MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/02/2016

O Shakespeare da hora: MACBETH

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uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de fevereiro de 2016)

Nos últimos meses estrearam dois filmes baseados em Macbeth: uma versão da peça, Ambição e Guerra, do australiano Justin Kurzel, a qual — apesar de estrelada pelos grandes Michael Fassbender e Marion Cottilard — não entusiasmou ninguém; e A floresta que se move (título sugerido por um dos elementos cruciais para o desenlace), transposição brasileira de Vinícius Coimbra do enredo para os dias atuais, na esfera empresarial, com Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio e repercussão igualmente pífia.

E olhe, leitor, que entre as obras-primas trágicas de Shakespeare foi a de melhor sorte nas telas, gerando pelo menos três filmes de primeira: o de Orson Welles (1948), o de Kurosawa (Trono manchado de sangue, 1957) e o de Polanski (1971). Talvez por ser a mais dinâmica e sucinta, sem o emaranhamento de Hamlet ou Rei Lear, embora também sem um personagem carismático como o príncipe da Dinamarca ou as proporções cosmogônicas da queda do rei que ficou velho antes de ficar sábio.

«  Por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas alguns fatos verídicos, seduzem-nos com coisas inocentes, porém de pouca monta, para nos arrastar a consequências incalculáveis», adverte Banquo, companheiro do até então valoroso Macbeth, quando este é saudado, num ermo, após uma batalha, como futuro rei, por três bruxas. Não adianta. De forma traiçoeira, ele e a esposa assassinarão o soberano, Duncan, seu hóspede. Nunca mais o sangue sairá de suas mentes e de sua visão («A tal ponto atolado estou no sangue que, esteja onde estiver, tão imprudente será recuar como seguir à frente»). E a Escócia será assolada pela guerra.

   A princípio titubeante, assombrado por sua imaginação[1] o protagonista age espicaçado pela esposa, a feroz Lady Macbeth, mais audaz: «Então, marido, por que ficardes só, tendo por companhia as fantasias mais desconsoladoras e ocupando-vos com pensamentos que já deveriam ter morrido com quem se relacionam? O que não tem remédio, não deveria ser pensado sequer. O que está feito, não está por fazer».

   Após consolidar-se no poder, o espaço à sua volta rarefaz-se, e aí percebemos a dimensão da tragédia, e como ela permanece atual. Se encaramos a corrupção maciça e endêmica como um horror, o aspecto mais sombrio do poder, no entanto, é o totalitarismo, a sede de dominação permanente (a qual encampa também uma avassaladora corrupção), a necessidade de eliminar os mais próximos (lembram de Banquo, além de tudo uma testemunha?:  «Oh! tenho o espírito cheio de escorpiões, querida esposa! Sabeis que vivem Banquo e seu Fleance[2]»), até os colaboradores, porque todos são suspeitos ou inimigos, na lógica paranoica do Terror: «Quase esqueci que gosto tem o medo/ Outrora meus sentidos gelariam/ Com um guincho à noite; e a minha cabeleira / Com um relato de horror ficava em pé/ Como se viva; estou farto de horrores/O pavor, íntimo do meu pensar/ Já nem me assusta».

 Não por acaso, uma das cenas inesquecíveis do teatro é o banquete “amigável” onde alguns dos convivas são fantasmas de vítimas do projeto de poder do hospitaleiro casal Macbeth.

Em tempo: em 2016, a morte de Shakespeare completa 400 anos.

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TRECHO SELECIONADO

«A CAMAREIRA – Ouvi coisas, senhor, que não me atrevo a repetir.
O MÉDICO – A mim podereis dizer o que ouvistes, sendo mesmo de vantagem que o façais.
A CAMAREIRA – Nem a vós nem a ninguém, uma vez que não tenha testemunha para confirmar o que disser. (Entra Lady Macbeth, com uma vela.) Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.
O MÉDICO – Como conseguiu essa luz?
A CAMAREIRA – Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.
O MÉDICO – Como vedes, está com os olhos bem abertos.
A CAMAREIRA – É certo; mas os sentidos estão fechados.
O MÉDICO – Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.
A CAMAREIRA – É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos. Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.
LADY MACBETH – Aqui ainda há uma mancha.
O MEDICO – Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.
LADY MACBETH – Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando. Um dois… Sim, já é tempo de fazê-lo. O inferno é sombrio… Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?
O MÉDICO – Ouvistes o que ela disse?
LADY MACBETH – O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacilação.
O MÉDICO – Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.
A CAMAREIRA – Ela falou o que não devia, tenho certeza. Só Deus sabe o que ela sabe.
LADY MACBETH – Aqui ainda há odor de sangue. Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha. Oh! Oh! Oh!
O MÉDICO – Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.
A CAMAREIRA – Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.
O MÉDICO – Bem, bem, bem.
A CAMAREIRA – Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.
O MÉDICO – Esta doença ultrapassa minha arte. No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.
LADY MACBETH – Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir. Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.
O MÉDICO – Também isso?
LADY MACBETH – Para o leito! Para o leito! Estão batendo no por tão. Vinde, vinde! Dai-me a mão. O que está feito não está por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito! (Sai.)
OMÉDICO – E agora, ela vai para o leito?
A CAMAREIRA – Diretamente.
O MÉDICO – Circulam por aí terríveis boatos. feitos contra a natura sempre engendram conseqüências doentias. As consciências manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros. Mais de padre tem ela precisão do que de médico. Deus, Deus que nos perdoe! Acompanhai-a. Deixai bem longe dela quanto possa causar-lhe qualquer dano. E ora, boa noite. Ela deixou-me o espírito confuso e a vista absorta com tamanho abuso. Penso, mas não me atrevo a dizer nada.
A CAMAREIRA – Boa noite, bom doutor».

NOTAS

[1]  «Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é».

[2] Fleance é filho de Banquo. Lembremos de que as bruxas vaticinam que Macbeth será rei, mas que Banquo gerará reis, mesmo não o sendo

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29/04/2014

Destaque do Blog: O PRIMEIRO HAMLET IN -QUARTO DE 1603

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 29 de abril de 2014)

Escrevendo sobre Hamlet, em Shakespeare: A invenção do humano, Harold Bloom discorreu longamente sobre uma hipotética versão original da peça, nunca encontrada, não obstante objeto de especulação tremenda, e que poderia ser ou não ser de autoria do próprio Shakespeare, cujos 450 anos de nascimento foram celebrados em 23 de abril.

Além desse obscuro Hamlet Zero[1], três versões da tragédia ocupam, nos últimos quatro séculos, especialistas e aficionados. Em geral, as edições que lemos misturam os textos dos chamados Segundo in-quarto (1605) e Primeiro Folio (1623), mais extensos do que o do Primeiro in-quarto (1603), este último só recentemente traduzido no Brasil, por José Roberto O´Shea (em edição da Hedra). Para que se tenha uma ideia da diferença, enquanto os dois outros, mais “autorizados” (mesmo sabendo que é impossível o estabelecimento de um Hamlet final de acordo com o que Shakespeare escreveu, já que não sobreviveram manuscritos), atingem cerca de quatro mil linhas (entre prosa e verso), o Primeiro Hamlet in quarto de 1603 apresenta apenas pouco mais de duas mil.

Ao longo de toda a acidentada formação do cânone shakespeariano, esse Primeiro Hamlet foi relegado ao status de edição espúria (bad quarto[2]), feita a partir da lembrança (supostamente com lacunas) de atores, das primeiras apresentações em 1600 ou 1601. Nas últimas décadas instaurou-se um processo de reabilitação, por ser mais “encenável”, com maior dinamismo da progressão dramática, pois em seu texto não constam “adiposidades retóricas”. Um exemplo: da primeira cena, quando os homens que montam guarda em Elsinore testemunham a aparição do fantasma do pai de Hamlet, não faz parte a fala de Horácio (e só aí são 14 linhas ausentes), comparando esse evento sobrenatural aos agourentos e pressagos acontecimentos que antecederam a morte de César na Roma Antiga.

Apesar dessas supressões, de pequenas mudanças na ordem dramática, dos nomes (Corambis, ao invés de Polônio; Gertred, ao invés de Gertrudes; “Cavalheiro Falastrão”, ao invés de Osric), e até nos famosos solilóquios de Hamlet (o mais famoso deles, nessa versão, começa assim: “Ser ou não ser—sim, eis aí o ponto”, e não o citadíssimo “eis a questão, além de aparecer no 2º. ato, e não no 3º.), a ação geral permanece a mesma, com o fantasma do pai revelando a Hamlet que o tio, agora rei, é seu assassino e usurpara o trono (a condição de herdeiro preterido é bem mais realçada nessa versão que no Segundo in-quarto e no Folio), exigindo uma vingança que será postergada (e, segundo Bloom, o misterioso Hamlet Zero era fruto da moda das “tragédias de vingança” na era elisabetana[3]).

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Mesmo aceitando que o Primeiro Hamlet é mais apropriado para adaptações cinematográficas e para os palcos, penso que a peça sai perdendo sem suas “adiposidades retóricas”. Talvez  causem impaciência e estranheza, mas para o apaixonado por Shakespeare faz falta, por exemplo, a já referida fala de Horácio: “Uma coisa perturba a minha mente/ No altíssimo e feliz torrão de Roma/Antes da queda do possante Júlio/Os túmulos mostraram-se agitados/ E as figuras estranhas dos defuntos/Gritavam e corriam pelas ruas/ Cometas chamejantes suavam fogo/ O Sol ficou convulso e a estrela túmida/Cuja força ergue o império de Netuno/Quase estava em desmaio num eclipse/Como iguais precursores de desgraças/ Como arautos precoces do destino/E prólogos de agouros pressentidos/ Terras e céus unidos advertiram/O nosso clima e os nossos conterrâneos.[4]

Na versão de 1603, temos o drama mais amarradinho e coeso, entretanto sentimos que ele perde boa parte do seu brilho, charme e apelo cognitivo. Um Shakespeare desidratado e desfibrado, inclusive no sangrento final, onde todos morrem com demasiada rapidez, sem impacto, e principalmente sem a belíssima troca de falas entre Hamlet e Horácio, com o já proverbial “o resto é silêncio”.

Nenhum trecho mostra tão significativamente que uma versão enxuta não é exatamente a melhor opção quanto a resposta de Hamlet ao aceitar o desafio (traiçoeiro) de Laertes (o qual, mancomunado com o rei, deseja vingar as morte do pai e da irmã). No Primeiro in-quarto, ela me parece de fato um exercício truncado de memória de algum participante da peça: “… se o perigo for agora, não virá depois. Existe especial providência na queda de um pássaro”;compare-se com a versão usual: “Nós desafiamos o augúrio. Há uma providência especial na queda de um pardal. Se tiver de ser agora, não está para vir; se estiver para vir, não será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo…”[5]

Portanto, a leitura do Primeiro Hamlet sempre será assombrada pelas ausências, pelos recursos poéticos que até podem embaraçar a linearidade cênica, mas que fazem com que a mais famosa obra de Shakespeare seja, nas palavras de mestre Bloom, “a mais selvagem das peças, em que tudo pode acontecer, e onde as expectativas são provocadas, em grande parte a fim de serem frustradas”[6].

Shakespeare Quartos Project

NOTAS

[1] Ou Ur-Hamlet.

[2] Na avaliação de Bárbara Heliodora: “(…) já em 1603 foi pirateado, como se diz, por um ator que fazia pequenos papéis, o que resultou na publicação do notório bad quarto, uma aberração muito mais curta do que a obra de Shakespeare, com trechos sem nexo e incluindo não só frases e falas de outros autores como também descrições de algumas piadas posteriormente publicadas como da autoria do ator Talerton…” (cf. “Introdução à 2ª. edição de Hamlet”,  Nova Aguilar, 2009)

[3] “Temos conhecimento da existência de um Hamlet anterior, revisto e superado pela peça de Shakespeare, mas não dispomos da referida obra e tampouco sabemos quem a escreveu.  A maioria dos estudiosos acredita que o autor da referida peça tenha sido Thomas Kyd, que escreveu A tragédia espanhola, arquétipo da ´peça de vingança´. Entretanto, no meu entendimento, Peter Alexander estava certo quando deduziu que o próprio Shakespeare teria escrito Ur-Hamlet, o que teria ocorrido até 1589, início de sua carreira de dramaturgo (…) a hipótese de Alexander sugere a possibilidade de Hamlet (peça que, em sua forma final, oferece ao público um novo Shakespeare) ter passado por uma gestação de mais de uma década.” (cf. A invenção do humano)

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[4] Utilizo a celebrada tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (em edição da Objetiva, 2004). – No Teatro Completo- Tragédias e Comédias Sombrias (Nova Aguilar, 2009), aparece creditado também nessa mesma tradução de Hamlet o nome de Bárbara Heliodora (filha de Anna Amélia).

Algumas outras traduções do referido trecho:

– de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes:

“Minúscula partícula que basta para perturbar os olhos do entendimento! Na época mais gloriosa e florescente de Roma, pouco antes da queda do poderosíssimo Júlio,  os túmulos ficaram vazios e os defuntos, envoltos nas mortalhas, vagavam pelas ruas de Roma, fazendo alarido e soltando sons confusos; também foram vistas estrelas com caudas de fogo; orvalhos de sangue, desastres no sol e o astro úmido, a cuja influência está sujeito o império de Netuno, padeceu de um eclipse, como se o dia do Juízo Final tivesse chegado. Estes mesmos sinais precursores de trágicos acontecimentos, anunciadores de catástrofes e mensageiros dos fados, o céu e a terra manifestaram juntos a nossos climas e a nossos compatriotas.” (em edição da Aguilar, 1969)

– de Millôr Fernandes:

“Um grão de pó que perturba a visão do nosso espírito/ No tempo em que Roma era só louros e palmas/ Pouco antes da queda do poderoso Júlio/As tumbas foram abandonas pelos mortos/Que, enrolados em suas mortalhas/ Guinchavam e gemiam pelas ruas romanas/Viram-se estrelas com caudas de fogo/ Orvalhos de sangue, desastres nos astros/ E a lua aquosa, cuja influência domina o mar, império de Netuno/ Definhou num eclipse, como se houvesse soado o Juízo Final/Esses mesmos sinais, mensageiros de fatos sinistros/ Arautos de desgraças que hão de vir/ Prólogo de catástrofes que se formam/Surgiram ao mesmo tempo no céu e na terra/ E foram vistos em várias regiões/Com espanto e terror de nossos compatriotas.” (em edição da Peixoto Neto, 2004)

– de Carlos Alberto Nunes:

“O olho da inteligência um argueiro o turva/ Na época mais gloriosa da alta Roma/pouco antes de cair o grande Júlio/ saíram dos sepulcros os cadáveres/ em seus lençóis, gemendo pelas ruas/ Depois, chuviscou sangue, apareceram/ manchas no Sol, cometas; e o úmido astro/ que tem força no reino de Netuno/do eclipse padeceu no fim das coisas/Idênticos sinais de cruéis eventos/precursores que são sempre dos Fados/e prólogo de agouros iminentes/enviaram juntamente o céu e a terra/por sobre o nosso clima e nosso povo.” (em edição da Agir, 2008)

– de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

“Eis um argueiro a incomodar o olho da mente/No Estado glorioso e triunfal de Roma/pouco antes de tombar o poderoso Júlio/ viram-se os mortos, em lençol, deixar as tumbas/ e guinchando engrolar nas ruas da cidade/Estrelas patentearam-se de cauda em fogo/sangrento o orvalho, o sol com aspectos desastrosos/ e o úmido astro, a cuja influência está sujeito/ o império de Netuno, adoeceu de eclipse/ quase que igual ao que há vir no Juízo Extremo/E idênticos precurso de terríveis fatos/tais como mensageiros precedendo os fados/ e prólogo do que, sinistro, se aproxima/o firmamento e a terra juntos revelaram/aqui, ao nosso clima e aos nosso compatrícios.” (em edição do Círculo do Livro, 1982)

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[5] Em outras versões:

“… desafio os augúrios; existe uma providência especial na queda de um pardal. Se for agora, não está para vir; se não está para vir, é esta a hora; e se esta é a hora, virá de qualquer modo. Tudo é estar prevenido…” (F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes)

“… desafio os augúrios. Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo…” (Millôr Fernandes)

“…desafio os presságios. Há uma especial Providência na queda de um pardal. Se tem de ser já, não será depois; se não for depois, é que vai ser agora; se não for agora, é que poderá ser mais tarde. O principal é estarmos preparados…” (Carlos Alberto Nunes)

“…desdenhamos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia—estar pronto é tudo…” (Péricles Eugênio da Silva Ramos)

[6] Cf. Hamlet, poema ilimitado (em tradução de Jose Roberto O´Shea), publicado pela Objetiva juntamente com a tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça.

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23/04/2014

OS 450 ANOS DE SHAKESPEARE: DEZ INDICAÇÕES DE FILMES BASEADOS EM SUAS PEÇAS

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(a lista abaixo foi reproduzida  no site “Letras inverso e re.verso” em 25 de abril de 2014:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/04/10-filmes-essenciais-partir-das-pecas.html)

Sim, eu sei, eu sei, tem o indefectível Hamlet de Laurence Olivier (não desgosto, muito pelo contrário, da versão completa da peça, dirigida por Kenneth Branagh, mas é “estilosa”, amaneirada demais, com seu elenco irregularíssimo). Se é, entretanto, para indicar somente 10  filmes entre as centenas de versões cinematográficas (incluindo filmes de fantasia, como o belo Planeta Proibido, que evoca A tempestade), escolho os seguintes:

 

  1. HAMLET (1964), a versão russa de Grigori Kozintsev (com co-direção de Iosif Shapiro), até hoje a mais impressionante que tive oportunidade de assistir, a que se parece mais com a ideia que tenho da peça. Que fotografia! Um detalhe: o roteiro teve colaboração de Boris Pasternak (autor de Doutor Jivago). Apesar do nome finneganswakiano, Innokentiy Smoktunovskiy no papel-título eclipsa Oliviers, Branaghs etc;
  2. TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957). Gosto do Macbeth de Welles, gosto bastante da versão “suja” de Polanski, todavia essa apropriação da trama shakesperiana para o universo de Kurosawa é arrasadora, e tem a ligeira vantagem sobre Ran (o Rei Lear do genial diretor japonês) de ser mais seca, desidratada de grandiloquência. Para mim, um dos filmes essenciais da história do cinema;
  3. REI LEAR (1971). Peter Brook (que já tinha dirigido Orson Welles numa versão de 1953) encena quase que com um espírito bergmaniano esta belíssima e controversa versão (que parece ter sido filmada nos confins do universo, no território da desolação). E que ator é Paul Scofield, um dos maiores entre os maiores. Listo o de Brook, mas é bom lembrar do filme de Kurosawa (e, claro, da versão do mesmo Konzintsev do Hamlet acima, e que sempre foi muito difícil de ter a oportunidade de assistir);
  4. OTELO (1952)- A versão de Orson Welles vale mais pelo visionarismo e visceralidade do próprio diretor do que exatamente pela harmonia do conjunto (para a qual contribuiu principalmente a caracterização do próprio e ultra-narcisista diretor no papel-título). Ainda assim, um filme grandioso. A versão corretinha de Oliver Parker, de 1995, tem, para mim, a melhor e mais linda Desdêmona do cinema, Irène Jacob;
  5. CÉSAR DEVE MORRER (2011)- Ainda que o Júlio César de 1953, de Joseph L. Mankiewcz seja o mais bem-sucedido e equilibrado espetáculo hollywoodiano já levado a cabo utilizando uma tragédia shakesperiana (além de ser um grande momento de James Mason), há muitos anos já não esperava mais nenhuma versão realmente inovadora e brilhante de uma peça do bardo. E eis que os irmãos Taviani resolvem a equação de forma genial e simples: colocando presidiários para interpretar o drama da conspiração romana. Um dos maiores filmes recentes;Paul Scofield (5)otelo orsoncesar-deve-morrer-19-02_652x408
  6. A MEGERA DOMADA (1967)- Não posso dizer que sou muito fã de Franco Zeffirelli, mas se algum dia ele já acertou a mão num filme foi nessa deliciosa travessura do casal Elizabeth Taylor- Richard Burton, inspiradíssimos nos seus arrufos e arrulhos, numa encenação bela de ver, leve, dinâmica, cheia de verve e charme;
  7. COMO GOSTAIS (1936)- Um jovem Laurence Olivier (ainda sem aqueles maneirismos canastrônicos que ele foi cristalizando no cinema) atua, nessa adaptação dirigida por Paul Czinner, no papel de Orlando, naquela que é a comédia mais espirituosa e engenhosa de Shakespeare. Apesar do roteiro não dar conta plenamente disso, o filme tem aquele timing dos anos 1930, e pode ser uma boa introdução para quem quer começar a conhecer o lote menos trágico da sua obra;
  8. HENRIQUE IV- 2ª. parte (2012)- Richard Eyre não é um grande diretor, longe disso, mas ele fez a mais cirúrgica e precisa adaptação de uma peça histórica de Shakespeare, pelo menos em anos recentes. Essa segunda parte é bem mais interessante que a primeira (diga-se a verdade: é impossível entender todos os imbróglios ligados à sucessão real dessas peças). Jeremy Irons, soberbo;
  9. O MERCADOR DE VENEZA (1973)- E eis uma interpretação shakesperiana de Laurence Olivier (já “medalhão”) na lista, enfim! Na verdade, incluo este telefilme de John Sichel porque foi a primeira vez, quando eu ainda era garoto, que um texto de Shakespeare me despertou a atenção, siderado que eu fiquei com as cenas de julgamento, as réplicas, a atmosfera toda dessa estranha peça;
  10. SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (1935)- Acho que Max Reinhardt deu o toque de classe, o “plus” ao co-dirigir com William Dieterle uma versão americana da sublime farsa sazonal, muito menos ridícula e forçada (talvez pela pátina nostálgica) que quase todas as versões posteriores das comédias shakesperianas com elencos mais castiços. O elenco é inusitado, indo de James Cagney (não, não, ele não interpreta Puck, papel de Mickey Rooney, mas encarna Bottom, curiosidade que já valeria uma olhada no filme) a Olivia de Havilland (Hermia).

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