MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2014

Leituras em Espelho: “Viagens através do sonho e da imaginação” e “Perto das trevas”

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Em Viagens através do sonho e da imaginação [Färdas i drömmen och föreställningen,1984, na tradução de Ann B. Weismann e Annika Planck] & Perto das trevas (Darkness visible, 1990, na tradução de Aulyde Soares Rodrigues], dois importantes escritores, Artur Lindkvist e William Styron, apresentam testemunhos sobre experiências ao mesmo tempo clínicas e existenciais, que colocam em xeque nossas ligações mais profundas com a vida e a morte.

I

Em 1981, aos 75 anos, o sueco Lundkvist sofreu um infarto que o deixou dois meses em coma. Após se recuperar, ainda sofreu sequelas que o impediam de escrever e de rememorar parte de sua vida (“um alçapão em que caí”, afirma a certa altura). Quando retoma a escrita, refaz o percurso da sua “inconsciência”. Não descreve o “lado de lá”, mas faz algo como uma crônica do limbo, uma espécie de relato de uma viagem que parece tocar as bordas da vida após a morte, a mesma que tantos livros espíritas mal escritos (não obstante a beleza inegável da doutrina) e telenovelas como A viagem acabam por fazer parecer que todos nós participamos de uma vasta breguice cósmica.

Pássaros, trens, barcos, um mundo de metamorfoses e movimento povoa o quarto onde Lundkvist jaz imóvel. Sentimos que ele dá vida (e corpo) a muitas angústias e fantasias pessoais (às vezes, bem narcisistas), contudo o poeta tem esse privilégio de amplificar suas próprias projeções num tom universal. Nada, aqui, de Envolvido pela luz e outras bobagens editoriais. Estamos num território movediço, no plano existencial, mas firme, no que se refere ao literário.

Há belas imagens (que me trouxeram à mente a dicção de um Eugênio Andrade) a do silêncio que “parece ser como o vento que serenou” ou a comparação com Gulliver, viajando entre mundos desproporcionais. Ficamos com a sensação de que a morte é um esvaziamento o qual, paradoxalmente, nos transforma em coisa maleável (fugindo da prisão da “personalidade”, mas volta e meia redescobrindo suas grades onde menos se esperava) de um mundo (nossa “vida interior”?) que transborda e não para de recombinar-se.

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II

Num de seus grandes livros, A escolha de Sofia (1979), Styron escreveu: “Na minha carreira de escritor sempre me senti atraído por temas mórbidos—suicídio, estupro, assassinato, vida militar, casamento, escravidão”.

Ao descrever sua temporada no inferno da depressão suicida, ele afirma: “A depressão, quando me dominou, não era uma estranha, nem mesmo uma visitante inesperada. Há décadas ela batia à minha porta”.

O autor de Deitada na escuridão nos conta, de forma clara e terrível, como teve a súbita percepção de que estava deteriorando-se psiquicamente, ao receber um prêmio em Paris, e os sintomas (baixa autoestima, insônia, pavor); além de nos apresentar alguns “irmãos” depressivos (Camus, Jean Seberg, Romain Gary), ele é incisivo com relação à ineficiência e obtusidade dos métodos psicoterapêuticos, denunciando o perigo latente no uso indiscriminado de certos paliativos ansiolíticos (Halcion, Valium, Ativan), o que é muito oportuno num momento em que se discute intensamente o Prozac e suas contraindicações.

Sem retoques, Styron mostra como foi necessário para ele internar-se, encarando a depressão como doença a ser curada, apesar dos preconceitos e estigmas sociais. Mas o estrago para a sua obra já estava feito: já pouco prolífico, seu veio criativo foi minguando até quase  desaparecer completamente no ralo do pesadelo clínico.

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III

“Herói era o homem que podia ingressar no mundo dos mortos e voltar vivo”. Um compatriota de Styron, Ernest Becker, escreveu sobre a necessidade que temos do heroísmo (em qualquer acepção) como tapume contra o medo da morte.

Os esforços poético-confessionais de Lundkvist & Styron, o “viajante” e o “sobrevivente” que sobressaem em suas páginas, são a comprovação do que Becker afirma no seu fundamental A negação da morte [The denial of death, 1973]: “Tudo de doloroso e sensato que o gênio psicanalítico e o gênio religioso descobriram acerca do homem gira em torno do terror de admitir o que se está fazendo para conquistar a própria estima”. Uma luta que, ao ser contada, abala o leitor, decerto, mas também curiosamente alenta. Todos nós somos viajantes sempre a passos das trevas.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 1994)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/18/a-escolha-de-sofia-e-a-farpa-de-gelo-no-coracao-do-escritor/

https://armonte.wordpress.com/2011/06/30/ifigenia-no-deep-south-deitada-na-escuridao-de-william-styron/

https://armonte.wordpress.com/2014/05/24/tempo-ganho-para-william-styron-as-narrativas-de-uma-manha-em-tidewater/

https://armonte.wordpress.com/2011/02/24/os-mortos-que-nao-podem-ser-enterrados-duas-resenhas-homenagens/

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“Tempo ganho” para William Styron?: as narrativas de “Uma manhã em Tidewater”

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(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 21 de abril de 1998)

Uma grande geração de escritores apareceu ou consolidou-se nos EUA após a Segunda Guerra: Saul Bellow, Truman Capote, J.D. Salinger, Norman Mailer, Paul Bowles, William Styron… Este último, um dos maiores, publicou relativamente pouco desde que estreou em 1951 com Lie down in Darkness-Deitada na escuridão, e essa avareza com a qual castiga seua fãs aumentou após Sophie´s choice- A escolha de Sofia (1979) e seu gravíssimo problema com a depressão.

Para quem estava com saudade do seu estilo solene, às vezes até meio antiquado, contudo sempre belo e preciso, Uma manhã em Tidewater (A Tidewater morning, 1993, que comento na tradução de Júlio Bandeira para a Rocco) é um presente e uma frustração ao mesmo tempo. Um presente porque apresenta três ótimas novelas (todas com o mesmo personagem-narrador, Paul Whitehurst); uma frustração porque, afinal, são apenas 130 páginas de Styron, após anos de silêncio.

Uma manhã em Tidewater é um exercício evocativo: apresenta Whitehurst aos 10 anos (em Shadrach), aos 13 (no texto que dá título ao conjunto) e aos 20 (em Dia L).

Dia L flagra-o num claustrofóbico navio de guerra, à espera de um desembarque no Pacífico que nunca acontece, e essa espera transporta-o imperceptivelmente à recordação do pai (que trabalhou num estaleiro que produzia navios de guerra), recordação que se associa à época da Grande Depressão norte-americana dos anos 1930. A família Whitehurst só não sucumbiu à pobreza dominante na região da Virginia onde vive por causa da natureza desse trabalho do pai.

Em Shadrach, o menino Paul é amigo das crianças de uma família de “brancos pobres” (tidos como ralé), os Dabney. Quando está jogando bolinha de gude com um dos rebentos Dabney, inesperadamente aparece um negro quase centenário. Ninguém entende nada que ele fala, a não ser Paul, o futuro narrador, a quem cabe “traduzir” para todos a trajetória de Shadrach (o qual saiu do Alabama para morrer na sua terra natal); portanto, ele já executa—muito antes de tornar-se escritor—a função de dar voz às coisas e seres; porém, o que mais interessa no relato (e impede que ele descambe para o sentimentalismo barato e o paternalismo com relação aos negros—acusações, aliás, que foram feitas a Styron na esteira de seu As confissões de Nat Turner, de 1967) é que o próprio Shadrach é, a seu modo, um narrador, mesmo “traduzido” por Paul. Ele contará à família Dabnehy sua própria história, cuja memória ela perdera com o empobrecimento geração após geração (eram senhores de terras e escravos nos séculos XVIII e XIX e, aos poucos, foram perdendo quase tudo, inclusive o sentimento de tradição familiar). A tarefa de cuidar de Shadrach e sua morte iminente congregam esse rebanho extraviado.

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Enquanto isso, em Uma manhã em Tidewater, a família de Paul se desagrega à proporção em que evolui a doença da mãe, cuja dor nem a morfina alivia mais. O garoto ainda tenta se rebelar contra a realidade da morte, roubando para si uma bela manhã, contudo (como sabemos pela obra de Styron) os elos com Eros, com a vida, para ele, serão sempre frágeis, pois seu “amanhecer” já vem comprometido com a dissolução e o sofrimento (bem, segundo Marguerite Yourcenar, referindo-se a Mishima, isso para um escritor é “tempo ganho”): “De súbito, minha mãe gritou—um grito longo e desamparado, trazendo uma nota de angústia diferente de tudo que havia escutado até agora. Um guincho estridente que varrera como uma chama meu corpo nu de cima para baixo. Era um som alienígena, o que significa dizer inesperadamente além de meu senso de lógica e da minha experiência, de tal forma que em seu instante insignificante tivera o efeito de algo histriônico, saído dos cinemas, de um filme de Frankenstein ou Drácula em que uma atriz medíocre emitira um terror implausível. Mas era real e eu enfiei meu rosto no travesseiro, embrulhando minha cabeça com ele como dentro de um úmido âmnio. Eu tentava desligar o grito. Surdo, na escuridão, procurei pensar em qualquer coisa que não fosse aquele grito…”

    Por mais que se tenha lido histórias de infância, recordações de família, evocações do passado, por mais que se tenha falado da Guerra, da Depressão, da decadência sulista, de doenças terminais, da perda de ilusões, Uma manhã em Tidewater tem o poder da grande literatura de criar de novo o mundo, transformar tudo em novidade mais uma vez. Depois desse lançamento mais que especial, a Rocco bem poderia alegrar os admiradores de Styron no Brasil, lançando finalmente a tradução de Set this house on fire (1960), um dos primeiros livros do autor de The long march (1956, já traduzido como Longa caminhada & O preço da paz).

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/18/a-escolha-de-sofia-e-a-farpa-de-gelo-no-coracao-do-escritor/

https://armonte.wordpress.com/2011/06/30/ifigenia-no-deep-south-deitada-na-escuridao-de-william-styron/

https://armonte.wordpress.com/2011/02/24/os-mortos-que-nao-podem-ser-enterrados-duas-resenhas-homenagens/

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24/02/2011

Os mortos que não podem ser enterrados: duas resenhas-homenagens

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de novembro de 2006)

No primeiro dia do mês morreu um dos maiores escritores do século XX, William Styron, aos 81 anos, após anos de luta contra a depressão e a tentação do suicídio, o que causou uma drástica diminuição de títulos novos da sua já pouco prolífica obra. Esse drama foi contado no curto e impressionante Perto das trevas (Darkness visible), onde podemos ler: “A depressão, quando me dominou, não era uma estranha, nem mesmo uma visitante inesperada. Há décadas ela batia à minha porta”.

Já no seu romance mais famoso, o maravilhoso A escolha de Sofia (1979), um dos livros mais lidos e relidos pelo autor deste artigo ao longo dos últimos 20 anos, podia-se ter uma indicação dessa proximidade com as trevas. O narrador, Stingo, afirma: “Na minha carreira de escritor, sempre me senti atraído por temas mórbidos –suicídio, estupro, assassinato, vida militar, casamento, escravidão”.

Parece ser um fardo dos escritores do chamado Deep South, herdeiros de William Faulkner. Styron certamente foi o mais brilhante deles, já a partir do primeiro romance, Deitada na escuridão (Lie down in darkness, 1951), história de uma jovem sulista, Peyton Loft, que se suicida em Nova York. O relato começa com seu cadáver voltando para casa e reconstitui toda a desagregação familiar que a transforma ao mesmo tempo numa mistura de Antígona e Ifigênia, partícipe e vítima do destino do clã.

Mesmo com a atmosfera carregada, esse texto de estréia impressionava mesmo pelo fabuloso domínio técnico do autor de 25 anos. Deitada na escuridão está para sua obra como Os Buddenbrooks para a de Thomas Mann (como foi observado pelo  crítico marxista Carlos Nélson Coutinho, discípulo de Georg Lukács, na edição brasileira de  Realismo Crítico Hoje): se nada mais tivesse produzido, já garantiria espaço para ele dentro de uma geração assombrosamente talentosa (Truman Capote, Norman Mailer, Saul Bellow, J.D. Salinger, Paul Bowles só para citar os mais óbvios).

Alguns anos depois apareceu o brevíssimo e austero A longa marcha, que mostrava a grotesca realidade da guerra sem precisar chegar a ela. Ele já teve duas traduções no Brasil (uma, como O preço da paz), só que está há anos fora de mercado. Mais absurdo ainda: o muito admirado Set this house on fire (1960), para o já citado  Carlos Nélson Coutinho o equivalente de A montanha mágica nos EUA, sequer foi traduzido!

Felizmente o mesmo não aconteceu com sua obra-prima As confissões de Nat Turner (1967), a qual, apesar do repúdio de intelectuais negros, ganhou o Pulitzer e é o mais cabal entrelaçamento entre o tema da escravidão com a problemática espinhosa da constituição de uma mentalidade religiosa contraditória na cultura afro-americana, ao dar a voz (num grande e também contraditório exercício narrativo em primeira pessoa) a um escravo que liderou uma rebelião violenta no século XIX. Aqui nesta coluna Nat Turner entrou na lista dos 100 maiores romances do século passado. Ainda assim, o meu  favorito continua sendo a memorável história do encontro entre o aspirante a escritor e a não-judia sobrevivente (se é que se pode chamá-la assim, e considerando o final do livro) de Auschwitz, na Nova York de 1947, que embora tenha proporcionado a Meryl Streep um personagem à altura do seu talento (e lhe valeu o Oscar mais merecido que algum intérprete já recebeu), empobreceu no cinema: A escolha de Sofia é um romance caleidoscópico e fascinante, com suas idas e vindas temporais, algo que só encontra paralelo nos livros de Jorge Semprún, como Um belo domingo.

Aí veio a deterioração psíquica, a necessidade de internar-se, após o uso indiscriminado de remédios como Halcion e Ativan. E, de vez, em quando, uma jóia como Uma manhã em Tidewater (1993), reunião de três narrativas. A mais bonita delas: Shadrach, na qual um negro quase centenário, com um falar incompreensível, aparece na propriedade de “brancos pobres” e faz com que o narrador, embrião do futuro escritor, tenha de traduzir a trajetória que o levou até ali, onde foi escravo, para morrer, despertando a família Dabney para sua própria história, perdida no empobrecimento crescente geração após geração.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,   em 27 de agosto de 2005)

Por conta de Lima Barreto, que ocupou esta coluna nas últimas semanas (VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/08/genio-da-raca-lima-barreto/), quase que se deixa escapar uma data importante: a morte de Thomas Mann há 50 anos, em 12 de agosto (ele nasceu em 1875), na Suíça, numa espécie de exílio auto-imposto diante da guinada conservadora e totalitarista (após a guerra) do seu país de adoção, os EUA, depois de perder a cidadania alemã com a ascensão nazista.

O maior dos escritores já estreou com um romance genial: Os Buddenbrooks (1901), pelo qual ganhou o Nobel (em 1929) e que apresenta  seu mais inesquecível personagem, Thomas Buddenbrook, o qual, após elevar o prestígio sócio-comercial da firma da família, descobre, com a leitura de Schopenhauer, que tudo é “maya”, ilusão. A partir daí, tudo o que é sólido desmancha no ar.

Ainda nessa primeira fase, temos o revelador Tônio Kröger.  A  visão da arte como uma atividade perigosa e suspeita, essencialmente  desagregadora, que precisa ser refreada por uma vida exteriormente burguesa, é herdada de Nietzsche, e terá lugar até em O lobo da estepe (1927), de Hermann Hesse, cujo misantrópico protagonista, gosta de viver em casas burguesas e arrumadas.

Antes da Primeira Guerra, Mann ainda publica dois textos-chaves: Sua Alteza Real, onde aprimora seu estilo rumo a um realismo simbólico, e Morte em Veneza (a melhor novela do século XX, junto com A Metamorfose, de Kafka), na qual um grande e cansado escritor deixa-se levar pela beleza de um menino/anjo-da-morte, associado ao apelo do mar, o mundo informe, tentação suprema para quem sempre lutou para criar a forma.

Após um longo e obscuro ciclo, começa em 1924 o grande período de Mann como gênio da literatura, com sua mais apaixonante realização, A Montanha Mágica, caso raro de uma obra difícil, mas carismática e popular, ao ponto de a Nova Fronteira relançar neste ano mesmo uma reimpressão e ela se esgotar rapidamente em diversos lugares. Recentemente, esse romance inigualável  e seu protagonista, Hans Castorp ganharam uma bela homenagem de Harold Bloom em Como e por que ler.

O apelo do fascismo foi diagnosticado com precisão em Mário e o Mágico (1930). De 1933 a 1943, ou seja, da vida na Alemanha ao exílio nos EUA, foram publicados os quatro volumes de José e seus irmãos. O primeiro, Histórias de Jacó, é possivelmente o texto mais bonito e virtuosístico que Mann escreveu, ao ponto de eclipsar, talvez injustamente, os outros três. É o tipo de texto que seria escolha certa para a famosa hipótese da “ilha deserta” que sempre se propõe aos leitores.

O mais incrível , no entanto, é que reelaborando a fábula bíblica, ele ainda escreveu uma obra-prima como Carlota em Weimar (1939), narrativa sobre o reencontro de Goethe e a inspiradora da heroína de Werther, e na qual a alma alemã é dissecada. E também a divertida farsa hindu, As cabeças trocadas (1940), além de outra  história tirada do  Antigo Testamento: A Lei, sobre Moisés.

Depois da Segunda  Guerra, ainda começou outro período glorioso para Mann: em 1947, ele  pôde rir por último na tola questão de ser um “artista ultrapassado”, ao publicar o moderníssimo, ao mesmo tempo sinistro e paródico, Dr. Fausto, para muitos sua obra suprema, e que realmente é a mais impressionante. O impacto da mistura de pacto com o demônio, alma alemã, música e nazismo foi tão grande que ele chegou a ser cogitado para um segundo Nobel.

Livre de qualquer amarra, ainda escreveu dois romances imperdíveis: O Eleito (1951), que disputa com Histórias de Jacó a taça no quesito criatividade na prosa e estado de graça com que foi escrito; e o incompleto (ficou só no primeiro volume) As confissões do impostor Félix Krull (1954), texto que o acompanhou a vida inteira e que representa sua incursão na “alta comédia”, aquela em que a vida é sonho e estamos no grande teatro do mundo.

Mann teve a sorte de ser esplendidamente traduzido no Brasil, especialmente por Herbert Caro e Agenor Soares de Moura. Teve a sorte de ter um admirador, Anatol Rosenfeld, que deixou ótimos ensaios sobre sua obra. Pena que as biografias sobre ele sejam lamentáveis: Nigel Hamilton, em Os irmãos Mann, procura sempre depreciá-lo, em favor de Heinrich Mann. E há uma ridícula e desonesta biografia de Donald Prater, Thomas Mann, que já é comprometida de saída pela maldisfarçada e inoportuna antipatia do biógrafo pelo biografado e pelo visível fastio que sua obra lhe causa. É realmente muito pouco para um criador tão raro e fascinante que, como se lê na capa da edição de estréia da “EntreLivros” (na qual foi o destaque), “desafia e seduz o leitor atual”. Sempre tachado de ultrapassado, Mann , como Flaubert, sempre acaba por ultrapassar, deixando para trás os detratores.

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