MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/06/2014

Destaque do Blog: ZAZIE NO METRÔ, de Raymond Queneau

Queneaucosac

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/14/jovialidade-e-irreverencia-na-literatura-francesa-zazie-aos-50/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 2009)

Ainda hoje, em nossos tempos impregnados pela cultura teen, dá para sentir um gostinho do impacto causado em 1959 por Zazie dans le métro [Zazie no metrô, em inspirada tradução de Paulo Werneck], que trazia não só uma adolescente como heroína (despida de quaisquer atributos convencionais da ficção até então) como também incorporava a linguagem das ruas, as gírias e desbocamentos do coloquialismo, sabotando com isso a tão cultuada “literatura francesa”, com sua elegância marmórea, suas frases polidas (em todos os sentidos da palavra), seu classicismo aparentemente inato (como se não tivesse existido Rabelais).

Zazie chega a Paris e quer andar de metrô. Não andará, e essa será uma das muitas expectativas, dela, de outros personagens e do leitor, contrariadas pelo irreverente e molecão autor de 56 anos: Raymond Queneau (1903-1976), um dos mais criativos membros do OuLiPo (Oficina de Literatura Potencial), grupo vanguardista, celebrizado devido às diversas experiências com a linguagem, e ao qual pertenceu também Italo Calvino, talvez o único a escrever obras-primas tão joviais quanto Zazie (é o caso, por exemplo, de Se um viajante numa noite de inverno).

Zazie chega a Paris e fica sob a guarda do “tio” Gabriel. Logo some, aventurando-se pelas ruas, envolvendo-se com um suposto pedófilo, a quem rouba uma calça jeans (ortograficamente deformada para “djins”, já que uma das subversões do texto é a transliteração fonética do que dizem e pensam os personagens). E assim acaba descobrindo que Gabriel, que dizia ser vigia noturno, na verdade se apresenta numa boate gay como Gabrielle. O pedófilo, que podia ser um ator característico e também um policial (e nessa função assedia a mulher de Gabriel, Marceline), reaparece na narrativa como guarda de trânsito (há uma confusão em Paris devido à greve do metrô), depois como chefe das forças da lei que tentam impor ordem (daquela forma que conhecemos bem) ao caos instaurado por uma noitada que arrasta turistas incautos, uma senhora de bem, Gabriel, seus vizinhos (incluindo o papagaio Laverdure que repete ao longo de todo o romance: “Falar, falar, você só sabe fazer isso”) e, claro, Zazie.

Zazie cai na noite, para espanto do politicamente correto. Temos essa duvidosa capacidade protéica dos agentes da lei de se transformarem em seu contrário, e temos uma cena em que uma passante (a senhora de bem) admoesta a menina por maltratar um adulto. Temos esse tio que faz show numa boate de “tias” (é o termo utilizado no livro, não me culpem) e essa tia (que nunca é mencionada dessa forma) Marceline, a qual, no final, aparece transformada em Marcel, para “salvar” Zazie do mafuá armado durante a noitada e entregá-la para a mais que duvidosa segurança dos braços da legítima mãe, que ouve da filha como súmula da sua experiência em Paris: “Envelheci”.

    Zazie no metrô flerta o tempo todo com o desenho animado, com o cinema pastelão, com o nonsense e a anarquia inerentes a esses gêneros, e esbanja alegria e vitalidade, ao desautomatizar os papéis tradicionais (adolescente, adulto, homem, mulher, polícia, bandido, mãe, filha) e a lógica rotineira que guia nossos dias. Paris, aqui, realmente, é uma festa.

 

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