MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/05/2013

Nas regiões em que não se pode ir acompanhado: “TEMOR E TREMOR” e os 200 anos de Kierkegaard

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Depois dessas palavras,

   o Elohîms põe Abrahâm à prova.

   Ele lhe diz—“Abrahâm!” Ele diz:  “Eis-me.”

 

Ele diz: “Toma então teu filho, teu único,

  aquele que amas, Is´hac,

  vai por ti em terras de Moryah, lá,

   fá-lo subir em holocausto num dos montes

   que eu te disser.”

 

Abrahâm se ergue cedo pela manhã e sela seu jumento.

   Toma dois adolescentes consigo e Is´hac,

   seu filho. Racha a lenha para o holocausto.

   Ergue-se e vai rumo ao local que lhe assinala Elohîms.

 

No terceiro dia, Abrahâm conduz seu olhos

  e vê de longe o lugar.

 

Abrahâm diz a seus adolescentes: “Sentai-vos aqui

    com o jumento. Eu e o adolescente iremos até lá.

    Nós nos prostraremos

    e depois retornaremos aqui.”

 

Abrahâm toma a lenha do holocausto,

    põem-na sobre Is´hac, seu filho.

   Toma em suas mãos o fogo e o cutelo.

   Eles seguem, os dois, unidos.

 

Is´hac diz a Abrahâm, seu pai:

   “Meu pai!”

   Ele diz: “Eis-me aqui, meu filho.”

   Ele diz: “Eis o fogo e a lenha.

   Onde está o cordeiro do holocausto?”

 

Abrahâm diz: “Elohîms proverá para si

    o cordeiro do holocausto, meu filho.”

    Eles seguem, os dois, unidos.

Eles chegam ao lugar que lhe assinalou Elohîms.

   Abrahâm ergue ali o altar e prepara a lenha.

   Ele amarra Is´hac, seu filho, e o põe sobre o altar,

   sobre a lenha.

 

Abrahâm avança sua mão e toma o cutelo

   para degolar seu filho.

 

O mensageiro de I HV H grita para ele dos céu e diz:

   “Abrahâm!Abrahâm!” Ele diz: “Eis-me aqui.”

 

Ele diz: “Não avances tua mão contra o adolescente,

    não lhe faça nada!

   Sim, agora eu sei que tu,

   tu temes Elohîms!

   Por mim tu não poupaste teu filho,

   teu único.”

[…]

O mensageiro de I HV H chama a Abrahâm

   uma segunda vez dos céus.

 

Ele diz: “Eu juro por mim, discurso de I HV H:

    sim, posto que firmaste esta palavra

    e não poupaste teu filho, teu único,

 

 sim, eu te abençoarei, abençoarei,

    multiplicarei, multiplicarei tua semente

    como as estrelas dos céus, como a areia

    sobre o lábio do mar:

    tua semente herdará a porta de seus inimigos,

 

todas as nações da terra

   se abençoam em sua semente,

   em consequência de teres ouvido minha voz.”

(No princípio, tradução de Carlito Azevedo para Entête, a versão francesa de André Chouraqui para o Gênesis-Bereshit[1]).

Então ouve a palavra de Yahweh que passou diante dele: “Este não é para tua herança—só o que passa entre tuas pernas pode herdar de ti”. Leva-o para fora: “Olha bem, por favor, para o céu; conta as estrelas—se podes contá-las. Assim será tua linhagem”—e assim lhe foi dito. Acreditou em Yahweh, e isso lhe foi reconhecido como força (…) Foi nesse dia que Yahweh talhou uma aliança com Abrão…” (Livro de J, tradução de Monique Balbuena para a versão norte-americana de David Rosenberg)

“A dialética da fé é a mais sutil e notável entre todas; possui uma elevação da qual eu posso fazer uma ideia, porém nada mais que isso. Posso perfeitamente realizar o salto de trampolim no infinito; assim como o dançarino na corda, tenho torcida a espinha desde a infância; também me é fácil saltar: um, dois e três! Atiro-me de cabeça na vida, porém para o salto seguinte não me sinto capaz; conservo-me hesitante diante do prodígio, não o consigo realizar”. (Søren Kierkegaard,  TEMOR E TREMOR, [A)

“Então não há ninguém com a estatura de Abraão, ninguém capaz de o compreender?” (idem, [B])

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(a resenha abaixo, sem notas de rodapé ou anexo, foi publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 14 de maio de 2013)

Cinco de maio de 2013 marca os 200 anos do nascimento de um dos maiores filósofos, Søren Kierkegaard, que morreria aos 42 anos, em 1855. Entre as suas obras, talvez a mais desafiadora e radical seja TEMOR E TREMOR (Frygt og Baeven, de 1843, ou seja, de um período especialmente produtivo e emblemático, pois são dessa safra o Diário de um sedutor e Ou, ou), que li pela primeira vez numa tradução portuguesa de Maria José Marinho, naquela admirável coleção “Os Pensadores” (no volume também constavam o Diário e O desespero humano), e que nos últimos dias reli numa versão assinada por Torrieri Guimarães, relançada pela Nova Fronteira na coleção “Saraiva de Bolso”[2].

Como Marx, Kierkegaard gostava de uma boa polêmica, e creio que o fato de ter publicado Temor e Tremor com o pseudônimo Johannes de Silentio (mais um entre tantos, tais como Victor Eremita, Constantin Constantio, Nicolaus Notabene etc), não tinha como objetivo encobrir-se ou enganar ninguém a respeito da verdadeira autoria. Ele se debruça sobre a figura de Abraão, o indivíduo que mais admira, “embora não possa compreendê-lo” (“quando me ponho a refletir sobre Abraão, sinto-me como que aniquilado. Caio a cada instante no paradoxo inaudito que é a substância da sua vida”,  [B]), e ele lhe desperte espanto, quase horror, com relação ao evento mais dramático da sua biografia: quando Deus lhe exige o sacrifício do único filho, Isaac.

A leitura fica por conta e risco de cada um. Sinto-me obrigado fazer duas advertências visando o leitor não-religioso: em primeiro lugar, o texto é extremamente belo, e o leitor fruirá algo de uma gravidade e ao mesmo tempo flexibilidade intelectual e narrativa incomparáveis (e caso se contente com isso, tudo bem); em segundo lugar, é uma experiência perturbadora e, no limite, estressante.

Ao longo da sua produção filosófica, e de forma mais aguda nos textos dessa fase a que pertence Temor e Tremor, Kierkegaard confrontou dois modos de vida: o estético e o ético. O sedutor kierkegaardiano escolhe o primeiro, mergulhando nas paixões e nos prazeres, na multiplicidade (sombreada pela tediosidade) das experiências incessantes—e nesse modo o particular se arroja contra o universal; já no segundo modo, o individual cede ao geral, ao senso do dever, das regras que regem a moralidade e o princípio civilizatório[3].

Mas, para o autor de O conceito de angústia (1844)[4], não é por mentalidade de rebanho, pelo conformismo, que devemos optar pelo modo ético: deve ser uma “escolha”, jamais apaziguante. Isso acontece porque, contrapondo-se ao sistema filosófico de Hegel, que dominava vários círculos filosóficos e mesmo teológicos, as agruras do indivíduo não podem submergir num movimento dialético impessoal, num processo histórico total onde as escolhas de cada um não contam, não têm peso. A esse processo abstrato ele opõe a existência concreta. Dessa forma, junto a Nietzsche (embora não tão “popular” como ele), o dinamarquês se tornou o grande pensador “carismático” do século 19, ainda muito vivo e atual, mesmo para quem não trilha os caminhos da filosofia (meu temor e tremor é ele caia nas mãos de um Irvin d. Yalom, ou de algum genérico igualmente chinfrim, e nos deparemos com um Quando Kierkegaard chorou da vida).

Ele começa Temor e Tremor imaginando um personagem absorvido, durante toda sua vida, pelo enigma do ato de Abraão: “Quisera ter participado na viagem dos três dias, quando Abraão, montado no seu burro, seguia com a tristeza em frente e Isaac ao lado. Quisera estar presente no instante em que Abraão, ao erguer os olhos, viu ao longe a montanha de Moriá, no instante em que despediu os burros e trepou a encosta, sozinho com o filho…” [B][5].

Por quatro vezes, ele volta à história e nos dá variantes das motivações e consequências. A indicação é inequívoca: trata-se de algo inesgotável. Depois, lemos um “Elogio a Abraão”, mostrando que seus atos são movidos pela fé num pacto, não para um Além, mas para “esta” nossa vida (o que torna a prova do sacrifício de Isaac mais dura ainda): “Passava o tempo, mantinha-se a possibilidade e Abraão cria. Passou o tempo, tornou-se absurda a esperança, Abraão acreditou. Por ele se viu no mundo o que era ter esperança (…) Apesar de tudo Abraão acreditou e acreditou para esta vida. Se a sua fé se reportasse á vida futura, ter-se-ia, com facilidade, despojado de tudo, para sair prontamente dum mundo a que já não pertencia. Mas não era desta espécie a fé de Abraão, se acaso isso é fé. A bem dizer não se trata aí de fé, mas apenas da remota possibilidade que adivinha o seu objeto no horizonte longínquo, embora dele separado por um abismo onde se agita a desesperação. Ma a fé de Abraão era para esta vida; acreditava que iria envelhecer na sua terra, honrado e benquisto de seu polvo, inolvidado pela geração de Isaac…” [B]

   Depois, então, vem a parte “problemática”: numa “efusão preliminar”, ele destaca a figura de Abraão de qualquer série de heróis trágicos, porque ele está além da moralidade que rege os atos deles, porque sua história acontece no “absurdo”, na coisa incompreensível e inalcançável pela razão, que tomaria Abraão por um assassino ou um louco (pois não poderia se fiar no “resultado” de sua ação, como iniciador de uma fé que nem tinha legitimidade civilizatória –e hoje em dia com a ameaça do fundamentalismo cada vez mais presente é crucial essa discussão, mesmo que não se concorde com as conclusões kierkegaardianas—até então): “Se a fé não pode santificar a intenção de matar o filho, Abraão cai sob a alçada dum juízo aplicável a todo mundo. Se não há coragem de ir até o fim do pensamento e dizer que Abraão é assassino, mais vale então adquiri-la primeiro do que perder o tempo em imerecidos panegíricos. Sob  o ponto de vista moral, a conduta de Abraão exprime-se dizendo que quis matar Isaac e, sob o ponto de vista religioso, que pretendeu sacrificá-lo. Nesta contradição reside a angústia que nos conduz à insônia e sema qual, entretanto, Abraão não é o homem que é (…) Quando, na verdade, se suprime a fé, reduzindo-a a zero, resta só o fato brutal de Abraão ter querido matar o filho, conduta bem fácil de imitar por quem quer que não possua fé—entendendo eu por fé o que torna difícil o sacrifício.”[B]

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Daí são propostas três questões:

1)Tendo em vista a finalidade da existência (teleologia) existe uma suspensão da moralidade? :“A diferença que separa o herói trágico de Abraão salta aos olhos. O primeiro continua ainda na esfera moral. Para ele toda a expressão da moralidade tem o seu telos numa expressão superior da moral… Muito diferente é o caso de Abraão. Por meio do seu ato ultrapassou to o estádio moral… Porque eu gostaria de saber como se pode reconduzir a sua ação ao geral, e se é possível descobrir, entre a conduta dele e o geral, uma relação além da de o ter ultrapassado. Não age para salvar um povo, nem para defender a ideia de Estado, nem sequer para apaziguar os deuses irritados. Se pudéssemos evocar a ira da divindade, essa cólera teria unicamente por objeto Abraão, cuja conduta é assunto estritamente privado, estranho ao geral (…) o herói trágico renuncia ao certo pelo mais certo, e o olhar pousa nele com confiança. Mas aquele que renuncia ao geral para alcançar algo mais elevado, mas diferente, que faz? (…) Ao vê-lo, não se pode de forma alguma compreendê-lo nem pousar nele um olhar confiante (…) que seria se este homem tivesse o cérebro perturbado, se ele se tivesse enganado!” [B];

2) Existe um dever absoluto para com Deus?: “…se esse dever é absoluto, a moral encontra-se rebaixada ao relativo. De qualquer modo não se segue daí que a moral deve ser abolida, mas recebe uma expressão muito diferente, a do paradoxo[6], de forma que, por exemplo, o amor para com Deus pode levar o cavaleiro da fé a dar ao seu amor para com o próximo a expressão contrária do que, do ponto de vista moral, é o dever. Se assim não é, a fé não tem lugar na vida, é uma crise, e Abraão está perdido, visto que cedeu.” [B];

3) Pode moralmente justificar-se o silêncio de Abraão perante Sara, Eliezer e Isaac?: “O seu silêncio não teria, como motivo, o desejo de ingressar como Indivíduo em uma relação absoluta com o geral, porém no fato de ter ingressado como Indivíduo em uma relação absoluta com o absoluto [A].

Cada dessas questões (e suas voltas no parafuso entre fé e existência[7], estética e ética[8], individual, geral e absoluto[9]) leva o leitor a abismar-se cada vez mais no relacionamento peculiar de Abraão com seus Deus (que acabou sendo o de “todos”, no pensamento monoteísta), através das mais variadas e brilhantes digressões.

O fio da meada é que a fé do pai de Isaac o leva para além dos dois modos de vida, o estético e o ético: ela executa um salto para um terceiro modo, o religioso, o qual invalida todos os outros, por se radicar justamente no “absurdo” e num paradoxo irresolvível: Ele não pode falar, porque não pode dar a explicação final (de modo a fazer-se compreensível) de que se trata de uma prova; porém, o que é notável, uma prova na qual a moral  [pois ela faria com que sua consciência se detivesse à beira do crime de infanticídio] constitui a tentação. O homem em tal situação é um emigrante da esfera do geral… efetua dois movimentos: aquele da resignação infinita, em que renuncia á Isaac, o que não há quem possa compreender… mas realiza, além do mais, a todo momento, o movimento da fé, e aí está o seu consolo. Efetivamente, afirma: não, isso não acontecerá, e se acontecer, o Eterno me devolveria Isaac, em razão do absurdo.” [A]

Dá para imaginar que Kierkegaard escreveu isso aos 30 anos? E que 170 anos depois continue a ser um dos textos mais provocadores já escritos?

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ANEXO– Algumas traduções brasileiras da história bíblica:

Depois disso, Deus provou Abraão, e disse-lhe: “Abraão!”. “Eis-me aqui”—respondeu ele. Deus disse: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar”.

    No dia seguinte, pela manhã, Abraão selou o seu jumento. Tomou dois servos e Isaac, seu filho, e tendo cortado a lenha para o holocausto, partiu para o lugar que Deus lhe tinha indicado. Ao terceiro dia, levantando os olhos, viu o lugar de longe. “Ficai aqui com o jumento—disse ele aos servos.—Eu e o menino vamos até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós”. Abraão tomou a lenha do holocausto e a pôs aos ombros de seu filho Isaac, levando ele mesmo nas mãos o fogo e a faca. E enquanto os dois iam caminhando juntos, Isaac disse ao seu pai: “Meu pai!”. “Que He, meu filho?” Isaac continuou: “Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto?”. “Deus, respondeu-lhe Abraão, providenciará ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho”. E ambos, juntos, continuaram o seu caminho.

    Quando chegaram ao lugar indicado por Deus, Abraão edificou um altar; colocou nele a lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar em cima da lenha. Depois, estendendo a mão, tomou a faca para imolar o seu filho. O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: “Abraão! Abraão!”. “Eis-me aqui!”. Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhes faça nada. Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único”. […]

    Pela segunda vez chamou o anjo do Senhor a Abraão, do céu, e disse-lhe: “Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha voz”.  (Gênesis, cap. 22 [1-18], na versão da Bíblia Sagrada-Ave Maria, sob a coordenação do Frei João José Pedreira de Castro, sem indicação explícita de tradutor)

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Depois desses acontecimentos, sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: “Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” Deus disse: “Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei”.

    Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e tomou consigo dois de seus servos e seu filho Isaac. Ele rachou a lenha do holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Abraão disse a seus servos: “Permanecei aqui com o jumento. Eu e o menino iremos até lá, adoraremos e voltaremos a vós”.

    Abraão tomou a lenha do holocausto e a colocou sobre seu filho Isaac, tendo ele mesmo tomado nas mãos o fogo e o cutelo, e foram-se os dois juntos. Isaac dirigiu-se a seu pai Abraão e disse: “Meu pai!” Ele respondeu: “Sim, meu filho!”—“Eis o fogo e a lenha”, retomou ele, “mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Abraão respondeu: “É Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho”. E foram-se os dois juntos.

   Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar, dispôs a lenha, depois amarrou seu filho Isaac e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e apanhou o cutelo para imolar seu filho.

   Mas o anjo de Iahweh o chamou do céu e disse: “Abraão!Abraão!”Ele respondeu: “Eis-me aqui!” O Anjo disse: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal!Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único”. […]

    O Anjo de Iahweh chamou uma segunda vez a Abraão do céu, dizendo: “Juro por mim mesmo, palavra de Iahweh: porque me fizeste isto porque não me recusaste teu filho, teu único, eu te cumularei de bênçãos, eu te darei uma posteridade tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na praia do mar, e tua posteridade conquistará a porta de teus inimigos. Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste”. (versão da Bíblia de Jerusalém, tradução de Domingos Zamagna)

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Algum tempo depois Deus pôs Abraão à prova. Deus o chamou pelo nome, e ele respondeu:

__ Estou aqui.

   Então Deus disse:

__ Pegue agora Isaque, o seu filho, o seu único filho, a quem você tanto ama, e vá até a terra de Moriá. Ali, na montanha que eu lhe mostrar, queime o seu filho como sacrifício.

   No dia seguinte Abraão se levantou de madrugada, arreou o seu jumento, cortou lenha para o sacrifício e saiu para o lugar que Deus havia indicado. Isaque e dois empregados foram junto come ele. No terceiro dia, Abraão viu o lugar, de longe. Então disse aos empregados:

__ Fiquem aqui com o jumento. Eu e o menino vamos ali adiante para adorar a Deus. Daqui a pouco nós voltamos.

    Abraão pegou a lenha para o sacrifício e pôs no ombro de Isaque. Pegou uma faca e fogo, e os dois foram andando juntos. Daí a pouco o menino disse:

__ Pai!

   Abraão respondeu:

__ Que foi, meu filho?

    Isaque perguntou:

__ Nós temos a lenha e o fogo, mas onde está o carneirinho para o sacrifício?

   Abraão respondeu:

__ Deus dará o que for preciso; ele vai arranjar um carneirinho para o sacrifício, meu filho.

    E continuaram a caminhar juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus havia indicado, Abraão fez um altar e arrumou a lenha em cima dele. Depois amarrou Isaque e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Em seguida pegou a faca para matá-lo. Mas nesse instante, lá do céu, o Anjo do Senhor o chamou, dizendo:

__ Abraão! Abraão

__ Estou aqui!—respondeu ele.

   O Anjo disse:

__ Não machuque o menino e não lhe faça nenhum mal. Agora sei que você teme a Deus, pois não me negou o seu filho, o seu único filho.[…]

    Mais uma vez o Anjo do Senhor, lá do céu, chamou Abraão e disse:

__ Porque você fez isso e não me negou o seu filho, o seu único filho, eu juro pelo meu próprio nome—diz Deus, o Senhor—que abençoarei você ricamente. Farei com que os seus descendentes sejam tão numerosos como as estrelas do céu ou os grãos de areia da praia do mar; eles vencerão os inimigos. Por meio dos seus descendentes eu abençoarei todas as nações do mundo, pois você fez o que eu mandei. (A Bíblia- Nova Tradução na Linguagem de Hoje, sem indicação de tradutor)

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[1] Utilizo esta versão para o episódio do sacrifício de Isaac até porque sua “estranheza” combina bem com o clima do texto de Kierkegaard que resenho na sequência. Transcrevi outras versões no ANEXO.

[2] Há vários erros na edição (por exemplo, “fagueiras esperanças” vira “fogueiras esperanças”; “reaver então esse mesmo finito EM razão do absurdo” vira “reaver esse mesmo finito ERA razão do absurdo”,  “movimentos abortados” vira “movimentos abordados”) Essa mesma versão já circulou por várias editoras, incluindo a Ediouro e a Hemus (há desta uma reedição relativamente recente, de 2008), mas é evidente a superioridade da tradução de Maria José Marinho, embora não possa dizer se ela foi realizada diretamente do original. Não conheço outra em língua portuguesa.

Para não desorientar meu leitor, utilizo [A] quando a citação for da versão de Torrieri Guimarães, e [B], quando for da de Maria José Marinho.

[3] Em nossos tempos pós-psicanalíticos, esses modos antípodas já foram lidos sob a cifra do aparelho psíquico freudiano: o modo estético corresponderia ao princípio do prazer, em que o ego é muito orientado pelo seu id; o modo ético, seria a regulação do ego pelo superego vigilante.

[4] “…pela angústia, pode despertar-se o obscuro impulso que se esconde de toda vida humana” [A]

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[5][5] Devo dizer que acho a versão de Torrieri Guimarães curiosamente parecida com a da portuguesa, apesar da troca de vocábulos, no traquejo e torneio das frases: “Desejara estar presente no momento em que Abraão, ao levantar os olhos, enxergou a distância a montanha de Moriá, no momento em que despediu os burros e subiu a encosta, sozinho com o filho…” [A] Atenção- Nas duas citações, troquei Morija por Moriá, que aparece em todas as versões bíblicas que tenho à mão.

[6] “A fé é esse paradoxo, e o Indivíduo não pode de forma alguma fazer-se compreender por ninguém (…) Nessas regiões, não se pode pensar em ir acompanhado.” [B]

[7] “Efetivamente, o movimento da fé deve constantemente realizar-se em razão do absurdo porém—e eis a questão essencial—de maneira a não perder o mundo finito, até, ao invés disso, a consentir em ganhá-lo sempre…” [A]

[8] “É bom não lutar contra a ética porque ela tem categorias puras. Não invoca a experiência, quase a mais ridícula de todas as coisas dignas de riso, a qual, em lugar de oferecer sabedoria, torna as pessoas em insanos quando não se admita nada que lhe seja mais elevado (…) a estética exigia o escondido e recompensava-o; a ética exigia a manifestação e castigava o oculto.” [A]

[9] “O paradoxo da fé consiste em que existe uma interioridade ilimitada em relação à exterioridade, e esta interioridade, convém notá-lo, não se assemelha à precedente, porém é uma nova interioridade (…) A fé é antecedida por um movimento de infinito; é apenas então que ela surge, nec inopinate, em razão do absurdo. Posso entendê-lo, sem por esse motivo pretender que possuo a fé. Se ela outra coisa não é senão aquilo que a filosofia diz, já Sócrates foi mais distante, muito mais distante, enquanto, no caso contrário, não a atingiu. Fez o movimento infinito sob o critério intelectual. A sua ignorância outra coisa não é senão a sua resignação infinita. Esta tarefa já é bastante para as forças humanas, antes de tudo é preciso tê-la cumprido, é preciso primeiro que o Indivíduo se tenha esgotado na infinitude, para atingir então o ponto em que a fé pode aparecer.”[A]

Søren Kierkegaard

26/11/2012

COMO CHEGAR AO CASTELO?

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos em 26 de dezembro de 2000)

Era  muito aguardada a tradução de O CASTELO, a única inédita entre as realizadas até agora por Modesto Carone e editada pela Companhia das Letras. Antes dela, tinhamos a versão de Torrieri Guimarães, com forte sabor lusitano, e a do obscuro D. P. Skroski, cujo nome já tem um sabor kafkiano, feita a partir da versão americana (o título original aparece como The Castle!!??) e com um texto truncado, cheio de erros de revisão, embora não faltem soluções interessantes.

Quando propus na minha coluna uma lista dos 100 maiores romances do século XX, O CASTELO (escrito por volta de 1922, mas só publicado postumamente em 1926) veio em terceiro lugar (vindo depois de A montanha mágica, de Mann, e de Luz em agosto, de Faulkner). Poderia vir em primeiro.  Junto da “classificação” havia o seguinte comentário: “Extraordinária alegoria da condição humana, ao mesmo tempo terrível e cômica. Não é à toa que kafkiano se tornou um vocábulo corrente, usual”.

Ao se pensar em alegoria, se pensa imediatamente na sua decodificação inequívoca: alegoria de quê? Infelizmente, as coisas não são tão fáceis com Kafka, e temos de fazer eco ao lamento de vários comentadores das suas obras: como interpretá-las? Como penetrar no seu mistério, no seu fascínio, na sua junção do terrítel e do cômico? Que interpretação dar para a história de K., que chega à aldeia dominada pelo Castelo do Conde Westwest e se apresenta como agrimensor contratado? Como se sae, houve um erro nos trâmites administrativos e essa contratação era desnecessária. Oferecem a K. emprego como zelador da escola da aldeia,em meio à confusão que ele arranja não só por suas tentativas malogradas de entrar em contato com o alto escalão do Castelo (especialmente Herr Klamm), como também por se tornar amante de Frieda (a quem todos no lugarejo atribuem uma ligação com Klamm), encarregada do bar na Estalagem dos Senhores, isto é, utilizada pelo pessoal administrativo do Castelo quando ele se encontra na aldeia, fazendo com que ela abandone seu posto.

Como se não bastasse, ele também se torna íntimo de uma família proscrita na aldeia, cuja história ocupará boa parte do romance e espelhará a de K.

K. é isso: um erro administrativo. Sua individualidade é o elo mais frágil e fantasmagórico de uma incessante tramitação burocrática de memorandos, dossiês e processos. Ele, com teimosa paciência, tenta afirmar-se enquanto indivíduo, entretanto malogra porque ninguém consegue compreendê-lo, é sempre aceito ou rejeitado pelo cargo que ocupa ou não ocupa (agrimensor ou zelador) ou pela situação de seu processo no Castelo (que se parece muito com um julgamento).

Quando encontra um interlocutor, como Amália e Olga, as irmãs proscritas, ou Pepi, substituta de Frieda no bar da Estalagem dos Senhores, esse interlocutor é quem toma a palavra e monologa interminavelmente sobre suas próprias desventuras.

Foram citadas, neste meu texto, as mulheres da história (embora haja várias personagens masculinas): Amália, Olga, Frieda, Pepi. Pois há uma atmosfera difusa e viscosa de sexualidade em O CASTELO, a qual parece ir minando a força do herói, ou melhor, parece ser a única dimensão em que se permite a ele alguma ação, ainda que leve a diversos equívocos. Esse clima promíscuo liga-se à opressão do Castelo na medida em que se anula o que é privado e o que é público no romance: quando K. e Frieda transam no bar da Estalagem dos Senhores pela primeira vez, o ato é assistido pelos ajudantes de K. recrutados pelo Castelo, os quais testemunham igualmente toda a intimidade do casal quando passam a morar juntos, e não apenas os ajudantes como também  criadas, professores, alunos. Dificilmente há um momento na narrativa em que K.  consiga ficar sozinho e geralmente nesses parcos momentos ele está perdido ou desorientado.

O grande autor de Praga escreveu alguns textos sobre filhos oprimidos (O veredicto, A metamorfose), numa clave mais evidentemente autobiográfica. Em seus dois grandes romances (O processo é o outro) tudo se complica: filhos sem pais se lançam no mundo, literalmente perdendo-se e desorientando-se, o que demonstra como ele reelaborou ao extremo os resíduos biográficos na sua obra, tornando a interpretação mais complexa e tortuosa.

O fator mais insólito do texto é a maneira côica, quase à moda de um pastelão do cinema mudo, com que Kafka vai estabelecendo situações intoleráveis: “No albergue foi logo para o quarto e deitou-se na cama. Frieda instalou-se num leito ao lado, no chão, os ajudantes haviam se enfiado ali, foram expulsos, mas voltaram de novo pela janela….volta e meia entravam também as criadas fazendo barulho com suas botas de homem, para trazer ou pegar algo.Se precisavam de alguma coisa entre as várias que entupiam a cama, puxavam-na sem nenhuma consideração por debaixo de K.”.

É preciso dizer que a versão de Modesto Carone deixa a desejar em alguns aspectos. Já foi uma opção infeliz, a meu ver indefensável, dividir os enormes parágrafos a que estamos acostumados, toda vez que um personagem toma a palavra, diluindo a densidade opressiva e “fechada” da obra-prima máxima de Kafka (quem se der ao trabalho de comparar com as versões anteriores pode constatar o que se perdeu em atmosfera). Além disso,  entre outros detalhes,  é difícil acreditar que, estando K. e Frieda nus na cama, uma criada atire sobre eles uma toalha (para Torrieri Guimarães, ela atira uma coberta e para o misterioso sr. Skroski um cobertor,o que é mais lógico, convenhamos).  Trechos inteiros ficam mais compreensíveis nas outras traduções. Há também erros gritantes, como na página 307 (mas há aí parece ser mais um caso de problemas com a revisão): “Ora, vocês são muito parecidas, mas o que distingue Amália de vocês duas é totalmente desfavorável a  ela” . Na verdade,  as duas irmãs, Amália e Olga, são parecidas entre si, e com o irmão, Barnabás,  suposto mensageiro entre Klamm e K., não há três irmãs mulheres.

O mundo nos arredores do Castelo já é labiríntico e opressivo sem tais falhas e erros, ocultos pela fanfarra das “traduções definitivas”. Sendo o mundo kafkiano o que é, sabemos aonde podem levar falhas e erros…

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07/04/2010

A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE: “A METAMORFOSE”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de outubro de 1997)

A Companhia das Letras iniciou uma nova edição das obras de Franz Kafka no Brasil, começando com A METAMORFOSE, certamente um dos textos mais traduzidos por aqui. Eu, por exemplo, tenho em casa quatro  traduções brasileiras (além de uma portuguesa). A Ediouro publica atualmente tanto a tradução pioneira de Torrieri Guimarães (que está na coletânea A Colônia Penal) quanto uma versão de Marques Rebelo. Há a tradução de Brenno Silveira, relançada pela Civilização Brasileira.  E a mesma tradução de Modesto Carone que inicia o empreendimento da Companhia das Letras já havia sido lançada pela Brasiliense. Como se vê, é metamorfose que não acaba mais, quase tanto quanto as metamorfoses partidárias de certos políticos em época pré-eleitoral.

Como se sabe, A METAMORFOSE conta a história de um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, o qual desperta uma manhã transformado numa “espécie monstruosa de inseto”. Como se sabe também, o texto (que  Kafka escreveu em 1912, numa grande fase criativa) é uma espécie de vingança simbólica do genial escritor tcheco contra sua família: ao mostrar Samsa reduzido à condição de um inseto inválido e incapaz para o trabalho, ele estaria dando vazão a um ressentimento que faz dos familiares de Gregor os verdadeiros monstros da narrativa (mesmo a irmã, Grete, bondosa com ele a princípio, vai metamorfoseando-se numa tirana).

O principal alvo é o pai. Não é à toa que os capítulos de A METAMORFOSE acabam convergindo para confrontos onde o pai de Gregor praticamente o esmaga. Inicialmente, com uma bengalada, relegando o filho à condição de prisioneiro no seu quarto, e, meses mais tarde, ao acertá-lo com uma maçã que apodrecerá no seu corpo, apressando seu fim.

O pai, dentro da ótica do narrador, parece revitalizar-se com a desgraça do filho e parece ressentir-se, ao mesmo tempo, pela atenção dispensada a ele na sua “condição monstruosa”, a qual nada mais é do que a inatividade, a incapacidade de ganhar a vida, o sustento da família, ou seja, de manter-se no mercado de trabalho, essa expressão odiosa que parece ter se metamorfoseado no nosso único horizonte.

Mas, com se sabe também, A METAMORFOSE é uma demonstração do progressivo esvaziamento das pessoas pelo capitalismo, isto é, sua crescente desumanização e alienação da própria ideia do “humano”.  É por isso que não se limita a ser apenas uma mera vingança de um filho oprimido e recalcado, para ganhar a dimensão de grande alegoria da nossa época.

O que, porém, só uma leitura, um contato efetivo, transcendendo o mundo de informações biográficas e interpretativas que se pode ter de A METAMORFOSE, mesmo sem ter lido o texto, dessa que é a novela (aquela forma intermediária e imprecisamente caracterizada entre o romance e o conto) mais importante, o texto paradigmático deste século, pode mostrar verdadeiramente o impacto que é acompanhar Gregor Samsa rumo à sua morte decretada pela família e pela esfera de produção, em cenas que conseguem o milagre de ser engraçadas (quem pode esquecer a fuga do chefe de Samsa após sua aparição? Ou o espanto dos inquilinos? Ou a empregada jocosa?) e macabras, a um só tempo.

E, pouco antes da terrível sentença familiar contra ele, o inútil, o inválido, o sem-vida no mundo em que todos precisam ser úteis, produtivos e capazes, o texto  atinge o ápice da beleza quando Gregor rasteja, inconsciente dos danos que pode trazer (ele que se transformou num monstro rancoroso, rabugento e faminto), rumo à irmã que toca violino:

“Gregor rastejou um pouco mais… a fim de que os seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava.”

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