MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/04/2011

Destaque do blog: DUNA, de Frank Herbert: na corrente sanguínea da cultura contemporânea


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de abril de 2011)

“Será que o profeta vê o futuro? Ou será que enxerga uma linha de fraqueza, uma falha ou rachadura que ele possa partir com palavras ou decisões, da mesma maneira que um cortador de diamantes estilhaça sua pedra com o golpe de uma faca?” (DUNA, de Frank Herbert)

“O jogo mais perigoso do universo é governar sob uma base oracular (…) Para nossos propósitos, tomamos emprestada uma definição das Bene Gesserit e consideramos os vários mundos como reservatórios de genes, fontes de ensinamentos e de mestres, fontes de possibilidades…” (O MESSIAS DE DUNA, de Frank Herbert)


Li DUNA pouco depois do  lançamento de sua tradução no Brasil, na esteira da adaptação cinematográfica (1984) de David Lynch. Não que esta tenha me entusiasmado, antes o contrário. Ninguém duvida que Lynch  é um grande realizador, mesmo que não se goste dos seus trabalhos (eu, por exemplo, sou fã ardoroso de Cidade dos sonhos e de Twin Peaks  e não suporto A estrada perdida e Coração selvagem, mas jamais negaria o fascínio deles e que existem cenas antológicas em ambos, como também em Veludo azul). No caso da transposição do romance (publicado em livro em 1965), o diretor—que vinha de um grande sucesso, O homem elefante , até indicado para o Oscar—teve de se haver com aquele tipo de produção da família De Laurentis, onde sempre parece que faltou dinheiro em determinada hora e o resultado final ficou precário, pobre e cafona (entretanto, não fiz nenhuma revisão do filme desde então; há, no entanto, um defeito irremovível: a péssima escolha de Kyle Mclachlan para o papel do herói, ele não funciona mesmo). Por isso, o filme não é carne nem peixe. Mesmo assim, a tradução de Jorge Luis Calife, publicada pela Nova Fronteira, fez muito sucesso e abriu as portas para os outros volumes dessa série cultuada (mas nós sabemos no que se transforma esse tipo de culto por uma série, basta lembrar as ridículas convenções de trekkies e quejandos). Para se ter uma idéia, quando comprei O messias de Duna, a continuação imediata (publicado originalmente em 1969), já era a 5ª.reimpressão.

Não prossegui a leitura dos outros volumes (acho que tem mais três ou quatro). E curiosamente, embora me lembre de ter devorado os  dois volumes iniciais (na época era um voraz apreciador de histórias de destinos que se cumpriam, nem que fosse por caminhos enviesados e tortos, como é  o caso do destino de Paul Atreides, em Duna. ou de Joseph Knecht, de O jogo das contas de vidro, de Martha Quest, de Os filhos da violência, de Morgana de As brumas de Avalon, ou num plano mais grandioso, da própria raça humana, em Fundação, apesar da intervenção do fator não-previsto, o Mulo), eles meio que se apagaram na minha memória, talvez porque tenha ficado a maior parte dos anos 80 dominado pelo impacto e pela autoridade de Shikasta, de Doris Lessing. Na minha memória afetiva, Duna não se gravou tão a fundo quanto outros clássicos contemporâneos da ficção científica como Um cântico para Leibowitz, Fundação, A mão esquerda da escuridão, Um estranho numa terra estranha, Solaris (só para lembrar dos mais óbvios)… Nem sequer lembrava do pioneirismo incrível com que Herbert, em meados dos anos 60, abordava temas como a preocupação ecológica, o desenvolvimento sustentável, a reciclagem de recursos e artefatos, a possibilidade de que a escassez da água levasse à guerra (“O recém-chegado a Arrakis geralmente subestima a importância da água por aqui. Estamos lidando, veja bem, com a Lei do Mínimo…” ), a desertificação do planeta (por outro lado, o jihad islâmico, a guerra santa, o fundamentalismo religioso como ameaça palpável).

Agora é lançada uma nova tradução, pela editora Aleph, e de quebra—numa releitura após um quarto de século—duas constatações óbvias: graças a Maria do Carmo Zanini, o leitor brasileiro pode apreciar melhor o estilo suntuoso; e sobretudo descobre que o romance se tornou mais atual, mais poderoso.

Não é que a tradução de Calife fosse ruim, longe disso (e foi ele, afinal, que formou uma geração inteira de fãs brasileiros da série), contudo sua preocupação visível era amortecer certas singularidades do estilo de Herbert e simplificar para o leitor vernáculo sua encorpada e incrível retórica, uma vez que a história já era intrincada o suficiente:

O clã Atreides é uma das mais ilustres famílias de um Império Galático cuja maior riqueza vem de um planeta inóspito, Arrakis (ou Duna): a mélange, especiaria que prolonga a vida e vicia o usuário. Há uma Guilda que sustenta comercialmente o Império e a exploração da mélange. Os habitantes típicos de Arrakis, os fremen são tidos como escória.

Há uma rixa entre o clã Atreides e o malévolo clã Harkonnen. O imperador destitui este último do comando de Arrakis e o conde Leto Atreides é obrigado a se transferir com sua família para o planeta da especiaria (mas é uma armadilha). Há uma irmandade feminina, as Bene Gesserit, que durante gerações manipulou os genes das grandes linhagens para produzir o “macho da espécie”, o kwisatz haderach, o exemplar masculino dos seus poderes. Acontece que Lady Jessica, que pertence à irmandade e é concubina do conde Leto, sem a permissão de suas superioras deu à luz um menino, Paul, que pode ser inesperadamente o kwisatz haderach.

Quando seu pai é traído e morto em Arrakis, Paul e a mãe se salvam, juntando-se ao povo fremen, e através do consumo intenso da especiaria, e conhecendo os segredos do planeta, que é palco de uma sorrateira transformação ecológica, ele desenvolve o poder da presciência e se torna o Muad´Dib, o líder religioso profetizado por lendas ancestrais. É nessa condição que ele retorna para vingar a morte do pai e desafiar o Império e a Guilda…

Apesar de achar admirável a fusão que Herbert faz de várias tradições esotéricas e religiosas, sem que elas virem uma mixórdia (ainda que o islamismo dê o tom maior: não dá para não lembrar de Maomé quando se fala do Muad´Dib), eu não consigo me envolver muito com esse aspecto do livro (que me emociona mais em O messias de Duna, quando o épico vira tragédia). O que mais me prende e impressiona é o poder de criar um mundo, sua hierarquia de classes, suas disputas, com seus heróis, seus vilões, os aliados de uns e de outros, todos delineados de uma forma inesquecível. Portanto, mais do que o lado Carlos Castañeda, com sua exploração de estados alterados da consciência, suas viagens místicas, seu uso de drogas, eu gosto mesmo é de Duna pelo lado balzaquiano: trata-se de um dos maiores romances do século XX.

Não é à toa que lançou sua imensa sombra sobre quase tudo que veio depois: quem atravessar o deserto de Arrakis encontrará ecos de Jornada nas estrelas (especialmente nos seus filhotes A nova geração & Deep Space Nine, com os conflitos entre espécies e formas de vida[1]), de Guerra nas estrelas (o deserto, o predestinado aparecendo na periferia do universo), de Matrix (o escolhido, o oráculo), de As brumas de Avalon (a irmandade feminina e as linhagens masculinas); de Avatar (os povos nativos subestimados e ecologicamente corretos) e até de Shikasta (o planeta problemático), de Doris Lessing, só para citar exemplos óbvios.

A especiaria de Herbert entrou na corrente sanguínea da cultura mundial.


[1] A similaridade se estende até a um detalhe que me desagrada: a tentativa que se torna kitsch de tentar transmitir “hábitos” de povos inventados,  como os culinários, e que sempre me parece pobremente decorativo (e nesse ponto sou obrigado a concordar com James Cameron, quando diz que queria evitar, em Avatar, e por isso esperou pela tecnologia adequada, aqueles povos alienígenas produtos da maquiagem hollywoodiana, que dominam todos os Star Treks): “Os criados, autorizados por um gesto do duque, começaram a colocar os pratos sobre a mesa: assado de lebre do deserto ao molho cepeda, aplomage siriano, chukka na redoma, café com mélange (o odor fragrante de canela da especiaria percorreu toda a mesa), um verdadeiro ganso de panela, servido com um vinho frisante caladanino…”

1 Comentário »

  1. Oi Alfredo!
    Não lí Duna, realmente não gosto desse tipo de leitura. Admiro você por ler e… gostar. Até que
    dá um certo entusiasmo por esse tipo de leitura.
    O que admiro são esses autores de ficção parecerem
    profetas.Mas, nota 10 para a crítica.
    Aquele verme da areia é assustador.
    Maria Amelia

    Comentário por maria amelia — 26/04/2011 @ 19:43 | Responder


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