MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/08/2012

Destaque do Blog: O LEÃO E A JOIA, de Wole Soyinka

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  sem as notas de rodapé, em 14 de agosto de 2012)

Um dos destaques do ano entre os lançamentos de literatura estrangeira é, sem dúvida, O leão e a joia  (The lion and the jewel), tardia primeira tradução brasileira (muito bem realizada, por William Lagos, para a Geração Editorial) de Wole Soyinka.

  Atualmente com 78 anos, o autor nigeriano teve essa sua peça de juventude encenada no final dos anos 1950 (a publicação em livro aconteceu há exatamente 50 anos), quando se dedicou a estudar em profundidade (após um período “londrino”) o teatro africano.

  O leão e a joia coloca em cena o velhíssimo tema do triângulo amoroso e na superfície se vale das regras clássicas e estritas da unidade de ação, tempo e lugar, que indicariam mais um apego às formas teatrais europeias. Numa aldeia da nação iorubá, acompanhamos uma trama farsesca desenrolando-se em três atos (Manhã, Meio-dia, Noite): Sidi é a bela de Ilujinle, ainda virgem. Seu pretendente mais declarado é o para-lá-de-ocidentalizado professor primário Lakunle, que a admoesta por manter hábitos “bárbaros” e “primitivos” e lamenta constantemente o atraso do povoado (“Eu quero caminhar a seu lado como fazem os casais de Lagos que eu vi: a dama usa sapatos de salto alto e usa batom vermelho nos lábios. E seus cabelos são alisados como em uma foto de revista. Eu lhe ensinarei a valsa e nós vamos aprender juntos a dançar o foxtrote”). Sua amada, ferina e maliciosa, o provoca e ridiculariza (“Por causa desse aí, não lhe dê mais atenção do que daria a um eunuco”), em diálogos ágeis e nervosos, cheios de metáforas e analogias inspiradas[1], dando vazão à sua indignação por ele não ceder ao costume ancestral de pagar um dote à noiva. Subira à cabeça de Sidi, ademais, ela ter sido fotografada por um forasteiro, tornando-se capa de uma revista.

  Acontece que há outro pretendente: o bale (chefe) local, Baroka—um personagem fascinante—que se lamenta à mais velha das esposas (causando nele um sentimento de secreto rejúbilo, movido pela eterna guerra dos sexos) de que, aos 62 anos, está assombrado pela impotência e gostaria de ter Sidi como a nova esposa para resgatar sua virilidade perdida. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que o texto de Soyinka urde, tece e entrança de astúcias, ardilosidades e armadilhas para a incauta Sidi, que em sua ingenuidade crê ter a tarimba para lidar com o “leão” (matreiro ao ponto de subornar o encarregado da ferrovia que passaria pela aldeia, trazendo o tão falado progresso), ou de como a própria “joia” aceita o seu papel de peão no tabuleiro e joga de forma a garantir uma posição social elevada. Deixo ao leitor a descoberta das delícias do desenrolar da ação.

  O que eu pretendo enfatizar é a engenhosidade do Nobel de 1986 em colocar no palco, de forma simples e lapidar, o confronto de forças históricas e sobretudo a eficiência das fórmulas cênicas africanas que transformam em musical, de uma maneira que chega a humilhar Broadways, Holly ou Bolly Woods, em naturalidade e agilidade rítmica[2] notáveis (e que também demonstram, sem necessidade de didatismos—apesar do lastro pedagógico de O leão e a joia—os atavismos que nos regem, pois o modernoso professor Lakunle é arrastado irresistivelmente para essas coreografias), os eventos passados que esclarecem os fatos que vemos no palco: assim, dança, música, cenas coletivas, decorrem de conflitos íntimos e jogos verbais entre praticamente quatro personagens: Sidi, seus dois pretendentes e a esposa mais velha, Sadiku; há ainda Ailatu, a atual “favorita” de Baroka, enquanto ele não conquista a “joia”, numa única cena maravilhosa.

   Por falar em cenas maravilhosas, não posso deixar de destacar a longa fala de Sadiku em que as metáforas de linho, cordão, carretel e similares atingem uma ressonância sexual inequívoca e saborosa[3], os ditados pândegos[4] emitidos pelo supostamente venerável e sábio Baroka; este, apesar de lamentarmos a persistência do patriarcalismo no que ele congrega de atraso e imobilismo, permanece um personagem mais simpático e humano do que o sinistro Lakunle e sua visão (satirizada cruelmente por Soyinka) do que seria a modernização da África: “Vamos queimar a floresta, cortar as árvores e depois plantar um parque moderno para os namorados. Vamos imprimir jornais todos os dias com fotografias de jovens sedutoras. O mundo irá julgar nosso progresso pelas nossas moças que vencerão concursos de beleza”.


[1] Outro exemplo:

Lakunle: Sidi, meu amor abrirá a sua mente como a folha casta da manhã, quando o sol a toca pela primeira vez.

Sidi: Se você começar de novo com isso, eu saio correndo. Eu já ouvi o suficiente dessas bobagens ontem.

Lakunle: (…) Como você pode chamar de bobagens que eu tenha derramado as águas da minha alma para lavar seus pés?

[2] No sentido de palco e no sentido da música

[3] Um trecho:

(…) somos nós que enrolamos e desenrolamos o cordão à volta de vocês, lentamente, até que nada mais sobre do que um carretel velho e carcomido (…) Fui eu que estropiei Okiki: a casa do tesouro de Sadiku estava fechada e cobrava um sacrifício para quem quisesse entrar… E aí chegou Okiki, com sua chave enferrujada. Ele veio para mim como uma cobra e saiu feito um capacho, um capacho frouxo e besuntado de vergonha…

  O que contrasta com a bazófia da virilidade enunciada por Baroka:

(…) seu eu pudesse ensinar a esse passarinho anda implume, que não tem a sabedoria de abraçar o rico mofo da idade…

[4] Ou pelo menos assim me soam na tradução de William Lagos, que acho muito esperta. Um exemplo: “(…) é como dizemos, uma mulher se perde na floresta um dia e no outro morrem todos os deuses da mata.

22/07/2011

O VALE DAS CINZAS

 

Azar Nafisi tentou manter a literatura como atividade lúcida e lúdica em meio ao furor fundamentalista que lhe tirou a possibilidade de trabalhar como professora no Irã. Os leitores brasileiros não vivem sob nenhum regime antidemocrático. Nem por isso têm acesso a várias das obras mencionadas no livro de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã.

Felizmente, O Grande Gatsby, cujo “julgamento” encenado pelos alunos da autora iraniana (quando lhe era permitido dar aulas) ocupa a segunda parte do livro, ganhou recentemente duas novas traduções: a de Roberto Mugiatti para a Record e a de William Lagos para a L&PM (há uma tradicional versão de Brenno Silveira, já publicada por várias editoras). Ainda bem, pois esse notável romance de 1925 transformou-se no paradigma da visão que os norte-americanos têm de si mesmos e que temos deles.

E isso com a banal história do pobretão que enriquece contrabandeando bebidas, tornando-se famoso por suas festas, embora na verdade só queira reconquistar seu amor do passado, a nebulosa Daisy Buchanan, a qual não consegue se desligar da vida acomodada e esnobe que leva com o marido (enquanto este a engana descaradamente com a mulher de um mecânico).

O narrador é Nick Carraway (que na sofrível versão de Jack Clayton era vivido pelo grande Sam Waterston, a melhor coisa do filme, eclipsando totalmente o casal de astros, Robert Redford e Mia Farrow), cujo envolvimento com o sonho romântico de Gatsby em torno de Daisy nos permite ver como os famosos valores americanos, sempre fortemente arraigados no provincianismo e no puritanismo, são dissolvidos na passagem do Oeste (origem dos personagens do livro) para o Leste.

O enredo se concentra em Nova York e arredores, no contraste entre o brilho da cidade grande e o vale de cinzas (uma região degradada e deprimente que todos têm de atravessar para alcançá-la de Long Island), o qual, em última instância, é sempre onde tudo ganha sua medida final.

Azar Nafisi, em sua defesa do livro no “julgamento”, diz¨”A cidade, como Daisy, tem nela mesma uma promessa, uma miragem que quando é atingida se torna degradada e corrompida. A cidade é o elo entre o sonho de Gatsby e o sonho americano. O sonho não diz respeito apenas ao dinheiro, não se trata de uma análise sobre a América como  um país materialista, mas como um país idealista, que transformou o dinheiro num meio de recuperar o sonho. Não existe nada grosseiro aqui, ou o grosseiro é tão misturado ao sonho que se torna muito difícil diferenciar os dois. No final, todos os melhores ideais e todas as mais sórdidas realidades acabam juntos.”

E, lógico, há a beleza incomparável do estilo de Fitzgerald (além do soberbo e inaparente exercício narrativo) que faz uma história de desilusão romântica terminar como visão de um sonho civilizatório ambíguo (quando Nick observa o Estreito de Long Island, após o melancólico funeral de Gatsby, assistido por quase ninguém, ele que era anfitrião de festas nababescas e com incontáveis convidados), de uma forma quase tão poderosa quanto o que Conrad mostrou ao descrever o Tamisa no início de O coração das trevas.

O grande Gatsby é uma obra-prima desesperada e pungente. Nick fica contente de ter feitor a Gatsby um único elogio (“você vale mais do que eles todos juntos”) porque o “reprovava do começo ao fim”. É essa a empatia que todo grande romance cria e que é tão bem descrita por Azar Nafisi, ecoando Harold Bloom: “Não podemos experimentar tudo o que os outros vivenciaram,mas podemos compreender mesmo os indivíduos mais monstruosos. Um bom romance é aquele que mostra a complexidade dos indivíduos e que cria espaço suficiente para que todos eles tenham uma voz; desse modo, um romance é chamado de democrático, não porque defenda a democracia, mas porque ele é assim, por sua natureza. A empatia está no âmago da questão, no âmago de Gatsby, como no de tantos outros romances; o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e sofrimentos de outras pessoas. Não enxergar esses problemas e sofrimentos significa negar sua existência.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de dezembro de 2004)

 VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lendo-azar-nafisi-na-baixada-santista/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

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