MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/05/2011

A FEIÚRA DA BELEZA AMERICANA

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de fevereiro de 2009)

    Quando Flaubert publicou Madame Bovary em 1857, parecia que sua protagonista dera com os limites inescapáveis do corriqueiro, da mediocridade cotidiana. Mas havia muito a mapear ainda: é a essa missão que se dedica o terrível Foi apenas um sonho (Revolutionary Road, em tradução de José Roberto O´Shea), romance publicado em 1961 por Richard Yates (aos 35 anos), ilustre antepassado de um dos dois melhores filmes norte-americanos desta última década, Little Children- Pecados Íntimos, de Todd Field, o mesmo que já fizera o magnífico In the bedroom- Entre quatro paredes[1] .

    A heroína de Revolutionary Road, April Wheeler, age como uma Lady Macbeth da pequena burguesia que pressiona seu marido a ser “algo mais” do que um funcionário domesticado pela rotina, mesmice e baixas expectativas. Em 1955, eles moram numa “adorável” casinha suburbana (na rua que fornece sarcasticamente o título original) com os dois filhos, mantêm relações amistosas e condescendentes com um casal vizinho e são tão “sofisticados” e fora do comum que até a mais-que-satisfeita agente imobiliária Sra. Givings (“por que tudo sempre mudava, quando tudo o que se queria, tudo o que humildemente se pedia ao Deus que porventura existisse, era que algumas coisas pudessem ficar como estavam?”) resolve a apresentar a eles a “vergonha” da sua existência complacente, o filho “louco”, John, internado num sanatório, e a quem permitem saídas dominicais.

    As visitas de John (e o que ele diz) e os planos mirabolantes de April para escapar do claustrofóbico universo suburbano (durante alguns meses ela prepara meticulosamente uma mudança para a Europa) vão empurrando a trama de Revolutionary Road para o intolerável, colocando o leitor em xeque, pois afinal, que vida não soçobra na armadilha das escolhas irrevogáveis, das prisões referenciais e do tédio do dia-a-dia? É uma daquelas experiências viscerais de leitura que, indo na jugular, nos obrigam a repensar por que deveríamos nos considerar melhores do que o meio à nossa volta.

    O livro é construído maciçamente com o foco narrativo no marido, Frank (só há um momento importantíssimo em que ele se foca em April), o qual se acostumou, com a bela e exigente esposa (que o achava a pessoa mais “interessante” que já conhecera), a encarar todos os aspectos da sua vida (emprego, amizades) sob o ponto de vista da ironia e da autoconsciência. Só que no caso de Frank, é mais um caso de má consciência porque, no fundo, ele está satisfeito com o seu emprego e mesmo quando “teatraliza” chistosamente seu dia-a-dia, ele está em conflito com seu profundo desejo de estabilização e felicidade no apaziguamento (é por isso que imagina conversas com April, antecipando objeções e críticas).

    Na cena-chave, uma das mais importantes da ficção norte-americana, após uma discussão com John, ele define (para a esposa) a insanidade como a incapacidade de amar alguém e tem de enfrentar uma esposa “insana”, que afirma não amá-lo e não esperar mais nada dele, e para quem a constituição de uma família não passou de uma brincadeira frívola, um faz-de-conta que se tornou uma jaula existencial.

    Graças ao filme de Sam Mendes, o leitor brasileiro pode agora conhecer um romance esplêndido. A ironia suplementar é que Mendes, tão superestimado com as transgressões bobas e medianas de Beleza americana, finalmente escolhe um material impactante que devassa essa “beleza de superfície” como feiúra, com a eficácia precisa do bisturi e a delicadeza de um especialista em meios tons. A mistura dessas duas características contrastantes sela o destino de April Wheeler, a verdadeira beleza americana, irônica e desesperada, ainda mais sob os traços da fabulosa Kate Winslet.


[1] Caso interesse a alguém, o outro grande filme da década, a meu ver, é O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford.

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