MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/01/2012

O MAIOR INIMIGO DE SHERLOCK HOLMES

“Arthur tinha  a intenção de usar Holmes por dois anos—três no máximo, antes de matá-lo;  depois, ele concentrar-se-ia nos romances históricos, que sempre soubera ser o que fazia melhor…”

“Em dezembro daquele ano, Holmes despencou para a morte nos braços de Moriarty, ambos precipitados no abismo pela mão impaciente do autor. Os jornais de Londres […] encheram-se de protestos e indignação pela morte de um detetive inexistente cuja popularidade tinha começado a embaraçar e até mesmo aborrecer o seu criador. Arthur teve a impressão de que o mundo havia enlouquecido: seu pai acabara de ser enterrado, sua esposa estava condenada [pela tuberculose], mas os homens da City estavam aparentemente usando fitas pretas nos chapéus em sinal de luto por mr. Sherlock Holmes…”

    (trechos de Arthur & George, de Julian Barnes)

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2012)

  Durante muitos anos, Arthur Conan Doyle (1859-1930) manteve a esperança (a ilusão) de que a criação de Sherlock Holmes não fosse o seu legado, pois não era “séria”, como suas outras obras literárias. Por isso, após o sucesso estrondoso de Um estudo em vermelho, O sinal dos quatro e As aventuras de Sherlock Holmes, no último conto de Memórias de Sherlock Holmes (The memoirs of Sherlock Holmes,1893), ele resolveu matá-lo.

   O legendário conto O problema final (The final problem) transformou-se num texto-fetiche porque nele aparece também um criminoso que ao longo de todo o imaginário em torno do detetive da Baker Street ganharia status de arqui-vilão (mesmo que só tenha sido utilizado em escassas aventuras): o professor Moriarty.

   Watson está casado, não vê Holmes há certo tempo e, de repente, este surge na calada da noite em sua residência e pede que ele o acompanhe ao Continente. E expõe sua situação: está prestes a desbaratar todo o submundo do crime e pode ser morto a qualquer hora. Quem está por detrás de tudo é um ex-gênio da matemática e agora o “Napoleão do Crime”, Moriarty.

    O que torna notável O problema final é como Holmes assume Moriarty como uma contrapartida complementar de si mesmo, e a necessidade de os dois se destruírem mutuamente, como supostamente acontece nas cataratas Reichenbach (na Suíça). Como narra Watson, “Aludia repetidamente ao fato de que, se pudesse ter certeza de que a sociedade se livraria do prof. Moriarty, ele encerraria alegremente sua carreira [1].

    Chegando a tal clímax, com a criação de um vilão desses, não é de estranhar que houvesse uma grita geral contra um desfecho tão abrupto para Holmes. Conan Doyle resistiu quase uma década, cedendo enfim ao publicar (em 1902) O cão dos Baskervilles, o qual se transformaria no mais famoso entre os romances sherloquianos.

   Não bastou. O público queria que Holmes estivesse vivo (pois os fatos do livro sobre a maldição dos Baskervilles teriam acontecido antes de sua suposta morte). E então veio um triunfal A volta de Sherlock Holmes (The return of Sherlock Holmes,1905), cujo primeiro relato, A aventura da casa vazia, começa três anos após os nefastos acontecimentos nas cataratas. Watson ainda se interessa pelos crimes “interessantes” que mobilizam a imaginação, e um deles é o assassinato de um jovem dentro de um quarto trancado. Perambulando pelos arredores do local do homicídio, esbarra num velho livreiro, que pouco depois descobre tratar-se de Holmes, vivo e disfarçado (um pendor que a ficção inglesa demonstra de forma contumaz), devido à necessidade de se ocultar do braço-direito de Moriarty (que realmente morreu na queda), coronel Moran, o misterioso assassino do quarto trancado, especialista em armas de ar comprimido. No desenlace, lemos que “mais uma vez o Sr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida a examinar aqueles probleminhas interessantes que a vida complexa de Londres apresenta com tanta fartura” [2].

   Na próxima vez, Doyle não foi tão radical (já conhecia seu público e talvez já estivesse resignado) e agiu mais esperta e sutilmente para se livrar de sua criatura. Em Os últimos casos de Sherlock Holmes (His last bow, 1917), já no prefácio ele anuncia a “aposentadoria” do detetive devido ao reumatismo e à paixão pela apicultura. Isso não impede que em Seu último caso, seja utilizado pela Inteligência britânica para desmascarar e prender um espião alemão, às vésperas da Primeira Guerra. Já então bastante adaptado para teatro e cinema, Doyle dispensa a narrativa de Watson e escreve de forma cênica, quase toda em diálogos, embora utilizando seus velhos recursos: o uso do disfarce, o duelo de inteligência entre vilão e herói etc. O último parágrafo é elegíaco, com Holmes dizendo a seu fiel companheiro: “Você é um ponto fixo numa época de mudanças! De qualquer forma vem vindo um vento leste, como nunca antes varreu a Inglaterra. Será frio e amargo, e muitos de nós poderão ser fulminados por sua rajada (…) quando passar a tempestade, um país mais puro, melhor, mais forte, brilhará ao sol…”[3]

   Nem assim foi o fim. Em 1927, surgiram  as Histórias de Sherlock Holmes (The case-book of Sherlock Holmes), das quais pelo menos uma ficou bastante famosa (O vampiro do Sussex), e cujo prefácio não poderia ser mais (auto)mordente: “Receio que Sherlock Holmes fique parecendo com um desses tenores populares que, tendo sobrevivido à sua época, ainda se sentem tentados a fazer repetidas mesuras de despedida para o seu público complacente. Isto tem de acabar, e ele precisa seguir o caminho de todo ser humano, real ou imaginário”.[4]

    Não acabou. E não há indícios que acabe. Holmes sobreviveu a Doyle, como sobreviveu a Moriarty.


[1]  Neste passo, como em todas as demais ocorrências no corpo do texto, utilizo as versões constantes na edição da Agir Sherlock Holmes- edição completa (romances e contos). As passagens citadas foram traduzidas por Áurea Brito Wissenberg, Flávio Mello e Silva, Adailton J. Chiaradia & Myrian Ribeiro Güth.

   Na edição da Zahar Sherlock Holmes- edição definitiva (comentada e ilustrada), as traduções foram realizadas por Maria Luiza X. de A. Borges. As memórias de Sherlock Holmes ocupam o volume 2 e a passagem encontra-se traduzida da seguinte forma: “Reiterou inúmeras vezes que, se pudesse ter certeza de que a sociedade ficaria livre do professor Moriarty, poria fim à sua própria carreira alegremente”. Na verdade, `pôr fim à sua carreira alegremente” significa morrer.

   É curioso também como os preconceitos científicos da época entram em jogo na caracterização de Moriarty: ele poderia levar uma carreira de gênio matemático, mas sente correr no sangue uma tara criminal hereditária.

 [2]  Na já referida edição da Zahar, A volta de Sherlock Holmes ocupa o volume 3, o conto aparece como A casa vazia e a passagem aparece assim: “…mais uma vez, Mr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida ao exame daqueles interessantes probleminhas que a vida complexa de Londres apresenta com tanta abundância”;

   A esposa de Watson sequer é mencionada. Ela tem um desaparecimento mais gritante do que o do próprio Holmes.

[3] No volume 4 da edição Zahar, o título é O último adeus de Sherlock Holmes e lemos a passagem deste modo: “Meu bom e velho Watson! Você é o único ponto fixo numa era em transformação. Mesmo assim, um vento leste se aproxima, um vento como nunca soprou na Inglaterra. Será frio e implacável, Watson, e muitos de nós poderemos perecer sob seu sopro. Apesar disso […] o sol iluminará uma terra mais limpa e mais forte quando a tempestade tiver passado.” Aqui já é um mundo pós-John Buchan e Os 39 degraus, com carros, submarinos etc.

[4] No volume 5 da Zahar, e sempre na tradução de Maria Luiza X. de A. Borges: “Receio que Mr. Sherlock Holmes possa vir a ser um daqueles tenores populares que, tendo deixado para trás seus dias de glória, ainda se sentem tentados a fazer repetidas despedidas de suas indulgentes platéias. Isso precisa cessar, e ele deve seguir o caminho de toda carne, material ou imaginária.”

   Não tenho a energia e o gênio investigativo da nossa Sherlock das traduções e suas contrafações e indevidas apropriações, Denise Bottmann (basta conferir recenseamentos como, só para dar um exemplo entre muitos, o que ela realizou sobre Nietzsche, no notável www.naogostodeplagio.blogspot.com )  por isso sequer arranhei a massa de versões vernáculas dos quatro romances e cinqüenta e seis contos do cânone sherloquiano. Só a Melhoramentos têm duas séries diferentes, a L&PM também tem publicado vários títulos e por aí vai…

    Por exemplo, a primeira vez que li (deve ter sido em 1977 ou 78) casos da dupla Holmes-Watson, As aventuras de Sherlock Holmes (que me desiludiu de tal forma que durante anos tive uma certa aversão pelo personagem), foi numa edição da Artenova.

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