MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/11/2011

O SUPREMO FABULISTA DO NOSSO TEMPO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 19 de junho de 2001)

Do comentário sobre Retrato em Sépia (https://armonte.wordpress.com/2011/11/25/o-leitor-de-isabel-allende-e-antes-de-tudo-um-forte/), de Isabel Allende, ficou a seguinte questão: será possível, hoje em dia, contar histórias e não repetir chavões, não ser previsível?

Sim, é possível. A prova é VIÚVA POR UM ANO [“A widow for one year”, 1998; tradução de Vera Whately], o mais recente romance de John Irving, certamente o mais extraordinário contador de histórias em atividade.

Um de seus personagens, Owen Meany (de O filho de Deus vai à guerra) não acreditava em acaso ou coincidências. Parece mais sábia, contudo, a visão do dr. Wilbur Larch (de As regras da casa de sidra): “Minha experiência é a de que praticamente tudo é deixado ao acaso, na maior parte do tempo”. Ao contrário de J.D. Salinger, cujos personagens se amparam numa escala de valores transcendentes (tomada da filosofia mística oriental), os de Irving, igualmente neuróticos, têm de criar (e às vezes destruir) suas próprias regras num mundo arbitrário, caótico, violento e bizarro. Até mesmo Owen Meany.

Criar regras para si mesma é o que tolhe Ruth Cole diante da vida, em Viúva por um ano, desde o seu abandono pela mãe, aos 4 anos. Criada pelo pai, um mulherengo meio alcoólatra que escreve assustadoras histórias infantis (o leitor chega a conhecê-las ao longo do romance, principalmente num momento-chave da trama), ela se torna uma romancista prestigiada e perseguida por certos leitores,  aqueles que não se conformam com o uso que faz de temas como aborto ou viuvez, sem a “experiência direta”:  “As pessoas negavam que a imaginação fosse real, ou insistiam que a imaginação não era tão real quanto as experiências pessoais, era sempre a mesma coisa (…) Por que as mulheres eram de longe as piores leitoras quando um assunto mexia com sua vida pessoal, pensou Ruth.  O que fazia uma mulher imaginar que seu estupro (ou seu aborto, seu casamento, divórcio, a perda de um filho ou de um marido) era a única experiência universal?”

É o caso de uma leitora viúva, que vaticina um triste futuro para Ruth, a essa altura prestes a casar com um homem mais velho. Outra complicação: às vésperas do casamento, em Amsterdã, procurando material para um novo romance, Ruth acaba assistindo (trancada num guarda-roupa, o que a remete aos livros infantis do pai—uma associação de elementos típica do universo irvinguiano) ao assassinato de uma prostituta. Esse crime e a identidade da testemunha ocupam a imaginação do sargento da polícia holandesa Harry Hoekstra, mas ele só encontrará a sua testemunha quando ela já estiver viúva há um ano.

Por que Marion, a mãe, abandonou Ruth? Tendo perdido seus dois filhos num acidente de carro (não tão grotesco quanto o que mata um filho e cega outro em O mundo segundo Garp, mas igualmente marcante), só por insistência do marido, o autor infantil, é que teve outro filho, entretanto acha que não será boa mãe por causa do seu ânimo desolado. Em 1958, aproveita seu caso com um rapaz de 16 anos, Eddie O´Hare (o qual reaparecerá mais tarde na vida de Ruth e até julgará durante certo tempo estar apaixonado por ela), para sumir. Sua ausência absoluta e o mistério da sua personalidade permeiam toda a fantástica trama de Viúva por um ano.

Por falar em trama, quando lemos os romances de John Irving a sensação é de que estamos lendo vários romances ao mesmo tempo. São sempre romances  totais.  Um exemplo magnífico dessa capacidade de fazer convergir, com perícia, muitas linhas narrativas é o capítulo final da primeira parte, quando Eddie O´Hare, após sua educação sentimental por Marion, volta para casa. Ele está na barca que o leva para fora de Long Island (palco dos acontecimentos de 1958, antes de pular para os anos 90). Em poucas páginas, não apenas reaparecem elementos anteriores à sua ida para a casa dos Cole (ele foi trabalhar como assistente do pai de Ruth), como também o narrador nos apresenta os prolongamentos futuros da sua vida (sua carreira como escritor,  como usou pessoas conhecidas como  personagens, como sempre foi capaz de sair do autobiográfico nos seus livros) e o leitor tem a sensação vertiginosa de que um túnel do tempo se abriu e o tragou. Não é um relatório da trajetória  de Eddie (que nem é um personagem central do livro) durante décadas, como faria uma escrevinhadora medíocre como Isabel Allende [1]. É um caleidoscópio temporal onde vemos o Eddie O´Hare de 16 anos e o Eddie do futuro sobrepostos. É um momento de extremo virtuosismo narrativo, que só é igualado, em Viúva por um ano, quando Ruth está concebendo o romance que a levará a testemunhar o crime do homem-toupeira.

Outro ponto alto do livro é a obsessão familiar com relação às fotografias dos meninos mortos. Na casa dos Cole há fotos deles em todos os lugares e Ruth, que não os conheceu, vive o passado como se fosse o presente, ao pedir, diante de cada foto, que se conte as circunstâncias em que foram tiradas. Quando Marion vai embora, levando praticamente todas elas,abre-se um buraco e, diante dos pregos onde elas estavam antes penduradas,  ela e o pai tentam preenchê-lo recontando as fotos ausentes. Alguém quer melhor metáfora para a construção de um ficcionista? Aliás, até a fascinante Marion acaba se tornando uma romancista (na nova vida que assume), cujo tema é justamente o desaparecimento de crianças e sua sobrevida em fotografias (e o resumo dos enredos de seus livros é arrepiante).

Viúva por um ano é um grande momento de John Irving, ainda mais vindo na esteira de livros menos impactantes (O filho de deus vai à guerra, Um filho do circo) do que o inigualável trio As regras da casa de sidra (o melhor de todos),  Hotel New Hampshire & O mundo segundo Garp. Entre todos eles, se aparenta mais a Hotel New Hampshire na sua insistência de um final feliz, contrariando todas as expectativas da alta literatura contemporânea. Irving destoa no chorus line do pessimismo. Assim como José Saramago, ele é um dos poucos escritores contemporâneos que deixam o leitor fortalecido, mais amparado existencialmente, após a sua leitura. Não é isso que o torna um grande escritor, claro, mas é inegável que faz parte do seu inigualável encanto.

Em tempo: na página 455 da edição brasileira, há toda uma diatribe de Harry Hoekstra com relação às fotos de autores nos livros. O que ele diria se visse a foto de John Irving colocada na orelha de Viúva por um ano? Parece que, ao invés de estarmos vendo o supremo fabulista do nosso tempo, temos um retrato distribuído pelos órgãos policiais de um tarado ou de um maníaco homicida., de um Jack Nicholson, encarnando Jack Torrence, perseguindo a família com um machado, em O iluminado! Por isso, cuidado, leitor: ao contrário do que a foto do autor sugere, a história de Ruth Cole não é de terror.


[1] Nota de 2010: e para os que estranham quando eu digo que Travessuras da menina má, de Vargas Llosa, é fraco, aproveito para esclarecer que o defeito principal do livro, que atravessa décadas, é esse: muitas vezes lemos um “relatório”, não uma narração, mais um enfileiramento jornalístico de fatos e considerações do que um exercício de ficção., e esse defeito vai se evidencia principalmente nos últimos capítulos.

05/08/2010

ENFORCANDO-SE NOS LAÇOS DE TERNURA

Pelo menos dois tremendos desapontamentos Anne Tyler teve de enfrentar nos últimos anos. Um, é o fato de ter sido omitida por Harold Bloom na lista final de O Cânone Ocidental, das leituras que valem a pena ser resgatadas da enxurrada anual de lançamentos; a outra: encarar as capas que os editores brasileiros colocam nas traduções dos seus romances.

Por exemplo, na tradução anterior de Escada dos Anos (editada pela Mandarim), um tal Paulo Rogério dos Santos concebeu uma mulher esvoaçante e diáfana diante de um mar douradíssimo. Lembrava aqueles comerciais do Leite Molico no qual as pessoas que o tomavam dançavam sem parar nos tetos de edifícios, como que acometidas de uma diarréia cerebral que as obrigava a um instantâneo ataque de comportamento debilóide. Pois a Record relançou o livro em nova tradução, até mais caprichada, nem por isso melhorou a embalagem agridoce com a qual insistem em sabotar um dos principais nomes da ficção contemporânea.

Agridoce? Nada mais amargo do que o saldo final de Escada dos Anos, onde a escritora que pôs Baltimore definitivamente no mapa da literatura mostra como construímos jaulas à nossa volta, mesmo que tentemos depurar nossa vida. É o que faz Delia, a protagonista. Casada, três filhos, primeiro flerta com a possibilidade de adultério com um rapaz que conhece num supermercado (o começo do livro é ótimo, uma prova do domínio absoluto de Tyler sobre o reino do diálogo). Quando está passando férias com a família, um dia sai pela praia afora, pega uma carona com um desconhecido e some, assumindo nova identidade na pequena cidade de Bay Borough, a princípio como secretária, depois como uma espécie de governanta. O período como secretária, quando Delia procura esvaziar sua antiga personalidade, seus hábitos e “sentimentos” adquiridos, é o grande momento do romance (que perde um pouco do pique a seguir): “Era curioso como a vida dava um jeito de erguer camadas de coisas em torno de uma pessoa. Ela já adquirira o abajur, porque a lâmpada no teto se mostrara inadequada para ler na cama; e guardava uma pilha de copos de papel e uma caixa de saquinhos de chá na prateleira do closet, usando até agora a água quente da torneira do banheiro; era óbvio que precisava comprar um segundo vestido. Ontem à noite, a primeira noite realmente quente do verão, ela pensara: preciso comprar um leque. Mas depois dissera a si mesma: pare com isso, pare enquanto ainda tem a vantagem”.

Logo Delia vai criar relacionamentos, repetir padrões emocionais, até o ponto em que Escada dos Anos equacionará sua nova vida com relação à antiga. Sempre com a atenção implacável, até obsessiva, de Tyler com os detalhes (roupas, objetos, gestos), atenção que supera até mesmo a maestria dos diálogos.

Talvez seja um fato incontestável que ela diluiu seu talento com cartas marcadas, já sem a força total dos romances dos anos 80 (Escada dos Anos é de 1995), que talvez fiquem como o grande período de sua obra, com títulos do calibre de A Passagem de Morgan (80), o extraordinário Refeição no Restaurante da Saudade (82), os também maravilhosos O Turista Acidental (85), que foi filmado lindamente por Lawrence Kasdan (com um William Hurt simplesmente genial), e Lições de Vida (88).

Às vezes sentimos falta também da densidade de uma Mary Gordon (Homens & Anjos) ou da voltagem emocional de uma Sue Miller (Por Amor), para lembrar contemporâneas suas. Os personagens de Anne Tyler são muito cheios de nhénhézices, tendo crises de angústia por ultrapassar um sinal vermelho (e isso foi ficando cada vez mais pronunciado nos livros mais recentes). Mas ela jamais cai no nível do mero entretenimento ou se torna uma auto-ajuda ficcional. Basta ler um trecho como o seguinte, para não haver dúvidas: “Lembro de uma fotografia que ele tirou quase no final de sua vida. Mostra sua mesa posta para a ceia de natal. O próprio Savage senta entre as cadeiras vazias, esperando por sua família. Sucessivas cadeiras, os talheres e louças na mesa, até um cadeirão de bebê, tudo arrumado. E não posso deixar de pensar, quando olho para essa foto, aposto que foi o melhor que houve naquele dia. Desse momento em diante, foi tudo por água abaixo. Os filhos e filhas chegaram, repreenderam suas crianças pelas maneiras à mesa, lembraram-se de incidentes desagradáveis ocorridos há quinze anos; e um bebê não parava de choramingar, deixando todo mundo com dor de cabeça. Só que naquele instante nada disso acontecera ainda, a mesa estava linda, uma mesa de sonho, o velho Savage sentia-se muito feliz…”

Por isso, mesmo não oferecendo mais surpresas, a autora consegue fazer de Escada dos Anos um romance em que o leitor descortina a negra realidade que existe por trás do palco de sentimentalismo no qual se desenrola a vida familiar. Os laços de ternura são também a corda onde a gente se enforca na própria emoção embargada.

(a resenha acima, publicada de forma condensada em 25 de outubro de 2008, é uma versão de outra publicada em 29 de julho de 1997, quando do lançamento da tradução editada pela Mandarim).

VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/27/solidao-em-familia-a-moda-anne-tyler/

Anne TylerLadder of years Tyler

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