MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/04/2010

O herói-objeto de João do Rio


      João do Rio (pseudônimo de Paulo Barreto) nasceu no mesmo ano de Lima Barreto (não são parentes), 1881 e morreu um ano antes (em 1921).  Foi um célebre cronista das primeiras décadas do século XX e o mais célebre tradutor de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

     Devido à dedicação dos pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa dele vieram à tona dois romances praticamente desconhecidos: A profissão de Jacques Pedreira (1910-13) e Correspondência de uma estação de cura (1918).

      O primeiro é o mais interessante como obra literária. Começa com o personagem-título sendo pressionado pelo pai a assumir uma profissão (advogado) e termina com ele conseguindo uma (diplomata). João do Rio faz um malicioso e desmoralizador retrato da sociedade carioca do iníciio do século ao mostrar como Jacques preenche sua existência entre um episódio e outro: vagabundo convicto, indolente, aproveitador, corrujpto, cafajeste, burraldo, “não podia deixar de sentir-se superior. Superior, por quê? Não o sabia, nem o era. Mas assim o fizera a educação e também a herança… Os verdadeiros amigos de Jacques podiam-lhe jurar que qualquer contínuo era mais útil e mais inteligente. Não o acreditaria. Ele era importante, mais importante, apesar de não ter qualidade alguma superior para compensar as más disposições iguais às de todos os homens, mais às da sua condição“. Sem chegar a ser um tipo repelente como o Cássi Jones de Clara dos Anjos, boa parte do seu tempo é ocupado por um caso com a provinciana e rica Alice, casada com um deputado, “ligação perigosa” que concretiza uma das suas maiores aspirações existenciais: “Ainda não tivera uma amante casada. Quanta coisa ainda não fizera na vida! Mas havia de fazer, tinha o desejo de fazer, desde que elas fossem agradáveis e pouco trabalhosas“.

      A preocupação obsessiva de Jacques em evitar o batente e manter-se up to date com a melhor sociedade faz do romance de  João do Rio uma obra afim (mas não no mesmo nível) a dois grandes textos coetâneos: Em busca do tempo perdido, de Proust (cujo primeiro volume sairia em 1913), e A época da inocência (1920), de Edith Wharton (aliás, entre as mais apreciadas “qualidades” de Jacques está o apuro no vestir, tal como os rapazes do livro de Wharton).

    Só que os heróis dessas duas obras-primas não são rasos e Jacques é, e muito. E se em Proust até o aristocrático grand monde europeu revela-se tacanho e risível, o que dizer de uma sociedade medíocre e atrasada como a nossa procurando emular costumes cosmopolitas (ao contrário da sociedade whartoniana, que realçava deliberadamente seu provincianismo para se defender do cosmopolita, tido como corrupto)? Tal pretensão aumenta o ridículo swiftiano de uma sociedade deslumbrada, mas nunca deslumbrante.

      Pena que a fatuidade contamine também o estilo do autor, que apresenta ostensivamente o cinismo e o pessimismo filosófico de um Machado de Assis ou de um Lima Barreto, sem um vestígio da profundidade moral e humana desses dois grandes autores cariocas, embora A profissão de Jacques Pedreira seja bastante revelador do tipo de sociedade que compõe o universo de Quincas Borba e de  Recordações do escrivão Isaías Caminha.

      Mesmo permanecendo na superfície do cinismo fácil, de salão, o livro se destaca de outras obras do mesmo período pela vivacidade e dinamismo. Se há muitas coisas descosturadas na estrutura, se ele apresenta um ritmo espasmódico e episódico, há também muitos detalhes a mostrar olho vivo e faro fino para a dissecação de uma hierarquia de valores que, inclusive, vampiriza a figura de Jacques, essa mistura ambulante de futilidade e beleza; pois Jacques Pedreira é uma curiosa narrativa onde o sujeito (o protagonista) é mais um objeto (nem  pharmakós,  vítima da ” sociedade” como, por exemplo, Isaías Caminha ou Rubião chegam a tanto): “estava junto dele, fremente. Não era desejo. Era um pouco de adoração pela graça estuante do efebo… via-lhe apenas a beleza, essa quente beleza, em que a fronte era lisa, sem preocupação, e o sorriso garoto. É o único momento em que os homenscausam paixões”.

    No finalo, o que decorre da atmosfera do livro é uma degradação do significado do trabalho, como a sociedade brasileira sempre se envergonhou dele e como a malandragem e a esperteza sempre foram mais valorizadas (não oficialmente, é claro), uma ideologia subjacente exemplarmente retratada em Correspondência de uma estação de cura: viver em férias, comentando, invejando e, se possível, denegrindo o status alheio.

(resenha publicada, com poucas alterações, em 02 de julho de 1996)

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: