MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/02/2013

007 contra a melhor idade: James Bond sexagenário na literatura e cinquentão no cinema

Ian-Flemingedição L&PM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de fevereiro de 2013, sem notas de rodapé)

A homenagem na 85º. cerimônia de entrega  do  Oscar, neste último dia 24. consagrou o meio século da presença de James Bond no cinema. Na literatura, 007 é um sexagenário: o primeiro romance de Ian Fleming (1908-1964) sobre suas aventuras, Cassino Royale [que comento em tradução de Thomas Souto Corrêa,  em edição da L&PM, mas há uma mais recente pela BestBolso] , foi publicado em 1953.

Curiosamente, demorou para que se fizesse uma verdadeira adaptação: houve uma pálida paródia nos anos 1960, com David Niven, mas só em 2006, quando Daniel Craig assumiu o personagem, é que essa missão inaugural ganhou forma cinematográfica, aliás competentemente: trata-se de um belo filme, apesar de ter toda aquela poluição narrativa e exibicionismos tecnológicos habituais[1].

Em contrapartida, o livro é extremamente enxuto: começa de chofre no cassino-título, que fica numa estação de águas  da França (e não em Montenegro), que luta contra a decadência, com Bond apostando no bacará a fim de levar à bancarrota Le Chiffre, financiador da agitação sindicalista no continente, a serviço  da URSS  e do bloco comunista; e nunca se afasta muito desse núcleo dramático-geográfico.  No filme de Martin Campbell, por razões óbvias, o vilão (ao qual, como de praxe, acrescentaram um detalhe bizarro: ele verte lágrimas de sangue) é um investidor para terroristas. Em ambos os casos, Le Chiffre tenta recuperar as perdas pesadas através da alta jogatina.

Imagine-se o impacto, há 60 anos, na imaginação dos leitores britânicos, que demoraram anos para se recuperar da penúria imposta pela Segunda Guerra: ambientes evocando suntuosidade, heróis bebendo champanhe e comendo caviar com suas parceiras, inventando coquetéis extravagantes, aquela dinheirama em apostas de monta (a boa vida proporcionada pelos contribuintes, claro, mas não creio que ninguém se preocupasse muito com isso—é uma vida-fetiche) ; e sobretudo um espião inglês interferindo nos destinos do mundo! Bond, o último suspiro do Império (no decorrer da trama, contudo, ele tem de ser socorrido financeiramente pelo espião americano, Leiter, o que dá azo a esta irônica passagem : “Havia uma linha escrita a tinta: Plano Marshall, ajuda econômica. Trinta e dois milhões de francos. Com os cumprimentos dos EUA.”).

edição recordcassino royale

Gosto muito da trama do jogo e fiquei surpreso e impressionado que a cena de tortura do herói (centrada na sua “masculinidade”, como aponta explicitamente Le Chiffre) que consta no filme já estivesse, e com maior impacto, no texto original, cujo saldo final resistiu bem à provecta idade, com uns poucos escorregões na filosofia barata (“Pediu a conta e tomou um último gole de champanhe. E esta última taça lhe pareceu amarga, como sempre parece amarga aquela taça que se toma a mais.”) ou na  breguice à Sidney Sheldon (“…enquanto a maré de paixão transbordava pelo sangue que corria naqueles dois corpos.”)[2].

Com tudo isso, o aspecto mais marcante de Cassino Royale é a relação de Bond com Vesper Lynd (que teve a sorte de ser encarnada por uma das atrizes mais bonitas da cena atual, Eva Green, possuidora de uma presença magnética e uns olhos magníficos e que consegue dosar igualmente talento, elegância, densidade, petulância e malícia[3]).

Avesso a mulheres trabalhando com ele (“Esse tipo muito animado de mulher que pensa poder fazer o trabalho de um homem. Por que diabo não podiam elas ficar em casa, cuidando das panelas, contentando-se em falar de roupas e em fazer mexericos, deixando o trabalho dos homens para ser feito pelos próprios homens?”), querendo inicialmente apenas levá-la para a cama, sem complicações românticas, 007 afinal se apaixona por Vesper, pensando em abandonar o Serviço Secreto para se casar com ela.

Portanto, os últimos capítulos são dedicados a um idílio do casal. Fragilizado enquanto macho pela tortura de Le Chiffre, Bond chega a questionar os fundamentos do seu trabalho (a luta contra o comunismo), durante sua convalescença[4]. Começa, não obstante, a perceber sinais de dissimulação e dubiedade em Vesper, em microepisódios que vão levantando barreiras entre o casal. Não quero entrar em detalhes sobre essa parte da história (cujo aproveitamento pelo filme é interessante também, embora bem diferente). Porém, é um rito de passagem que devolve Bond a si mesmo e à sua condição de “homem de gelo”, sem fissuras aparentes, direto, objetivo, totalmente desvinculado do mundo sinuoso e pouco claro das mulheres.

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É um processo de “ilusões perdidas” que chega ao cinismo da última e fabulosa frase do romance (que é de matar de inveja o desencantado Sam Spade de O falcão maltês, com relação à, digamos, dama da história).

A mensagem é reacionária. Descaradamente misógina, mesmo. Certamente, no entanto, deixaria M pulando de alegria (se pudéssemos imaginar o severo chefe de 007 fazendo isso [5]), bem como o colega Mathis, o qual lamenta (bem-humoradamente) que, com o coração do agente derretido por Vesper, se perca “uma máquina tão maravilhosa”.

E matreiramente a narrativa morde o próprio rabo, pois—passada a tentação—voltamos ao clima dos dois parágrafos iniciais, que de saída caracterizam com precisão o personagem, seus códigos de conduta, e o mundo em que ele se move:

Às três horas da manhã, o ambiente de um cassino é praticamente é praticamente irrespirável: o suor e a fumaça misturam-se para resultar num cheiro quase nauseabundo. É nessa hora que o jogo alto começa a corroer a alma dos jogadores, com um misto de avareza, de medo e de tensão nervosa. E nessa hora que esta sensação se torna insuportável, os sentidos do jogador acordam e se revoltam.

   De repente James Bond sentiu que estava cansado. Ele sempre sabia quando seu corpo e sua mente estavam esgotados e sempre agia de acordo com isso. O simples fato de tomar consciência de que estava cansado faia com que ele evitasse o desinteresse e a insensibilidade sensual, duas sensações que podem provocar muitos erros.”

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[1] Em compensação, o segundo, Quantum of Solace, é muito ruim, com um roteiro fraquíssimo, e sem ritmo algum. Mas parece que as coisas finalmente se acertaram, a julgar por Operação Skyfall (mesmo assim, ainda prefiro Cassino Royale, o filme, até agora, nesse novo formato 007.

A série com Sean Connery tem sua presença indestrutível, obviamente, e muita coisa charmosa. O melhor de todos, a meu ver, é 007 contra a chantagem atômica. Não consigo lembrar de um único filme entre os protagonizados por Roger Moore que se destaque dos outros (embora os três últimos sejam muito ruins), e todos têm um visual muito envelhecido, e vilões ridículos.

Mal dá para lembrar do anódino George Lazenby no seu único filme e apesar de Timothy Dalton ter fervorosos admiradores, suas duas aventuras me parecem imemoráveis. Nunca fui muito fã de Pierce Brosnan, com sua cara de manequim de loja; sou obrigado a dizer que ele foi muito bem como James Bond, e me diverti com todos os filmes que estrelou na série. E Craig foi um achado de ouro.

[2] Em compensação, há uns pruridos (poucos) de referências literárias, por exemplo:

“Havia nele alguma coisa de Lennie, o personagem de Ratos e Homens, mas sua desumanidade não proviria de infantilismo, e sim de drogas. Maconha, concluiu Bond.” É um trecho sobre um dos capangas de Le Chiffre, que termina com a referência moralista ao uso de drogas.

[3]  De fato, ela é a razão maior de eu considerar Cassino Royale, o filme, o melhor da safra atual de filmes de 007. Poucas Bond-girls se igualaram a Eva Green.

[4] Veja-se esta passagem (um diálogo com o agente francês Mathis, seu amigo):

“Por estes dois trabalhos deram-me um número com dois zeros no Serviço. Eu me senti muito esperto e ganhei a reputação de ser bom e durão. Um número com dois zeros no nosso Serviço significa que se teve de matar um cara a sangue-frio no curso de algum trabalho.

   Ora, e tornou a olhar para Mathis, tudo isso está bem. O herói mata dois vilões, mas quando o herói Le Chiffre começa a matar o vilão Bond, e o vilão Bond sabe que não é um vilão, pode-se ver o reverso da medalha. Vilões e heróis misturam-se.

    Naturalmente, acrescentou quando Mathis começava a discordar, o patriotismo surge e faz com que tudo pareça muito bem, mas esse negócio de certo-ou-errado-para-a-pátria está ficando fora de moda. Hoje combatemos o comunismo. OK. Se eu vivesse há cinquenta anos, a espécie de conservadorismo que temos hoje em dia seria quase com certeza chamada de comunismo e nos teriam mandado combatê-la. A história está andando muito depressa hoje em dia e heróis e vilões mudam constantemente de papéis.”

[5] Digno de atenção é que mesmo tendo M sido, a partir de certa altura, encarnado por uma mulher (a grandiosa Judi Dench), a ótica ferozmente masculinizada do personagem permaneceu, ainda que no último filme ela comece a ser um pouco mais matizada.

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