MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/08/2013

LEITURA EM ESPELHO: “O enigmista”, de Ian Rankin, e “Prelúdio para a morte”, de Val McDermid

20 de fevereiro de 2010- INTRODUÇÃO GERAL

Ian Rankin (nascido em 1960) e Val McDermid (nascida em 1955) são, ambos, autores escoceses especializados em romances policiais densos e climáticosm e os quais, salvo engano, começaram suas carreiras no mesmo ano (1987).

Nesta última semana, li de Rankin The falls (2000), que no Brasil ganhou o belo título O ENIGMISTA, e de McDermid The grave tattoo (2006), o qual foi rebatizado como PRELÚDIO PARA A MORTE (parece apelativo, contudo tem a sua razão de ser, como veremos). Dois livros que concentram o charme e a atração da ficção policial. E ambos têm um pé na erudição, ainda que de maneira leve e hábil, apoveitando fatos (que se tornaram meio lendários) do passado das regiões onde transcorrem: em Rankin, a descoberta de pequenos caixões em Arthur´s Seat, em 1800 e tantos, que poderiam estar associados aos chamados “ressuscitadores”, ladrões de corpos (tais como aqueles da história de Stevenson, o maior dos autores escoceses); em McDermid, a descoberta de um corpo preservado na turfa,  no Lake District inglês, o qual  poderia ser o do líder do motim do Bounty, aquele mesmo que originou pelo menos três superproduções (a mais famosa, a dos anos 30 com Clark Gable e Charles Laughton; depois, uma versão sofrível, com Marlon Brando no auge do seu desinteresse, nos anos 60; e enfim, uma versão mais realista, e mais chata, com Mel Gibson e Anthony Hopkins), e que agora ganha uma explicação que dá relevo à questão homossexual, ao desejo do capitão do navio, Bligh,  pelo amotinado Fletcher Christian; tal descoberta tem a ver com os indícios que começam a aparecer de que, voltando clandestinamente dos Mares do Sul (onde supostamente fora morto por uma revolta dos nativos), Christian contara suas vicissitudes ao poeta-mor do romantismo inglês (e ser quase que unanimamente considerado assim é um feito e tanto, se pensarmos em Byron, Keats, Blake e sobretudo em Coleridge e Shelley), William Wordsworth, que teria escrito um poema épico sobre a questão, desaparecido desde então.

Anotações sobre O ENIGMISTA

“Talvez Stevenson tivesse razão.

     Sobre o quê?

     Ele chamava Edimburgo de cidade abissal. Talvez a vertigem esteja na natureza deste lugar”.

Para quem gosta dos seriados policiais ingleses (é o meu caso), muitos deles centrados em equipes de investigadores, como “Dalziel & Pascoe”, “Silent Witness” (com a grande Amanda Burton), as legendárias temporadas de “Prime Suspect” (um dos maiores momentos de Helen Mirren), o apaixonante  “Wire in the blood” (que foi criado a partir de livros de Val McDermid, responsável portanto por Tony Hill, um dos meus personagens favoritos da cena atual, tanto convivendo– nas primeiras três temporadas–na cidade imaginária de Bradfield, com Carol Jordan, e nas temporadas subseqüentes com  Alex Fielding,  uma guinada que foi meio traumática para os aficionados da série, mas que se revelou bem-sucedida, graças à intérprete: Hermione Norris era ótima como Jordan, porém  Simone Lahbib não ficou atrás como Fielding, e o que dizer do excepcional e carismático Robson Green como Hill?, que merecia ser tão famoso quanto o House de Hugh Laurie,  não esquecendo do delicioso Kevin Geoffries, papel de Mark Letheren?; pelo que soube, a série foi cancelada em 2009, o que é uma lástima), o livro de Rankin é uma pedida perfeita de leitura.

O ENIGMISTA pertence a uma série (até agora são 17 romances) que tem como protagonista o detetive John Rebus e cuja ação transcorre em Edimburgo, um dos fascínios da minha adolescência. Curiosamente, foi por causa de Edimburgo que li o insípido O clube filosófico dominical, de Alexander McCall Smith, quando na mesma coleção da Companhia das Letras havia um autor muito mais interessante.

Como é a Edimburgo de Rankin, tal como aparece em O ENIGMISTA?

“Que cidade bonita, declarou. Rebus tentou concordar, mas quas enão conseguia ver a cidade agora. Para ele, Edimburgo se tornara um estado de espírito, um malabarismo de intenções criminosas e instintos maléficos. Gostava de seu tamanho, de sua forma compacta. Gostava dos bares. Mas havia muito tempo sua paisagem externa não mais o impressionava (…) Eu nunca me canso desta paisagem, ela disse, começando a andar em direção ao carro. Rebus aquiesceu novamente, sem muita convicção. Para ele, nem era uma paisagem. Era uma cena de crime esperando para ser ativada”.

 “A sensação era de claustrofobia, mesmo ao ar livre (…) Em tardes como aquela, Edimburgo parecia uma prisão, uma cidade entre muralhas.”

“Os escoceses eram recordistas em ataques cardíacos e problemas dentários, resultado da dieta nacional: gorduras saturadas, sal e açúcar. Já tinha refletido sobre o que fazia o povo escocês gostar de comidas congeladas, chocolate, batatas fritas e bebidas espumantes: seria o clima? Ou a resposta estaria em algum lugar mais profundo, na natureza do país?”

“Ficou pensando se alguém da década de 1770 que fosse transportado para o presente acharia essa parte da cidade muito diferente. As luzes, os carros, poderiam chocá-lo, mas não a atmosfera do lugar”.

“A impressão que se tinha era de que Edimburgo sempre fora assolada pela crueldade, seus séculos de barbarismo mascarados por um exterior que se alternava entre o sereno e o inabalável”

“A terça-feira tinha se tornando uma outra segunda-feira: uma noite morta na cidade”.

Essa “metafísica” de Edimburgo (e da Escócia, por extensão), que determina o pessimismo e a desilusão de John Rebus, contrasta nitidamente com as ocorrências policiais na plácida cidade:

“A cidade andava tranqüila. Algumas brigas domésticas, uma ou duas batidas em busca de drogas” ou ainda “Algumas agressões à faca no fim-de-semana, um espancamento, três brigas domésticas e um incêndio premeditado. Tudo isso estava mantendo seus colegas ocupados”.

A polícia de Edimburgo se desdobra em torno de um caso “quente”: o desaparecimento de Flip Balfour, filha de um banqueiro, que depois aparecerá morta num local chamado Hellbank. Rebus faz parte da equipe de investigação. A sua parte da trama é que justifica o título original do romance, The falls (título que será aproveitado de forma supimpa na economia da trama, pois envolverá até Camus, que dá nome a ruas de Edimburgo e cujo A peste é, em inglês, The fall): no lugarejo chamado Falls, em cujos arredores a família Balfour tem uma grande propriedade, aparece um pequeno ataúde simbólico, tal como os encontrados no século XIX em Arthur´s Seat.  Rebus desconfia de que há uma ligação entre o achado e uma série de mortes que pareciam acidentais, e também desaparecimentos, que remontam a quase 30 anos antes, desde 1972. Sempre uma morte ou desaparecimento (em lugares diferentes) seguidas pela descoberta de um caixãozinho. Ninguém dá muito crédito a essa linha de investigação, e ele teum uma trabalheira danada em reunir os artefatos e as pistas (incluindo as autópsias) dos casos anteriores, além de mergulhar na história de um antigo e sinistro anatomista da “old” Edimburgo, o dr. Kenneth Lovell, cuja descendente , Claire Benzie (estudante de medicina, especializando-se em patologia forense), torna-se uma das suspeitas do assassinato de Flip Balfour; poe causa dessa linha de investigação, ele entra em contato com o patologista aposentado Donald Devlin e com a curadora de museu Jean Burchill, a primeira a se aperceber da relação entre os caixões e os prováveis crimes, e com quem Rebus se envolve romanticamente, se é possível dizer isso de um personagem tão negativo.

Por outro lado, o título brasileiro acaba privilegiando o outro pólo da trama: outra investigadora, mais jovem do que Rebus, Siobhan Clarke, e dividida entre a admiração pelo colega e o arrivismo (há a chance de promoção na carreira se aceitar ser a porta-voz da polícia nas relações com a imprensa), descobre e-mails estranhos no laptop de Flip, enviados pelo “Enigmista”, que indicariam um jogo, com etapas vencidas a partir da decifração de charadas: Flip teria alcançado a etapa “Hellbank” e estava pronta para a etapa “Constrição” (palavra cujo significado tem muito a ver com a Edimburgo das citações mais acima: restrição, limitação, estreitamento). Siobhan se torna uma jogadora, mesmo o Enigmista sabendo que é uma policial, e começa a se  absorver obsessivamente no jogo, decifrando enigmas cujo substrato tem muito a ver com a topografia escocesa.

Não importa muito que o desvendamento da identidade do(s) assassino(s) vá pelo óbvio (eu diria que pelo lógico).  O ENIGMISTA é um livro de atmosfera, de clima. E exige do leitor concentração e disposição, pois como os seriados de que eu tanto gosto, é meio lento. Mas é um ritmo lento que encanta e absorve, que nunca aborrece. Tanto que o li em meio a uma onda intensa de calor, e em pleno carnaval, e me transportei para a Edimburgo rankiniana (ou rebusiana) sem maiores problemas, a não ser implicando com a nova linha de capas (feia, muito aquém da anterior) que a Companhia das Letras imprimiu à sua já tradicional (e cara) série policial.  A meu ver, o romance tem a dose certa de ação (no sentido de perseguição e correrias), de densidade e de informação e erudição. Nada falta, nada sobra. E para terminar essa primeira aproximação com o universo de Ranking-Rebus duas passagens de que gosto muito no livro (por falar nisso, gostei muito dos personagens secundários, todos interessantes, especialmente as femininas, e gostei muito de Siobhan Clarke). Na primeira, o barman de um pub conta que “quando o hospital se mudara para Petty Fance, eles tinham perdido metade dos clientes. Não médicos e enfermeiras, mas os pacientes. Pijamas e chinelos, sem brincadeira: eles vinham direto do hospital para cá. Num dos caras tinha até tubos pendurados nos braços”. A segunda tem a ver com Camus, cujo A peste/The fall está associado a uma banda, The Fall, e os dois, somados, a Falls, a cidade na qual o caixão simbólico de Flip Balfour é encontrado. Rebus agradece a Siobhan o termo “existencialismo”, que ele não conhecia até então e diz a ela:

“Então talvez entenda o que estou dizendo.

     (…) Na verdade, não faço a mínima idéia do que você está dizendo.

     Ótimo, isso quer dizer que está aprendendo.

    Aprendendo o quê?

   A marca do existencialismo patenteada por John Rebus”.

Posters of Val McDermid, Ben Okri and Ian Rankin

ANOTAÇÕES DO DIA 02.03.2010- sobre PRELÚDIO PARA A MORTE

“Edith, Tillie e Eddie estavam todos na casa dos oitenta. Pessoas idosas realmente morriam e às vezes jogavam a toalha quando as dores, as mágoas e as fragilidades se tornavam demais para elas”. Não, leitor, não são as dores, as mágoas e as fragilidades que dão cabo dos idosos citados (e há mais uma vítima), em  Prelúdio para a morte. É um assassino frio e cruel, que está atrás de um manuscrito que poderia conter um épico perdido do genial poeta romântico William Wordsworth, no qual se contaria a verdadeira história do célebre motim do Bounty, no século XVIII.

Como já coloquei na minha introdução (ver abaixo), Val McDermid já entraria para a história por ser a criadora de Tony Hill (embora ela não seja responsável pela hipnotizante atuação de Robson Green, o personagem já é maravilhoso); eu sempre admiro, também, a capacidade dela em colocar situações muito contemporâneas nas suas investigações: a desmoralização dos espaços urbanos, o afrouxamento dos vínculos familiares, a distância desalentadora das gerações, a indiferença dos jovens por tudo, e a violência como um expediente contra o vazio, tudo isso em meio a aterradoras histórias de perversidade e rituais psicopatas.

Não foi muito diferente em PRELÚDIO PARA A MORTE. Um dos fios da trama é um achado: é a amiga adolescente da personagem principal, Tenille, que vive num condomínio meio favelão (assim como a própria Jane, especialista em Wordsworth), com a tia, uma tipa que sempre arranja um certo tipo de namorado… O último se aboleta na casa e visivelmente quer tirar uma casquinha de Tenille. Ela, pressentindo o abuso, comenta com Jane, que  toma a seguinte atitude: todos comentam no condomínio que Tenille é filha do maior criminoso da área, ainda que ele nunca tenha assumido a paternidade. Jane o procura, expõe a situação, e quando ela parte para a região dos Lagos para investigar se existe ou não o manuscrito de Wordsworth, Tenille encontra o namorado do tio assassinado no seu apartamento. Ela toca na arma, deixa suas digitais, e dando-se conta disso, toca fogo no apartamento. Depois, esconde-se no apartamento de Jane, só que fica sabendo que a polícia está atrás dela, tomando-a como autora delinquente do assassinato e do incêndio, e, então, disfarçada de menino, vai para a região dos Lagos também, conseguindo que Jane lhe dê guarida. Acontece que ela, entediada com a reclusão, e achando que os velhinhos que podem estar com o manuscrito, estão embromando a “ingênua” Jane (Tenille não acredita que as pessoas digam, por princípio, a verdade), ela rouba a lista com os nomes e endereços dos descendentes da criada de Wordsworth, Dorcas Mason, e começa a vasculhar as casas à noite. É numa dessas incursões que ela dá de cara com o assassino (mas não o vê muito claramente), e é numa outra que acaba sendo detida pela polícia local, complicando seriamente Jane, suspeita de ser autora dos crimes e mentora das invasões…

E essa é apenas uma das muitas linhas que McDermid cria, acompanhando o ponto-de-vista de vários personagens: a própria Jane, é claro; seu irmão, Matthew, que guarda um profundo ressentimento com relação a ela e que resolve investigar também a questão do manuscrito, uma vez que havia pedido aos seus alunos (ele é professor e diretor da escola pública local) que fizessem árvores genealógicas de suas famílias, muitas delas antigas no lugar, e dois deles haviam se mostrado descendentes diretos de Dorcas; a antropóloga forense, River Wilde, que está estudando o corpo encontrado preservado no pântano, que além de ajudar Jane, ainda tem um romance com o chefe da polícia local, o cara que mais suspeita da especialista em Wordsworth (é a dra. Wilde quem fará as autópsias que comprovarão não serem “naturais” as mortes dos quatro velhinhos). o ex-namorado de Jane, o ambicioso Jake, que virou amante de uma importante negociante de arte antiga e manuscritos, a qual, ao saber da pesquisa de Jane, manda Jake se reaproximar da antiga namorada, para se adiantar a ela (ele chega a invadir os e-mails dela) e chegar antes ao manuscrito (além dele, a negociante ainda enviou o assassino, que não sabemos quem é, e que tenta atropelar Jane, e depois dá uma paulada na cabeça dela à beira de uma cachoeira, jogando-a na cascata)…

Tudo muito bem tramado e executado, o livro segue o esquema “caça ao tesouro” com rara destreza. Só achei, no cômputo geral, que a dra. Wilde foi sub-aproveitada na trama, McDermid nunca consegue avançar muito nessa parte da narrativa, ainda que ela dê o toque final do romance. O mais interessante é que a parte policial, de mistério mesmo, aquela do quem matou fulano, beltrano e sicrano, só começa depois de duzentas e tantas páginas, há uma cuidadosa (e lenta) preparação para depois tudo se acelerar e ganhar um ritmo galopante.

Além de cada capítulo trabalhar essas linhas diversas, sempre há um trecho introdutório que é um suposto manuscrito do século XIX, ou da mulher de Wordworsth, ou do próprio poeta, com as anotações das experiências no Bounty e depois dele de Fletcher Christian, material para o épico perdido (“estou ávido para compreender tais acontecimentos e traduzi-los em versos”).

“Gostaria de sentir o que Fletcher Christian sentira ao rever aquela paisagem depois de ter regressado dos Mares do Sul. Acaso seu espírito se enchera de júbilo e alívio ao ver-se rodeado por aquelas montanhas conhecidas, suas cores tênues, as mesmas que haviam composto a palheta da sua juventude? Ou teria ansiado pelos exuberantes trópicos com suas cores improváveis? Teriam o frio e a umidade feito os seus ossos sentirem saudade da quentura do sol meredional? Teriam as mulheres lhe parecido pálidadas e desinteressantes após a beldade exótica que lhe dera um filho? Teria tido a sensação de que voltara para casa ou aquela lhe parecera apenas uma espécie de prisão diferente da Ilha de Pitcairn?”

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02/08/2013

Uma grande contadora de estórias: VAL McDERMID

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de março de 2010)

“Edith, Tillie e Eddie estavam todos na casa dos oitenta. Pessoas idosas realmente morriam e às vezes jogavam a toalha quando as dores, as mágoas e as fragilidades se tornavam demais para elas. Não, leitor, não são as dores, as mágoas e as fragilidades que dão cabo dos idosos citados, em  Prelúdio para a morte[The Grave Tattoo, 2006, em tradução de Marcia Heloísa Amarante Gonçalves]. É um assassino frio e cruel, que está atrás de um manuscrito que poderia conter um épico perdido do genial poeta romântico William Wordsworth, no qual se contaria a verdadeira história do célebre motim do Bounty, no século XVIII.

Na semana passada (VER  https://armonte.wordpress.com/2013/08/02/um-romance-policial-perfeito-o-enigmista-de-ian-rankin/)  comentei um romance policial do escocês Ian Rankin. Agora é a vez da sua compatriota, Val McDermid, criadora do fascinante Tony Hill, herói da série Rastros da Maldade, e que, aqui, está particularmente inspirada,  tecendo diversas linhas narrativas e entremeando-as de forma muito engenhosa.Tanto que os assassinatos (os quais não são tomados por tais, durante um bom tempo) só começam a dominar Prelúdio para a morte após mais de duzentas páginas. Quem são as pessoas eliminadas? São os descendentes da criada de Wordsworth, Dorcas Mason, encarregada pela família do poeta de “dar sumiço” ao texto embaraçoso,  que poderia envergonhar a família, pois dá uma versão gay ao motim, já contado em várias versões cinematográficas.

Até chegar a esse ponto, o que movimenta o enredo é o corpo de um homem assassinado, preservado por séculos pela turfa, e que poderia ser o líder da sublevação, Fletcher Christian (essa descoberta macabra traz à cena a antropóloga forense River Wilde), o que faz com que a especialista em Wordsworth  Jane Gresham, que vive em Londres num condomínio-favela, onde fez amizade  com a nada convencional adolescente negra Tenille (que pode a qualquer momento ser abusada pelo novo namorado da tia que a cria), volte para sua região natal, Lake District, para levantar a genealogia da família Mason, contando com a ajuda da dra. River, do amigo Dan, e da própria Tenille (que se envolveu com o assassinato do seu assediador e fugiu da capital).

Quando fica evidente  que a morte dos descendentes de Dorcas nada teve de natural, Jane passa a ser a maior suspeita, chegando a ser detida. Ao mesmo tempo, seu ex-namorado,  Jake Hartnell, agora empregado e amante de uma importante negociadora de relíquias e manuscritos raros, aparece para disputar com ela e seu grupo a primazia de encontrar o poema de Wordsworth.

A cada abertura de capítulo, temos uma passagem das anotações do poeta, narrando o aparecimento de Fletcher (que era tido como morto nos Mares do Sul e que só podia levar uma vida clandestina e perseguida na Inglaterra) na sua vida e seus planos para relatar as aventuras e desventuras do amigo num épico.

Assim como Rankin, McDermid mostra-se hábil na confluência entre ação, erudição, elementos contemporâneos (como a figura de Tenille) e um senso de mistério impecável. Prelúdio para a morte é um belo retorno à arte de contar bem uma história e nos entreter por mais de 400 páginas. Pena que Edith, Tillie, Eddie tenham que morrer para termos esse prazer.

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