MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/12/2012

Pra inglês ver (terceira parte): entre a Providência Divina e os comerciantes britânicos

(publicado em A TRIBUNA de Santos, em 22 de março de 2011, de forma mais condensada)

“Deus, eu pensei que fosse Deus,

e que os mares fossem meus,

como pensam os ingleses…”

(Chico Buarque)

Em meados do século XIX, no Colosseum, centro de diversões do Regent´s Park, em Londres, fez muito sucesso  um ciclorama (imagens grandiosas projetadas com efeitos sonoros e de luz) de Lisboa destruída pelo terremoto de primeiro de novembro de 1755, evento que se cravou no imaginário ocidental como a “grande catástrofe” dos tempos modernos: “No momento em que o terremoto começava, a audiência era repentinamente assaltada por um grande rugido subterrâneo. Quando a luz voltava, uma cena de horror e desolação se revelava. Um espectador notou que o espetáculo mostrava (…) a maneira como a terra saltou e depois se abriu, os prédios caíram e o mar se levantou (…) e teve um efeito muito aterrorizante.

Enfim, nada muito diferente do que um James Cameron nos oferece em Titanic,  Wolfgang Petersen em Mar em fúria ou se levarmos mais adiante o raciocínio, o que nos oferece o universo de Roland Emmerich (O dia depois de amanhã).  Como aquilatou um dos espectadores do ciclorama de Lisboa: “Nunca uma quantidade tão substancial de medo foi fornecida em troca de dinheiro”[1].  Mais adiante lemos: “O show continuou em cartaz pela década de 1850 afora, mantendo a popularidade até diante da competição feroz oferecida pelo espetáculo da destruição de Pompéia na Grande Exposição de 1851…”

Em contrapartida, a revolta com relação à mesmíssima tragédia, por sua avaliação coletiva como manifestação dos desígnios de uma Providência punitiva, que fez com que Voltaire escrevesse um célebre poema a respeito do desastre e a demolidora sátira Cândido ou O Otimismo, a qual foi uma das balizas na concepção do Iluminismo, da luta contra o atraso ideológico que levava à submissão a supostos desígnios divinos e contra as superstições estúpidas da humanidade, através das quais tudo o que acontece é sinal do “fim do mundo”, devido a pecados.[2]

Desde que li A montanha mágica, de Thomas Mann, pela primeira vez, fiquei sabendo da atitude de Voltaire com relação ao terremoto de Lisboa, e me interessei por sua obra, suas idéias, e também por esse acontecimento histórico específico.

Foi por esse motivo que fiquei entusiasmado ao saber que fora lançado A IRA DE DEUS (Wrath of God, na tradução de Márcio Ferrari; o original foi publicado na Inglaterra em 2008), de Edward Paice, uma narrativa histórica muito fluente que aparentemente pretende contar os fatos e as conseqüências (inclusive filosóficas[3]) do terremoto e do tsunami que devastaram boa parte da Portugal setecentista[4], não só a capital (de fato, abalos sísmicos foram sentidos por meio planeta e até no Lago Ness, na Escócia, se formaram grandes ondas). Como não havia nenhum tipo de defesa civil organizada para tais circunstâncias, os sobreviventes tiveram de se virar por entre escombros e milhares de mortos e moribundos, absolutamente desorientados:“As principais representações físicas de autoridade no centro da cidade—reais, aristocráticas, eclesiásticas e governamentais—haviam desaparecido. Toda a infraestrutura que permitia que as pessoas comessem, bebessem, comprassem roupas, se divertissem e prestassem adoração deixara de existir. Lisboa era uma cidade cujo coração mesmo fora arrancado…” 

Se nós em 2011 vemos, mesmo com a tecnologia atual e os meios de comunicação, o caos que acometeu o Japão (um país miticamente ordeiro e organizado), imagine-se há 250 anos.

Todavia o livro de Paice, na verdade, acaba fazendo um recorte muito especifico e limitado nos acontecimentos, abordando o grupo de comerciantes e residentes ingleses em Lisboa, cuja correspondência e diários são habilmente costurados na narração, mas que acabam, no final, deixando à vista o alcance limitado de A IRA DE DEUS como reflexão histórica, se é que essa foi a intenção do autor, tão raso é o seu resultado no que se refere ao não-factual. Parece mais jornalismo histórico do que outra coisa.

Ao contrário de uma Barbara Tuchman, que também fez um recorte na vida do século 14, em Um espelho distante, escolhendo um personagem da época para acompanhar sua vida, não há uma rica extrapolação do individual para o geral. A não ser para narrar (de forma muito esquemática, pois Paice parece adepto de capítulos curtinhos) a polêmica Voltaire-Rousseau em torno da “ira de Deus”, Paice se limita ao seu grupinho de ingleses e mal vislumbramos o Portugal que passa a ser a nação moldada pelo Marquês de Pombal, a não ser em traços sumários.

Há uma parcialidade, diria mesmo  um preconceito indisfarçado, no contraste que A IRA DE DEUS nos proporciona entre ingleses e portugueses. Os primeiros sempre são práticos, comportam-se com dignidade em meio à desgraça, e mantêm um discernimento surpreendente; os segundos são histéricos, lançam-se num frenesi de superstição religiosa, e jamais são individualizados, aparecem como uma massa de gente burra, atrasada e arcaica. Os lisboetas acabam merecendo o apelido pejorativo de alfacinhas, de tão descerebrados.

Essa perspectiva não rege apenas a narração dos episódios do terremoto e do tsunami, não. Á exceção do Marquês de Pombal (cujo princípio, segundo o autor, é o seguinte: “como bom português, mostrar-se sempre um inglês de coração”), e mal e mal os dois reis (João V e José I), que figuras portuguesas são focalizadas em A IRA DE DEUS? Tudo, da paisagem aos costumes é retratado pelo olhar de estrangeiros, e sempre uma visão “superior” (jamais discutida pelo autor), na qual uma esplêndida paisagem (reiteradas vezes enaltecida) mostram costumes tão exóticos e incompreensíveis como os que costumamos ver caracterizados em tribos ditas selvagens ou países longínquos: “Qualquer pessoa do Norte da Europa ficava surpresa ao perceber como Lisboa era diferente, a ponto de mal ser possível reconhecê-la como uma cidade do mesmo continente. O grande número de escravos e ex-escravos vindos da África e do Brasil chamava imediatamente a atenção (…) Igualmente surpreendente para os forasteiros eram as hordas de padres, monges e frades (…) Dificilmente havia um dia do ano sem alguma procissão vagando pela cidade ou sem a celebração pública do santo do dia (…) grande número de ciganos (…) Feitiço, superstição e magia pareciam escorrer  dos próprios muros das ruas e becos estreitos e sinuosos…”

    Perdeu-se uma ótima oportunidade de discutir porque Portugal permaneceu “exótico” e “terceiro mundo” dentro do conjunto de nações ocidentais, devido à arrogância britânica do autor (que inclusive coloca o Rasselas de Samuel Johnson como uma obra superior ao Cândido, de Voltaire, conhaque inglês contra cerveja rala francesa, esquecido de que o texto voltairiano é uma daquelas raras que têm circulação universal, ao ponto de ter se tornado arquetípica; quem se lembra ou conhece o texto de Johnson?), que “colonizou” o terremoto de Lisboa, tanto quanto o Reino Unido explorou a nação lusitana por séculos. Aliás, ele só realça o chão mercantilismo de seus compatriotas, a preocupação com o prejuízo material. Não soam minimamente convincentes suas afirmações de uma preocupação humanitária. Veja-se por exemplo a seguinte passagem: “À parte as perdas comerciais que provavelmente se seguiriam, havia uma genuína preocupação humanitária. Mary Delany disse à irmã que o destino funesto de Lisboa me deixou tão arrasada que até agora não consegui me recuperar. Cada dia parecer trazer uma novidade infeliz deixando-a tão profundamente sensibilizada” que ela “mal conseguia pensar em qualquer outra coisa...” No entanto, ele não nos mostra que a humanitária Mary Delany tenha movido um dedo, feito qualquer gesto, para minorar o sofrimento português, além de ficar “profundamente sensibilizada” e tão arrasada que mal consegue se recuperar (parece a madame de Verdurin, de Proust, que mal tinha energia para se levantar de tantos eventos culturais que era obrigada a assistir devido aos seus múltiplos “interesses culturais”; ah, essas damas sensíveis!).

Paice tem um certo prazer em frisar o ridículo do comportamento dos portugueses, após o terremoto: “A fé dos alfacinhas imediatamente depois da tragédia era ainda mais cega, submissa e cordata do que nunca…” Mas esquece de frisar o cúmulo de ganância  dos ingleses escavando monturos repletos de mortos para salvar não possíveis sobreviventes,  mas cofres e comprovantes contáveis de transações e dívidas. Um pai, por exemplo, envia o filho para “buscar algum dinheiro” que se pudesse encontrar em casa, isso no meio do “fim do mundo”.. Veja-se a candura com que \Paice narra o incidente: “Então pediu ao filho Neb que corresse de volta à casa deles e buscasse algum dinheiro, e ele voltou com 300 mil-réis que encontrou na escrivaninha do pai. Foi uma missão que poucos assumiriam com tanto prazer quanto Neb, e seu entusiasmo era tanto que Fowkes permitiu que ele voltasse lá, com dois amigos, para ver se outros bens poderiam ser resgatados”. Não é bonito? Não é edificante?[5]E, no entanto, nem se compara à seguinte passagem, a respeito das tentativas de mr. Braddock de recobrar alguns de seus pertences: “Ao fazer o caminho entre as ruínas, passando por incontáveis cadáveres… e igrejas que tinham à frente delas  pessoas depositadas ´em grandes pilhas, umas sobre as outras´, ele teve de tapar o nariz e a boca para evitar o mau cheiro [coitadinho dele, não?]. Quando chegou à sua região, não conseguiu sequer saber onde estava a rua em que morava até que um grupo de galegos o ajudou. Ele não chegou a reaver coisa alguma [bem feito]. Voltou as costas para uma cidade que agora descrevia como ´uma volumosa pilha de ruínas´(…) Mesmo 17 dias depois do desastre, Fawkes perceberia que os ´destroços´ de sua casa ainda estavam tão quentes que incendiavam as cestas com as quais tentava removê-los enquanto procurava dinheiro, prataria e jóias. Seus dois filhos, Sam e Neb, agiram ´com grande resolução e coragem´ e pareciam inabaláveis enquanto trabalhavam entre as ruínas das velhas paredes e os corpos mortos. Apenas ocasionalmente o pai percebia neles ´uma furtiva lágrima de pesar´”.

Nada mudou, portanto. Ainda é o mesmo ciclorama divertindo os ingleses.


[1] Muito tipicamente, tal interesse pelo desastre momentoso convivia com uma quase total ignorância a respeito do país real onde ocorrera.

[2]Uma observação de Horace Walpole numa carta a George Montagu mostra que as pessoas estavam totalmente conscientes de que o mundo parecia estar atolado numa crise sísmica: Ultimamente, houve tamanhos terremotos e maremotos, avalanches e outros fenômenos estranhos, que se pode pensar que o mundo parou totalmente de funcionar…”

É mais ou menos ou que ouvimos por aí todos os dias, na esteira de grandes desastres: parece que o mundo sempre está para acabar.

[3] “O efeito das ondas de choque de Lisboa no pensamento europeu foi exatamente tão grande quanto o seu impacto na vida religiosa: o primeiro de novembro de 1755 viria a ser lembrado como um dos dias de nascimento da era moderna…”

[4] “A população de Lisboa estava habituada a desastres (…) Mas nada podia se comparar ao impacto daquele que depois seria reconhecido como o maior evento sísmico da história documentada da Europa Ocidental. Sua duração em Lisboa, entre sete e dez minutos, foi absolutamente excepcional e raramente equiparada (..) Mais tarde, classificou-se o terremoto numa magnitude de 8,75 a 9 na escala Richter…”

“Em Cascais, menos de 20 quilômetros a oeste de Lisboa, o oceano foi visto recuando subitamente por quase 5 quilômetros, e em Oieiras, 8 quilômetros a oeste, por mais de 1,5 quilômetro. E então, com uma velocidade  de 650 quilômetros por hora ou mais, uma muralha  de água se levantou em direção  à cidade (…) maremoto de 12 metros de altura…”

O pior é que, apesar de ter sido esse o desastre que penetrou  o imaginário ocidental, ele não foi o único. Durante meses a terra tremeu com menos intensidade e houve pelo menos dois outros terremotos acima da magnitude 7:

“Na manhã de 21 de dezembro, mais vidas se perderam quando Lisboa foi sacudida por um tremor maior do que qualquer outro desde primeiro de novembro…”

“Fazia um calor incomum para a estação em Lisboa, quando, por volta do meio-dia de 31 de março de 1761, a cidade foi atingida  pela terceira vez no século por um terremoto acima de 7 graus na escala Richter. Durou mais de três minutos, talvez até cinco, e derrubou de vez muitas das ruínas de 1755 (…) Uma hora depois, um maremoto de 2,5 metros deixou vários navios à deriva no Tejo…”

 

[5] Outro episódio: “Gerard Devisme foi uma das pessoas que, apesar de todo o perigo, ainda retornou ao centro da cidade, na tentativa de recuperar valores deixados na contadoria de sua firma. Desta vez,  ele fez a pé todo o caminho… até Belém e lá alugou um barco para levá-lo a Boa Vista… Uma vez em terra, Devisme conseguiu ultrapassar as ruínas do convento de São Francisco, passando pelos escombros em chamas do convento  da Boa Hora… e enfim entrou na casa de contabilidade pela entrada dos fundos. O edifício era uma ruína calcinada, mas o escritório ainda resistia, o que lhe deu esperanças de que seu baú de dinheiro pudesse ser salvo. No entanto, tudo estava quente demais para ser tocado, e ele só conseguiu recuperar alguma coisa quando voltou no dia seguinte…” Quase que se tem a vontade de desejar que ele tivesse sido assaltado pelos “malfeitores” que dominaram a cena nas ruínas. Não há fim do mundo para os capitalistas, há prejuízos e perdas, ativos e passivos.

(LEIA TAMBÉM: https://armonte.wordpress.com/2012/12/02/pra-ingles-ver-primeira-parte-borges/
https://armonte.wordpress.com/2011/03/22/pra-ingles-ver-segunda-parte-machado)

21/03/2011

MONSIEUR AROUET

“__Eu me refiro ao terremoto que sofreu Lisboa em 1755. Bem, Voltaire revoltou-se contra ele.

__Mas como ? Ele se revoltou ?

__ Pois é, rebelou-se. Não admitiu aquele fado ou fato brutal. Negou-se a abdicar perante ele. Protestou em nome do espírito e da razão contra esse escandaloso excesso da natureza que vitimou milhares de vidas. O senhor fica pasmado ? Sorri? Que pasme, mas quanto ao sorriso tomo a liberdade de censurá-lo. A atitude de Voltaire era a de um autêntico descendente daqueles antigos gauleses que atiravam suas flechas contra o céu. Olhe, engenheiro, aí vê o senhor a hostilidade do espírito em face à natureza, a orgulhosa desconfiança com que a encara, a maneira nobre pela qual se obstina no direito de criticar a ela e a seu poder maligno e insensato. Pois a natureza é poder, e aceitar o poder, conformar-se com ele, é servil!”

Um dos efeitos colaterais de um livro muito amado (A montanha mágica, de Thomas Mann) foi fazer com que eu me apaixonasse pela figura e pela obra de Voltaire (1694-1778), esse doidivanas maravilhoso que se rebelava contra a estupidez da natureza e da chamada Providência Divina. Agora, mais de 20 anos depois, a Globo oferece a oportunidade de redescobrir o prazer da leitura de seus Contos e Novelas, dessa vez numa edição que apresenta a totalidade dos seus textos ficcionais (mesmo o ótimo volume da série Obras-Primas, da Abril Cultural, só trazia parte deles) na insuperável tradução de Mário Quintana, resgatando uma iniciativa de 1951.

Como é salutar ler Voltaire e seus tratados sobre a tolice humana: Zadig e Cândido, certamente as obras-primas da literatura mundial mais deliciosas de todos os tempos, ágeis, de uma impressionante leveza, repletas de incidentes divertidos de forma a castigar a necessidade de agradar e fazer o correto (Zadig) e o otimismo renitente (Cândido) dos seus heróis, são o antídoto perfeito contra a burrice e a mistificação. Não é à toa que Voltaire influenciou Machado de Assis: ele era o Umberto Eco do século XVIII.

Além das novelas, há textos pequenos e demolidores, como Memnon, em que o herói decide ficar acima das paixões humanas e abraçar a sabedoria absoluta e, no curso de um dia, se mete numa trapalhada amorosa, é extorquido, perde um olho e a fortuna (Voltaire nada fica a dever às Mil e Uma Noites em desgraças fisiológicas).

Uma das especialidades do genial autor francês (reutilizada com proveito pelo Eça de O mandarim, por Machado e por Borges) era ambientar a história em lugares distantes (Babilônia, por exemplo) ou fantásticos (Saturno, em Micrômegas), além de pouco se lhe dar as regras de verossimilhança (seguindo a lição de Cervantes, que também será aproveitada pelo Diderot do magnífico Jacques, o fatalista, e seu amo). Por esse motivo, é fascinante um texto como Jeannot e Colin, o qual transcorre numa Paris contemporânea ao autor, e que—malgrado um final decepcionante e piegas—é uma aniquiladora e ácida visão—sem disfarces—da sociedade francesa, uma antecipação do universo que Balzac, Stendhal (em Lucien Lewen) e Proust vão explorar posteriormente. Paris, nesse caso, pode não ser uma festa, mas o universo de Voltaire (e qualquer um que leia  O mundo como está ou O branco e o preto concordará) o é. Não dá nem para citar nada, pois não se pararia mais.

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serviço: Contos e Novelas, de Voltaire. Tradução de Mário Quintana. Estudos de Roger Bastide e Gilbert Chinard. Notas de Sérgio Milliet. Coleção Clássicos Globo (coordenador: Manoel da Costa Pinto). 781 págs.

(resenha publicada em 30 de setembro de 2006)

TOLERÂNCIAS E IMPLICÃNCIAS DO VELHO VOLTAIRE

“A filosofia nos ensina que este universo deve ter sido organizado por um ser incompreensível, eterno, existente por sua própria natureza; mas, uma vez mais, a filosofia não nos ensina os atributos dessa natureza. Sabemos o que ele não é, e não o que ele é (…) De todos os males, o maior sem dúvida é a morte… O leitor realmente filósofo verá que a morte era necessária a tudo o que nasceu, que a morte não pode ser nem um erro de Deus nem um mal nem uma injustiça nem um castigo do homem.

O homem, nascido para morrer, na podia mais ser subtraído às dores senão pela morte. Para que uma substância organizada e dotada de sentimentos nunca provasse dor, seria necessário que todas as leis da natureza se modificassem… Essa sensação de dor era necessária para nos advertir a conservar-nos e para nos dar prazeres tanto quanto comportam as leis gerais às quais tudo está sujeito…

Todo desejo é uma necessidade, uma dor iniciada… A dor era, por conseguinte, tão necessária quanto a morte…

… Será que temos uma inteligência superior à dos animais irracionais? Algumas idéias a mais ou a menos num cérebro devem, podem, impedir que o fogo no queime ou que uma rocha nos esmague?

O mal, sobre o qual foram escritos tantos volumes, no fundo não é senão o mal físico. Esse mal moral é apenas um sentimento doloroso que um ser organizado causa a outro ser organizado. As rapinas, os ultrajes, etc, são um mal apenas enquanto causam outros. Ora, como certamente não podemos fazer nenhum mal a Deus, é claro, pelas luzes da razão (independentemente da fé, que é coisa totalmente diversa, que não há mal moral com relação ao Ser Supremo.

Como o maior dos males físicos é a morte, o maior dos males morais é indubitavelmente a guerra; acarreta com elas todos os crimes, calúnias nas declarações, perfídias nos tratados, a rapina, a devastação, a dor e a morte sob todas as formas.

Tudo isso é um mal físico para o homem, e no entanto é mal moral em relação a Deus como a raiva de cães que se mordem entre si… Não é senão com o homem que o homem pode ser culpado.”

É possível ler o Dicionário Filosófico (1764), que agora sai em nova versão (e uma parte dele já foi traduzida por ninguém menos do que Marilena Chauí, na coleção “Os Pensadores”) pela editora Escala, com o mesmo pique e fruição de um romance ou uma obra narrativa porque Voltaire não se contenta a definir ou esclarecer conceitos, dar exemplos edificantes ou provocativos, ou demonstrar uma erudição invejável. Se preciso for, ele mete suas próprias atribulações pessoais no meio de um verbete, com desfaçatez e naturalidade.

Dentro do projeto iluminista-pedagógico do século XVIII, Voltaire faz o que chamaríamos hoje obra de divulgação, procurando aproximar o leitor comum de temas “difíceis”, até abstrusos. Tudo em prol do Esclarecimento das massas: “Aqueles que dizem que há verdades que devem ser escondidas ao povo não devem alarmar-se; o povo não lê, trabalha seis dias por semana e, no sétimo, vai à taberna. Numa palavra as obras de filosofia são feitas somente para os filósofos e todo homem honesto deve procurar tornar-se filósofo, sem se vangloriar de sê-lo”.

É só na intenção que o projeto voltairiano lembra o que tomamos hoje por divulgação (com as exceções de praxe, uma prática pautada pela mediocridade): seu gênio vai muito além das fontes, e eu acredito que ele até inventa algumas delas, ou as deturpa e deforma, para se ajustar às suas idéias. Na verdade, não importa muito a ele (muito menos a nós) de onde tira seus verbetes (que vão de “Abade” a “Virtude”), uma vez que no final todos terão seu sinete particular: “Os livros mais úteis são aqueles dos quais os próprios leitores compõem a metade; ampliam os pensamentos dos quais lhes é apresentado o germe, corrigem o que lhes parece defeituoso e fortalecem, por suas reflexões, o que lhes parece fraco”.

O certo é que o leitor dificilmente irá consultar a maior parte das obras que “embasam” o Dicionário Filosófico (a não ser um Platão, um Virgilio, um Plutarco, um Santo Agostinho, um Maquiavel), todas já praticamente mortas e aniquiladas na história do pensamento e no imaginário humano. Por isso, sem sabermos o que é dele, o que foi pilhado diretamente de outros, o que foi citado numa tradução indevida ou ineficaz (como parece ser o caso de diversas passagens), o que foi filtrado através de uma ótica parcimoniosa (quer dizer, tendenciosa) ou satírica, todas as idéias veiculadas no volume ficam mesmo com a cara de Voltaire. Duas caras, aliás: uma risonha, que nos propõe o melhor que a inteligência e racionalidade e o humor podem nos propor; outra, não tão simpática, com a aridez e estreiteza imaginativa típica da cultura francesa (não é à toa que Voltaire foi um acerbo inimigo da influência de Shakespeare, em flagrante contraste com Goethe, que seria a figura simétrica a ele em popularidade, na Europa do seu tempo).

E, pasme-se, o pensador da tolerância, que odeia o fanatismo, revela-se francamente anti-semita, homofóbico, eurocêntrico, partidário de uma “reta razão” na qual nem acreditamos mais e que foi mais um sonho do Ocidente. Ele acredita principalmente na Virtude, vejam só! E como ele nos encanta! Sua meta principal: desconstruir os absurdos da religião, seus dogmas e superstições (Santíssima Trindade, Imortalidade da Alma), numa palavra, sua tolice extrema, que no entanto comanda legiões: “Consta num suplemento do concílio de Nicéia que os padres, vendo-se muito embaraçados para saber quais eram os livros autênticos e os apócrifos do Antigo e do Novo Testamento, colocaram-nos misturados numa grande confusão em cima de um altar. Os livros que caíram no chão naturalmente era os que deviam ser rejeitados. É de se lamentar que tão bela receita esteja atualmente em desuso.”

É preciso ler os catecismos de Voltaire (o chinês, o japonês, do padre e do quitandeiro), para ver como 244 anos depois, mesmo em plena pós-modernidade, tudo desconstruído, ele continua imprescindível.

(resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em 22 de novembro de 2008)

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