MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/08/2012

Destaque do blog: O MUNDO SE DESPEDAÇA, de Chinua Achebe

O PODEROSO ROMANCE DO COLONIZADO

E eu que pensava nunca encontrar um personagem à altura de Thomas Buddenbrook, o qual, em Os Buddenbrooks (1901), de Thomas Mann, tenta desesperadamente manter uma vida “representativa”, com muito trabalho e empenho, mesmo que por dentro se sinta minado e desalentado, mesmo sabendo que sua família está em declínio e, mais ainda, seu modo de vida, seu mundo “social”, estão sendo solapados, deixados para trás. Por algum motivo, foi o personagem masculino da ficção que mais me falou ao coração, que mais me marcou até hoje.

E, de repente, encontro uma alma gêmea de Thomas Buddenbrook: Okonkwo, em Things fall apart- O mundo se despedaça (belo título para a tradução, muito bem escolhido, assim como a arrepiante capa), romance de estréia do nigeriano Chinua Achebe, de 1958, só agora traduzido no Brasil (por  Vera Queiroz da Costa e Silva, para a Companhia das Letras).

Okonkwo, um dos principais homens de Umuófia, nove aldeias nas terras dos ibos, que —nos tempos pré-colonização—teve  de se fazer sozinho na vida, como se diz, pois nada herdou do pai, um músico boa-vida e embrulhão (assim como os membros do clã Buddenbrook a certa altura só envergonham o chefe da família): “… toda a sua vida era dominada pelo medo, o medo do fracasso e da fraqueza. Era um medo mais profundo e mais íntimo do que o medo do Mal, dos deuses caprichosos e da magia, do que o medo da floresta e das forças malignas da natureza, de garras e dentes vermelhos. O medo de Okonkwo era maior do que todos esses medos. Não se manifestava externamente, jazia no centro do seu ser. Era o medo de si próprio, de que afinal descobrissem que ele se parecia com o pai. Mesmo quando menino pequeno, magoara-se com o malogro e a debilidade do pai… Foi assim que Okonkwo se viu dominado por uma paixão: odiar tudo aquilo que seu pai, Unoka, amara. Uma dessas coisas era a doçura, e a outra, a indolência.” Um dos medos dele é que a próxima geração repita os “vícios” da anterior: “O primogênito de Okonkwo, Nwoye…já provocava grande apreensão no pai, por sua incipiente preguiça. Essa era a impressão que sua atitude dava ao pai, que procurava corrigi-lo com pancadas e críticas incessantes…”

Através da férrea vontade, da força física (é uma lenda viva como lutador: “Toda a gente conhecia Okonkwo nas nove aldeias e mesmo mais além. Sua fama assentava-se em sólidos feitos pessoais…” , assim se inicia O mundo se despedaça), da brutalidade e da intolerância, Okonkwo consegue ser um grande plantador de inhame (símbolo absoluto da riqueza e da virilidade, até pelo seu aspecto fálico: “O inhame, rei das colheitas, era plantio dos homens”) e manter um grande compound, um conjunto suntuoso de habitações  para suas três esposas e filharadas respectivas, mas ainda não tem os títulos principais que distinguem os líderes da tribo.

Um dia, durante o funeral de um dos líderes mais velhos (e estou pulando aqui diversos incidentes habilmente explorados pelo autor para mostrar a buddenbruquiana angústia de Okonkwo), sua arma acidentalmente mata um rapaz: “Era o filho de Ezendu, de 16 anos, que, juntamente com seus irmãos e meio-irmãos, participava, momentos antes, da tradicional dança de adeus em homenagem ao pai morto. A arma de Okonkwo explodira e um pedaço de ferro trespassara o coração do menino. A confusão que se seguiu não encontrava paralelo na história de Umuófia. Mortes violentas eram freqüentes ali, mas nunca acontecera nada semelhante”.

  A punição é o exílio, com toda a sua família, durante sete anos,uma punição que nos lembra aquelas do Antigo Testamento: “Logo que o dia amanheceu, um grande número de homens da família de Ezendu, em roupagens de guerra, invadiu tempestuosamente o campound de Okonkwo. Atearam fogo às casas, demoliram os muros vermelhos,mataram os animais e destruíram o celeiro. Era a justiça da deusa da terra. Seus corações não abrigavam nenhum ódio contra Okonkwo, cujo melhor amigo, Obierika, fazia parte do grupo. Estavam simplesmente limpando a terra que Okonkwo poluíra com o sangue de um membro do clã”.

O clã de Okonkwo vai viver na aldeia de sua mãe, Mbanta. E durante todo esse tempo afastado, ele, que também prospera por lá,  só pensa em recuperar a sua posição na aldeia natal, a meta da sua existência: “Sete anos é um período demasiado longo para se passar afastado do clã a que se pertence. O lugar de um homem ausente não fica vazio, à espera que o antigo dono volte a ocupá-la. Assim que alguém se vai, surge logo um candidato à sua vaga. O clã é como os lagartos, que, quando perdem a cauda, logo lhes nasce outra nova. Okonkwo sabia muito bem de tudo isso. Sabia que perdera seu lugar entre os nove espíritos mascarados que aplicavam a justiça no clã…Estava decidido a fazer com que seu regresso não passasse despercebido de sua gente. Voltaria em grande estilo e haveria de recuperar os sete anos perdidos…”

    Só que durante seu afastamento chegam os missionários brancos e mudam drasticamente a vida dos ibos, trazendo consigo comissários, administradores, enfim, a lei dos brancos. O filho mais velho, o sonhador e melancólico Nwoye se torna cristão, adota o nome de Isaac  e é renegado pelo tirânico pai (tudo isso tem a ver com Ikemefuna, um rapaz de outra aldeia que fora dado para sacrifício em paga de uma morte, e que fora viver com a família de Okonkwo, tornando-se muito amigo de Nwoye; anos depois, decidem que ele deve cumprir seu destino, e Okonkwo participa ativamente da sua violenta morte, para horror de muitos, pois se apegara muito a ele, assim como o resto da sua família; mas aquele medo da fraqueza…). Assim como Hanno Buddenbrook há de decepcionar o pai, Okonkwo não se conforma com o filho: “Okonkwo fora popularmente apelidado de Chama Estrondosa. Nesse momento, ao contemplar o fogo produzido pela lenha, lembrou-se dessa alcunha. Ele era um fogo ardente. Como era possível, então, que tivesse gerado um filho como Nwoye, degenerado e efeminado? Talvez Nwoye não fosse seu filho. Isso mesmo! A mulher o havia enganando. Dar-lhe-ia uma lição! No entanto, Nwoye era muito parecido com o avô, Unoka. Procurou afastar da sua mente esse pensamente. Ele, Okonkwo, era chamado de fogo ardente. Como poderia ter procriado uma mulher, em vez de um filho macho? Na idade de Nwoye, Okonkwo já se tornara famoso em toda Umuófia por sua maneira de lutar e por sua bravura. Suspirou fundo e, em sinal de solidariedade, a lenha, já sem chama,  também lançou um suspiro. Nesse preciso instante,  os olhos de Okonkwo se abriram e ele compreendeu tudo com absoluta clareza. O fogo ardente procria a cinza fria e sem força…”

. Quando finalmente, Okonkwo pode voltar e reconquistar sua posição na tribo, essa posição tão almejada já não tem o prestígio de antes, principalmente diante das autoridades brancas, e ele é levado a um ato extremo, após uma humilhação que é infligida a ele e a outros líderes locais. Já censurado pelos mais velhos, antes da nova era, pela sua dureza e intransigência, ao ver seu mundo se despedaçar, ele ainda tenta um último (e absurdo) feito guerreiro…

O que torna especialmente admirável (e, a meu ver, uma obra-prima) O mundo se despedaça é a sua cabal confirmação de que o romance foi a suprema forma literária do último século, capaz de enciclopedicamente nos dar não só a psicologia individual de um protagonista de estofo literário impressionante (desfazendo  todos os clichês quanto à psique africana, como integrada à natureza e harmônica, apesar das beleza narrativa de que se revestem os costumes: “Na realidade, não existia uma distância muito grande entre a terra dos vivos e o domínio dos ancestrais. Havia sempre idas-e-vindas entre os dois mundos, especialmente durante os festivais e quando um homem idoso morria, porque os velhos estão muito próximos dos ancestrais. A vida de um homem, desde o nascimento até a morte, era uma série de ritos de transição que o aproximavam cada vez mais de seus antepassados…”), como também a etnologia, a sociologia, enfim, toda a mentalidade daquele determinado grupo social, e sem nenhum olhar externo (como o do comissário inglês, que recolhe material para um livro denominado “A pacificação das tribos primitivas do Baixo Níger”, no irônico final);  mais ainda, consegue em 200 páginas, dar conta, com um simbolismo e uma força quase miraculosos, um feito verdadeiramente mágico num escritor de apenas 28 anos, unindo o lírico, o épico e o dramático,  de um processo histórico terrível e cujas consequências todos os povos, nesse período pós-colonial, ainda estamos vivendo. Como as melhores obras que surgiram das Américas, o romance do colonizado se torna capaz de revitalizar o gênero do colonizador.

resenha publicada, de forma condensada, em “A Tribuna” de Santos em 08 de junho de 2010

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