MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/11/2011

EXTRAVAGANTE, BARROCO, EXTREMISTA: A FICÇÃO TRIUNFANTE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2003)

“Garp era um homem extravagante. Tudo o que fazia era barroco. Ele acreditava no exagero e a sua ficção era também extremista”.

Há exatamente um quarto de século era lançado um romance fascinante: O MUNDO SEGUNDO GARP [ “The world according to Garp”, traduzido por Luiz Corção], terceira obra de John Irving e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. Vinte e cinco anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la (como percebeu quem viu o pálido filme de George Roy Hill, que vale mais pela antológica participação de Glenn Close—embora não se possa deixar de mencionar a presença de John Lithghow & Mary Beth Hurt no elenco]: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia Uma suspeita sexual; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Arranjando briga com as seguidoras da mãe, feministas radicais dos anos 60 e 70, Garp acaba partilhando do destino dela: ambos são assassinados.

Na recente edição do livro pela Record (a qual é surpreendentemente revista com relação à anterior, dessa vez não houve propaganda enganosa), há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”!!??

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, O MUNDO SEGUNDO GARP é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo uma chupetinha em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pau do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores  e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente Viúva por um ano) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, A pensão Grillparzer, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário Hotel New Hampshire, ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por A pensão Grillparzer. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de  Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

Blog no WordPress.com.