MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/11/2013

A constelação do absurdo (segunda parte): O ESTRANGEIRO

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“Oui, je suis présent. Et ce qui me frappe à ce moment, c´est que je ne peux aller plus loin. Comme um homme emprisonné à perpétuité—et tout lui est présent. Mais aussi comme um homme qui sait que demain sera semblable et tous les autres jours. Car pour um homme, prendre conscience de son présent, c´est ne plus rien attendre…” (Albert Camus, trecho de Le vent à Djémila, em Noces)[1]

I

   “Apenas um ser que pensa e tudo se despovoa…” (Albert Camus, passagem dos Cadernos)

Certamente L´etranger- O estrangeiro é a obra emblemática de Albert Camus. Na minha coluna em “A Tribuna”, na virada do milênio, coloquei-o entre os 10 maiores romances do século XX, e mesmo com títulos notáveis em áreas diversas (ensaios, contos, peças) e com outros pontos altos no gênero romanesco (A peste, A queda, o póstumo O primeiro homem), a história do homem que comete um assassinato “por causa do sol” e é condenado à guilhotina “por não ter chorado no enterro da mãe”, permanece não só a referência imediata do universo camusiano, como também a entrada perfeita para comentar o extraordinário autor argelino, em meio às comemorações do centenário de seu nascimento (no próximo dia 7).

O que impressiona nessa vida tão curta (Camus morreu num acidente de carro, aos 46 anos) é como tudo nela aconteceu cedo. Quando O Estrangeiro foi publicado (em junho de 1942) na França, ele ainda tinha 28 anos. Nessa época, em plena Segunda Guerra, dedicou-se ao que chamava de seus Três Absurdos: a peça Calígula, o romance e o ensaio O Mito de Sísifo, no qual diz que a questão filosófica mais importante é o suicídio, decidir se viver vale a pena. Mesmo que nenhum princípio eterno ou divindade nos justifique, mesmo que o nada nos espere, ali ele afirmava que sim, era possível imaginar Sísifo feliz, mesmo rolando eternamente sua rocha até o alto da montanha, para depois recomeçar tudo novamente (como foi condenado a fazer pelos deuses a célebre figura mitológica). Condenado à morte, sim; suicida, não.

O Estrangeiro é uma fábula que prepara a condenação à morte de seu protagonista. Meursault, mesmo esperando a execução em sua cela, nos dirá (sim, pois Camus ousou fazê-lo narrar a própria história, num dos exercícios de estilo mais admiráveis da literatura): “(…) vidé d´espoir, devant cette nuit chargée de signes et d´étoiles, je m´ouvrais pour la première fois à la tendre indifference du monde”[2].

Meursault é o homem absurdo par excellence porque, mesmo sabendo que ele lhe é indiferente, ama o mundo e procura viver no presente, sem remoer o passado ou criar expectativas para o futuro. Seu patrão lhe oferece um posto em Paris (a história se passa em Argel) e, depois de comentar, “Vous êtes jeune, et il me semble que c´est une vie qui doit vous plaire”, ouve a seguinte e desconcertante resposta: “J´ai dit que oui mais que dans le fond cela m´était égal. Il m´a demande alors si jê n´étais pas intéressé par um changement de vie. J´ai répondu qu´on ne changeait jamais de vie, qu´en tout cas toutes se valaient et que la mienne ici ne me déplaisait pas du tout”.[3] O homem absurdo, mesmo inconscientemente, é aquele que não transige com noções e sentimentos pré-fabricados. Instado a dizer que ama a garota com quem sai e a quem deseja muito, Marie, recusa-se. Mas aceitaria casar com ela, porque “tanto faz” (“cela m´était égal”). Ele não procura ser autêntico ou ir contra as convenções, ele é assim.

Num comentário (de 1988)  sobre o livro,  em A verdade das mentiras, Vargas Llosa caracteriza Meursault como antissocial. Ledo engano. Meursault não é um misantropo, não está contra a sociedade (assim como não há rebeldia nele); ao contrário, se dá bem com todos, e é assim que entra na sua pacata existência o escorregadio Raymond, envolvido escandalosamente com uma moça árabe, a quem agride e denigre, provocando uma tentativa de revanche do irmão dela e camaradas. Numa tarde de sol intenso, após uma briga, e com a arma de Raymond nas mãos, Meursault mata o jovem árabe. Com a mente turvada pelo tórrido da hora (quem não conhece a sensação?), dispara não apenas uma vez, mas cinco!

Esse detalhe será uma deixa para que, na 2ª. parte, um juiz fanático e um promotor de retórica farta (e oca, como boa parte da linguagem jurídica)[4] caracterizem-no como psicopata, um monstro. Mas (e aí reside a maestria camusiana) as provas definitivas num julgamento que ganha vulto sensacionalista, apesar da sua total insignificância, porque a imprensa tem pouco a noticiar naquele momento[5], são detalhes que repassam de forma implacável o cotidiano absolutamente comum de Meursault narrado na primeira parte, começando com a morte e o enterro da mãe. Ao ficar provado, por diversos testemunhos, que ele não demonstrou emoção nem ficou compungido (sem contar o fato de tê-la colocado num asilo), não haverá volta: ele será visto mesmo como um estrangeiro na sociedade humana, que deverá ser expulso, e se possível eliminado.

E o sujeito só queria “A vida apenas, sem mistificação, como o nosso Drummond, sem por isso ser condenado, no poema Os ombros suportam o mundo (de Sentimento do Mundo)!  Já reli O Estrangeiro  inúmeras vezes e fico sempre estupefato com o poder do texto. Estamos aqui, inapelavelmente, diante de uma realização definitiva da arte literária, que bem merecia uma reedição brasileira para marcar os 100 anos de Camus, mesmo que para o criador do absurdo Meursault, a posteridade nada mais fosse do que uma “eternidade irrisória”.

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                                                                                                      II

“No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso, glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, além da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica…” (Lima Barreto, trecho de Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá)

 Na primeira parte, citei a réplica de Meursault a uma proposta do patrão. Em outro trecho, Raymond Sintès (o qual, indiretamente, será o responsável pela  sua “desgraça” ), contente por ter a cumplicidade e camaradagem do vizinho, lhe diz: “Je savais bien que tu connaissais la vie”, e então lemos: “Je ne me suis pas aperçu d´abord qu´il me tutoyait. C´est seulement quand il m´a declare: <Maintenant, tu es un vrai copain> que cela m´a frappé. Il a répété sa phrase et j´ai dit: <Oui>. Cela m´était égal d´être son copain et il avait vraiment l´air d´en avoir envie…” (“Eu tinha certeza que você conhecia a vida”, “Não tinha me apercebido a princípio que ele me tratava por você. Somente quando me declarou: <Agora você é um verdadeiro camarada> é que me dei conta. Repetiu a frase e eu disse: <Sim>.  Tanto se me dava ser seu camarada e como isso parecia lhe dar gosto…”)[6].

Cela m´était égal… Poderia ser uma divisa meursaultiana. E ele não procura se explicar, mesmo narrando sua história. Isso faz de O estrangeiro um daqueles milagres de criação de uma voz narrativa em primeira pessoa que não se parece com nenhuma outra e que, em seu léxico e torneio, mimetiza perfeitamente o universo (no sentido contingente, metafísico, o que seja) trazido a nós leitores.[7]

E na verdade, se Meursault não se recusasse a transigir com a linguagem sentimentalizada (e tantas vezes mentirosa), ninguém recusaria ao seu relato a verossimilhança de representar o cotidiano de um homem ainda bem jovem, enraizado numa cidade específica (a Argel dos anos 1930). Fico sempre espantado quando dizem que Camus não tinha habilidade para narrar incidentes e anedotas, que os personagens o atrapalhavam, que ele se movimentava melhor na abstração. De 1942 para cá, quantos relatos são tão vívidos e tão perfeitamente colados ao ramerrão de todo dia como a primeira parte de O estrangeiro (e, como disse, a maneira como se faz a sua releitura na segunda parte instaura uma outra camada de absurdo, como se ela desse provas de uma existência “monstruosa”, aberrante)?:

“Pendant que jê me rasais, je me suis demandé ce que j´allais faire et j´ai décidé d´aller me baigner. J´ai pris le tram pour aller à l´établissement de bains du port. Là, j´ai plongé dans la passe. Il y avait beaucoup de jeunes gens. J´ai retrouvé dans l´eau Marie Cardona, une ancienne dactylo  de mon bureau dont j´avais eu envie à l´époque. Elle aussi, je crois. Mais elle est partie peu après et nous n´avons pas eu le temps. Je l´ai aidée à monter sur une bouée et, dans ce mouvement, jái effleuré ses seins. J´étais encore dans l´eau quand elle était déjà à plat ventre sur la bouée. Elle s´est retournée vers moi. Elle avait les cheveux dans les yeux et elle riait. Je me suis hissé à coté d´elle sur la bouée. Il faisait bon et, comme en plaisantant, j´ai lassé aller ma tête en arrière et je l´ai posée sur son ventre. Elle n´a rien dit et je suis resté ainsi. J´avais tout le ciel dans les yeux et it était bleu et doré…”(“Enquanto me barbeava, perguntei a mim mesmo o que fazer e decidi tomar um banho de mar. Tomei um bonde até as cabines para banhistas do porto. Ali, mergulhei no canal.  Havia muita gente jovem. Na água, encontrei novamente Marie Cardona, antiga datilógrafa do escritório que eu tinha desejado na época. Ela também, acredito. Mas ela saiu do serviço pouco depois e não tivemos chance. Ajudei-a a subir numa boia, e nesse movimento, rocei seus seios. Ainda estava na água e ela já tinha se deitado de bruços na boia.  Virou-se para mim. Tinha os cabelos nos olhos e sorria. Eu subi para ficar ao lado dela na boia. O tempo estava bom e, meio de brincadeira, deixei a cabeça cair para trás e encostar no seu ventre. Ela não disse nada e me deixei ficar assim. Tinha o céu inteiro nos olhos e ele estava azul e dourado…”).

Veja-se a descrição que enlaça Argel, juventude, mar e sol, em L´été a Alger (Verão em Argel), de Noces:

“Ce qu´on peut aimer à Alger, c´est ce dont tout le monde vit: la mer au tournant de chaque rue, un certain poids de soleil, la beauté de la race. Et, comme toujors, dans cette impudeur et cette offrande se retrouve un parfum plus secret (…) Les hommes trouvent ici pendant toute leur jeunesse une vie à la mesure de leur beauté. Et puis après, c´est la descente et l´oubli. Ils ont misé sur la chair, mais ils savaient qu´ils devaient perdre. A Alger, pour qui est jeune et vivant, tout est refuge et pretexte à trioumphes: la baie, le soleil, les jeux en rouge et blanc des terrasses vers la mer, les fleurs et les stades, les filles aux jambes fraîches. Mais pour qui a perdu sa jeunesse, rien s´accrocher et pas un lieu où la mélancolie puísse se sauver d´elle-même”(“O que se pode amar em Argel é aquilo de que todo mundo vive: o mar em cada esquina de rua, um certo peso de sol, a beleza da raça. E, como sempre, nesse impudor e nessa oferenda encontra-se um perfume mais sutil (…)Os homens  encontram aqui durante toda sua juventude uma vida à medida de sua beleza. Depois, declínio e esquecimento. Investiram na carne, mas sabiam que iriam perder. Em Argel, para quem é jovem e cheio de vida, tudo é refúgio e pretextos para conquistas: a baía, o sol, os terraços de frente ao mar com seu jogo vermelho e branco, as flores e os estádios, as moças de pernas torneadas. Mas para quem perdeu sua juventude, nada em que se escorar e nenhum lugar onde a melancolia possa se esconder”).

Então, Meursault está vivendo seu momento em que tudo é refúgio e pretexto para conquista, uma vida à medida da beleza da sua juventude. Qual o problema, então? É que justamente no dia anterior, ele enterrara a mãe, e isso será trazido à baila e causará horror. O homem absurdo, que vive no presente e ama aquilo de que todo mundo vive, será julgado em função do encadeamento dos dias, segundo as convenções; não se pode tomar banho de sol e flertar no dia seguinte ao enterro da mãe. No julgamento absurdo de Meursault, isso equivalerá a assassinar um homem[8].

Nós, antes que eles sejam moídos pela lógica da segunda parte, aceitamos perfeitamente os dados do relato de Meursault , e tal como ele é feito, devido à sua inocência (evidentemente, não uso a palavra no sentido jurídico). Não há aquele tom “envenenado” da não-confiabilidade de tantos narradores célebres. Então, para que Meursault nos cause a estranheza com o que será retratado depois, precisamos esquecer a sua voz “inocente”, no sentido mais puramente camusiano que a palavra pode alcançar, e lembrar do mal estar que uma figura que se recusa ao contrato social da linguagem comum causa num narrador que a evoca: o Bartleby de Hermann Melville.

Bartleby, the scribner- Bartleby, o escrivão foi publicado em 1856 (é uma das Piazza Tales). Uma “história de Wall Street”, é narrada em 1ª. pessoa pelo patrão do personagem-título. Precisando de mão-de-obra, ele fica aliviado em contratar um jovem “apagado” em relação ao comportamento um tanto turbulento e exaltado dos já empregados. Porém, ele fica abismado ao pedir a execução de uma tarefa e ouvir uma das frases mais célebres da ficção, “I would prefer not to”. Prefiro não fazer. Ou: Preferia não fazê-lo.

Se o jovem e esquisito Bartleby “prefere não fazer”, o patrão prefere não agir ainda, e levar em banho maria: “(…) havia em Bartleby algo que não apenas me desarmava estranhamente, mas que, de certa forma, me tocava e me desconcertava”[9]. E assim um mundo de rotina, de repetição, é desautomatizado e transtornado por uma simples frase. É certo que o nosso Meursault  não se sente mal na sua rotina de empregado de escritório, mas como sabemos, para ele é “cela c´est égal”, tanto se lhe dá isso ou aquilo. Então, nos dois casos—diversamente, é lógico–temos uma rotina com uma “brecha”, um Aleph de negatividade, a tornar tudo aquilo irrisório (também o mundo dos afetos, das relações diárias).

Ao narrar a história da sua insólita relação com um empregado, o narrador de Bartleby amiúde realça o que é “habitual” como argumento implícito do qual deveria ser a atitude “normal” e esperada: “… em pouco tempo se tornara fato concreto em meu escritório que um jovem escrivão pálido, que atendia pelo nome de Bartleby tinha uma mesa lá; que ele fazia cópias para mim pela tarifa habitual de quatro cents a página (cem palavras), mas que ele estava permanentemente isento de conferir o trabalho feito por ele…” (um dos encantos do relato é a necessidade contínua de racionalização dessa tolerância à peculiaridade bartlebyana, o seu estranho lapso no cumprimento não só do contrato social como também o contrato da mais-valia e da hierarquia trabalhista: “Sua constância, seu comedimento, sua produtividade incessante—exceto quando, de pé, atrás do biombo ele preferia sonhar acordado—, seu absoluto silêncio e seu comportamento inalterável faziam dele uma aquisição valiosa. O mais importante de tudo era o seguinte: ele estava sempre lá”). Imagino o patrão de Meursault racionalizando as “qualidades” inegáveis do seu empregado, apesar do comportamento tão indiferente a promoções, satisfações profissionais etc.

As coisas se complicam quando, numa manhã de domingo, ao tentar entrar no escritório de sua propriedade, o narrador encontra resistência: é Bartleby, em mangas de camisa e num esfarrapado roupão, dizendo que “preferia não permitir minha entrada”. Assim, o patrão descobre a pobreza e solidão do seu escrivão, que usa o escritório como morada.

Ele bem que tenta: faz perguntas a Bartleby a respeito de onde nasceu ou qualquer fato importante na sua biografia. Prefiro não dizer, prefiro não contar, eis as respostas.  Irritado com tal ingratidão renitente, o impulso de demiti-lo é frustrado pela sensação de que seria impossível fazer mal ao “mais infeliz dos seres humanos”, mesmo pedindo a Bartleby que seja razoável: “No momento, prefiro não ser razoável”. E não é mais mesmo. Recusa-se a trabalhar. E passa os dias no escritório sem fazer nada, atrás do biombo, olhando a parede.

Então, a única solução é a mais incrível de todas: sem poder demitir nem mandar embora o espavento que se alojou no seu escritório, o patrão resolve mudar-se. Instalado nas novas dependências, dali a algum tempo recebe a visita do locatário, dizendo que Bartleby recusa-se a sair dali: “No momento, prefiro não me mudar”.

O narrador resolve fugir dessa alma penada que assombra sua vida, aquele demônio da recusa, chegando a viajar. Na volta, é informado que o antigo funcionário foi recolhido à Prisão Municipal por vadiagem. Resolve interceder por ele e o encontra “… de pé, completamente só no pátio mais isolado, o rosto voltado para um muro alto…”, isto é, continuando a existência que levava no escritório em Wall Street.

De todo jeito, o compadecido ex-patrão procura mitigar-lhe a existência, dando propinas a funcionários do lugar para que o protejam e alimentem. Mas Bartleby prefere não jantar.  Dias depois, ele volta e encontra-o integrado definitivamente à condição que escolheu: “O pátio estava numa calmaria total… Estranhamente enroscado ao pé do muro, joelhos fletidos, deitado de lado e com a cabeça encostada às frias pedras, assim deparei com o definhado Bartleby. Não se movia. Parei, depois avancei e, debruçando-me sobre ele, vi que seus olhos nublados estavam abertos; parecia, no entanto, profundamente adormecido. Não sei o que me levou a tocá-lo. Peguei sua mão, e um calafrio agudíssimo subiu pelo meu braço, desceu-me pela espinha e estremeci da cabeça aos pés”.

Certo, as duas narrativas não poderiam ser mais diferentes no “tom” escolhido; no entanto não posso deixar de vê-las unidas por um laço de parentesco. Imagine-se a história contada em O estrangeiro não em 3ª. pessoa, mas sob a ótica de outro personagem. De que forma Meursault seria visto? Toda a naturalidade da sua existência, desnaturada apenas pelo processo judicial, que decorre de seu relato, pulverizar-se-ia instantaneamente. Pois o seu “cela c´est égal” soaria tão sinistro e afastado do “território comum” da humanidade quanto o “I would prefer not do” (não vamos esquecer que Camus cultivava uma admiração toda especial por Melville, pelo menos o de Moby Dick). Bartleby talvez já seja o condenado acostumando-se à sua prisão,  preparando esses condenados que povoam o século XX.

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III

  “(…) dans un  univers soudain prive d´illusions et de lumières, l´homme se sent un étranger. Cet exil est sans recours puisqu´il est privé des souvenirs d´un patrie perdue ou de l´espoir de une terre promise. Ce divorce entre l´homme de sa vie, l´acteur et son décor, c´est propriament le sentiment de l´absurdité…”[10]

Na narrativa “simples”, “escorreita” de O estrangeiro, há um momento de “quebra de ilusão”, que sempre me causou fascínio, não por ficar todo embasbacado com o exercício da metalinguagem ou recursos dessa ordem, não por nenhuma percepção de um Camus pós-moderno avant la lettre, e sim porque é um momento em que o radicalmente honesto consigo mesmo, mas inconsciente Mersault é varado pela autoconsciência,  percebendo que está entregue às feras, e mesmo assim tem um vertiginoso relance de que não se encontra totalmente sozinho no universo, embora esteja encerrado  no mundo da desonra social,  no qual os futuros espectadores da sua execução na guilhotina inevitavelmente o acolheram  com “cris de haine”, gritos de ódio.

Meursault está no tribunal, e já sabe que seu caso foi “aumentado” pelos tabloides devido ao verão e à escassez de notícias palpitantes:

“Les journalistes tenaient déjà leur stylo en main. Ils avaient tous le même air indifferent et un peu narquois. Pourtant, l´un d´entre eux, beaucoup plus jeune, habillé en flanelle grise avec une cravat bleue, avait laissé son stylo devant lui et me regardait. Dans son visage un peu asymétrique, je ne voyais que ses deux yeux, três clairs, qui m´examinaient attentivement, sans rien exprimer qui fût définissable. Et j´ai eu l´impresion bizarre d`être regardé par moi-même. C´est peut-être pour cela, et aussi parce que je ne connaissais pas les usages du lieu, que je n´ai pas três bien compris tout ce qui s´est passé ensuite…” (“Os jornalistas tinham já suas canetas em mãos. Eles tinham todos o mesmo ar indiferente e um pouco gozador. Entretanto, um deles, bem mais jovem,  vestindo flanela cinzenta e gravata azul, havia largado à  à sua frente a caneta e me olhava. No seu rosto um tanto assimétrico, eu só via os olhos, muito claros, que me examinavam atentamente, sem nada exprimir que desse para definir. E tive a impressão bizarra de estar sendo olhado por mim mesmo[11]. Talvez por isso, e também porque não conhecia os usos do lugar, não compreendi muito bem o que se passou em seguida…”). Afinal, Camus foi um atuante jornalista, tanto na Argélia quanto na França, e não deixa de ser um símbolo da sua vida ele atar nessa solidariedade expressa pelo mutismo as pontas da sua vida: o jovem argelino, cheio de vida e juventude, amante do mar e do sol, e o jornalista-testemunha, crítico da sociedade, além do seu duplo “absurdo”.

Até a sentença ser pronunciada, volta e meia Meursault sentirá essa presença inquietantemente solidária (e que traduz, em sua linguagem corporal, um último gesto de delicadeza—ou covardia?):

“Quand la sonnerie a encore retenti, que la porte du box s´est ouverte, c´est le silence de la salle qui est monté vers moi, le silence, e cette singuliére sensation que j´ai eue lorsque j´ai constaté que le jeune journaliste avait détourné ses yeux. Je n´ai pas regardé du côté de Marie. Je n´en ai pas eu le temps parce que le président m´a dit dans une forme bizarre que j´aurais la tête tranchée sur une place publique au nom de peuple français” (“Quando a campainha tocou mais uma vez e a porta foi aberta, o silêncio da sala me atingiu, o silêncio e essa singular sensação que experimentei quando constatei que o jovem jornalista havia desviado seu olhar[12]. Não olhei para o canto de Marie. Nem tive tempo porque o presidente me disse de um jeito estranho que eu teria a cabeça cortada na praça pública em nome do povo francês”).

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/03/a-constelacao-do-absurdo-primeira-parte-o-mito-de-sisifo/

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[1]  Tradução da epígrafe (tirada de Núpcias): “Sim, estou presente. E o que me impacta neste momento é que não posso ir mais adiante. Como um homem em prisão perpétua —e tudo nele está presente. Mas também como um homem que sabe que amanhã tudo será semelhante e assim todos os outros dias. Pois, para um homem, tomar consciência de seu presente, é nada mais esperar.”

[2]  No texto para A TRIBUNA, cito o trecho na tradução de Valerie Rumjanek, publicada pela Record desde os anos 1970 (houve edição pelo Círculo do Livro também): “(…) esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo… senti que fora feliz e ainda o era”.

Li o romance pela primeira vez no volume dedicado a ele da coleção “Os imortais da literatura universal”, publicada pela Abril Cultural, e que meu avô tinha colecionado (tenho o exemplar comigo até hoje). Foi então que me apaixonei pelo texto e Camus dominou a minha adolescência. A tradução era do português Antonio Quadros. Em 1979, a Abril reeditou essa versão na coleção “Obras Primas”, junto com a tradução de Maria Jacintha para a peça Estado de Sítio (Quadros traduz o mesmo trecho citado assim: “(…) esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo”).

[3] Novamente, trechos citados na tradução de Rumjanek: “Você é novo e acho que essa vida lhe agradaria” e “Disse que sim, mas que, no fundo, tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessado em uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha, aqui, não me desagradava em absoluto”.

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[4] No entanto, devo dizer que, embora seja um dos pontos mais discutidos do romance, não é um dos que mais me impressionam, talvez porque é o que mais deve à Kafka. Mesmo assim, para fazer-lhe “justiça” (sem trocadilho), transcrevo as considerações sucintas e pertinentes de Vargas Llosa no texto já citado: “Meursault seria a encarnação do homem jogado a uma vida sem sentido, vítima de mecanismos sociais que, sob o disfarce das grandes palavras—o Direito, a Justiça—somente escondiam gratuidade e irracionalidade. Parente máximo dos anônimos heróis kafkianos, Meursault personificaria a patética situação do indivíduo, cuja sorte depende de forças tanto mais incontroláveis quanto são ininteligíveis e arbitrárias” (cito a tradução de Cordélia Magalhães, ARX, 2004).

Concordo com a caracterização geral que o trecho faz do aspecto “jurídico-existencial” de Meursault, menos em duas colocações (as quais, aliás, permitem entender por que a interpretação que o autor peruano faz de O estrangeiro é um tanto equivocada): a vida de Meursault não tem sentido, de fato, mas o importante é que ELE NÃO RECLAMA UM, não está interessado nisso. Também não acho válido o adjetivo “patético” aplicado a esse personagem. Mesmo vítima dessa sanção social, traduzida nos espelhos deformantes dos códigos do Direito, acredito que Meursault nesse ponto é muito menos parente dos Jozef K. do que Llosa propõe.

[5] “J´ étais un peu étourdi aussi par tout ce monde dans cette salle close. J´ai regardé encore le prétoire et je n´ai distingue aucun visage. Je crois bien que d´abord je ne m´étais pas rendu compte que tout le monde se pressait pour me voir. D´habitude, les gens ne s´occupaient pas de ma personne. Il m´a fallu un effort pour comprendre que j´étais la cause de toute cette agitation. J´ai dita u gendarme: <Que de monde!> Il m´a répondu que c´était à ccause des jornaux et il m´a montré un groupe que si tenait près d´une table sous le banc des jures. Il m´a dit: <Les voilà> (…) Il  connaissait l´un des journalistes qui l´a vu à ce moment et qui s´est dirigé vers nous (…) le journaliste s´est adressé à moi en souriant. Il m´a dit qu´il esperáit que tout trait bien pour moi. Je l´ai remercié et il a ajouté: < Vous savez, nous avons monté un peu votre affaire. L´été, c´est la saison creuse pour les jornaux…” (“Eu estava um pouco aturdido com esse mundo de gente nesse recinto fechado. Olhei novamente para o tribunal sem distinguir nenhum rosto. Acredito que no princípio não me dei conta de que toda essa gente se comprimia para me ver. Em geral, ninguém se interessava pela minha pessoa. Foi-me necessário um esforço para entender que era eu a causa de toda essa agitação. Disse ao guarda: <Que multidão!> Ele me respondeu que era por causa dos jornais e me apontou um grupo que se mantinha em torno de uma mesa abaixo do banco dos jurados. Disse-me: <Ei-los>(…). Ele conhecia um dos jornalistas que o viu naquele instante e que se dirigiu a nós (…) o jornalista falou comigo sorrindo. Disse-me que esperava que tudo corresse bem para mim. Agradeci-lhe e ele acrescentou: < Sabe, tivemos que exagerar um pouco o seu caso. O verão é uma época morta para os jornais…”)

[6] Exbarramos aqui na difícil operação de aclimatar ao português o “tutear” francês. Não faz sentido, em 2013, usar o “tu”, claro, mas isso produz certa distorção no tratamento entre as pessoas; desta forma, a versão portuguesa, de Antonio Quadros, parece formal demais, e a de Valerie Rumjanek um tanto descuidada neste ponto—mesmo porque há efetivamente um lado cerimonioso e formalista em Camus, caracterizado de forma penetrante (embora um tanto enfática demais) por Vargas Llosa, em outro ensaio, Albert Camus e a moral dos limites: “No bom sentido da palavra, há em sua prosa uma constante afetação; uma gravidade sem trégua, uma absoluta falta de humor e uma rigidez muito provincianas (…) Trata-se de um estilo estatutário no qual, além de sua admirável concisão e da eficácia com que expressa a ideia, o leitor observa algo naïf, um estilo endomingado, sobre o qual paira, impregnando-o em parte, um ar démodé—utilizo, modificando-a um pouco, a tradução de Carlos Jorge Rio BrancoBailly para Contra vento e maré (Francisco Alves, 1985), livro publicado há exatamente 30 anos, e que era basicamente a ampliação de um anterior, com o significativo título de Entre Sartre y Camus (1981).

É ótimo o achado do “estilo endomingado”, revelador do provincianismo de Camus, mas dizer que ele carece totalmente de humor já é um pouco exagerado (basta ler Le minotaure ou l´halte de Oran, por exemplo), e é preciso não confundir Camus com seus narradores em primeira pessoa. Seria bom não confundir gravidade com afetação. Em alguns momentos,  o próprio Camus pode tê-las confundido, mas isso já é outra questão.

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[7] Lembrando outros títulos em primeira pessoa, inconfundíveis: Lolita, Em busca do tempo perdido, Grande sertão: veredas, O apanhador no campo de centeio… São relatos e são universos.

[8] Dou-me conta, ao escrever o texto acima, que não dou nenhuma ênfase ao assassinato em si, e ao fato de a vítima ser um árabe. Embora seja um incidente decisivo no destino do próprio Meursault, e malgré Edward Said, não consigo atribuir importância a esses fatores no que se refere ao significado geral de O estrangeiro.

[9] Utilizo o texto da versão de Luís de Lima, publicada pela Rocco.

[10] Num universo subitamente privado de ilusão e de luzes, o homem se sente um estrangeiro. Este exílio é sem apelação, uma vez que é privado de recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. O divórcio entre o homem e sua vida, do ator e seu cenário, é que é precisamente o sentimento de absurdidade.” (trecho de “O absurdo e o suicídio”, de O mito de Sísifo)

[11] A versão de Antonio Quadros oferece uma curiosa (e nada desinteressante) variante de interpretação: “E senti a estranha impressão de estar a ser examinado não pelo que parecia, mas pelo que era realmente”. Na versão de Valerie Rumjanek: “E tive a estranha impressão de estar sendo olhado por mim mesmo”.

[12] Mais uma vez, Quadros “extrapola” de forma interessante: “… a singular sensação que experimentei quando olhei para o jovem jornalista e reparei que pela primeira vez afastava os olhos de mim” Rumjanek: “…aquela sensação singular que experimentei ao constatar que o jovem jornalista tinha desviado o olhar”.

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01/11/2013

CAMUS EM VIAGEM (primeira parte): na América do Norte

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                         Para José Luiz Passos

“Aos 30 anos, um homem deveria ter-se nas mãos, saber a conta exata de seus defeitos e de suas qualidades, conhecer seu limite, prever seu enfraquecimento—ser o que ele é. E, acima de tudo, aceitá-los. Estamos entrando no positivo: tudo a fazer e tudo a renunciar. Instalar-se na naturalidade, mas com sua máscara. Experimentei coisas suficientes para poder renunciar a quase tudo. Resta um esforço prodigioso, cotidiano, obstinado. O esforço do secreto, sem esperança, sem amargura. Nada mais negar já que tudo se pode afirmar.” (Albert Camus, Cadernos, 30 de julho de 1945).

“Vamos ver a Bowery juntos. Almoço com Rube e J. de Lannux, que, em seguida, nos leva para um passeio de carro em Nova York. Belo céu azul, que me obriga a pensar que estamos na latitude de Lisboa, o que tenho dificuldade em imaginar. No ritmo do trânsito, os arranha-céus dourados giram e tornam a girar no azul acima de nossas cabeças. É um bom momento.” (Albert Camus, trecho de Diário de Viagem, 1946)

Poucos meses da anotação em epígrafe, Albert Camus (1913-1960) foi convidado a viajar para Nova Yorkpela editora Albert A. Knopf (ele faria conferências, trataria das traduções de seus livros e representaria a Gallimard numa ação judicial envolvendo os direitos de obras de Saint-Exupéry). Essa viagem está registrada na primeira parte de DIÁRIO DE VIAGEM (a segunda parte narra outra viagem, em 1949, à América do Sul, especialmente ao Brasil)[1].

Ele embarca em março de 1946. Tem 32 anos. Esse homem de 30 anos (e que já refletiu muito, como vimos, a respeito  de ter 30 anos) trazia, atrás de si, aquelas obras que, décadas depois, ainda seriam a parte fundamental do seu prestígio universal: o romance O estrangeiro, o ensaio O mito de Sísifo, a peça Calígula[2].E também havia o lado heroico, o do sujeito que participara da Resistência, que fundara o jornal Combat e escrevia editoriais apaixonantes[3]. Tinha-se, então, uma figura-síntese de herói, jornalista (ou seja, colado aos debates da hora), pensador, escritor de apurado estilo. Aos 32 anos. Como dirá depois um ressentido (e ciumento) Jean-Paul Sartre, na sua carta-rompimento por ocasião da polêmica suscitada pelo surgimento de O homem revoltado: no após-guerra, Camus era a síntese de um homem, de uma obra, de uma ação:

“Você foi para nós—e amanhã poderá sê-lo ainda—a admirável conjunção de uma pessoa, de uma ação, de uma obra. Era em 1945: descobríamos Camus, o resistente, como tínhamos descoberto Camus, o autor de L´étranger. E quando nós censurávamos o redator do Combat clandestino por esse Meursault que levava a sua honestidade ao ponto de se recusar a dizer que amava a sua mãe e a sua amante, e que a nossa sociedade condenava à morte, quando se sabia, sobretudo, que você não tinha nunca deixado de ser nem um nem outro, essa aparente contradição fazia-nos progredir no conhecimento de nós mesmos e do mundo, e você não estava longe de ser exemplar ”.

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Mas naquela altura a síntese já se esfacelara e o herói quase tinha virado um vilão, ou um “inocente útil”. Em 1946, ainda havia a “aura” Camus, prestes a se espalhar pelo mundo.

De forma característica, o portador dessa aura não se deterá muito nos eventos que justamente delinearão seu prestígio, e nem as ideias e concepções (literárias, existenciais, políticas) pregadas —o termo decerto não é exagerado—por ele no solo norte-americano. Também não saberemos nada, no âmbito do decoroso diário de viagem pelos EUA (e Canadá), do romance que manteve com uma moça de 20 anos, Patricia Blake. Tudo o que lemos ali é o que emerge, como que a contragosto, com o seu quê de resignação do Sísifo que se atrelou à tarefa de escrever, do “esforço do secreto” (“sem esperança e sem amargura”).

O primeiro ponto: a saúde. Sequelas da quase-miséria da infância, a tuberculose e uma constituição frágil. Como ele escreverá para uma amiga: “Às vezes penso na saúde como um grande país cheio de sol e de cigarras, que perdi sem ter culpa. E, quando anelo por esse país e pela felicidade que ele me traria, recupero-me no trabalho”.

Ao longo da travessia pelo Atlântico, esse ponto se fará presente: “Desperto com febre e uma vaga angina”; “Dia horrível, com o frio da gripe”. Nem por isso, ele deixa de se  recuperar no trabalho, além de ler de Guerra e Paz.

Com relação aos comparsas de viagem (“Esta sociedade em miniatura é ao mesmo tempo apaixonante e monótona. Todos se pretendem elegantes e requintados. É o lado cachorrinho amestrado”), notamos aquele gosto pelo  anedotário “exemplar”, que mesmo o viajante do absurdo, o estrangeiro por excelência, nunca desdenhou, como o “caso de Lorette”:

“Conta-nos que a sogra, que não a conhece, envia-lhe as cartas mais amáveis, e que, na América, as sogras parecem ser de qualidade inteiramente superior. O noivo é muito devoto, não bebe nem fuma. Pediu-lhe que se confessasse antes de partir. Na manhã do embarque (nos dias anteriores, esteve ocupada com diversas providências), levantou-se às seis para ir à igreja, mas estava fechada, e o trem partia cedo. Então vai confessar-se lá, e, diz ela com seu ligeiro sotaque parisiense (aliás, articula muito mal e rapidamente, e precisamos inclinar a cabeça para entender o que diz):

__ Acho melhor assim, porque o de lá não vai compreender bem o que vou dizer e dessa forma me dará a absolvição.

     Nós lhe explicamos que sempre se dá a absolvição nesses casos.

__ Mesmo para os pecados mortais?”

O segundo ponto: a apreensão do absurdo e a sua expressão. Neste sentido,  há uma passagem significativa e linda:

“À noite, depois do jantar, como devemos passar ao largo dos Açores, vou para o convés, e num canto, ao abrigo do vento que sopra desde a partida, posso usufruir de uma noite pura, com estrelas raras, porém muito grandes, que deslizam acima da nave com o mesmo movimento retilíneo. Uma lua miúda põe no céu uma luz sem brilho, que ilumina a água turbulenta com reflexo uniforme. Mais uma vez, como faço há anos, olho os desenhos que a espuma e a esteira do navio fazem na superfície das águas, essa renda, feita e desfeita, esse mármore líquido… e mais uma vez busco a comparação exata que fixará um pouco para mim essa maravilhosa eclosão de mar, de água e de luz, que me escapa há tanto tempo. Ainda em vão. Para mim, é um símbolo que continua.”[4]

Na baía de Hudson, entretanto:

“Ao longe, os arranha-céus de Manhattan sobre um fundo de bruma. Sinto o coração tranquilo e seco, como quando me vejo diante de espetáculos que não me comovem”.

De certa forma, infinitesimalmente matizada, claro, essa será a disposição camusiana com relação à América do Norte. O coração seco, porém, não ficará tranquilo. Ele não conseguirá penetrar no coração daquela terra, daquelas cidades, admitirá que não consegue compreender muito bem a América, e que dela só poderia fazer um “retrato” (se for possível utilizar o termo nesse contexto) que Kafka fez dela em O desaparecido, e isso o inquietará: “Volto a pé pela Broadway, perdido na multidão e entre os enormes anúncios luminosos. Sim, há um trágico americano. É o que me oprime desde que estou aqui, MAS NÃO SEI AINDA DE QUE É FEITO”. A esta altura, é bom lembrar que Camus é um contumaz leitor da ficção norte-americana e escreveu (e escreverá) coisas extremamente perspicazes a seu respeito.

Por isso, imagino perfeitamente seu desassossego em não saber do que uma América que lhe falaria diretamente ao coração é feita.  Contudo, voltamos ainda ao ponto da saúde. Em Nova York, as anotações de mal estar persistem: “Despertar com febre. Incapaz de sair antes do meio-dia”.[5] O DIÁRIO DE VIAGEM como um todo oferece ao leitor lampejos da depressão e dos pensamentos de suicídio que são o lado mais sombrio dos “esforços do secreto” em seu sorrateiro movimento nos bastidores da persona pública de Camus. Creio que, em viagem, em terra que fosse estranha “de fato”, tal lado emergia com força maior, e que só os compromissos, a obrigação da persona, é que neutralizaram seus apelos. E momentos como o da seguinte passagem:

“Passeio com Chiaromonte e Abel a Staten Island. Na volta, no baixo Manhattan, imensas escavações geológicas entre os arranha-céus muito próximos uns dos outros, onde caminhamos dominados por um sentimento pré-histórico. Jantamos em Chinatown. E pela primeira vez respiro num lugar onde reencontro a verdadeira vida que amo, pululante e descomedida.”[6].

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Em Bowery, aliás, uma daquelas fórmulas camusianas precisas: “A miséria—e um europeu tem vontade dizer: Enfim, o concreto.” E, mais ainda, o leitor compreende por que o DIÁRIO DE VIAGEM de Camus destoa do figurino das “impressões de viagem” aos montes que existem, e que estamos diante da formação de paisagens interiores mais do que da descrição (embora esta não esteja excluída) de lugares. Ele nos fala das velhas cantoras em fim de carreira, mulheres enormes, que sapateiam, “fazendo saltar os pedaços de carne disforme que as recobrem”; e quanto mais feias e disformes, maior o sucesso: “É preciso ser ou muito bonito ou muito feio. Instrutivo. Há uma mediocridade até mesmo na feiura.”

Nesse sentido, outro trecho se reveste de um significado simbólico e, a meu ver, muito belo: o da ida ao teatro chinês em Chinatown, com 1.500 espectadores chineses “que comem amendoim, batem papo, entram, saem e acompanham o espetáculo com uma distração um pouco fixa. As crianças correm elo meio da sala”:

“Quanto à peça, sendo o programa em chinês, tentei inventar o tema. Mas desconfio que só comenti contrassensos. Isto porque, no momento em que um homem bom morre no palco da forma mais realista, em meio a lamentações da viúva e dos amigos, e eu me sinto muito sério, o público ri. E à entrada cômica de uma espécie de magistrado com voz de matraca, sou o único a rir, quando toda a plateia assume um certo ar de atenção respeitosa…”

No entanto, a essa altura, o coração (que já estava seco na baía do Hudson, e que, mesmo desassossegado, não conseguiu responder aos apelos norte-americanos) “deixa de falar”: “Minha curiosidade por este país pareou de repente. Como certos seres dos quais eu me afasto sem explicação e sem mais interesse”[7].

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O interessante é que, imediatamente antes dessa anotação, há uma outra, que sem dúvida está ligada à escrita difícil de mais uma versão de A Peste (publicado no ano seguinte à viagem), mas que certamente já parece uma “abertura” para o que se tornará O homem revoltado (uma constelação à qual também pertencem as peças Estado de sítio e Os justos): “Quem tem razão é quem nunca matou. Portanto, não pode ser Deus.”

Pois indo logo a seguir para o Canadá, Camus anota no “grande país calmo e lento”:

“Refazer e recriar a reflexão grega como uma revolta contra o sagrado. Não a revolta contra o sagrado do romântico—ela mesma uma forma do sagrado—mas a revolta que devolta o sagrado a seu lugar próprio.

    A ideia do messianismo como base de todos os fanatismos. O messianismo contra o homem. A reflexão grega não é histórica. Os valores são preexistentes. Contra o existencialismo moderno.”

   Aí já estamos no umbral de outra “aura” de Camus, às vésperas de outra idade (os 40 anos) e certamente muito menos gloriosa nos limites do biográfico e da sua reputação imediata. O homem que condena a revolução por amar “uma humanidade que ainda não existe”, sabe que “ainda que abraçasse todos os seres do mundo, não estaria protegido contra nada”.

Com esses acordes que hoje nos parecem proféticos,  mesmo que pareçam tão contraditórios no escritor de crescente prestígio internacional que, na caracterização sartriana já mencionada, representava naquela época a junção do homem, da obra, da ação, não é de espantar que—na travessia da volta—ele anote:

“(…) o desejo tumultuado que se apodera de mim no sentido de redescobrir o coração impaciente que eu tinha aos 20 anos. Mas eu conheço o remédio, vou olhar para o mar durante muito tempo.

     Tristeza por me sentir ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Portanto, 25 anos para fazer minha obra e encontrar o que procuro. Depois, a velhice e a morte. Sei qual é o mais importante para mim. E encontro, ainda, meio de ceder às pequenas tentações, de perder tempo em conversas vãs ou passeios estéreis. Dominei  duas ou três coisas em mim. Mas como estou longe dessa superioridade que tanto necessito (…) Sempre estive dilacerado entre meu apetite pelos seres, a vaidade da agitação e o desejo de me tornar igual a esses mares de esquecimento, a esses silêncios desmedidos, que são como o encantamento da morte. Tenho o gosto das vaidades do mundo, dos meus semelhantes,  dos rostos, mas, fora do meu tempo, tenho uma regra própria, que é o mar e tudo que se lhe assemelha neste mundo.”

Não haverá velhice, não haverá comemoração de 57 anos. Mas haverá, tantas décadas depois, quem se debruce apaixonadamente sobre as anotações desse homem de 32 anos, mesmo considerando enfatuada sua necessidade de “superioridade”, e achando que a ideia de “perder tempo” é estranha a Sísifo e à condição humana. E, lendo palavras caladas no “esforço do secreto” lembrará de outras, igualmente arrepiantes e ainda mais lapidares:

“Mais c´est encore l´absurde et sa vie contradictoire qui nous enseigne. Car l´erreur est de penser que cette quantité d´expérience dépend des circonstances de notre vie quand elle dépend que de nous. Il faut ici être simpliste. A deux hommes vivant le même nombre d´années, le monde fournit toujors la même some d´expériences. C´est à nous d´en être conscients. Sentir sa vie, sa revolte, sa liberte, et le plus possible, c´est vivre et le plus possible. Là ou la lucidité règne, l´échellen des valeurs devient inutile. Soyons encore  plus simplistes. Disons que le seus obstacle, le Seul manque à gagner est constitué par la mort prematurée. L´univers suggeré ici ne vit  que par opposition à cette constante exception qu´est la mort. C´est ainsi qu´aucune profondeur, aucune émotion, aucune passion et aucun sacrifice ne pourraient rendre égales aux yeux de l´homme absurd (même s´il le souhaitait) une vie consciente de quarante ans et une lucidité  étendue sur soixante ans. La folie et la mort, ce sont sés irrémédiables. L´homme  ne choisit pas. L´absurde et le surcroit de vie qu´il comporte  ne dependent donc pas de la volonté de l´homme mais de son contraire  qui est la mort. En pesant bien les mots, il s´agit uniquement d´une question de chance. Il faut savoir y consenter. Vingt ans de vie et d´experiences ne se remplaceront plus jamais.” (Le Mythe de Sisyphe)[8]

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[1] O texto das duas partes do Diário foi publicado postumamente, em 1978. Utilizo a tradução brasileira, de Valerie Rumjanek (na 4ª. edição, pela Record, 1997), às vezes com algumas modificações.

Cabe ressaltar, aqui, que ao contrário dos constrangedores refugos que emergem da apropriação de manuscritos não-publicados pelo autor em vida, a parte “póstuma” do legado camusiano é fascinante: dois romances que nenhum apaixonado pelo autor gostaria de não conhecer (A morte feliz; O primeiro homem), os cadernos, essas anotações de viagem…

[2] Houve outra (O mal entendido), encenada com menor repercussão. Antes de chegar à França, em 1940, ele já publicara dois livros: O avesso e o direito (1937) e Noces (1939), já traduzido como Bodas em Tipasa e como Núpcias.

[3] Na seu tijolaço biográfico sobre Camus, Olivier Todd comenta: “O Combat consagra a autoridade moral daquele Camus feliz como num palco de teatro ou num campo de futebol” (Albert Camus- Uma /Vida, que cito na tradução de Monica Stahel, publicada pela Record em 1998).

[4] Em O mito de Sísifo, sobre a “criação absurda”:

“Trabalhar é criar ´para nada´, esculpir com barro, saber que sua criação não tem futuro, ver sua obra destruída em um dia, consciente de que, em profundidade, isso não tem mais importância do que edificar para séculos —eis a difícil sabedoria que o pensamento absurdo preconiza.  Levar adiante simultaneamente essas duas tarefas, negar de um lado e exaltar do outro, é a trilha que se abre para o criador absurdo. Ele tem de lançar suas cores no vazio.”

[5] Não posso deixar de anotar que as preocupações características de Camus (e se pensarmos na junção viagem-no sentido de conhecer um país/doença/construção da figura pública de escritor) se reveste de uma aura de humor: “Uma das formas de conhecer um país é saber como se morre nele. Aqui, tudo está previsto. You die and we do the rest, dizem os anúncios publicitários. Os cemitérios são propriedade privada: Apresse-se para guardar o seu lugar.”  Com relação ao “mau gosto” norte-americano, o lado janota se manifesta inequivocamente: “Quanto às lojas de gravatas, é preciso ver para crer. Um mau gosto inimaginável”.

   Também curioso é que, mestre de fórmulas, Camus tem desconfiança dos chavões: “D.  me garante que os americanos não gostam das ideias. É o que se diz. Mas tenho minhas dúvidas”.

[6] Por falar em vida verdadeira, pululante e descomedida, há a visita à “boate de negros”: “Rocco, o pianista negro mais formidável que já ouvi em anos. Toca de pé, diante de um piano sobre rodas que ele vai empurrando. O ritmo, a força, a precisão desse modo de tocar, e ele, que participa, que pula, dança, joga a cabeça e os cabelos para a direita e para a esquerda.

    Impressão de que só os negros dão a vida, a paixão e a nostalgia neste país que eles colonizam à sua maneira”. Em Camus, a alegria, a paixão, enfim a vida, nunca está muito longe de uma “nostalgia”, justamente o fiel da balança do sentimento do absurdo, do divórcio entre os esforços humanos e um universo basicamente indiferente.

Num encontro com estudantes: “Não sentem o verdadeiro problema, mas sua nostalgia é evidente. Neste país em que se usa tudo para provar que a vida não é trágica, eles temo sentimento de falta. Esse grande esforço é patético, mas é preciso rejeitar o trágico depois de tê-lo visto, não antes”.

[7] E a imagem final de Nova York parece ser kafkiana, para o leitor de DIÁRIO DE VIAGEM:

“Impressão de ter caído na armadilha desta cidade e que eu poderia libertar-me dos blocos de cimento que me cercam e correr durante horas sem nada encontrar senão novas prisões de cimento, sem a esperança de uma colina, de uma árvore verdadeira ou de um rosto transtornado.” O rosto transtornado, porventura, seria o de Patricia Blake?

[8] “Mas o absurdo e sua vida contraditória também aqui nos ensinam. Porque o erro é pensar que essa quantidade de experiências depende das circunstâncias da nossa vida, quando ela só depende de nós. Aqui, é necessário ser simplista. A dois homens que vivem o mesmo número de anos, o mundo proporciona sempre a mesma soma de experiências. Cumpre a nós estarmos conscientes disso. Sentir a sua vida, a sua revolta, a sua liberdade, é viver, e o máximo possível. Aí onde reina a lucidez, a escala dos valores se torna inútil. Sejamos ainda mais simplistas. Digamos que o único obstáculo, a única falta a ganhar  é constituída pela morte prematura. O universo aqui sugerido só vive por oposição a essa constante exceção que é a morte. É assim que nenhuma profundeza, nenhuma emoção, nenhuma paixão e nenhum sacrifício poderiam igualar aos olhos do homem absurdo (mesmo que ele o desejasse) uma vida consciente de quarenta anos e uma lucidez que se estendesse por sessenta anos. A loucura e a morte são irremediáveis. O homem não as escolhe. O absurdo e o acréscimo de vida que ele comporta não dependem da vontade do homem, mas de seu contrário que é a morte. Pesando bem as palavras, trata-se unicamente de uma questão de sorte. É preciso saber e consentir.Vinte de anos de vida e de experiências jamais se substituirão”. Não consegui imaginar um substituto para “falta a ganhar”, e tenho consciência do insatisfatório dessa solução. Na sua tradução, Ari Roitman & Paulina Wacht utilizam “lucro cessante”, mas também não me parece uma solução feliz.

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21/12/2011

Contra as paredes ideológicas: “O homem revoltado”, de Camus

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/01/09/a-ratificacao-do-absurdo-a-morte-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/27/a-vida-apos-a-morte-de-albert-camus-o-primeiro-homem/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-sim-e-o-nao-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 31de dezembro de 1996)

    Ficou o mais importante lançamento do ano para encerrar esta coluna em 1996: O HOMEM REVOLTADO [ tradução de Valérie Rumjanek, editora Record], ensaio publicado em 1951 e duramente combatido, entre outros, pela equipe da revista que Jean-Paul Sartre dirigia na época, “Temps Modernes”

Camus foi acusado de reacionário e incompetente filosoficamente na sua tentativa de historiar as conseqüências ideológicas da atitude de revolta, o dizer Não ao Criador e aos senhores deste mundo, nos últimos dois séculos principalmente..

Para entender melhor a idéia da revolta, é preciso lembrar que ela complementa a idéia de absurdo, exposta em outro ensaio famoso de Camus, O MITO DE SÍSIFO [ tradução de Mauro Gama, editora Guanabara]. O absurdo reside no divórcio que há entre o homem e o mundo. O homem e nasce num mundo que é indiferente a seu destino. Por isso, para o grande autor franco-argelino,a questão primária da filosofia era o suicídio, se valia a pena compactuar com a condição absurda do ser humano.

Pelo desenvolvimento das idéias de Camus, o absurdo transformava-se em revolta: “A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem nomeio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, exige,ela quer que o escândalo termine…” Fazendo um recorte bem arbitrário na história européia, Camus distingue os que se revoltaram metafisicamente, renegando Deus, e depois matando-o (e as conseqüências que Nietzsche tirou dessa morte, propondo uma super-humanidade), e os que se revoltaram na práxis histórica, agindo, primeiro matando a encarnação do divino na terra (o rei) e, por fim, substituindo a salvação proposta pelo Cristianismo no final dos tempos pela redenção do homem escravizado dentro da sociedade capitalista, quando a Revolução triunfasse (e Revolução, aqui, temo sentido marxista-leninista). Para ele,a Revolução é uma degradação da revolta por amar uma humanidade futura, que ainda não existe. Para triunfar, ela teria que se tornar totalitária, justificar os meios pelos fins, como aconteceu com a URSS, transformando-se em império e legitimando o assassinato em massa.

É persuasivo o texto de Camus, não fosse ele um escritor extraordinário. O seu maior mérito é apontar para as paredes ideológicas que nos cercam há duzentos anos, e mostrar como a glorificação da História limitou nosso horizonte mental. Tanto que nem hesitaríamos em concordar imediatamente, quase sem pensar, com a seguinte declaração de Sartre: “A burguesia, cortando-nos os laços com os nosso contemporâneos, encerra-nos no casulo da vida privada e define-nos, às tesouradas, como indivíduos. O que significa, como moléculas sem história que se arrastam de um instante  para o outro. Pela contingência do nosso ancoramento na Natureza e na História, isto é, pela aventura temporal que nós somos no interior da aventura humana, descobrimo-nos singulares. Assim, a história nos faz universais na medida exata em que a fazemos particular”.Camus desconfia da História como ponto de referência absoluto. Só fato de nos fazer desconfiar de uma coisa que parece tão óbvia para a nossa mentalidade já torna relevante e original O HOMEM REVOLTADO.

Em contrapartida,há dois senões graves: um quanto ao livro em si; outro, com relação à sua crescente revalorização. Quanto ao livro, pode-se perdoar (porque todo mundo faz isso) o recorte arbitrário e admirar sua argumentação, mas jamais sua conclusão. O autor de O estrangeiro desemboca numa constrangedora polarização entre a cultura mediterrânea, ligada à vida, à medida e ao sol, e uma cultura (ou melhor, ideologia) germânica, ligada aos livros, à desmesura e a uma nostalgia do absoluto, e aconselha a primeira como opção para a condição absurda e revoltada do homem. É um conselho dispensável, que “sobra” no livro (o qual poderia terminar no capítulo “Revolta e Revolução”, 50 páginas antes). É a mesma coisa que um escritor brasileiro decretar  que a cultura baiana é mais ligada à vida e positiva do que a cultura mineira. Quanto à revalorização do livro, à restauração da sua reputação internacional,ela me irrita porque implica, muitas vezes, numa atitude de rebaixamento deliberado da estatura de Jean-Paul Sartre, um dos escritores mais admiráveis do século, e justamente porque nunca teve medo de errar; aliás, independentemente da grandeza, a meu ver, inegável de O HOMEM REVOLTADO,Sartre escreveu uma magnífica carta para Camus (terminando  a amizade entre eles), a propósito das idéias do livro e das atitudes do outro, e da qual vale transcrever um trecho: “Você queria realizarem si mesmo e por si próprio a felicidade de todos por uma tensão moral. A multidão anônima que nós começávamos a descobrir pedia-nos que deixássemos de ser felizes para que ela se tornasse um pouco menos infeliz… Diziam que esse absurdo, essa revolta, esse não e esse sim, eram jogos de príncipe. Outros iam mesmo ao ponto de dizer: jogos de circo”.

Ambos foram gênios e incômodos. Só que o gênio de Sartre ultrapassa de maneira avassaladora suas obras (apesar de tantas serem extraordinárias, basta lembrar de A idade da razão e de As palavras, no plano literário). E o de Camus está todo nas suas obras (por isso, O HOMEM REVOLTADO muitas vezes parece “literário” demais). Valorizar um em detrimento do outro é empobrecer mentalmente. É como optar entre Dostoiévski e Tolstói, ou, mais domesticamente  entre Chico e Caetano. Eu admiro e amo Camus como escritor e pensador,mas o empenho gigantesco de Sartre em enfrentar todas as questões do século às vezes me emociona muito mais. Mas não escolho entre eles, fico com ambos.

14/12/2009

O PROCESSO e A PESTE: a culpa e a inocência da humanidade

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Possivelmente as duas obras que melhor simbolizam as preocupações centrais do século são O processo e A peste. A obra-prima de Franz Kafka  foi escrita (e interrompida) entre 1914 e 1915; e a obra-prima de Albert Camus foi publicada em 1947. Coincidentemente os dois estavam na faixa dos trinta e poucos anos quando as escreveram.

No universo de O processo a totalidade da ação se passa, a uma visão superficial, no plano individual: Jozef K. acorda no dia do seu aniversário e encontra tudo modificado: está detido, é acusado por um crime que desconhece. Procurador de um grande banco, percorre um caminho que vai da atitude “superior” diante da situação absurda em que se vê metido até o patético desamparo diante da execução, quando dois homenzinhos burlescos o levam para uma pedreira, onde o matam “como a um cão”.

Após viver alienadamente por trinta anos, K. se vê enredado por uma terrível e abstrata (terrível porque abstrata?) Lei, a qual parece congregar todas as pessoas à sua volta (o que dá um ar conspiratório e ameaçador ao romance inteiro), como se o mundo fosse uma vasta organização burocrática. K, entretanto, somente vagará pelos escalões mais subalternos e inferiores dessa organização que encarna a Lei. Isso dá margem à veia cômica incomparável de Kafka, pois vemos repartições, cartórios e salas de audiência localizados em cortiços, funcionários sórdidos e sempre envolvidos numa degradante atmosfera de sexualidade (o juiz de instrução manda buscar a esposa do oficial de justiça para servi-lo sexualmente, um estudante de direito mantém relações com ela durante um inquérito). Os acusados têm de viver nos quartos de despejo dos advogados para que eles se dignem a dar informações, quando lhes ocorre ou lhes dá na veneta, sobre o andamento do seu processo (é o caso do comerciante Block, humilhado pelo advogado que compartilha com K., e não é só o advogado que eles compartilham).

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Qualquer um pode fazer parte dos tribunais e qualquer quartinho (como o do pintor Titorelli, a quem K. procura para que o ajude no seu processo) revela entradas e saídas que se comunicam com cartórios e repartições (então, já que não há separação entre privado e público, também não se pode falar em “plano individual”). Todos os ambientes são miseráveis, baixos, pobres e abafados. Pesadelo de tísico. De fato, apesar do humor negro inato em Kafka, O processo parece um pesadelo ampliado. Mostra um mundo em crise, onde lei e justiça estão em pólos opostos, onde todos os valores e alicerces que achamos seguros e sólidos se viram contra nós, e ainda fazem com que acreditemos que carregamos alguma culpa, identificada e punida (é por isso que o sexo é uma presença tão forte no romance). O ser humano é um condenado que vive em aparente liberdade e K. acerta em cheio ao dizer para o sacerdote na catedral da cidade (quando sua condenação já é praticamente certa): “A mentira se converte em ordem universal”. O que se pode esperar quando a suposta lei que rege o universo é representada pela corrupção,  pela vaidade e pela degradação?

II

Se K. sucumbe ao absurdo, alienado de si e dos outros, contestando, mas apenas no (e aí sim se encaixa o) plano individual, A peste tenta equacionar o individual e o coletivo com relação à “mentira convertida em ordem universal”: a cidade de Oran é abalada pela morte inexplicável de seus ratos, depois por alguns casos isolados de uma doença misteriosa,até que o número de vítimas multiplica-se e a cidade é obrigada a ficar em estado de sítio, isolada. Nenhuma medida e nenhum soro parecem capazes de controlar e erradicar a epidemia e toda a vida cotidiana passa a se organizar em torno da peste, que aparentemente iguala a todos (embora não seja bem assim).

Uma leitura redutora da amplitude do livro de Camus está em considerá-lo simplesmente uma alegoria do Nazismo (a peste), da Resistência (o grupo que luta contra a praga, apesar das diferenças individuais: o doutor Rieux, seu amigo Tarrou, o jornalista Rambert, o padre Paneloux, o burocrata Grand) e do Colaboracionismo (o corrupto Cottard). As décadas transcorridas e os acontecimentos só valorizaram a alegoria da Peste utilizada por Camus (que, com incrível presciência, resgatou um dos símbolos mais fortes do imaginário medieval, que depois foi inúmeras vezes explorado como paralelo da nossa época), transcendendo as referências datadas e até as intenções possíveis do grande escritor franco-argelino: a Peste pode representar a mera estupidez da natureza que dizima populações inteiras, comprovando o absurdo do mundo, onde se vive e se morre gratuitamente; e pode representar uma ordem social alienada, contra a qual só a ação coletiva  pode ser uma força. Eficaz? Não importa. O livro não exalta o heroísmo coletivo, não há “mensagem positiva”. Apenas mostra que o indivíduo (e suas escolhas) nada é para a Peste, e nada é sem lutar contra a Peste, que Tarrou acredita estar dentro de todos nós.

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A Peste pode ser a guerra, a AIDS, o ebola, a globalização, o fanatismo, somos todos indivíduos que podem ser parte de uma estatística fatal, e não podemos nos desobrigar de trabalhar contra o absurdo e opor a ele o outro termo da equação camusiana básica: a revolta. Pois a culpa não está em nós, apenas o “micróbio” da Peste, em oposição à culpa difusa que parece envenenar os esforços de K. em O processo. É por isso que a palavra “inocência” é tão utilizada ao longo do romance. Somos inocentes porque nascemos num mundo indiferente ao nosso destino e aos valores morais que possamos criar para justificar nossa presença aqui. Divorciados do mundo, temos ainda a Peste, que representa tudo o que nos degrada e destrói, ou, num plano mais sutil, nos aliena de nós mesmos, tudo que serve à “mentira convertida em ordem universal”.

Um dos recursos brilhantes de Camus para criar um diálogo entre as várias reações individuais contra a praga é fazer com que o doutor Rieux narre a história (identificando-se apenas no final), incorporando porém as descrições, depoimentos e testemunhos dos outros personagens, numa tessitura narrativa muito mais complexa e escorregadia do que parece. Ocultando-se como narrador, Rieux faz questão de assumir o papel de cronista, mais do que de protagonista; enquanto que, em O processo, a narrativa é em terceira pessoa, mas sempre tem uma atmosfera de narrativa em primeira pessoa, de tão colada às percepções de K. O doutor Rieux, narrando, esquece de si mesmo para enfrentar a banal e monótona burocracia da Peste.

E assim, tendo em mente os acontecimentos do século XX, esses dois belíssimos romances colocaram em movimento imagens poderosas e bizarras, mostrado como as instituições forma se transformando em jaulas, como as abstrações que criamos passam a ter mais realidade que nossa própria existência cotidiana, como o indivíduo passou a ser irrisório e como o irracional ainda comanda nossas vidas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 23 de dezembro de 1997, em homenagem ao meio século de A peste e em razão do lançamento de uma nova edição de O processo).

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https://armonte.wordpress.com/2013/01/09/a-ratificacao-do-absurdo-a-morte-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/27/a-vida-apos-a-morte-de-albert-camus-o-primeiro-homem/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-sim-e-o-nao-de-albert-camus/

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O SIM E O NÃO DE ALBERT CAMUS

 

A RECUSA E O CONSENTIMENTO

    Recentemente, o leitor brasileiro teve a oportunidade de conhecer a derradeira obra de Albert Camus (1913-1960), O primeiro homem. Agora, a Record lança (com um capricho e um bom gosto que não são peculiares às suas edições, e com tradução de Valéria Rumjanek), o primeiro livro do grande escritor franco-argelino, O AVESSO E O DIREITO, o qual já circulou bastante por aqui na versão portuguesa.

O AVESSO E O DIREITO apresenta cinco textos que são indefinidos com relação ao seu gênero, mas não à sua qualidade. Aos 20 e poucos anos, Camus já era Camus, quer no tocante à contundência e beleza literária, quer no tocante aos seus temas recorrentes,e já preparava algumas das suas formulações mais lapidares.Faltava apenas, talvez, o olhar ficcional mais apurado que os leitores de O estrangeiro, A peste, A queda e O primeiro homem conhecem.

Entretanto, não é à toa que, no lindíssimo prefácio (escritos nos anos 1950), Camus afirme: “Sei que minha fonte está em O avesso e o  direito…” Ali, também, ele nos dá uma verdadeira síntese da concepção de mundo que embasa seu estilo: “Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade.Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”

             O primeiro texto,”A ironia”, apresenta três flashes de situações nas quais a velhice solitária, a pobreza e a morte dão o tom. É particularmente pungente a confusão de sentimentos do neto diante da morte da avó, ao ponto de ele chorar no enterro apenas “por receio de não ser sincero e de estar mentindo diante da morte” (portanto, o leitor está no limiar, diante de uma primeira encarnação do estrangeiro Mersault, que será condenado por não chorar no enterro da mãe). A grande, a terrível ironia é que nada importa, já que tudo se aceita. É talvez por isso que o homem deve viver “Entre o Sim e o Não”, título do segundo texto, uma espécie de terna recordação (todavia, também filosófica) da mãe e do ambiente que povoou a infância de Camus: “Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.

E assim vamos mergulhando no livro, através dessas voltas em espiral entre a recusa e o consentimento, entre a negação e a afirmação, entre o sim e o não. Embora tudo diga não, mesmo assim ecoa o sim que James Joyce colocou ao final de Ulisses ou o sentido dos versos de Caetano Veloso: “Nem o não do silêncio do breu/ Nem o sim da explosão estelar…”

        E essa espiral, esse movimento pendular, acompanhará Camus na sua estadia em Praga (o terceiro texto, “Com a morte na alma”, germe do inacabado mas belo A morte feliz), na  Espanha (“Amor pela vida”), até que, no último texto, que dá título ao volume, ele compara seu destino ao da mulher que foi preparando seu túmulo, com amor, ao longo dos anos, “sua saída singular e sua única distração”. Absurdo? Comece a olhar em volta, leitor.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de outubro de 1995)

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IMAGINANDO SÍSIFO FELIZ

 “O tema deste ensaio é justamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, à medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se postular a princípio que as ações de um homem que não trapaceia devem ser reguladas por aquilo que ele considera verdadeiro. A crença no absurdo da existência deve então comandar sua conduta. É uma curiosidade legítima perguntar, com clareza e sem falso pateticismo, se uma conclusão desta ordem exige que se abandone de imediato uma condição incompreensível. Falo aqui, evidentemente, dos homens dispostos a estar de acordo consigo mesmo.”

Pelo visto, Albert Camus ainda desperta interesse no Brasil, pois a editora Record vem há alguns anos reeditando ou lançando (como foi o caso de O avesso e o direito e O homem revoltado,que eram inéditos por aqui, embora circulassem versões portuguesas) suas obras. Das mais importantes faltava apenas O mito de Sísifo(que já fora traduzido por Mauro Gama para a editora Guanabara, e que agora aparece na versão de Ari Roitman & Paulina Watch), exatamente aquela que fez a sua fama, junto com O estrangeiro, no início dos anos 40 (com o auxílio de um artigo generoso e consagrador de Jean-Paul Sartre). Delineavam ambas o homem absurdo, aquele que escolhe a vida mesmo sabendo que há um divórcio entre o homem e o mundo: “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo”.

Com seu estilo perfeito e lapidar, Camus primeiro investiga o “suicídio filosófico”, ou seja, o pensamento racional que mergulha na irracionalidade do absurdo, agregando-a em suas premissas. Passa então para a “liberdade absurda”: “o que significa a vida em semelhante universo? A crença no sentido da vida sempre supõe uma escala de valores, uma escolha, nossas preferências. A crença no absurdo ensina o contrário. Tudo o que me interessa é saber se se pode viver sem apelo. Não quero sair deste terreno. Sendo-me dada esta face da vida, posso acomodar-me a ela? A crença no absurdo equivale a substituir a qualidade das experiências pela quantidade. Porque o absurdo mostra, por um lado, que todas as experiências são indiferentes e, por outro lado, estimula a maior quantidade de experiências”.

Os paladinos dessa atitude são os dons juans, os conquistadores e os atores, os quais se realizam na multiplicidade e na diversidade. Sendo Camus um escritor antes de tudo, e já que “a diversidade é o lugar da arte”,  o clímax de O MITO DE SISIFO aborda a criação literária, focalizando sobretudo os heróis de Dostoiévski (ele, inclusive, homem de teatro, fez uma adaptação para o palco de Os demônios, com o título pelo qual o livro ficou muito tempo conhecido no Brasil: Os possessos). Há, em apêndice, um ensaio belíssimo sobre Kafka. Mas tudo dá no mesmo: “O conquistador ou o ator, o criador ou Don Juan podem esquecer que seu exercício de viver não funcionaria sem a consciência do seu caráter insensato. Há muita esperança tenaz no coração humano. Os homens mais despojados acabam ás vezes aceitando a ilusão”.

A maior parte das obras de Camus e obrigatória, mas caso fosse necessária uma contrafeita eleição, O MITO DE SÍSIFO permaneceria um forte candidato a livro de cabeceira pra vida toda.

(resenha publicada em originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de agosto de 2004)

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