MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/03/2011

Virginia Woolf ou a Cabrita Jinny: Todo Mundo e Ninguém

(resenha publicada, de forma condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 29 de março de 2011)

“…o poder paradoxal de um impulso autobiográfico que se realizava no máximo da impessoalidade…”

(Nadia Fusini)

Há na Itália um grupo particularmente forte de ensaístas (alguns deles, também se destacam na ficção), que representam o que de mais arguto (além da qualidade estilística) se produz no gênero: sem falar no prematuramente falecido Italo Calvino, temos Umberto Eco, Pietro Citati, Carlos Ginzburg, Roberto Calasso, Claudio Magris. Uma lista notável

Será que poderemos acrescentar à lista acima o nome de Nadia Fusini? Ela é autora de Sou dona da minha alma (a tradução de Karina Jannini para Possiedo la mia anima, de 2006), biografia ousada e passional de Virginia Woolf (1882-1941), cujo suicídio por afogamento ocorreu  há 70 anos, como lavrou na certidão de óbito o coroner que presidiu o inquérito: “Adeline Virginia Stephen, escritora, esposa de Leonard Sidney Woolf, editor, morrera por imersão no rio, em 28 de março de 1941. Por seu próprio ato suicida. A morte ocorreu por afogamento”.

Nadia Fusini quer tornar vívida para o leitor “a trajetória de liberdade que aflora no corpus das obras woolfianas e desenha à contraluz o itinerário de uma alma em busca de si mesma”. E acrescenta: Conquista de si e domínio do próprio destino são palavras grandes, mas não tenho medo de usá-las, pois, se tivesse, não teria tentado escrever esta biografia tal como a estou escrevendo, ou seja, como a história de uma alma”.

Rejeitando o padrão (que eu considero chatíssimo) das biografias, ela dialoga com o leitor o tempo todo, desdenhando a identificação de fontes, o aparato bibliográfico, e apoiando-se nos diários, obras e correspondência da genial escritora inglesa sem ligar muito para notas e referências. É um procedimento experimental e tateante, de acordo com o próprio movimento da vida e da escrita da autora de Mrs. Dalloway: “…quando o coração pensa, a inteligência se realiza por imagens”. Nem sempre dá certo, há conclusões discutíveis, trechos apelativos e bregas (eu tenho o hábito de sublinhar o que gosto nos livros e colocar pontos de exclamação e interrogação em passagens infelizes ou com as quais eu não concordo, e as duas notações foram convivendo ao longo da minha leitura de Sou dona da minha alma[1]), mas no geral achei o conjunto feliz e verdadeiro.Mais ainda, pulsante, leve e fluido, o que, em se tratando do gênero biográfico, são qualidades raras (geralmente, os epítetos são “meticuloso”, “escrupuloso” etc).

Um dos momentos mais bonitos ocorre quando cita e comenta uma passagem da própria Virginia:

“Gostaria que meu diário se parecesse com uma velha escrivaninha capaz, na qual, sem nem mesmo olhar, se lança uma massa de coisas. E gostaria de voltar depois de um ano ou dois e descobrir que a coleção arrumou-se misteriosamente sozinha, deu a si própria acabamento e se transformou, como às vezes fazem tais depósitos, em uma matéria tão transparente que refletisse a luz de nossa vida e, ao mesmo tempo, fosse firme, tranqüila e composta, com a soberania própria de uma obra de arte”.

O comentário: “Eu diria que Virginia não faz outra coisa: como se fosse um baú, reúne na própria mente capaz e caprichosa (as duas palavras se permutam à distância de anos) os retalhos, os fragmentos, os pequenos e grandes eventos da existência, e os transforma em uma matéria verbal tão transparente que deixa passar a luz de nossas vidas, não apenas da sua”.

O livro faz um uso muito fecundo da dualidade da “loucura” de Virginia Woolf, da sua doença mental, responsável por duas tentativas de suicídio na juventude (também, pudera, ela foi abalada por várias mortes traumáticas sucessivas), por sombrios e constantes momentos de desagregação psíquica, e que nem por isso deixou de ser a fonte de onde jorravam suas percepções únicas da realidade, que revolucionaram a forma literária, e também a fonte do seu incomparável humorismo: “Virginia sabia entender o lado grotesco das situações. Não era feita para proclamações sérias, para os nobres propósitos enunciados em declarações solenes. Seu olhar era demasiadamente oblíquo, enviesado e irônico. E sublime era seu sarcasmo…”

Fusini também se ocupa do grupo de Bloomsbury, formado a partir do momento em que as irmãs Stephen (Virginia e Vanessa) ficaram órfãs, separaram-se dos meio-irmãos (que chegaram a abusar delas quando crianças), indo morar no bairro que deu nome ao grupo, e começaram a receber amigos em sua casa, nos primeiros anos do século 20, o que foi ao mesmo tempo um escândalo, e uma liquidação da mentalidade vitoriana, que só não foi até o fim porque a Primeira Guerra devastou toda uma geração[2].

“A imaginação é um peixe esquivo e fugidio. E a escritora, uma pescadora à margem de um lago com uma vara na superfície da água. Não se sabe o que pensa, se pensa… Simplesmente deixa que a imaginação nade no fundo da alma, desça à profundidade da consciência, se nutra de cada migalha de suas experiências, flutue no mundo que jaz submerso. Depois, de repente, a pescadora grita: a linha se afrouxa, a imaginação volta à superfície e flutua mole, ociosa, sem vida. Por quê? A pescadora pergunta à imaginação: por quê? E esta responde: É culpa sua, você deveria ter me dado mais experiências, e a pescadora só consegue responder: Muitas experiências me faltam porque sou uma mulher”.

Para mim, que até hoje tinha vista o feminismo de Virginia Woolf (expresso no famoso Um teto todo seu) como um aspecto interessante (e mais ligado à questão da literatura, na valorização das mulheres-escritoras), mas secundário, na avaliação da sua obra, a leitura de Sou dona da minha alma foi desveladora. Nadia Fusini mostra que a radicalização das idéias sobre a desqualificação das mulheres e a associação poderosa que Virginia fez entre o patriarcalismo misógino e o vírus fascista que percorreu (e percorre) a Europa são fundamentais na sua obra tardia (“era difícil aceitar a herança paterna[3], pois com ela se devia assumir a marca feminina segundo um valor que incluía os estigmas da exclusão”; “quando escreveu Um teto todo seu, certo rumor amargo levou vantagem; prevaleceram sentimentos de raiva contra a exclusão, e de ressentimento contra o privilégio que em toda parte marcava a especial condição do homem”)[4]. Se hoje em dia, um Robert Kurz denuncia o falso sujeito universal (homem, eurocêntrico), nos seus ensaios demolidores, porque ainda não há verdadeira igualdade, a não ser na alienação compartilhada, ainda é importante ouvir o que Virginia Woolf tem a dizer:”É tarefa da mulher alcançar a emancipação do homem”.

A conseqüência mais importante, para mim, foi compreender melhor os textos que me eram os menos caros entre toda a sua produção prodigiosa: é o caso daquele que eu achava seu pior—e o único chato—romance, Os anos (1937) e o seu mais estranho ensaio (pelo menos era o que me parecia) Três Guinéus, que são aqueles que saem ganhando nesse percurso apaixonado da biógrafa italiana pelo universo woolfiano, mais até do que suas obras-primas supremas: além do romance de Clarissa Dalloway, Ao farol (27), As ondas(31) e Entre os atos (41, o livro que escrevia ao se suicidar). Há grande destaque também para o muito amado, de forma geral, e no meu entender superestimado, Orlando (28) e sua origem: a paixão de Virginia, apesar do seu sólido casamento com Leonard Woolf, pela aristocrática Vita Sackville-West, e também para o delicioso Flush, a extravagante biografia do cão de Elizabeth Browning (é incrível como a “louca”—a “cabrita” como era chamada em família—Jinny  Stephen produziu: “Escrevia a mão todas as manhãs, das dez à hora do almoço. À tarde, copiava à máquina o que tinha escrito à mão durante a manhã. Descansava compondo resenhas e ensaios. Gostava de alternar as duas formas diferentes de escrita. Nas pausas, preenchia páginas e páignas do diário e mandava cartas,muitas cartas, aos amigos”; ela também ganhou bastante dinheiro com sua obra, quase toda editada por ela mesma e o marido na modesta Hogarth Press que eles montaram como parte da terapia ocupacional da louquinha[5]).

Nadia Fusini nos mostra que Virginia Woolf, nos seus 59 anos, nunca encontrou seu “eu”, e aliás rejeitou a identidade unívoca (“Tornara-se aquilo que queria para descobrir que não era uma identidade que buscava… Não acreditava na identidade, Errava ao deter o fluxo para colher uma identidade; as paixões devem fluir para existir. E depois ela era muito mais do que uma escritora: era uma cientista, uma observadora da realidade humana com interesses antropológicos”). Talvez essa fosse a raiz do “milagre da sua obra”: “essa extraordinária egotista sabe transformar-se em uma empática por meio dos poderes sobrenaturais e entrar não apenas na mente das pessoas, mas até mesmo recriar a de um cão”. Pois, na evolução da sua produção ensaística e ficcional, que poucos pares tem no Ocidente, quis e conseguiu “confrontar-se com a força anônima que todos arrasta, como se fôssemos todos e ninguém…” O que desembocará na sua mais inefável experiência ficcional, talvez o mais profundo de todos os seus livros, o derradeiro Entre os atos, síntese da mais alta prosa modernista-Joyce com Proust e da fenomenologia da filosofia da existência.

“Virginia escreve para que não triunfe a idéia muscular de um ´eu´ que se torne forte por ser todo racional e viril, contrapondo-se à imaginação. E se alguém no passado separou a verdade da fantasia, exaltando como virtuosa aquela vida em que a razão se divide da fantasia, Virginia se dedica a recosturar esse rasgo…”


[1] Exemplos de passagens infelizes: “Foi um amor em preto e branco, sem a névoa rosada do primeiro encanto; um amor lúcido, como podem ser lúcidas as estrelas quando brilham em uma noite escura…”; “havia uma perfeita consonância entre ambos, como dois passarinhos que unem a voz em uníssono, chegando à harmonia por ricas e rápidas passagens de acordes dissonantes…”. “A experiência da dor tinha fortalecido o músculo de seu coração…”

Às vezes não é nem a breguice que espanta, mas uma afirmação óbvia, que não dá nem para entender como alguém pode ainda lançar no papel: “…com esse romance, Virginia já começa a fazer o que fará a partir de então: dota os personagens que inventa das próprias experiências…”!!!??? Ela e 99,9% de todos os ficcionistas.

[2] Eu só não consegui entender por que Nadia Fusini se refere a esse pessoal como “estranha escória de artistas, escritores, homossexuais, lésbicas, deprimidos e histéricos”. Páginas antes, ela, conversando com o leitor me vem com esta: “…tenho a impressão—e a confio a meu leitor com certa cautela—de que sua homossexualidade [a de boa parte dos habitués de Bloomsbury] se inscrevesse no seguinte fato: eram homens, de modo geral, por designação materna. Se não desejavam as mulheres era porque, ao imitá-las, amavam aqueles que as mulheres amam como mães: os rapazes”. Ela devia ter sido ainda mais cautelosa, e guardado essa pífia impressão.

[3] Virginia adorava o pai, mas afirmou que só se tornou “a” Virginia Woolf que conhecemos porque ele morreu: sua morte permitiu que ela vivesse. Ademais, Fusini mostra como a própria adoção da biografia como forma literária, que ela experimentou tantas vezes, e das formas mais fantasiosas, era uma subversão da “herança paterna”, já que Leslie Stephen foi um grande biógrafo vitoriano.

A um amigo da época de Bloomsbury [ Desmond MacCarthy] que atacou suas idéias ela respondeu: “Sabia, por exemplo, o amigo Desmond quanto havia custado sua educação? Cento e cinqüenta libras esterlinas. E sabia por que se sentia mais próxima das mulheres operárias do que dele? Por causa das 4.150 libras esterlinas economizadas com ela em relação ao investimento familiar e social que custava um homem”.

[4] “…o desejo de escrever um livro sobre as mulheres colidiu com outro: o de escrever mais em geral um panfleto antifascista; concentrou-se mais na política e nos políticos, nos diversos comportamentos em relação à guerra e ao fascismo, e na influência do fascismo sobre a vida privada…”

[5] “A verdade é que a pequena Jinny, a cabra, ganhara duas mil libras esterlina com Orlando e, se quisesse, podia comprar uma casa na França…”; [em julho de 1937]”Chambron, seu agente literário americano, convidara-a para escrever um conto pela soma de mil dólares…”; Os anos foi publicado em 11 de março de 1937…Os leitores em massa decretaram o sucesso; o livro vendia, e vendia mais do que os anteriores. Tanto na Inglaterra, onde imprimiram 23 mil exemplares, quanto na América, onde nos primeiros seis meses houve uma procura por 38 mil…”


28/03/2011

Para levar para a ilha deserta

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(resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos, respectivamente em 14 de setembro & 21 de setembro de 2004)

I

Nicole Kidman ganhou o Oscar interpretando uma Virginia Woolf, a qual, nas argutas palavras de Doris Lessing, jamais sorri, sempre franzindo a testa para mostrar os pensamentos profundos e difíceis que estão passando por sua cabeça, numa apoteose do clichê do escritor sofredor e sensível.

Virginia Woolf sofreu deveras e tinha apurada sensibilidade, porém sua obra é perpassada por um humor especial, muito inglês. Além disso, era uma escritora muito inteligente e rigorosa, bastante consciente: após dois romances relativamente convencionais, The voyage out (aqui no Brasil, apenas A viagem) e Noite & Dia, escreveu o originalíssimo O quarto de Jacob, publicado quando ela atingiu os 40 anos (1922).

A partir daí, cada livro seu foi um experimento mais radical e inventivo: Mrs. Dalloway (1925), Ao farol (1927), Orlando (1928), chegando ao ponto máximo em 1931, com AS ONDAS (que teria o título, inicialmente, de “The moths” ), depois do qual tentaria nova e inusitada tentativa no romance realista tradicional, em Os anos (1937), até chegar ao seu último experimento, o seu toque de Ariel, um exercício de leveza etérea e diáfana, mas que parece conter a vida inteira: Entre os atos, publicado após seu suicídio em 1941.

Como todos os escritores que têm leitores apaixonados, há aqueles que preferem um ou outro dos seus romances, e fazem alarde disso, diminuindo um pouco os restantes, o que é uma bobagem numa obra onde todos são interessantes e elos de uma corrente, e na qual encontramos pelo menos quatro simplesmente geniais (e Orlando é um caso à parte). Se  tivesse de optar, fazer a seleção daquele que eu levaria para uma ilha deserta, não hesitaria em escolher AS ONDAS.

Tinha 16 anos quando o livro foi finalmente editado no Brasil, em 1981 (é a tradução que está sendo relançada agora, de Lya Luft) e é difícil esquecer o impacto e a emoção com uma experiência de linguagem que, para mim, representou a consolidação de um padrão de exigência literária.

Guimarães Rosa costumava dizer (embora seu só tenha lido isso em Uma poética de romance: matéria de carpintaria, de Autran Dourado, e em nenhum outro lugar): “faça pirâmides, não faça biscoitos”. Virginia Woolf subverte essa dicotomia totalmente. Ao contrário de outros pontos altos da ficção modernista, como Ulisses, A montanha mágica, O castelo ou Grande sertão: veredas, sua maior obra nada tem de pirâmide, no sentido monumental. Trata-se de um biscoito que revoluciona o paladar do degustador, que muda sua percepção das coisas e do mundo.

Temos a encenação de um dia da natureza, focalizando o mar desde o princípio do dia até o anoitecer. Enquanto as ondas rufam na praia, “como guerreiros com turbantes que brandiam suas azagaias envenenadas sobre suas cabeças”, seis personagens tomam a palavra, cada um isolado em seu monólogo, desde a infância até o anoitecer: três homens (Bernard, Louis, Neville), três mulheres (Jinny, Rhoda, Susan).

Bernard é quem aparentemente mais toma a palavra. Ele é aquele que necessita “do que é concreto em todas as coisas. Só assim consigo tocar o mundo. Contudo, uma boa frase parece-me ter existência independente. Ainda assim, acho que as melhores frases são feitas na solidão. Exigem não sei que refrigeração final que não lhes posso dar, eu que vivo a chapinhar no meio a palavras mornas, solúveis”.

II

É uma pena a Nova Fronteira ter omitido da nova edição de AS ONDAS a analogia que Marguerite Yourcenar faz da obra-prima de Virginia Woolf (traduzida por ela para o francês) com as variações de uma peça musical, ainda mais quando se mantiveram erros crassos (e se acrescentaram vários outros): na orelha, lemos que se trata do “sexto” romance da autora inglesa; qual dos seis anteriores (A viagem; Noite & Dia; O quarto de Jacob; Mrs. Dallowqy; Ao farol e Orlando) não seria um “romance”?

Em AS ONDAS alternam-se monólogos (da infância à velhice) de seis personagens. Há o par mais mundano, mais Dalloway, por assim dizer, no sentido de estar à vontade no mundo e com os outros: Bernard e Jinny; há o par aparentemente inadaptado e desajeitado, para quem o mundo é cheio de estranhos: Neville e Susan, os quais, entretanto, tem atrás de si os privilégios de classe típicos da Inglaterra.

O verdadeiro desamparo fica reservado ao par (aos párias) Louis-Rhoda, ele mergulhado no mundo do trabalho, ela jamais definindo um contorno para o seu ser: “…percebi, por seus casacos e guarda-chuvas, mesmo à distância, como estavam embebidos numa substância feita da reunião de repetidos momentos: estão comprometidos, têm uma atitude, filhos, autoridade, fama, amor, sociedade, ao passo que eu não tenho nada. Não tenho rosto”.

Uma das chaves do livro é o sétimo personagem: Percival. Há uma tendência na literatura inglesa, que prolonga a mentalidade greco-romana clássica (essa filiação de AS ONDAS já fica clara na alusão à aurora de róseos dedos dos poemas homéricos: “…o céu se fez translúcido… como se o braço de uma mulher deitada sob o horizonte erguesse uma lâmpada… Devagar, o braço que sustinha a lâmpada ergueu-a mais alto e uma larga chama aparece enfim”, temos aí natureza e tradição cultural): a exaltação da juventude e da beleza, que coloca o resto numa perspectiva angustiante, de declínio e desperdício. Percival, já portador de nome romanesco, é belo, inconsciente e morre jovem, após ter catalisado o embevecimento e a inveja dos demais, permanecendo como um Dorian Gray fantasmagórico ao longo das suas vidas.

Em tempo: está sendo lançado também A casa de Carlyle e outros esboços (Carlyle´s house and other sketches, organizado por David Bradshaw e traduzido por Carlos Tadeu Galvão), um daqueles inevitáveis títulos póstumos que exumam morbidamente textos (no caso, de 1909) os quais talvez devessem permanecer jazendo no fundo da gaveta. E que, ao fim e ao cabo, ocupam apenas vinte páginas da edição. O resto é formado por notas e comentários, embora haja um inesperado presente: um prólogo maravilhoso e penetrante de Doris Lessing que, aos 84 anos, ainda está com a corda toda. O maior dos escritores vivos é uma presença tão poderosa nas páginas de A casa de Carlyle que acaba por relegar a própria autora dos textos a segundo plano.

DUELO ENTRE A MÃE E O TEMPO

 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 9 de maio de 1993)

Além de ser um dos maiores romances do século, Passeio ao farol (1927), de Virginia Woolf, é também uma profunda reflexão sobre o papel da mãe em nossa vidas.

O livro conta, se é possível dizer isso, a história da família Ramsay, que passa o verão nas Ilhas Hébridas (costa da Escócia), com seus muitos agregados e “protegidos”. Todos ora admiram ora invejam ora se incomodam com a sra. Ramsay, que não só cuida para que tudo corra bem com seus oito filhos e o marido, um conceituado pensador, como também influi na vida alheia. A sua presença, a força da sua maternidade, são o centro das atenções: sua casa de verão está gasta e empobrecida, há expectativas frustradas (como um planejado passeio ao farol local, que não acontece) e problemas afetivo-românticos, mas aparentemente ela consegue manter tudo coeso.  Ela, em si mesma, é um farol, um centro fixo.

A sra. Ramsay domina a própria narrativa: seguindo o seu ritmo interior, Virginia Woolf (que se inspirou na própria mãe) suspende o tempo, por assim dizer, pois tudo que está integrado ao mundo, à existência pura, não o sente. É por esse motivo que a sra. Ramsay, aos 50 anos, desperta “algo” em homens e mulheres, e é por esse motivo que, no vai-e-vem cronológico, o leitor fica sabendo  dos “fatos” muito mais pela ótica das personagens masculinas, intelectuais  que não conseguem a suprema integração da sra. Ramsay ao espetáculo do mundo, bem como Lily Briscoe, a pintora que não constitui família e permancerá estéril.

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O poder da sra. Ramsay tem muito de ilusionismo: transmite a sensação de permanência e segurança, enquanto intimamente também se ressente das modificações inelutáveis que o tempo traz: “Não queria que James ficasse nem um dia mais velho, nem Cam… gostaria de conservar os dois para sempre assim mesmo…nunca vê-los crescer. Nada poderia compensar essa perda… Gostaria de ter sempre um bebê. Era a pessoa mais feliz quando carregava um bebê nos braços… E, tocando no cabelo de James com os lábios, pensou: Ele nunca será tão feliz como agora”.

Pois, como todos sabemos, o “tempo passa”. Na segunda parte, vem a Primeira Guerra Mundial, a sra. Ramsay e outros membros da família morrem e o círculo de amigos fragmenta-se. Os sobreviventes reencontram-se na 3a. parte, anos depois, e finalmente realiza-se o tão almejado passeio ao farol. E é justamente na reconstituição desse projeto que todos constatam o efeito do tempo e a falta da mãe, e, ao mesmo tempo, se dão conta da ilusão que ela conseguiu manter enquanto viva, e como essa ilusão teve um poder mágico sobre suas vidas: “E no mesmo instante em que ela se foi, uma espécie de desintegração se instalou, todos andavam sem rumo, seguindo caminhos diferentes”.

 

A “salvação” possível está na obra de arte, a única forma de se realizar no tempo, uma vez desfeita a integração com a natureza, com a mãe ausente. É o que faz Lily Briscoe, terminando seu quadro na praia, enquanto os demais visitam o farol, em busca do tempo perdido: “Qual o sentido da vida? –Isso era tudo — uma pergunta simples, das que tendem a agrilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando, a sra. Ramsay dizendo: Para aqui, vida!, a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente –isso seria da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma”.

O tempo vence a mãe, decerto, mas ela permanece como o caminho para a  volta (à infância, à criação, ao sentimento de existência plena). E a ida ao farol, mais que um passeio real, transforma-se na forma do desejo que nós sempre mantemos em nosso espírito de (re)alcançar isso tudo.

nota de 2010- Nessa resenha de 17 anos atrás, eu comentava a tradução de Luiza Lobo publicada na série “Grandes Romances” da Nova Fronteira (há uma anterior, de Oscar Mendes). Essa mesma tradução ganharia o título de Rumo ao farol (numa coleção da Publifolha) e Ao farol (pela Ediouro). O título original do livro de Virginia Woolf (1882-1941) é To the lighthouse.

A ANFITRIÃ NO ALTO DA ESCADA E O SALTO MORTAL

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 03 de junho de 2003)

Surpreendentemente, uma das conseqüências da repercussão do filme As horas, que deu o Oscar para Nicole Kidman no papel de Virginia Woolf, foi colocar na lista dos mais vendidos Mrs. Dalloway (1925), uma das quatro grandes obras-primas da autora inglesa (as outras são As ondas, Ao farol e Entre os atos, me desculpem os entusiastas de Orlando) que parecem, como já disse e redisse,  verdadeiros milagres por causa da leveza com que conseguem concentrar um infinito de coisas. Não existe nada parecido.

Quando comentei nesta minha coluna de A TRIBUNA As horas (em setembro de 1999), depois de constatar como era fraco o livro de Michael Cunningham (o qual, entretanto, conseguiu inspirar um filme superior a ele), lamentava que Mrs. Dalloway, que o inspirara,  não estivesse em circulação no Brasil há muitos anos. Por ironia, graças a três grandes atrizes e estrelas de Hollywood (além de Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore, esta última roubando a cena; aliás, a sua parte também era a melhor do romance de Cunningham), essa lacuna foi corrigida, feito não conseguido pela modorrenta versão cinematográfica do romance, com Vanessa Redgrave no papel-título.

Clarissa Dalloway é a esposa de um político que prepara uma recepção em sua casa e sai para comprar flores. Ser anfitriã, postar-se no alto de uma escada, é o heroísmo dela, a couraça de seu caráter, e ao mesmo tempo a mantém distanciada dos outros, que a vêem como fria e convencional.

No passado, ela teve dois elos românticos: apaixonou-se pela libertária Sally Seton e pensou em casar-se com o também pouco conveniente Peter Walsh (ambos acabarão comparecendo à sua festa).

Mrs. Dalloway preocupa-se, também, com a ascendência que a fanática miss Kilman mantém sobre sua filha adolescente, Elizabeth. Paralelamente, conta-se o processo que leva Septimus, ex-combatente (toda a atmosfera do livro é permeada pelo pós-guerra de 1914) ao suicídio (pulando de uma janela), notícia que chegará aos ouvidos de Clarissa em plena festa (o que nos proporciona um trecho belíssimo, ainda mais traduzido por Mário Quintana: “Mas esse jovem que havia se suicidado, mergulhara acaso com o seu tesouro? Se tivesse de morrer agora, seria no  momento mais feliz, dissera consigo certa vez, ao descer a escadaria, toda vestida de branco”).

Uma das grandes transformações efetuadas pelo Modernismo foi a apreensão do cotidiano e a reformulação do tempo narrativo (a ação de Mrs. Dalloway passa num só dia). Virginia Woolf, a partir de O quarto de Jacob (1922) levou  isso a limites insuspeitos. Além disso, com o passeio da protagonista para comprar flores e as andanças de Septimus e sua esposa Rezia antes da consulta com o arrogante médico Sir William Bradshaw, Mrs. Dalloway, assim como Ulisses, de James Joyce (que Virginia Woolf leu na época com sentimentos ambivalentes: os seus diários nos dão uma idéia de alguém fundamentalmente competitivo com relação a seus colegas), oferecem o equivalente ficcional da poesia da vida urbana inaugurada por Baudelaire:

“… que loucos somos, pensava ela, atravessando Victoria Street. Só Deus sabe como se ama a isto, como se considera a isto, compondo-o sempre, construindo-o em torno de nós, derrubando-o, criando-o de novo a cada instante; até as últimas mendigas, as mais baixas misérias dos portais faziam o mesmo; impossível salvá-las com leis parlamentares, por esta simples razão: amava a vida. Nos olhos dos passantes,na sua pressa, no seu andar, na sua demora, no burburinho e na vozearia; carros, autos, ônibus, caminhões, homens-sanduíches, bamboleantes e tardos; charangas, realejos, na glória e no rumor e no estranho aerocanto de algum avião sobre a sua cabeça, estava isto, que: que ela amava a vida. Londres, aquele momento de junho (…) e ela própria, também, amando como amava aquilo com uma absurda e religiosa paixão, parte que era daquele mundo, pois os seus iam a palácio desde a época dos Jorges, ela própria ia, naquela noite, receber e iluminar: ia dar a sua festa”.

ODISSÉIA NO ESPAÇO INTERIOR

A Novo Século está relançando vários títulos de Virginia Woolf. A fascinação pela água permeou toda a sua obra (além da sua morte: ela se afogou) e fornece o motivo simbólico de A Viagem (The Voyage Out), seu primeiro livro (que já fora lançado por aqui, numa capa constrangedora, pela Siciliano), no qual narra a travessia do Atlântico por Rachel, a qual, aos 24 anos, parece demasiado inexperiente. Órfã de mãe, viaja com o pai num dos navios de que ele é proprietário, a bordo do qual é beijada por um homem mais velho, Richard Dalloway. Ele e sua esposa reaparecerão dez anos depois numa obra-prima: Mrs. Dalloway, que forma com Ao Farol (27), Entre os Atos (41) e sobretudo As Ondas (31) o quarteto dos livros maiores da genial escritora inglesa.

E numa obra que, como o mar, é fluir e refluir de temas, A Viagem é a primeira escala e apresenta o convencionalismo de uma paisagem que não fica muito distante das indicações rotineiras dos guias turísticos (o que não significa que não seja deslumbrante e possa surpreender), e essa timidez aventureira é o que respalda restrições de críticos e leitores comuns, que também se entendiam com a segunda escala, Noite e Dia (19), por manter-se igualmente na segurança das rotas habituais, mas sem os equipamentos necessários de entretenimento que um investimento desses requereria. É aos poucos, com lento progresso, que Woolf atingirá seus postos avançados e embrenhar-se-á por caminhos peculiares, deixando-se levar pela deriva das correntes internas, chegando, assim, ao coração das trevas dos mares interiores.

É ainda pálida a indicação dessa intrepidez na trajetória de Rachel, após o beijo e a chegada à América Central, ambos os eventos despertando sentimentos que a fazem, entre outras conseqüências, aproximar-se da tia, Helen, primeira encarnação de um tipo de mulher admirado por Virginia Woolf e que será retratado de maneira definitiva na Mrs. Ramsay de Ao Farol.  Na América, Rachel se apaixona por Terence e freqüenta o estreito círculo social de estrangeiros, permitindo a Woolf começar a mostrar suas cruéis garras satíricas, enquanto a heroína desabrocha, tanto no sentido da sexualidade (mais circunspectamente do que nos livros de D.H. Lawrence) quanto no sentido de conhecer o poder do “momento”, de imergir na efemeridade do instante pleno: “A névoa que os envolvera, fazendo-os parecer irreais, desfazia-se um pouco mais…Como naquela ocasião no hotel em que ela se sentara na janela, o mundo se organizava debaixo do seu olhar muito nitidamente, e em suas verdadeiras proporções”.

Ao percorrer (e introduzir na ficção), em seus melhores momentos, espaços insólitos, que não estavam ainda demarcados, o evanescente e impressionista romance de estréia de Virginia Woolf nos coloca no pórtico de uma das realizações artísticas mais significativas do século XX e justifica o famoso e oracular dito de Georg Lukács: “começou a estrada, a viagem terminou”.

(resenha publicada em primeiro de novembro de 2008)

27/03/2011

Exigência de CPF de identidade sexual limita acesso de AS HORAS à grande literatura

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de setembro de 1999)

Uma coisa é preciso admitir ao se comentar As horas (tradução de Beth Vieira para The hours, 1998), romance que ganhou o último Pulitzer: Michael Cunningham tem coragem. Correndo o risco de ser esmagado e pulverizado, ele se propõe a criar uma versão atual de Mrs. Dalloway (1925), um dos quatro livros “miraculosos” de Virginia Woolf (os outros são, a meu ver, Passeio ao farol, As ondas e Entre os atos) que conseguem sustentar uma finíssima percepção das angústias humanas, transcendência estética e um infinito de coisas por meio de uma “leveza” que nos deixa atônitos. Não conheço nada igual.

A ação de As horas também é concentrada num único dia, transportando os acontecimentos da Londres pós-Primeira Guerra para a Nova York atual. No livro de Woolf, Clarissa Dalloway é a esposa de um político que prepara uma recepção em sua casa e sai para comprar flores. No passado, ela teve dois elos românticos: apaixonou-se pela libertária Sally Selton e pensou em se casar com o também pouco convencional Peter Walsh (ambos comparecerão à sua festa). Mrs. Dalloway preocupa-se também com a ascendência que a fanática Miss Kilman mantém sobre sua filha adolescente, Elizabeth.

Paralelamente, conta-se o processo que leva Septimus, ex-combatente, ao suicídio, pulando de uma janela, notícia que chegará aos ouvidos da heroína-anfitriã em plena festa.

A Clarissa (Vaughn) de Michael Cunningham também sai para comprar flores para uma festa. Só que, pós-revolução sexual e pós-reivindicação de direitos das minorias, ela casou mesmo foi com outra mulher, justamente chamada Sally, com quem vive há 18 anos. Seus elos românticos do passado são dois gays com os quais manteve um breve triângulo, Richard e Louis. É para Richard a festa que Clarissa prepara: ele recebeu um prêmio importante, mas está em estágio terminal devido á AIDS. Louis, por sua vez, assim como Peter Walsh, em Mrs. Dalloway, reaparece providencialmente nesse dia.

Tal como sua ancestral literária, Clarissa Vaughn preocupa-se com a relação da filha, Julia, com uma mulher mais velha, só que dessa vez a “mentora” é uma lésbica militante, com um visual agressivo e radical, e que despreza a relação burguesa (mimetizando o casamento hétero convencional) mantido por Clarissa e Sally.

Além de ser o motivo da festa e a referência romântica de Clarissa similar à Sally Selton do original de Woolf, Richard exerce a função de desmancha-prazeres da “festa” da vida que, em Mrs. Dalloway, era de Septimus: ele também se atira da janela do seu apartamento.

O texto de Cunningham se ressente da sua cuidadosa tentativa de manter a espinha dorsal de Mrs. Dalloway. Mesmo fazendo as adaptações necessárias, ele criou situações similares para quase todos os episódios do livro original. Isso torna As horas muito calculado e, de num certo sentido, artificial e cansativo, quando não ridículo. Bem pior que (embora atrelada a) isso é a impressão que se tem de que a qualidade das pessoas como material literário deteriorou-se. É incrível como Clarissa Dalloway, seu marido Richard, Sally Selton, Peter Walsh, Septimus, sua esposa Rezia, nos parecem infinitesimalmente apaixonantes e absorventes (e olhem que Mrs. Woolf era acusada de não saber criar personagens consistentes!, era tida como uma ficcionista demasiado “evanescente”), e como Clarissa Vaughn, Sally, Richard, Louis e os outros personagens da releitura cunninghiana nos parecem chapados, rasos, completamente presos às suas escolhas sexuais estereotipadas. Pode ser horrível o que eu vou afirmar, mas a verdade é que, se a liberdade de assumir foi um grande passo para as minorias sexuais, no quesito direitos civis, foi ao contrário um desastre no quesito profundidade literária. Se Clarissa Dalloway foi apaixonada, numa certa altura de sua vida, por outra mulher, isso não prejudica em nada toda a riqueza prismática de sua caracterização literária para o leitor. No caso do universo de Cunningham parece que os personagens não passam da soleira das suas opções de identidade sexual, por mais que os autor procure problematizá-los. Por isso, parecem tão banais.

O que salva, relativamente, As horas são os dois outros planos narrativos que ele tramou: num, narra-se um dia de 1923 na vida da própria Virginia Woolf, em que ela está escrevendo justamente Mrs. Dalloway; noutro, um dia de 1949 na vida de Laura Brown, mãe de Richard, o poeta amigo-obsessor de Clarissa Vaughn que se atirará pela janela décadas mais tarde.

Essas duas outras partes alternadas do romance são muito mais interessantes (há, na parte de Laura, até uma alusão ao magnífico No quarto dezenove, um conto-chave de Doris Lessing, a qual acompanha Virginia Woolf no posto de maior escritora do século). Será que é por que essas pessoas não tinham um CPF de identidade sexual? Ou será que, de 1923 e 1949 aos dias de hoje o ser humano se desgastou como matéria prima para a ficção?

Portanto, sem desmerecer ou desqualificar totalmente os esforços ambiciosos de Michael Cunningham, o que esta resenha pode fazer de melhor é recomendar insistentemente ao leitor que, se já não o fez, leia Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e torcer para que esse livro inigualável entre em circulação novamente no Brasil, pois anda sumido há um bom tempo das livrarias.

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