MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/07/2011

Em busca do “eu” russo perdido: Um divisor de águas na obra de Nabokov

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de junho de 2011)

Jorge Semprun,  morto no início deste mês, representava um determinado e notável segmento de autores que—em alguns poucos casos deliberadamente, porém o mais das vezes compelidos por circunstâncias adversas, como o autor espanhol—tiveram de escrever em outra língua que não a natal. Além de Semprun, podemos citar Joseph Conrad, Samuel Beckett, Milan Kundera, sem contar a terrível situação de Isaac Bashevis Singer, que se resignou a publicar “em tradução” seus originais em iídiche  (na verdade, o próprio Kundera era um escritor basicamente “traduzido”, já que proibido no seu país e escrevendo numa língua minoritária, caso de uma boa parte dos dissidentes do bloco “socialista”).

Apesar de ter uma parte da sua produção em russo, esse foi o caso de Vladimir Nabokov (1899-1977): sua fama é fundamentalmente como escritor da língua inglesa, na qual escreveu suas obras mais admiradas (Lolita, Fogo Pálido, Ada) e para a qual verteu seus primeiros textos em novas versões.

A estréia nabokoviana oficial em inglês se deu em 1941, com A verdadeira vida de Sebastian Knight (The real life of Sebastian Knight),  que de uma forma belíssima retrata a situação dramática configurada acima.

Vinte anos depois, em 1961, saiu uma tradução brasileira (Sebastian virou Sebastião) pela Civilização Brasileira, realizada pelo grande Brenno Silveira.

Vinte anos depois, em 1981, essa mesma tradução (com Sebastian ainda Sebastião) foi relançada pela Francisco Alves, numa coleção que fez história na minha vida pessoal, “A prosa do Mundo”.

E agora, decorridos mais vinte anos, é lançada, pela Alfaguara, nova tradução, realizada por outro craque: José Rubens Siqueira. Já era hora. As duas são tão eficientes que me dei ao luxo de misturá-las nas citações desta minha resenha.

O narrador do romance, V., logo após a morte do escritor Sebastian Knight, revoltado com a biografia grotesca e oportunista do ex-secretário do meio-irmão (as diatribes contra o espúrio biógrafo e os trechos citados estão entre os pontos altos da prosa nabokoviana; após arrasá-lo, ele nos diz: “acho que seria melhor pararmos por aqui. Do contrário, talvez o Sr. Goodman corresse o risco de converter-se numa centopéia. Deixemos que continue quadrúpede”), lança-se numa investigação pessoal para traçar um retrato mais acurado, embora eles—após a fuga da Rússia tornada bolchevista—tenham se afastado (Sebastian foi viver na Inglaterra, tornando-se um requintado e original escritor inglês e V. viveu obscuramente—temos poucos e sombrios relances da sua existência cotidiana—em Paris). São fiapos de informações, indícios, pistas falsas e fugidias: “O que eu sabia de fato sobre Sebastian? Posso dedicar alguns capítulos ao pouco que me lembro de sua infância e juventude—mas e depois? Enquanto planejava meu livro, ficou evidente que eu teria de fazer uma quantidade imensa de pesquisa, encontrando sua vida pedaço por pedaço e soldando os fragmentos com meu conhecimento íntimo de sua personalidade…”

Esse proclamado e suspeito “conhecimento íntimo de sua personalidade”, tendo em vista as reiteradas confissões de distanciamento entre os dois e as lacunas abissais nas relações entre ambos, poderia nos levar à hipótese de que estamos diante de um exercício brilhante da “narrativa não-confiável”, à la Dom Casmurro, em que precisamos desconfiar do que nos é contado. Sem descartar essa interpretação, acho que ganharemos mais vendo na relação entre os irmãos uma alegoria da situação de Nabokov como escritor, tendo de cindir sua bagagem pessoal do exercício da linguagem: ao tornar-se um escritor da língua inglesa, como Sebastian, ele teve de “deixar para trás”, por assim dizer, a sua sombra, seu “eu” russo, o que foi a fonte dos fascinantes exercícios de duplicidade e despistamento da sua obra posterior (na verdade, já presentes–a julgar pelas versões inglesas–na sua primeira fase).

E conforme V. vai perseguindo os passos do irmão, A verdadeira vida de Sebastian Knight vai se tornando mais e mais o livro que Fernando Pessoa escreveria se fosse romancista. Após um momento extraordinário (quando o narrador nos conta sua desesperada tentativa de alcançar Sebastian antes que morresse, uma viagem angustiante, que termina com ele num quarto às escuras velando o meio-irmão e fazendo um pacto unilateral de comunhão fraterna, para depois constatar que foi ludibriado por um destino irônico), lemos aquele que talvez seja o parágrafo mais bonito da ficção contemporânea: “Qualquer que fosse o segredo dele, eu descobri um segredo também, a saber: que qualquer alma pode ser a nossa, se descobrirmos e seguirmos suas ondulações. O Além pode ser a plena habilidade de viver conscientemente em qualquer alma escolhida, em qualquer número de almas, todas elas inconscientes de seu fardo intercambiável. Assim—eu sou Sebastian Knight. Sinto como se estivesse representando seu papel num palco iluminado, com as pessoas que ele conheceu a entrar e a sair de cena… E então a mascarada se encerra…Fim, fim.Eles todos voltam a suas vidas cotidianas (e Clare volta para seu túmulo)—mas o herói permanece, pois, por mais que eu tente, não consigo sair do meu papel: a máscara de Sebastian cola-se ao meu rosto, a semelhança não se dissipa. Sou Sebastian, ou Sebastian não é outro senão eu, ou talvez nós dois sejamos alguém que nenhum de nós conhece”

O PROFESSOR ALOPRADO

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de julho de 1997)

Cético e mordaz como era, com relação à cultura contemporânea, Vladimir Nabokov (1899-1977) certamente teria se deliciado com os primários erros de informação do artigo sobre seu romance PNIN (em tradução de Jorio Dauster), assinado por Antônio Querino Neto e publicado pela Isto É da semana passada. Para começar, ele informa que o livro foi publicado em 1953, o que tornaria Pnin um livro futurista, já que contém fatos de anos posteriores. Na verdade, foi publicado em 1957, entre duas obras-primas mais famosas, Lolita (1955) e Fogo Pálido (1962)—neste último, inclusive, aparece um certo professor Pnin. Depois, o cuidadoso articulista informa que só agora o livro chega ao leitor brasileiro através da Companhia das Letras. Então, seria uma alucinação minha (oh! Santo Daime) o exemplar que julgava ter de Pnin traduzido por Pinheiro de Lemos para a Record e que li na minha adolescência, no começo dos anos 80? Uma alucinação tanto mais grave porque extraí duas terríveis certezas da leitura desse exemplar lisérgico, que a vida só fez confirmar, de lá para cá: a primeira, de que a erudição que se encastela num nicho de conhecimento especializado e que tem medo das experiências, das pessoas e dos acontecimentos, não serve para nada; e a segunda, de que por mais que se tente, as diferenças de nacionalidade e cultura acabam por ser um abismo intransponível para a compreensão entre as pessoas, e só a crescente uniformização global é que dá uma ilusão de que os países do mundo podem “entender-se” de fato (uniformidade e nivelamento por baixo não significa concórdia e compreensão).

O personagem-título é, como vários outros, um emigrado da Europa, fugindo ou do mundo stalinista ou do nazismo, ou dos dois, e que incorporou-se como professor de uma universidade provinciana nos EUA dos anos 40 e 50. E, como vários outros emigrados eruditos, não tem o menor respeito pela educação ou cultura norte-americanas. Mas o professor Timofey Pnin talvez seja o mais inadaptado dos emigrados, e o mais ridicularizado.

O livro nos oferece um retrato completo de sua personalidade, desde a sua espantosa erudição, sua ligação obsessiva com a infância na Rússia pré-soviética (os personagens de Nabokov, como o Bentinho de Dom Casmurro estão sempre tentando “atar as duas pontas da vida”), seus acessos de angústia, até os seus aspectos mais ridículos e grotescos, sua infantilidade, sua incapacidade de lidar com as pessoas, sua necessidade de ordenar o mundo à sua imagem, ou como o diz o  narrador (amigo ou inimigo de Pnin? Como saber?), pninizar a realidade.

A incrível capacidade de Pnin, com toda a sua meticulosa bagagem intelectual, de se deixar enredar pelas situações mais aviltantes, antecipa as agruras dos intelectuais dos livros do grande Saul Bellow, como Herzog (1964) e O legado de Humboldt (1975). E todos os cuidados maníacos do professor russo para assegurar sua tranqüilidade e seu encastelamento encontram eco recente nos personagens irritantemente cautelosos de Anne Tyler, por exemplo, o protagonista de O turista acidental (1985).

Além da figura do professor Pnin, Nabokov banha na soda cáustica da sua mordacidade, o mundo universitário, com seus oportunistas que se aproveitam das confortáveis carreiras acadêmicas: o chefe do Departamento de Francês, Blorenge, por exemplo, não sabe francês, e o reitor da Universidade, num discurso, fala da contribuição de homens importantes da Rússia, como Raskolnikóv (que não é outro senão o assassino de Crime e Castigo de Dostoiévski); com suas onerosas pesquisas inúteis, com seus estudantes deslumbrados com palavras da moda; ou então, com seus pilares eruditos em querelas enfadonhas e minúcias inúteis (ficar horas discutindo qual o dia exato em que começa a trama de Anna Karênina de Tolstói, por exemplo).

A mordacidade do autor de Somos todos arlequins vem sempre imersa num banho de estilo. Hoje em dia só a canadense Margaret Atwood obtenha a mesma conjunção graça-ironia, veneno retórico-desdobramento maníaco dos personagens, em livros como Madame Oráculo & Olho de gato.

Para se ter uma idéia do estilo em que Pnin é escrito, basta citar um trecho cruel como o momento em que o professor Pnin é obrigado a arrancar todos os seus dentes apodrecidos: “Surpreendeu-o verificar o quanto era afeiçoado a seus dentes. A língua, aquela foca gorda e lustrosa, costumava deixar-se cair com um baque e deslizar alegre entre os rochedos familiares, conferindo os contornos de um reino ameaçado mas ainda seguro, mergulhando da grota na angra, encontrando um pedaço de alga doce na mesma fenda de sempre; mas agora não restava nenhuma das antigas marcas do terreno, tudo o que existia era apenas uma grande fenda sombria, numa terra incógnita de gengivas…”

Ou, no outro extremo, o momento em que Pnin relembra uma antiga e doce paixão, morta em um campo de concentração (o que mostra o descompasso entre o comportamento folclórico e a vida interior do professor russo): “Pnin se ensinara durante os últimos dez anos a jamais lembrar-se de Mira, não porque, em si própria, a recordação de um caso de amor juvenil, banal e fugaz, ameaçasse sua paz, mas porque, se alguém quisesse realmente ser sincero consigo próprio, não podia esperar que a consciência—e, portanto, a autoconsciência—subsistisse num mundo onde coisas tais como a morte de Mira eram possíveis. Cumpria esquecer, porque não se podia viver com o pensamento de que aquela jovem mulher graciosa, frágil e terna, com aqueles olhos, aquele sorriso, tendo ao fundo aqueles jardins  e campos nevados, houvesse sido levada num vagão de transporte de gado para um campo de concentração… E, como não havia registro da forma exata como fora morta, Mira continuava a morrer muitas mortes na mente dele, ressuscitando a cada vez para morrer de novo, e de novo, levada por uma enfermeira para que lhe inoculassem algo sujo, bacilos de tétano, vidro moído, para ser asfixiada com ácido prússico onde imaginava que ia tomar um banho de chuveiro, para ser queimada viva numa fossa…”

   Talvez só o James Ivory de Vestígios do dia poderia traduzir cinematograficamente essa história melancólica e grotesca de alguém que pertence a um tempo destruído e morto historicamente, e que continua numa sobrevida onde tudo parece desperdício e vazio, onde tudo assume o ar paródico e sinistramente farsesco.

Só falaria, talvez, o peculiar humor nabokoviano. Só ele, aliás, permitiria ao genial autor russo compreender os medonhos projetos de capa que a Companhia das Letras insiste em colocar nas edições que vem lançando das suas obras. Com tais capas, fica parecendo que são obras de um tantã.

Porém, num mundo onde se mata gente das formas como provavelmente mataram a namorada de Pnin, qual a importãncia disso? Talvez a mesma que tenha a data exata em que começa a trama de Anna Karênina.

Lolita e a moralidade saudável

I

Lô. Lola. Dolly. Dolores. Lolita. Variações de um nome obsedante. A portadora do nome deve ser fascinante. Qual o quê! Uma vulgar pré-adolescente norte-americana de cidade interiorana dos anos 40.

Acontece, porém, que o refinado europeu Humbert Humbert se desgraça porque descobre em Dolores Haze a encarnação perfeita da ninfeta, ou seja, como ele nos explica, um demônio sedutor “entre os limites de idade de 9 a 14 anos”. Casa-se com a mãe dela, que providencialmente morre atropelada, e inicia uma louca viagem com a enteada (a partir de certo ponto, amante) “através da colcha de retalhos de 48 estados”. Depois, para manter as aparências (e finanças) fixam-se em outra cidade interiorana, Beardsley, onde Humbert Humbert encontrará num autor teatral, Clare Quilty, seu grande rival.

Lô. Lola. Dolly. Dolores. Lolita. Há livros que, além de geniais, têm uma linguagem tão peculiar, tão própria, tão exuberantemente única (no Brasil, o exemplo óbvio é Grande sertão: veredas) que deixam qualquer empreendimento similar com cara de pastiche, e imitação barata. É o caso de LOLITA, de Vladimir Nabokov, o russo que passou a escrever em inglês e que nessa língua fez coisas que até Deus duvida.

Seus livros são todos inconfundíveis (além da história de Humbert Humbert, vale destacar, entre os traduzidos no Brasil, Fogo pálido, A verdadeira vida de Sebastian Knight, Gargalhada na escuridão, Pnin,  Somos todos arlequins, A defesa), mas ele se superou em Lolita, sua criação mais poderosa.  Bem antes de ter virado um clichê (o livro foi publicado em 1955), como um Hopper das palavras, descortinou o mundo kitsch e desabonador dos motéis, lanchonetes, postos de gasolina e drugstores, entre pequenas cidades e diversões programadas, que caracterizam a vida e a paisagem norte-americanas: “Grande usuária dos banheiros de beira da estrada, minha pouco exigente Lô se encantava com os letreiros que ia encontrando: Eles-Elas, João-Maria, Cavalheiros-Damas e até papai-mamãe; absorto num sonho de artista, eu ficava contemplando o brilho honesto do equpamento dos postos de gasolina contra o pano-de-fundo do verde esplêndido dos carvalhos ou de alguma longínqua colina…resistindo ao oceano agrícola que tentava tragá-la”.

Não se pense com isso que Lolita limita-se a caricaturizar a América. Nabokov não poupa ridículo ou patético para o europeu Humbert (produto de uma miscelânea de nacionalidades, como é comum na sua obra). De fato, em Lolita (ô nome obsedante), nada tem mão única. A narrativa do homem de 38 anos enfeitiçado sexualmente pela garota de 12 atravessa maisque os 48 estados: atravessa o coração da promiscuidade da nossa época, que se contrapõe ironicamente ao delírio maníaco do narrador, impregnado pelo próprio “veneno retórico”, como Nabokov caracterizou no prefácio de um romance da sua primeira fase como escritor, Desespero.

Há, pois, uma miraculosa encruzilhada artística nessas estradas, juntando observação satírica, verve e veneno que torna Humbert Humbert, que não consegue dominar Lô, um mestre das palavras, que usa e abusa para poetizar e racionalizar sua obsessão.

Os leitores brasileiros já puderam se apaixonar há muitos anos por Lolita através da inspirada tradução de Brenno Silveira. Bem-vinda, contudo, a nova e esplêndida versão de Jorio Dauster (tradutor do também extraordinário Fogo Pálido, o único título na obra nabokoviana que pode rivalizar com a história da ninfeta paradigmática). Pena que a Companhia das Letras tenha colocado uma capa pouco feliz, como fizeram sempre com o livro aqui no Brasil, à exceção de uma edição da Abril Cultural que reproduzia o quadro O velho jardim, de Graham Ovenden. Também a orelha do superestimado Ivan Lessa não é boa, saiu fútil em demasia.

O tempo confirmou que a doença, fonte da pedofilia, encontra eco na permissividade de um mundo onde todos se oferecem como objetos e acabam marionetes de um teatro de sombras, os nomes sendo mera palavras-fetiche desdobrando-se incessantemente (Lô.Lola. Dolly. Dolores. Lolita) no vácuo da nossa cultura.

(resenha publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos,  em 23 de agosto de 1994)

II

Vladimir Nabokov afirmava, a respeito de sua obra prima LOLITA (1955), que um livro só tem valor se nos oferecer “volúpia estética”: não procuremos extrair lições morais de uma obra literária. Mesmo concordando com o autor russo, é impossível deixar de apreciar a ironia do tempo, pois LOLITA prefigurou o grande pesadelo moral do fim do século: o culto da pedofilia.

Humbert, o “mártir da combustão interna” (como ele mesmo se define), é o intelectual europeu tarado por ninfetas que passa a residir nos EUA. Na pequena Ramsdale hospeda-se na casa de Charlotte Haze e apaixona-se pela filha dela (de 12 anos). Casa-se com Charlotte, que morre atropelada, e inicia com a enteada uma viagem sem fim pelo país. Após um ano, eles fixam-se noutra cidadezinha, Beardsley, onde o ciumento Humbert tenta controlar a vida de Lolita, embora ela acabe sempre driblando a vigilância (o suficiente para conhecer Clare Quilty, que será assassinado pelo padrasto da ninfeta).

Humbert leva-a para outra viagem, na qual ela desaparece. Só irá reencontrá-la anos depois, quando ela já estiver casada com um providencial panacão. E então ela revela a Humbert a identidade do seu rival (Quilty).

Nabokov escreveu uma demolidora comédia sobre o modo de vida americano e também nesse aspecto mostrou-se um gênio profético, ao intuir  a grande mistura que caracteriza nossa época: vulgaridade e uniformidade.

Professores, donas de casa, adolescentes ginasianos, artistas, tarados, ninguém escapa do crivo venenoso de LOLITA, um livro sobre a perversidade, onde a linguagem também é perversa, porque a monstruosidade do ninfetômano Humbert é lúcida: “no curso de um só dia eu passava de um pólo de insanidade a outro –do pensamento de que por volta de 1950 teria de livrar-me sabe-se lá como de uma adolescente difícil, cuja mágica ninfescência se teria evaporado, ao pensamento de que, com sorte e paciência, eu poderia fazer com que ela eventualmente gerasse uma ninfeta que teria o meu sangue correndo em suas delicadas veias, a Lolita II, que teria uns oito ou nove anos em 1960; na verdade, a faculdade telescópica de minha mente, ou de minha demência, era tão forte que me permitia divisar, no horizonte do tempo, o excêntrico Dr. Humbert, carinhoso e salivante Dr. Humbert, praticando com a soberbamente adorável Lolita III a arte de ser avô”.

E a própria musa do poeta Humbert, a personagem-título? Pelo viés da narrativa, se é que não temos uma visão distorcida, como acontecia com Capitu, em Dom Casmurro, vemos como ela representa a permissividade pura, onde o sexo é negociado, é uma transação, que envolve um cinismo talvez pior do que a deformidade moral de Humbert.

Ele é um tarado; ela, o resultado de uma cultura toda permissiva e imoral, que se recobre de uma pseudomoral e permite que tudo seja possível. Por isso, nada mais escarninho, sarcástico e zombeteiro do que a cena em que a diretora “avançadinha” da escola onde Lolita estuda dá um sermão para o severo pai Humbert,o qual impede que sua filha mantenha relacionamentos “saudáveis” com rapazes, para o bem do seu desenvolvimento sexual.

Aliás, não faltam em LOLITA  cenas inesquecíveis. Basta lembrar da noite em claro que Humbert passa ao lado da enteada na cama, antes de eles se tornarem amantes. Poucas vezes a expectativa amorosa e sexual foi tão bem descrita.

É por isso que adotarei a atitude “não vi e não gostei” com relação ao filme realizado pelas temerárias mãos de Adrian Lyne. Depois de uma versão mais-que-perfeita de Kubrick, com James Mason irretocável (além da estupenda Shelley Winters como a mãe; só não gosto mesmo no filme do excessivamente histriônico Peter Sellers como Clare Quilty, acho que ele está over demais para o tamanho do seu personagem) por que ver Jeremy Irons em mais um papel de fissurado sexualmente (após Perdas & Danos, M.Butterfly e Beleza roubada)? Alguém ainda aguenta, apesar do grande ator que ele é, vê-lo babando por um objeto de desejo transgressor? LOLITA traduzido em imagens por Adrian Lyne é realmente o triunfo de tudo o que Nabokov satirizou num dos melhores romances do século XX.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de setembro de 1998)

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ARREBATAMENTO E EXASPERAÇÃO EM DOIS MOVIMENTOS

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PRIMEIRO MOVIMENTO – EXASPERAÇÃO

Depois que lançou Fogo pálido (1962), uma das suas obras mais brilhantes, e certamente a mais original, Vladimir Nabokov dedicou-se a reescrever em inglês seus primeiros livros (de quando ainda era um emigrado russo na Alemanha), a publicar uma polêmica (e, ao cabo, muito mal-afamada) tradução do Eugene Oneguin,  de Puchkin (que causou o rompimento da sua amizade com o mais famoso crítico norte-americano, Edmund Wilson, numa verdadeira competição de vaidades), até que surgisse em 1969 seu romance mais extenso e ambicioso, Ada ou Ardor.

Nas últimas semanas foram comentados neste espaço dois textos cujos narradores são nonagenários: Memórias de minhas putas tristes e Malone morre. Coincidentemente, no livro de Nabokov que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, numa esplêndida tradução de Jorio Dauster, (a anterior não era ruim, mas descuidada, ou editada com descuido), Van Veen é também um narrador nonagenário a nos evocar sua paixão incestuosa pela meia-irmã, Ada, desde os seus 15 anos (e ela 12). Uma paixão sob signo duplo, “mescla de arrebatamento e exasperação”, que pode caracterizar também a experiência de leitura de Ada.

Deixemos para a outra seção o arrebatamento (que torna o livro o maior lançamento de 2005). Comecemos com a exasperação. Há até pouco tempo, apesar de adorar a ficção nabokoviana pré e pós Ada (pois ele ainda publicou dois romances incríveis, e infinitamente menos pernósticos, Coisas transparentes e Look at the harlequins- Somos todos arlequins, antes de morrer em 1977), eu o achava um livro praticamente ilegível.

Entre outros motivos, porque a narrativa mostra uma visão de mundo esnobe, como se todo o mundo fosse uma fantasmagoria em torno de algumas poucas criaturas aristocráticas e sensíveis  (até então Nabokov tinha o cuidado de temperar seu elitismo implacável com uma visão crítica dos seus próprios protagonistas, seres intoxicados pela beleza, mas deveras lamentáveis). Além disso, ele a satura com mil trocadilhos, alusões, citações e  demonstrações do chamado schadenfreude (prazer malicioso com a desgraça ou a incompetência alheia), do qual Edmund Wilson o acusava (criticando seus “maus modos literários”).

Claudica-se num texto sobrecarregado por frases em francês e russo,  saturado por um clima de ficção científica: estamos na Antiterra (a Terra seria uma espécie de mito, um Além esotérico para os antiterráqueos), numa “geografia barroca”: um país que mistura as características da Rússia pré-soviética (ou seja, do século XIX), evocada com grande nostalgia, e dos EUA do século XX.  Vemos, então, grandes propriedades rurais ao modo de Tolstoi (seu Ana Karênina é parodiado logo de início) e uma tecnologia de tempos posteriores (apesar de ser um mundo onde a eletricidade foi banida, dando origem a estranhos aparelhos).

Isaiah Berlin matou um pouco a charada do aspecto exasperante, quase sufocante e intolerável, que reveste a leitura de Ada ao afirmar (sobre a tradução do poema de Puchkin): tem todos os defeitos de um virtuose auto-intoxicado com um vasto talento narcisístico”. Na mesma linha, e levando-se em conta de que se trata de um romance extraordinário e inovador, pode-se concordar perfeitamente com Alexander Gerschenkron: É deplorável que o grande esforço de Nabokov tenha sido tão tristemente distorcido em nome da decisão de ser original a qualquer custo…sendo maldosamente pedante, desabridamente emocional e vítima da própria egolatria desenfreada”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de outubro de 2005)

SEGUNDO MOVIMENTO- ARREBATAMENTO

“Quero examinar a essência do Tempo, não sua passagem, pois não creio que sua essência possa ser reduzida a seu transcurso. Quero acariciar o Tempo.

  Pode-se amar o Espaço e suas possibilidades: tome, por exemplo, a velocidade, o acetinado e o zunido da espada da velocidade, a glória aquilina de domar a velocidade, o grito de alegria da curva… Eu me deleito sensualmente com o Tempo, com seu estofo e sua largura, com o caimento de suas dobras, com a própria impalpabilidade de sua gaze cinzenta, com a brisa fresca de seu continuum… Bem sei que todos que tentaram alcançar o castelo encantado se perderam na obscuridade ou atolaram no Espaço…”

Na seção passada, a propósito de um dos grandes lançamentos do ano, a tradução de Jorio Dauster para Ada ou Ardor, foram levantados os aspectos negativos do livro: visão esnobe da vida, auto-indulgência do autor e dos protagonistas (um casal de meio-irmãos envolvidos num amor incestuoso), saturação pernóstica da narrativa.

Trata-se do livro mais ambicioso de Vladimir Nabokov, em que ele tentou igualar a ousadia de um Ulisses, de Joyce, ou a amplitude de Em busca do tempo perdido, de Proust. Lembra mais, no entanto, O jogo da amarelinha, de Júlio Cortazar, ou Avalovara, de Osman Lins,  romances onde aspectos geniais convivem com uma incômoda artificialidade, não da estrutura, mas de certas escolhas pontuais, que parecem mais exibicionismo técnico do que uma necessidade orgânica.

Entretanto, ao narrar cem anos da história da família de Van e Ada, misturando elementos do século XIX e XX, da Rússia e dos EUA (e mesmo de certos países da Europa) numa “geografia barroca”, projetando o espaço para outro planeta, Nabokov, a quem se pode acusar de antipaticamente esnobe, também faz valer outro aspecto do seu aristocratismo, moral e estético: o requinte com que descreve o amor, a paixão e o erotismo. Um requinte que não foge dos detalhes fisiológicos, incorporando-os de maneira sensacional e intensamente real, um efeito desconcertante num livro em que as armadilhas e reconstruções da memória é que dão o tom (“naquele momento, ele cuidava de colecionar as imagens de que se relembraria no futuro”).  Nesse sentido, poucas cenas da ficção  são tão genuinamente eróticas como aquelas em que Van narra a tortura excruciante da sua excitação ao ficar debruçado sobre a “prima” enquanto ela desenha insetos, sua paixão. Sem contar a extraordinária primeira vez em que a mãe dela e o pai dele transam, entre cenas de uma peça na qual ela é a estrela ele, ao possuí-la fica maravilhado “com o breve abismo de absoluta realidade entre duas falsas figurações de vida fictícia”. Que estilo!

E, apesar dos seus excessos, a própria narrativa de Ada é de um requinte inexcedível, com o desdobramento de Van em 1a. e 3a. pessoa, e com comentários de Ada entremeando-se no fio da sua evocação do passado familiar.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de outubro de 2005)

Alçapões invisíveis de onde surge a borboleta esquecida da revelação

 

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Quando comentei O grande Gatsby em resenha anterior, não obstante o lançamento oportuno de duas novas traduções do romance e minha admiração por ele, foi muito em função de ele ser o núcleo de uma das partes de Lendo Lolita em Teerã,  livro que mostra a fidelidade à literatura mesmo no momento mais adverso. Embora a obra de Azar Nafisi aborde, além de Fitzgerald, textos de Henry James e Jane Austen, seu centro mesmo, a partir do título, e mesmo porque a autora iraniana é especialista nele, está em Vladimir Nabokov (1899-1977).

Lolita (1955), um dos livros que mais amo, será preterida aqui por outra obra-prima nabokoviana, Fogo Pálido (1962), cuja tradução (realizada com uma perícia incrível, por Jorio Dauster & Sergio Duarte) acaba de ser reeditada pela Companhia das Letras, quase 20 anos após ter sido um memorável acontecimento editorial (e pessoal) de 1985, ao ser lançada pela Guanabara. Ainda lembro da minha primeira leitura, que coincidiu com a vitória de Jânio Quadros sobre Fernando Henrique Cardoso na disputa pela prefeitura de São Paulo.

Nabokov conseguiu aquele feito raro: o romance absolutamente original. Seu narrador (nada confiável), Charles Kinbote (ou um mero professor Botkin!) se apropria do último manuscrito do célebre John Francis Shade, justamente o poema intitulado Fogo Pálido, pois acredita que ele contenha elementos da sua própria biografia. Decepcionado ao descobrir que se enganara, edita o poema com um aparato crítico (prefácio, notas, índice remissivo) –que forma a estrutura do romance—cuja finalidade manifesta é desentranhar do poema de 999 versos decassílabos as referências a ele mesmo, Kinbote. Supostamente, ele seria o exilado, erudito e sodomita rei de Zembla, destronado por uma revolução e perseguido por um assassino esquerdista, Gradus, que acabaria por matar Shade.

Seria isso verdade? Ou seria a loucura de um megalômano intelectual que despreza o meio universitário e acadêmico em que vive (descrito, aliás, de forma engraçadíssima e mortífera). Em Lendo Lolita em Teerã, Azar Nafisi justifica sua  “relação especial” com Nabokov, “a despeito das dificuldades de sua prosa”: “Seus romances são moldados em torno de alçapões invisíveis, lacunas repentinas que constantemente puxam o tapete sob os pés do leitor. Eles são repletos de desconfiança sobre o que chamamos de realidade da vida diária, um senso aguçado da inconstância e fragilidade daquela realidade”. O “rei” de Zembla nos diz, por sua vez: “…sei fazer algo de que somente um artista é capaz: lançar-me sobre a borboleta esquecida da revelação, afastar-me abruptamente do hábito das coisas, ver a teia do mundo e a trama dessa teia”.

E através dele Nabokov proporciona uma das maiores experiências de leitura da história da ficção: perde-se muito com a leitura linear de Fogo Pálido, é preciso dizer. Muito mais fascinante e proveitoso é seguir o seu ritmo louco, aberto e caleidoscópico (a borboleta esquecida da revelação): uma nota remete à outra, e obriga sempre a reler os trechos do poema, sem contar as vezes em que nos leva ao índice remissivo. Por exemplo, o comentário do verso 17 remete à nota sobre o verso 596, que remete  aos versos 628 a 631 etc etc… Estamos longe, decerto, da “placidez da erudição” que, alega Kinbote, alimenta seus comentários. Estamos mesmo é sob a majestade da palavra poética, esta sim bastante real. Como ele prova triunfalmente ao mostrar a movimentação do assassino Gradus rumo à consumação do destino de John Francis Shade: “Embora Gradus usasse os mais variados meios de transporte…. a força que o impulsiona é a ação mágica do poema de Shade, o mecanismo e o ímpeto próprios dos versos, o poderoso motor do decassílabo. Nunca antes o avançar inexorável do destino recebeu forma tão sensual”. Ou ainda: “Acompanharemos Gradus  constantemente em nossos pensamentos, enquanto ele se desloca da longínqua e indistinta Zembla aos verdes Apalaches, ao longo de todo o poema, seguindo os caminhos de seu ritmo, cavalgando uma rima, dobrando a esquina de um enjambement, tomando fôlego num hemistíquio… escondendo-se entre duas palavras, desaparecendo no horizonte de um novo canto, aproximando-se sempre no compasso da métrica…”

Se a loucura tem esse estilo, quisera eu ser rei em Zembla.

(rezembla publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de dezembro de 2004)

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