MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/12/2012

PRA INGLÊS VER: segunda parte (Machado)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de fevereiro de 1999)

O inglês James Woodall escreveu uma biografia do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), O homem no espelho do livro. Porém, melhores serviços à literatura latino-americana foram prestados por seu compatriota, John Gledson, que preparou para a Companhia das Letras uma magnífica antologia de contos[1] de Machado de Assis (1839-1908), certamente o único autor que pode se ombrear com Borges.

Lendo os dois volumes da edição, a impressão final é que Machado é um caso ainda mais surpreendente de genialidade do que o autor de O Aleph. Nem se trata dos fatos biográficos, que eram todos contra ele (mulato, pobre, gago etc), isso é o de menos. A questão é: como explicar a assombrosa perspicácia moral e intelectual do autor de Quincas Borba (meu romance brasileiro predileto)? Borges beneficiou-se de uma vivência européia e do contato com os mais diversos tipos de escritor. Machado nunca saiu do Brasil (aliás, poucas vezes saiu do Rio de Janeiro), viveu num meio intelectual tacanho e, no entanto, escreveu coisas assombrosas como Conto alexandrino (Borges com certeza amaria este conto, assim como O segredo do bonzo, A segunda vida  ou Identidade—este último, infelizmente, não incluído por Gledson—,entre outros textos de Machado), que é tão ou mais cruel do que qualquer coisa que Kafka tenha escrito décadas depois, justamente por causa do tom brejeiro e aparentemente jocoso, numa história que fala sobre tortura, experiências com cobaias e seres humanos, e da estupidez arrogante de certas teorias.

Nem o mais niilista autor do século XX chega aos pés do velho Machado em ironia e falta de sentimentalismo inatas. Tanto que, quando há uma solução de compromisso, de acordo com as expectativas do público (Machado publicava muito em jornais e revistas), ela soa bem mais falsa do que em outros autores, a nota dissonante é logo percebida (é o caso de A parasita azul e Miss Dollar, por exemplo).

O primeiro volume apresenta 21 contos, divididos em dois grupos: nove contos em que o grande Machado ainda está em gestação, e os doze contos, quase todos extraordinários, de Papéis avulsos (1882), a mais famosa coletânea do autor carioca. Estão lá O alienista, Dona Benedita, Na arca, Teoria do medalhão, O espelho, O segredo do bonzo. Quem já os leu sabe que são o ponto alto da nossa ficção. Contudo, de certa forma, é mais interessante fixar-se nos outros textos, os “imaturos”, para ver como se encontram elementos “machadianos” em experiência ainda informes, onde o gume não  foi devidamente afiado. Há até momentos fortes, como em Mariana, onde uma escrava se apaixona pelo seu sinhozinho. E há momentos do mais puro Machado de Assis, como no seguinte trecho de Miss Dollar, onde se comentam atitudes do personagem principal, Mendonça: “Aceitemo-lo com os seus ridículos; que os não tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”.

Se no primeiro volume acompanhamos,de uma maneira quase microscópica (e dentro dos limites de uma antologia, por mais ampla que seja), a transformação de Machado de Assis num grande escritor, no segundo volume nós vemos outra oscilação nos 54 contos, uma alternância entre a genialidade exercitando-se com plena força e o profissionalismo, que faz o texto ser interessante e muitas vezes divertidíssimo,  mas onde não lampeja aquele “algo” imponderável que está em contos como A igreja do Diabo, Singular ocorrência, Conto alexandrino, Capítulo dos chapéus, O enfermeiro, Galeria póstuma, Trina e uma (um texto magnífico, praticamente restaurado e estabelecido por Gledson), Missa do galo, A causa secreta, Um homem célebre e até o inusitado, em se tratando de Machado, Pai contra mãe, que trata com crueza do tema da escravidão (o qual ele “ensaiara” anos antes em contos como Mariana e Virginius). Na categoria de contos “profissionais” podem ser incluídos, por exemplo, Troca de datas, O lapso, Primas de Sapucaia, Médico e remédio. A inglesinha Barcelos, Um apólogo.

Com essa antologia, e também com a iniciativa da editora Ática de republicar integralmente os volumes de contos machadianos (os que ele selecionou em vida) na coleção “Bom Livro”[2], o leitor atual pode ter acesso a um universo fascinante. Houve já quem dissesse que bastaria ler Shakespeare para ter tudo o que se podia pedir e esperar da literatura. Nós, brasileiros, podemos dizer o mesmo de Machado de Assis.  Depois de ler essa antologia (que pode não representar a sua obra de contista como um todo, mas oferece ótima visão panorâmica do conjunto), qualquer outra coisa parece sem graça.


[1] Contos: uma antologia– 75 contos de Machado de Assis, numa caixa com dois volumes.

John Gledson tem dois livros fundamentais sobre Machado; “Ficção e História” e “Impostura e Realismo”, apesar de uma certa tendência à “superinterpretação”. Mas ninguém mais lê Memorial de Aires do mesmo jeito, depois de ler Gledson.

[2] A Martins Fontes ainda não iniciara na época dessa resenha sua maravilhosa reedição dos volumes de contos, para mim a melhor já feita até agora no país.

(LEIA TAMBÉM: https://armonte.wordpress.com/2012/12/02/pra-ingles-ver-primeira-parte-borges/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/22/pra-ingles-ver-terceira-parte-entre-a-providencia-divina-e-os-comerciantes-britanicos/)

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