MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/09/2015

O MEU TIPO DE ROMANCE: “Conversa no Catedral”, de Vargas Llosa

mario vargas llosa jovenConversa-no-Catedral

[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 9 de setembro de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/09/o-meu-tipo-de-romance-conversa-no.html]

«Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas ideias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história».

Essas afirmações podem ser encontradas no livro de Ricardo A. Setti, Conversas com Vargas Llosa[1]. Embora haja uma verdade profunda nelas, creio que também é possível declarar que o escritor peruano (Nobel 2010) é um típico representante do romance no formato modernista: enciclopédico, labiríntico e total, no sentido joyceano; e no caso dele muito especificamente, no sentido faulkneriano.

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Não foram poucas as vezes em que Llosa se declarou um admirador de Faulkner, tendo usado com muito proveito suas técnicas, inclusive a de fazer a história surgir de conversas, de colóquios nos quais muitas vezes os fatos se refratam em diversas versões, que se opõem e se complementam. Três autores, aliás, sempre apareceram muito nas entrevistas e ensaios de Vargas Llosa: duas admirações constantes, Faulkner e Flaubert, e uma relação de amor e ódio: Sartre (para se purgar do fantasma sartreano, publicou um livro inteiro e alentado: Contra vento e maré[2]), com quem acabou sendo injusto, tachando seus romances de muito ruins, o que está longe de ser a verdade.

Um dos aspectos mais relevantes de  CONVERSA NO CATEDRAL[3] tem uma feição tipicamente sartreana: além das conversas (de Zavalita com Ambrosio, matriz do romance; com o jornalista desiludido, literato falhado, Carlitos; também tem os diálogo entre Ambrosio e Don Fermín, entre Ambrosio e Queta), das cenas justapostas, da discreta narrativa em 3ª. pessoa, dos discursos indiretos livres, enfim, de toda a pletora de recursos explorados no romance, um procedimento narrativo relevante (que Llosa praticará com muito proveito até no recente O paraíso na outra esquina, embora de forma mais discreta e atenuada) é o do solilóquio que Zavalita, o protagonista, mantém consigo mesmo e que espelha sua perplexidade, sua frustração e sua má consciência (que origina situações em que ele age de má fé, no sentido sartreano do termo, de descompasso entre sua ação e sua consciência). Solilóquio + dúvidas= Hamlet.

Entre outras, a leitura de CONVERSA NO CATEDRAL me fez sonhar (um dos muitos projetos que já acalentei) em perseguir num estudo o arquétipo de Hamlet na ficção da modernidade, encarnado especialmente em intelectuais e artistas. O próprio Mathieu de Os caminhos da liberdade (a trilogia de Sartre formada por A idade da razão, Sursis Com a morte na alma, que eu acho sensacional, malgré o que Llosa possa dizer contra seu antigo mestre); também os heróis e heroínas de Os mandarins (Simone de Beauvoir);  Sem olhos em Gaza (Huxley); O jogo da amarelinha (Cortazar); O carnê dourado (Doris Lessing); O lobo da estepe (Hesse), só para ficar em alguns poucos exemplos notáveis.

Mas voltemos ao nosso amigo Zavalita, que começa a participar nem sabe bem por que das reuniões clandestinas do Partido Comunista peruano  quando se torna amigo de Aída e  Jacobo (o caso é que ambos são apaixonados por Aída e Jacobo utiliza as reuniões clandestinas para separá-la de Zavalita e se aproximar dela).

Vejamos algumas passagens:

«Tinha sido nesse segundo ano [na universidade San Marcos], Zavalita, ao ver que não bastava aprender marxismo, que também fazia falta acreditar? Provavelmente o tinha fodido a falta de fé, Zavalita. Falta de fé para crer em Deus, menino ? Para crer em qualquer coisa, Ambrosio… O pior era ter dúvidas, Ambrosio, e o maravilhoso poder fechar os olhos e dizer Deus existe, ou Deus não existe, e acreditar… Então a vida se organizaria sozinha e a gente já não se sentiria vazio, Ambrosio»

« e isso o preocupava tanto, Zavalita? dizia Aída. E Jacobo, se de todas as maneiras ele tinha que começar acreditando em algo era preferível crer que Deus não existe a crer que existe. Santiago também o preferia, Aída, ele queria se convencer que Politzer tinha razão, Jacobo. O que o angustiava era ter dúvidas, Aída, não poder estar seguro, Jacobo… As dúvidas eram fatais, dizia Aída, paralisam-no e você não pode fazer nada, e Jacobo: passar a vida esmiuçando será verdade? torturando-se será mentira? em vez de agir… Para agir, era preciso acreditar em algo, dizia Aída»

 «Sempre mentindo, a vida toda fingindo… No colégio, em casa, no bairro, no Círculo, na Facção, em La Crónica. Toda a vida fazendo coisas em que não acreditava, toda a vida dissimulando… E toda a vida querendo acreditar em algo. E toda a vida mentira, não acreditando»

 «Tinha se dedicado furiosamente a ler, a trabalhar no Círculo, a acreditar no marxismo, a emagrecer»

«Eu já invejava as pessoas que acreditavam cegamente em alguma coisa, Carlitos»

«E se você tivesse se inscrito naquele dia, Zavalita, pensa. A militância o teria arrastado, comprometido cada vez mais, teria dissipado as dúvidas e em alguns meses ou alguns anos teria se tornado um homem de fé, um otimista, um obscuro e puro herói a mais? Teria vivido mal, Zavalita, como Jacobino e Aída, pensa, entrado e saído da cadeia algumas vezes, sendo admitido e despedido de sórdidos empregos e, em vez de editoriais em La Crónica contra os cachorros raivosos, escreveria nas páginas mal impressas de Unidad, quando tivesse dinheiro e não fosse impedido pela polícia, pensa, sobre os avanços científicos da pátria do socialismo e a vitória no sindicato dos  panificadores de Lurín… ou teria sido mais generoso e entrado para um grupo insurrecional e sonhado e atuado e fracassado nas guerrilhas e estaria na prisão, como Héctor, pensa, ou morto e decomposto na selva, como o cholo Martinez, pensa, e feito viagens semiclandestinas a Congressos da Juventude, pensa, Moscou, levando saudações fraternais a Encontros de Jornalistas, pensa, Budapeste, ou recebido  treinamento militar, pensa, Havana ou Pequim. Você teria se formado em Direito, teria caso, teria sido assessor de um sindicato, deputado, mais desgraçado, a mesma coisa ou mais feliz? Pensa: ai, Zavalita»

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Creio que se trata da obra-prima de Vargas Llosa, apesar da quantidade de títulos impressionantes[4].   Tenho lido intensamente durante estes últimos trinta anos a sua ficção (e também a sua ensaística[5]) e creio que posso afirmar com segurança: CONVERSA NO CATEDRAL é um romance total, um daqueles livros absolutos,  uma visão caleidoscópica e assombrosa da ditadura do general Odría, que deu o golpe no Peru no finalzinho dos anos 1940 e impôs um regime ditatorial por boa parte da década de 50. E Vargas Llosa o publicou em 1969, quando tinha apenas 33 anos!

É claro que já tinha dado uma medida da dimensão do seu talento porque os seus dois primeiros romances, A cidade e os cachorros(durante anos, conhecido no Brasil, e foi assim que eu o li, como Batismo de fogo), em 1962, e A casa verde, de 1965,  eram empreendimentos ciclópicos e singulares (A casa verde ainda se desdobraria em outros, devido ao personagem Lituma). Mesmo assim, há algo de incomparável no fôlego e no apetite de totalidade que nos dá o seu terceiro romance. O único caso similar das últimas décadas que eu conheço é Fado Alexandrino (1983), um dos grandes romances de António Lobo Antunes.

O título vem do reencontro entre Santiago Zavala, o Zavalita, com o antigo chofer da família, Ambrosio. Santiago vai ao canil municipal porque homens da carrocinha pegaram seu cão, Batuque (como eles ganham uma miséria e por número de apreensões, às vezes não se furtam de roubar animais, ou mesmo de tirá-los à força dos donos, como aconteceu com a mulher de Santiago). A ironia é que ele, editorialista, vem escrevendo uma série a respeito da raiva e pedindo medidas das autoridades para conter o número de cães na capital. No canil, ele testemunha uma espantosa e bárbara execução de um cachorro (mas consegue resgatar o seu): dois funcionários enfiam-no num saco e o matam a pauladas. Um deles é Ambrosio. No começo do capítulo, saindo do serviço, Santiago (que acabou de fazer 30 anos) se pergunta “em que ponto se fodeu”, “em que ponto o Peru se fodeu”. E verá em Ambrosio um espelho, mais velho, numa escala social diferente, um outro tipo de derrota, de embotamento, de sensação de ter sido vencido pela vida. Aquela sensação de logro existencial que se abate sobre os personagens de Educação Sentimental (do autor predileto de Vargas Llosa, Flaubert, a respeito do qual ele escreveu o magistral ensaio A orgia perpétua), no final de suas trajetórias pelas aventuras da sua geração. A má consciência de Santiago Zavala como homem de imprensa, como marido, como peruano (depois conheceremos os sonhos de sua geração) já aparece logo no princípio de CONVERSA NO CATEDRAL.

“Catedral” é o nome do boteco, uma espelunca[6], em que ele e Ambrosio bebem durante horas, numa conversa que permeará as centenas de páginas do romance. Um nome significativo, uma vez que o começo da revolta de Santiago contra sua classe social e sua família foi o anti-clericalismo, a repulsa pelos padres e pelo catolicismo.

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Como eu já disse, a conversa entre Santiago e Ambrosio (em torno da qual ronda um segredo bombástico sobre o pai de Santiago, que está no cerne da trama do romance), ambivalente e exasperante, permeia o romance inteiro. Mas, como é seu hábito, e uma das marcas do seu virtuosismo técnico, Llosa faz com que duas ou várias situações fiquem sobrepostas em cada passagem da narrativa. Um exemplo: no capítulo VII da primeira parte (são quatro ao todo), Ambrosio conta a Santiago como conheceu seu pai, Trifulcio; ao mesmo tempo, vemos Trifulcio no seu longo tempo de prisão (há uma cena em que ele e seus companheiros, atirando pedras, conseguem matar uma ave de rapina e toscamente assá-la, havendo uma disputa feroz pelos pedaços; também vemos como sua força é lendária, tanto que Dom Melquíades, possivelmente o diretor da prisão, traz um dos pilares do governo Odría , Emilio Arévalo, cujo filho, Popeye, será muito amigo de Santiago e casará com sua irmã, para uma demonstração), depois a libertação (ele trabalhará para Arévalo), em diálogos que se intercalam com as diligências do homem forte do governo Odría, Cayo Bermúdez para dominar os serviços de inteligência do regime e esmagar os “subversivos”; vemo-lo primeiro com militares, depois num diálogo com o homem que o chamou para fazer parte do governo (e o qual ele está visivelmente solapando e colocando em posição subalterna) e depois com civis poderosos (entre eles, Arévalo e Don Fermín, o pai de Santiago); também vemos torturadores em ação (e um dos torturados, ficamos sabendo, é Trinidad, o companheiro de Amália, a empregada da casa dos Zavala, a quem Santiago e Popeye, como autênticos playbozinhos,  tentaram seduzir numa noite em que a família estaria ausente, causando a demissão dela; ela será o grande amor da vida de Ambrosio; parte da trajetória de Amália, a mais ligada a Trinidad, tínhamos acompanhado num capítulo anterior, contudo parecia que era mitomania de Trinidad a perseguição política e sua morte misteriosa parecia indicar mais que ele era “ruim da cabeça” do que maus-tratos nos chamados “porões da ditadura”); vemos como é o encontro entre Ambrosio e Trifulcio (em que o pai tenta roubar dinheiro do filho, ameaçando-o com uma faca), vemos como Ambrosio saiu de sua cidade natal, e tendo ajudado o jovem Cayo Bermúdez a raptar sua futura esposa (que se tornou uma virago), ir à capital pedir um emprego ao poderoso Robespierre do regime Odría, como ele se transforma no chofer de Bermúdez e como se envolve com os profissionais de repressão e tortura.

Tudo isso sem grandes necessidades de explicações e de narrativas muito longas e descritivas. Não, tudo através do intercalamento magistral de diálogos; tudo puxado (no referido capítulo) pelas reminiscências de Ambrosio com relação à sua mãe…

O romance como exercício de virtuosismo e como cosmovisão. Como afirmou Simone de Beauvoir a respeito de suas leituras favoritas,  «a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido ».

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

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NOTAS

[1] O qual eu cito na edição da Brasiliense, e não na mais recente, da Panda Books.

[2] Na verdade, o título do formato final da compilação de uma miscelânea de textos.

[3] No original, Conversación en La Catedral (1969). Temos três traduções brasileiras: a de Olga Savary (ed. Francisco Alves & Círculo do Livro); a de Wladir Dupont (ARX) e a de Ari Roitman & Paulina Wacht (Alfaguara).

[4] Basta lembrar de A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, Os filhotes, A casa verde, Tia Júlia e o escrevinhador, A cidade e os cachorros,  livros que ficam pouco atrás de CONVERSA NO CATEDRAL; tem também os deliciosos (no mais pleno sentido do termo) Pantaléon e as visitadoras, Elogio da Madrasta. E como esquecer dos surpreendentes e inusitados História de Mayta e O falador?

[5] Embora tenha muitas reticências com relação aos seus posicionamentos políticos (e é preciso dizer que seus três últimos romances deixaram muito a desejar: Travessuras da menina má; O sonho do celta; O herói discreto).

[6] A edição da Alfaguara é a única a indicar isso, embora a meu ver, a tradução literal (Conversa NA catedral), adotada pelas anteriores, acentue o teor irônico e dessacralizante.

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25/10/2013

A FESTA DO BODE (ou como a obra de Vargas Llosa foi tomando a feição do best seller)

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em três de outubro de 2000)

Sem contar seus magistrais romances de outras décadas (muitos dos quais reeditados pela Companhia das Letras em novas versões), Mario Vargas Llosa, o maior ficcionista vivo da América Latina, nesses anos 90 que estão por terminar publicou dois livros magníficos: Lituma nos Andes & Os Cadernos de Don Rigoberto.

Longe da atividade política, da qual participou numa espécie de surto neoliberal constrangedor, ele ousa agora, em A festa do bode [lançado pela ARX, ex-Mandarim, em tradução do Wladir Dupont][1], insistir num filão que parecia já esgotado: o retrato de um ditador latino-americano, no caso o Generalíssimo Trujillo, o Bode, o qual tiranizou durante trinta anos a República Dominicana até ser assassinado em 1961.

Llosa narra o último dia de vida de Trujillo. Além disso, variando o foco narrativo, narra a vida dos seus assassinos, a maioria dos quais acabou sendo torturada durante meses e depois executada em meio ao processo de transição da ditadura trujillista para a “democracia” (ou algo remotamente parecido), trabalho delicado de ourivesaria realizado por Joaquim Balanguer, que de presidente-fantoche de Trujillo passa a presidente de fato.

Para costurar a estrutura narrativa, conta-se a volta para a República Dominicana, trinta e cinco anos depois, de Urania, a filha de um ex-colaborador de Trujillo, o senador Cabral, que no momento do assassinato estava “em desgraça” dentro do Regime. Urania odeia o pai porque ele a usou como instrumento para se reabilitar com o Bode: como o “Pai da Nação”, mesmo aos 70 anos, gosta de deflorar mocinhas, Cabral se deixa convencer a enviar a filha de 14 anos para ele, duas semanas antes da sua execução.

A Festa do Bode é bem-vindo numa época em que se começa a esquecer a horrível desmoralização social que as ditaduras militares trouxeram para a América Latina, e da qual mal se recupera; numa época em alguns já sentem “pena” de Pinochet, como se ele fosse um velhinho comum. O que passou, passou? Não. Nunca. Jamais. Porque não devia ter acontecido.

Em compensação, o livro deixa a desejar nos seus procedimentos narrativos: Llosa sempre se destacou no “chorus line” dos romancistas latino-americanos que retrataram ditaduras por sua genial capacidade de manipular o tempo na narrativa, de forma a justapor várias situações cronológicas diferentes num mesmo entrecho. Esse virtuosismo se empobrece em A Festa do Bode. Há vários focos narrativos, porém eles não constroem uma visão prismática dos fatos (como os romances anteriores, extremamente complexos). Quando um personagem dá lugar a outro, apenas reitera os mesmos acontecimentos, de forma diferente. Quando se pensa na riqueza que os múltiplos focos e versões davam a livros como A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na Catedral, Pantaléon e as visitadoras, A guerra do fim do mundo ou Lituma nos Andes…ou então na impactante maneira como Llosa fingia, em História de Mayta, seguir os procedimentos do romance-reportagem, do chamado “jornalismo literário”, para depois informar (ao próprio personagem-título) que inventara e distorcera deliberadamente várias informações e detalhes biográficos, subvertendo a pretensa objetividade jornalística…

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Nem por isso, o novo romance deixa de ter momentos poderosos, entre eles o capítulo que mostra Pedro Livio, um dos executores de Trujillo, no hospital ao qual foi levado em função de ferimentos no tiroteio (numa patetada absurda, foi um de seus companheiros que o feriu), sendo torturado pelo chefe da inteligência de Trujillo, Johnny Abbes, numa situação claustrofóbica, sem saber se o golpe foi bem sucedido ou não.

Também, por mais que já se tenha lido descrições de tortura, as do livro são, ainda assim, impressionantes (e pensar que há uma parte da população nostálgica com relação à truculência militar). E há a figura ambígua do Presidente Balanguer, a mostrar como as chamadas “transições para a democracia” foram feitas a um custo terrificante. Mais que tudo, porém, o romance é um grande libelo contra os EUA e a sua interferência que, segundo seus interesses do momento, faz com que apóie ou dissolva regimes de exceção.

E a prova maior que a habilidade de Vargas Llosa não se esgotou, mesmo que ele pareça convicto de que o leitor atual não tem mais paciência ou concentração para complexidades narrativas, está no fato de que nem os mais consagrados best sellers conseguem o ritmo veloz e o suspense que ele imprimiu ao seu romance. O autor deste artigo não gostaria que um dos maiores escritores do mundo competisse com Michael Crichton, Tom Clancy, Jeffrey Archer ou similares. Se, todavia, for esse o rumo dos ventos na carreira do autor de A Festa do Bode, com certeza superará a todos eles.


[1] Título original: La fiesta del chivo

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04/07/2012

MAR DE HISTÓRIAS: O apogeu criativo de Faulkner

Publicado em 1940, O POVOADO   (The Hamlet) pertence ao apogeu criativo de William Faulkner (1897-1962), autor que divide o topo do meu panteão pessoal junto com Thomas Mann. É um romance formado por várias historietas. Começa com a aparição dos Snopes, um clã estranho (todos se parecem) e predatório, num vilarejo do Mississipi dominado pela família Varner. O mal snopes vai alastrando-se e corroendo os antigos valores sulistas, impondo à economia e às relações humanas da região um incipiente capitalismo selvagem.

É difícil dizer qual das histórias que compõem O POVOADO é mais absorvente, mais bem armada, mais bem escrita: se a história da obsessão de Ab Snopes por cavalos, se a da fascinação sexual exercida pela opulenta Eula Varner no seu professor e num grupo de rapazes (cujo desfecho será o casamento dela com Flem Snopes, o gerador do mal snopes), se a do Snopes retardado, Ike, que se apaixona por uma vaca e a rapta, se a do casamento inevitável de Houston, do qual ele tentou fugir por treze anos, se a do seu assassinato por Mink Snopes, se a luta de vontades entre Mink e o primo por causa do dinheiro no cadáver de Houston, se a do julgamento de Mink, o qual aguarda inutilmente a intervenção de Flem, se a da patética insistência de Henry Armstid em comprar um cavalo num enervante leilão que se arrasta por um dia inteiro e que culminará em fuga dos eqüinos (essa parte, de fato, é a mais famosa do romance e é amiúde publicada à parte, com o título “Cavalos malhados”), se a da destrambelhada e quase irreal  busca pelo tesouro da Casa do Francês (que pertence a Flem Snopes), empreendida por Armstid, Bookwright e Ratliff. Este último é uma espécie de porta-voz dos valores  do deep South:

    “Ele morava em Jefferson e percorria boa parte dos quatro condados…vendia talvez três ou quatro máquinas por ano, o resto do tempo passava comercializando terras,gado, ferramentas agrícolas de segunda mão e instrumentos musicais, ou qualquer outra coisa que os donos já não quisessem mais, relatando de casa em casa, com a eficiência de um diário, as notícias dos quatro condados… além de levar, com a pontualidade de um jornal, mensagens pessoais sobre casamentos e enterros, e receitas para fazer conservas de frutas e verduras. Ele nunca esquecia um nome e conhecia todo mundo, homem, mula e cachorro, num raio de oitenta quilômetros”.

Compassivo e fatalista, cínico e matreiro, Ratliff serve de costura para a narrativa, contando e ouvindo o mar de histórias da região, em diálogos maravilhosos.

Se não se pode apontar qual a melhor história, pode-se, entretanto, afirmar que a mais transfigurada pelo lirismo é a da paixão do débil mental pela vaca. Que outro autor seria capaz de tascar numa vaca o epíteto de virgem meditativa, mantendo-se no precário fio da poesia pura, sem se esborrachar no ridículo que ameaça lá em baixo?

No mais, além dos enredos intrincados, contados de maneira magistral e sempre inusitada, O POVOADO destaca-se na série de obras-primas de Faulkner (Luz em agosto; Absalão!Absalão!; Enquanto agonizo; Pantalão Negro; O som e a fúria) pelo humor que ilumina o livro de ponta a ponta, dando sabor à densa massa que configura a invasão do povoado e da região pelos Snopes. Até mesmo a tradução meio sem-graça de Wladir Dupont (a versão portuguesa, feita por Jorge Sampaio, é muito mais vívida, acredite se quiser, leitor) deixa entrever que o povoado dominado pelo algodão (“o ar tórrido, que parecia estar impregnado do ranger cansado e lento das carroças carregadas, cheirava a algodão; tiras de algodão se enroscavam na vegetação endurecida pelo pó, à beira da estrada, ou então se podiam ver na terra, esmagadas por cascos e rodas), rústico, perdido no Mississipi, no final do século XIX e começo do XX, é a região  onde o leitor encontrará a melhor ficção já escrita.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 20 de maio de 1997, e aqui ligeiramente modificada)

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