MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/01/2012

QUANDO SHERLOCK CHOROU: Holmes, a “vã filosofia” e o poder da emoção

“Sem dúvida, Holmes estava procurando por algo no vasto índice de sua memória. Como os conteúdos de um arquivo enfiados bem no fundo de um armário esquecido, as circunstâncias específicas de quando Matsuda abandonou a família e a terra natal, uma vez recuperadas e conhecidas, iriam dar lugar a uma quantidade inestimável de informação”. 

    Em 1947, Sherlock Holmes viaja para um Japão destruído pela Segunda Guerra com o objetivo de pesquisar in loco a cinza espinhosa, que pode aumentar a longevidade e sobretudo diminuir os estragos do tempo no cérebro. Pois o mítico detetive, a mente mais famosa de todos os tempos, aos 93 anos não consegue deter o desgaste da sua memória, os vazios, os lapsos, as confusões: “Apesar de tudo, Holmes não deixava de perceber a falibilidade cada vez maior de sua memória”[1] Por essa mesma razão, há décadas cultiva colméias na propriedade para a qual se retirou no Sussex (Watson já morreu há muito tempo), pois acredita que a sobrevida da sua potência raciocinadora e seu bom estado físico (apesar de utilizar bengalas) vêm do consumo constante da geléia real.

    Essa obsessão de Holmes com a preservação da sua capacidade mental, vai entrar em choque com os objetivos do seu correspondente japonês (aparentemente bastante interessado na tal cinza espinhosa), Sr. Umezake, que o atraiu para o seu país sob falso pretexto (na verdade, queria que o detetive o esclarecesse sobre o paradeiro do pai, que abandonara a família no início do século), com a amizade que desenvolve com o adolescente Roger, filho da mulher que cuida de sua propriedade (e que também se apaixona pelo apiário), apesar da antipatia que tem pela mãe, a quem trata com hostilidade (ela o cansa com todos aqueles imperativos cotidianos e tarefas banais que foram e são apanágio da existência “feminina”; e com uma narrativa com a qual luta (já não há um Watson para escrever a seu modo sobre suas façanhas), de um caso antigo, que deixou nele uma sensação de insuficiência, de amargor, de vida desperdiçada, o caso de uma mulher deprimida por abortos involuntários e cujo marido acredita que está sendo explorada por uma professora de música, pois ela está obcecada com as aulas em que está aprendendo a tocar harmônio de vidro:

“Havia algo sobrenatural nos olhos azuis dela, e sua pele pálida, e toda a sua conduta—os movimentos lentos e sinuosos de seus membros quando ela o deixou, o modo com que ela vagueou, como uma aparição, pelo atalho. Sim, algo sem propósito, calmo e incompreensível, ele tinha certeza, quando ela se afastou dele e desapareceu atrás da cerca viva. Agora com o crepúsculo cobrindo o chão, ele sentia uma perda. Não era para terminar tão de repente; ele tinha suposto que seria interessante para ela, único—uma alma gêmea, talvez. O que era aquela falta dentro dele? Por que, quando parecia que toda molécula dentro dele era atraída por ela, ela o tinha deixado rapidamente? E o que era, então, isso que o fez persegui-la no atalho, mesmo quando pareceu que ela o considerava um estorvo? Não podia dizer, nem podia compreender por que sua mente e seu corpo estavam, naquele momento, em discordância: um sabia mais que o outro, contudo a mais racional permanecia menos determinada”.

 

    Já se fizeram incontáveis variações,  paródias e pastiches da figura de Sherlock Holmes. Entretanto, nessa massa toda de releituras e desconstrucionismos, Um pequeno truque da mente (A slight trick of the mind-2005, traduzido por Lea P. Zylberlicht), de Mitch Cullin, é uma das experiências mais originais e interessantes (eu sei que essa última qualificação é tida como vaga e meramente confortável, apenas uma muleta para não se dizer coisa alguma nem se comprometer, mas eu ainda acredito na sua eficácia, quando alguma coisa é realmente digna de interesse). Uma pista para se entender a intenção que movimenta essa visão de um Sherlock nonagenário, desesperado em manter sua mente lúcida,  é uma informação que aparece no início do capítulo 9. Ficamos sabendo que Holmes, que gostava de se disfarçar e era histriônico, participou de uma montagem de Hamlet, em 1879, representando o papel de Horácio. Ora, é a esse amigo que é dirigida a proverbial admoestação hamletiana: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe tua vã filosofia”. O apego à mente, ao ser racional e consciente, a “vã filosofia” que guiou, desviou e destruiu a vida de Sherlock Holmes, o que ficará bem melhor delineado na paixão que desenvolverá inutilmente pela tocadora de harmônio e pelo desamparo que fica diante de uma tragédia que tira a vida de Roger.

    Na verdade, esse questionamento é um tanto clichê e um caminho verdadeiramente perigoso, essa investigação do medo dos sentimentos, e a esterilidade emocional que pode acarretar, e o poder final da emoção, que mostra que há mais coisas entre o céu e a terra, etc etc.

 

     Mitch Cullin corria o risco de fazer um Quando Sherlock chorou, e não tenho certeza de ele não ter descambado aqui e ali nesse tipo de pieguice:

“Mas por que ele estava chorando tão facilmente, contudo sem emoção, as lágrimas saindo por si mesmas? Por que ele não conseguia chorar alto, soluçando entre as palmas das mãos?  E por que—por ocasião de outras mortes, quando a dor era igual à que ele sentia agora—havia evitado os funerais de famílias e nem uma vez derramou uma única lágrima, como se a própria tristeza fosse algo a ser censurado? Ele não se esforçaria para obter qualquer resposta (pelo menos não neste dia), nem jamais acreditaria que seu choro pudesse ser a soma total do resultado de tudo que ele havia visto, conhecido, cuidado, perdido e mantido abafado ao longo de décadas—os fragmentos de sua mocidade, a destruição de grandes cidades e impérios—então o enfraquecimento lento de companheiros afeiçoados e de sua própria saúde, da memória, da história pessoal, todas as complexidades implícitas da vida, cada momento profundo e diferente, condensadas em uma copiosa substância salgada em seus olhos cansados. Em vez disso, ele se abaixou sem mais delongas, sentando-se ali no chão como um estátua que tivesse sido inexplicavelmente assentada sobre a grama cortada…”[2]

    O efeito geral, porém, do seu romance, especialmente a narração da viagem pelo Japão e a evocação do caso que tanto o abalou, é muito marcante e desconcertante (parece que estamos lendo uma mistura de Conan Doyle com Bernardo Carvalho) para que o atolemos nessa dicotomia tão pobre. Também importante é saber que ao colapso da mente dedutiva, corresponde um colapso da noção de verdade, de algo que pode ser desnudado e evidenciado. Holmes diz ao Sr. Umezaki, “Francamente, meu amigo, perdi o desejo por qualquer noção de verdade. Para mim, há simplesmente aquilo que é—chame isto de verdade, se precisar… sou atraído para o que é visto claramente, reunindo tanto quanto posso do externo, e depois sintetizando tudo que reúno em algo de valor imediato. O universal, místico, ou implicações a longo prazo—esses lugares onde a verdade talvez resida—são sem interesse”. Na verdade, há aqui um elogio do relativo, do contingente, longe daquelas metas positivistas do século no qual o famoso personagem de Conan Doyle nasceu.

 (uma versão mais condensada deste texto foi publicado em A TRIBUNA, de Santos, em 18 de janeiro de 2011)


[1]Mas, nonagenário, ele queria o quê, também? Só de conseguir viajar, naquela época e nessa idade, da Inglaterra para o Japão, devia se dar por feliz pelo feito.

[2]Na seqüência dessa citação, há a explicação do título do romance: “Ele tinha se sentado ali anteriormente, no mesmo lugar—próximo ao  apiário, o local marcado por quatro pedras trazidas da praia dezoito anos antes… colocadas separadamente—uma exatamente na frente dele, uma atrás, uma á esquerda, uma à direita—, formando um sinal discreto, modesto, que no passado continha e abrandava seu desespero. Era um pequeno truque da mente, uma espécie de jogo, embora freqüentemente benéfico: no domínio das pedras, ele podia meditar, pensando com afeto naqueles que tinham partido—e depois quando saía daquele local, qualquer aflição que tinha trazido para o espaço era mantido ali, pelo menos por certo tempo.  Mens sana in corpore sano era o encantamento dele, dito uma vez quando adentrava o local, repetido posteriormente ao sair dele”.

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