MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/12/2014

TRADUÇÕES DE 2014-ALGUNS DESTAQUES

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Minha lista de destaques entre as traduções de 2014 será possivelmente de uma graça finita para muitos. Como meu espaço no jornal A TRIBUNA diminuiu, ative-me a 16 títulos (aquele que considero “o” livro do ano e + 15), incluindo apenas (salvo engano) aqueles ainda não traduzidos no Brasil, o que me fez excluir as novas versões de clássicos da ficção científica lançadas pela Aleph, novas versões de clássicos (A Besta Humana, por exemplo, ou Paradiso), e também Michael Kohlhaas, obra-prima que apareceu em duas versões este ano (mas já tinha sido traduzido antes) até mesmo o importantíssimo As aventuras do bom soldado Svejk, o qual já tivera versão brasileira em 1967, pela Civilização Brasileira, como Aventuras do bravo soldado Schweik. De resto, não custa reafirmar, como sempre faço, que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Sempre se pode dizer que mais vale um Buda no sótão do que um pintassilgo que não alça voo.

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de dezembro de 2014)

Tradução do ano- O Idiota da Família (1971), de Jean-Paul Sartre (cujo primeiro volume foi traduzido por Julia Rosa Simões), tentativa talvez quimérica de investigar até os últimos limites a vida de um indivíduo (Gustave Flaubert), num estilo inigualável em sua vivacidade e ousadia, apesar do cipoal informativo-interpretativo, que visa a fusão do que é privado e coletivo (L&PM).

Entre o que pude ler, em ordem alfabética (por sobrenome de autor) as seguintes obras, até então inéditas em nosso país, destaco:

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Hóspede por uma noite (1939)- Sch.I.Agnon (Nobel 1966) faz o protagonista retornar à terra natal, num feriado religioso, para constatar as marcas deixadas pela guerra nas tradições da comunidade judaica—e apesar do horror que hoje representa o estado de Israel, como ignorar um autor desses? (Perspectiva; tradução de Zipora Rubenstein);

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Espírito e Espírito de Época: Hermann Broch (1886-1951) foi um dos maiores romancistas do século passado (“A Morte de Virgilio”, “Os Sonâmbulos”). Também era um notável ensaísta, meditando sobre os rumos da arte nos impasses da modernidade—são essenciais suas formulações sobre o mal, o kitsch e o des-estilo (Benvirá; tradução de Marcelo Backes);

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Contos Escolhidos– 16 textos do Nobel de 1933, Ivan Búnin, mostrando com precisão sutil o outono do mundo czarista na Rússia, no melhor que a ficção de atmosfera e de costumes pode oferecer (Amarilys, tradução de Márcia Pileggi Vinhas);

desmedida

Esperança do Mundo/A Desmedida na Medida/A Guerra Começou, Onde Está a Guerra?(1935-42)- Em três volumes, os Cadernos do início da carreira de  Albert Camus, preciosos laboratórios (ou forjas) de sua obra (Hedra; tradução de Raphael Araujo & Geske Samara);

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Os Luminares (2013)- A jovem Eleanor Catton reinstaura para o gênero romanesco os grandes desafios formais: no caso, uma estrutura toda governada pelas interações astrológicas (Biblioteca Azul; tradução de Fábio Bonillo)[1];

tempo presente

O Melhor Tempo é o Presente (2012)Falecida este ano, Nadine Gordimer deixou esse extraordinário romance final, em que a trajetória de um casal compõe incisivo (e desconfortável) panorama da primeira geração pós-apartheid (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto);

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Vida e Destino– romance confiscado em 1961 pelo estado soviético e que só apareceu em sua plenitude há um quarto de século.  O ucraniano Vassili Grossman se vale da proverbial grandiosidade russa para pintar um afresco multifacetado sobre a guerra e o antissemitismo (Alfaguara; tradução de Irineu Franco Perpetuo);

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Em Uma Só Pessoa (2012)- No universo de John Irving, maior fabulista do nosso tempo, a fluidez da identidade sexual já esteve presente, mas nunca no grau desse seu mais recente romance, como sempre caudaloso e extravagante (Rocco; tradução de Léa Viveiros de Castro);

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Colares de Xangô e Sapatos Bicolores (2012)- A histórica reaproximação dos EUA com Cuba aumenta o interesse desse belo romance de William Kennedy, caleidoscópio de lugares e experiências (que multiplicam uma cena infantil), entre os quais a ilha de Fidel às vésperas da Revolução (Biblioteca Azul; tradução de Elton Mesquita);

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História Policial (1977)-Imre Kertész (Nobel 2002) demonstra a implacável lógica das ditaduras e seus projetos de poder, que exigem a supressão de indivíduos (Tordesilhas; tradução de Gabor Aranyi)[2];

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O Súdito (1918)- Como pode ter demorado tanto uma tradução brasileira de um romance satírico desse quilate, no qual Heinrich Mann expõe a mentalidade reacionária do Império Prussiano, sob a dinastia Hohenzollern, que levou a Alemanha para o caminho das guerras mundiais? (Mundaréu; tradução de Sibele Paulino) — merecia até dividir com O IDIOTA DA FAMÍLIA a primazia nessa lista;

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Paraíso Reconquistado– Finalmente, uma versão brasileira (realizada por uma equipe coordenada por Guilherme Gontijo Flores) do clássico poema de 1671, onde John Milton dramatiza — com um teor poético que nada fica a dever aos melhores momentos da Bíblia — as tentações de Jesus no deserto (Cultura);

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O Buda no Sótão (2011)- Julie Otsuka forjou uma voz coletiva inesquecível para narrar a imigração japonesa para os EUA, numa obra-prima contemporânea (Grua; tradução de Lilian Jenkino)[3];

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O país dos cegos– 18 histórias de H.G. Wells (1866-1946), selecionadas e traduzidas por Bráulio Tavares,  num definitivo mostruário da sua fabulação, que incorporava elementos da luta de classes, da exploração do trabalho e da desfaçatez colonial (Alfaguara);

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Formas de voltar para casa: um dos melhores livros do século até agora, este do chileno Alejandro Zambra, em que os contrastes entre a geração dos seus pais e a dele, fazem a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados (Cosacnaify; tradução de José Geraldo Couto).

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ALGUNS TRECHOS SELECIONADOS

“__ Lauderback assim o disse, exatamente—disse Moody. Ele balançou a cabeça.—Fico pensando se devo acreditar nas intenções do senhor Lauderback ao citar o nome desta jazida tão casualmente ao senhor Balfour esta manhã.

__ O que quer dizer com isto, senhor Moody?

__Não confia nele, em Lauderback?

__Seria muito pouco lógico desconfiar do senhor Lauderback—disse Moody—, visto que nunca na vida encontrei o homem. Estou muito ciente do fato de que os acontecimentos pertinentes dessa história estão sendo transmitidos de segunda mão, até, em alguns casos, de terceira mão. Tomo como exemplo a menção à jazida Dunstan. Francis Carver aparentemente mencionou o nome dessa jazida ao senhor Lauderback, que por sua vez narrou ao senhor Balfour, que por sua vez retransmitiu sua conversa a mim, hoje à noite! Todos vocês hão de convir que eu seria um tolo em tomar como verdadeiras as palavras do senhor Balfour.

     Mas Moody subestimara sua plateia ao questionar tópico tão delicado quanto a ´verdade´. Houve uma explosão de indignação ao redor da sala.

__ Quê? Não confia em um homem que lhe contou a própria história?

__ Posso asseverar que isso é verdade, senhor Moody!

__ Que mais ele poderia lhe dizer, salvo aquilo que contaram a ele?

    Moody foi tomado de surpresa.

__ Não creio que qualquer parte de sua história tenha sido adulterada ou omitida—ele replicou, dessa vez com mais cuidado. Olhou de rosto em rosto.—Queria apenas observar que não de pode nunca assumir como própria a verdade de outro homem.

__ Por que não?—Essa pergunta imediatamente ecoou de toda parte.

    Moody fez uma pausa por um instante, refletindo.

__ Em um tribunal—disse ele finalmente—, uma testemunha jura dizer a verdade, ou seja, sua própria verdade. Ela concorda com dois parâmetros. Seu depoimento deve conter toda a verdade, e esse depoimento não deve conter nada além da verdade. Apenas o segundo desses parâmetros é um limite real. O primeiro, é claro, é grandemente uma questão de discrição. Quando dizemos ´toda a verdade´, dizemos, mais especificamente, todos os fatos e impressões que são pertinentes ao assunto em questão. Tudo que não é pertinente não é apenas irrelevante, é também, em muitos casos, intencionalmente enganador. Senhores—disse ele, embora senha abordagem coletiva lhe houvesse saído esquisita, considerando a companhia diversificada  que ele tinha na sala—, eu defendo que não há verdades totais, e sim apenas verdades pertinentes, e a pertinência, hão de convir,  é sempre uma questão de perspectiva. Não creio que nenhum de vocês haja perjurado de alguma maneira esta noite. Eu acredito que me deram a verdade, e nada além da verdade. Mas suas perspectivas são muitas, e hão de me perdoar se eu não tomar por integral a sua narrativa”   (de Os Luminares)vie et destin

grossman

 

“…os alemães tinham chegado aos tanques de petróleo, e o óleo ardente jorrava sobre o Volga (…) O petróleo jorrava negro, lustroso,  vindo dos depósitos que haviam sido crivados de balas incendiárias; parecia que as cisternas armazenavam rolos enormes de fogo e fumaça, agora liberados.

    A vida que dominara a Terra havia centenas de milhões de anos, a vida rude e assustadora dos monstros primitivos, elevara-se das profundezas, voltava a bramir, batia os pés, urrava, devorando avidamente tudo ao seu redor… As chamas eram tão volumosas que o turbilhão de ar não conseguia fornecer oxigênio às moléculas ardentes de gás carbônico, e uma abóbada negra e oscilante separara o céu estrelado de outono da terra em chamas. Visto de baixo, o firmamento fluido, gorduroso e negro era um horror.

    As colunas de fogo e fumaça, ao se precipitarem para o alto, ora assumiam o aspecto de seres vivos tomados pelo desespero e pela fúria, ora se assemelhavam a choupos e álamos chacoalhantes. O negro e o vermelho giravam nas nesgas do fogo como cabeleiras negras e ruivas de mulheres dançando desgrenhadas…” (de Vida e Destino)

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“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”  (de História  Policial)

“ Diederich andava muito na rua nestes dias frios e

úmidos de fevereiro de 1892, na expectativa de grandes

acontecimentos. Na avenida Unter den Linden algo havia

mudado, mas ainda não se sabia o quê. Nas esquinas estava

postada a polícia montada também na expectativa.

Os transeuntes chamavam a atenção, uns aos outros, sobre

esta demonstração de força. — Os desempregados! — Todos

paravam para vê-los chegar. Vinham da direção norte

em pequenos grupos, marchando lentamente. Ao chegarem

à avenida Unter den Linden, hesitaram como que perplexos.

Entenderam-se através de olhares e dirigiram-se

para o palácio imperial. Lá permaneceram mudos, com as

mãos nos bolsos, deixaram-se respingar pela lama lançada

pelas rodas dos carros, encolheram os ombros sob a chuva

que caía sobre os seus surrados casacões. [… ]

Um policial a cavalo gritava para que eles fossem

adiante, que se afastassem mais para o lado ou até para

a próxima esquina — mas já estavam parados novamente;

o mundo parecia estar submerso entre suas largas e encovadas

faces, iluminadas pela noite, e o muro que se erguia

ali adiante, sobre o qual escurecia.

— Eu não entendo — disse Diederich — por que a

polícia não toma medidas mais severas. Isto é uma turma

de rebeldes.

— O senhor não se preocupe — respondeu Wiebel.

A polícia tem suas instruções. Os senhores lá em cima

têm as suas intenções bem calculadas, disso o senhor pode

estar certo. — [… ]

O trânsito de carruagens ficou paralisado; os pedestres

aglomeravam-se e eram arrastados pela torrente lenta

em que submergia a praça e por este mar turvo e sujo

de miseráveis que avançava viscoso, com sons abafados, e

do qual se erguiam, como mastros de navios afundados,

varas com os cartazes: PÃO! TRABALHO! Um murmúrio

irrompia da massa, ora aqui, ora acolá:

— Pão! Trabalho! — Crescia, revoando sobre a massa

como um trovão:

— Pão! Trabalho! — […]

A polícia os vai empurrando. […] Então alguém diz:

— Aquele lá não é Guilherme?

Ninguém sabia como era possível marchar em massa

compacta por toda a extensão da rua e até os flancos do

cavalo que o imperador montava: ele em pessoa. Viam-no

e o acompanhavam. Grupos de manifestantes eram dissolvidos

e arrastados pela massa. Todos olhavam para o

imperador. Era um ondular confuso, desordenado, ilimitado,

e acima deste ondular um jovem senhor de capacete:

o imperador. […]

Dos lados, onde as fileiras eram menos cerradas, pessoas

melhor vestidas diziam umas às outras:

— Graças a Deus, ele sabe o que quer!

— Mas o que é que ele quer?

— Mostrar a essa turba quem está com o poder! [.. . ]

Não se pode dizer que ele seja covarde. Gente, este é um

momento histórico![… ]

Um jovem com um chapéu de artista que caminhava

ao lado de Diederich disse:

— Isto é velho! Em Moscou, Napoleão fez o mesmo:

somente, sem proteção, misturou-se com o povo.

Diederich respondeu: — Mas isto é maravilhoso… —

e a voz lhe falhou. O outro encolheu os ombros: — Tudo

encenação, e não das melhores.

Diederich fitou-o, tentando imitar o olhar faiscante

do imperador, e disse:

— O senhor também é um destes. — Mas não estaria

cm condições de explicar o que queria dizer com ‘destes’.

Sentiu apenas, pela primeira vez em sua vida, que lhe cabia

defender uma causa justa contra as críticas de seus

inimigos. Apesar de seu nervosismo, olhou ainda para os

ombros do jovem: não eram largos. Ademais, todos ao

seu redor mostravam-se indignados. Com isso, Diederich

tomou uma atitude. Com a sua barriga, empurrou o inimigo

de encontro ao muro e começou a bater nele. Outros

o ajudaram. O chapéu já caíra ao chão, e pouco depois

o homem caíra também. Diederich. já seguindo os

outros, comentou com os que lhe haviam ajudado:

— Aposto que esse não serviu no exército! — [.. . ]

Um senhor idoso, com suíças grisalhas e a cruz de

ferro, também estava lá e apertou a mão de Diederich:

— Bravo, jovem, bravo!

— Não é de se perder a calma? — perguntou Diederich

ainda ofegante. — Quando um sujeito como aquele

quer estragar um momento tão solene. [.. . ]

— Permita-me, prezado senhor — alguém gritou, agitando

seu bloco dc anotações. — Temos de noticiar isso.

Como pano de fundo, sabe? O senhor surrou um companheiro?

 

— Ninharia — Diederich ainda ofegava. — De minha

parte poderíamos iniciar logo o combate ao inimigo interno.

O nosso imperador já está conosco.

— Ótimo — disse o repórter, e escreveu: ‘Na agitada

multidão, ouviam-se de pessoas de todas as classes sociais

manifestações da maior lealdade e de inabalável confiança

no imperador’.

— Viva! — gritava Diederich com todos. E em meio a essa avalancha de pessoas ele alcançou o Portão de Brandenburgo. Dois passos à sua frente cavalgava o imperador.

Diederich podia ver-lhe o rosto, a sua fisionomia seria,

o seu olhar faiscante; mas esta imagem se turvou a

seus olhos de tanto que gritava.” (de O Súdito)

“Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…” (de O Buda no sótão)

…sou contra a nostalgia.
Não, não é verdade. Eu gostaria de ser contra a nostalgia. Para onde quer que eu olhe há alguém renovando votos com o passado. Recordamos canções que na verdade nunca nos agradaram, voltamos a ver as primeiras namoradas, colegas de curso por quem não tínhamos simpatia, saudamos de braços abertos gente que repudiávamos.
Me assombra a facilidade com que esquecemos o que sentíamos, o que queríamos. A rapidez com que assumimos que agora iremos rir das mesmas piadas. Queremos, julgamos ser de novo os meninos abençoados pela penumbra.
Estou nessa armadilha…” (de FORMAS DE VOLTAR PARA CASA)

destaques resenha

REFERÊNCIAS NO BLOG

[1] https://armonte.wordpress.com/2014/09/30/destaque-do-blog-os-luminares-de-eleanor-catton/

[2] https://armonte.wordpress.com/2014/07/10/o-filho-incorrigivel-das-ditaduras-imre-kertesz-e-historia-policial/

[3] https://armonte.wordpress.com/2014/11/04/o-buda-no-sotao-de-julie-otsuka-destaque-entre-as-traducoes-de-2014/

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