MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/07/2013

FIDALGO E CAVALEIRO, E SEMPRE ENGENHOSO

Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, considerava DOM QUIXOTE  “antiquado, sórdido e grosseiro”. Trata-se de uma exceção porque o livro de Cervantes (cujo primeiro volume chega, em 2005, aos 400 anos), é particularmente amado por todos os que gostam de ler e que vêem em seu protagonista um símbolo da curiosa atividade que é a leitura.

O genial escritor do século XVIII Laurence Sterne faz várias referências brincalhonas e carinhosas a Cervantes em seu extraordinário (e quixotesco) Tristram Shandy: “Gentil Espírito do mais brando  humor, que outrora pousaste na pena desembaraçada do meu amado Cervantes”, lemos, por exemplo, no capítulo 24 do volume IX.

Pois bem, nos 400 anos do Cavaleiro da Triste Figura, o leitor brasileiro tem nas livrarias muitas versões resumidas, adaptações e, felizmente, algumas traduções completas. A mais prestigiada atualmente (mas que só contém o primeiro livro, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, pois há 2 Quixotes) é a de Sérgio Molina, numa edição bilíngüe da 34. A Nova Aguilar relançou ano passado a tradução clássica dos Viscondes de Castilho e Azevedo, e há uma edição sempre encontrável, de Eugênio Amado, pela Itatiaia. Só que a tradução de que eu mais gosto (e nisso não preciso ser necessariamente seguido por ninguém, dada a qualidade das outras) é a de Almir de Andrade e Milton Amado, que a Ediouro também reeditou há pouco. O que enche a paciência é encontrar, EM TODAS (e em outras edições), devido a uma incrível falta de imaginação e iniciativa, as indefectíveis gravuras de Gustavo Doré. Parece que ninguém pensa em ilustrar a obra-prima de Cervantes de outra forma. E na edição da Nova Aguilar, embora caríssima, as gravuras são reproduzidas  de forma tão péssima que o leitor precisa fazer um jogo de adivinhação o traço marcante do mais famoso ilustrador de todos os tempos, parece um teste de rorschach.

Cervantes (1547-1616) passou muitos anos como prisioneiro em Argel, até que conseguissem pagar seu resgate (era época de corsários e guerra com os árabes,  e tudo isso permeia seu grande romance). Publicou O engenhoso fidalgo em 1605, quando se encontrava empobrecido e esquecido, e o sucesso foi tamanho e o livro se difundiu de tal forma que alguém (certamente um inimigo literário, que utilizou o nome de Alonso Fernando de Avellaneda), em 1614,  publicou a continuação apócrifa das aventuras da dupla Quixote-Sancho Pança (na verdade, esse falso Quixote não é destituído de graça), ainda que no final do original aparecesse até o epitáfio do herói (junto com os epitáfios de Sancho, de Dulcinéia e até do cavalo Rocinante).

No ano seguinte, apareceu então o segundo livro, O engenhoso cavaleiro D. Quixote de La Mancha (já que num dos episódios mais divertidos e irreverentes do primeiro o dono de uma estalagem sagra como cavaleiro o fidalgo enlouquecido pela leitura de romances de cavalaria), poucos meses antes da morte do autor. Ele queria que, através das aventuras farsescas (e aí entram os famosíssimos episódios da luta contra moinhos de vento ou contra odres de vinho, que se afiguram gigantes a D. Quixote, rebanhos que viram exércitos inumeráveis, estalagens que se tornam castelos, etc) dos seus dois heróis, jogados no mundo que nada tem de idealizado, e através de um humor nem sempre brando e sim às vezes bastante escrachado, os leitores sentissem a insuficiência da literatura ligada aos feitos heróicos, tema amplamente discutido, em vários momentos; o principal deles, quando D. Quixote é conduzido, enjaulado,  a sua casa –acreditando-se enfeitiçado– pelo cura e pelo barbeiro da sua aldeia, e o primeiro deles conversa com um cônego, e é aí que Cervantes expõe de forma clara seus pontos-de-vista e faz profissão de fé do tipo de relato ficcional e de teatro que ele gostaria que fossem  praticados, além de colocar a teoria em prática nos diversos relatos intercalados à história principal.

O que ele acabou realizando foi o paradigma da ficção ocidental, praticada a partir dele, o livro-referência de todos os romancistas (Nabokov que resmungue à vontade). Ou alguém pensa que a matriz da jornada de Frodo e Sam Gamgi (sem contar a própria relação entre eles), em O senhor dos anéis, é outra?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos, em 30 de abril de 2005)

 

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