MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/10/2015

NOBEL 2015

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«Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos atos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes»  
(Ana Hatherly)

«Sentados no Café, estamos viajando, como num trem, num hotel ou pela rua, temos conosco bem poucas coisas,não é possível apor a coisar alguma qualquer vaidosa marca pessoal, não somos ninguém. Naquele anonimato familiar podemos nos dissimular,  livrar-nos do eu como de uma casca. O mundo é uma cavidade incerta, na qual a escrita penetra perplexa e obstinada» (Claudio Magris)

Depois do impacto que teve para mim a leitura de Wislawa Szymborska e Ivo Ándritch, desejo de coração que o Nobel deste ano mais uma vez seja concedido a algum escritor de que nunca se ouviu falar, de uma língua minoritária, o que geralmente irrita os comentadores (pois como vão recorrer a informações e resenhas já mastigadas e prontas para a prensa?; como ficam os comentários-padrão?).

Afinal, não fosse o prêmio, quais as oportunidades, para o leitor comum de língua portuguesa, de ter acesso à obra da poeta polonesa ou do ficcionista iugoslavo[1], ambos admiráveis? Todo mundo mais ou menos bem-informado conhece (nem que seja de ouvir falar) Vargas Llosa, para citar um premiado recente, ou Philip Roth, para falar de um dos “eternos candidatos”. Há cinquenta anos, quantos conheciam a obra do soviético Mikhail Sholokhov (ainda mais com a tensão da Guerra Fria)[2]? Já o premiado anterior, Jean-Paul Sartre («pelo seu trabalho, rico em ideias e preenchido com o espírito da liberdade e em busca da verdade, exerceu uma influência profunda na nossa época»), era uma estrela mundial, um personagem central da cultura daquele período histórico. Em 1966, os vencedores (um raro caso de divisão do prêmio) seriam ainda mais “obscuros”, o israelense Shmuel Yosef Agnon e a alemã (judia) Nelly Sachs[3].

Isso me leva a uma segunda proposição (se dermos algum valor ao prêmio, questão que a minha primeira proposição torna irrelevante): como ainda somos remotos, minoritários, em termos de língua e literatura, no mundo, é urgente que se escolha um autor brasileiro (ou português, ou africano de expressão portuguesa).

As mortes recentes de Ariano Suassuna, Manoel de Barros e João Ubaldo Ribeiro chamam a atenção para o seguinte fato: nossos autores mais canônicos estão muito velhos, e começam a ir-se sem que vejamos uma premiação expressiva. Dalton Trevisan (para mim, seria o natural vencedor num páreo nacional) chegou aos provectos noventa anos. Macróbios, em maior ou menor medida, estão Lygia Fagundes Telles, Carlos Nejar, Adélia Prado, Raduan Nassar, Rubem Fonseca, os nomes que imediatamente vêm à memória como os clássicos que ainda estão entre nós. Até mesmo João Gilberto Noll e Chico Buarque já chegaram a uma idade “venerável”.

Só espero que, chegando a vez do Brasil, não escolham a Embaixadora dos Países Ibéricos, a Xerezade do Paraguai, a Instituição da “Literatura” em pessoa: Nélida Piñon. Ou então José Sarney, já que ele sempre teve seus admiradores estrangeiros (Lévi-Strauss, por exemplo), os quais não devem conhecer a vida severina a que ele e sua família condenou o povo do Maranhão por décadas e décadas.

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Em Portugal, António Lobo Antunes com justiça pode ser considerado um dos três ou quatro maiores romancistas do mundo. E sua companheira de geração, Lídia Jorge, pouco fica atrás (creio que, com seu imenso talento, nomes do naipe de José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares ainda não são “cogitáveis”). Não se pode esquecer, também, de um autor ímpar como António Vieira, cuja estatura intelectual é quase inencontrável nos dias que correm, ficando em certo sentido quase em posição de isolamento. E será que deixarão ir-se a matriarca da prosa lusitana de alta qualidade, Agustina Bessa-Luís, assim como deixaram os maiores representantes da poesia contemporânea, caso de Herberto Helder e Ana Hatherly, mortos ambos em 2015?

E por que não nos surpreender um nome africano? É lógico que todo mundo pensa primeiro em Mia Couto, e seria esplêndido. Mas que tal um autor absolutamente inesperado, que represente a língua portuguesa, mas também uma novidade, algo ainda não “domesticado”? Afinal, é um território quase inexplorado.

O que me leva à minha terceira proposição: se não fizesse justiça à língua portuguesa, que pelo menos o Nobel saísse um pouco do circuito europeu, sem precisar se render aos Estados Unidos, apesar de todos os nomes que apreciamos e admiramos (Don DeLillo, Joyce Carol Oates, o próprio Philip Roth)[4], embora seja lícito perguntar se, por exemplo, o albanês Ismail Kadaré pode ser considerado do “circuito europeu”, periférico como é seu país; ou então o estupendo escritor sérvio Milorad Pávitch? Ambos na confluência entre continentes e culturas até hostis entre si.

Será que a tragédia da Síria não inclinaria a balança para Adonis, que agora— e com grande tardança—está traduzido no Brasil), autor da belíssima Celebração abaixo?

«O tempo avança,

na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia

marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue

outros se embriagam e deliram.

O fogo de suja?

o vento se infla?

Fumaça é nuvens.

Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas

são impressas dispersas no chão

– pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho

o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue

iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó

tem feições de velhos.

Mariposas queimam

Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,

toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,

arrasta a cauda

sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer

à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro

que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?

E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio

este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?

Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia

e a noite se esconde da noite.

Agradeço

ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,

ao intervalo entre uma bomba e outra,

ao piso que sempre aguenta meus passos,

agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.

Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,

e me mantém trancado» (trad. Michel Sleiman)

O poema se refere ao ano de 1982, quando as tropas israelenses, contrariando resoluções da ONU, cercaram, bombardearam e massacraram Beirute.

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E será que nosso asco pelos dirigentes do estado de Israel serve como impedimento para a consagração com o Nobel de Amós Oz, um dos grandes romancistas das últimas décadas?

Ou será que, Haruki Murakami e Japão à parte, a Ásia nos dará um nome surpreendente, e que nos trará o sopro de beleza e renovação do prazer de leitura que aquela senhora polonesa já citada, de nome tão esquisito e impronunciável, trouxe aos brasileiros? Como comprovará o poema com o qual termino esta arenga nobeliana:

«Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:

o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,

o ajeitar das perucas e dos trajes,

a faca arrancada do peito,

a corda tirada do pescoço,

o perfilar-se entre os vivos

de frente para o público.

 

As reverências individuais e coletivas:

a mão pálida sobre o peito ferido,

as mesuras do suicida,

o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:

a fúria dá o braço à brandura,

a vítima lança um olhar doce ao carrasco,

o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

 

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.

A moral varrida com a aba do chapéu.

A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

 

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,

nos atos três e quatro, ou nos entreatos.

A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.

Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores

sem tirar os trajes,

sem remover a maquiagem,

me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina

e o que ainda se avista pela fresta:

aqui uma mão se estende para pegar as flores,

acolá outra apanha a espada caída.

Por fim uma terceira mão, invisível,

cumpre o seu dever:

me aperta a garganta »  (trad. Regina Przybycien).

ADENDO

Nada mais natural do que o Nobel consagrar o italiano Umberto Eco, não só um prodigioso intelectual, como ainda autor de uma já considerável obra ficcional, iniciada com o clássico O Nome da Rosa. Nessa linha, aliás, a Itália é imbatível em candidatos, basta lembrar de Carlo Ginzburg (O Queijo e Os Vermes); Pietro Citati (autor de fascinantes biografias, entre elas as de Proust e Goethe);  Roberto Calasso (Ka e K.), os quais conciliam o talento narrativo com o rigor como pensadores; sem falar em outro “eterno favorito”, Claudio  Magris. autor de livros caleidoscópicos como Danúbio, Alfabetos, Microcosmo.

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NOTAS

[1] Anunciados como vencedores, respectivamente, em 1996 e 1961.

[2] «Pelo poder artístico e integridade com a qual, em seu épico O Don Silencioso, ele deu expressão a uma fase histórica na vida do povo russo», foi a justificativa.

[3] Justificativas:

«Por sua arte narrativa profundamente característica com motivos da vida do povo judeu» (Agnon);

«Pela sua excelente escrita lírica e dramática, que interpreta o destino de Israel com toque de força» (Sachs).

[4] E a língua inglesa já foi bastante contemplada no século 21: dos quatorze vencedores, cinco são autores anglófonos (Naipaul, Coetzee, Pinter, Lessing, Munro).

Ismael Kadaré author 2005

Ismael Kadaré author 2005

05/02/2012

“Curta demais para se acrescentar algo”: a poesia essencial de Wislawa Szymborska

uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de dezembro de 2011

“Quem quis se alegrar com o mundo/ depara com uma tarefa/ de execução impossível (…) // Era para Deus finalmente crer no homem/ bom e forte/ mas bom e forte/ são ainda duas pessoas.// Como viver—me perguntou alguém numa carta/ a quem eu pretendia fazer/ a mesma pergunta.// De novo e como sempre…/ não há perguntas mais urgentes/ do que as perguntas ingênuas”.

   (trechos de Ocaso do século, de Wislawa Szymborska)

A primeira coisa que chama a atenção em POEMAS é essa senhora na capa soltando uma satisfeita baforada, com seu cigarro, com uma expressão beatífica-iogue, com um toque solerte e matreiro. Uma capa que celebra—não sei se deliberada ou inconscientemente—a resistência ao patrulhamento e intolerância crescentes no mundo. Não sou fumante, e por isso posso falar tranqüilamente: acho um horror essa perseguição aos fumantes e a interferência do governo em lugares privados e comerciais. Ninguém  é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas nunca verei o porquê de não haver “lugares para fumantes” e que eu possa ter o direito de estar neles com meus amigos que fumam, por minha conta e risco. Ninguém é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas somos obrigados a aturar tevês ligadas em bares e restaurantes, gente berrando, ou gente ouvindo música ruim a decibéis incríveis, gente que não tem a mínima noção de espaço pessoal. É esse o mundo higienizado, com a cara desanimada e nada saudável dos Dráuzios Varellas.Urgh!

Essa senhora fumante, polonesa, atualmente com 88 anos, foi a responsável por minhas mais intensas emoções literárias em 2011. Premiada com o Nobel em 1996,  Wislawa Szymborska é muito mais do que um nome exótico e quase impronunciável (somos informados de que a pronúncia certa seria vissuáva chembórska, mas eu não abro mão do muito mais bonito vislava zimbórska, e aliás, nunca saberei polonês, e por isso pronuncio como quiser, é incrível essa mania do brasileiro de querer “falar certinho” o idioma e os nomes estrangeiros, atitude que não é retribuída pelos falantes de outras línguas: meu ilustre professor na pós-graduação, o francês Pierre Rivas não se vexava de pronunciar Macunáima ou mariô e ninguém levantava dúvidas sobre sua estatura intelectual),  é autora de uma obra poética ímpar, como demonstra a magra e  preciosa antologia  – que  abarca oito de seus livros— publicada  pela Companhia das Letras, um feito memorável  da tradutora Regina Przybycien (por falar em impronunciabilidade), também responsável pela seleção dos quarenta e quatro poemas.

Assim como Drummond e Bandeira, nos seus grandes momentos, Wislawa Szymborska se vale de uma requintada  simplicidade para enlaçar o cotidiano a todos os temas primordiais e importantes: o tempo, a morte, a guerra, a comunicação entre as pessoas, a solidão, a desumanização crescente do mundo, o que é de fato a civilização…

“Não eram muitos os que passavam dos trinta/ A velhice era privilégio das pedras e das árvores/ A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos/ Era preciso se apressar, dar conta da vida/ antes que o sol se pusesse/ antes que a primeira neve caísse. // Meninas de treze anos gerando filhos/ meninos de quatro anos rastreando ninhos de pássaros na moita/ jovens de vinte servindo de guias nas caçadas/ ainda há pouco não existiam, já não existem (…)// De todo modo, não contavam os anos/ Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados / O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu / estendia-lhes a mão quase vazia/ e a retirava rápido, como se tivesse pena (…)// Não havia nem um instante a perder/ perguntas a postergar e iluminações tardias/ a não ser as que tivessem sido antes experimentadas/ A sabedoria não podia esperar os cabelos branco/ Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse/ e ouvir toda  voz, antes que ela se propagasse // O bem e o mal/ deles sabiam pouco, porém tudo/ quando o mal triunfa, o bem se esconde/ quando o bem aparece, o mal fica de tocaia (…)/ Por isso, se há alegria é com um misto de aflição/ se há desespero, nunca é sem um fio de esperança/ A vida, mesmo se longa, sempre será curta/ Curta demais para se acrescentar algo.”  (trechos de A curta vida dos nossos antepassados)

De Gente na ponte (1987), do qual foram selecionados doze poemas, diversos deles maravilhosos, já temos o tom wislawiano: “Foi descoberta uma nova estrela/ o que não significa que ficou mais claro/ nem que chegou algo que faltava (…) // A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela/ tudo isso quiçá seja suficiente/ para uma tese de doutorado/ e uma modesta taça de vinho/  nos círculos aproximados do céu/ o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas / ambiente informal, traje casual/ predominam na conversa os temas locais/ e mastiga-se amendoim (…)/ A estrela não tem conseqüência/ Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo/ na mudança de governo, na renda e na crise de valores // Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada / Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência/ Excedente em face dos dias contados da vida/ Pois o que há para perguntar / sob quantas estrelas um homem nasce/ e sob quantas logo em seguida morre // Nova / Ao menos me mostre onde ela está / Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada / e aquele galhinho de acácia mais à esquerda / Ah—exclamo.” (Excesso)

Essa face filosófica, com seu quê de pré-socrática, oculta brechas para uma ironia quase provocativa, não fosse tão maliciosamente suave e até mesmo serena, como em Opinião sobre a pornografia, que começa com versos antológicos: Não há devassidão maior que o pensamento/ Essa diabrura prolifera como erva daninha/ num canteiro demarcado para margaridas”. E depois de considerar “simplório” o pornográfico anatômico, ela afirma: “É chocante em que posições/ com que escandalosa simplicidade; um intelecto emprenha o outro!/ Tais posições nem o kamasutra conhece”.

Que privilégio é ser emprenhado pelo intelecto lírico de Wislawa Szymborska. Enalteci Gente na ponte, mas há poemas admiráveis tirados de Muito divertido (como A alegria da escrita), de 1967; Um grande número (como O quarto do suicida[1] ou Utopia), de 1976; e Fim e Começo (1993), do qual cito versos iniciais do meu poema predileto entre todos, o lindíssimo e eloqüente Gato num apartamento vazio: Morrer—isso não se faz a um gato/ Pois o que há de fazer um gato/ num apartamento vazio…/ Nada aqui aparece mudado/ e no entanto algo mudou…// Algo aqui não começa/ na hora costumeira/ Algo não acontece/ como deve/ Alguém esteve aqui e esteve/ e de repente desapareceu/ e teima em não aparecer//”.

  Quem disse que não há mais poesia no mundo? Pelo menos na Polônia ela foi preservada, intacta e contundente. E muito divertida.


[1] “Vocês devem achar que o quarto estava vazio /Pois havia ali três cadeiras de encosto firme/ Uma boa lâmpada contra a escuridão / Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais / Um Buda alegre, um Jesus aflito/ Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho/ Você acha que nele não estavam nossos endereços? // Acham que faltavam livros, quadros ou discos? / Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras / Saskia com uma flor cordial/ Alegria, centelha divina/ Na estante Ulisses num sono reparador / depois dos esforços do Canto Cinco / Os moralistas / seus nomes inscritos em letras douradas / nas lindas lombadas de couro/ Ao lado, também os políticos perfilados // Não parecia que o quarto fosse/ sem saída, pelo menos pela porta/ nem sem vista, pelo menos pela janela/ Os óculos para longe largados no parapeito/ Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva//  Devem achar que ao menos a carta explicasse algo / E se eu lhes disser que não havia carta / éramos tantos os amigos e coubemos todos / no envelope vazio apoiado no lado do corpo.”

Um poema de Wislawa Szymborska para cada dia da semana

Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska,  minha companheira numa viagem em outubro de 2011 para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei  passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.

PARA O DOMINGO:  “Museu”

“Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezento anos.

Há um leque –onde os rubores?

Há espada– onde a ira?

E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias (…)

A coroa sobreviveu à cabeça.

A mão perdeu para a uva.

A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

Minha competição com o vestido continua.

E que teimosia a dele!

Como ele adoraria sobreviver!”

PARA A SEGUNDA “A alegria da escrita”

“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?

Vou beber da água escrita

que lhe copie o focinho como papel-carbono?

Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?

Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade

sob meus dedos apura o ouvido.

Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel

e afasta

os ramos que a palavra bosque originou (…)

as frases acossantes,

perante as quais não haverá saída (…)

Outras leis, preto no branco aqui vigoram.

Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)

Existe então um mundo assim

sobre o qual exerço um destino independente?

Um tempo que enlaço com correntes de signos?

Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.

O poder de preservar.

A vingança da mão mortal.”

PARA A TERÇA:  “A vida na hora”

“(…) Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado–

eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo–pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)

E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”

PARA A QUARTA:  “Utopia”

“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Nao há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa

de galhos desenredados desde antanho.

A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples

junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista

do Vale da Evidência (…)

Domina o vale a Inabalável Certeza.

Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a  Ilha é deserta

e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias

se voltam sem exceção para o mar (…)”

PARA A QUINTA: “Torturas”

“Nada mudou.

O corpo sente dor,

necessita comer, respirar e dormir,

tem a pele tenra e logo abaixo sangue,

tem uma boa reserva de unhas e dentes,

ossos frágeis, juntas alongáveis.

Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.

Treme  o corpo como tremia

antes de se fundar Roma e depois de fundada,

no século XX antes e depois de Cristo,

as torturas são como eram, só a terra encolheu

e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .

Nada mudou.

Só chegou mais gente,

e às velhas culpas se juntaram novas,

reais, impostas, momentâneas, inexistentes,

mas o grito com que o corpo responde por elas

foi, é e será o grito da inocência

segundo a escala e registro sempiternos(…)”

PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear ndecente de temas delicados,

a desova das idéias–é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triangulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

PARA O SÁBADO:  “As três palavras mais estranhas”

“Quando pronuncio a palavra FUTURO

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra NADA

crio algo que não cabe em nenhum ser”.

E  PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”

“Morrer–isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no  entanto algo mudou.

Nada parece meido

e  no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repent desapareceu

e teima em não aparecer (…)

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos (…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas (…)”

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