, Honan pode ser lido como um bom historiador. De documentos cartoriais, de atas de conselhos, de testamentos, surge toda a paróquia de Stratford diante de nossos olhos, bem como a Londres marcada pela superpopulação, expandindo-se para além dos marcos medievais, em subúrbios miseráveis e cheios de imigrantes e provincianos, de vez em quando assolada pela peste.

Shakespeare, aliás, parece ter nascido sob o signo da peste, já que sobreviveu, após o parto, a uma epidemia em seu cantão natal, e depois teve sua carreira nos palcos várias vezes interrompida em Londres, por causa dos surtos (e uma das medidas das autoridades era fechar os teatros).

Assistimos à grande transformação operada pela Era Tudor na Inglaterra, como ela se torna a maior potência e vai forjando, ao mesmo tempo, a consciência da própria língua (nas escolas, o latim era mais importante do que o inglês) e da identidade nacional. E as disputas religiosas que interferiam diretamente no meio dramático, através da perseguição, da censura e das ameaças de supressão dos espaços teatrais. O próprio mundo do teatro é exemplarmente caracterizado, de uma forma até excessiva.

O que escorre pelas mãos do biógrafo é o seu objeto biográfico. Não porque pouco ou nada se sabe sobre ele, pois Honan prova justamente o contrário. Quando, porém, enfoca diretamente o que se passa na mente de Shakespeare (e a mente de Shakespeare já ocupou um sem-número de indivíduos), quando abandona os “é bem possível” ou “é mais ou menos evidente”, o escrupuloso biógrafo e talentoso historiador mostra a fragilidade básica das biografias: nas poucas vezes que tanta nos passar uma idéia do que é ser um Shakespeare diante da vida e dos fatos, ora ele cai na mais completa vacuidade, ora parece encaminhar-se para a ficção, inventando a introspecção de um personagem. É o caso da continuação da passagem citada mais atrás: “…tinha motivos de sobra nos degradados subúrbios para se arrepender de ter optado pelo teatro”!!!???

Várias vezes, Honan sublinha que talvez tenha sido uma infeliz opção de Shakespeare, devido à sua necessidade de respeitabilidade e estabilidade econômica, de modo a viabilizar a continuidade de herança de sua família. Mas por que então ele escolheu o teatro, uma profissão de tão baixo status? Por que não admitir simplesmente que ele tinha o teatro no sangue, como se diz, e estava simplesmente seguindo o amor fati de Nietzsche, isto é, cumprindo seu destino?

Só isso explicaria, também, porque num ritmo de produção alucinante e mercenário, precisando prover de repertório os grupos com os quais trabalhava, e sempre plagiando e imitando fontes anteriores, ele escreveu os maiores textos teatrais e poéticos de que se tem notícia, e cuja validez e impacto são ratificados a cada ano que passa.

Da maneira como Honan caracteriza a psique de Shakespeare, a impressão que se tem é que ele, por falta de melhores opções, ingressou no teatro e foi frustrando uma inclinação natural à carreira poética, por força das circunstâncias e da necessidade de sobrevivência, até que se resignou e redefiniu seu talento em função do meio e da carreira adotada. Se as coisas ocorreram assim, foi a melhor resignação que a história já pôde registrar: tudo está bem quando acaba bem.

Comentando Macbeth, Honan afirma: “Apesar de toda a sua originalidade, o dramaturgo tinha uma idiossincrasia que talvez possa ser atribuída à modéstia, à cautela ou, ainda, ao fato de ser um ator assalariado e mais tarde um ator importante. Shakespeare muitas vzes procurava um grão de areia, uma frase, um comentário simples e autêntico, ou uma situação conhecida, inventada por outra pessoa, a partir da qual sua imaginação pudesse pôr-se a trabalhar. Nada que Shakespeare tenha pego ao acaso, no entanto, é bastante para explicar a atmosfera de Macbeth, seu enorme poder evocativo, sua impressionante tensão e economia de recursos, e sua complexa coleção de imagens”. Ao fim e ao cabo, mesmo as mais exaustivas pesquisas têm de se render ao imponderável, à força do inapreensível.

Portanto, mais que uma biografia, SHAKESPEARE é um bom livro sobre o contexto que o envolveu. E como já disse Harold Bloom (em A invenção do humano), “o contexto de Shakespeare  explica tudo… exceto  o que o torna de tal modo diferente  de seus companheiros que, em última análise, chega a parecer uma espécie distinta”.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/12/03/a-mulher-negra-o-homem-dourado-e-o-malabarista-de-palavras/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/17/os-personagens-de-shakespeare-em-quatro-atos-longos-e-um-quinto-ato-curto/

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