MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/03/2016

Destaque do Blog: OS HERDEIROS, de William Golding

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William-Golding

(Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de março de 2016)

 

Ao longo de sua carreira, William Golding nunca mais repetiu o sucesso de sua estreia com Senhor das Moscas (1954). Entretanto, ele escreveu obras ainda mais geniais a respeito da natureza da humanidade, dos ritos civilizatórios de agregação e exclusão, como no caso do seu romance seguinte, Os Herdeiros (1955), que acaba de sair em tradução pela Alfaguara.
Seu protagonista é Lok, jovem homem-macaco que, com seu clã (mais sete indivíduos), procura a segurança de uma plataforma rochosa, após o inverno. Inesperadamente são atacados por criaturas diferentes, que se vestem com peles e que mantêm estranhos rituais.

Lok é um dos poucos sobreviventes dos ataques e, observando os costumes do “povo novo”, vai desenvolvendo um misto de fascínio e de terror diante de seus procederes cotidianos. O que Lok não imagina é que para o “povo novo” ele é um demônio, uma ameaça.
Podemos ler, então, a obra-prima de Golding como uma parábola a respeito das estruturas instintivas e emocionais através das quais se constituiu o ser humano, e também de sua incapacidade em compreender a alteridade, a existência do Outro. Nesse sentido, é bem esclarecedor o clímax, após uma hecatombe da natureza que provoca a fuga do “povo novo” (levando um bebê do clã de Lok). O herói sobrevive, irremediavelmente solitário. Na última imagem que temos dele, quando o autor despoja-o cruelmente até do seu nome—mencionando-o como “a criatura”—, como se o estivesse deixando para trás no passado, ele está ao da “figura” que dele fez um membro do “povo novo”. Portanto, temos juntos uma “imagem”, uma das formas da Humanidade de representar sua mente, de dar forma ao conteúdo dela, de racionalizá-la, em seus medos, suas visões e suas fantasias, e o próprio ser representado, em sua realidade irredutível.
O pessimismo de Golding é tal que, no capítulo seguinte, o último, ele mostra Tuami, membro do “povo novo”, sonhando em utilizar num companheiro de grupo a faca que está fazendo.
O que impressiona no Nobel de 1983 é que ele é um dos raros grandes autores contemporâneos que se atêm à narrativa. Seu estilo parece até pobre, às vezes, pois ele procura expressar tudo através da ação e da reação dos personagens e da descrição intensa do ambiente físico. Não há discursos, digressões, moral da história ou reflexões por parte do narrador.
Ele também escapa totalmente do estereótipo do escritor “que faz pesquisas”. Os Herdeiros é um livro ambientado na pré-história, mas não há nenhuma tentativa de criar verossimilhança histórica ou “clima de época”.
O autor de Homens de Papel descreve mecanismos de ação do ser humano, diante da natureza, dos outros seres, dos próprios sentimentos e percepções. Isso, por si só, já cria um poderoso efeito convincente para a história de Lok, do seu clã e do “povo novo”, e se o livro nada tem de “histórico”, também não cai no tom fácil da “fábula”, do universozinho inventado para provar algo. O que significa, somando tudo, que William Golding escreve textos extremamente originais.

Resenha Jornal

18/09/2011

OS HERDEIROS e a genialidade de William Golding

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de agosto de 1999)

Ao conceber Os HERDEIROS (The Inheritors, Inglaterra-1955, em tradução de Ana Luiza Ventura Vieira Pereira, editora Nova Alexandria), um dos romances mais extraordinários do século XX, William Golding teve uma idéia genialmente simples: colocar lado a lado dois estágios de evolução da Humanidade, numa narrativa ambientada na pré-história.

O protagonista de OS HERDEIROS é Lok, jovem homem-macaco que, com seu clã (mais sete indivíduos), procura a segurança de uma plataforma rochosa, após o inverno. Inesperadamente são atacados por criaturas diferentes, que se vestem com peles e que mantêm estranhos rituais. Lok é um dos poucos sobreviventes dos ataques e, observando os costumes do “povo novo”, vai desenvolvendo um misto de fascínio e de terror diante de seus  procederes quotidianos. O que Lok não imagina é que para o “povo novo” ele é um demônio, uma ameaça.

Podemos ler, então, a obra-prima de Golding como uma parábola a respeito das estruturas instintivas e emocionais através das quais se constituiu a própria Humanidade, e também a respeito da incapacidade dessa mesma Humanidade em compreender a alteridade, a existência do Outro.

Nesse sentido, é bem esclarecedor o clímax da história, após uma hecatombe da natureza que provoca a fuga do “povo novo” (levando um bebê do clã de Lok). O herói sobrevive, irremediavelmente solitário (é um momento tão desolador que sempre me tira a vontade de reler o romance). Na última imagem que temos dele, quando o autor despoja-o cruelmente até do seu nome—mencionando-o como “a criatura”—, como se o estivesse deixando para trás no passado, ele está lado a lado com a “figura” que dele fez um membro do “povo novo”. Portanto, temos lado a lado uma imagem, uma das formas da Humanidade de representar sua mente, de dar forma ao conteúdo dela, de racionalizá-la, em seus medos, suas visões e sua fantasias (e que também é um meio de anular—ou pelo menos neutralizar—o outro ser, prendendo-o numa representação), e o próprio ser representado, em sua realidade irredutível.

O pessimismo de Golding é tal que, no capítulo seguinte, o último, ele mostra Tuami, membro do “povo novo”, sonhando em utilizar a faca que está fazendo num companheiro de grupo. Como já mostrara no seu primeiro e mais famoso romance, O senhor das moscas (e mostrará em textos posteriores como O Deus Escorpião, Visível Escuridão e Ritos de Passagem), para ele os impulsos primordiais do ser humano são a crueldade e a destruição mútua.

O que sempre impressiona em Golding é que ele é um dos raros grandes autores contemporâneos que se atêm à narrativa. Seu estilo parece até pobre, às vezes, pois ele procura expressar tudo através da ação e da reação dos personagens e da descrição intensa do ambiente físico. Não há discursos, digressões, moral da história ou reflexões por parte do narrador[1].

Ele também escapa totalmente do estereótipo do escritor “que faz pesquisas”. OS HERDEIROS é um livro ambientado na pré-história, mas não há nenhuma tentativa de criar verossimilhança histórica ou “clima de época” (e mesmo assim não é que o danado consegue?).

O autor de Homens de Papel descreve mecanismos de ação do ser humano, diante da natureza, dos outros seres, dos próprios sentimentos e percepções. Isso, por si só, já cria um poderoso efeito convincente para a história de Lok, do seu clã e do “povo novo”,e se o livro nada tem de “histórico”, também não cai no tom fácil da “fábula”, do universozinho inventado para provar algo.

O que significa, somando tudo, que William Golding escreve textos extremamente originais. Tão originais que causaram celeuma na própria Academia Sueca, quando lhe foi outorgado o seu merecido Nobel em 1983. Foi uma das poucas polêmicas internas (muitos ali não queriam lhe atribuir o prêmio) que vieram a público  com relação a uma escolha.

Curiosamente, foi uma das escolhas mais acertadas. O que não deixa de ser muito engraçado, no final das contas.  Entretanto, a visão do mundo proposta pelo autor de OS HERDEIROS não é nada engraçada, como se pode constatar no trecho seguinte—no qual vemos o homem já pensante que foge da sua ancestralidade: “Não tardaria muito, pensou Tuami, agora que tinham saído da terra dos demônios da floresta[2] e estavam a salvo, para se atrever a usar o punhal de ponta de marfim. Olhar o rosto de Marlan e pensar em matá-lo era assustador”.

Neste ano de 1999, só se lançarem de fato a prometida tradução integral de Finnegans Wake, de James Joyce, OS HERDEIROS deixará de ser a tradução mais importante.


[1]  Nota de 2011: Sei (como sabia em 1999, quando escrevi o texto acima) que com essas afirmações vou de encontro à própria auto-caracterização de Golding como escritor:  alguém que tem uma idéia e procura um mito para corporificá-la. Mas continuo achando a mesma coisa, ou melhor, tendo a mesma percepção da sua obra, pelo menos na primeira fase (os últimos textos já têm um rebuscamento retórico mais pronunciado, penso especialmente em Visível Escuridão).

[2] Leia-se Lok  e seu clã.

17/09/2011

DEMASIADO PRÓXIMOS: William Golding e os ritos iniciáticos

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de janeiro de 2003)

  Em Close Quarters- Confinados (1987), um dos últimos livros de William Golding (falecido em 1993), o narrador-protagonista—Edmund Talbot—que está viajando para a Austrália no início do século XIX, diz a um companheiro de navio: “Vou passar alguns anos, alguns poucos anos, na administração da colônia… estou convencido de que neste século as nações civilizadas cada vez mais assumirão a administração das regiões retrógradas do mundo”. Fica evidente a arrogância do homem branco europeu, assim como fica bem localizado o momento histórico no romance: o período final das guerras napoleônicas, já estando próxima a derrocada do imperador francês, visto como um tirano (“O estado do mundo estava muito modificado pelas catástrofes… o estado da França, a ruína de suas grandes famílias, uma geração exposta primeiro à sedução de uma liberdade e uma igualdade impossíveis, em seguida às durezas impostas pela tirania…”[1]).

    Portanto, em Close Quarters, Golding deixa muito mais claras as coisas para o  leitor do que no grande romance (de 1980) do qual ele é a seqüência: Ritos de Passagem. A tradução de Elsa Martins ganhou nova edição pela Nova Alexandria vinte anos depois da pioneira edição da Francisco Alves, lançada por aqui antes mesmo que o notável escritor inglês ganhasse o Nobel (em 1993), numa premiação polêmica.

    Em Ritos de Passagem tudo é mais cifrado, momento histórico e características do narrador, o qual embarca e imediatamente começa a escrever um diário, tendo como destinatário o padrinho. Parece um personagem meio ingênuo, bom sujeito, curioso, inteligente e que, conforme indicado pelo título, deve submeter-se voluntariamente a experiências que irão amadurecê-lo.

    São muitos os aspectos que poderiam ser abordados num livro do quilate de Ritos de Passagem (entre eles, a presença maciça de elementos e metáforas teatrais). A este artigo, contudo, caberá ressaltar que Golding se irmana ao Machado de Assis de Brás Cubas & Dom Casmurro ao nos propor um narrador não-confiável, bem menos simpático do que parecia a princípio. O que ele diz de si mesmo e o que temos de ler nas entrelinhas são coisas conflitantes, quase diametralmente opostas.

    O que lemos nas entrelinhas da narrativa de Talbot configura o sujeito arrogante e muito consciente das diferenças de classe que emerge sem disfarce em Close Quarters. Porque Ritos de Passagem é um livro sobre castas sociais e sobre seus párias, mesmo que “aparentemente” não o sejam. Dois deles se destacam: Summers, um dos oficiais da embarcação, a quem Talbot toma por um “cavalheiro”, no sentido inglês da palavra, que determina nascimento, quando sua origem é bem humilde (e por isso nosso herói anota em seu diário: “… discuti, de uma forma que temo que ele possa ter achado ofensiva, a conveniência de que os homens fossem elevados acima de sua primitiva condição”), e o Reverendo Colley, que morre após o grande incidente da viagem: tentando se fazer respeitar pelo capitão do navio, que o despreza e humilha repetidamente, ele acaba por se embriagar, num espetáculo de degradação que culmina num escândalo sexual (Colleu pratica sexo oral com um dos marinheiros, praticamente em público).

    É uma carta do Reverendo Colley, em poder de Talbot, que nos permite entrever o avesso do diário que estávamos acompanhando, as ambigüidades dos ritos iniciáticos, colocando os acontecimentos a bordo sob outra luz, ou sombreando-os, melhor dizendo.

    Enquanto isso, Golding também brinca com a linearidade narrativa. Talbot começa por enumerar cada dia (1, 2,3, 4, 5), depois perde a seqüência e coloca um X, pula para o 12, depois para o 17, coloca um ? perplexo,mais adiante um Y, depois um ZETA grego, e no capítulo posterior à carta do malfadado Colley, não coloca nada, de tal forma o Reverendo bagunçou o coreto, virando do avesso toda a sua complacência e autoconfiança, colocando-o diante de assuntos e inquietações “que estão me deixando meio louco, como todos os homens do mar que vivem demasiados próximos uns dos outros e, conseqüentemente, demasiado próximos de tudo quanto é monstruoso, sob o sol e sua a lua” (nesse sentido, somos então todos homens do mar).

   A viagem pelo mundo e seus ritos se mostra bem mais resistente à simplicidade e linearidade do que a contagem numérica.


[1] Nota de 2011: utilizo a tradução de Terezinha Batista dos Santos, lançada pela Francisco Alves na sua inesquecível coleção “A Prosa do Mundo”, em 1989. Há um terceiro livro, formando uma trilogia (que tem o título To The Ends of the Earth)  , e que ainda não foi traduzido (como a maior parte da obra de Golding): Fire Down Below, de 1989

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