MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/04/2011

Arthur C. Clarke desvenda o monólito


   Arthur C. Clarke resolveu em 3001-A odisséia final (traduzido por Vera Ribeiro), ressuscitar Frank Poole, aquele astronauta arremessado para o espaço sideral pelo psicótico computador HAL em 2001-Uma odisséia no espaço.

     Poole ficou vagando, congelado, até que, mil anos depois, uma nave o resgata da sua soneca cósmica. A essa altura, Júpiter foi destruído como planeta e virou um segundo sol, e o misterioso monólito que absorveu o outro astronauta da Discovery, Dave Bowman, ainda continua “vigiando” Europa, um dos satélites de Júpiter, e no qual estranhas espécies de vida estão se desenvolvendo. Ao mesmo tempo que se esforça para conviver com pessoas de uma sociedade mil anos à sua frente, Poole estabelece contato com o que sobrou espiritualmente de Bowman (e HAL), descobrindo, através deles, que a humanidade está ameaçada. A única solução é destruir o monólito de Europa.

    Não deixa de ser curioso como uma ameaça de extinção da humanidade pode provocar bocejos. É que Clarke revela-se um escritor medíocre. Ele escrevera, no começo de sua carreira, um conto chamado A sentinela, utilizado como base para o roteiro de 2001. Como se sabe, o filme de Stanley Kubrick é uma obra-prima, uma das coisas mais lindas que já foram feitas no cinema. A medida exata dos anos-luz de distância entre o gênio de Kubrick e a falta de talento criativo de Clarke pode ser constatada pelos resultados artísticos de 2001, o filme, e 2001, o livro. No filme, tudo é mistério, instigação e confiança na inteligência do leitor; no livro, explicações mastigadinhas e um tom modorrento facilitam a vida do leitor.

     Clarke, como um serial killer da science fiction, parece ter alimentado ao longo dos anos a proposta homicida de destruir de todas as formas os enigmas semeados pela genialidade kubrickiana. Primeiro, ele quis reabilitar HAL e inventou toda uma trama onde ele poderia bancar o bonzinho. O resultado foi aquele constrangimento glasnóstico (estávamos no final da Guerra Fria, lembram?) chamado 2010-O ano em que faremos contato (filmado com burocrática eficiência por Peter Hyams, que está para Kubrick como Franco Zefirelli para Visconti). Quanto mais rápido for esquecido,melhor.

   Antes de 3001-O bocejo final, Clarke ainda escreveu outro capítulo da saga, 2061, que eu nunca tive vontade de ler, após a experiência de 2010—O ano em que faremos bobagem. O novo livro prova, contudo, que ele não estava realmente disposto a deixar em paz Poole, Bowman, HAL e o monólito.

     Não bastasse o clichê do sujeito que, congelado de alguma forma, é despertado numa outra época (que saudade de Buck Rogers!), ainda por cima ele se mostra incapaz de criar personagens minimamente interessantes para representar a nova época ou pelo menos uma narrativa que sustente a discussão de idéias (inevitável nesse esquema “um estranho numa terra estranha”). Qualquer episódio de Jornada nas estrelas, quer a série antiga, quer a nova geração, tem mais idéias em discussão do que as duzentas e tantas páginas de 3001-A tédiosseia final.

   E irrita mais ainda ver os valores classe média americana vigorando na sociedade do próximo milênio. Deixando de lado o astronauta frio, quase inumano, que aparecia no original, ele faz de Poole uma espécie de “sal da terra”, pé no chão, que anseia por ser pai e avô, que sente amizade pelo comandante da nave que o resgatou por ser um tipo descontraído e antiburocrático, e que acaba atraído pela cientista encarregada de adaptá-lo ao mundo em que foi acordado (original, não?). Se Arthur C. Clarke prestasse aos personagens e situações o cuidado que tem em descrever as maravilhas tecnológicas que podem existir no futuro, poderíamos até ter um novo Fundação, aquele livro monumental de Isaac Asimov. Infelizmente, 3001 é o que é. Um livro ruim, com um estilo pueril, diálogos triviais e personagens rasos. E poderia ficar tranquilamente vagando como lixo espacial no sistema solar do esquecimento absoluto se o autor não tivesse cometido um sacrilégio, aliás, a única ousadia do livro em qualquer sentido: qualquer um que tenha visto 2001 sabe que o monólito se mantém um enigma. Pode ser um artefato alienígena, um elo perdido, uma entidade, um portal, enfim, qualquer coisa, e tudo. Clarke resolve esclarecer o segredo do monólito: é nada mais do que um computador ultra-sofisticado! E, ameaçando a humanidade, nada mais correto do que infectá-lo com um coquetel de vírus de computador! Mesmo que o horrendo Independence Day não tivesse utilizado solução semelhante, isso só pode ter ocorrido a Clarke num dia em que sua mente estava infectada por um vírus letal. Como ele pôde diminuir dessa maneira o escopo, a magnitude do monólito? E como ele pôde destruir todo o processo de transcendência da matéria sofrido por Dave Bowman em 2001, que roça o místico de uma forma tão inesperada, fazendo dele essa “entidade” piegas e sentimentalóide, que diz: “Não me esqueçam” aos humanos encarnados e que pede para ser preservado numa espécie de disquete.

       Toda a transcendência sugerida na passagem de Bowman para dentro do monólito serviu apenas para terminar como um merchandising de alguma Microsoft cósmica. Preserve sua alma num disquete. Destrua a idéia de Deus com um mega-vírus. Arthur C. Clarke implanta o neoliberalismo, o fim da história, na science fiction: vamos sucatear tudo através do denominador comum mais baixo. Que monólito-enigma, que nada! Todo mundo reclama que não entende 2001, então o negócio é deixar bem claro que ele o objeto místico porque não compreensível inteiramente pela razão humana não passa de um artefato tecnológico mais aperfeiçoado, um Windows-Terceiro Milênio. Não chegamos lá, mas ainda chegaremos.

    Porém, não se preocupe, leitor. A tecnologia pode atingir limites inconcebíveis, entretanto sempre haverá os clichês dos maus autores para embalar a humanidade: “Poole voltou os olhos para a bela Terra azul, encolhida sob seu surrado cobertor de nuvens para se proteger do frio do espaço. Lá, dentro de poucas semanas, ele esperava embalar seu primeiro neto. Quaisquer que fossem os poderes e potentados que espreitam para além das estrelas, lembrou a si mesmo, só havia duas coisas importantes para os seres humanos comuns: o Amor e a Morte”. Tocante, não? 3001-O direito de nascer final. Chegamos realmente à fronteira final, capitão Kirk: a versão Forrest Gump de 2001.

    E por falar em fronteira, a editora do livro parece ter sido contaminada pelo vírus de indigência criativa de 3001. Colocaram uma capa em que o título vem sobre um retângulo preto que sugere o monólito e, ao fundo deste, há uma espécie de explosão de luz. Mais falta de imaginação e maior feiúra, impossível. Com tal capa e tal conteúdo, se alguém se dispuser a gastar 27 pilas merecerá a exclamação de Spock: “totalmente ilógico”.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de setembro de 1997

2 Comentários »

  1. Obrigado por contar o final dessa odisseia, assistir aos dois filmes inspirados no Livro e como cinefilo fico contente de saber que o Filme de 1968, ainda consegue ser mais interessante que o final do Livro, tanto que talvez por isso nunca tenha ganhado uma adaptação cinematografica.

    Comentário por Marcos GARU — 20/09/2012 @ 20:39 | Responder

    • Obrigado pelo comentário, Marcos. Para mim, “2001” ainda é o melhor filme. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 21/09/2012 @ 8:00 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: