MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/05/2013

O romance mais fascinante de Henry James: duas resenhas sobre “As asas da pomba”

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 1998)

1998 coloca um delicioso dilema para o apreciador de ficção: será difícil escolher, como o evento mais importante do ano, entre as traduções para lá de tardias de Middlemarch, de George Eliot, e AS ASAS DA POMBA (The Wings of the Dove).

Provavelmente a obra-prima de Henry James (publicada originalmente em 1902) aparece neste momento no Brasil como consequência da fraquíssima versão cinematográfica, dirigida por Iain Softley, que ganhou aqui o pífio título de Asas do amor (quando poderia se chamar, de forma mais exata, “As asas da bomba”).

O livro é a consumação da atmosfera de dois textos jamesianos bem mais antigos: Daisy Miller (1878), uma das suas melhores histórias curtas, e o maravilhoso Retrato de uma senhora (1880-81). Em todos, a confrontação entre o comportamento de uma jovem americana com valores do Velho Mundo. Só que na história de Milly Theale, envolvida com o casal inglês, Kate Croy e Merton Densher, em Londres e Veneza,os contornos do confronto se tornam labirínticos, de uma maneira que os espectadores do esquálido roteiro de Asas do amor jamais poderia supor, a não ser pelo que a interpretação de Helena Bonham-Carter, merecidamente indicada para o Oscar (e o seria mais, se fosse indicada ao de coadjuvante), consegue sugerir com sua Kate, a mentora do plano perverso-piedoso (se é possível uma conjunção dessas) que envolve Milly e sua imensa fortuna (é curioso como em Henry James sempre há um teor conspiratório e futriqueiro na trama). Pois Milly está irremediavelmente doente e apaixona-se por Merton, o amado de Kate (o relacionamento do casal não agrada à tia dela, que a sustenta—e também à sua família); ela, então, planeja fazer do pobretão o herdeiro de Milly. Só que a “pomba”, ao se oferecer para o sacrifício, mostra-se muito mais forte do que se supunha, mesmo depois da sua morte, separando inclusive o casal que se amava tanto.

Parece simples e melodramático, não? Pois não é. Nada mais difícil e intrincado do que ler As ASAS DA POMBA, principalmente porque, embora os diálogos, como sempre em James, sejam magníficos, a narrativa é toda indireta. E dizer isso ainda não é dizer nada. Nós ficamos sempre sabendo dos fatos “depois”, e através do testemunho ou da exegese (sim, é o único termo que me ocorre) de alguém, que luta consigo mesmo ou com seu interlocutor para “interpretar” os acontecimentos decorridos. O leitor praticamente tem de adivinhar tudo o que está ocorrendo, está para ocorrer ou já ocorreu, sem nunca se ter muita certeza de nada: tudo está envolvido numa intolerável ambiguidade, desde o maquievalismo fraternal de Kate Croy até os derradeiros motivos das atitudes de Milly Theale. Um clima bastante explorado nas falas dos personagens, sempre alusivas, raríssimas vezes abordando diretamente qualquer assunto (lembra, leitor, dos colóquios entre a angustiada preceptora e a cozinheira, em A volta do parafuso?, imagine 500 páginas recheadas deles!).

Nunca na ficção se conseguiu algo tão próximo do tom trágico como em AS ASAS DA POMBA, ou seja, personagens que mesmo em seus deslizes morais e em suas tortuosas atitudes têm “nobreza”, o que jamais poderia se esperar de um gênero tão burguês como o romance, uma “nobreza” que nada fica a dever aos personagens de Sófocles, Shakespeare ou Racine (especialmente, deste último).

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Por isso não dá para entender o que se quis fazer desses personagens no cinema.  Pois, à exceção da intérprete de Kate (a única que parece ter uma mínima ideia do universo em que está se movimentando), que gente vulgar e ordinária é essa que vemos na tela? O que eles querem? Que falta de estofo![1] Vê-se mais um desfile de figurinos do que interpretações, uma coisa lamentável. Será que não se é mais capaz hoje em dia de intensidade, densidade e substância; estofo, enfim?

Será que a “pomba” Milly Theale, que mesmo a perspicaz Kate Croy pensa ser fácil de “sacrificar”  (em função de seu futuro com Merton), não merecia coisa melhor, ela que nos oferece os momentos mais nobres e elevados da arte da ficção? Ela, cuja carta para Merton Densher (que chega após suam morte e é queimada por Kate, sem que ele a leia) constitui um enigma tão cruel quando a dúvida com relação a Capitu, em Dom Casmurro?: [seria] “uma revelação cuja perda era como a visão de uma pérola inestimável jogada diante dos seus olhos—depois de ele jurar que não ia resgatá-la—no mar insondável” (tradução de Marcos Santarrita, numa horrorosa edição da Ediouro).

E existirá momento mais lindo já escrito do que aquele, lírico, belo e atroz, em que Milly na sala de visita do médico, se dá conta que saiu da América “para viver”, quando, na verdade, está sob “sentença de morte”:

“Ela se dispusera a ver o mundo, e aquilo, pois, seria a luz do mundo, o rico lusco-fusco de um ´fundo´ londrino, aquelas as paredes do mundo, aquelas as cortinas e os tapetes do mundo”.

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2002)

Na seção passada, comentei A taça de ouro. Coincidentemente, outra obra de Henry James (1843-1916) tornou-se centenária este ano: AS ASAS DA POMBA, um romance tão importante (embora não tão famoso e cultuado) quanto Em busca do tempo perdido, Ulisses ou O processo, e editado aqui pela Ediouro, a qual—ao contrário da Record (responsável pela tradução de A taça de ouro)—manteve o indispensável prefácio do autor, mas igualmente pecou pela feiura lancinante e apelativa da capa, e um odioso texto de contracapa, um marco de estupidez entre os já perpetrados pelo meio editorial brasileiro.

Em alguns dos seus textos mais famosos, James “lançou no mundo” (leia-se a Europa) uma jovem norte-americana que se torna centro de atenção da trama. Todos, inclusive leitores apaixonados, querem saber “no que vai dar a sua vida”. No caso de Isabel Archer (Retrato de uma senhora) e Maggie Verver (A taça de ouro), temos destinos em aberto; no caso da protagonista de Daisy Miller e de Milly Theale (AS ASAS DA POMBA), a morte transforma suas trajetórias em destinos trágicos. “Herdeiras potenciais de todas as eras”, todas cumprem a “rósea aurora de uma apoteose que chegava tão curiosamente cedo”. Para Daisy e Milly (esta “queria abismos”), a sina “era viver rápido”:

“Tratava-se  estranhamente da questão de curto prazo e da consciência proporcionalmente abarrotada”.

Milly viaja para a Europa com sua amiga/dama de companhia, Mrs. Stringham, ambas representando o cantão dos EUA focalizado pela obra jamesiana (Nova York e Boston). Em Londres, Mrs. Stringham retoma contato com sua antiga colega, Mrs. Lowder, e Milly torna-se amiga da sobrinha dela, Kate Croy. Esta mantem uma ligação proibida (pela tia, de quem é agregada) com o jornalista Merton Densher, que Milly conhecera em Nova York e por quem se apaixonara.

Kate descobre que a “pomba” está com os dias contados. Quando todos vão para Veneza, ela faz com que Merton fique próximo a Milly, para que herde o dinheiro dela. Todavia, não se engane, leitor: assim como Madame Merle (de Retrato de uma senhora), Kate Croy é muito, muito mais do que uma mera vilã. É uma personagem extraordinária na sua ambiguidade e duplicidade. Seu plano é ao mesmo tempo egoístico e perverso, piedoso e fraterno, depois que ela decide que Milly pode ser “sacrificada” ao seu futuro com Merton.

Quem assistiu à fraquíssima adaptação cinematográfica, Asas do amor, e não chegar a conhecer o romance, pensará que Kate é a personagem principal, por causa da mocoronga que interpreta Milly (ao passo que Helena Bonham-Carter está perfeita como Kate). A taça de ouro, ao que parece, teve mais sorte, pois a sua transposição para as telas, foi realizada pelo grande James Ivory, de Vestígios do dia.[2]

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A jornada da consciência de Milly Theale, “abarrotada” pelo desejo de viver rápido (e viver tudo), antes da sua morte em Veneza, exige muito do leitor. James, assim como Conrad, tem horror de mostrar fatos diretamente, deleitando-se na repercussão deles para os personagens em diálogos inimitáveis (e que exasperarão muita gente, com certeza), cheios de alusões a realidades sobre as quais nunca podemos ter certeza absoluta (e aí, serão mesmo “realidades”?).

É em A taça de ouro que encontramos um dos poucos fatos importantes mostrados “diretamente” pelo narrador, o momento em que a taça dourado do título entra em cena (seria um presente de casamento de Charlotte à sua amiga Maggie e seu marido Amerigo—que fora amante de Charlotte, mas a compra acaba não sendo concretizada; a taça vai entrar na vida do casal de outra maneira, mais dramática e reveladora).

Em AS ASAS DA POMBA, o leitor não tem tanta sorte. Nunca ficaremos sabendo, por exemplo, o que Milly—estendendo suas asas—escreveu a Merton Densher na carta que, após sua morte, a “pérola inestimável jogada diante dos seus olhos… no mar insondável”, é queimada por Kate diante de seus olhos.

Talvez por isso o livro seja o mais fascinante de Henry James.


[1] Nota de 2013- Após essa decepção, acompanhei a carreira de Alison Elliott e Linus Roache (que eu já vira em O padre); creio que ela se tornou uma coadjuvante muito respeitável, em filmes como O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford  e em certos episódios de Law & Order; quanto a ele, foi a série de Dick Wolf, onde viveu o promotor Michel Cutter nas últimas temporadas, que me fez admirá-lo (ele não fazia nada feio junto ao grande Sam Waterston). Quanto à Helena Bonham-Carter, depois que se casou com Tim Burton e começou a atuar nos filmes dele, a persona “abilolada” se apossou dela irremediavelmente, e todos as suas atuações têm um tom caricato horroroso (ela exagera, e por conseguinte destoa da sobriedade geral, até na caracterização de bruxa má na série Harry Potter).

[2] Nota de 2012- Na verdade, não chegou a ser um momento marcante da sua filmografia, mas não é indigno dele.

VER TAMBÉM NESTE BLOG:

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