MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2013

Aproximações entre Faulkner, Autran Dourado e a ‘falta trágica”

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(o texto abaixo foi escrito em 2008 como parte das minhas anotações de aula de um curso chamado “Três Jovens Parcas: o romance como tragédia nas três Américas”, no qual eu comparava Ópera dos Mortos, Lie down in Darkness & Sobre heróis e tumbas, a partir de dois arquétipos trágicos, Antígona e Ifigênia, e trabalhando conceitos de Northrop Frye e a influência de William Faulkner; na minha tese de doutorado, sobre a obra de Autran Dourado, eu pouco espaço dei a Ópera dos Mortos, e por isso foi um prazer retomar, no curso, esse grande romance).

I-Leitura do primeiro capítulo de Absalão, Absalão!  A figura da srta. Rosa coldfield e a maldição dos sutpen

William Faulkner, como todo romancista norte-americano, é herdeiro de Mark Twain e de As aventuras de Huckleberry Finn (1885). Foi influenciado também, e decisivamente, pelas técnicas de narração indireta, narrador interposto (ou seja, sempre temos a versão de alguém sobre os fatos, nunca os fatos diretamente), que modificaram muito a narrativa realista tradicional, e nesse sentido, seus precursores são Henry James (penso, especialmente, em As asas da pomba de 1902) e Joseph Conrad (e Faulkner tinha especial admiração por este último), em textos como Lord Jim ou O coração das trevas, ambos do começo do século XX também.

Por isso, o primeiro capítulo de Absalão, Absalão (1936) apresenta-se como um emaranhado: é o encontro de uma senhora do “Deep South”, o Velho Sul (Rosa Coldfield), que desapareceu com a Guerra de Secessão, com um rapaz de vinte anos (Quentin Compson, personagem de O som e a fúria) que está prestes a ir para Harvard, mas que carrega consigo o peso do passado. E nas narrativas que estudamos no curso, o peso do passado é essencial, para que as personagens se sintam (e estão mesmo) presas a um círculo fatalístico:

“…Quentin Compson que ainda era muito novo para ser um fantasma, mas que ainda assim era obrigado a ser um deles por tudo aquilo, pois ele nascera e se criara no Velho Sul, como ela (…) vinte anos respirando o mesmo ar e ouvindo sempre o pai falar sobre aquele Sutpen, uma parte da herança da cidade –Jefferson— há oitenta anos respirando o mesmo ar, entre esta tarde de setembro de 1909 e aquela manhã de domingo, em junho de 1833, quando pela primeira vez ele apareceu na cidade, vindo de um passado indiscernível e adquiriu sua terra sem que ninguém soubesse como e construiu sua casa, sua mansão, aparentemente do nada, e casou-se com Ellen Coldfield e gerou seus dois filhos —o filho que enviuvou a filha, que sequer chegara a ser noiva— e assim cumpriu seu quinhão de maldição…Quentin crescera com aquilo… Sua infância fora repleta deles; seu próprio corpo era um corredor vazio ecoando aqueles sonoros nomes derrotados, ele não era um indivíduo, uma pessoa, era uma comunidade inteira, uma caserna povoada de fantasmas obstinados..”.

Sentimos, então, que Quentin é arrastado para esse círculo desde a infância e, como interlocutor da srta. Coldfield, para a maldição dos Sutpen (e todos os personagens cumpriram seu “quinhão” dessa maldição), típica da atmosfera trágica, à qual ficará preso até o fim do romance (e o pai de Quentin ainda tem sua própria teoria, já que é um romance de momentos sobrepostos, uma cena multiplicando-se em outras: “E ela escolheu você porque o seu avô foi a coisa mais próxima de um amigo que Sutpen jamais teve aqui nesta região… Ela pode pensar que, não fosse pela amizade do seu avô, Sutpen nunca se teria firmado aqui, e se ele não tivesse tido esse apoio, não poderia ter casado com Ellen. Por isso, talvez ela considere você, por uma simples questão de hereditariedade, parcialmente responsável pelo que aconteceu a ela e à sua família, por culpa de seu avô).”

Círculo fatalístico, maldição familiar. O rancor (que ela alimentou por quarenta e três anos: ..”.agora existia apenas a carne solitária, velha e contrariada da mulher fortificada pelo rancor antigo, um rancor de quarenta e três anos, o imperdoável ressentimento, a traição da última e completa afronta que foi a morte de Sutpen) de Rosa Coldfield é que coloca em movimento narrativo a engrenagem trágica. E é por isso que, mergulhada nesse rancor, que é sua parte na falta(“…ele, a fonte do mal e que tinha sobrevivido a todas as suas vítimas, que tinha criado dois filhos não apenas para se destruírem um ao outro e destruir sua linhagem, mas também a minha…”) trágica (que Sutpen originou, ao abandonar esposa e filho no Haiti, ao descobrir que eles tinham um quê de sangue negro, e para um sulista um quê qualquer de sangue negro é o suficiente, tanto que Henry Sutpen assassina o próprio meio-irmão, por quem fora apaixonado, e que era o noivo prometido da sua irmã, não pelo horror do incesto, e sim da miscigenação, o medo da donzela sulista ser profanada), Rosa Coldfield toma como certo que a Guerra de Secessão só aconteceu e destruiu o Velho Sul para que essa maldição, que envolveu os Sutpen e os Coldfield (“Que crime teria sido cometido para tornar a nossa família condenada a ser instrumento não apenas da destruição daquele homem, mas da nossa própria?”), se cumprisse. É o que podemos ler em trechos como:

“É porque ela quer que essa história seja contada… e saibam finalmente por que Deus nos deixou perder a Guerra —porque somente pelo sangue dos nossos homens e lágrimas de nossas mulheres Ele pôde deter este Demônio e apagar seu nome e linhagem da face da terra.”

Ou ainda:

“…eu, uma jovem saída de um holocausto que lhe tirou a segurança dos pais e tudo o mais, que viu tudo o que representava a vida para ela acabar em ruínas aos pés de umas poucas personagens com forma de homem, mas com nomes e estatura de heróis; uma jovem, como ia dizendo, atirada ao contato diário e constante com um desses homens que, a despeito do que ele (Thomas Sutpen) pudesse ter sido antes, e a despeito do que ela pudesse ter acreditado ou mesmo sabido a seu respeito, havia lutado durante quatro honrosos anos pelo solo e as tradições da terra onde ela nascera. E o homem que fez isso, embora fosse um canalha confesso, também possuía aos olhos dela a estatura e a forma de um herói e também estava saindo do mesmo holocausto…Oh! Ele foi bravo. Nunca contestei isso. Mas que a nossa causa, nossa própria vida, esperanças de futuro e orgulho do passado, tivessem que ser postas em confronto com um homens dessa laia para defendê-las —homens de valor e força, mas sem piedade ou honra! É de surpreender que os céus tivessem julgado apropriado nos deixar perder a guerra?”

É bom lembrar aqui da virgindade da srta. Coldfield (“há muito tempo entrincheirada na própria virgindade, porém note-se  a descarga erótica que sentimos quando ela diz que fora “atirada ao contato diário e constante” com Thomas Sutpen, o viúvo da sua irmã, e que lhe faz o ultraje de propor casamento, contudo verificando antes de qualquer oficialização, se ela lhe pode dar filhos)e do fato de que ela está meio que enterrada viva em sua casa. Isso, e mais sua fidelidade a esses tempos e seres já mortos, evoca o arquétipo de Antígona, e a fazem uma jovem parca, companheira da Rosalina de Ópera dos Mortos, também emparedada na sua morada e cercada pelos fantasmas do passado.[1]

Thomas Sutpen então é um mito do condado de Yoknapatawpha, com sua chegada misteriosa, seus vinte escravos que trazem um arquiteto francês algemado e acorrentado, para levantar no meio de cem milhas (daí o nome da propriedade, Sutpen´s Hundred, diminuída pela Guerra para Sutpen´s One), vivendo em meio à lama, uma casa imensa e mítica, da qual a família de Ellen, a esposa que ele escolhe para ter a respeitabilidade, é praticamente excluída. E quando voltam a ter um arremedo de convivência, a pequena Rosa (mais nova que os próprios sobrinhos, e habituada, criança que nasceu com índole de velha, a escutar atrás das portas) e o pai percebem que, comprada a respeitabilidade, fixadas as raízes, Sutpen continua com um tipo de vida que se dissocia frontalmente aos costumes puritanos do Velho Sul (“Ele não era um cavalheiro. Nem mesmo um cavalheiro. Chegou aqui com um cavalo, duas pistolas e um nome que ninguém tinha ouvido antes e que nem devia ser dele mesmo, como o cavalo e as pistolas, procurando algum lugar para se esconder, e o Condado de Yoknapatawpha lhe oferecia isto…Não, nem mesmo era um cavalheiro. Não que ele quisesse ser, ou mesmo ser tomado por um cavalheiro. Não. Isso não era necessário, tudo o de que ele precisava era do nome de Ellen e do nosso pai num registro que as pessoas pudessem olhar e ler” e mais adiante: “…desde que papai lhe deu respeitabilidade, concedendo-lhe uma esposa, não havia mais nada que ele pudesse desejar de papai, e nem mesmo a simples gratidão, quanto mais as aparências, poderia forçá-lo a abrir mão do próprio prazer, a ponto de se sacrificar para participar de uma refeição com a família de sua mulher), e ainda “corrompeu” os filhos, particularmente a filha, que se parecem mais com ele do que com a mãe. Dois indícios dessa corrupção: 1)Sutpen, uma vez, leva mulher e filhos à igreja, mas utiliza a rua como se fosse uma pista de corridas; há protestos, e ele nunca mais volta a acompanhá-los, mesmo assim o cocheiro continua a fazer a mesma entrada turbulenta, e ficamos sabendo que Judith, com apenas seis anos, é quem o incitava; um dia, a carruagem é substituída por uma parelha pequena, um faetonte inofensivo, e o cocheiro por um menino tranqüilo, e ela tem um violento chilique; 2) Sutpen mantém o hábito de promover lutas entre seus escravos para divertimento de homens brancos, que ali vão às escondidas; no final, ele mesmo gosta de ser um dos lutadores; Ellen, um dia, invade o local esbaforida, atrás dos filhos, e descobre Henry no meio da chusma, passando mal com a violência da luta; todo mundo sai meio envergonhado, e Ellen tem um confronto com Thomas, dizendo que até tentaria compreender que ele levasse Henry, embora achasse o cúmulo, mas que não permitiria que ele levasse Judith; Thomas replica que não sabe do que ela está falando, que não se importa se ela não acreditar, que nunca pensou em levar Judith para lá; aí então, eles descobrem que Judith (que está com a meia-irmã, Clytie, filha de Sutpen com uma escrava) estava assistindo a tudo pelo alçapão do celeiro. É o final do primeiro capítulo, e todos os elementos da história foram abordados e introduzidos dessa maneira emaranhada, mas tudo está lá. E ainda mais, sentimos aquela solidariedade, aquela ligação, entre os seres de uma linhagem trágica, mesmo que eles se odeiem. Daí a resposta de Rosa para a moribunda Ellen, quando ela lhe pede que proteja pelo menos Judith da voracidade destruidora da sina do pai (sempre a donzela a ser protegida e preservada): “Protegê-la? De quem ou de quê? Ele já lhes deus a vida, não precisa mais lhes fazer mal. É contra si próprios que eles precisam de proteção”. Vale mencionar aqui que, em Sobre heróis e tumbas (1961), que nós ainda vamos estudar, o herói do romance Martín segue sua amada Alejandra Vidal Olmos e a vê se encontrar com um homem que depois descobriremos ser o pai dela (Fernando Vidal Olmos). Há algo que incomoda Martín nesse encontro, pois ele achou desagradável, predatório, o aspecto do tal homem:

“Até que lhe pareceu entender a verdade: aqueles dois seres estavam unidos por uma veemente paixão. Como se duas águias se amassem, pensou. Como duas águias que não obstante isso pudessem ou quisessem destroçar-se e dilacerar-se com seus bicos e garras até a morte (…) Caminhava na madrugada quando teve de repente a revelação: aquele homem se parecia com Alejandra!”

II. PERCURSO PELA ÓPERA DOS MORTOS

Publicado em 1967, foi o livro com o qual Autran Dourado consolidou seu universo peculiar de ficção, Duas Pontes (cidade imaginária do sul de Minas, quase na divisa com São Paulo). Duas Pontes aparece pela primeira vez num conto, “Inventário do Primeiro Dia” publicado na coletânea Nove histórias em grupos de três (atualmente absorvido por Solidão Solitude), em 1957. Depois é o cenário da história da prima Biela, Uma vida em segredo (1964). A partir de Ópera dos Mortos, só um livro importante, Os sinos da agonia, e uma recriação de “Missa do galo” de Machado de Assis, não terão nenhum vínculo com Duas Pontes.

   Ópera dos Mortos alterna duas técnicas narrativas principais:

1) um tom “coral” (um recurso de que Autran será useiro e vezeiro nas obras posteriores), um narrador que absorve o ponto-de-vista da cidade, muito presente nos dois capítulos iniciais, no capítulo do meio (o 5º.) e no capítulo final, que começa de forma típica: “De repente a gente voltava ao sobrado. Atravessamos finalmente a ponte, o sobrado abria as portas para nós”;

2) a alternância de discursos indiretos livres (aquele em que o narrador em terceira pessoa se funde de tal forma ao ponto-de-vista da personagem que não se sabe o que é de um ou de outro, e que sem chegar ao fluxo contínuo que é o stream of consciousness consagrado por James Joyce, é uma imitação do processo associativo que é o nosso pensamento) de vários personagens, principalmente de Quincas Ciríaco, Rosalina, Juca Passarinho e Quiquina.

No primeiro capítulo, o narrador coral, “a gente”, apresenta o sobrado, comentando sua estranha construção: a parte de baixo foi construída por Lucas Procópio Honório Cota (sobre o qual correm “as brumosas histórias de um homem antigo que fazia justiça sozinho, que se metia com os seus escravos por aqueles matos, devassando, negociando, trapaceando, negaceando, povoando, alargando os seus domínios, potentado, senhor rei absoluto”[2]); a parte de cima pelo seu filho, João Capistrano Honório Cota (“homem sem a rudeza do pai, mais civilizado, vamos assim dizer”). Ora, o encarregado da construção pensa em refazer a casa inteira e ouve a seguinte resposta: “Não derrubo obra de meu pai. O que eu quero é juntar o meu com o de meu pai. Eu sou ele agora, no sangue, por dentro. A casa tem de ser assim, eu quero. Eu mais ele, numa argamassa estranha de gente e casa.”

No segundo capítulo, conta-se a história da família Honório Cota, concentrando-se principalmente no episódio que fez João Capistrano “brigar” com a cidade, fechando o sobrado para ela: estamos na República Velha, ele afinal tem uma filha que vingou, Rosalina, após os muitos abortos e filhos natimortos, está em plena prosperidade, com os cafezais, o armazém que mantém em sociedade com Quincas Ciríaco (que tinha uma estranha fixação no pai de João Capistrano, seu melhor amigo; como Lucas Procópio agarrava qualquer mulher e a forçava a ter relações com ele, por muito tempo Quincas Ciríaco suspeitou de que fosse um dos inúmeros filhos dele, dessa prática brutal, e sempre acalentou o sonho de assassiná-lo (“… só depois, muito depois, é que olhando meticuloso os dois retratos, o seu e o do outro, é que via como se parecia com o pai, era ele escrito e escarrado, como se diz. Mas o mal já estava feito, a alma azeda…”. Acalenta sonhos políticos quixotescos. Na política mineira, há dois partidos, os sapos e os periquitos, respectivamente os velhos partidos do Império “modernizados”, o Liberal e o Conservador. Por natureza, João Capistrano era um conservador e apoiaria naturalmente o chefe político da região, dos periquitos, senador Dagoberto. Porém, exaltado e idealista (“Era generoso, tinha grandes idéias para o Brasil. Se encarnava no avô, se via fazendo longos discursos na Assembléia Constituinte do Império[3]), começa a fazer reparos ao governo e é tomado como adepto dos sapos.

O sobrado passa a ser freqüentado quase todas as noites e João Capistrano, candidato, é eleito. Mas há um conchavo entre os dois partidos (e para ambos ele é uma figura incômoda), os votos são recontados e roubados. Alertado por Quincas Ciríaco de que “política é assim mesmo, não tem jeito —mão na bosta”, e colhido de surpresa pela morte da mulher, a sensata e pé-no-chão dona Genú, um ano depois, ele se fecha e a filha lhe faz companhia:

“E ninguém teve mais a coragem de cumprimentar o coronel Honório Cota feito antigamente… O coronel Honório Cota voltou à sua antiga morada para guardar a espada, elmo e couraça, encostou a sua lança. Voltou ao que era, ou melhor —ficou mais triste e ensimesmado do que era… Rosalina, já moça, procurava ampará-lo era assumir o silêncio do pai, aquele mesmo ar casmurro e pesado, de dignidade ofendida, aquele ódio em surdina, duradouro, de quem nunca se esquece.”

Quando as pessoas da cidade vão prestar condolências e homenagem, numa cena muito teatral, ele desce as escadas do sobrado, não diz palavra a ninguém, dirige-se ao relógio-armário do salão e pára o pêndulo.

Quando ele mesmo morre, todo mundo acorre ao sobrado, pensando que finalmente a birra entre o sobrado e Duas Pontes vai terminar, e há uma cena ainda mais teatral, deliberadamente teatral:

“Rosalina descia as escadas, toda a sua figura bem maior do que era, a cabeça erguida, digna, soberba, que nem uma rainha —os olhos postos num fundo muito além da parede, os passos medidos, nenhuma vacilação; trazia alguma coisa brilhante na mão. Rosalina era uma figura recortada de história, desses casos de damas e nobres que contam pra gente, toda inexistente, etérea, luar… Abriu-se caminho para Rosalina…aquilo que ela trazia na mão era o relógio de ouro do falecido João Capistrano Honório Cota, aquele mesmo que a gente babava de ver ele tirando do bolso do colete branco, tão bonito e raro, Pateck Philip dos bons, legítimo. Que ela colocou num prego na parede, junto do relógio comemorativo da Independência. Os relógios da sala estavam todos parados, a gente escutava as batidas do silêncio. Só na capa ouviam a pêndula no seu trabalho de aranha… A gente via tudo em silêncio de igreja: Rosalina subiu de novo as escadas, direitinho como desceu.”

Dados os antecedentes, a narrativa salta mais ou menos uns quatorze ou quinze anos, e vemos Rosalina-Antígona, lá pelos 30 anos, vivendo trancada dentro de casa, enterrada viva, não falando com ninguém na cidade a não ser o seu camarada de infância, candidato a noivo (entretanto, casou-se com outra), Emanuel, filho de Quincas Ciríaco, e administrador dos negócios da família. Rosalina convive apenas com Quiquina, a criada muda, e às tardes esta vai entregar as flores de seda e de pano que Rosalina confecciona (creio que não é preciso insistir muito no simbolismo dessa atividade, que mostra a nossa heroína não só contra os costumes da pólis, como também contra a natureza; trocando em miúdos, Rosalina é uma flor de estufa). Nessas tardes (como à noite, também, quando se entrega à bebida, mas preocupando-se em manter as aparências para Quiquina: poupa o vinho mais caro, para não gerar falatório na cidade caso viesse a fazer encomendas, e se embebeda com o licor adocicado e enjoativo que Quiquina prepara), sempre é meio que tomada por fantasias nupciais, tendo como única referência o sonso Emanuel:

“Se olhava no espelho remedando uma mulher muito elegante e bonita saindo de braço dado com o marido para um festa no Rio de Janeiro. Quiquina não devia ver. Trancava a porta, abria a gaveta da cômoda, tirava as rosas mais bonitas que tinha feito e guardado, sem coragem de vender. Meio envergonhada como se fizesse um pecado escondido, faceirosa…”

Rosalina desespera-se na casa onde se emparedou por orgulho:

“Forçou não pensar, deixar as coisas existirem de manso, sozinhas, sem ela, frias. Mas as coisas naquela casa não era frias e silenciosas, um pulso batia no seu corpo, ecoava estranhos ruídos, como se de noite acordada tivesse sempre uma porta batendo… A casa vivia de noite, ou de dia naquele oco de silêncio que ensombrecia como se fosse de noite, como se ouvisse, como se fosse um coração batendo a sua pêndula. Coração de quem? Da mãe, do pai, de Lucas Procópio? Nunca se sabia. Talvez o coração da casa mesmo… aí estava ela de novo empurrada para as sombras… Mas ela não podia mexer nos relógios, não devia nunca mexer naqueles relógios. Os relógios eram um quebranto, parados eles batiam como de noite aquele coração penado no meio da casa.”

No quarto capítulo, aparece o elemento estranho, aquele cujo destino vai se chocar com o de Rosalina, mas ambos serão triturados pela engrenagem da falta trágica: José Feliciano, o Juca Passarinho, malandro, vadio, errabundo, que deseja um lugar de parada, onde não precise trabalhar muito, de preferência só com mulheres, sem homem para vigiar se faz o serviço ou não. Ao se aproximar de Duas Pontes, só imagens agourentas: o cemitério e as voçorocas, as terríveis goelas expostas da terra, causadas pela erosão (o que há de sexual e freudiano nas voçorocas, não é preciso ressaltar, a própria Rosalina, com toda a sua donzelice, vai arrastar Juca Passarinho para si como se fosse uma das voçorocas).

Para a surpresa de Quiquina, e desagrado também, Rosalina concorda com que Juca Passarinho trabalhe em pequenos serviços e se agregue ao sobrado (ela só não queria alguém que fosse da cidade, não permite a entrada de nenhum nativo na casa).

O 5.o capítulo, postado estrategicamente no meio dos nove, chama-se “Os dentes da engrenagem”. Ele mostra como Juca Passarinho se torna querido na cidade, como as pessoas querem extrair dele notícias da intimidade do sobrado(“Desde os primeiros dias a cidade filhou Juca Passarinho, ele era um dos nossos. De novo tentávamos construir uma ponte para o sobrado, talvez por ali a gente pudesse passar…A gente sabia que Juca Passarinho vivia sempre mentindo, mas achava graça na queimação de campo, ele era muito engraçado…ninguém como ele para contar os casos”), e como ele mesmo tenta forçar uma maior intimidade (não sexual, ainda não, mas tentando sondá-la sobre o passado, “porque certas horas dona Rosalina não parecia a mulher feita de hoje. Era uma menina que contava seus casos, que fantasiava a vida. Era a vida e os seres vistos através dos olhos lumeados, do peito aberto de uma criança… A figura bem composta e cuidada não se casava com a voz e a fala doce e cantante que vinha de um fundo muito além, de uma outra pessoa…dona Rosalina era que nem um guará, ele tentava pegar o guará naquele casarão. [4] Sempre escondida num lugar qualquer do sobrado, perdida no tempo.Não a pessoa de dona Rosalina, que esta era até muito parada e silente, naquele serviço quieto e vagaroso de fazer flor. Ele não sabia ainda que buscava nela a outra pessoa: a sombra, a alma de dona Rosalina” [5])  com sua patroa, sendo sempre, no fim, rechaçado e mandado de volta para o seu devido lugar. Ele, de tanto espiar, acaba conhecedor das noites de bebedeira de Rosalina, principalmente porque volta muito tarde, após ficar pela cidade, ou aproveitando o Curral das Éguas, o bordel dos pobretões de Duas Pontes (o Bordel da Ponte, mais chique, é para os coronéis e mais afortunados).

E é assim que começa o capítulo seguinte, “O vento após a calmaria”: Juca retorna ao sobrado, onde Rosalina espera a sua volta (sem admitir para si mesma), e bebe, e fantasia. Juca chega sedento, com gosto de cachaça e cerveja na boca, e não aprecia a água da bica, fica tentado pela água da moringadentro da casa, é claro. Só que Quiquina não só fecha a porta da cozinha, por onde ele poderia entrar, como também fica meio que de guarda. Só que nesse dia a porta está entreaberta. Juca penetra no casarão e esse verbo penetrar não é nada inadequado para uma ação, que, se conjugarmos casa e mulher, ambos recintos defesos, se assemelha a uma violação, uma violação longamente esperada (“Agora era ir em frente, não podia mais voltar. Que importava se o mandasse embora, queria ir até o fim, ver o que ia acontecer”). O vento após a calmaria.

Ele encontra Rosalina bebendo, e sonhando, ela permite que ele sente ao seu lado (“Temia que ela voltasse a ser a dona Rosalina diurna, a dona Rosalina de sempre…Nunca estivera tão perto dela…”). Desmancha-lhe o penteado, ela tira uma flor que guarda no peito e entrega a ele (“Desabotoou os primeiros botões da blusa branca. Quê que ela vai fazer? Pensou rápido. Não. Ele viu que ela tirava qualquer coisa escondida nos seios”), e só não há consumação de nada porque ambos vêem, e se assustam com, a figura de Quiquina, consciência vigilante do sobrado, na porta da sala. Rosalina corre para cima.

No capítulo seguinte, “A engrenagem em movimento” ambos estão apavorados com as possíveis reações e decisões de Quiquina. Rosalina acorda numa terrível ressaca e não a encontraem casa. Ficapensando se o que aconteceu aconteceu de fato ou foi fruto da sua imaginação. Só quando olha nos olhos de Quiquina percebe que tudo é fato. E Juca fica vagueando pela cidade, pelo cemitério, pelas voçorocas, até que volta ao sobrado, e confrontando-se com Rosalina diante de Quiquina, esta tem a mesquinha  satisfação de vê-lo sendo humilhado pela dona do sobrado. Nas primeiras noites, ao voltar, não há luz e ninguém parece estar à espera. A porta da cozinha de novo fechada.

“Na terceira noite, ao voltar para casa, viu a sala acesa, as janelas escancaradas. Ela esperava-o, desejava voltar antes do ponto em que Quiquina chegou no vão da porta. O coração em sobressalto (não era alegria, ele esperava tudo de Rosalina) ele veio até a janela, viu-a junto da mesa, o livro aberto diante dos lhos, o cálice pelo meio ao alcance da mão. Tudo como da primeira noite[6], pensou rápido e trêmulo… preso ao chão, ele não se animava a avançar. Não podia perder aquela oportunidade. Sem uma palavra ela o estava chamando…

…Na porta da sala ele parou. Junto da mesa, de pé, ela. Ela sorria para ele, não podia ter mais nenhuma dúvida. Ela está se rindo pra mim, ela quer. O coração se encheu de uma alegria feroz. Os olhos úmidos, quase chorava. O coração estalando. Vem, disse ele sem desgrudar os olhos da porta onde Quiquina podia aparecer a qualquer momento. Como ela fizesse um movimento de apanhar alguma coisa debaixo da mesa, ele mostrou a garrafa na mão.

    E ela veio, os passos incertos, solta no espaço, feito pairasse sobre o abismo.”

Depois desse belíssimo final de capítulo, o seguinte (A semente no corpo, na terra) começa da seguinte forma: “E assim ele conheceu Rosalina.” Estabelece-se um ritual, em que a dualidade dia e noite, austeridade e luxúria, João Capistrano e Lucas Procópio, fica bem marcada (“Se o corpo lhe pertencia… A alma era dos mortos). Até que Rosalina passa a rejeitar Juca Passarinho e lhe nega acesso ao sobrado noturno: ela engravidou e tenta esconder de todos, inclusive de Quiquina, o que impede a esta de realizar um aborto. A gravidez vai impondo uma outra, uma terceira Rosalina, cada vez mais diáfana e desligada da realidade (e o estilo mimetiza esse desdobramento da personalidade desdobrando-se em parênteses). Na noite do parto, Quiquina ajuda-a (ela tem dores lancinantes), congratula-se por ninguém da cidade ter descoberto a situação, e preocupa-se com o bebê, ao qual pretende matar, caso não siga a sina dos filhos de dona Genú e nasça “anjinho”. Como explicar uma criança no sobrado e manter a fachada de orgulho?

No final, Juca ouve um vagido de recém nascido e depois um assustador silêncio. Quiquina lhe traz uma trouxa costurada, sanguinolenta e nauseabunda e manda que jogue nas voçorocas. Ele, apavorado, obedece a ordem de pegar a “coisa”, mas a enterra e depois fica deitado, esperando o amanhecer, para fugir da cidade, que cumpriu seus presságios com o cemitério e as goelas abertas.

E o último capítulo, “Cantiga de Rosalina” traz a cidade de volta para o sobrado, e a última visão de Rosalina reinando sobre todos, na sua escadaria, em meio aos relógios todos parados (Quiquina pára o da copa, o último a funcionar na casa). É um capítulo curto, bem curto, e por isso pretendo fazer sua leitura na próxima aula.

III. Desdobramentos da família honório cota na obra de Autran Dourado

Como autor que gosta de fazer de suas obras uma Macro-narrativa (no que se assemelha a Faulkner[7] e aos trágicos gregos), quase vinte anos depois de concluir a história de Rosalina, em 1985, Autran Dourado mostrou a raiz da maldição dos Honório Cota, a falta que determinou todo o destino narrado em Ópera dos Mortos. No romance Lucas Procópio, ficamos sabendo que o Lucas Procópio do livro anterior é um impostor, o capataz e assassino Pedro Chaves, que usurpou a identidade de seu patrão. Em Monte da Alegria (1990), Pedro Chaves/Lucas Procópio reaparece para assassinar a última pessoa que poderia desmascará-lo. E, por fim, em Um cavalheiro de antigamente (1992), conhecemos melhor João Capistrano, pai de Rosalina, e que herdou as características psicológicas do homem cuja identidade o pai dele usurpou.

O verdadeiro Lucas Procópio e seu amigo Francisco Fernandes Coutinho (o futuro Santinho de Monte da Alegria) são figuras quixotescas e arcaicas, compartilhando da mesma formação, por serem da mesma estirpe, que sofre a decadência (suas famílias eram riquíssimas no tempo do Ouro) com elegância, e que vem justamente a ser a formação de Isaltina, a qual acabará por casar-se com o brutal Pedro Chaves:

“Não havia aquelas riquezas dos tempos dos antigórios. Aquela elegância de homens e mulheres que freqüentavam a casa de José Antônio[8] era mantida a duras penas, com muito cuidado. Os ternos e vestidos eram escovados e passados, alguns com cerzidos que eles disfarçavam com aquela dignidade dos nobres decaídos e dos que conheceram a abastança e agora roem os ossos com a dignidade possível e orgulhosa.”

A inércia inicial de Lucas e Francisco se expandira para ações quixotescas, com resultados desastrosos (como mais tarde, a empreitada política de João Capistrano), não por acaso determinados por Pedro Chaves, que marca o fim do papel social desses herdeiros/deserdados do ouro. Um universo no qual Lucas é uma figura de destaque:

“…de cabelos e barba com alguns fios brancos, era afidalgado, filho de Mateus Romeiro Cota, português que vinha da nobreza hereditária lusitana (aparentado a del-Rei, era o que gostava de dizer Mateus na sua alta e agressiva prosápia), não da nobreza individual e intransmissível do Império do Brasil; tinha os gestos elegantes e as maneiras finas. Era um belo exemplar de homem, achavam mulheres e homens. De voz poderosa e timbrada, ninguém como ele para declamar um poema”.[9]

Saindo de Ouro Preto, o “lucidamente louco” Lucas Procópio (a caminho de uma propriedade no arraial que é por enquanto Duas Pontes, no Império, propriedade que será usurpada por Pedro Chaves) prega a redenção de “antigamente, parte mito, parte fatos acontecidos…Lucas Procópio pregava o seu evangelho das Minas Gerais, o renascimento da velha e brilhante civilização do ouro[10]. Ele surge nas cidadezinhas do interior (acompanhado por Pedro e pelo negro Jerônimo) como uma figura “estúrdia”

“…jamais vista naquelas paragens. Era mesmo coisa de sarapantar, matéria de pura invenção, sonho da gente, figuração saída de gravura de livro antigo. Os moleques, de natural livres e ousados, não se continham, exaltados e atrevidos. Cadê o resto do circo? começaram a gritar no desrespeito comum ao pessoal miúdo. A gente aqui sabia o seu tanto de História. Nunca porém se vira cara, vestimenta, cavalo, arreio, armas iguais, tudo antigório.”

Francisco, por sua vez, torna-se um “iluminado” religioso, na linha de Antonio Conselheiro, após uma experiência incestuosa com a irmã, Conceição.

O assassinato de Lucas é narrado da seguinte forma:

“Pedro Chaves viu o patrão se levantar e ir em direção da canastra. Quando se voltou, gritou espantado vendo a carabina apontada para ele, as mãos no ar. Não faça isso, não faça isso, pedia. A arma apontada bem na cabeça de Lucas Procópio. Um pássaro trincou o silêncio estagnado, de cristal. A figura de Lucas Procópio contra o fundo azulado e luminoso do céu. Uma explosão, o corpo caiu. Está morto o coronel Lucas Procópio Honório Cota, gritou Pedro Chaves para o céu alto, tinindo de azul”.

É o final da primeira parte de Lucas Procópio, intitulada “Pessoa”. Depois, começa a 2ª., que narra o casamento do impostor com Isaltina e o seu apossar-se de Duas Pontes e arredores, intitulada “Persona”.

Já o assassinato do Santinho é assim:

“O irmão Francisco se levantou e abriu a porta. Era um homem forte e troncudo, que usava barba comprida, já grisalho… Qual é a graça de Vossa Senhoria? disse ele. Eu me chamo Lucas Procópio Honório Cota, coronel da Guarda Nacional. Não é possível, disse o irmão Francisco, eu conheci Lucas Procópio Honório Cota, fui amigo dele. Vossa Senhoria é um impostor. Sim, não sou Lucas Procópio Honório Cota, há alguns anos passo por ele. Meu vero nome é Pedro Chaves, mas você vai ser a última pessoa a saber, eu espero. E tirando do coldre um revólver, Pedro Chaves desfechou dois tiros no peito do irmão Francisco.”

Essas mortes deixam o caminho livre para o falso Lucas Procópio Honório Cota (veja-se a importância do nome, com sua aura de nobreza, realçada pela sua repetição obsessiva nos dois trechos) dominar a cena, mesmo entre os coronéis da região, os quais, eles mesmos, se espantam com sua desfaçatez, pois faz em aberto coisas que eles fazem à socapa, mantendo as aparências.

Nada explicita melhor a hipocrisia dos outros coronéis, principalmente nos tempos republicanos, do que a atitude do delegado Requião, em Um cavalheiro de antigamente:

“…ele mesmo deixava de perseguir os capangas dos coronéis do município, só exigia que eles não permanecessem dentro da cidade, na cidade mesmo só de passagem. Como era pouco o que ele queria, os coronéis que o mantinham na delegacia, do partido da situação, achavam uma exigência de somenos, até elogiavam, caso contrário viver nas Duas Pontes ficava perigoso para as famílias. Cobra e capanga é no mato, dizia seu Requião o chefe político das Duas Pontes, quando lhe contaram o ditado, riu muito, até louvou o zelo de seu Requião.”

Já Pedro Chaves, transformadoem Lucas Procópio(isso é que é self made man), surpreende pelo seu arrivismo, que o coloca bem à vontade na passagem do Império para a República, quando também Duas Pontes deixa de ser mero arraial e transforma-se numa cidadezinha, que conhecerá seu auge durante a economia cafeeira:

“…Lucas Procópio não era o que antigamente se chamava um caráter adamantino, um homem de bem. Seus negócios nunca foram limpos, não se podia confiar na sua palavra. De vontade férrea e imperiosa, mandão e atrevido…mesmo depois de um tanto transformado, Lucas Procópio nunca respeitou muito a lei, ele a burlava com desfaçatez, pelo que jamais foi punido…era senhor-rei-absoluto[11], fazia justiça com as próprias mãos.”

É justamente essa tendência arrivista que o faz adaptar-se às mudanças que se fazem, na melhor tradição “gattopardo”, para tudo continuar como está, como se pode ler em Lucas Procópio:

“O seu poder econômico de agora (na verdade, era a maior fortuna de Duas Pontes e arredores) levara-o fatalmente à política, uma era conseqüência dôo outro. A libertação dos escravos não o atingira tanto, pensando bem até lucrara com ela. Um ano antes, embora conservador por interesse e temperamento, vendera e alforriara os seus escravos e conseguira trazer para a Fazenda do Encantado colonos italianos contratados como assalariados ou pelo regime da meia e da terça… O único problema que passou a ter com os colonos é que muitos deles tinham noção de sua dignidade, preservada a todo custo… Muitos deles tinham idéias avançadas para a época, uma noção muito nítida dos seus direitos e interesses (…) Na política continuou a mesma tradição de mandonismo, própria daqueles tempos, que vinha ao encontro do seu antigo temperamento. Pela sua natural autoridade, pelo manso respeito que passaram a ter por ele na cidade, não lhe foi difícil chegar à chefia do Partido Conservador. Com a mudança do regime, passou a ser o presidente do Partido Republicano. O sistema autoritário dos primeiros anos da república era bem de acordo com o temperamento do seu chefe municipal.”

Portanto, o “temperamento” do falso Lucas Procópio condiz com o que se pede a uma autoridade nos primeiros anos da república. Um pouco mais adiante, há um trecho irônico sobre a “transformação” da figura pública de Pedro Chaves: “…ele se tornou, á sua maneira, um homem até ponderado. Ou seja, quase respeitável, o que Rosa Coldfield sempre negou a Thomas Sutpen, embora ele atinja o mesmo status por causa do seu desempenho na Guerra de Secessão.

Um tanto do trabalho de retoque da imagem pública de Lucas Procópio/Pedro Chaves fica a cargo do seu filho (que enfrentará o mundo com instrumentos mentais e um temperamento bem próximo ao homem que o pai assassinou).

No final de Lucas Procópio, no Ponto (o localem Duas Pontes onde os homens param para bater papo).

“…viu passar por ele um preto, não lhe pareceu estranho. O preto andou alguns passos, se voltou. E sem que ninguém entendesse nada, gritou Pedro Chaves! (…) Armado de uma garrucha, o preto lhe desferiu um tiro no ombro. Mesmo ferido, o coronel ainda foi mais ligeiro. Sacou do revólver e desfechou no preto dois tiros seguidos, certeiros, que o prostraram no chão, morto. Quem era, lhe perguntaram. Não sei, um preto que deve ter me tomado por alguém que não sou, disse. E a si mesmo: Jerônimo, preto filho da puta!”[12]

Ao morrer, tempos depois, há um efeito “retrato de Dorian Gray”:

“…Quando mandaram tirar ao sua máscara mortuária, o que se viu não foi a cara serena do velho Lucas Procópio Honório Cota em que o homem se transformara, nome pelo qual a gente o conhecia, mas a cara enrugada, dura, má, sinistra, que ficara na cera: na verdade as feições do terrível e antigo feitor Pedro Chaves, tanto tempo escondido.”

Esses antecedentes (criados posteriormente) são indispensáveis à fruição da história de Rosalina? Pode ser que não, mas são apaixonantes. E ajudam a compreender o objetivo do curso, de relacionar tragédia e romance. Ao escavar as origens, Autran Dourado dá mais uma demão nas camadas que envolvem o sobrado, argamassa estranha de casa e gente.

IV. Leitura do último capítulo de Ópera dos Mortos, “A canção de Rosalina”, com uma ligeira passagem por Luz em Agosto:

Na minha opinião a obra-prima absoluta de Faulkner é Luz em Agosto[13], de 1932 (Autran Dourado: “Outro escritor cujo conhecimento foi decisivo para mim foi o Faulkner. Não só pela diversidade fantástica da técnica, mas sobretudo por ser ele um escritor do sul do Estados Unidos, que se parece demais com Minas Gerais. O sul de Minas Gerais e o sul dos Estados Unidos tinham a sua economia baseada no trabalho escravo e na monocultura” [14]).

Nesse livro, uma das linhas narrativas é a história de Joe Christmas, um estranho[15] que chega a Jefferson, três anos antes do início do enredo, arranjando emprego na serraria onde trabalha outro personagem importante (Byron Bunch):

“Nenhum deles sabia então onde Christmas morava e o que estava realmente fazendo… Possivelmente ninguém jamais saberia, não fosse por outro estranho, Brown[16]. Mas tão logo Brown contou, surgiu uma dúzia de homens admitindo que vinha comprando uísque[17] de Christmas há mais de dois anos, encontrando-se com ele de noite e a sós na mata atrás da velha casa de fazenda colonial a pouco mais de três quilômetros da cidade, onde vivia solitária uma solteirona de meia-idade chamada Burden” [18].

Quando Lena Grove chega à serraria e faz perguntas sobre o paradeiro do pai do seu filho a Byron Bunch, ao mesmo tempo há sinal de um grande incêndio na propriedade Burden. Bunch explica a Lena:

É uma casa velha bem grande. Está lá faz muito tempo. Ninguém vive lá, só uma senhora, sozinha. Acho que alguns nesta cidade vão dizer que é um castigo para ela, mesmo agora. Ela é ianque. A família veio para cá na Reconstrução, para incitar os negros. Dizem que ela continua metida com eles. Visita-os quando estão doentes, como se fossem brancos. Não tem cozinheira porque teria de ser uma mulher negra. Dizem que ela acha que eles são iguais aos brancos. É por isso que ninguém nunca vai lá. Só um… Ou talvez dois, pelo que ouvi…Dois sujeitos chamados Joe que vivem por lá, de certa maneira. Joe Christmas e Joe Brown…Uns dizem que eles estão vendendo uísque. Guardam escondido lá, onde aquela casa está pegando fogo.”

Então aí temos os dados principais: o fato de se comprar uísque de Christmas, mas sempre o tomar por estranho (ele é o próprio “estrangeiro” camusiano), a quizila entre a cidade e a ianque, que “gosta dos negros”. E o incêndio da casa.

Mais tarde cai a “bomba” (lançada por Brown, que foi preso e quer se safar): Christmas tem sangue negro. E isso faz a perseguição a ele (pois supostamente assassinou a srta. Burden e foi ele quem incendiou a casa) tomar outra feição.

É no capítulo 5 do livro é que começamos a entender o teor das relações entre Christmas e sua vítima:

“A casa estava invisível e escura. Nenhuma luz aparecia e nenhum som saía de seu interior quando ele se aproximou e parou embaixo da janela do quarto onde ela dormia, pensando. Se ela está dormindo também. Se ela está dormindo. As portas nunca ficavam trancadas, e era comum acontecer que a qualquer hora entre o anoitecer e a aurora que o desejo o tomasse, ele entrasse na casa e fosse ao quarto de dormir dela e caminhasse no escuro sem vacilar até a sua cama. Às vezes ela estava acordada esperando e falaria o seu nome. Outras ele a despertava com sua mão dura e brutal e às vezes a possuía dura e brutalmente antes que ela estivesse totalmente desperta.

   Isso fora há dois anos, dois anos já passados, agora, pensando Talvez a afronta esteja aí. Talvez eu ache que fui enganado, ludibriado. Que ela mentiu para mim sobre a sua idade, sobre o que acontece com as mulheres numa certa idade. Ele disse, em voz alta, solitário, na escuridão embaixo da janela escura: Ela não devia começar a rezar por mim. Ela estaria bem se não tivesse começado a rezar por mim. Não é culpa dela ter ficado tão velha a ponto de não prestar mais. Mas devia ter tido o bom senso de não rezar por mim. Ele começou a xingá-la. Ficou embaixo da janela escura, xingando-a com lenta e calculada obscenidade.”

O fio dessa história (na verdade, o relato de como ela se iniciou) é retomado no final do capítulo 10, quando Christmas, perambulando pelos arredores de Jefferson (aonde acabara de chegar), pergunta a um moleque quem mora na “casa grande” e fica sabendo que a “sinhá” Burden vive completamente sozinha.

“Uma velha, imagino.

Não, sinhô. A sinhá Burden não é velha. Também não é moça.”

Ele invade a casa para comer e é surpreendido por ela (estou resumindo muito, porém é basicamente isso):

“Assim estava, parado no centro do recinto, segurando a tigela e mastigando, quando a porta se abriu e a mulher entrou. Ela trajava um roupão desbotado e carregava uma vela, segurando-a no alto de forma que a luz lhe caía sobre o rosto: um rosto calmo, grave, absolutamente tranqüilo. Sob a tênue luz da vela ela não parecia ter muito mais que trinta. Ficou parada na porta. Eles se entreolharam por mais de um minuto, quase na mesma atitude: ele com a tigela, ela com a vela. Ele parara de mastigar agora.

–Se é apenas comida que procura, vai encontrar, disse ela, a voz calma, um pouco profunda, muito fria.”

Os dois próximos capítulos (11 e 12; o livro tem 21 ao todo) centram-se nas “fases” do relacionamento.

“Mais tarde, ela lhe disse que tinha quarenta. O que poderia significar quarenta e um ou quarenta e nove,do jeito que ela disse, pensou…

…Eles se falavam bem pouco, e isso casualmente, mesmo depois que ele se tornou o amante do seu leito de solteirona… Era como se houvesse duas pessoas: a que ele via, de vez em quando, de dia, e para a qual olhava quando conversavam com palavras que não diziam nada, pois não tentavam nem pretendiam dizer; a outra, com quem se deitava à noite e nem mesmo via ou conversava.”

Portanto, um relacionamento ritual, que separa, ao invés de unir, criando um dualismo do dia e da noite, tal como o de Juca Passarinho e Rosalina (“Um dia deu-se conta de que ela nunca o convidara a entrar propriamente na casa…E quando entrava na casa à noite, era como havia entrado naquela primeira noite; sentia-se como um ladrão, inclusive quando subia até o quarto onde ela o esperava. Mesmo um ano depois, era como se entrasse furtivamente para roubar sua virgindade de novo a cada vez.”).

Não é de se estranhar que perpasse um matiz de ressentimento, que se traduz na brutalidade das imagens a respeito da relação: “Era como se ele lutasse fisicamente com outro homem por um objeto sem nenhum valor para nenhum deles, e pelo qual lutassem apenas por uma questão de princípio; e se traduz também pela atitude de Christmas (“Vou mostrar a ela”) que o faz subir até o quarto dela na primeira vez:

“Começou a rasgar-lhe as roupas. Falava-lhe numa voz baixa, dura, tensa: Vou te mostrar! Vou te mostrar, sua puta! Ela não esboçou nenhuma resistência…”

“…No começo, aquilo o chocou: a fúria abjeta da geleira da Nova Inglaterra subitamente exposta ao fogo do inverno bíblico da Nova Inglaterra…a imperiosa e feroz urgência que ocultava um real desespero pelos anos frustrados e irrevogáveis que ela parecia tentar compensar a cada noite como se aquela pudesse ser sua última noite na terra, condenando-se para sempre ao inferno dos antepassados por viver não só em pecado mas também na depravação.”

Eu estou condensando em poucas citações muitas e muitas páginas, e é bom insistir que essa é apenas uma das muitas linhas narrativas do romance, aquela que se aproxima mais de Ópera dos Mortos: Durante essa fase (não se poderia chamar de lua-de-mel)Christmas a viu percorrer cada avatar de uma mulher apaixonada.”

Christmas quer fugir, como Juca Passarinho, mas um estranho quebranto o retém (como se ela o “corrompesse”, chega a pensar, “como um homem sendo sugado por um pântano sem fundo, eis aí um dos disfarces das voçorocas). E, é claro, ela engravida. Tenta discutir o assunto com Christmas, que fica horrorizado com a possibilidade. Mas não vai embora. Ela se propõe, então, a “salvar” Christmas, a tornar sua vida produtiva e cristã. Ele tenta se manter afastado o maior tempo possível (entretanto, “ela vinha à sua mente tão amiúde que era quase como se a visse lá na casa, paciente, esperando, inevitável, louca”). Além disso, há a presença do sócio/comparsa, Brown, falastrão e tolo (Começou a ter medo , ele que até então sentira apenas desconcerto e, talvez, pressentimento e fatalidade).

O “crime”:

“… viu os braços dela se descruzarem e a mão direita sair de baixo do xale. Ela segurava um velho revólver de ação simples quase tão comprido quanto um pequeno rifle. Mas a sombra da arma e do braço e da mão da mulher na parede não tremia, a sombra monstruosa, o monstruoso percussor armado, curvado para trás e perigosamente suspenso como a cabeça arqueada de uma cobra; não tremia  de jeito nenhum. Os olhos da mulher também não tremiam de jeito nenhum. Imóveis como a mira circular escura da boca da pistola. Mas não havia calor neles, nem fúria. Calmos e parados como toda piedade e todo desespero e toda convicção. Ele não olhava para eles, porém. Olhava a sombra da pistola na parede; estava olhando quando a sombra armada do percussor disparou.”

   Bem, o resto… só lendo o livro todo. Voltemos a Duas Pontes.

“A Cantiga de Rosalina, último capítulo de Ópera dos Mortos, se inicia com a triunfante afirmação do narrador-coro:

“De repente a gente voltava ao sobrado. Atravessávamos finalmente a ponte, o sobrado abria as portas para nós. Era como das outras vezes, quando dona Genú morreu, quando o coronel João Capistrano Honório Cota se foi para sempre. Naquela casa tudo tendia a se repetir.”

O filho de Rosalina com Juca Passarinho nasceu, foi morto por Quiquina, que o deu ao pai para que se livrasse do corpo (e ele o fez, enterrando-o nas voçorocas). Juca se escafede de Duas Pontes, e ninguém ficaria sabendo desses acontecimentos se Rosalina não desandasse a andar pelo cemitério, entoando uma incompreensível cantiga. Pois ela perdeu a virgindade, desonrou a casa e a memória dos mortos, por isso permitiu que a cidade invadisse o sobrado, devassasse a sua intimidade.

Já se aludi nas aulas anteriores ao conceito de imitativo elevado,

“modo da literatura no qual, como na maior parte das epopéias e tragédias, as personagens fundamentais estão acima do nosso plano e autoridade, embora dentro da ordem da natureza e sujeitas à crítica social”.

A entrada do povo de Duas Pontes para ver o que as autoridades decidem sobre o destino de Rosalina (e toda a comédia de poder e de costumes decorrente da caracterização dessas autoridades) ganha um caráter de profanação, no sentido do carnavalesco aventado por Mikhail Bakhtin[19], na sua famosa obra sobre Dostoiévski.

“Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa…A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café. Se a coisa demorasse mais, se Seu Emanuel não desse logo a ordem do cortejo, iam acabar limpando a casa, já tinha gente mirando o patecão de ouro.”

É aí que Rosalina faz sua aparição final, teatral ao extremo, meio noiva, meio rainha. E todos se sentindo “como se estivessem numa cerimônia”.

É curioso que nessa “cerimônia” se fale do juiz, do promotor, do delegado, até do coronel Sigismundo, como autoridades locais que são, e não haja nenhuma menção a um padre, como não há, aliás, no livro inteiro. E se há uma figura recorrente nas histórias interioranas (e inclusive em outras histórias de Autran Dourado) é o padre católico. Se ele não aparece nas páginas de Ópera dos Mortos com certeza foi intencional. Era desejo do autor manter o livro no âmbito trágico, da hybris, e a presença mais que natural de um padre (que com certeza visitaria Rosalina, seria seu confessor, mesmo com o isolamento dela com relação ao resto da cidade) teve de ser suprimida para a coerência interna da história e o efeito pretendido, que é sintetizado assim em Uma poética de romance: matéria de carpintaria:

“Pense-se no livro como tragédia, mais do que como romance, e se terá uma melhor leitura”.

Consciente de um realismo mítico, ou simbólico, Dourado utilizou clara e inequivocamente, ainda que da forma literariamente mais moderna possível, o arquétipo de Antígona (“um livro mítico, ritual).

————————

[1] Rosalina é vigiada pelos retratos do pai e do avô. Na casa de Thomas Sutpen, há uma pedra tumular (encomendada por ele e carregada pelos seus soldados durante a guerra) encostada na parede de um corredor (é para o túmulo dele, que ele desejava suntuoso). A srta. Coldfield, que vive ali nos anos de guerra (e até a ultrajante proposta de casamento),  “olhava-a todo dia como se fosse o retrato dele. É mole? Olhar a pedra tumular de alguém como se fosse o retrato da pessoa, acho que é o ponto alto do tipo de pessoa que estamos estudando. Outra coisa que aproxima Rosa e Rosalina: a soberba com relação à cidade. Não que Rosalina passe as mesmas necessidades, já que é rica (ainda que Quiquina venda suas flores de pano e de seda para os habitantes de Duas Pontes), mas o que as aproxima é o distanciamento voluntário. Rosa Coldfield é ultrajada por Thomas Sutpen, vai embora da propriedade dele, e volta para sua casa, arruinada pela guerra, numa cidade empobrecida, esfomeada, na qual ela é uma mulher sozinha, pobre e sem homem que lhe valha. Veja-se sua atitude com seus conterrâneos:

“Eram os mesmos vizinhos que, à noite, deixavam cestas com pratos de comida sobre os degraus, bandejas (os pratos cobertos com guardanapos) que ela nunca lavava, devolvendo-os sujos para as cestas vazias e colocando as cestas de volta no mesmo degrau onde as encontrara. Ela fazia isso, talvez, para apagar completamente a ilusão de ter aceitado a comida, de tê-la tocado, esvaziado os pratos, como se não tivesse saído e apanhado a cesta com um ar sem desafio ou dissimulação, ela que, sem dúvida, experimentava a comida e criticava a qualidade ou ponto do cozimento, mastigava e engolia, sentindo a sua ingestão, mas que ainda se prendia àquela ilusão, àquela tranqüila e incorrigível insistência em fazer de conta que toda aquela evidência não existia, como só as mulheres conseguem; a mesma auto-ilusão que se negou a admitir que nada sobrara da loja, que ele era qualquer coisa, menos completamente pobre.”

Uma atitude similar é a de Rosalina, não querendo tomar conhecimento da evidência da sua gravidez, agindo como se ela não existisse, não estivesse acontecendo.

[2] Ou seja, muito parecido com Thomas Sutpen

[3] Esse avô é o pai de Isaltina, a mãe de João Capistrano, de uma família de Diamantina, com muito prestígio na época do Ouro e no Império, apesar de empobrecidos.

[4] Juca Passarinho é caracterizado como caçador,  um caçador “sem munição”, no início da história.

[5] Aqui já fica insinuado o “dualismo” (ou mesmo multiplicidade) de Rosalina, “um ajuntamento de muitas Rosalinas numa só Rosalina” ; para Juca, “ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa… procurava botar em ordem as idéias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina, uma dona Rosalina impossível de ser, que são similares à construção do sobrado; na verdade, ela é o sobrado.

[6] Ópera dos mortos é uma narrativa onde a repetição é muito importante. Tanto que o livro, a princípio, ia se chamar Relógios de repetição.

[7] Este fez uma afirmação muito bonita (e célebre) sobre seus livros:

“Descobri que o meu pedacinho de terra natal também servia de tema e que eu nunca poderia esperar viver o tempo suficiente para esgotar este assunto. Substituindo a realidade pelo apócrifo teria eu possibilidade de utilizar ao máximo o talento existente. Essa descoberta abriu uma mina de ouro em forma de pessoas e assim criei um cosmo próprio. Posso movimentar essa gente como se fosse Deus, não apenas no espaço, como também no tempo… Gosto de pensar que o mundo que criei é uma pedra fundamental no universo, a qual, embora pequena, causaria o colapso do universo se fosse removida.”

[8] Pai de Francisco Fernandes Coutinho (o trecho acima é de Monte da Alegria)

[9] Ainda um trecho de Monte da Alegria. De Lucas Procópio é a máxima:” Depois do Século do Ouro, nada de bom surgiu nas Minas Gerais.”

[10] Já esse trecho é de Lucas Procópio.

[11] Nesse trecho, que é de Um cavalheiro de antigamente, utiliza-se uma formulação bem parecida com a usada em Ópera dos mortos. Autran Dourado gosta de manter a unidade da sua obra, quer o leitor perceba ou não.

[12] Esse episódio é retomado da seguinte forma em Um cavalheiro de antigamente:

“Foi no Ponto que um dia a gente viu uma coisa espantosa. Quando, ao sair do banco, o coronel Lucas Procópio se deteve para falar com alguém sobre um negócio qualquer, de repente apareceu um preto retinto, gritou Pedro Chaves, e deu um tiro no ombro dele. Mesmo ferido, o coronel sacou o revólver o matou com dois tiros. Quem era, perguntaram. Não sei, um preto qualquer que deve ter me tomado por alguém que não sou, ele falou. O coronel não chegou nem ao menos a ser indiciado, nem inquérito o delegado abriu..”.

E ao longo do livro não há explicação para o episódio. É preciso juntar o quebra-cabeça lendo todos os livros, como muita coisa em Faulkner. EUm cavalheiro de antigamente é sobre João Capistrano. E começa assim:

“A mais recuada e brumosa visão que João Capistrano tinha da sua infância (ele fez tudo para esquecê-la e até certo ponto conseguiu era a de um homem grande, forte e espadaúdo, de sobrancelhas grossas espetadas feito taturana, a barba comprida, as botas sujas de barro, vibrando um chicote no ar, descendo-o sobre sua mãe. Esse homem era seu pai, Lucas Procópio Honório Cota.”

Depois que fica sabendo, ao longo do livro, do adultério da mãe, lemos:

Daquele dia em diante João Capistrano começou, com a paciência com que uma aranha tece a sua teia, a reconstruir o ídolo quebrado, a imagem partida que a mãe e ele fizeram de Lucas Procópio Honório Cota. E todos viam premonição e simbolismo em tudo. Assim foi quando João Capistrano resolveu dar um novo túmulo ao pai, condigno com a sua importância e posição, grande e homem e senhor que a mãe e ele inventaram. Mandou vir de São Paulo dois túmulos e demais complementos em mármore Carrara. Um para o pai, simples, apenas uma cruz e uma lápide com a inscrição “Lucas Procópio Honório Cota, coronel da Guarda Nacional, homem de bem”, seguida da data de nascimento e da sua morte. O segundo era mais difícil de explicar; o de Isaltina Honório Cota: ela ainda estava viva.. Quando lhe perguntaram a razão do segundo, ele disse, seco e perempto, foi pra economizar carreto. Do que todos duvidaram muito. Era um belo túmulo de mármore branco, com um grande anjo de asas abertas. Na lápide ele tinha mandado gravar o nome Isaltina Sales Honório Cota, a data do seu nascimento, deixando para mais tarde o dia da sua morte. Abaixo do nome da mãe e da data de nascimento, em letras graúdas: ANJO DE BONDADE E PUREZA.”

[13] Esse título vem do fato de Lena Grove, a personagem que coloca em movimento a engrenagem do enredo, estar grávida de nove meses e prestes a dar à luz.

[14] É um depoimento que se encontra num livro dedicado a ele, Autran, organizado por Eneida Maria de Souza e publicado pela UFMG em 1996 na Coleção Encontro com Escritores Mineiros.

[15] Como Juca Passarinho chegando a Duas Pontes.

[16] O cara que engravidou Lena, mas que para ela era Lucas Burch.

[17] É bom lembrar que estamos na Lei Seca e é uma atividade ilegal.

[18] Que está para a cidade de Jefferson como Rosalina para Duas Pontes, de certa forma.

[19] No conceito de carnavalização, que representa a base conceitual de alguns livros de Bakhtin, como Problemas da Poética de Dostoiévski ou Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, por exemplo, ou mais teoricamente, em Questões de Estética e de Literatura (livros esses altamente recomendáveis), aplica-se ao literário quatro elementos constituintes do carnaval enquanto fenômeno social:

1)  o livre contato familiar entre os homens (ou seja, a provisória queda das barreiras hierárquicas);

2)  a excentricidade;

3)  as combinações;

4)  a profanação

O espaço vira “praça pública” (que é o que acontece, de certa forma, ao sobrado dos Honório Cota)e no qual são esquecidos os afazeres e obrigações cotidianas. Mais tarde, em Novelário de Donga Novais, entre as várias caracterizações da personagem-título (que em Ópera dos Mortos, por nunca dormir, é quem revela aos cidadãos de Duas Pontes, mas primeiro a Seu Emanuel, por questões de hierarquia social, ser Rosalina a aparição no cemitério), lemos que ele é “ao mesmo tempo elefante e dono do circo, comandante da pantomima”. Podemos ser diretores,mas sempre somos participantes do Grande Teatro do Mundo.

06/07/2012

A pulp fiction de Faulkner: “Lance Mortal” (“Knight´s Gambit”)

(resenha originalmente publicada—sem a citação inicial e as notas de rodapé—em  A TRIBUNA, de Santos, em 03 de julho de 2012)

“Como promotor  do condado, ele nada tinha a fazer ali, mesmo que não tivesse sido um acidente.  Sabia disso. Ia olhar o rosto do homem morto por uma razão sentimental. O que era agora o condado de Yoknapatawpha fora fundado não por um único pioneiro, mas por três ao mesmo tempo. Eles vieram juntos a cavalo, através do desfiladeiro Cumberland, das  Carolinas, quando Jefferson ainda era um posto da Agência Chicasaw, e compraram terra na área indígena e estabeleceram famílias e prosperaram e desapareceram, e agora, cem anos depois, havia no condado que eles ajudaram a fundar um único representante desses três nomes.

   E ele era Stevens, porque o último da família Holston falecera antes do final do século passado, e Louis Grenier, cujo rosto morto Stevens estava dirigindo 12 quilômetros no calor de uma tarde de julho para ver de perto, nunca soube que era Louis Grenier.  Ele não podia nem soletrar Lonnie Grinnup como ele mesmo se chamava…”

(trecho de Mãos sobre as águas)

No dia 6 deste mês faz 50 anos que William Faulkner morreu. Dos vários títulos da sua obra que a Editora Benvirá acaba de lançar, o único ainda inédito por aqui é Lance Mortal, coletânea de cinco contos e um pequeno romance, publicada originalmente em 1949, no momento em que o mais genial dos ficcionistas norte-americanos (e, na minha opinião, o maior escritor do século XX, junto com Thomas Mann) ganhava o prêmio Nobel.

Mais uma vez, como acontece amiúde com Faulkner no Brasil, o título original (Knight´s Gambit, “Gambito do cavalo”, clássico ardil do jogo de xadrez) foi inoportunamente alterado; mais uma vez foram veiculadas informações errôneas (na contracapa, afirma-se que Gavin Stevens, o protagonista das histórias, é “advogado de defesa de uma pequena cidade do interior”; na verdade, ele é o promotor, como se pode confirmar na citação acima); e mais uma vez, apesar de sua respeitabilidade, a versão de Wladir Dupont (tradutor de vários outros livros do criador da mítica região de Yoknapatawpha, simbolizando o Sul dos EUA: Enquanto agonizo, O povoado, A cidade, A mansão, Os invictos) deixa muito a desejar e embota o brilho faulkneriano com soluções desanimadoras[1].

Nem por isso o leitor brasileiro deixará de ter prazer pelo menos com os enredos fabulosos e intrigantes dos seis relatos. Faulkner sempre gostou de publicar conjuntos de histórias que poderiam até ser tomados como um romance por conta de algum forte elemento unificador. No caso, esse papel cabe a Stevens (na maior parte das vezes, visto obliquamente por seu sobrinho), porta-voz dos valores mais profundos e sólidos do Deep South e do próprio Faulkner: fatalista, mas nunca cínico; desiludido com o empedernimento da natureza humana, mas nunca indiferente.[2]

Sua atuação como promotor explica o flerte que o livro faz com o gênero policial. Há todos os ingredientes da chamada pulp fiction: sexo, cobiça, triângulos amorosos fatais, gangsterismo, psicopatia, o que faz a diferença é a maneira sinuosa com que tudo é contado. Como Henry James, seu compatriota mais ilustre na área da ficção, Faulkner tem horror a contar de forma direta, e tudo fica alusivo: o que é importante ocorre nos bastidores e parece que mais se faz uma exegese dos acontecimentos do que se narra[3].

A melhor história é Amanhã (no original, Tomorrow), onde Stevens quer saber por que um único jurado apenas não votou pela absolvição de um pai que matara o sedutor da filha. Assim, ele procura os vizinhos do renitente cidadão e vai montando o quebra-cabeça do voto contra. É um momento magistral da arte falkneriana.

Também adoro Fumaça (no original, Smoke)[4] e Um erro de química (no original, Na error in chemistry), onde truques à Perry Mason no tribunal ou à Agatha Christie (personagens disfarçados que enganam todo mundo) auferem um clima teatral  aos enredos mirabolantes. Os dois envolvem uma ganância lenta e paciente, cultivada entre os labregos sulistas, e são quase bíblicos ao retratar as relações de parentesco ou casamento.

Monk e Mãos sobre as águas (no original, Hand upon the Waters) também não poderiam ser de outro escritor, são imediatamente reconhecíveis como faulknerianos em seu mergulho na mentalidade capiau e sonsa de criminosos de Yoknapatawpha (na sua dupla representação do Mississipi e também do cosmo).

A decepção acaba sendo o texto-título. A primeira parte, ainda que um pouco decalcada (para pior) dos temas da obra-prima Absalão, Absalão! (com a família poderosa, enredada em relações meio incestuosas) é mais interessante. Depois, o relato mistura coisas demais (a associação da paixão por cavalos e os lances do xadrez[5], ilusões da juventude[6], o fascínio da guerra, visão sentenciosa da existência[7]), para descambar num final tão esquisitamente “positivo”, que nos faz crer que Faulkner estava brincando com seus leitores, no deleite de contrariar suas expectativas. É difícil imaginar Gavin Stevens feliz e realizado, num universo de solidão em que a sua amizade com o delegado do condado é caracterizada da seguinte forma: “…sempre foram amigos. Quero dizer, amigos no sentido em que dois homens que jogam xadrez são amigos, embora às vezes seus objetivos sejam diametralmente opostos”.


[1] Quando não difíceis de acompanhar, talvez por falta de uma revisão efetiva. Veja-se o seguinte trecho: “…seu instinto era parar, evitar a evasão, qualquer coisa para não violar aquela interdição, aquela hora, aquele ritual da Tradução, à qual toda a família se referia com T maiúsculo—a transposição do Antigo Testamento ao grego clássico ao qual fora traduzido dos primórdios perdidos do hebreu…”

[2] Um trecho esclarecedor:

__ Estou interessado na verdade, disse o delegado.

__ Eu também, concordou tio Gavin. É tão raro. Mas estou mais interessado em justiça e seres humanos.

__ E verdade e justiça não são a mesma coisa?, perguntou o delegado.

__ Desde quando?, replicou tio Gavin. Em minha vida tenho visto, sob a luz do sol, verdades que eram tudo menos justas, e tenho visto a justiça usando ferramentas e instrumentos que eu não tocaria com um gradil de três metros”….

[3] “E havia algo mais: um apêndice, ou de todo modo, um prolongamento; uma lenda dentro ou além da lenda autêntica ou original ou inicial; o apócrifo do apócrifo. Ele não apenas podia lembrar se ouvira da mãe ou de sua avó,  como não lembrava se sua mãe ou sua avó teriam visto ou sabido de primeira mão, ou se elas teriam ouvido de alguém mais. Era alguma coisa sobre um envolvimento anterior, de antes do casamento: um noivado, um compromisso, com (assim rezava a lenda) o consentimento formal do pai, depois quebrado, rompido, falado [sic]—alguma coisa—antes que o homem com quem ela se casaria entrasse em cena—o noivado formal de acordo com a lenda, mas tão nebuloso que mesmo vinte anos depois, com vinte anos de fofocas nas varandas pelas, como seu tio chamava, tias solteironas do condado de Yoknapatawpha de ambos os sexos, lançando um manto romântico sobre os ombros de cada varão com menos de sessenta anos que jamais bebera ou comprara um fardo de algodão do pai dela…” Este trecho é uma prova cabal de como Faulkner sobrevive à tradução menos vívida e à falta de revisão.

[4] Esta primeira história do livro já havia sido publicada em outra coletânea, da década anterior: Doctor Martino and other stories (Doutor Martino e outras histórias), 1934, ainda inédito no Brasil.

[5] O uso do cavalo para a consumação de um crime tem a participação do Sr. McCallum, que, se minha memória não me engana, aparece também em Sartoris (1929), o primeiro livro da saga Yoknapatawpha, numa cena de bebedeira com o sempre desmedido e desesperado Bayard Sartoris, do qual era companheiro de caçada na meninice.

[6] Por parte de Chick, o sobrinho de Gavin  Stevens, aliás, um dos protagonistas de O intruso (Intruder in the dust), lançado no ano anterior. A Benvirá relançou a  bela tradução de Leonardo Fróes.

[7] “Nada por meio do qual toda paixão humana e esperança e loucura possa se refletir no espelho e depois ser provado jamais foi apenas um jogo…”

05/07/2012

O labirinto do puritanismo e seus minotauros: LUZ EM AGOSTO, de Faulkner

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2007)

A CosacNaify lançou nova tradução brasileira (de Celso Mauro Paciornik), após muito tempo (havia uma tradução de Berenice Xavier, que chegou a ser publicada com o título errado de Luz de agosto), de Luz em agosto (Light in August, 1932), no qual William Faulkner teve a ousadia de penetrar no coração do puritanismo norte-americano e que acabou sendo o mais poderoso romance do século XX, junto com A montanha mágica, de Thomas Mann, com sua visão cósmica da questão: parece que o próprio universo é puritano, de uma forma que só resta a Deus, no que ele pode ser associado a amor, benevolência e quaisquer outros atributos generosos, ficar de fora e deixar que os seres humanos se virem.

Joe Christmas fabrica bebida clandestinamente e assassina uma velha solteirona, de quem fora amante por algum tempo. O item que causa horror e que o faz ser perseguido encarniçadamente no coração de Yoknapatawapha (o condado do Mississipi inventado por Faulkner) é a descoberta de que ele, apesar da pele branca, tem sangue negro. Brown, seu desprezível cúmplice, interrogado e pressionado, deixa vazar a informação com o intuito de se safar. A “negritude” encoberta de Christmas mesmeriza a comunidade.

Acontece que na mesma ocasião, está chegando do Alabama (e prestes a dar à luz, daí uma das possibilidades de interpretação do título) a jovem Lena Grove, engravidada por Brown, o assecla-delator de Christmas. Ele, na época, era conhecido como Lucas Burch e prometera mandá-la buscar, o que jamais  pretendera cumprir, não imaginando a tenacidade estúpida, contudo comovente, de Lena, que representa um pouco a teimosia da espécie humana em prosseguir, apesar do absurdo da existência (não é à toa que Albert Camus admirava tanto Faulkner). Por uma confusão fonética, Lena chega a Byron Bunch (talvez o maior personagem faulkneriano), um daqueles impotentes defensores de uma espécie de honra cavalheiresca típica do Sul. Ele apaixona-se por Lena e ao mesmo tempo coloca-a na pista de Brown (mais tarde, rememorando a cena, diz: “Eu achava que se houvesse um lugar onde um homem podia estar a salvo da possibilidade de fazer mal a alguém, seria lá, na serraria, numa tarde de sábado”).

E caso o leitor não tenha achado suficiente, há ainda o interlocutor de Bunch, o reverendo protestante Gail Hightower, abandonado por sua congregação  devido à vida e à morte escandalosas de sua esposa e também por sua insólita obsessão com um episódio da Guerra de Secessão ocorrido com seu avô,  simbolizando o Deep South  paralisado pela derrota, engessado pelo passado.

Acrescente-se a essas situações e personagens, as imagens incríveis engendradas pela prosa de Faulkner, o seu inigualável gênio narrativo (fazendo os fatos emergirem de forma interposta, através de conversas ou pela “voz do povo”), além da sua perturbadora mistura de atavismo, pessimismo eclesiástico quanto à condição humana (uma das muitas formas da ressonância bíblica na linguagem do maior dos escritores de ficção, junto com Thomas Mann), fatalismo, regionalismo, e assim obtém-se  uma obra-prima suprema que logo teria companheira: o igualmente avassalador Absalão! Absalão! (1936), cuja reedição no Brasil, espera-se, é iminente. Neste último, Faulkner coloca-se como “dono e proprietário” do seu universo (Yoknapatawpha), num mapa no final do livro. E ele é tão real e imponente que, se Deus aparecer por lá, reivindicando seus direitos demiúrgicos, terá que fazer o recomendado por Riobaldo em Grande Sertão: veredas: que vá armado!

04/07/2012

MAR DE HISTÓRIAS: O apogeu criativo de Faulkner

Publicado em 1940, O POVOADO   (The Hamlet) pertence ao apogeu criativo de William Faulkner (1897-1962), autor que divide o topo do meu panteão pessoal junto com Thomas Mann. É um romance formado por várias historietas. Começa com a aparição dos Snopes, um clã estranho (todos se parecem) e predatório, num vilarejo do Mississipi dominado pela família Varner. O mal snopes vai alastrando-se e corroendo os antigos valores sulistas, impondo à economia e às relações humanas da região um incipiente capitalismo selvagem.

É difícil dizer qual das histórias que compõem O POVOADO é mais absorvente, mais bem armada, mais bem escrita: se a história da obsessão de Ab Snopes por cavalos, se a da fascinação sexual exercida pela opulenta Eula Varner no seu professor e num grupo de rapazes (cujo desfecho será o casamento dela com Flem Snopes, o gerador do mal snopes), se a do Snopes retardado, Ike, que se apaixona por uma vaca e a rapta, se a do casamento inevitável de Houston, do qual ele tentou fugir por treze anos, se a do seu assassinato por Mink Snopes, se a luta de vontades entre Mink e o primo por causa do dinheiro no cadáver de Houston, se a do julgamento de Mink, o qual aguarda inutilmente a intervenção de Flem, se a da patética insistência de Henry Armstid em comprar um cavalo num enervante leilão que se arrasta por um dia inteiro e que culminará em fuga dos eqüinos (essa parte, de fato, é a mais famosa do romance e é amiúde publicada à parte, com o título “Cavalos malhados”), se a da destrambelhada e quase irreal  busca pelo tesouro da Casa do Francês (que pertence a Flem Snopes), empreendida por Armstid, Bookwright e Ratliff. Este último é uma espécie de porta-voz dos valores  do deep South:

    “Ele morava em Jefferson e percorria boa parte dos quatro condados…vendia talvez três ou quatro máquinas por ano, o resto do tempo passava comercializando terras,gado, ferramentas agrícolas de segunda mão e instrumentos musicais, ou qualquer outra coisa que os donos já não quisessem mais, relatando de casa em casa, com a eficiência de um diário, as notícias dos quatro condados… além de levar, com a pontualidade de um jornal, mensagens pessoais sobre casamentos e enterros, e receitas para fazer conservas de frutas e verduras. Ele nunca esquecia um nome e conhecia todo mundo, homem, mula e cachorro, num raio de oitenta quilômetros”.

Compassivo e fatalista, cínico e matreiro, Ratliff serve de costura para a narrativa, contando e ouvindo o mar de histórias da região, em diálogos maravilhosos.

Se não se pode apontar qual a melhor história, pode-se, entretanto, afirmar que a mais transfigurada pelo lirismo é a da paixão do débil mental pela vaca. Que outro autor seria capaz de tascar numa vaca o epíteto de virgem meditativa, mantendo-se no precário fio da poesia pura, sem se esborrachar no ridículo que ameaça lá em baixo?

No mais, além dos enredos intrincados, contados de maneira magistral e sempre inusitada, O POVOADO destaca-se na série de obras-primas de Faulkner (Luz em agosto; Absalão!Absalão!; Enquanto agonizo; Pantalão Negro; O som e a fúria) pelo humor que ilumina o livro de ponta a ponta, dando sabor à densa massa que configura a invasão do povoado e da região pelos Snopes. Até mesmo a tradução meio sem-graça de Wladir Dupont (a versão portuguesa, feita por Jorge Sampaio, é muito mais vívida, acredite se quiser, leitor) deixa entrever que o povoado dominado pelo algodão (“o ar tórrido, que parecia estar impregnado do ranger cansado e lento das carroças carregadas, cheirava a algodão; tiras de algodão se enroscavam na vegetação endurecida pelo pó, à beira da estrada, ou então se podiam ver na terra, esmagadas por cascos e rodas), rústico, perdido no Mississipi, no final do século XIX e começo do XX, é a região  onde o leitor encontrará a melhor ficção já escrita.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 20 de maio de 1997, e aqui ligeiramente modificada)

2 de junho de 1910: o centenário do suicídio de Quentin Compson

“O fato de eu ter conseguido movimentar os meus personagens no tempo com sucesso prova, pelo menos para mim, que a minha teoria, no sentido de que o tempo é uma  condição fluida que não tem existência a não ser momentaneamente em manifestações individuais, está correta. Foi não existe, existe apenas é. Se foi existisse, não haveria dor ou tristeza…”

                                 (William Faulkner)

“…você não pode fazer nada nós somos malditos não é culpa nossa será que a culpa é nossa…” (William Faulkner, O SOM E A FÚRIA)

“Life´s but a walking shadow, a poor player

Tha struts and frets his hours upon the stage,

Ant then is heard no more; it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”  (William Shakespeare, Macbeth)

2 de junho de 1910. Essa data aparece no início da segunda das quatro partes que compunham originalmente O SOM E A FÚRIA (The sound and the fury 1929, e pensar que ele tinha apenas 32 anos quando o livro foi publicado!), e que foram acrescidas anos mais tarde com um “Apêndice”.

E a segunda parte do livro é justamente o último dia de vida de Quentin Compson. Aí vemos exercitar-se a técnica chamada stream of counsciousness, o fluxo de consciência. Será um dia, o derradeiro, mas será um dia de todos os dias, um dia no qual  caleidoscopicamente se agregam cenas, recordações, associações, assim como Joyce praticou em Ulisses e Virginia Woolf em Mrs. Dalloway & Ao farol.

Para o leitor da época (e para muitos ainda hoje, apesar da água que passou por debaixo da ponte), O SOM E A FÚRIA devia causar uma estranheza total: a primeira parte também se baseia na técnica do fluxo de consciência, mas ainda tem a complicação de ser a mente de um deficiente mental, Benjy (na verdade, era Maury, mas trocaram o nome), o irmão caçula de Quentin (há mais dois, Jason e Candance, isto é, Caddy). A mente de Benjy é perfeita para a anulação do tempo e fazer o é predominar sobre o foi. Tanto que a narrativa começa com sua angústia ao ouvir um jogador de golfe (num campo que era o “seu pasto”, no qual gostava de passear, e que foi vendido) chamando o seu caddie (o fâmulo do golfe), por associação trazendo à sua mente a irmã, Caddy, que devido às suas transgressões sexuais teve de se afastar (engravidou de um, casou com outro, o qual descobriu a trapaça e anulou o casamento). Além dessa associação, caddie-Caddy, há dois Jasons na narrativa (o pai e o filho-vilão, por assim dizer) e duas personagens chamadas Quentin (o irmão suicida e a filha ilegítima de Caddy, que será criada sem amor, assim como Benjy, pela avó, pelo tio e, ao fim e ao cabo, pela criada negra, Dilsey, a verdadeira mãe da família).

O centro dramático da parte dessa primeira parte (no dia 7 de abril de 1928,aniversário do personagem, que faz 33 anos, com idade mental de 3), além do pungente desamparo da condição de Benjy, é sem dúvida a cena (em 1898) em que as crianças Compson (uma das várias famílias sulistas ilustres que foram decaindo a partir da derrota infligida pela Guerra de Secessão) tentam espreitar o velório da avó: nesse mundo “edênico”, onde a família ainda possui propriedades e distinção, antes de se consumar a derrocada, a morte parece ser proibida e os adultos não informam as crianças que a avó doente (que mimava especialmente Jason e o deixava dormir com ela) morreu. Caddy então sobe numa árvore para ver o que se passa na casa, e os outros têm a visão das suas calcinhas enlameadas (porque estavam brincando perto do rio). Faulkner mesmo afirmou que seu quarto romance (os anteriores foram Pagamento de soldado, Mosquitos & Sartoris) “começou com um quadro mental… representava os lamacentos fundilhos das calcinhas de uma menina em uma árvore, da qual ela podia ver, através de uma janela, onde o funeral de sua avó estava sendo realizado”. Essa imagem também é a de Caddy cristalizada na mente de Benjy: sempre menina, sempre protetora e destemida com relação a ele, sempre “cheirando a árvore” (tanto que quando ela coloca perfume, ele não reconhece seu cheiro e começa a berrar e chorar; aliás, o choro e o berro recorrentes de Benjy são frisados de uma maneira angustiante na narrativa). E na mente dele, a visão da menina descendo a árvore às escondidas (na verdade, trata-se da sobrinha, Quentin, que está escapulindo da casa) faz com que ele a confunda com a irmã, que há muito cresceu e se afastou. Como diz Frederic J. Hoffman no seu estudo sobre a obra faulkneriana, “as limitações absolutas da capacidade de Benjy de separar uma coisa da outra, um tempo do outro, significam que estamos num mundo fixo fora do tempo e de mudanças… Benjy é incapaz de ver Caddy como uma pessoa que mudará, envelhecerá e existirá de acordo com o tempo. De certa forma, Benjy deseja um mundo simples, o mundo mais ou menos fixado quando ele tinha três anos de idade…”

Além disso, a imagem das “calcinhas enlameadas” aponta para a nódoa, a mancha, a marca sexual que pesa sobre Caddy, e que será o tema da segunda parte, em que Quentin, que foi para Harvard, não consegue se conformar com a perda da virgindade da irmã (ele mesmo continua virgem) pela qual tem um sentimento incestuoso. Também há algo a evocar obsessivamente Caddy para Quentin: é o cheiro das madressilvas, que se ligam à idéia de sexo, um cheiro sexual que o persegue nesse dia de perambulações (“e ondas de madressilva subindo no ar”), onde ele encontrará uma menininha suja (envolvendo-se numa situação equívoca, pois o pai, um imigrante italiano, o agride e o denúncia às autoridades policiais nas imediações de Cambridge, afirmando que ele tentara raptá-la; na verdade, ele comprara uns pães doces para a menina miserável e ela o seguira por toda parte; com o que sabemos hoje da preferência de Faulkner por lolitas, pelo que sabemos do passado de Quentin com Caddy, nós podemos dizer que o “equívoco”, já que nada acontece, não deixa de conter as possibilidades sexuais imagináveis, mesmo porque o tempo todo Quentin chama a menina de “maninha”). A desgraça de Quentin foi saber que a irmã deixou de ser virgem. Ele ainda tenta confrontar o sedutor, Dalton Ames, mas faz um papel ridículo e ainda tem de ouvir:

“olha não faz sentido levar a coisa tão a sério você não tem culpa garote se não fosse eu seria outro qualquer

você já teve irmã já

não mas são todas umas vagabundas”

Quentin ainda tenta fazer um pacto de suicídio com a irmã, que não leva a cabo, e tenta fazer dos dois seres marcados, contando ao pai de possíveis relações incestuosas, mas nada consegue. E vai para Harvard para viver esse dia, agora centenário, em que tem de enfrentar o Tempo (simbolizado pelo relógio do avô que ganhara e o qual quebra, mas que continua a tiquetaquear mesmo sem os ponteiros: ou seja, não há horas, não há cronologia, mas apenas o Tempo puro): “Era o relógio do meu avô, e quando ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo… Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste seu fôlego tentando conquistá-lo.”

Se Benjy é percepção, Quentin é concepção. O perceptivo e o conceitual exigem a mesma coisa: que Caddy não mude, que a família permaneça naquele estado “edênico” de prosperidade, com seus pastos, suas plantações, seus negros, sua grande casa. Concordo com Hoffman, quando ele diz: “Quando o paraíso do mundo da sua infância falha, Quentin tenta converter o pecado de Caddy em incesto para contê-lo dentro de um mundo fixo que ele pode controlar. Ele mudará um paraíso para um inferno, para que seja seu próprio”.

    No “Apêndice” que Faulkner escreveu anos depois, lemos a respeito de Quentin: “…amava não o corpo da irmã, e sim algum conceito de honra dos Compson sustentado de modo precário e (como ele bem sabia) apenas provisório pela membrana mínima e frágil de seu hímen, tal como uma réplica em miniatura do imenso globo terrestre se equilibra no focinho de uma foca treiada… amava a idéia do incesto que não viria a cometer e sim algum conceito presbiteriano de castigo eterno: ele, e não Deus, desse modo lograva lançar-se a si próprio e a irmã no inferno, onde poderia protegê-la para sempre e mantê-la intacta para todo sempre em meio ao fogo eterno”.É mole?

O CENTENÁRIO DE UMA DATA –MARCO DA FICÇÃO

Amanhã, uma das datas mais célebres da literatura mundial se torna centenária: em 2 de junho de 1910, Quentin Compson, um dos personagens do clássico O som e a fúria (The sound and the fury, 1929, em tradução de Paulo Henriques Britto para a CosacNaify), ainda a obra mais conhecida de William Faulkner aqui no Brasil, se suicidou na Universidade de Cambridge, incapaz de continuar carregando em seu íntimo o fardo de decadência e derrotismo fatalista do “Deep South” em geral e da sua família em particular.

Com Sartoris, seu romance anterior, Faulkner nos apresentava o condado de Yoknapatawpha, no Mississipi, que delimitará sua ficção subsequente, com raras exceções, e que será detalhado num publicado em Absalão, Absalão!, de cuja trama Quentin é o confidente e depositário, e que termina com a citadíssima afirmação do futuro suicida: “Eu não odeio o Sul!”. Foi, contudo, com O som e a fúria que o genial escritor norte-americano tornou esse universo fictício uma referência tão absoluta quanto a Comédia Humana de Balzac. Dividido em quatro partes, retrata o empobrecimento e degeneração de uma típica e tradicional família sulista, daquelas que tiveram seu apogeu durante o regime escravocrata e com o comércio de algodão, antes da ruína trazida pela Guerra de Secessão.

Boa parte da dificuldade do livro se deve ao fato de que, nas duas primeiras partes, Faulkner adota como foco narrativo o fluxo de pensamentos de um deficiente mental, Benjy, e de Quentin no dia da sua morte… Assim, conhecemos os fatos passados de uma forma retorcida e alógica, e a cronologia aparece toda emaranhada. O ponto central é o comportamento transgressor de Caddy Compson. Para se ter uma ideia do jogo que é feito com o leitor, Benjy, o caçula da família, lembra-se da irmã fugitiva em meio a um jogo de golfe, onde quem ajuda os jogadores são os caddies, e daí a associação. Outra complicação: a filha de Caddy tem o mesmo nome do tio que se mata, Quentin.

A meu ver, O som e a fúria alcança realmente a grandeza na terceira parte (na qual parece recair na narrativa linear e tradicional), com Jason, o outro irmão, grande vilão psicológico em seu duelo de vontades com a sobrinha, com sua mistura de puritanismo, ironia demoníaca e monstruosidade. Com Jason, estamos no âmago do universo faulkneriano, o qual, aliás, privilegia tanto a linguagem quanto a arte da intriga:

     “… então voltou a lembrar-se do dinheiro outra vez, e pensou que tinha sido passado para trás por uma mulher.,uma fedelha. Se ao menos pudesse acreditar que fora o homem que o roubara. Mas o que fora roubado era justamente aquilo que compensaria o emprego perdido, algo que ele tinha adquirido com tanto esforço e risco, e que forma roubado pelo próprio símbolo do emprego perdido, e, o pior de tudo, por uma vagabundinha… Via agora que as forças opostas do seu destino e sua vontade se aproximavam rapidamente, rumo a um entroncamento que seria irrevogável…”

( a resenha acima foi  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 01 de junho de 2010)

ANEXO

Estou lendo O SOM E A FÚRIA pela quarta vez: a primeira foi no começo dos anos 80, na tradução (que ainda considero extremamente boa) de Fernando Nuno Rodrigues, em edição pelo Círculo do Livro. Depois, descobri uma tradução portuguesa ( (de Mário Henrique Leiria &  H. Santos Carvalho, revisada por Luís de Sousa Rebelo) publicada por aqui (numa adaptação de Branca Maria Lírio de Lima,  a qual,como pode-se ver mais abaixo, não realizou grande coisa) pela Portugália Brasil e aí reli a de Nuno Rodrigues (na edição pela Nova Fronteira), comparando-as.

Entre as obras-primas de Faulkner, sempre foi a de que menos gostei (preferindo sempre Luz em agosto; Absalão, Absalão!; Enquanto Agonizo; O povoado; Desça, Moisés),principalmente por causa das duas primeiras partes (em compensação, sempre adorei as duas últimas e a figura de Jason). Foi o que enfatizei em 2004, na minha resenha semanal de “A Tribuna”, quando o reli pela terceira vez, agora na tradução do grande Paulo Henriques Britto, que saiu naquele ano pela Cosacnaify. Mas agora relendo com atenção as duas partes, e comparando as três traduções, mudei de idéia, particularmente sobre a parte de Benjy (a primeira), que achei desta vez particularmente sensacional. Ainda tenho problemas com a parte de Quentin, mas já não a acho tão derivativa assim de Joyce e de seu Ulisses. Aliás, concordo plenamente com Robert Humphrey, o grande estudioso do stream of consciousness na ficção, quando diz que Faulkner se diferencia dos outros praticantes dessa técnica porque usa um enredo principal, combinando a narrativa tradicional com o fluxo de consciência de forma magistral (para mim, ele e Thomas Mann são os maiores narradores do século XX).

Comparemos as versões (num trecho da parte de Quentin):

a de Paulo Henriques Britto (Cosacnaify):

“…continua cego  para o que está em você mesmo para aquela parte da verdade geral a seqüência de eventos naturais com suas causas que ensombrecem o cenho de todo homem até mesmo de Benjy você não está pensando na finitude está imaginando uma apoteose em que um estado mental temporário se tornará simétrico acima da carne e cônscio tanto de si próprio quanto da carne ela não vai se livrar de você não estará nem mesmo morta … acho melhor você ir para cambridge logo de uma vez… você estudar em harvard é o sonho da sua mãe desde que você nasceu e nenhuum compson jamais decepcionou uma senhora…”

 

a de Francisco Nuno Rodrigues (Círculo do Livro & Nova Fronteira):

“…ainda está cego para o que acontece em si mesmo para essa parte da verdade geral a seqüência de acontecimentos naturais e suas causas que obscurece o olho de qualquer homem até o de benjy você não está pensando em limitação você está contemplando uma apoteose na qual um estado temporário da mente se tornará simétrico acima da carne e com consciência plena dela e da carne não vai descartar você não vai nem morrer…acho que é melhor você ir logo direto para cambridge…então você vai se lembrar disto que a sua ida para harvard tem sido o sonho da sua mãe desde que você nasceu e que nenhum compson jamais desapontou uma senhora…”

a de Leiria-Carvalho (Portugália):

…mas estás cego ao que é em ti próprio para essa parte da verdade geral a seqüência de fatos naturais e as suas causas, que ensombra os sobrolhos de qualquer homem e mesmo de Benjy. Tu não estás pensando em limitação, estás contemplando uma apoteose na qual um estado temporário da mente se torna simétrico acima da carne, e consciente tanto de si próprio como da carne, nao te descartará nem sequer morrerás…creio que era melhor que fosses para Cambridge… lembrar-te-á que a tua ida para Harvard tem sido o sonho da tua mãe, desde que nasceste, e nenhum Compson desapontou ainda uma senhora…”

    Quentin será personagem de Absalão, Absalão! (1936) e após toda a experiência contada no livro, ele o encerrará com esse famoso trecho, depois que seu amigo Schreve pergunta por que ele odeia o Sul, o Deep South: “Eu não o odeio, disse Quentin rapidamente, de uma vez, sem pensar, eu não o odeio, repetiu, eu não o odeio, ele pensou, arfando no ar frio , no escuro impiedoso da Nova Inglterra, não, não o odeio! Não o odeio! Não o odeio!”

O universo inóspito da Yoknapatawpha de Faulkner

yoknapatawpha

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em  16 de abril de 2002

                                             ODISSÉIA GROTESCA

Costumo citar sempre a maneira singela e lapidar como um dos personagens de Crimes e Pecados (1989), de Woody Allen, resumia a condição humana. É mais ou menos o seguinte: o universo é basicamente inóspito e nós tentamos povoá-lo com nossos afetos.

É uma boa descrição do que ocorre no genial Enquanto Agonizo,  componente do trio supremo (os outros são Luz em Agosto e Absalão!Absalão!) de obras-primas de William Faulkner. A nova  tradução de Wladir Dupont,  publicada  pela Mandarim, s é bastante inferior à de Hélio Pólvora (dos anos 70, pela Expressão & Cultura).

Enquanto Agonizo é dividido em 59 monólogos de 15 personagens, com destaque para a quantidade dos que focalizam a mente de Darl Bundren (19) e seu irmão caçula, Vardaman (10). Até a agonizante do título, Addie Bundren, mãe deles, tem um monólogo, o quadragésimo, um momento central do romance. Não se trata de uma simples tomada de palavra por determinado personagem (todos os 15 com uma gritante individualidade), privilegiando a oralidade, isto é, o modo de expressão peculiar de cada um deles. Enquanto Agonizo é, ao contrário, um dos textos mais escritos da literatura, com um uso da palavra que só pode ser lido, sem qualquer possibilidade de ser transmitido de outra forma. Por exemplo, entre uma pergunta do pai, Anse, e a resposta do filho, Darl, se interpõe uma página de lembranças e associações. De forma mais sofisticada ainda, há monólogos de Darl em que ele visualiza para si mesmo (ele e seu irmão Jewell, nascido do adultério de Addie com o pastor, Mr. Whitfield, estão longe na hora do falecimento da mãe) o que está acontecendo em casa, o que reduplica o foco ficcional: estamos acompanhando a imaginação narrativa de um personagem, talvez o mais complexo entre os criados por Faulkner, o qual nos surpreende com imagens extraordinárias, como na descrição que o dr. Peabody faz do olhar de Addie: “É como se nos tocasse, mas como nos toca o jorro de uma mangueira, um jorro que, no momento do impacto, se houvesse dissociado do bocal, como se nunca tivesse saído por ali”.

Tudo para mostrar os Bundren e seus afetos diante do universo inóspito. Eles são sulistas brancos e pobres (portanto, loosers, lixo branco) de Yoknapatawpha (o condado imaginário do Mississipi inventado pelo maior dos autores de ficção, junto com Thomas Mann). Addie agoniza (enquanto o filho mais velho, Cash, prepara seu caixão, à sua vista) e morre, dando início a uma difícil viagem até Jefferson, centro da região (ela queria ser enterrada ali, pelo menos é o que o marido, Anse, insiste em dizer), enfrentando uma grande enchente (na travessia do rio, a ponte foi levada e a carroça que transportava o caixão afunda e Cash quebra a perna) e depois um incêndio num celeiro, provocado por Darl, que será levado para um hospício.

Após o sepultamento de Addie (que demorou nove dias, por isso os Bundren eram acompanhados por urubus na sua jornada e expulsos de povoados), Anse aparece com nova esposa diante dos filhos (além dos já citados, Cash, Darl, Vardaman e Jewell, há uma garota, Dewey Dell, que está grávida). No final, não sobrou a Addie nem o consolo da “morte digna”, que redima a vida sem sentido e sórdida.

A odisséia grotesca dos Bundren até Jefferson vai esgarçando ponto por ponto a devoção aparente e realçando apenas o lado fanático e maníaco, quando não o lado mesquinho e calculista: no final, o pai espolia os filhos (vende o cavalo que é a paixão de Jewell, rouba o dinheiro da filha, arranja nova mulher); Dewey queria ir à cidade para conseguir um abortivo; e Darl, a má consciência da família, o Hamlet dos brancos pobres do fundamentalista sul dos EUA, “enguiça”, e é neutralizado (como diz o vizinho da família, mr. Tull: “pois o Senhor quer que o homem aja e não perca muito tempo pensando, porque seu cérebro é como uma peça de máquina, não agüenta funcionar em excesso).

Num mundo inóspito e cheio de estranhos, mesmo que sejam da própria família, a vida, como se afirma em O Velho (texto magnífico que compõe uma das narrativas alternadas de Palmeiras Selvagens) “consiste em ter que se levantar mais cedo ou mais tarde e então ter que se deitar mais cedo ou mais tarde novamente”. Entenda-se o “deitar” no sentido de Addie Bundren.

(uma versão ligeiramente diferente desta mesma resenha foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de maio de 2009, em função da reedição da tradução de Wladir Dupont pela L&PM)

02/07/2012

Lengalenga poderosa: “Intruso no pó”, de Faulkner

Não bastasse o deplorável logotipo (um S encimado por um olho!), os (ir)responsáveis pelo visual das edições Siciliano escolheram para O INTRUSO uma capa que parece ter sido concebida para um disco da “telúrica” Baby Consuelo. É uma lástima porque esse romance de William Faulkner (1897-1948), publicado em 1948, é um dos grandes lançamentos do ano.1

O INTRUSO, na verdade, é Intruso no pó (Intruder in the Dust). Pelo menos não fizeram como em Portugal, onde ganhou o título telenovelesco de O mundo não perdoa (o que nos leva a suspeitar que algum fundamento existe nas piadas sobre lusitanos).

Mas de fato o mundo não perdoa mesmo o negro Lucas Beauchamp por não se comportar dentro dos estereótipos da sua raça, não apresentando um comportamento respeitoso (ou pelo menos, falsamente subserviente) para com os brancos. Quando é apontado como provável assassino de um branco há a chance de restabelecerem-se as regras do jogo: “…agora os brancos vão pegá-lo e queimá-lo, tudo como de costume e em ordem, e os próprios brancos vão se comportar como ele está convencido de que o Lucas gostaria que se comportassem: como brancos; todos observando implicitamente as regras; o negro agindo como um negro e os brancos agindo como brancos e nem um sentimento real e forte depois que o furor passar…”

Portanto, o leitor pode se preparar para ler uma tremenda inquirição sobre o “problema” do racismo no sul dos EUA.

Contudo, o livro é de Faulkner e temos, igualmente, uma amplitude que ultrapassa os estreitos limites de um drama social (ou representativo da história das mentalidades, como hoje se poderia dizer) no imaginário condado de Yoknapatawpha, Mississipi: “…homem algum teria como se pôr entre outro homem e seu próprio destino…”; temos, ademais, o pessimismo puritano característico do autor norte-americano a respeito da existência: “…dessa agonia das terminações nervosas não anestesiáveis e nuas que os homens chamam de estar vivo por falta de melhores palavras…”

Essa conjugação denúncia-retórica trágica-sentimento de resignação pelo irremediável da vida desagradou profundamente Simone de Beauvoir. Como nos conta em A força das coisas, grande admiradora de Faulkner durante certa época (relatada em Na força da idade), no após-guerra vê no autor de O INTRUSO tudo o que há de desagradável na condução dos assuntos do mundo pelos norte-americanos, além de uma visível queda de qualidade (em relação aos livros que admirara, como Luz em agosto) e uma tendência para o conformismo e a lengalenga.

Sim, é certo que há esse lado lengalenga no romance (como em outras obras faulknerianas dessa safra: Desça, Moisés; Réquiem por uma freira; Uma fábula) e até mesmo na filosofia de vida do autor de Enquanto agonizo. Só que, durante a leitura, deparamos com momentos de estilo (preservados na excelente tradução de Leonardo Fróes) que nenhum outro romancista foi capaz de alcançar. E há a capacidade deslumbrante, prodigiosa, inigualável com que ele arma seus enredos, que sempre foi um dos seus maiores atrativos. Pois Faulkner é um dos poucos prosadores maiores do Modernismo que ainda se preocupa com uma trama bem urdida.

Um dos pontos-chave de O INTRUSO está no fato de que um garoto (o protagonista do livro, Chick), um outro negro (Saunder) e uma velha (Eunice Habersham) não apenas acreditam na inocência de Lucas Beauchamp, mas também agem de forma a salvá-lo (desenterrando o corpo da suposta vítima). A idéia é que os “adultos” estão ocupados e imersos demais na alienação, nos próprios interesses, e na pasmaceira que se aceita tudo para que o ramerrão continue, e que apenas os que estão excluídos de uma forma ou de outra são capazes de criar uma rede de solidariedade.

Uma ideia muito bela, também explorada (talvez com mais sutileza e poesia) por Guimarães Rosa no seu Recado do Morro (em No Urubuquaquá, no Pinhém, um dos volumes de Corpo de Baile), no qual o herói é salvo por uma rede mais ou menos similar á que Faulkner estabelece e sobre a qual ele discorre incessantemente nessa sua poderosa lengalenga.

1 Esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de setembro de 1995.

Logo depois, a mesma tradução ganhou uma edição pelo Círculo do Livro, com uma capa menos horrenda. E agora foi relançada pelo selo da Saraiva, o Benvirá, junto com outra tradução publicada antes, a de Wladir Dupont para Os invictos para acompanhar uma inédita, a de Knight´s Gambit, que se tornou Lance Mortal. [nota de 2012]

13/05/2012

15 DESTAQUES DE 2010

(uma versão reduzida saiu em A TRIBUNA de Santos de 04 de janeiro de 2011)

É sempre  bom esclarecer que quando um crítico propõe destaques entre as publicações de um ano, ele não está propondo uma lista de melhores, o que seria risível. Quem lê tudo o que se lança num ano? E se lesse, que tipo de pessoa seria essa?  Por exemplo, saíram em 2009 e são dois dos melhores livros da década  A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz, e Quando haverá boas notícias, de Kate Atkinson, e o leitor não os encontrará na minha lista do ano passado. O mesmo deverá acontecer com lançamentos de 2010, que não tive oportunidade de ler. Também não entrarão na minha lista obras que ganharam nova tradução, caso de reaparições importantíssimas, como  Walden, de Thoreau, nas mãos especialíssimas de Denise Bottmann, ou as novas versões dos romances de William Kennedy (A grande jogada de Billy Phelan & Ironweed), ou de Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow, ou ainda de A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov, só para citar alguns; ou então  novas edições de autores essenciais (é o caso de dois lançamentos primorosos do ano que acabou, os Contos Completos de Lima Barreto e a edição conjunta de Diário do Hospício  & Cemitério dos Vivos).

Tendo em mente essas limitações, eis 15 lançamentos imprescindíveis do último ano (em comentários sumários e necessariamente superficialíssimos):

1)Sartoris, de William Faulkner (CosacNaify)-  Romance fundador, que em 1929 deu início à saga da decadência sulista, representada pelo mítico condado de Yoknapatawapha, um dos lugares fundamentais da ficção,  e em que a obsessão do maior escritor norte-americano pelo tempo se traduz numa narrativa  caleidoscópica fascinante.

2) Verão, de J.M. Coetzee, e Invisível, de Paul Auster (Companhia das Letras)-  Dois dos mais notáveis escritores da pós-modernidade no auge de sua maestria, em relatos que se aproximam do limite do relato tal como conhecemos.

3) Memórias Inventadas, de Manoel de Barros (Planeta)- Um poeta que se recusa a sair da infância e vet o mundo e a linguagem  com outros olhos que não sejam os da não-domesticidade, do não-conformismo. O resultado é uma poesia-brincadeira-infantil muito séria e contundente. Neste ano também, pela Leya saiu a sua Obra Completa, a qual preencheria um ano todo da vida de um leitor.

4) O arquipélago da insônia, de António Lobo Antunes (Alfaguara)- O mais lírico e pungente dos livros ciclópicos publicados pelo grande autor português nesta última década, chegando ao requinte de ter um narrador autista. Também prova cabalmente como a lição de Faulkner foi fecunda. Mas poucos o seguiram com tal radicalismo.

5)A câmara de inverno, de Anne Michaels (Companhia das Letras)- Finalmente, depois de mais de uma década,  o segundo romance da fabulosa autora canadense, que já criara um fascinante deslocamento geográfico em  Peças em fuga. Memória, esquecimento, conservação, deterioração, os opostos se atraem nessa autêntica poesia da prosa, incursão bissexta no gênero narrativo de uma poetisa consagrada.

6) Senhores e Criados e Outras Histórias, de Pierre Michon (Record)- O grande autor francês, de Vidas minúsculas, aproxima a ficção  da pintura e do relato biográfico, em três textos, pelos quais circulam figuras como Van Gogh, Goya, Watteau, Piero della Francesca ou Claude Lorrain. Michon é da estirpe de um W. G. Sebald ou de um Claudio Magris.

7) Um homem apaixonado, de Martin Walser (Planeta)-  Uma bela incursão pela alma, mente, espírito e corpo de Goethe, o qual, septuagenário, se inspira na sua paixão por uma mocinha de 19 anos para compor um de seus mais famosos poemas. É o eros da criação contra a aproximação da morte, e aí não importa tanto se a paixão biográfica foi bem sucedida ou não.

8) A morte de Matusalém, de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras)- O maior contador de histórias curtas da 2ª. metade do século XX em plena forma, tanto nas incursões sobrenaturais, onde mergulha no imaginário judaico, quanto (ou sobretudo) nas soberbas narrativas realistas.

9) Hóspedes do Vento, de Chico Lopes (Nankin)- Talvez o mais talentoso contista  brasileiro surgido nesta década, em sua terceira e mais equilibrada coletânea, após os talentosos Nó de sombras & Dobras da noite.

10) Sabres e utopias, de Mario Vargas Llosa (Objetiva)-  Uma chance de conhecer o pensamento político do incontornável vencedor do Nobel de 2010, sem que necessariamente tenha de se concordar com ele.

11) A questão dos livros, de Robert Darnton (Companhia das Letras)- magnífica reunião de ensaios  do historiador norte-americano onde ele discute o passado, o presente e o futuro do livro e do conhecimento enciclopédico.

12) Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- Quanto mais vou conhecendo a obra de Vila-Matas, mais vou achando que ele é um dos grandes nomes da literatura atual. Este talvez seja o seu livro mais ambicioso.

Hors concours: 2666, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras) & Os embaixadores, de Henry James (CosacNaify)- O que teria em comum um romance escrito por um Chileno e que transcorre num México microcosmo da nossa época, e um romance  em que James nos mostra o problema do cosmopolitismo, a problemática convivência entre americanos e europeus? Simplesmente são os romances mais ambiciosos escritos na década inicial do século, no caso de Bolaño, o nosso próprio século, e no caso de James, o século passado, e que parecem esgotar as formas narrativas em curso.

Feliz 2011 e um monte de leituras para todos.

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