MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/11/2011

DESVENTURAS EM SÉRIE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 2009)

Qual o nome do filme em que o grande astro de Bollywood Armaan Ali contracenou com a estrela Priya Kapour pela primeira vez? Qual é a seqüência de letras encontrada no alto de uma Cruz? Qual é o menor planeta do sistema solar? De que Deus era devoto Surdas, o poeta cego? Quando um governo afirma que um diplomata estrangeiro é persona non grata, o que isso quer dizer? Qual é a capital de Papua-Nova Guiné? Quem inventou o revólver? Qual é a maior condecoração por bravura conferida pelas forças armadas indianas? Quantas vezes o maior rebatedor da Índia, Sachin Malvankar, marcou 100 pontos? Em que ano Neelima Kumari, a Rainha da Tragédia, ganhou o Prêmio Nacional? Em que peça de Shakespeare encontramos o personagem Costard? Qual era o nome do pai de Muntaz Mahal, a esposa do imperador Chah Jahan e em memória da qual foi construído o Taj Mahal? Qual é o tom da sonata para piano número 29, opus 106, de Beethoven, também conhecida como Sonata Hammerklavier?

São treze perguntas (na verdade, deveriam ser doze) que fazem de um garçom de pouquíssima instrução, morador de favela na Índia, um bilionário num programa televisivo, em Sua resposta vale um bilhão [“Q&A”,  2005] brilhante romance de Vikas Swarup,  o qual, adaptado para o cinema por Danny Boyle (Quem quer ser um milionário), tornou-se o vencedor absoluto do Oscar deste ano. As perguntas (menos a última) são o arremate de cada capítulo, numa costura narrativa de uma habilidade, de uma vitalidade, e de uma leveza que eu  não encontrava em nenhum contador de histórias desde os romances do genial John Irving (As regras da casa de sidra), a quem ele lembra, inclusive, pelo modelo escolhido (Charles Dickens) de mostrar o protagonista através das suas desventuras em série (há abuso sexual, prostituição, assassinatos, inclusive alguns cometidos por um matador de aluguel e apostador, doenças, gangues que aleijam meninos para que se tornem pedintes, epidemia de raiva, corrupção, espionagem, e, permeando tudo, a miséria e a injustiça social) narradas de forma admirável, não-linear, sempre coesa e envolvente (a concatenação temporal e o vigor folhetinesco dos episódios mostra que Vikas Swarup é um escritor que veio para ficar, caso mantenha esse pique em obras futuras).

E faz tempo que eu não lia algo tão delicioso, sentindo-me culpado por me divertir tanto com esse verdadeiro catálogo da maldade organizada pelo homem que é chamado sociedade. É até difícil escolher um ponto alto, embora o capítulo sobre a Rainha da Tragédia seja particularmente notável, mesmo porque nele aparece, discretíssimo, um elemento-chave, que depois justificará a participação, no programa, do herói, Ram Mohammad Thomas, esse nome tão heteróclito, espelho da diversidade indiana, que ele atravessa de ponta a ponta em suas muitas aventuras e errâncias de jovem destituído de tudo, joguete nas mãos dos “traficantes de sofrimento”.

E a presença das referências cinematográficas, apesar da exoticidade da indústria indiana, mostra como essa arte moldou a nossa mentalidade, para o bem ou para o mal. Bollywood não é tão longe daqui.

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