MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/02/2014

O TALENTOSO MR. RONEY: os contos de «O estouro da artéria de um cavalo húngaro (2a. edição)»

thiago roneyCapa nova

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de fevereiro de 2014)

No final de 2012, Thiago Roney publicou seu primeiro livro, O estouro da artéria de um cavalo húngaro, com 12 contos, a maioria dos quais transbordantes de energia e possibilidades (que faziam entrever um talento bruto), mas apresentando sérios desleixos na linguagem, além da imaturidade habitual. Após absorver críticas e sugestões de todos os lados (VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/08/14/notas-sobre-um-jovem-contista-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-de-thiago-roney/), o jovem autor de Manaus não se desencorajou ou “deixou para lá”. Numa atitude ousada e peculiar, acaba de lançar uma segunda versão, totalmente reformulada, provando sua disposição de quem veio para ficar.

Os textos mais fracos, Óculos de vô Tico, 439 e O pintor foram eliminados e substituídos (ainda são 12), outros tiveram seus títulos alterados, além de sofrer uma metamorfose estilístico-narrativa que comprova a evolução do escritor (assim, o problemático Vitamina C tornou-se Domingo, o quintal de enterrar sonhos; Afetuosos teoremas de Martín, que era bem insatisfatório, transformou-se num dos bons momentos do conjunto atual, O afetuoso teorema de Martín); mesmo os que já se destacavam num primeiro formato passaram por revisão e ganharam com isso. Ainda há descuidos, reparos a fazer (pontuais, não com relação ao livro), mesmo assim a experiência de (re)leitura foi estimulante e proveitosa, e hoje eu não sugeriria a supressão de nenhum conto.

O universo de Thiago Roney, ainda que ele se permita, como tantos de sua geração, e para fastio do leitor calejado, usar a própria literatura como assunto (como no conto-título ou em O caralho-de-asas chamado solidão, versão radicalmente melhorada de O jogo ou como cortar uma faca com outra faca[1]), é extremamente politizado, felizmente não por meio de discursos proselitistas disfarçados, e sim mostrando nas próprias situações ficcionais como as relações familiares, amorosas e profissionais encontram-se corrompidas e esgarçadas pela onipotência do “mercado de trabalho” (fora o consumo, claro), que se tornou uma espécie de muro no nosso horizonte.

Por essa razão, a família (inclusive a mãe-narradora) pressiona Mânfrede, no emblemático conto de abertura, O caçador de made in´s (cujo final é um achado), para conseguir de qualquer jeito um emprego, enquanto ele se dedica a atormentar a todos com a procedência dos produtos usados por todos: “Em cada visita de um familiar, uma denúncia diferente: a camisa do tio—made  in Haiti—fabricada com superexploração salarial dos comedores do barro…o remédio do avô—made in África—fabricado por trabalhadores explorados em todos os níveis humanos…”.

Particularmente cruel e pungente (não constava da versão original e para mim foi uma grata surpresa) é O dia em que eu quis afogar o mundo no rio Negro, no qual um menino de periferia testemunha o pai—enquanto a mãe está totalmente deslumbrada com a tv LCD que chega na casa—batendo na sola do pé machucado com um alicate: “Meu Deus, a dor que o papai sentia era tão forte que ele estava batendo nela”. Não é possível revelar o resto da história, entretanto o uso da percepção da criança para captar as relações de consumo e trabalho, dentro do próprio âmbito doméstico,  faz desses um dos contos mais expressivos e fortes dos últimos anos.

Mesmo os “vencedores” (sob a perspectiva do mercado) como o “cirurgião ortopedista renomado” gay, filho de um peixeiro que o desprezava, narrador do conto-fecho, O dia em que comi como o faz um rico, mostra em seu relato maníaco (para não falar das atitudes) o custo que se exige de cada um desse atrelamento e domesticação ao mundo do “fim da história”[2], já que o socialismo “fracassou” e um capitalismo supostamente democrático parece ser a única opção disponível.

Os personagens masculinos de Roney, como aqueles que aparecem em estranhos conflitos (às vezes chegam às vias de fato) em Domingo, o quintal de enterrar sonhos, ou aqueles estimulados pela mãe a experiências lúdicas um tanto quanto fora dos padrões sociais (em O coágulo emoldurado de mamãe, outra bem-vinda inclusão à coletânea), parecem uma mescla de cronópios (a parte da humanidade, segundo Julio Cortázar, incapaz de lidar com o lado prático e contingente da existência e suas convenções sociais) com black blocs.

No mais, a releitura confirma a qualidade de textos como O gozo sem vida de Joana, no qual ele mostra que o realismo fantástico ainda pode ser muito bem utilizado, talvez porque certos aspectos da realidade sejam difíceis de acreditar mesmo; e A doença do mundo, com suas referências a Stanley Kubrick, que servem de moldura irônica ao relato de como a contínua atitude de desânimo frente ao cotidiano, por parte da amada do narrador, é “curada” por uma singular (mas tonificante) bebida[3].

Imaginativo, denso, plural em suas inquietações, O estouro da artéria de um cavalo húngaro não precisa dos efeitos maneiristas e posudos anunciados pelo narrador, um pipoqueiro candidato a escritor, do irônico conto-título (“Minha literatura será o estouro da artéria de um cavalo húngaro jorrando sangue com vodca na cara dos meus contemporâneos”). Com seu desconcertante e vigoroso frescor (tomara que o pai do «cirurgião ortopedista renomado» não pegue no meu pé pelo uso desse «frescor») , desarma até o mais desconfiado dos críticos.

estouro da artéria artigo

ÍNDICE  COMPARATIVO DAS DUAS VERSÕES

*(a de 2012)  (a de 2013)

*A doença do mundo

– O caçador de made in´s

*Afetuosos teoremas de Martín

– O afetuoso teorema de Martín

*O caçador de made in´s

– O tabelião “dela”

*O dia que comi como o faz um rico

-Domingo, o quintal de enterrar sonhos (antigo Vitamina C, reformulado)

*O estouro da artéria de um cavalo húngaro

-O coágulo emoldurado de mamãe (ausente na 1ª. edição)

*O gozo sem vida de Joana

-O dia em que eu quis afogar o mundo no rio Negro (ausente da 1ª. edição)

*Óculos de vô Tico (ausente da 2ª. edição)

-A caixa de sapatos (ausente da 1ª. edição)

*O tabelião dela

-O caralho-de-asas chamado solidão (antigo O jogo ou como cortar uma faca com outra faca, reformulado)

*439 (ausente na 2ª. edição)

– O estouro da artéria de um cavalo húngaro

*Vitamina C

O gozo sem vida de Joana

*O pintor (ausente na 2ª. edição)

-A doença do mundo

*O jogo ou como cortar uma faca com outra faca

– O dia em que comi como o faz um rico

TRECHO SELECIONADO

Para dar uma amostra ao leitor das reescritura de O estouro da artéria de um cavalo húngaro, escolhi um trecho (que aparece em itálico) do conto chamado, na primeira edição, de Afetuosos teoremas de Martín, e um trecho (em negrito) de O afetuoso teorema de Martín, da segunda edição, no qual a musculatura narrativa é mais evidente, ao contrário do tom vago e difuso da versão anterior (há alguns reparos que podem ser feitos, mas o aperfeiçoamento é visível):

“A sombra recolhe a edificação do prédio hoje em ruínas. Se ele estivesse aqui, agora, calcularia todos os sentimentos petrificados ainda no ar. Graças aos seus conhecimentos virtuosos sobre os ângulos hiperbólicos. Lembro quando ficava no canto esquerdo da sala de jantar, vendo números na fala da teatralidade familiar. Zombávamos de suas precisões psicológicas.

__ Qual a diferença entre os números e as letras?—perguntávamos, alimentando mais o seu interesse pelo mistério dos significantes.

__ Sou uma espécie de bluetooth.Uso números para captar afetividade e mensurar falsificação—concluía, soberbamente.

    Conseguia ver o seu gosto pelo exagero. Quando inflamávamos mais as desconfianças de sua estranheza, ficava cristalino. Já o pai não compreendia seus gostos. Principalmente sua obsessão pelo quadro A origem do mundo, de Courbet. Com referência a este último, sempre recorria ao eterno retorno de Nietzsche ou ao buraco negro da astrofísica para teorizar a vida. Numa quarta-feira de cinzas, a mãe o pegou masturbando-se lendo A divina comédia de Dante Alighieri. Assombro geral no seio da família…”

“A memória é uma matemática dos diabos. Por acaso entrei numa rua labiríntica tentando fugir do trânsito e acabei encontrando a nossa antiga casa. A sombra do tempo começou a recolher lembranças a partir da imagem do nosso prédio em ruína. Martín é a figura mais forte na memória. Como estaria hoje o nosso peculiar Poincaré? Se ele estivesse aqui, agora, certamente calcularia todos os sentimentos petrificados ainda no ar, em cada canto da casa, em cada espaço no tempo. Muito melhor do que faço nesse instante. Quero dizer: melhor não matematicamente diverso, pois víamos a realidade por uma espécie de lente euclidiana. Já Martín enxergava-a com outra espécie de geometria. Ainda hoje tento compreendê-lo. Mas até onde isso poderia justificar aqueles seus teoremas? Precisava ele fazer aquilo?

   Martín foi o cara mais inteligente que eu já conheci na vida. Era um gênio da matemática. No entanto, com o tempo, acabou se tornando um geômetra das estranhezas. Lembro-me de ver meu irmão em silêncio no canto esquerdo da sala de jantar na ocasião em que afirmávamos o valor inestimável de alguém baseado no cargo que exercia em uma grande empresa, ou quando discutíamos sobre o carro do ano e a necessidade de obtê-lo, ou ainda, no momento em que sugeríamos que ele fosse lecionar na Universidade de melhor salário. Martín apenas sorria como quem ri das peripécias de várias crianças. Certamente, vislumbrando números na fala da teatralidade familiar. A preocupação primordial de Martín era com os seus teoremas e com os problemas históricos da matemática, como a conjectura de Poincaré, na qual meu irmão trabalhou extensamente por toda a sua vida.

     (…)

  Não sabíamos se ele fazia tudo aquilo somente para chamar a atenção ou se queria irritar propositalmente toda a família. Além de estranho, seus feitos eram exagerados. Não compreendíamos, por exemplo, sua obsessão pelo quadro A origem do mundo, de Courbet, o qual Martín ficava horas da noite observando e teorizando sobre a vida, recorrendo para isso ao eterno retorno, de Nietzsche, ou ao buraco negro da astrofísica. Mesmo assim, conseguíamos ficar complacentes com suas loucuras, já que, de tempos em tempos, elas tinham seus momentos de trégua. Por exemplo, quando Martín se retirava para seu mundo à procura da solução para a conjectura de Poincaré. A complacência, no entanto, esgotou-se no dia do banheiro. Numa Quarta-feira de Cinzas,a mãe o pegou masturbando-se com o que parecia ser a imagem da Virgem Maria. Assombro geral no seio da família…”

thiago e seu livro


[1] Cujo final delicioso faria dele o candidato natural a encerrar a coletânea (como fazia na versão anterior, onde havia uma frase que sobrava; suprimida, o fecho ficou perfeito).

[2][2] Um trecho do conto: “…fiquei alguns anos sem poder comer o peixe de minha região. Situação angustiante. Voltei com a imensa vontade de comê-lo como faz o rico—sem espinha. Um plano de toda uma vida. Porém, Pedro não gostava assim. Preferia o peixe ticado. Eu havia telefonado, um dia antes, pedindo para preparar um peixe sem espinhas. Nós dois celebraríamos meu doutoramento e nosso aniversário. No entanto, quando cheguei a casa, recebi duas notícias desastrosas: só havia peixe ticado e Pedro tinha deixado de ser peixeiro…”

[3][3] Não comentei O tabelião “dela”A caixa de sapatos, mas não desgosto de nenhum dos dois. Já comentei alguns bons achados do primeiro em outro post e o segundo se insere na linha da ficção que versa sobre candidatos a artistas e o huis clos que essa “vida alternativa” às vezes acarreta.

estouro da artéria

capa de estouro da artéria

14/08/2013

Notas sobre um jovem contista: O ESTOURO DA ARTÉRIA DE UM CAVALO HÚNGARO, de Thiago Roney

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“Minha literatura será o estouro da artéria de um cavalo húngaro jorrando sangue com vodca na cara dos meus contemporâneos”.

Este é o trecho que justifica porque O estouro da artéria de um cavalo húngaro é o texto-título da coletânea de estreia de Thiago Roney.

Antes de abordar o referido conto, comentarei outros (são 12 ao todo), mas quero chamar a atenção para a presença da violência estilizada (o sangue com vodca), a referência “exótica” (o cavalo húngaro) e a preocupação de tematizar a própria literatura, típicas (é quase uma obsessão, quando não se trata de simples modismo) nos escritores das últimas safras.

O projeto literário de Roney se mostra bem mais interessante do que essa vinculação geracional, ainda que a realização textual muitas vezes deixe a desejar. Para delineá-lo minimamente, efetuarei uma operação arbitrária,  dividindo o livro em três blocos de quatro.

O jovem autor de Manaus (nascido em 1985) deve ter percebido, claro, que os quatro primeiros representavam uma boa introdução à sua produção até aqui (o livro foi editado no finalzinho do ano passado), e a leitura em conjunto reforça um vínculo mais imediato entre três deles (o vínculo com o conto de abertura, cujo título já é um achado, A doença do mundo não é tão óbvio, mas é forte), apesar da disparidade dos resultados: Afetuosos teoremas de Martín, O caçador de made in´s, O dia que comi como o faz um rico. Neles, Roney se mostra um dos representantes promissores de um novo vigor do veio mais expressionista e focado no social em nossa jovem ficção, para além daquela tematização da literatura e da vida literária, e todos seus subprodutos já desgastados (a metalinguagem, o experimentalismo gráfico, a morte do Sujeito, a suspeição quanto à legitimidade do Narrador, etc etc etc), e coloca em foco um dos temas mais candentes da contemporaneidade: a submissão das relações familiares à lógica do mercado, os ritos de passagem entre gerações recodificados como a “inserção do jovem no mercado de trabalho”.

Assim, o caçador de made in´s se enforca, desgostoso com a possibilidade de que viver tenha como epitáfio (como vira num cemitério) “laborum meta”; assim, o conflito  com o pai, calcado na (nunca ultrapassada, infelizmente) questão sexual  do narrador (gay) de O dia que comi como o faz um rico, não se resolve pelo descompasso profissional entre as gerações (o pai, peixeiro; o filho, médico com doutorado nos EUA, embora se apaixone e tenha um relacionamento com um…peixeiro); assim, em Afetuosos teoremas de Martín (o leitor deve ter notado o capricho de Roney com os títulos), as figuras familiares se tornam presenças fantasmáticas, sombras, axiomas miasmáticos.

Pena que o resultado textual nem sempre siga esse vigor de ideias, de percepção do mundo atual. Afetuosos teoremas de Martín, principalmente, precisaria de uma revisão radical.[1]

Quanto ao conto A doença do mundo, ele me parece corresponder ao Zeitgeist convocado pelos outros três, essa interpenetração tão contemporânea de obrigação de produtividade (e até a alegria e a diversão se tornam uma espécie de produtividade neste nosso mundo) e de um desânimo corrosivo. Gostei do fato de que neste conto as referências culturais (no caso, especificamente Laranja Mecânica) se resolvem não como referência apenas, mas dentro do imaginário e movimento do próprio texto (ainda mais sabendo que Roney pode se valer de outros recursos, não apenas dessas referências, como acontece com tantos outros autores jovens). É a história de uma deprimida que começa a tomar uma substância misteriosa e volta a ser uma pessoa “animada”, “produtiva”, para espanto do seu companheiro. Deixo ao leitor descobrir o componente principal desse preparado tão eficiente.

O segundo bloco de quatro, a meu ver, deveria encerrar a coletânea e assim ela ficaria como um registro sólido de um momento da vida de escritor de Thiago Roney. É a ele que pertence o conto-título, cujo contraste do tipo de atividade profissional (pipoqueiro) e de aspiração (escritor) renderia mais, sem frases de efeito (“O amor é um desintegrador da substância coletiva”). De qualquer forma, o relato evolui para uma situação bastante  engraçada, bizarra e interessante, aproveitando como “amada” um ser bastante presente no imaginário da leitura e destino dos livros. Só achei imperdoável e rebarbativa (e, em última instância, mostrando pouca confiança na inteligência e atenção do leitor) a última frase do texto, que destrói todo o efeito construído pelo autor.

O gozo sem vida de Joana é, a meu ver, um dos três melhores momentos do livro (junto com A doença do mundo  e O dia que comi como o faz um rico)—e  até poderia encerrá-lo; e prova de que um realismo mágico que não seja apenas “saramandaico” (ou seja, personagens esquisitos, sem nada por trás que justifique essa “esquisitice”) ainda é possível. Temos uma mulher que o marido não satisfaz, um amante tosco, borboletas,  orgasmos… e um belo final, como sempre se diz que um conto deve ter quando constrói passo a passo seu “efeito”. Aqui, vemos que Thiago Roney pode ainda ser imaturo em vários aspectos, mas tem o temperamento e a volúpia do escritor verdadeiro.

Também nesse compasso, O tabelião dela, onde ele procurou ajustar o tom narrativo a um personagem alienado do mundo, e que no entanto filtra para nós a realidade à sua revelia, é quase um personagem de Francisco J. C. Dantas em miniatura (só não convence muito, para um personagem autoproclamado antimoderno, que ele assista a filmes de Lynch ou Tarantino, esses são filmes a que o escritor Thiago Roney assiste, e ele precisa estar atento para esse tipo de interferência das próprias referências).

Óculos do vô Tico é uma experiência (inclusive na disposição tipográfica), que pode ser louvável para os rascunhos, esboços, projetos e tentativas, mas que devia ter ficado na gaveta.

O mesmo se pode dizer com narrativas do terceiro bloco, o qual enfraquece muito o conjunto, por conter os textos mais imaturos, mais mal-acabados, e que só estão fazendo número em O estouro da artéria de um cavalo húngaro.

Assim, eu também cortaria sem dó nem piedade 439 (nem tudo o que se escreve deve ser publicado, é uma lição preciosa e sempre desconsiderada), assim como O pintor. Nem vou me deter neles. Já  Vitamina C , no qual voltam os miasmas familiares, a presença dos “entes queridos” meio fantasmática e tênue, apesar de me parecer mais uma primeira versão, ainda tentativa, de conto, um esqueleto de texto, uma coisa meio esboçada, em termos de atmosfera é um dos mais interessantes do livro, com várias tensões aflorando, apontadas aqui e ali, de uma forma que se entremeia ao cotidiano familiar (e que o coloca ao lado daqueles do primeiro bloco).  Da maneira como está, dá para gostar do texto, mas creio que poderia ser um baita conto, se fosse mais trabalhado. E a vitamina C do título,que poderia representar um elemento de ironia dissolvente, acaba caindo de paraquedas no final da narrativa.

O último conto,  O Jogo ou Como cortar uma faca com outra faca é muito problemático, principalmente porque para marcar a diferença da “sedução” do escritor, em contraponto à sua figura real insatisfatória e “broxante” (“Mas como pode existir um gênio nas letras, do tipo que  escreve isto (…) E mesmo assim na vida ser um bundão?”), ele coloca trechos do sujeito, e eles são lamentáveis, quase insuportáveis. O texto me lembra as experiências de André de Leones, antes de Terra de Casas vazias, discursos narrativos meio curto-circuitados que não se resolvem muito bem e, ao contrário de A doença do mundo, aqui as referências (no caso, O jogo da amarelinha, de Cortázar) não funcionam muito bem.

Achei genial a frase “Porra, gosto de literatura pra caralho, mas gosto de pica também” (tem outra ótima,  “Deixou meu espírito molhadinho de novo”, lembrando que é o jogo de sedução entre autor e leitor) . E ficou  bacana a girada autorreferencial que “quase” termina o relato e o livro: Quem sabe não conheço o carinha que escreveu O estouro da artéria de um cavalo húngaro”.  Pena que é “quase”, não sei se é necessária a sequência (aliás, uma frase meio desajeitada): “Ah, e lógico que o filhadaputa não me broxe”. O problema central talvez seja a oscilação entre uma possível sátira aos próprios personagens e um possível erotismo de negaças e aproximações.

Contudo, como se pode constatar, temos de ficar de olho em Thiago Roney. Não acho que ele vá nos broxar no futuro.

(escrito especialmente para o blog, em agosto de 2013)

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[1] Mesmo nos outros, há problemas em certas frases mal ajambradas (“a dúvida arfava em minha cabeça”), em adjetivos mal escolhidos (“saltei insólita”), mesmo que se pense na “liberdade criativa”. Mas já apontei para o autor os problemas vocabulares e gramaticais, e eles não vêm ao caso aqui, onde o objetivo é dar uma ideia do livro ao meu leitor.

 

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